domingo, 29 de dezembro de 2019

Metáforas de Guedes criaram novo dicionário econômicoMinistro usa figuras de linguagem, como criaturas do pântano político e a baleia arpoada, para ilustrar problemas nacionais
Bernardo CaramFábio Pupo
BRASÍLIA
Criaturas do pântano, uma baleia arpoada e o passageiro de um avião sem combustível habitam o imaginário dos membros da equipe econômica. Desde janeiro, quando assumiu o posto, o ministro Paulo Guedes (Economia) recheou seus inúmeros discursos e reuniões com frases metafóricas repetidas exaustivamente.
Quem acompanhou as falas do ministro desde o início do governo já é capaz de adivinhar ao menos parte das citações que serão feitas durante os pronunciamentos. Entre jornalistas que acompanham o dia a dia da pasta, há até uma espécie de jogo para tentar prever as frases que serão usadas. O índice de acerto costuma ser alto.
Pouco afeito a entrevistas, Guedes aceitou conversar com a imprensa poucas vezes durante seu primeiro ano de gestão à frente do superministério. Na mais recente entrevista, quando um balanço sobre o ano, fez uma introdução de uma hora e oito minutos até ser convencido a abrir o microfone para perguntas. 



Ilustração de Paulo Guedes lendo um livro; atrás do ministros, estão representados 'monstros do pântano' em um uma floresta escura
Luciano Veronezi
Guedes é participante frequente de seminários e aberturas de eventos, onde fala livremente em apresentações que costumam durar também pelo menos uma hora.
Nessas e em outras ocasiões, um dos exemplos mais usados ao descrever o desempenho da economia brasileira se refere a uma baleia que agoniza no mar.
“O Brasil é uma baleia ferida que foi arpoada várias vezes, foi sangrando e parou de se mover. Precisamos retirar os arpões”, afirmou em junho durante uma audiência pública na Câmara.
A frase foi repetida em outras apresentações, mas acabou mudando de tom com o encerramento do ano. Após a divulgação de indicadores positivos de atividade econômica e do emprego, Guedes passou a afirmar que, agora, a baleia começa a se mover. Ele se diverte ao dizer que só não é tão otimista quanto um apoiador que fez uma charge com uma baleia que já começa a voar.
Em outra fala recorrente, o ministro faz referência a pessoas que, ao longo dos anos, tomaram posse do Estado, se beneficiaram com recursos públicos, incentivos tributários ou distorções em fundos públicos.
“Piratas privados, burocratas corruptos e criaturas do pântano político se associaram contra o povo brasileiro.”
Ao defender a reforma da Previdência, agora aprovada pelo Congresso, o ministro ilustrava o esgotamento do sistema de aposentadorias do país com outro exemplo figurativo.
“Seu filho entra no mesmo voo condenado, indo para alto-mar sem combustível. O seu paraquedas você segura, e ele vai para o inferno. É isso o que essa geração quer fazer?”, dizia. “Nossos filhos e netos, por falta de coragem nossa, estão condenados a continuar nesse mesmo avião, que vai cair por falta de combustível.”



Ilustração de um um senhor verde com terno puído e maços de dinheiro na calça e no bolso do casaco
Luciano Veronezi
Ainda sobre a Previdência, dizia que o sistema tinha “bombas-relógio”, como a demografia, já que o número de idosos no país é cada vez maior e eles precisam ser bancados pelos jovens em idade ativa, que não acompanham esse crescimento na mesma proporção.
Os encargos trabalhistas, em sua opinião, são “armas de destruição em massa de empregos”.
Em reuniões fechadas, Guedes também não poupa os participantes de suas longas análises. Gosta de fazer a própria equipe de plateia.
Entre os auxiliares do ministro, há quem relate a tensão ao pensar em perder o voo quando as falas do chefe se prolongam ao fim das reuniões. As divagações variam sobre temas que vão da civilização maia à perestroika russa.



Ilustração de um barco cheio de dinheiro, com um pirata com uma chapéu de papel; do barco, saem tentáculos de um monstro marinho
Luciano Veronezi
Com grande bagagem de história econômica, Guedes gosta de narrar acontecimentos marcantes de outros países e fazer relação com o Brasil.
“São R$ 400 bilhões de juros [da dívida] por ano. O Brasil reconstrói uma Europa por ano. É um Plano Marshall por ano”, afirma, em referência ao plano do governo dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial para reerguer países aliados.
Além das metáforas e das frases de efeito, o ano do ministro na condução da economia teve gafe e discussão.



Ilustração de um senhor verde e calvo com cara de mal; o personagem tem olhar sacana
Luciano Veronezi
Em abril, durante um debate sobre a reforma da Previdência, o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) afirmou que o ministro é “tigrão” com uns e “tchutchuca” com outros, sugerindo que Guedes privilegia banqueiros e rentistas.“Tchutchuca é a mãe, tchutchuca é a avó!”, respondeu o ministro.
Em setembro, ele defendeu comentário ofensivo do presidente Jair Bolsonaro à primeira-dama francesa, Brigitte Macron.
“O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente [Bolsonaro] devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo”, disse durante o evento. Depois, o ministério emitiu uma nota de desculpas pela ofensa.

sábado, 28 de dezembro de 2019



28 DE DEZEMBRO DE 2019
LYA LUFT

Boas festas

Infância: o jardim eram todos os segredos: as vozes murmuravam entre as folhas e sussurravam no vento. O horizonte eram morros azuis da tinta que um anjo distraído deixara cair do céu. Todos os mundos que criei, pessoas que inventei, músicas irreais que eu compus nasceram ali na infância: perderam-se mas persistem porque nada no caminho do tempo é fatal.

Autorretrato: do pai, a retidão e certa melancolia: o olhar sobre o que vem atrás das coisas. Da mãe, a alegria. Da remota linhagem, o novelo de fios que tramam alma e imagem, ninguém sabe quando e onde. Mais os trabalhos e a dor, a fantasia, a obstinada procura, alguma sorte, muita esperança na bagagem. (Dissabores fazem parte: maior foi a celebração da vida.) Entre o começo e a morte, mar e miragem: não há muito de mim na personagem que enxergam. Há que buscar o que ela esconde.

Poeminha: dormem os grandes navios do sonho, como num porto: boiam rostos ou espumas à flor de um espelho morto. Não tenho certeza de nada e mesmo assim me disponho: sou um reflexo no fundo de um corredor ou de um sonho? Deitada na grama, contemplo: no azul do céu ou das águas passam vultos como velas. (São miragens os navios ou as nuvens, caravelas?)

Busca: naquele tempo sem tempo, a verdade parecia estar nos livros: ali moravam as respostas e nasciam os nomes. Quanto mais procurei, mais me enredei na ramagem das indagações: as respostas não vinham, a verdade era miragem, a busca era melhor do que a descoberta - e nunca se chegava. (Viver era mesmo sentir aquela fome.)

Palavras: abro a gaveta, e salta uma palavra: dança sedutora sobre o meu cansaço, veste-se de indefinições, vagueia no labirinto das ambiguidades. Acha graça de mim, que espero à frente encontrar a solução dos meus enigmas. Tento uma geometria que a contenha no espaço entre dois silêncios quaisquer, mas ela decide meus passos: peso de fruta no sono da semente, assiste à minha luta quando a desejo aprisionar e, às vezes, até finge que sou eu a senhora, a domadora, a fonte. Palavras são livres e riem dos poetas: nós, mediação incompetente.

Condição: se me quiserem amar, terá de ser agora: depois estarei cansada. Minha vida foi feita de parceria com a morte: pertenço um pouco a cada uma, pra mim sobrou quase nada. Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e simples, e assim garanto a minha sobrevida. Se me quiserem amar, terá de ser hoje: amanhã estarei mudada.

Esperança: os deuses estavam de bom humor: abriram as mãos e deixaram cair no mundo os oceanos e as montanhas, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas - e, para atrapalhar, as pessoas. Todas correndo atrás de mil coisas ou de coisa nenhuma: tudo menos parar, pensar, contemplar. Enquanto isso, a Morte revira seus grandes olhos de gato, termina de palitar os dentes e prepara o bote.

Mas a gente sempre aposta na vida.

LYA LUFT

28 DE DEZEMBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Os filhos do mundo


Foi aparecer Greta Thunberg e achei que mataríamos saudade do consenso - lembra consenso? Difícil imaginar divergência de opiniões a respeito de uma adolescente que um dia saiu de casa com um cartaz nas mãos e se plantou na frente do Parlamento sueco pra protestar contra o pouco caso com o meio ambiente. O que pode ser mais inofensivo e bem-intencionado? 

Ela poderia estar num shopping consumindo hambúrgueres e sapatos, poderia estar grudada num smartphone baixando aplicativos bobinhos, poderia estar acampando na frente de um estádio para assistir a algum ídolo teen, e nunca teríamos ouvido falar dela, assim como o mundo nunca ouviu falar de nossos filhos. Mas fez barulho e foi eleita a Personalidade do Ano. Não é bacana?

Defender o meio ambiente não é uma atitude de esquerda ou de direita. Envolve todos os seres humanos, incluindo os tios fascistas, as primas comunistas, os bichos, as plantas - o planeta inteiro se beneficiaria caso os grandes líderes mundiais parassem de pensar só em lucro e tomassem medidas preventivas para deter o aquecimento global e suas consequências. Separar o lixo seco do lixo orgânico é importante, mas não basta. Deixar o carro na garagem e caminhar cinco quarteirões? Ajuda, mas o que ajuda mesmo é não pegar no pé de quem está fazendo muito mais do que nós.

Dizem que Greta é chata. Não sei, nunca escutei a menina por mais de um minuto, quem assistiu aos seus discursos completos é que pode dizer. Mas, ainda assim, creio que chato é ficar ilhado sobre um bloco de gelo derretendo, ursos polares que o digam. Ou ter a casa invadida por enchentes. Ou ter que sair à rua usando uma máscara tapando nariz e boca. Devo estar sendo chata também, desculpe aí.

Enfim, não entra na minha cabeça a razão de Greta ser ofendida. Que ela incomode alguns industriais e políticos, é compreensível, já que reivindica medidas que envolvem dinheiro e poder, mas por que haveríamos de ficar contra ela, se ela age por nós? Não age? Tem "alguém" por trás? O Soros, o Papa, o Lula, a Damares, o pessoal do Porta dos Fundos? E daí? 

A causa é boa. E mesmo que não se acredite em aquecimento global, mesmo que se pense que é paranoia e que o mundo está em perfeitas condições de uso, mal não faz uma garota gastar seu tempo e sua juventude em algo que acredita. Não foi a primeira nem será a última a se sobressair clamando por conscientização - se ela está certa ou errada, o tempo dirá. Esse mesmo tempo que nos levará à extinção em breve, mas que poderia ser mais seguro para nossos descendentes, pelos quais temos alguma responsabilidade. Portanto, se não existe mais consenso sobre nada, que ao menos escolhamos melhor nossos inimigos em 2020. Greta, obrigada.

MARTHA MEDEIROS


28 DE DEZEMBRO DE 2019
CLAUDIA TAJES

Retrospectiva introspectiva

Terminando o ano com muito menos livros na conta do que deveria ter lido, ainda assim deixo aqui a minha retrospectiva de releituras, descobertas e lançamentos - que também vale por sugestões para quem não tem nenhuma dúvida de que só abastecidos de boas histórias e de boas ideias a gente fica mais forte para enfrentar o que vier. Um superfeliz 2020 para todos nós.

O livro mais lindo que eu li, com certeza absoluta e com o devido respeito a todos os demais livros lindos do ano, foi o romance da polonesa e prêmio Nobel Olga Tokarczuk, Sobre os Ossos dos Mortos. O amor da personagem pelos animais, a forma toda particular como ela se refere às pessoas, a trama toda e sua solução. Que livro, senhoras e senhores. A autora de 57 anos, que eu nem conhecia, agora é um dos meus amores.

Brasil, Construtor de Ruínas, da Eliane Brum, que saiu pela Arquipélago Editorial, vai fundo nas nossas feridas. Não é uma leitura otimista, mas fica a sensação de que há, sim, alguns jeitos para sair do buraco. Alguém aí falou em pensamento e educação? Antes Não Era Tarde: impossível não curtir as crônicas de Pedro Gonzaga.

De Toni Morrison, que morreu em agosto deste ano e já está fazendo falta para entender melhor os dilemas desse nosso mundo tão cheio de preconceitos, A Origem dos Outros.

A Queda do Céu - Palavras de um Xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Já passou da hora da gente conhecer o que os povos indígenas têm a nos dizer.

Enterre Seus Mortos, da bicampeã do prêmio São Paulo, Ana Paula Maia. Os dois livros da Manuela d?Ávila, Revolução Laura e Por que Lutamos?

Dentro do Nevoeiro, de Guilherme Wisnik, um livro de não ficção que relaciona arquitetura, arte e tecnologia em vários ensaios sobre a transformação das cidades e a história - com o que ela tem de melhor e pior.

Da minha quase xará Claudia Lage, a novela O Corpo Interminável.

Essa Gente, do prêmio Camões Chico Buarque. Um escritor perturbado e decadente em um Rio de Janeiro não menos. Só podia dar certo.

Textos Contraculturais, Crônicas Anacrônicas & Outras Viagens, de Eduardo Bueno, o estilo Peninha que nunca cansa o leitor.

O Que Acontece no Escuro, de Davi Koteck, contos sobre pequenas simplicidades das mais profundas. Luanda, Lisboa, Paraíso, da vencedora do prêmio Oceanos Djaimilia Pereira de Almeida.

Em 2020 e sempre, leia mulheres. Assim, de cabeça: Clarice Lispector, Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Djamila Ribeiro, Cíntia Moscovich, Martha Medeiros, Paula Taitelbaum, Ana Mariano, Clara Corleone, Lya Luft, Leticia Wierzchowski, Valesca de Assis, Jane Tutikian, Maria Carpi, Tatiana Salem Levy, Patrícia Melo, Adriana Lisboa e mais uma lista sem fim que merece lugar na sua estante. E compre das pequenas e charmosas livrarias: PocketStore, Baleia, Taverna, Bamboletras, Erico Verissimo e todas as valentes que não se entregam nunca. Não parecem a gente?

CLAUDIA TAJES


28 DE DEZEMBRO DE 2019
CARPINEJAR

Veteranos

Há outdoors dizendo que você envelheceu: quando a filha menstrua ou quando o filho aparece com barba de bode, ou quando eles voltam das festas no meio da manhã, ou quando decidem morar sozinhos ou quando casam ou quando entram na universidade. São letras garrafais de uma verdade: suas crianças não são mais crianças, não dependem mais de você como antigamente, o convívio será semanal, talvez mensal.

Mas também existem pequenos cartazes da rotina apontando para a sua maturidade indisfarçável.

Um deles é a pelada com os amigos. Eu jogo futebol na segunda-feira em uma quadra do colégio Bom Conselho. São sete anos de ritual, sempre às 20h. Lá encontrarei Dal Molin, Valdemar, meu irmão Rodrigo, Dirceu, Fernando, Frodo, Daniel, Adriano, Horácio, Cristiano, Luciano, Zé Leão, Luis e Glauber, entre os decanos fundadores.

Quando faltava jogador para completar os 12 apóstolos, convocávamos marmanjos de contato superficial. Era uma busca desesperada por alguém com a mínima noção, mesmo que seja para atuar no gol. Em vacas magras no calendário, como dezembro, época de festas para todos e férias para alguns, já chegamos a improvisar quatro de cada lado e mentíamos nas mensagens do grupo que havia sido um enfrentamento memorável.

Agora, os peladeiros, diante da ausência de quórum, não sofrem mais com expedição pela agenda do WhatsApp, pois deram para chamar os seus filhos. Os recursos humanos partem da própria casa.

Filhos? Antes eram bebês de colo, mascotes de nossos confrontos, que mal tinham força nas pernas. Hoje são adolescentes. Ninguém percebeu como cresceram tão rápido.

São fortalezas de vigor e vontade, com o dobro de nossa altura. Virou atração de circo: os anões e os gigantes.

É engraçada a disparidade em campo. Eu jogava contra gente de minha idade, na faixa dos 40 a 50 anos, até me sentia poderoso e artilheiro. Podia sair de uma noite com cinco gols no bolso.

Com as crias dos comparsas, se estufo as redes, é por acidente. A bola bateu em mim, não fui eu que a chutei.

Vem ocorrendo a infiltração de categorias de base na disputa dos veteranos. É difícil acompanhar o ritmo. Não ganharei uma bola no fundo da quadra pela imposição física, nem usando os cotovelos.

Pouco a pouco, há mais jovens do que velhos, a partida é mais deles do que nossa. Com a mistura, passamos a nos lesionar com frequência (oferecendo além de nossas possibilidades) e eles vão preenchendo as suplências com os seus amigos da mesma idade.

Logo nem saberemos os nomes dos atletas, seremos penetras em nossa confraternização, obrigados a nos apresentar e explicar de onde viemos e de quem somos os pais.

O envelhecimento bate à porta antes dos grandes eventos de transição de nossos rebentos, nós é que não atendemos.

CARPINEJAR