sábado, 22 de novembro de 2014


23 de novembro de 2014 | N° 17992
ANTONIO PRATA

Precisamos falar sobre aborto

O título dessa coluna é um manifesto lançado semana passada pela revista TPM (bit.ly/1Hbnesy). Como participo da campanha, o mínimo que posso fazer é falar sobre o assunto.

Das pessoas de quem mais discordo, as com quem mais concordo são as contra a descriminalização do aborto. Afinal, elas são contra o direito de as mulheres interromperem a gravidez pela mesma razão que eu sou a favor: respeito à vida.

Uma vida é algo precioso, raro, sagrado: assino embaixo e reconheço firma em cartório. Justamente por pensar assim, acredito que uma criança só deve vir ao mundo porque seus pais quiseram, não porque tiveram medo de ir pra cadeia. Entre um bebê que cresce sem amor, em casa ou num orfanato, e uma gestação interrompida até o terceiro mês, a segunda opção me parece, de longe, a menos ruim.

Não estou dizendo que uma gravidez indesejada desembocará, necessariamente, numa criança mal-amada. Muitos bebês que surgiram mais por conta do desejo de um adulto por outro do que pelo desejo dos dois de terem um filho acabam se transformando numa grata surpresa. Mas se um casal (ou uma mulher) decide ter esse filho não planejado, ele passa a ser um filho planejado: se não com anos, ao menos com alguns meses de antecedência. Ele é uma escolha, não uma vítima do nosso arcaico Código Penal.

Como já sabia Vinicius de Moraes, criar um filho não é nada fácil (“Mas se não os temos...”). A noite passada acordei às três e às cinco da manhã pra consolar minha filha que, gripada, chorava no berço. (Dava pra ver nos olhos dela a indignação: “O nariz não tá funcionando! Eu tô tendo que respirar pela boca! É ultrajante! Faça alguma coisa!”). É preciso todo o amor do mundo – e uma profissão que não te obrigue a acordar às seis da matina – pra ver graça numa hora dessas.

Fico imaginando a estudante de 15 anos que casou às pressas com o primeiro namorado, um motoboy de 18, largou a escola e foi morar num puxadinho na casa dos sogros, no mesmo quarto que o bebê. Fico imaginando o motoboy ouvindo o choro às quatro, já misturado às buzinas que ouvirá a partir das sete, para ganhar uma merreca que será inteiramente convertida em Hipoglós e fraldas da Mônica. Fico imaginando o futuro dessa criança.

Ser feliz não é nada fácil. O cérebro humano, esse computador genial e incompetente, inventa aviões, concebe romances e pinturas com mais facilidade do que nos faz feliz. Que o digam, ou melhor, não o digam, Santos Dumont, Hemingway e Van Gogh, que jogaram a toalha.

Uma pessoa com todas as condições para a felicidade – comida, um teto, amor, estudo – tem grandes chances de nunca alcançá-la. Imagina só uma criança que ninguém quer, que chega ao mundo com o ônus de ter esculhambado a vida dos pais? Deus do céu: existe coisa mais terrível do que um orfanato? Bebês e crianças sem pai nem mãe, esperando que algum dia alguém os leve consigo?


Um feto de algumas semanas que não vem ao mundo é uma coisa triste, sem dúvida, mas uma criança que cresce sem amor é uma tragédia – comparável a das meninas e mulheres que, dia sim, dia não, morrem tentando abortar ilegalmente por esse Brasil afora. Tucanos e petistas, crentes e ateus, sem teto e playboys: por respeito à vida, precisamos descriminalizar o aborto.

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