sábado, 27 de agosto de 2022


27 DE AGOSTO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

A conversa na sala

Todo casamento passa por altos e baixos, e quando termina é uma pequena morte. Apostou-se que aquele amor seria o definitivo, ou que, ao menos, a amizade erótica resistiria firme às provocações inevitáveis do destino, mas algo se quebrou e não há mais o que fazer a não ser tentar ser feliz de outro jeito. Fica a tristeza e a frustração, mas o pior momento acontece antes de a porta fechar com alguém do lado de fora: é quando os filhos precisam ser avisados.

Uma separação sem filhos dói também, mas não igual. A dor é singular, uma implosão.

Havendo filhos, é um castelo de vários quartos que desmorona, não apenas uma torre. Se a separação for litigiosa, precedida por gritos e agressões, o desfecho será um alívio, mas a um custo dilacerante. Se, ao contrário, for uma separação consensual, ficha limpa, sem fissuras visíveis, será menos dolorida, mas nunca descomplicada. Afinal, há inocentes envolvidos - de todas as idades.

Quando meus pais se separaram, eu era uma mulher de 20 anos, já trabalhava, mas diante da ruptura, mesmo que amigável, voltei à infância primária. Caminhei uma tarde inteira sem ter para onde ir, não queria chegar a lugar nenhum. Em trânsito, eu me preparava para a nova história que iria começar, como se eu fosse nascer outra vez. E assim foi, nasci, e voltei a nascer outras tantas vezes nesta vida repleta de mortes pontuais.

Imagino a garotada de oito, 10, 11 anos. Apegam-se à fantasia da continuidade, ao conto de fadas universal, à segurança garantida por dois adultos no comando de um projeto de felicidade, até que descobrem que mãe e pai se desiludem, falham, mudam. O "pra sempre" é apenas uma farsa bem-intencionada: o mundo externo atrai nossos super-heróis com desejos subversivos. Ambos fizeram juras no altar, mas não passam de reles humanos, que decepção.

"Queridos, desliguem o computador, deixem os celulares de lado, vamos conversar ali na sala". Tensão. Os pequenos olham para nós, incrédulos, enquanto usamos as palavras mais ternas, prometendo estar sempre a postos e que ter duas casas vai ser divertido, que o amor não sofrerá nenhum abalo. De fato, mas cada um organiza sua desconstrução em silêncio. 

Hoje a cena parece banal, mas os pais que um dia tiveram esta conversa sabem que é uma tortura: tão dedicados a proteger os filhos do sofrimento, são obrigados a provocá-lo. Atenuante, só vejo um. Que o "pra sempre" deixe de ser uma promessa. Que a eternidade da relação passe a ser vista por todos como uma benção, não mais como regra. Sem prejuízo ao amor, que ao assumir-se finito, trocará o romantismo por uma edificação mais sólida - e bonita como só a verdade consegue ser.

MARTHA MEDEIROS

27 DE AGOSTO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Era inevitável, e os números anunciavam o processo havia décadas. O censo indicava, a cada novo levantamento, o encolhimento da parcela de católicos. Sim, a religião oficial da Colônia e do Império não cessava de perder a fatia demográfica dominante. O Brasil era, ano a ano, mais evangélico.

O período de 2025 a 2035 foi decisivo. Pesquisas independentes revelaram que os católicos já estavam abaixo de 40%. O eleitorado evangélico cerrou seus votos nos candidatos exclusivos das igrejas reformadas. A virada no Congresso foi perto de 2032: 70 senadores declaravam-se ligados a alguma grande denominação pentecostal ou neopentecostal. Dois eram luteranos e um, presbiteriano. Havia um ateu declarado. Poucos ainda se diziam católicos.

O avanço numérico e político resultou em novas leis. O feriado de 12 de outubro foi mantido como o Dia da Criança Brasileira, mas não mais como a festa de Nossa Senhora Aparecida. Começou um movimento de reorientação geográfica. O Cabo de Santo Agostinho (PE) foi rebatizado como Cabo Só Jesus Salva. A cidade de Santa Maria (RS) tornou-se, em 2033, a Cidade do Evangelho. A batalha dos nomes foi mais forte em São Paulo. Por um tempo, dividiu-se o público entre os que chamavam de São Paulo e aqueles que diziam morar na cidade do Apóstolo Paulo. Por fim, a Câmara dos Vereadores aprovou a mudança em 2054, a tempo de comemorar o quinto centenário da metrópole.

O pastor Samuel de Oliveira e Silva foi eleito presidente pela aliança O Brasil É de Jesus. Sua vice era a bispa Francisca de Almeida. As verbas publicitárias corriam para a rede Record; escasseavam na Globo e na Bandeirantes. As novelas bíblicas estavam cada vez mais elaboradas. Surgiu até um Big Brother da família cristã. O paredão era para quem tivesse praguejado ou se esquecido de orar.

As lojas elegantes de Ipanema, no Rio de Janeiro, ou da Oscar Freire, em São Paulo, passaram a vender a onda fashion evangélica. Aumentou a produção de ternos para homens. As roupas de praia passaram a utilizar mais tecido. Havia uma nova estética em ascensão.

O feriado católico de Corpus Christi virou o Dia Nacional da Marcha com Jesus. As ruas de todo o país foram tomadas de entusiasmados manifestantes. Em todos os campos, a vitória evangélica era visível. Alguns aderiram por convicção pessoal. Outros, especialmente políticos e empresários, entenderam que votos e verbas eram mais fáceis com participação em cultos. Como na vitória do Cristianismo, no Império Romano, a nova crença crescia nos corações, nos cérebros e nos bolsos.

A bispa que era vice do presidente Samuel foi eleita após os dois mandatos do pastor. Surgiu uma constituinte, e o Brasil foi declarado oficialmente cristão. Quebrava-se o verniz da laicidade do Estado que a República tinha tentado. Os novos feriados nacionais eram religiosos: o Dia da Bíblia, o da Família Cristã e a Festa do Dízimo. Aboliu-se o Carnaval, substituído por uma animada micareta de salmos. O Galo da Madrugada, no Recife, anunciava que Pernambuco também era de Jesus. Foi instaurado o concurso nacional de versículos. Ganhava o aluno do Ensino Fundamental que mais soubesse passagens de cor - da versão João Ferreira de Almeida, claro!

A mudança universitária foi rápida. Sendo porta de acesso à função de pastor, o curso de Teologia tornou-se o mais procurado Em 2040, havia mais candidatos por vaga na USP, para o Instituto Teológico da Universidade de São Paulo, criado cinco anos antes, do que para Medicina ou Engenharia Mecatrônica.

Grandes igrejas católicas iam sendo adaptadas para o culto evangélico. Foi comemorado o dia em que a Catedral da Sé, de São Paulo, virou um novo Templo de Salomão. A basílica de Aparecida removeu as obras do artista Cláudio Pastor e transformou-se na Igreja da Família Evangélica.

O mundo artístico tinha mudado. Anitta tornou-se militante da Assembleia de Deus; seus shows com vestido preto comprido cantando louvores eram emocionantes. Pablo Vittar era, agora, Apóstolo Rodrigues da Silva. Seus depoimentos de como tinha encontrado Jesus a caminho de Campinas (SP) bombavam nas redes. Ele havia sido derrubado da garupa de uma moto e ficado cego com uma luz intensa. Batizado, recuperou a visão. O TikTok era de louvores, apenas.

O turismo passou a conviver com novos roteiros como "a caminhada de Abraão", que ia de Parati a Tiradentes _ a pé. No caminho, encenações do sacrifício de Isaac e do encontro com Melquisedeque. As pousadas bíblicas, todas familiares, exigiam o certificado de casamento para hospedar um homem e uma mulher no mesmo quarto.

Não seria completo este relato histórico se eu não falasse do que ocorreu comigo. Após uma vida de ateísmo, aceitei ser batizado na Igreja Deus É Amor. A cena foi televisionada e alcançou muito ibope. Emergi das águas transformado e passando a rodar o Brasil, narrando a mudança. Agora, aos 75 anos, percorro a nova Terra de Santa Cruz, sempre dando o testemunho como um João que viu um novo Céu e uma Nova Terra.

Minha piedosa leitora e meu piedoso leitor: minha breve ficção produziu esperança ou medo em você? É utopia profética ou distopia? Sonho ou pesadelo? Bem, tente viver mais alguns anos e seja feliz. Amém!

LEANDRO KARNAL

1 BILHÃO DEADEPTOS ATÉ 2035

A regra é levar pouca coisa junto. Roupas, produtos de higiene e utensílios de cozinha, já que gostam de deixar a casa alugada por aplicativo com a sua cara. Não podem esquecer dos notebooks, fundamentais para trabalharem de qualquer lugar. Colocam tudo dentro do carro e partem para o próximo destino, onde devem ficar um ou dois meses, não mais do que isso, até escolherem outra cidade para morar.

A vida sem residência fixa tornou-se possível quando Stephanie Pedron e Eduardo Zanotto, de Porto Alegre, ambos com 34 anos, passaram a trabalhar em casa durante a pandemia. Vivendo em São Paulo, para onde se mudaram em 2019, quando ele aceitou uma proposta de um banco digital, já estavam cansados de ficar isolados em um apartamento. Decidiram cair na estrada sem precisar entrar em férias ou largar o emprego. Tornaram-se nômades digitais.

A ideia surgiu no inverno de 2021, durante um período de descanso em Capitólio (MG), onde se revigoraram em cachoeiras e trilhas após um ano trancafiados pelo medo do coronavírus. Ao retornarem à capital paulista, não fazia mais sentido manter os gastos na cidade grande se os chefes sequer exigiam que comparecessem ao trabalho. Todas as tarefas já eram cumpridas a distância, na frente do computador.

- Voltamos para São Paulo e decidimos: vamos entregar o apartamento e morar em Airbnb. Então vendemos toda a nossa mobília. Não sobrou nada - conta Eduardo, que trabalha como gerente de tecnologia.

Escolheram viajar pelo Brasil. Alugaram um carro e foram a Santos, no litoral paulista, e depois a Paraty (RJ). Em uma breve visita para matar a saudade da família no Rio Grande do Sul, fizeram uma parada em Garopaba (SC), onde prolongaram a estadia para três meses, mais do que o planejado. Ali, foi difícil dar adeus às amizades que acabaram criando.

Só cruzaram as fronteiras do país quando tiveram de cumprir um compromisso profissional de Eduardo no México, o que exigiu organização com o fuso horário. Mesmo no Exterior, Stephanie seguiu trabalhando para um aplicativo de pagamentos brasileiro, onde atua como gerente de produto. Precisou se alinhar com o horário comercial da empresa e só quando encerrava o expediente podia sair do hotel e conhecer a cultura dos mexicanos, batendo perna pelos bairros e visitando museus.

A preferência deles, no entanto, são os lugares menos badalados. Quando concederam entrevista a ZH, haviam retornado a Minas Gerais, dessa vez para ficar em Mariana, município conhecido pela arquitetura barroca. Alojaram-se em uma casa de dois andares em meio a construções de estilo colonial, com direito a um pátio onde mantêm uma horta.

Toda vez que são bombardeados com perguntas sobre a vantagem de não terem um lugar para chamar de seu, respondem com argumentos que podem dar inveja em quem só consegue viajar durante as férias.

- Claro que em vários momentos é um desafio ficar sempre se planejando para estar em outro lugar. Mas a gente tenta manter uma rotina, cuidar do corpo. Eu, por exemplo, sempre quis aprender a surfar. Em Garopaba, comecei a fazer aulas de surfe. Também pensava: será que não vou sentir falta da minha cozinha, com as minhas coisas? A experiência de viver em casas diferentes nos ajuda a pensar como será a nossa casa, no futuro. Brinco que virei sommelier de Airbnb. Se a gente viesse de férias para Mariana, nunca iríamos viver essa cidade como estamos vivendo - diz Stephanie.

Ser nômade digital é diferente de ser um turista, que deixa os compromissos de lado enquanto viaja, ou mesmo de alguém que se desloca para uma cidade a trabalho. Como observa a turismóloga Ivane Fávero, mestre em Turismo, o nômade digital agrega tudo: as obrigações e a vontade de conhecer um novo destino.

- O conceito tradicional de turismo é o de lazer não remunerado. O nomadismo digital quebra isso. A pessoa consegue trabalhar, estudar e fazer turismo em qualquer parte - define.

Embora já fosse tendência antes de 2020, a pandemia foi o empurrão que faltava para popularizar esse estilo de vida. De acordo com o relatório Tendências de Imigração 2022, emitido pela Fragomen, especializada em imigração, cerca de 35 milhões de pessoas aderiram ao trabalho remoto durante a crise sanitária. A estimativa da empresa é de que, até 2035, existam em torno de 1 bilhão de nômades digitais pelo mundo.

Além disso, segundo a Fragomen, 29 países já têm programas para facilitar o ingresso dos nômades digitais, entre eles o Brasil. Não há pesquisas sobre o número exato de nômades digitais no país, mas desde janeiro o Ministério das Relações Exteriores emite um visto específico para estrangeiros que comprovem vínculo de trabalho em outro país. Até 10 de agosto, haviam sido concedidas 124 autorizações. Outras 84 foram solicitadas até julho por pessoas que já estavam por aqui, sendo que 37 foram deferidas.

De acordo com o governo federal, a elaboração desse visto especial segue uma tendência de "migrações por estilo de vida" e foi formulado levando em conta experiências de países como Portugal, Austrália, República Tcheca, Tailândia, México, Costa Rica, além de polos mundiais de nômades digitais, como Bali, a Ilha da Madeira e as cidades de Lisboa e Berlim.

Em março deste ano, o Brasil também regulamentou o trabalho remoto, inclusive para estagiários e aprendizes, permitindo que o empregado exerça suas funções em outro país.

- A partir da pandemia, aprendemos que dá para trabalhar em casa, enquanto as empresas entenderam que isso é até vantajoso, porque há economia de despesas e a produtividade dos funcionários não cai. Em alguns casos, até melhora. Com o desejo acumulado de viajar, as pessoas estão tirando o atraso - afirma Ivane.

Mas ser um nômade digital não é para todos. Professora da disciplina de Sistemas de Informação do MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Neiva Coelho Marostica lembra que algumas profissões jamais vão permitir essa prática:

- Há profissões que não podem aderir ao nomadismo digital, como um atendente de varejo, por exemplo, já que ter alguém ali, presencialmente, é uma parte importante para o relacionamento com o cliente. Por outro lado, profissões que envolvem um ambiente digital, como produtor de conteúdo, desenvolvedor de sistema, designer, essas conseguem.

Foram os ventos que levaram Sara Bagatini ao Ceará. Aos 33 anos, ela vive na praia de Cumbuco, a 30 quilômetros de Fortaleza. Divide a rotina entre a função de gerente de produto em uma rede de lojas de eletrodomésticos no Rio Grande do Sul e a prática do kitesurfe, que depende de uma boa lufada de ar para deslizar pela água.

Também foi na pandemia que Sara mudou de vida. Entregou o apartamento em Porto Alegre porque já não precisava mais aparecer na empresa, sediada em Cachoeirinha, na Região Metropolitana. Com amigas que também trabalham a distância, passou a dividir o aluguel de uma casa em Ibiraquera, no litoral catarinense, onde aprendeu kitesurfe. Juntas, decidiram ir para o Nordeste, onde as condições de vento são ideais para o esporte.

Tudo muito diferente do que Sara havia vivido até 2019. Acostumada a bater ponto diariamente na empresa, enfrentava uma hora de trânsito para ir, outra para voltar. Não fazia esportes. Com a vida de nômade, deixou o carro na garagem da casa dos pais, em Guaíba. A carga horária de trabalho é a mesma, mas pode cumpri-la usando chinelos nos pés. No intervalo, pega o equipamento de kitesurfe e cai no mar.

- Valorizo o meu bem-estar. A Sara de hoje prioriza mais a saúde. Física e mental - frisa.

 KARINE DALLA VALLE 


27 DE AGOSTO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

A VIAGEM DA MUSA CLIO

Visitou-nos por uns tempos, em Porto Alegre, a deusa Clio, filha de Memória (Mnemosyne) e de Zeus, a Musa que proclama, dá fama, celebra e transmite o que tem valor. É o saber realizado com beleza, e a beleza com saber, em ritos mágicos, com miríades de efeitos fecundos. Essa aparição se estendeu por 17 anos, em um templo que muitos chamavam oásis, um casarão marrom, antigo e atual, na Cidade Baixa, o StudioClio. É próprio desta e das outras oito Musas realizar-se como memória, e assim essa epifania de Clio ora converte-se em dom da mente, com afeto, no coração e na lembrança dos que a conheceram.

Musa não morre, apenas revela-se quando quer, e deixa seu rastro gracioso como parte da paisagem e da vida. Assim, deusa misteriosa, Clio pode manifestar-se a qualquer momento, para os que puderem reconhecê-la e logo alçar sua existência para novos mundos, luminosos. E quem poderá esquecer dessa visita potente e dadivosa, havida em altar apto aos melhores ritos da cultura?

O mito das Musas, entre os gregos, representou o valor sagrado do conhecimento e da civilização. Dentre as várias potências divinas, a estas toca infundir saberes elevados no tempo em que vivemos, salvando-nos da ignorância e da brutalidade. Bem sabemos que todas as divindades são palavras e imagens, invenções culturais com e sem a matéria dos quatro elementos; são ficções, mas podem ter funções tão reais quanto o pão, o vinho, o fogo e o amor. Mesmo ateus e agnósticos rendem-se ao poder do símbolo e podem entender o que são esses dons sagrados, sem as mentiras das religiões, com a energia necessária da arte. E vai muito bem considerar-se sagrado o conhecimento, sobretudo em eras e terras em que predomina seu oposto.

Foram centenas de concertos, exposições, almoços e banquetes culturais, cursos, expedições, ciclos de arte, ciência e educação e convívio, que deram pleno sentido à palavra cultura - cultivar-nos e promover encanto e desenvolvimento. Com os sentidos atiçados, corpos ávidos subiam a pequena rampa ou saíam do auditório para abraços emocionados, em uma comunidade unida pelo que há de mais puro e nobre. Aquele jardim histórico, feito só de bons pensamentos, realizou-se com a aura da philia - a força de atração que é amor e amizade, o poder gregário, necessário para que nossa espécie seja mais do que selva de panças disputando presas, e que possamos unir-nos com desejo e sorrisos, sabendo que é possível um destino animado por arte e humanismo. 

Essa fonte deveria jorrar em todos os bairros da cidade, para alimentar a todos com néctar e ambrosia, a imortalidade de pagãos antigos e de Beethoven e Villa-Lobos, do barroco ao blues, em palavras de versos e livros, veículos entre muitos tempos, mentes e cidades, as imagens e percepções, os engenhos e desafios da linguagem, a sede, a fome e a curiosidade que ao saciarem-se querem sempre mais, desejar e pensar, gozar a vida em sua plenitude.

Ora a Musa Clio sopra com afeto o doce pólen de suas primaveras, e agradece a Ana Maria e aos seus, ao talento e ao trabalho de artistas e ao amor de uma comunidade iluminada.

FRANCISCO MARSHALL

27 DE AGOSTO DE 202
IMUNOLOGIA

TENDÊNCIA GLOBAL E PREOCUPANTE

MOVIMENTO ANTIVACINA, FAKE NEWS E FALTA DE MOBILIZAÇÃO: COMO SE EXPLICA A QUEDA NA COBERTURA VACINAL INFANTIL

Doenças consideradas erradicadas no Brasil voltaram a preocupar autoridades de saúde, porque o país segue uma tendência mundial: a redução nos índices de cobertura vacinal infantil.

Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgado neste mês relata "a maior queda contínua nas vacinações infantis em 30 anos" em todo o mundo.

No Brasil, a situação é similar. Entre as maiores quedas de cobertura vacinal infantil, está a da vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), que, em 2015, chegou a 96% das crianças, mas em 2021 teve redução para 71%.

A pentavalente (contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e hemófilo B) caiu de 96% para 68% no mesmo período; e a de poliomielite (contra a paralisia infantil) foi de 98% a 67%.

Até 2014, o cenário era o oposto: em geral, a cobertura vacinal apresentava aumento ano após ano, com adesão acima dos 90% e que, em alguns imunizantes, superava os 100% no grupo.

O Rio Grande do Sul também registra redução na cobertura vacinal de crianças nos últimos anos, segundo dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações compilados por ZH. A cobertura da poliomielite, por exemplo, chegou a 100,02% em 2013, mas teve alcance de 75,72% em 2021. Outro exemplo é a vacina BCG, que combate a tuberculose: em 2013, foi registrada cobertura vacinal de 110,88% no RS; em 2021, foi de 74,64%. Autoridades de saúde entendem que, para que haja proteção coletiva a doenças, a recomendação é de que no mínimo 90% das crianças estejam com as vacinas em dia.

u Movimento antivacina ganhou força na pandemia

Quando perguntado sobre os motivos que levaram à redução da cobertura vacinal de crianças no país e no mundo, Paulo Ernesto Gewehr, infectologista do Hospital Moinhos de Vento, cita, primeiro, os movimentos antivacina. Para ele, as ideias contra os imunizantes circulam na Europa e nos EUA há anos, mas ganharam espaço e seguidores no Brasil durante a pandemia de covid-19.

O médico assegura que a desconfiança não tem base no que é verificado no combate às doenças, mas esse "debate" causa dúvidas na população quanto a vacinas que já se provaram seguras e eficazes durante anos de uso:

- O movimento antivacina se alimenta de fake news. É importante combater a desinformação e a mentira com informações baseadas em estudos científicos e chanceladas pelos órgãos sanitários e especialistas de cada área.

Outros problemas podem explicar o cenário global, como a falta de vacinas em postos de saúde, o horário de funcionamento desses locais e a capacitação dos profissionais para orientar a população quanto à importância dos imunizantes. Mas, por outro lado, uma característica desse tipo de prevenção pode explicar o desinteresse em manter as crianças com o calendário vacinal em dia: os bons resultados das campanhas de imunização feitas em décadas passadas.

- As vacinas sofrem do próprio sucesso. Quando há uma doença em atividade, como é o caso da covid-19, a população quer a vacina. Mas, no momento em que o imunizante chega e controla a doença, a percepção de risco diminui e as pessoas deixam de se vacinar - resume o médico.

Entretanto, o vírus estar sob controle ou sem registros de casos durante anos não significa que não possa retornar. Como exemplo, Gewehr cita o sarampo. De acordo com o Ministério da Saúde, o último registro da doença no Brasil havia sido em 2015, o que levou o país a receber, em 2016, uma certificação da eliminação do vírus.

Em 2017, foram confirmados 9,3 mil casos, e em 2019, cerca de 20 mil registros. Em 2021, 668 casos da doença foram registrados. Além disso, desde o retorno da circulação do vírus, 40 pessoas morreram devido à doença, metade delas crianças abaixo de cinco anos, de acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

VINICIUS COIMBRA

27 DE AGOSTO DE 2022
J.J. CAMARGO

O SAGRADO DIREITO DE DECIDIR

Vamos chama-lo de Evilásio, acho que ele não ia se importar. Era o patriarca de uma família enorme, que com o passar dos anos foi quase duplicada pelo acréscimo de noras e genros, esses penduricalhos que a vida acrescenta às famílias normais. Com o tempo, esse inexorável atropelador de hierarquias, ele foi ficando mais lento, de fala e de marcha, e sentiu, mais do que ninguém, a desvalorização progressiva da sua vontade.

Confessou ao seu médico que não andava se sentindo muito bem, mas não comentaria com a família, antes de saber qual era a sua perspectiva de vida futura, porque seus filhos "eram muito espalhafatosos".

Constatada a presença de um tumor pulmonar, em estágio 3, foi inevitável a participação da prole porque muitas decisões terapêuticas futuras exigiriam consenso familiar.

E então, numa sessão que mais se assemelhava a uma reunião de condomínio, todos palpitaram desassombradamente:

- Quimioterapia, de jeito nenhum, que mamãe morreu por causa dela.

- Mas os tempos mudaram. - Mudaram nada, as pessoas continuam morrendo de câncer, com ou sem quimioterapia! - Ouvi falar numa tal de imunoterapia.

- Essa é a nova febre da medicina, com uns remédios que custam o olho da cara!

- Cirurgia, não. Com 85 anos, ele não sai da mesa de operação! - Mas falam maravilhas de cirurgia com vídeo... - Não acredito em milagres, cirurgia é cirurgia.

No canto da sala, o Evilásio, blindado por uma pretensa surdez, assistia a tudo com olímpica indiferença. Quando a paciência acabou, ele tentou intervir, mas como ninguém deu bola, ele passou a bater palmas, até que, convencidos de que ele não pararia de aplaudir porque esta estratégia já funcionara na semana anterior, todos calaram a boca. Enquanto Evilásio engatilhava o discurso, uma nora resolveu atualizá-lo da situação:

- Querido sogrinho, estamos discutindo o que é melhor pra você!

- Sei disso, minha querida, mas eu só queria me inscrever para participar da discussão, considerando que sou uma parte bastante envolvida com o problema! Além de uma avaliação equivocada da intensidade da surdez, havia uma decisão colegiada de que ele, responsável pelo destino de uma grande família durante 65 anos, agora tinha que se sujeitar a ser rebaixado à condição de mero espectador do seu destino.

Quando o filho caçula esboçou um início de discurso, ele voltou a bater palmas e, recuperado o silêncio, sacramentou: - Esta discussão, além de inútil, é injusta com vocês, que não têm formação técnica no assunto. Eu, por sorte, tenho um médico da minha confiança, que sabe muito do assunto, e vou fazer o que ele achar melhor. Então vamos servir o chá, porque o cheiro de bolo assado já chegou aqui.

Se eu pertencesse àquela família, teria começado a aplaudir, mesmo que o chá esfriasse.

J.J. CAMARGO

27 DE AGOSTO DE 2022
CARPINEJAR

O vulcão branco

Quando a minha mãe me pedia para cuidar do leite, eu já sabia que teria que limpar o fogão.

Não existia chance de apagar o leite antes que fervesse e transbordasse. Nunca alcancei tal proeza. Nem eu, nem ninguém na história da humanidade. Não se tratava de um fato comprovado, de algo real e acessível, mas de um desejo familiar impossível.

Eu permanecia por 10 minutos olhando fixamente para a leiteira que aquecia, sem piscar, sem pestanejar, focado, concentrado, mas era virar um pouco o rosto para o lado que o leite subia e sujava tudo. Um descuido mínimo e o vulcão branco entrava em erupção, deitando suas lavas pelos cilindros. Um cumprimento inofensivo, um "bom dia!" a um irmão que surgia no corredor, e jogava fora o meu turno de vigília.

Busquei a vida inteira apanhar o leite antes do vazamento e nunca consegui. Foram dezenas, centenas de vezes mirando o bico da leiteira amassada, num jogo de estátua, mas sempre eu perdia, sempre eu piscava. Ela me ganhava na hipnose, na paciência, e me via depois, fracassado, resignado, passando a esponja entre as bocas de fogo. Bocas que riam da minha cara. O fogão bebia grande parte do leite de casa - sobrava nem metade para nós.

O fogão se lambuzava com o meu desperdício. Foi o maior bullying da minha infância. Nunca decifrava como o líquido da nata se solidificava com tamanha rapidez. Virava subitamente cola, chiclete antigo. Havia uma ciência para desgrudar o visco e não arranhar a chapa.

Os minutos de desatenção custavam minha paz de espírito, roubavam o tempo de tomar café com calma e de ir para a escola sem pressa. Chegava tarde na aula com cheiro de detergente entre os dedos, inventando desculpas cada vez mais extravagantes para a professora. Os atrasos foram registrados diversas vezes em minha agenda; às vezes ganhava meia presença. Nunca compreendi o significado de estar presente pela metade. Na escola, deveria estar mais perto da ausência do que da presença. Se contassem os meus olhares distraídos pela janela, se computassem os meus sonhos acordado, poderia conseguir uma ausência inteira.

Eu me atrapalhava com os horários do toque do sino porque me condicionava à responsabilidade de arrumar a bagunça antes de a minha mãe suspeitar e descobrir o meu vexame.

Impelia-me, por uma obrigação moral, a deixar a cozinha como antes, recuperar o brilho do aço com álcool, liberando o uso do espaço para o almoço. Só que o acidente envolvia outras panelas na rodovia das grades, e exigia também lavar a louça.

Acredito que a leiteira possuía um sensor facial. É a única explicação possível. Ao mínimo movimento, ela regurgitava. Não havia como remediar, suspirar, gritar, espernear. Nada impedia a correnteza cálida rompendo os diques.

O que eu gostaria de mudar no meu passado? A leiteira. Sem sombra de dúvida, a leiteira. Queria uma vez na vida girar o botão para o lado direito antes do seu silvo borbulhante, do sibilo da tragédia doméstica.

CARPINEJAR

27 DE AGOSTO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

UMA EXPOINTER OUTRA VEZ PLENA

O Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, abre neste sábado os seus portões para mais uma Expointer. A 45ª edição da mostra, no entanto, tem peculiaridades que fazem o evento merecer atenção especial. Em primeiro lugar, é a volta às atividades a pleno, sem restrições sanitárias, após dois anos de limitações devido aos cuidados necessários por conta da covid-19. Espera-se, assim, uma presença maior de público, revivendo o período áureo de integração entre campo e cidade, interrompido pela pandemia. A programação outra vez completa, da mesma forma, volta a ser um forte atrativo tanto para visitantes urbanos quanto para quem vai à feira para fazer negócios, conhecer as novidades, tendências e se inteirar sobre os principais temas de interesse do campo.

A Expointer, como grande mostruário do agronegócio gaúcho, consolidou-se como o palco do melhor da genética animal, da tecnologia de ponta do maquinário agrícola e dos novos serviços oferecidos aos produtores rurais. Ao mesmo tempo, firmou-se como ponto de encontro das lideranças do setor, quando são discutidas as principais questões que preocupam o segmento e articuladas soluções políticas para as demandas da agropecuária gaúcha e brasileira. Vai muito além, portanto, do caráter festivo e de termômetro de perspectivas comerciais.

Sem limitações sanitárias, a 45ª edição se reencontra com todas as suas faces e eventos paralelos. Grande atração para o público em geral e aficionados, a final do tradicionalíssimo Freio de Ouro, principal competição do cavalo crioulo e que chega a quatro décadas, volta a ser realizada durante a feira. Desta vez, no entanto, os vencedores serão conhecidos no segundo fim de semana da mostra. O pavilhão da agricultura familiar, outro sucesso a partir de décadas mais recentes, terá mais expositores do que em 2019, último ano antes da crise sanitária. 

Na elite genética, o número de animais de argola inscritos também é superior a três anos atrás, outro indicador de confiança dos criadores e do caráter de retomada da Expointer. A sustentabilidade e a inovação, temas prementes no mundo, serão assuntos centrais em um momento em que o planeta discute como conciliar a preservação ambiental e o necessário aumento da produção de alimentos. Mais uma vez a Expointer mostra-se, além de atenta às demandas locais, sintonizada com as inquietações globais.

A organização projeta cerca de 600 mil visitantes e estima R$ 4 bilhões em negócios. Se o volume de vendas alcançar este montante será um resultado extremamente positivo, levando-se em conta que o Estado se recupera dos reflexos de uma estiagem severa, que dizimou lavouras e derrubou o PIB no primeiro semestre. Quem investe, no entanto, está olhando adiante, e o agronegócio, no país e no Rio Grande do Sul, tem um horizonte promissor. Para isso, no entanto, é preciso sempre elevar a produtividade e a eficiência. São requisitos essenciais, ao lado da dedicação e da competência dos homens e das mulheres do campo, que, trabalhando de sol a sol, ajudam a escrever a história do setor mais competitivo da economia brasileira.


27 DE AGOSTO DE 2022
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Cobertura da Expointer

Já é tradição dos veículos da RBS montar forças-tarefas a cada ano de Expointer, a maior feira agropecuária da América Latina. Há, porém, uma grande expectativa em torno desta 45ª edição, que se inicia neste sábado em Esteio, por significar a retomada completa dos negócios. Nos dois últimos anos, o evento ficou em parte prejudicado em razão da pandemia, limitando o acesso do público ao parque Assis Brasil.

Além de reunir jornalistas habituados ao setor do agronegócio, outros profissionais se incorporam à força-tarefa para que possamos entregar aos nossos leitores, ouvintes e telespectadores conteúdos sobre os mais variados setores representados na feira.

Nos nove dias de evento, os veículos do Grupo RBS terão uma extensa programação no parque. Neste sábado, por exemplo, haverá uma sabatina sobre desafios do agronegócio com os candidatos ao governo do Estado, mediada pela comentarista de política Rosane de Oliveira. Na terça-feira, a Casa RBS recebe a 23ª edição do Troféu Guri, evento da RBS que celebra 12 personalidades do Estado com destaque em suas áreas de atuação e homenagens póstumas a David Coimbra e Armindo Antônio Ranzolin. Na quinta, o jornalista da RBS TV Elói Zorzetto vai mediar o Painel RBS Notícias, com foco na evolução do agronegócio ao longo dos 45 anos de Expointer.

Colunista de ZH e GZH e comentarista de agronegócio da Rádio Gaúcha e da RBS TV, Gisele Loeblein nos conta por que é importante dar visibilidade à Expointer:

- A feira sempre foi um momento de celebração, um período em que os produtores têm a oportunidade de colocar na vitrine o resultado de anos de dedicação à atividade. Da mesma forma, para quem visita, é um momento de conhecer, de se aproximar. Isso ajuda a explicar por que a 45ª edição promete ser tão emblemática. Durante dois anos, esse grande ponto de encontro do Rio Grande do Sul precisou funcionar de um jeito diferente, em razão das restrições necessárias para o enfrentamento da pandemia. Agora, retoma o formato que o consagrou como uma das grandes feiras do calendário do agronegócio. Traz a reboque a expectativa de que bons negócios sejam fechados nas pistas, nos pavilhões e no setor de máquinas.

O leitor pode saber mais sobre as novidades e como visitar a Expointer no caderno Campo e Lavoura encartado nesta edição.

DIONE KUHN

27 DE AGOSTO DE 2022
MARCELO RECH

Técnico x político

Na entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Jair Bolsonaro jactou-se de ter nomeado apenas ministros pelo critério técnico. Não é bem assim, até porque líderes do centrão, como Ciro Nogueira, da Casa Civil, têm papel decisivo em seu governo, e a montagem do gabinete contemplou as diferentes correntes que o apoiam. No fundo, a questão de ministérios ou secretariados técnicos ou políticos é uma daquelas discussões intermináveis no Brasil que pouco iluminam o que de fato importa: quão eficiente é um governo?

Dois dos mais marcantes ministros da Fazenda eram políticos e nem sequer vieram da área econômica. Fernando Henrique Cardoso (governo Itamar) e Antônio Palocci (primeiro governo Lula) são, respectivamente, sociólogo e médico. Um virou presidente e o outro se enredou na corrupção, mas enquanto estiveram no comando da economia avalizaram reformas e ações que garantiram a estabilidade e o crescimento, em grande parte por seus méritos na articulação política. Já o ministro Paulo Guedes, que empilha diplomas no campo econômico, bateu de frente com a área política e conseguiu quase nada: nem aprovar as reformas que prometera na posse e nem reverter a sanha gastadora de um Executivo e um Congresso de instintos populistas. 

Na Educação, Bolsonaro demitiu quatro ministros professores sem carreira parlamentar, enquanto outro professor e agora político Fernando Haddad ainda colhe louros pelos seus sete anos à frente do MEC. Aparentes contradições se repetem em outras áreas. Dois ministros de Bolsonaro - políticos até a medula - Fábio Faria e Tereza Cristina, nas Comunicações e na Agricultura, lideraram iniciativas cruciais para o país valendo-se de seus aprendizados nas negociações parlamentares.

Na Saúde e durante a pandemia, Bolsonaro teve um ministro sensato, o político e médico Luiz Henrique Mandetta, e um desastroso, o técnico e general Eduardo Pazuello. Mas o título de médico não é pré-requisito para uma boa administração na Saúde. O político e economista José Serra, por exemplo, é tido como um dos melhores ministros da área na história recente.

A lista de políticos competentes e técnicos ineficientes, ou vice-versa, seria infindável, porque o que impulsiona administrações não são títulos, ideologia ou mesmo experiências prévias, que podem apenas reprisar erros antigos. Na gestão pública, habitualmente emperrada, o que faz a diferença é blindar carreiras de Estado de pressões políticas, manter em alta o alerta para desvios, definir boas estratégias e reunir esforços para convencer a máquina estatal e o parlamento a apoiar mudanças que garantam um futuro melhor. O contrário é que abre as portas para o inferno.

 


27 DE AGOSTO DE 2022
J.R. GUZZO

Como republiquetas

O ministro Alexandre de Moraes, com o apoio cego, incondicional e automático da maioria dos seus colegas do STF, está impondo ao Brasil uma justiça de Idi Amin - aquele deboche violento, e baseado na força bruta, que as piores ditaduras da África fazem da trágica deformidade que apresentam como o seu aparelho judicial. Nem existe mais esse Idi Amin, uma caricatura de ditador patológico que foi estrela do noticiário internacional nos anos 1970, nem o seu regime de barbaridades. Mas pelo que indicam os fatos, os puros e simples fatos, o seu estilo de fazer justiça ressuscitou no Brasil de hoje e está transformando o ministro Moraes, junto com o resto do Supremo, numa espécie de cópia mal resolvida dos déspotas subdesenvolvidos de 50 anos atrás.

"Temos liberdade de opinião, mas eu não posso garantir a liberdade de quem deu a opinião", diz Amin numa piada que circula nas redes sociais. É um retrato perfeito do STF de hoje. Falam, em seus manifestos à nação e em suas palestras em universidades dos Estados Unidos ou Europa, que o cidadão brasileiro tem direito de pensar livremente e dar a sua opinião sobre o que bem entenda. 

Mas a cada cinco minutos, Moraes está mandando a polícia atrás de quem tem opiniões que ele acha "antidemocráticas" - e aí se vê que a liberdade de ninguém está garantida depois que a opinião foi dada, mesmo que numa conversa particular. É exatamente o que acaba de acontecer com os "empresários golpistas", um grupo que trocava ideias pelo WhatsApp e foi enfiado por Moraes nos inquéritos totalmente ilegais que ele usa há três anos para perseguir pessoas cujas posições políticas não admite. No caso, trata-se de admiradores do presidente da República - mais uma vez.

Moraes mandou a polícia invadir, às 6 horas da manhã, os escritórios e as residências dos empresários sem ao menos avisar o Ministério Público - a única autoridade no Brasil que tem direito de fazer denúncias criminais e solicitar à Justiça que elas sejam examinadas. Mas Moraes, há três anos, ignora o MP de maneira sistemática e truculenta; nesse caso, só mandou um comunicado aos procuradores depois de iniciada a operação. É pior ainda. O MP, a quem cabe a exclusividade da acusação, é contra essa investigação dos "empresários golpistas", por não ver nenhum cabimento nisso.

Está tudo errado, em suma, neste caso dos "empresários golpistas". Na justiça de republiqueta africana que o STF criou no Brasil, entretanto, o que se está fazendo aí é "a defesa da democracia".

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022


26 DE AGOSTO DE 2022
ARTIGOS

O AVIÃO DA GOL E O INCÊNDIO DA KISS OBSERVATÓRIO DE TURISMO DO RS

Quando os pilotos do Legacy decolaram de São José dos Campos na direção de Manaus, visando levar a aeronave para os Estados Unidos, imaginavam uma viagem tranquila. Assim também os passageiros do voo 1.907 da Gol que embarcaram em Manaus, no moderníssimo boeing 737-800. Era 29 de setembro de 2007. Estavam felizes, muitos vindos de pescaria, quase 160 pessoas. No caminho houve o desastre. O Legacy tocou na asa do avião da Gol, e este se precipitou ao solo. O transponder estava desligado. O Legacy conseguiu aterrissar. Todos no avião da Gol morreram.

Quando todos aqueles jovens foram para o show na boate Kiss, e eram centenas, para assistir à Gurizada Fandangueira, ninguém imaginou o massacre que se consumou. Nem o proprietário do estabelecimento, nem os artistas, nem aquelas jovens vítimas daquele horror.

A relação que existe entre um e outro fato é que ninguém previu a possibilidade do terrível resultado de suas condutas. Com o máximo respeito a teses e antíteses em torno disso, não existe dolo eventual. No máximo, no máximo, forçando, poderá haver culpa consciente. Não houve dolo, ninguém admitiu o risco de produzir essas mortes e essa hecatombe, mas, evidentemente, houve culpa. Houve negligência. Houve imprudência. Houve imperícia. Todos os elementos da culpa. Houve mais de duas centenas de mortes de jovens. Uma tragédia inimaginável. Inimaginável, esta é a palavra. Mas foi culposo o homicídio.

E como homicídio culposo, já poderia ter sido julgado há muitos anos, e os acusados já poderiam ter cumprido a pena. Condenados como Lepore e Paladino, os pilotos do Legacy. Condenados pelo homicídio culposo de tantas vítimas. Mas não foi essa a opção adotada para o caso Kiss. Há um desejo de justiçamento. E o debate permanente de pretender resolver pelo júri e condená-los todos por homicídio doloso. Isso porque o tipo penal do homicídio culposo prevê uma penalidade que se avalia seja desproporcional ao dano produzido. É possível. 

É possível que seja uma insuficiência da lei. A lei deve ser mudada, então. Mas, enquanto lei, deve ser cumprida. Nessas horas de comoção, há que se ter presente que garantias são correntes às quais as sociedades se atam nos momentos de lucidez para não se suicidarem nos momentos de loucura. Quando se flexibilizam garantias pelo casuísmo, abre-se uma perigosa janela, naquela máxima em que a injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos.

O Observatório de Turismo do RS, um projeto inédito da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul que tem como objetivo identificar oportunidades para melhorar e promover a oferta turística, já tem data para acontecer. Isso porque os primeiros números para o Observatório começam a ser captados a partir deste sábado, na 45ª edição da Expointer, no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio.

Vale lembrar que esta é a primeira vez, após o início da pandemia, que a Expointer é realizada sem restrições sanitárias e a expectativa é de que neste ano 600 mil pessoas visitem a feira. Durante os nove dias de evento, por meio de contatos com empresas dos setores de transportes e hospedagem, o Estado vai buscar entender de onde vêm os turistas que visitam o Rio Grande do Sul no período da feira. A ideia é inverter a lógica, analisar os dados e adotar comportamentos sob a ótica da demanda, e não da oferta.

A intenção do Observatório é reunir dados econômicos e sociais sobre o turismo no Estado para dar respaldo às decisões políticas, com painéis de informações e relatórios bimestrais. De acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), o setor de turismo representará 11,3% da economia global, movimentando US$ 14,6 trilhões ao longo dos próximos 10 anos.

É importante frisar que a atividade turística resulta na geração de emprego e renda e por isso os eventos turísticos devem ser vistos como investimentos. Em 2020, foram mais de 90 mil pessoas empregadas no setor de turismo gaúcho.

Um exemplo de evento turístico com impacto econômico foi a edição deste ano do Festival Internacional de Balonismo de Torres, realizado no feriado do dia 1º de maio no Litoral. Com a maior parte do público proveniente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a atração gerou 500 empregos diretos e registrou 100% de ocupação da rede hoteleira.

Finalizo reiterando que é a primeira vez que a Setur vai trabalhar com o mercado de fato, como o turista quer comprar e não como o Estado e as regiões querem vender. Esse método permitirá que o Estado conheça cada vez mais o perfil dos turistas e ofereça o melhor.

A relação que existe entre um e outro fato é que ninguém previu a possibilidade do terrível resultado de suas condutas

A intenção do Observatório é reunir dados econômicos e sociais sobre o turismo no Estado para dar respaldo às decisões políticas 


26 DE AGOSTO DE 2022
EDUARDO BUENO

Woodstock

Se me fosse dado escolher meu torrão favorito nessa Terra, certamente não haveria de ser o bairro onde nasci, cresci e agora, faz já incerto tempo, vivo outra vez. Nem Canela, na Serra, onde fui gerado, passei 20 férias e agora ficou impossível de ir por causa do engarrafamento no gramado do vizinho, que nunca achei melhor do que minha velha rua de grama que virou de asfalto. E nem mesmo a praia antes virginal e hoje prostituída, no litoral de Santa Catarina, onde, com a ajuda de plantas de poder, percebi que a realidade é puro realismo mágico.

Não, não. Meu torrão favorito no planeta azul fica entre as alvas montanhas e as verdes florestas das White Mountains, no topo do ensombrado e purpúreo Vale do Rio Hudson, na parte alta do Estado de Nova York, e se chama Woodstock. Infelizmente, todo mundo já ouviu falar de Woodstock, por causa do maldito festival. Mas não era para ser assim, e durante dois séculos não foi. Era para ser só um arrabalde, como o Moinhos, antes da gentrificação. Era para ser só um refúgio serrano, como Canela, antes do turismo massificado. Era para ser quase virginal, como o santo litoral de Santa, antes dos hunos.

Como tudo no Novo Mundo, a região de Woodstock pertencia aos indígenas. E foi para contar as histórias deles que Woodstock viu nascer a literatura norte-americana, com Washington Irving e James Fenimore Cooper. Irving mergulhou também no folclore dos pioneiros holandeses e resgatou a Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e o sono pesado de Rip Van Winkle, enquanto Cooper contou a saga do Último dos Moicanos. Tudo ali.

Mas o primeiro grupo de artistas a se fixar na região foram os pintores da chamada Hudson River School que, influenciados por um certo bucolismo pastoral, buscaram a paz e a luz (não nessa ordem) naquelas montanhas. O engraçado é que eles saíram do bairro boêmio Greenwich Village, em Nova York, por acharem-no "barulhento demais" - em 1825. Os mais famosos pintores do grupo foram os magistrais Thomas Cole e Frederick Church, meu favorito.

Mas a guinada se deu mesmo em 1902, quando Ralph Radcliffe e Jane Byrd, ligados ao Arts & Craft Movement, fundaram a comunidade "utópica" Byrdcliffe, dedicada às artes e ao amor livre, lá em Woodstock. Quando a comunidade sofreu o primeiro cisma - sabe-se lá por que... -, um de seus membros originais, o escritor Hervey White, criou, em 1906, uma comuna ainda mais radical, a Maverick Arts Colony. Ele transformou uma antiga igreja em teatro e estúdio - e lá surgiu, em 1915, o Festival de Música de Woodstock. Em 1931, por causa de confusões, bebedeiras, excessos e nudismo, o festival foi cancelado. Para sempre.

Ou seja, todo mundo que chegou em Woodstock depois de 1931, chegou atrasado. Ainda bem que não aconteceu mais nada digno de nota lá desde então. 

EDUARDO BUENO

26 DE AGOSTO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Visita surpresa e incentivo

Luiz Gustavo Bertizzolo Silvestrin, 16 anos, sempre teve medo de temporais. Chuva forte que acaba em granizo, vendaval ou qualquer mudança no tempo gera imensa ansiedade - a tal ponto que uma estratégia foi criada: o garoto passou a estudar a previsão, diariamente.

- Eu pesquiso no YouTube, assisto nos jornais e, principalmente, escuto a rádio - lista o aspirante a pesquisador. A inspiração para seguir carreira em busca de prognósticos e leitura de mapas captados pelos satélites é o comunicador da Rádio Gaúcha Cléo Kuhn.

- Gosto do jeito que ele explica - diz Luiz Gustavo.

Ontem de manhã, enquanto falava para os ouvintes sobre o seu gosto peculiar (levando em conta os desejos mais comuns para a faixa etária), Luiz Gustavo foi surpreendido. Teve a entrevista interrompida pelo homem do tempo da Gaúcha, e pôde conversar com o ídolo pela primeira vez.

- Ouvi tu dizer que gosta de geografia. Precisa estudar mais física e matemática, viu? - aconselhou de imediato o profissional. Logo que enxergou o meteorologista, o estudante saiu a seu encontro. Após aperto de mãos, os dois se abraçaram, com admiração evidente expressa no sorriso e no olhar do fã.

- Deixa eu ser teu substituto. Com muita honra, só ter uma vaga - pediu Luiz Gustavo, garantindo, ao vivo, que o próximo passo será encaminhar a confecção da carteira de trabalho.

A surpresa foi organizada junto ao pai do estudante, o gestor de manutenção Joel Silvestrin. Ele afirma ter escondido do filho que haveria a participação do comunicador durante o bate-papo.

Segundo o pai, Luiz Gustavo se interessa pelos comunicadores desde cedo. Quando tinha três anos, o menino folheava o Diário Gaúcho atrás de fotos de Antônio Carlos Macedo, então colunista do periódico, e de outros jornalistas da área esportiva, como Cacalo, Guerrinha e Pedro Ernesto Denardin.

Luiz Gustavo está no segundo ano do Ensino Médio e diz que, na escola, sua predileção é muito diferente. Os colegas vislumbram Engenharia, Medicina ou Arquitetura, enquanto ele quer cursar Meteorologia.

O caminho de sucessão poderá ser aberto em breve, segundo o meteorologista. - Eu já tô com 64 (anos), daqui a pouco eu penduro as chuteiras - prevê Cléo Kuhn, não sem risco de uma virada no tempo.

TIAGO BOFF


26 DE AGOSTO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Cinco anos "furando bolhas"

Um dos bares mais descolados do 4º Distrito de Porto Alegre completou cinco anos. Além de levar música, gastronomia e coquetelaria de primeira à região, o Agulha faz parte do grupo de empreendimentos que vêm consolidando a zona - até pouco tempo marginalizada - no território da inovação na Capital.

- Não foi fácil chegar até aqui. Quando abrimos as portas, em 2017, já confiávamos no potencial do bairro, mas havia alguns tabus e preconceitos em relação ao 4º Distrito que tivemos de superar. Acho que conseguimos furar muitas bolhas, em todos os sentidos. Começamos como uma casa de pequeno porte, com a intenção de oferecer shows autorais locais para cem pessoas. No primeiro ano, já superamos as expectativas - conta Eduardo Titton Fontana, que comanda o bar ao lado do irmão, Fernando.

De lá para cá, foram mais de 300 apresentações artísticas - incluindo performances nacionais e internacionais - e cerca de 100 mil acessos ao estabelecimento, que tem um visual único (veja as fotos acima) e impulsionou uma série de outros negócios na área, de pubs a casas de eventos.

Aprendizado no Pará

Estudantes e professores do curso de especialização em Cultura Material e Arqueologia da Universidade de Passo Fundo (UPF) participaram de um projeto de pesquisa no Parque Estadual Serra das Andorinhas, no Pará. O local é um dos maiores sítios arqueológicos de arte rupestre a céu aberto do país.

Em uma semana, foram encontrados 10,2 mil artefatos (foto), possivelmente de utensílios como vasilhames de cerâmica. O grupo ficou acampado em um sítio-escola para aprender todas as etapas do processo - incluindo coleta, higienização e catalogação. Agora, os fragmentos passarão por análise, o que deve se estender até 2023.

JULIANA BUBLITZ

quinta-feira, 25 de agosto de 2022


25/08/2022 - 18h17min
FABRÍCIO CARPINEJAR
 

Chinelo com meia é a nossa pilcha urbana

Nada é mais gaudério do que o chinelo com meia. O gaúcho se adapta em qualquer lugar. Tem gaúcho espalhado e infiltrado por tudo o que é idioma e cultura. Tanto que há cerca de 4 mil Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) no mundo, até no Japão. Uma prova de sua incrível flexibilidade é usar chinelo com meia. É o símbolo da nossa resistência. Nada é mais gaudério do que o chinelo com meia. É a mais improvável e extravagante combinação: o casamento do nosso sul europeu com o País Tropical, do inverno com o verão, da serra com o litoral, da residência com a rua.

No campo, no pampa aberto, as alpargatas estalam no chão. Nos centros urbanos, o chinelo com meia completa a pilcha. Tal como par romântico que ninguém apostava que poderia dar certo, desfruta de longa convivência nos pagos com filhos, netos e bisnetos. No campo, no pampa aberto, as alpargatas estalam no chão. Nos centros urbanos, o chinelo com meia completa a pilcha.

Você está com frio, mas não dispensa o calçado mais simples, mais básico, mais prático. Não está a fim da solenidade de um tênis com cadarços para amarrar. Nem acha que é caso do escândalo fofo da pantufa. Pretende ficar em casa, à vontade, com discrição e liberdade para deslocamentos rápidos. E, numa casa-geladeira, sem estufa, busca o reforço da lã. O ato é como abraçar os pés, não sufocá-los com a superfície fechada. Você quer tapá-los no inverno, porém jamais se acovarda a ponto de negar o chinelo. Junta, então, esses dois universos opostos.

O conjunto não é anatômico, agride igualmente o conforto da meia e do chinelo. Nenhum dos dois sai ganhando, talvez ambos percam e se anulem. O dedão para fora é a cabeça de uma múmia enforcada pela tira. Lembra um estilingue pronto para arremessar os butiás. De longe, parece que os pés foram engessados.  Não é fácil no início, o passo fica arrastado, esquisito, tenso. Exige costume e prática. É um malabarismo idêntico a andar de salto 12.

O ideal é recorrer às meias mais velhas e de elástico frouxo, com uma maior folga. É recomendável também começar desde cedo, a partir dos três anos, para não sofrer com a adaptação na vida adulta. O que não se esperava era que a dobradinha fizesse sucesso além das fronteiras e terminasse como um indicativo de personalidade bem resolvida e autenticidade no vestir. Antes considerada brega, atualmente é vista como descolada. Foi tendência na quarentena e no home office, e ocupou as passarelas de moda.

Representa a síntese plural do nosso apego pela família e da nossa disposição cascuda para enfrentar temperaturas adversas. O gaúcho sempre encontra um jeitinho para improvisar e fazer o que quer. E é tão orgulhoso de suas invenções que chega ao extremo de sair para o supermercado com chinelo e meia..