terça-feira, 26 de julho de 2016


26 de julho de 2016 | N° 18591 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

DESENHADO E PINTADO


Ia escrever um texto inteiro me queixando do desleixo do Centro: fui levar amigos europeus a um passeio, para me gabar do Mercado, do Santander, do Margs, do Memorial, da Matriz, do São Pedro (e me gabei), mas não deu pra evitar o espetáculo da feiura que é o lixo das ruas, o malcuidado por tudo, que se reproduz e multiplica na ostensiva presença de miseráveis, de corpo e alma, assim como do triste papel das bancas dos ditos artesãos na Alfândega. Sério que aquilo ali faz algum sentido?

Mas não, nada disso: vou é elogiar duas ações culturais de alto calibre, relativas ao mesmo Centro. Uma é a exposição sensacional, inesperadamente brilhante, que o Margs traz agora: a Modernidade impressa. Reúne reproduções de ilustrações feitas no coração da antiga editora Globo, nos anos 1930 e 1940, num espetáculo de beleza que deixa a gente feliz – pelo que se vê e pelo que não se vê, mas se adivinha: Porto Alegre foi capaz de abrigar esta experiência, ali mesmo, a dois passos da nossa casa.

Além disso, a mostra também oferece pinturas, capítulo em que eu sinceramente fiquei sem palavras, ao me deparar com uma parede inteira da exposição, dedicada a autorretratos de João Fahrion. Meu caro leitor, um negócio: um artista se pensando em público, se dando a ver de modo expressivo, um tanto angustiado, talvez confrontando o olhar do espectador. Ele e outros nomes ficaram boiando na minha mente: Ernst Zeuner, Edgar Köetz, Nelson Boeira Fäedrich, Sotero Cosme, Francis Pelicheck.

E tudo isso está acessível por causa de uma pessoa, basicamente: Paula Ramos. Professora do Instituto de Artes da UFRGS, ela dedicou sua carreira de pesquisa ao universo da antiga seção de desenho da Globo, matriz disso tudo. Além da exposição, a Paula lançou um livro (editora da UFRGS), com o mesmo título, contendo sua reflexão e uma fartíssima documentação visual, desde já indispensável para entender o que já foi a vida cultural e mental da cidade. Já foi, ainda é e pode ainda ser mais, como o trabalho da Paula mostra.


26 de julho de 2016 | N° 18591 
DAVID COIMBRA

Wachstumsbeschleunigungsgesetz


Era muito citada, até os anos 80, a doutrina da “Destruição Mútua Assegurada”. Em inglês, “Mutual Assurance Destruction”, sigla que resulta em MAD. Não por acaso: a palavra mad significa loucura. Essa doutrina era, realmente, produto da maior loucura da raça humana em todos os tempos.

Talvez você ache que louco estou ficando eu, ao falar de eventos da Guerra Fria, quando há tanto de loucura no mundo de hoje. Mas chegarei lá. Ou, melhor: chegarei cá, porque tudo está relacionado.

O mundo do século 21 está como está e é como é devido a uma ocorrência da primeira metade do século 20, o maior acontecimento da história da civilização: a II Guerra Mundial. Apenas seis anos transformaram a humanidade para sempre.

A Destruição Mútua Assegurada, inclusive, é fruto da II Guerra.

Começou quando Einstein entregou uma carta a Roosevelt alertando que os cientistas alemães estavam preparando uma arma que tornaria os exércitos do Reich invencíveis e obrigaria todos nós, hoje, a pronunciar palavras como Wachstumsbeschleunigungsgesetz.

A arma a que ele se referia era a bomba atômica.

Os americanos, então, puseram em movimento todo o seu poderio econômico e logístico a fim de implantar o Projeto Manhattan. Não foi pouca coisa: o governo mobilizou 130 mil pessoas e construiu uma cidade no deserto do Novo México para chegar à bomba atômica antes dos alemães.

Deu certo, como se sabe.

Durante quatro anos, os americanos detinham o maior poder da Terra. Eles eram como eu no jogo da velha: imbatíveis e inigualáveis. Quando havia algum problema, seus generais sempre cogitavam da possibilidade de dissolver 100 ou 200 mil pessoas atomicamente e resolver a questão com a rapidez que resolveram com os japoneses, que, mesmo sendo teimosos como são japoneses, renderam-se em uma semana, depois que Little Boy foi jogada sobre Hiroshima.

Só que, em 1949, os soviéticos também detonaram a sua bomba e passaram a fazer outra e outra e mais outra. Ou seja: havia duas nações capazes de deixar o mundo entregue literalmente às baratas e encerrar de vez a discussão sobre quem é melhor: Grêmio ou Inter.

Durante toda a década de 50, americanos e soviéticos empenharam-se em fabricar armas nucleares de todos os tipos e para todos os gostos. Aí, em 1962, os soviéticos instalaram uma base nuclear em Cuba, a 150 quilômetros da Flórida. Quer dizer: nem precisavam de avião para fechar todo o reluzente comércio de Miami para sempre, impedindo o Lobão de se mudar para lá.

Foi a chamada “Crise dos Mísseis”. Os americanos queriam que os russos removessem seus mísseis nucleares de Cuba e os russos queriam que os americanos removessem seus mísseis nucleares da Turquia. Nenhum lado queria ceder. Kennedy foi à TV e expôs o problema aos americanos e, por consequência, ao mundo: se um dos dois não recuasse, a III Guerra Mundial seria decretada e Megan Fox não teria nascido.

O impasse durou duas semanas, até que Kennedy e Kruschev, o primeiro-ministro soviético, entraram em um acordo – os mísseis da Turquia e de Cuba foram retirados.

Essa foi a primeira demonstração da teoria da Destruição Mútua Assegurada. Que diz o seguinte: cada um dos inimigos tem tamanho poder de destruição, que uma guerra entre eles levaria ao extermínio de ambos. Assim, como os dois têm medo de morrer, nenhum ataca.

Por essa teoria, o temor da guerra garante a paz.

Mas... falarei sobre o que vem depois do “mas” amanhã.

segunda-feira, 25 de julho de 2016


25 de julho de 2016 | N° 18590
EDITORIAIS

O VÉU DA HIPOCRISIA

Ao confessar o recebimento de recursos ilegais de campanhas presidenciais do PT, o marqueteiro João Santana disse ao juiz Sergio Moro ser preciso “rasgar o véu da hipocrisia” que envolve as disputas eleitorais no Brasil. É exatamente isso que a Operação Lava-Jato vem fazendo: caixa 2 é crime, sim, como já atestou a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF). A cultura do caixa 2, que atinge, segundo o marqueteiro, 98% das campanhas eleitorais no país, tem mesmo que ser combatida, pois é o grande motor da corrupção no país.

A exemplo do marqueteiro da campanha presidencial vitoriosa de 2010, também o ex-tesoureiro Paulo César Farias, do então candidato Fernando Collor, já havia denunciado “hipocrisia” em relação ao seu caso, ainda nos anos 1990. O aspecto preo- cupante é que o problema, antigo e arraigado, pode se aprofundar neste ano, sob a forma tanto de caixa 2 quanto de caixa 1 disfarçado. É que, pela primeira vez, políticos em campanha não contarão, agora, com o dinheiro de empresas, precisando se contentar, oficialmente, com recursos do fundo partidário e de doações de pessoa física.

Em eleições anteriores, cerca de 90% das doações vinham de empresas. Seria ilusório imaginar que a simples mudança da lei, mesmo impondo rigor aos faltosos, seja suficiente para fechar essa porta para a corrupção.

A Justiça Eleitoral tem insis- tido que não dispõe de estrutura para acompanhar caso a caso os milhares de candidatos inscritos para concorrer em outubro. Mais uma vez, o eleitor é quem arcará com esse ônus: o de contribuir não apenas evitando votar em quem transgride, mas também denunciando às autoridades sempre que deparar com irregularidades.

25 de julho de 2016 | N° 18590 
DAVID COIMBRA

Uma mulher entre dois amigos

Na semana passada, foi comemorado, palidamente, o Dia do Amigo. Não sou de efemérides, mas tenho simpatia por essa data.

A amizade é um sentimento menoscabado. O amor romântico é que rende filmes, poemas, livros e canções. Os caminhoneiros mais brutos, de camisa de física e palito no canto da boca, ouvem que o amor romântico é um tiro certo no seu coração e choram atrás do volante. Tudo ilusão. O amor romântico começa com um fogo que arde sem se ver e termina com delação premiada. Já a amizade, sim, essa pode se tornar incondicional, dependendo do caráter de cada um.

Nesse Dia do Amigo, 20 de julho, recebi um vídeo em que o velho BB King faz uma declaração de amor a Eric Clapton. Um troço tocante. Refestelado de cima de seus 81 anos de idade, em frente à multidão que o ouvia tocar, ele interrompeu o show, olhou para Clapton, que estava ao lado do palco, e avisou que iria dizer algumas palavras que talvez o constrangessem. Contou como se conheceram. E encerrou:

– Que eu viva para sempre, mas que você viva para sempre e um dia a mais, porque eu odiaria estar aqui quando você se fosse.

Não bastasse, pingou um P.S.:

– Que a última voz que eu ouça seja a sua, dizendo que foi meu amigo.

Esse depoimento diz muito acerca de ambos. BB King por ser capaz de sentir tal afeto, Clapton por ser capaz de despertar tal afeto.

Diz mais: diz que o homem, com o aumento de seus anos de vida e, talvez, de sua sabedoria, pode aprender o real valor da amizade. Porque, quatro décadas antes, Clapton cometeu o erro de arriscar uma amizade por um amor romântico.

Ele se apaixonou pela mulher de George Harrison, um de seus melhores amigos.

O vórtice desse remoinho amoroso era uma loirinha chamada Pattie. Hoje, observando suas fotos, ela não me passa a impressão de ser assim tão especial, mas Clapton disse que foi a mulher mais linda que já havia visto.

Não foi só por isso que a cobiçou, é claro. Nem por sua provável beleza interior. Foi porque ela era mulher de um beatle, um homem rico, famoso e poderoso. O próprio Clapton admite essa fraqueza numa biografia que lançou há alguns anos.

O fato é que Clapton começou não apenas a espadanar, mas também a se refocilar com a mulher do amigo. Até que o amigo descobriu.

Harrison, então, convidou Clapton para um encontro em sua mansão. Clapton foi. Chegando lá, Harrison apontou para duas guitarras e dois amplificadores que estavam apoiados na parede.

– Vamos tocar – propôs. Era uma espécie de duelo. Tocaram durante duas horas. Dois semideuses do rock se enfrentando. E Clapton venceu.

O escritor John Hurt testemunhou a cena e disse que foi assim que aconteceu. Em seu livro, Clapton tergiversa um pouco, diz que eles estavam apenas tocando, e não disputando mulher. De qualquer forma, Clapton acabou ficando com Pattie e um grande e justificado sentimento de culpa. Para aliviar a consciência, ele deu a Harrison uma guitarra de cor cereja, sua preferida, que ele chamava de Lucy.

Harrison adorou. Em pouco tempo, Lucy também se tornou sua guitarra principal.

Um dia, quando Harrison tocava nos Estados Unidos, Lucy foi roubada, vendida a uma loja de penhores e comprada por um músico mexicano. Harrison mobilizou metade da polícia americana, localizou-a e, para reavê-la, deu ao mexicano duas outras boas guitarras.

Harrison jamais se separou de Lucy. Clapton acabou se separando de Pattie. Quem saiu ganhando?

Foi assim, imagino, que Clapton aprendeu, como BB King demonstrou depois: a qualidade de um homem deve ser avaliada pelos amigos que tem. Não pela qualidade dos amigos; pela qualidade das amizades.

25 de julho de 2016 | N° 18590 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

THE NIGHT OF HBO


Se alguma coisa segue sendo a que produz o melhor conteúdo já visto fora das telas dos cinemas, caros leitores, ela atende pelo nome de Home Box Office, aka HBO. Provas disso são os incríveis The Sopranos e Band of Brothers, lá no início da nova tevê. Quando resolve roçar o que consideramos arte, a HBO dá show de bola e tela.

E assim chegamos a The night of, uma série de investigação que está sacudindo críticos e público com o mesmo fervor místico. Nela, um jovem americano de origem paquistanesa sai no táxi do pai desde a sua casa diretamente para o inferno, ou ao menos para uma delegacia de polícia, sem fazer ideia do que realmente aconteceu nessa noite de tantos mistérios.

John Turturro entra em cena, como o cínico advogado de porta de cadeia e sandálias onde deveria haver sapatos, e a cena está roubada. A cinematografia lembra muito o lindo Taxi Driver, já que nosso nada herói estava nessa condição quando tudo começou. Tudo, ou seja, o que realmente aconteceu, ninguém sabe. 

O sistema legal americano começa a girar suas manivelas e engrenagens, e nossa história segue em frente, com a gente grudado com Super Bonder no sofazão da sala. Se eu fosse vocês, veria. Se eu fosse eu, também. Quem sabe nos encontramos por aí então, suando no frio do inverno rumo ao final de The night of, que, pra nossa sorte, mal começou.


25 de julho de 2016 | N° 18590 
L. F. VERISSIMO

O futuro no passado


Poucas previsões para o futuro feitas no passado se realizaram. O mundo se mudava do campo para as cidades e era natural que o futuro idealizado então fosse o da cidade perfeita. Mas o helicóptero não substituiu o automóvel particular e só recentemente começou-se a experimentar com carros que andam sobre faixas magnéticas nas ruas, liberando seus ocupantes para a leitura, o sono ou o amor no banco de trás. As cidades não se transformaram em laboratórios de convívio civilizado, como previam, e sim na maior prova da impossibilidade da coexistência de desiguais.

A ciência trouxe avanços espetaculares nas lides de guerra, como os bombardeios com precisão cirúrgica que não poupam civis, mas não trouxe a democratização da prosperidade antevista. Mágicas novas como o cinema prometiam ultrapassar os limites da imaginação. Ultrapassaram, mas para o território da banalidade espetaculosa. A TV foi prevista e a energia nuclear intuída, mas a revolução da informática não foi nem sonhada. 

As revoluções na medicina foram notáveis, certo, mas a prevenção do câncer ainda não foi descoberta. Pensando bem, nem a do resfriado. A comida em pílulas não veio – se bem que a “nouvelle cuisine” chegou perto. Até a colonização do espaço, como previam os roteiristas do Flash Gordon, está atrasada. Mal chegamos a Marte, só para descobrir que é um imenso terreno baldio. E os profetas da felicidade universal não contavam com uma coisa: o lixo produzido pela sua visão. Nenhuma previsão incluía a poluição e o aquecimento global.

Mas, assim como os videntes otimistas falharam, talvez o pessimismo de hoje divirta nossos bisnetos. Eles certamente falarão da aids, por exemplo, como nós hoje falamos da gripe espanhola. A ciência e a técnica ainda nos surpreenderão. Estamos na pré-história da energia magnética e por fusão nuclear fria.

É verdade que cada salto da ciência corresponderá a um passo atrás, rumo ao irracional. Quanto mais perto a ciência chegar das últimas revelações do universo, mais as pessoas procurarão respostas no misticismo e refúgio no tribal. E quanto mais a ciência avança por caminhos nunca antes sonhados, mais leigo fica o leigo. A volta ao irracional é a birra do leigo.

sábado, 23 de julho de 2016



23 de julho de 2016 | N° 18589 
MARTHA MEDEIROS

O que fazer da vida

“O que você vai fazer da sua vida?” é, antes de uma pergunta, um julgamento sumário, uma crítica

Não tinha nem 10 anos de idade e era invadida por uma excitação boa a cada vez que alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse. Yeah! Estava confirmado que eu iria mesmo crescer, não era apenas uma hipótese fantasiosa. Eu então respondia: quero ser aeromoça! Se me acusassem de estar com a cabeça nas nuvens, eu aterrissava: então quero ser chacrete! Não importava se o desejo se cumpriria, eu simplesmente idealizava um futuro associado a coisas de que eu gostava, logo, me imaginava cantora, guitarrista (passava os dias ouvindo Suzi Quatro), balconista de supermercado (nas brincadeiras, sempre escolhia atender no caixa), tenista (o esporte da família), psicóloga.

Mentira, eu nem sabia o que fazia uma psicóloga. Só tinha certeza de que jamais seria médica de nenê. Queria me livrar do universo infantil e entrar logo no mundo adulto, que me parecia muito mais divertido.

Até o dia que tive que encarar o vestibular sem ter a mínima ideia de qual curso escolher. Acabei optando pela Publicidade porque uma amiga iria fazer também. Já que eu gostava muito de arte, de criatividade, de escrever, quem sabe não dava pé? Deu. E ninguém mais perguntou o que eu queria ser quando crescesse porque, afinal, eu havia crescido. E crescia junto a minha angústia, pois agora a pergunta era diferente: o que você vai fazer da sua vida?

Esta é uma questão que não abre os portais da imaginação, não induz ao sonho, ao contrário, procura nos enquadrar em algo que ofereça um firme suporte existencial. “O que você vai fazer da sua vida?” é, antes de uma pergunta, um julgamento sumário, uma crítica: o que você vai fazer da sua vida além de ficar perambulando pelas noites de sábado, além de programar feriados em Garopaba, além de namorar, além de fazer estágio não remunerado, além de juntar dólares para viajar, além de passar as tardes trancafiada no quarto ouvindo música, além de ficar com a cara enterrada em livros de poesia? 

Nada disso significava fazer alguma coisa da vida, ao menos não da vida que os outros esperavam que você tivesse, e você também esperaria, se soubesse lidar com assunto tão complexo. Não sabendo, tocou em frente, porque quem aguarda uma resposta absoluta não faz nada.

Então você trabalhou, casou, teve filhos, trabalhou, separou, casou de novo, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou, envelheceu, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou e o final ainda está em aberto.

O que você faz da sua vida? A mesma coisa que todos, provavelmente. Ocupa o tempo enquanto ainda se diverte sonhando com o que quer ser quando crescer.



23 de julho de 2016 | N° 18589 
CARPINEJAR

Cadê a coxinha?

Passei na lancheria da escola para matar a saudade dos pecados de infância. Iria pedir um enroladinho. Já salivava ao imaginar a mordida na massinha. Aproveitaria os minutos antes de minha palestra em colégio na Capital para engordar e ressuscitar os sabores da meninice.

O barzinho parecia idêntico ao de minha época de estudante, com jeitão de trailer e a tampa da janela levantada. Mas não tinha enroladinho, este irmão menor do cachorro-quente.

O tio – todos os atendentes sempre serão tios para mim, não importa a minha idade – demorou a entender o que era enroladinho. Procurando me contentar, ofereceu um hossomaki. Juro que a minha audição tossiu de volta as palavras. Não esperava Tóquio em Porto Alegre, tanto que conferi o logotipo dos uniformes ao redor para me certificar de que não se tratava de um pesadelo.

– O quê?  – Sim, é o que mais sai no recreio – ele explicou. – Tá brincando, né?

– Não, os alunos têm preferência pelos rolinhos finos, quer experimentar? Ainda oferecemos temaki, kappamaki, tekkamaki e uramaki.

Não desejava comida japonesa às 10h da manhã. Qual o destino dos lanches perigosos e gordurosos das escolas? O que aconteceu com o rissoles? Onde foi parar o folhado? Cadê a irresistível coxinha?

Suava frio com o excesso de saúde na infância. Os dedos ágeis e aflitos no guardanapo terminaram trocados por pauzinhos? A mostarda e o catchup perderam sua realeza para o shoyu e o wasabi?

Ninguém mais mastigava pastelina com guaraná? Agora era suco verde e tapioca?

Que medo dessas turmas nutri, que desconhecem o poderio doce das balas Xaxá e 7 Belo. Será que os alunos pedem bolo integral de banana em vez de nega maluca?

Que receio dessa geração fitness que não experimenta o proibido, que come no lanche o mesmo que come no almoço e na janta e que não separa o mundo doméstico da casa do selvagem universo escolar.

Só o que faltava não mentir aos pais. Para a família, eu não relatava os feitos gastronômicos. Preservava a privacidade da gula. Fingia que adorava a merenda, um sanduíche insosso de ricota, e devorava um largo e maravilhoso pastel de carne, com o caroço do ovo saltando na pele dourada.

Amadureci porque sempre cultivei os meus segredos.


23 de julho de 2016 | N° 18589
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

A SOLIDÃO É UMA PAREDE DE TIJOLOS


O que durante muitos anos não passou de uma impressão, dessas que alimentam a chamada sabedoria popular, foi cientificamente consagrado em uma pesquisa recente, chancelada pela Universidade de Harvard: a qualidade das relações sociais é que define a chance real de que alguém envelheça feliz. Muito mais do que os níveis de colesterol ou o controle rigoroso do perímetro abdominal.

E a construção de relações afetivas sólidas, ou não, começa inexoravelmente no menor dos nossos universos: a família. O que levamos para aplicação nas rodas sociais externas tem a marca do afeto edificado em domicílio. Por isso é tão suspeita a atitude dos que só se revelam solícitos e generosos com estranhos.

O senhor RR era um desses tipos ranzinzas com os seus, e de alguma influência política na comunidade. A gentileza externa, se descobriu depois, era apenas uma fachada para facilitar-lhe o acesso ao poder. Filho de um pai que herdara e pulverizara uma grande fortuna, cresceu com um sentimento de revolta contra os que haviam comprado o espólio da família. As pessoas mais próximas comentavam que ele parecia ter feito um pacto consigo mesmo de resgatar o patrimônio perdido, custasse o que custasse. 

Quando o conheci, tinha 78 anos e era muito mais rico do que qualquer ancestral jamais tinha sido. A cara enfarruscada antecipava que nada do que conquistara afrouxara as amarras da amargura. Nunca consegui vê-lo sorrir. Temi que tivesse desaprendido, se é que alguma vez soubera. Depois de um tempo, me acostumei com ele assim, porque afinal nada mesmo do que ele dizia ou argumentava tinha a menor graça.

Houve uma grande dificuldade para contatar algum familiar quando precisamos que alguém assinasse o consentimento informado para os procedimentos invasivos, indispensáveis na avaliação da operabilidade do seu tumor de pulmão. Ficou claro que ele tinha produzido uma prole de superocupados, sem nenhum tempo a perder, pelo menos não com ele. 

O Euclides era um negro velho com uma catarata visível e um ar resignado, e era a figura que mais se aproximava da ideia de família. Dormia sentado numa poltrona sempre postada atrás do ângulo de visão do seu chefe, mas atento a qualquer gesto ou ruído. Na noite anterior à cirurgia, o paciente fez um pedido típico dos solitários: “As informações referentes a minha doença devem ser repassadas exclusivamente a mim, pelo menos enquanto eu estiver vivo!”. Dada a minha dificuldade de comunicação com os mortos, aquilo me pareceu bem razoável.

Por meio do Euclides, soube que a ausência de qualquer membro da família no dia da operação se explicava por uma viagem programada havia meses e que, no dia anterior, levara para a França todos os filhos que lá se encontrariam com a mãe para a comemoração dos 70 anos dela. Pelo jeito, a ausência dele naquela festa não representaria um trauma insuperável para os viajantes. A parede que os separava tinha muitos tijolos.

Na última conversa pré-operatória, ainda escorreu um resíduo de rancor reprimido: “Traga todos os papéis de autorização que precisar para completar o seu serviço. Faça o que tem de ser feito e preste contas somente a mim!”. Do alto da sua prepotência, nenhum indício de medo ou de afeto, só rigidez e solidão. Esta combinação que, de tão maligna, diminui o impacto do anúncio de um câncer, diluindo-o no caldeirão do abandono, onde até a morte desejada se justifica.


23 de julho de 2016 | N° 18589 
L.F. VERISSIMO

Um bar no Leblon


Com tanta gente com medo de vir para o Rio, onde tem zika, assaltos e corruptos saindo, apropriadamente, pelo ladrão, é bom lembrar os visitantes ilustres que já estiveram por aqui e saíram ilesos. E imaginar que tivessem ficado, seduzidos pelo nosso sortilégio tropical, pela caipirinha ou por qualquer outra razão.

Imagine se os ficados se reunissem regularmente num bar do Leblon, desprezando suas diferenças de idade e das épocas em que estiveram no Brasil. Aquele ali com as longas barbas brancas, por exemplo, é o decano do grupo. Seu nome é Charles Darwin e ele chegou ao Rio de Janeiro num navio chamado Beagle. 

Apaixonou-se pelas praias, pelas florestas e pelas mulatas, abandonou sua expedição científica e ficou. Quando querem provocá-lo, os outros integrantes da roda pedem “Conta aquela da evolução”. É uma teoria meio maluca do velho sobre a seleção natural na evolução das espécies. Se tivesse voltado para a Inglaterra e publicado sua teoria, ela teria causado uma revolução no pensamento humano. Mas sair do Rio de Janeiro, nem pensar.

Essa que está chegando, caminhando com dificuldade, é Sarah Bernhardt. Era uma atriz famosa quando veio se apresentar no Brasil. Aqui, teve um acidente no palco, machucou a perna, a perna foi mal tratada no hospital e o resultado é que anda com uma perna mecânica. Ficou no Rio e acabou como assistente de figurinista da Globo, onde todos a chamam de “Madame Sarrá”.

Essa figura que acaba de sentar-se entre Darwin e Sarah é interessantíssima. Romeno ou coisa parecida. Seu nome é Saul Steinberg. Desembarcou no Recife, foi para o Rio e, apesar de ter, como lhe diziam, “um traço meio esquisito”, conseguiu emprego numa agência de publicidade e vendeu uns cartuns para a Cruzeiro. Quando a revista fechou, o Millôr ainda tentou ajudá-lo, mas Steinberg preferiu deixar, brasileiramente, para lá e arranjar um cargo público. O negócio dele é um chopinho e um bom papo.

E há também os “professores”, Fernand Braudel e Claude Lévi-Strauss. Os dois estão sempre de bermudas e sandálias. Braudel lecionou por um tempo na USP e escreveu alguns livros mal recebidos pela crítica acadêmica brasileira. Desanimou e foi para o Rio, onde leva uma vida tranquila, joga seu voleizinho de praia e não perde reunião do grupo. 

Lévi-Strauss veio ao Brasil fazer um curso de antropologia, casou-se com uma índia (“Que tetons”, diz ele até hoje, com saudade) e, depois de viúvo, instalou-se num pequeno apartamento em Copacabana, onde se dedica a sua paixão secreta, ver novelas na TV. Sempre é o último a chegar, sob vaias dos outros, depois de ver as novelas das seis, das nove e das onze.

E quem é esse que chega, irritado como sempre? É Orson Welles! Sim, o diretor de Cidadão Kane. Ele nunca mais saiu do Rio, depois que veio ao Brasil fazer um filme que nunca completou, na década de 1940. E nunca mais fez um filme, apesar de estar em luta constante para conseguir financiamento. Ocupa-se em anarquizar os filmes dos outros. Mas hoje parece estar de bom humor. Senta e faz um sinal para o garçom:

– Ó, gente boa, um chope e aquela linguicinha!



23 de julho de 2016 | N° 18589 
DAVID COIMBRA

O que move o idiota

O pai do rapaz que foi preso por associação com o Estado Islâmico disse que o filho é um idiota – li na matéria do Carlos Rollsing, em Zero Hora.

Os dois, pai e filho, criavam galinhas em Morro Redondo, no interior profundo do Rio Grande do Sul. Levavam uma vida tranquila, até porque não deviam ter outra opção. Dormiam cedo, acordavam cedo. O pai só estranhava que o filho não saía do zap zap, que é como ele chama aquele aplicativo de mensagens que a Justiça brasileira adora bloquear. Na verdade, nem era o zap zap. O idiota se comunicava com seus amigos idiotas por outros meios.

Ao falar do caso, o pai volta e meia embargava a voz, contou o repórter. Fiquei com pena. Como consolo, diria a ele que jovens, em geral, são idiotas. Muitos, inclusive, deixam de ser jovens, mas não deixam de ser idiotas.

O caso desse rapaz é interessante, porque é ilustrativo. Sua família não veio do Oriente Médio, ele não viajou à Síria, nem muçulmano é. Provavelmente, seu conhecimento do que se passa naquele gomo do mundo tem a profundidade de uma letra de axé music.

Por que, então, ele se alinhou ao Estado Islâmico? O pai respondeu: porque é idiota.

Mas o idiota sempre tem uma motivação. Ele precisa de algo que justifique o exercício da sua idiotice. É isso que os seres humanos, idiotas ou não, fazem o tempo todo: procuram um sentido para suas existências. A vida humana necessita de sustentação teórica tanto quanto de água. É o que nos diferencia dos bichos. O bicho vive. Ponto. O homem tem de saber por que vive (ou achar que sabe).

A razão da existência pode ser qualquer uma, embora as mais populares sejam ideologia e religião.

Para o idiota, não faz diferença. Ele pode ser muitas coisas. Pode ser um fanático político, que acredita que quem não concorda com ele é canalha. Ou um religioso fundamentalista, que mata em nome de Deus. E aí não me refiro apenas aos muçulmanos. Não. No começo dos anos 300, o imperador Constantino jurou que, na véspera de uma batalha importante, sonhou com uma cruz luminosa acompanhada de uma voz que lhe aconselhava: “Com este sinal, vencerás!”.

Constantino mandou desenhar cruzes nos pavilhões de seu exército, e venceu. O imperador disse a seus soldados que Jesus, o profeta do amor, os ajudou a decepar, mutilar e matar os próximos que militavam no outro exército.

Constantino, no entanto, não era um idiota: era um espertalhão. Idiotas foram os soldados que acreditaram nele. A cruz deu sentido a muitas idiotices humanas, como agora o dá o crescente.

No momento em que alguém tenta explicar um ato terrorista por alguma motivação que não seja a idiotia humana, esse alguém está se aproximando do idiota e da sua idiotia. Dizer, por exemplo, que a Europa sofre atentados devido à colonização do passado é o mesmo que dizer que a minissaia motivou o estupro. A Europa é vítima do terror, e a vítima, nós sabemos, nunca é a culpada.

O que estou dizendo é que a religião, a ideologia ou o futebol não são causas da idiotice. São meios. O que os idiotas querem não é salvar as almas, os pobres ou a zaga do seu time. Eles querem o mesmo que queria o idiota de Morro Redondo: respeito.

O idiota quer ser respeitado. Ao dar um sentido à sua vida, ele pretende se tornar, de alguma forma, admirável. Ele anseia ser admirado pelas outras pessoas.

E isso, surpreendentemente, é uma boa notícia sobre o ser humano. Porque para nós, homens e mulheres que vivemos debaixo do sol, o que importa, mais do que tudo, mais do que as nossas vidas, mais do que as vidas de outras pessoas, são as outras pessoas. Parece uma contradição. Não é. Até as pessoas que matam outras pessoas importam-se, apenas, com as outras pessoas.



23 de julho de 2016 | N° 18589 
ANTONIO PRATA

A TOCHA


Quase um ano atrás, me ligou o Naief, editor de Esportes da Folha. A Coca-Cola tinha disponibilizado uma vaga no revezamento da tocha olímpica, em Itu: eu toparia correr e escrever uma crônica? Topei. Naquelas priscas eras, pré-desabamento da ciclovia, pré-microcefalia, pré- estado de calamidade pública no Rio e de desalento geral no Brasil, minha maior preocupação era com um possível tombo. 

Não queria ter que alterar o meu currículo: “Antonio Prata é paulistano, escritor, roteirista e extinguiu a milenar chama do Olimpo em julho de 2016, ao pisar no próprio cadarço, caindo de cara numa poça d’água na Rua dos Andradas, 113, Itu. Atualmente se dedica ao seu primeiro romance e à sua quinta defesa num dos inúmeros processos movidos pela Coca-Cola”.

Conforme a data foi se aproximando, contudo, e as notícias sobre os Jogos foram desviando do esporte para as suspeitas nas obras, o desleixo com o legado, o descumprimento das metas ambientais, comecei a ficar ressabiado. Será que carregar a tocha não seria dar apoio ao descaso, à corrupção, não ajudaria a dourar a pílula das eternas maracutaias nacionais?

Estava imerso em tais caraminholas, lá em Itu, na véspera do revezamento, quando meu pai telefonou. Ao saber que eu carregaria a tocha, ele ficou eufórico. Diria, até, emocionado. “Por que você não me falou antes?! Eu ia aí te filmar!” (Meu pai mora em Florianópolis e só costuma sair da ilha pra casamento ou velório.) Expliquei minhas reticências. “Meu filho, que isso?! É Olimpíada! Essa tocha não é do PMDB, essa tocha é de Zeus! Do Cassius Clay! De Apolo! Do João do Pulo! Do Jesse Owens! Deixa de ser besta, vou ligar pro Chico em Sorocaba e ver se ele pode ir aí te filmar!”

Só entendi o meu pai no dia seguinte, no ensaio para o revezamento, quando a competentíssima Frances, da organização do Rio 2016, chamou dois condutores à frente da roda: Fernando Telles, 76 anos, do time brasileiro em Melbourne, 56, e Roma, 60, nos saltos ornamentais, encenou o condutor que receberia a chama; Stephanie Forcin, 18, lutadora de tae-kwon-do, treinando para uma vaga em 2020, encenou a que passaria; um nó se formou na minha garganta e um narrador esportivo se instalou na minha cabeça, tão piegas quanto verdadeiro: “É a experiência e a vontade! É a conquista e a esperança! É o ontem e o amanhã construindo, juntos, o hoje, em Itu!”.

O nó virou choro minutos mais tarde na Rua dos Andradas, 113, ao receber a chama do Rogério Brito – peso-pena que representou o Brasil em Barcelona, 92, e Atlanta, 96, apesar de não ter dinheiro para comprar os próprios tênis e ter de treinar com um par emprestado pelo técnico. A Olimpíada é dessas pessoas, compreendi, não dos ratos que enchem a pança e o bolso desviando dinheiro de estádio, estatal, merenda e hospital.

Durante as quase quatro semanas dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos veremos os melhores atletas do mundo competirem em pé de igualdade, sem fraude em licitação, sem apadrinhagem, caixa 2, golpe ou estelionato. Espero que nos sirva de exemplo. Espero, mais ainda, que ao nos comover com as inúmeras histórias e conquistas dos nossos setecentos e tantos esportistas, possamos fazer, ao menos em parte, as pazes com o Brasil. “Que a tocha nos ilumine!”, diz o locutor, na tribuna de imprensa do meu córtex. “Que a tocha nos ilumine!”


23 de julho de 2016 | N° 18589
ARTIGOS - FLAVIA MORAES*

ASAS ADQUIRIDAS


Dédalo provocou a ira do rei Minos e terminou preso no Labirinto que ele mesmo havia construído a pedido do monarca.

Sabendo que seu cativeiro era intransponível e que Minos controlava terra e mar, com cera de abelhas e penas de pássaros Dédalo construiu um par de asas para logo agitá-las suspenso no ar. Ao dar asas a Ícaro seu filho, Dédalo recomendou que ele voasse nem tão alto de forma que o calor do sol pudesse derreter a cera que prendia as penas, nem tão baixo que o mar pudesse molhá-las.

No final da longa escadaria do número 1.412 da Presidente Roosevelt, me espera um par de asas. São muito significativas e foram planejadas há algum tempo, mas só agora parecem realmente fazer sentido.

O mestre tatuador é mestre também na arte de fazer amigos. Logo fico à vontade e sem piscar me pego falando coisas que ruborizariam até meu terapeuta. Então, entre centenas de sketches de tatuagens que habitam as paredes e o teto do pequeno estúdio, minhas fantasias e mitos vão ganhando vida nos traços do incrível Edu Tattoo.

Dentro de alguns dias, abandonarei mais uma zona de conforto pra seguir novos rumos e realizar um sonho há muito acalentado. Mas tanta ilusão, quando chega, traz junto uma certa nostalgia e uma reflexão recorrente: como encontrar o equilíbrio entre segurança e liberdade?

Com certeza, essa não é uma questão particular, e deve habitar pelo menos um dos corações daqueles que vivem sempre com dois… ou mais.

Ainda ontem, estava saindo de Porto Alegre pela primeira vez pra tentar a sorte em São Paulo, cidade que me reservava uma bem-aventurada carreira. E, sempre na vertiginosa velocidade que só a Pauliceia conhece, a mesma inquietação me assaltava uma e outra vez.

Como saber o momento certo de parar? Quanto custa o tempo que você perde pensando apenas em ganhar? Quanto é realmente necessário acumular? Quanta grana, quantos projetos, quantos prêmios e, ainda, quantas noites sem dormir e finais de semana sem parar?

São questões que podem ficar ainda mais difíceis de responder quando você realmente ama o que faz, quando trabalhar não é um fardo e você literalmente não vê o tempo passar. Mas, paradoxalmente, zonas de conforto são repletas de interrogações…

Interrogações sobre as experiências que você não viverá, sobre os milhões de portas que precisou fechar para dar apenas um passo à frente, sobre todas as coisas que ainda não fez e talvez nunca faça e sobre riscos que podem muito bem ser reais, ou não. Sobre as fantasias que ficarão para sempre adormecidas na sua cabeça, e tudo aquilo do que desistiu para estar onde está agora e também as perguntas, que erroneamente pensou não terem resposta.

É estranho o pouco do universo que conseguiremos realmente ver presos em um único corpo, em um único lugar e em uma única vida. É estranho que qualquer um de nós possa se sentir em casa em um mundo tão desconhecido.

Difícil não pensar no intransponível labirinto de Dédalo.

E então, mesmo sabendo o final da história, escolho ser Ícaro e voar. Nem que para isso tenha que aprender a desfrutar de alguma dor.

– Vamos lá Edu, mande tinta nessa pele!

 *Cineasta flavia.moraes@gruporbs.com.br

23 de julho de 2016 | N° 18589 
MARTA GLEICH

Nossa marca, nossa alma


Para você, que está neste momento lendo o jornal, o que é a Zero Hora?

Nos últimos meses, o pessoal aqui da ZH questionou de verdade: o que é a Zero Hora e o que ela quer ser? Os que trabalham com marketing chamam isso de “posicionamento”. Mas também pode-se dizer que é a alma.

Pense nas motos Harley Davidson: aventura, liberdade, rebeldia. É o cerne da marca. Pense nos celulares ou computadores da Apple: o que vem à cabeça? Design, inovação, tecnologia. Posicionamento é isso. É o que a marca representa, a expressão do seu propósito. Então, voltando para a ZH. Qual a nossa alma?

Nossa vida é entender os gaúchos. E estamos ao lado desse povo para construir um Estado melhor. Acreditamos que contribuímos para isso fazendo jornalismo profissional. Nosso posicionamento se resume numa frase linda e forte. Veja se você gosta tanto quanto eu gostei:

Zero Hora. Perto para entender. Junto para transformar.

Na última segunda-feira, foi mostrado na Redação e em todas as áreas da empresa o vídeo que retrata o propósito da marca: a essência do que nós somos e o nosso compromisso com a sociedade. Dias antes dessa apresentação, o Marcelo Leite, nosso diretor de Marketing e Produto, me chamou na sala dele para mostrar o vídeo. Assisti em silêncio e, de repente, muitas lágrimas brotaram sem que eu conseguisse segurar. 

O Leite teve de buscar uma porção de lenços de papel. Sabe quando você faz a vida inteira, todo dia, uma coisa, e alguém resume isso num filme de dois minutos e pega na veia? Você, que está lendo esta carta, imagine alguém sintetizar num curto filme o que você faz, por que acorda todo dia, qual o seu propósito, qual a sua marca, a sua razão de existir. Não tem como não gastar todos os lenços do Marcelo Leite!

Quer assistir ao vídeo de que estou falando? Acesse em zhora.co/pertojunto. Esse filme abre a primeira fase da campanha de posicionamento da marca Zero Hora. Depois, virão anúncios na TV, no jornal (o primeiro deles, nesta edição, nas páginas 32 e 33), no rádio e nas plataformas digitais. Nas redes sociais, nossos comunicadores já estão compartilhando o link.

Mas como isso vai impactar os leitores?

É a renovação do nosso compromisso com o público. Se trabalharmos direitinho, reposicionar a marca vai resultar num jornal que esteja mais a seu lado, que entenda melhor o que você quer e do que precisa, que vibre com suas emoções e que construa, junto, uma vida e um Rio Grande do Sul melhores. Com jornalismo forte, independente, plural, responsável e comprometido com a sociedade.

sexta-feira, 22 de julho de 2016



O Centro Histórico vai ficar na História?


Fiquei em dúvida se escrevia o que vou escrever. Mas admiro as fotos e os textos do melhor página três do Cone Sul, The Fernando Albrecht, de terça-feira passada, no lépido octogenário Jornal do Comércio. Aí pula a inspiração e a coragem para cumprir minha tarefa de cronista e falar do Centro Histórico de Porto Alegre neste frio inverno de 2016, frio, aliás, que deixa o Centro ainda mais gris e triste.

Por motivo de trabalho, durante a semana vou ao Centro, no 10º andar do prédio número 1.234 da Rua da Praia, o mais alto da cidade, com um terraço com vista de 360º na cobertura que merecia ser ponto turístico.

Desço do lotação ou do ônibus de olho na vizinhança, para não ser surpreendido por algum meliante. Caminho pela Rua da Ladeira, onde, esses dias, às 10 da manhã, dei de cara com sangue fresco na calçada. Dei graças a Deus que não era o meu sangue, que tinha escapado daquele tiro. E de outros tiros em outros bairros, cidades e países, que o mundo anda, literalmente, um terror. Antigamente, a gente tinha medo da bomba atômica, que ia acabar com o mundo. 

Hoje é homem-bomba, bomba disso e aquilo e terror variado lá por tudo, noticiado demais pela imprensa. A imprensa antes não noticiava os suicidas com dor de cotovelo que ouviam as músicas do Lupicínio e se atiravam do Viaduto da Borges. Será que não era melhor a imprensa mais discreta da época? Os jornalistas achavam que noticiando poderiam incentivar os suicidas e que deviam respeitar os mortos e as famílias.

Fico triste vendo o Centro assim, ainda sem a prometida revitalização da Rua da Praia, sem as obras do Cais do Porto e cada vez com menos vida e movimento de pessoas. Comércio informal tomando conta, frutas, verduras e mercadorias variadas nas calçadas, moradores de rua, prédios inteiros vazios, salas e apartamentos desocupados. O que salva a pátria são algumas atividades comerciais, de serviços públicos e privados remanescentes e alguns músicos de rua de boa qualidade, que tentam sobreviver no palco mais digno, a praça pública. 

Alguns trechos residenciais do Centro Histórico ainda conservam vida fora do horário comercial, mas de noite, mais do que de dia, como, aliás, em quase toda a cidade, a insegurança aprisiona os sobreviventes do inverno gaúcho em suas tocas.

O Mercado Público, alguns bares, restaurantes, hotéis restantes, templos religiosos, prédios públicos e alguns prédios com atividades culturais nos animam um pouco, nos fazem ter alguma esperança de que o Centro Histórico não vai ficar para a História.

Sei que a sugestão é polêmica, mas acho que só povoando mais o Centro a coisa muda. Sem misto de moradores e trabalhadores no Centro, as noites e os fins de semana seguirão assim ou pior. Muitos prédios estão vazios, construções inacabadas e outros espaços podem ser pensados. É uma alternativa. As faculdades e a Universidade Federal poderiam construir prédios para estudantes no Centro. Como disse, a sugestão é polêmica, mas é preocupante pensar que o Centro não tem solução e que vai piorar.

lançamentos

Sem gentileza (Dublinense, 160 páginas, tradução Hilton Lima), da africana Futhi Ntshingila, é uma narrativa polifônica que permite conhecer muitas mulheres, Áfricas e tempos. Em meio ao apartheid, nos guetos da África, mãe e filha sobrevivem à pobreza e à Aids, numa bela história de superação.
Nery & Beck - encordoando histórias do tênis (Edição do autor, 80 páginas), do professor e historiador Silvio Romero Martins Machado, fala de tênis de 1968 a 1986, questões nacionais e internacionais, de indivíduos e instituições, especialmente a Nery&Beck, marco na consolidação do esporte no RS.

Quer ser feliz? Ame e perdoe - Reflexões para a sua vida (Editora Globo, 176 páginas), do conhecido e admirado padre Alessandro Campos, traz 30 reflexões simples, belas e inspiradoras sobre mãe, pai, amigos, traição, fidelidade, ego, cura, entre outros tópicos.

a propósito...

Ainda carrego esperança quando caminho pela Rua da Praia. Esperança pelo futuro da gente, do Estado e do País. Não é fácil. Sem o antigo Correio do Povo, a Masson, o Bromberg, a Casa das Sedas, a Kopenhagen, a Sloper, a Casa Louro, os cinemas, o comércio da Dr. Flores e as referências de um passado com mais pilas, é difícil. Mas vamos lá, torcer pelo melhor, tomar um cafezinho com o João Klee no Haiti, na Otávio Rocha, depois curtir a salada de fruta e a bomba na Banca 40 do Mercado. Aquela é a bomba boa. E não venham me dizer que em outras cidades aconteceu o mesmo com o Centro. Digam que em outras cidades revitalizaram o Centro, onde vivem as memórias e sonhos de criança, o mais importante. 
(Jaime Cimenti)


A complicada iniciação de Karl Ove Knausgard


Uma temporada no escuro (Companhia das Letras, 496 páginas, R$ 59,90, tradução de Guilherme da Silva Braga) é o quarto volume - de um total de seis - da série autobiográfica Minha luta, do consagrado autor norueguês Karl Ove Knausgard, que hoje faz parte do star system literário mundial e esteve na última Flip, em Paraty.

Por ter rompido as amarras da ficção, pela criatividade, pelo alto grau de confessionalismo e pelo impacto de tamanho amazônico que já causou pelo mundo, com prêmios importantes e edições em vários países, Knausgard tem sido chamado de antiproust ou Marcel Proust Nórdico. Cada leitor poderá decidir como quer qualificar o escritor que nasceu em Oslo em 1968, estudou literatura na Universidade de Bergen e hoje vive em Malmo, na Suécia, com a mulher e os filhos.

Uma temporada no escuro trata da vida de Knausgard quando ele, aos 18 anos, tinha acabado de se formar e foi para uma vila de pescadores no Norte da Noruega dar aulas a adolescentes pouco mais jovens que ele. Aquele ano fora de casa era desculpa para juntar um dinheirinho, viajar e começar a se dedicar à escrita.

Quando o inverno e aquela escuridão do Ártico chegam, o escritor principiante, pressionado pelo mundo exterior, atrapalha-se com sua perda de virgindade e enfrenta as primeiras agruras de quem pretende produzir uma obra extraordinária. O fracasso da virilidade e as dificuldades sociais levam Knausgard ao consumo excessivo de álcool, e aí a escuridão exterior e interior toma conta.

O volume tem sido considerado o mais rápido e engraçado dos seis da famosa série autobiográfica de Knausgard e tem o ritmo da palavra escrita no diário do jovem Karl de 18 anos: rock n' roll. Jeffrey Eugenides, autor de As virgens suicidas, escreveu no New York Times que o espírito do livro é o grito de um garoto com uma coleção incrível de discos que sonha em se tornar escritor, redigido pelo grande escritor que ele enfim se tornou.

O alto grau de sinceridade do autor e o fato de escrever de forma totalmente aberta e direta sobre si, família, amigos e temas que outros escritores evitam, como embriaguez do pai, bullying, depressão, sentimento de fracasso, frustração e fuga da realidade que o afetaram diretamente têm causado polêmica e problemas para Karl com familiares, leitores, críticos e mídia.

Mas, por outro lado, Knausgard hoje, com suas palavras e silêncios, conquistou seu espaço e revelou, como disse, que ele é simples, mas sua literatura, não. "Tentei escrever de forma totalmente aberta: não estou mostrando nada, simplesmente é o que é, um estado mental", disse o autor em entrevista, sintetizando seu fazer literário que o coloca, ao lado da italiana Elena Ferrante e do japonês Harukio Murakami, entre alguns outros, no primeiro time da literatura internacional.


22 de julho de 2016 | N° 18588
ALMANAQUE GAÚCHO | Ricardo Chaves

OAB/RS: A história

Conforme registrou Cláudio Lamachia, atual presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), “as instituições, assim como as civilizações, as nações e as comunidades em geral, precisam que os seus registros históricos sejam feitos continuamente, mantidos e preservados para a posteridade. Na realidade, tais registros serão nada mais, nada menos, do que a memória fidedigna da sua existência, que servirá de estímulo, de orgulho e, certamente, de exemplo para os sucessores de todos os tempos, notadamente no que a história tiver de melhor”.

Coerente com a posição, o livro OAB/RS – A história, obra coordenada por Sulamita Santos Cabral, junto com a historiadora Karla Viviane e a jornalista Nathalia Rech, reconstruiu vários períodos da existência da sociedade gaúcha sob o cenário de atuação da entidade. Na abertura do livro, o ex-presidente Justino Vasconcelos afirma: “A advocacia é, sobretudo, ideal, impulso para o certo, para o justo, para o bem. Na defesa, (o advogado) encarna a liberdade, soberania original do povo, não transferida, nem transferível ao Estado. Na acusação, reprime os crimes, os ódios e as prepotências.

Cumprirás teu destino de grandeza, na medida em que aproveitares a herança de sabedoria, século após século, acumulada por nossos antecessores.

A advocacia é aprendizado que não finda”. O ancestral mais próximo da Ordem, o IAB (na época, Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros), teve seu surgimento reconhecido no dia 7 de setembro de 1843, 21 anos após a proclamação da independência do Brasil. O Instituto dos Advogados do RGS (IARGS) foi criado em 26 de outubro de 1926. O objetivo era congregar os bacharéis em Ciências Jurídicas e Sociais, ser gerador da cultura do Direito, promover o aperfeiçoamento da justiça e da sociedade, e, principalmente, esforçar-se pela regulamentação da profissão.

Leonardo Macedônia foi eleito seu primeiro presidente. O IARGS teve papel relevante para a criação da OAB, afinal Osvaldo Aranha era um dos sócios fundadores e um dos líderes da Revolução de 1930.

No dia 19 de outubro daquele ano, Getúlio Vargas, chefe do governo provisório, assinou o decreto que criava a OAB. Outro decreto, de 1931, previa a criação de seccionais nos Estados. Em 11 de abril de 1932, foi constituída a primeira diretoria da OAB/RS, com Leonardo Macedônia sendo escolhido como seu primeiro presidente e ganhando a carteira número 1. A primeira mulher a se inscrever na OAB/RS foi Maria Else Iris Potthoff, no dia 22 de março de 1937, sob o número 653.

HOJE NA HISTÓRIA 

-Em 1894, é realizada a primeira corrida automobilística da História, entre Paris e Rouen, na França, com velocidade média de 20 km/h. 

-Em 1990, morre o escritor argentino Manuel Puig, aos 57 anos. 

-Em 2013, o papa Francisco desembarca no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude. 

À MINHA DOCE IRMà

ARLETE GUDOLLE LOPES 

Amada, vem aqui bem de mansinho, 
Assim não acordas nem a criança, 
Muito menos o inquieto passarinho! 
Deixa que a noite embale teus sonhos 
Pra que acordes repleta de paz, 
Perfumada com a essência do amor, 
Encontrarás o caminho a seguir. 

Recomposta, vestida de novas auroras, 
Reviverás as quimeras de outrora, 
Cavalgarás nas asas das nuvens e 
Tal anjo zeloso não te deixarei partir. 
Refeita em ternura e deslumbramentos, 
Te farás bem presente, mulher e menina, 
E juntas, felizes, teceremos novas vidas 
Mais plenas, mais belas, repletas de luz. 

Então, embaladas nas texturas da brisa, 
Recolhido em cálice o sumo do afeto, 
Faremos melodiosas serestas à lua. 
Recolheremos os raios brilhantes do sol 
E enfeitaremos de estrelas os cabelos 
Para fazermos brindes à vida e à canção. 

PIADA DO DIA 
Dois loucos conversavam, na rua, sobre correspondências, quando um deles conta: – Mandei uma carta para mim mesmo. – Puxa, que legal! O que ela dizia? – Como vou saber, se ainda não a recebi? 

Hoje é: Dia do Cantor Lírico 
Santos do dia: Maria Madalena, Felipe Evans

HÁ 30 ANOS 
SARNEY ANUNCIA NOVAS MEDIDAS 

O presidente José Sarney revela amanhã as medidas complementares ao Plano Cruzado. Entre elas, está a criação de um empréstimo compulsório sobre combustíveis, carros novos e usados e viagens para o Exterior, além da criação do Fundo de Reconstrução Nacional.

HÁ 40 ANOS 
GOVERNO RESTRINGE FINANCIAMENTOS 

O Conselho Monetário Nacional ampliou o recolhimento sobre depósitos à vista de bancos comerciais, diminuindo prazo e limite de operações de crédito. Financiamentos de imóveis não destinados a uso próprio foram revogados.

HÁ 50 ANOS
CHE GUEVARA É VISTO NA FRONTEIRA DO RS 

O serviço secreto do Exército recebeu a denúncia de que Che Guevara esteve na fronteira do Estado com a Argentina. Os dois países fecharam suas fronteiras na tentativa de encurralar Che, à espera de que o médico argentino tentasse fugir para o Paraguai.


22 de julho de 2016 | N° 18588
OLHAR | DIEGO FABRIS*

VIAJAR PARA COMER

DESDE QUE ME DESCOBRI um apaixonado pela gastronomia, minhas viagens não são mais as mesmas. Hoje, viajo para comer e beber. Escolho o destino pela quantidade de delícias que tenho vontade de provar lá. Outras atrações como museus, teatros, lojas e monumentos são sempre bem-vindas, mas estão em segundo plano.

A primeira etapa é a pesquisa dos restaurantes, bares e produtores locais. Começam as buscas em guias, sites, blogs, perfis de Instagram e aplicativos de celular. Também peço dicas nas redes sociais para os amigos viajados. É nesse momento que inicio a viagem. Começo com entusiasmo e termino com uma certa angústia por saber que não vou conseguir experimentar tudo o que foi mapeado.

Sempre deixo um grande espaço na agenda para as dicas dos locais. Pergunto às pessoas que acabo conhecendo quais são os lugares imperdíveis por lá. E o mais legal de tudo isso é que acabo bagunçando e mudando o roteiro. Afinal, as dicas que recebo de quem conhece bem a cidade acabam sendo as mais marcantes.

Nas férias, me recuso a ser comedido no que vou comer e beber. Se não fico em forma em Porto Alegre, que dirá quando estou em lugares com tanta coisa boa para provar. E também evito calcular e converter cada dinheiro investido. Digo a quem estiver comigo um “já que estamos aqui, vamos aproveitar” e busco viver intensamente cada momento.

Por falar em viver intensamente, sempre tem aquele paradoxo de fotografar as viagens e especialmente as comidas. Com os celulares cada vez mais potentes, a obsessão por registrar todos os instantes está cada vez maior. Gosto de registrar tudo, mas faço questão de também deixar a câmera de lado e me concentrar no que realmente importa: viver uma experiência inédita e inspiradora, algo que vai ficar por muito tempo na memória.

Outra coisa que faço em viagens é comprar produtos característicos do local. A oportunidade de provar sabores que te remetem a outra cidade é uma alegria. Minha mala sempre volta cheia de garrafas e umas comidas enroladas nas roupas. Por essas e outras que viajar é um investimento que sempre vale a pena, se for para comer e beber bem, melhor ainda.

*Diretor de conteúdo Destemperados

22 de julho de 2016 | N° 18588 
CLÁUDIA LAITANO

Os invisíveis


Muita gente sabe que eles existem, mas poucos conhecem seus nomes. Aparecem, se tanto, como mera nota de rodapé nos livros de História – mesmo quando, anonimamente, arrebataram multidões. O redator de discursos é um ventríloquo sem ribalta, um Cyrano de Bergerac que não mostra o nariz.

Em um ofício – a escrita – em que a vaidade desempenha um papel não desprezível, o autor de discursos deve aprender a ser discreto e a contentar-se com recompensas mais sonantes e menos voláteis do que o reconhecimento público. Para ser bem-sucedido na função, é preciso que esse tipo de autor não apenas abra mão da fama e dos louros da assinatura, mas que seja capaz de dissolver a própria personalidade em outra, de maneira que o texto expresse não o que ele pensa ou sente, mas aquilo que soará genuíno, em forma e conteúdo, na voz de quem o contratou.

É claro que muitos políticos falam de improviso e colorem suas ideias (ou fiapos de ideias) à medida que elas brotam, mas o que ganham em espontaneidade em geral perdem em conteúdo – e compostura. O bom redator de discursos é aquele que poupa o mundo, se não dos candidatos ruins, pelo menos das metáforas vergonhosas.

O mais famoso discurso do Brasil, a carta-testamento de Getúlio Vargas, é atribuído, pelo menos em parte, ao jornalista José Soares Maciel Filho, que teria elaborado o texto final da carta oficial a partir de um manuscrito do presidente. Ao reescrever o documento, aperfeiçoando seu estilo, o jornalista não teria percebido que havia ali indícios de que Vargas planejava se matar – ou pelo menos essa é uma das versões possíveis da história. O episódio é narrado no filme Getúlio (2014), de João Jardim, que garantiu ao redator de discurso alguns raros minutos de fama.

Na semana que passou, duas autoras de discursos alheios ganharam as manchetes dos jornais: Sarah Hurwitz, que escreveu o discurso da futura primeira-dama, Michelle, em 2008, e Meredith McIver, que copiou trechos inteiros desse mesmo discurso para a fala de Melania na convenção que consagrou seu marido, Donald Trump, como o candidato oficial do Partido Republicano na última terça-feira. Antes de McIver reconhecer, compungida, o plágio involuntário, membros do Partido Republicano trataram de desqualificar a polêmica dizendo, em outras palavras, que as banalidades do discurso poderiam ter sido ditas pelos personagens de My Little Pony – o que é verdade. 

Não há nada de excepcional na fala macaqueada pela mulher de Donald Trump – o que apenas confirma o enorme carisma de Michelle Obama e sua capacidade de imprimir veracidade a tudo o que diz. O que surpreende é que alguém que admira tanto uma mulher forte e independente como Michelle, a ponto de tê-la citado como referência para a autora do seu discurso, tenha casado e tido um filho com um homem que se orgulha de nunca ter trocado uma fralda.

quinta-feira, 21 de julho de 2016


21 de julho de 2016 | N° 18587
EDITORIAL

A ESCOLA DESRESPEITADA


O mínimo que alunos e professores podem esperar depois da depredação registrada no último fim de semana na Escola Estadual Erico Verissimo, em Porto Alegre, é o cumprimento da promessa de retomada normal das aulas em agosto. Alguns danos são irrecuperáveis, como a destruição de material didático. 

Por isso, o compromisso do poder público precisa ser o de consertar os estragos físicos em tempo recorde, além de garantir o clima de tranquilidade necessário para o aprendizado. Uma condição para isso é maior presença do Estado em regiões conflagradas pela atuação de facções criminosas, como é o caso da escola vandalizada, que já enfrenta a rotina de constantes tiroteios.

Infelizmente, os dramas enfrentados em instituições de ensino localizadas geograficamente em áreas mais vulneráveis à violência são rotineiros. Assim como a Erico Verissimo foi obrigada a antecipar as férias de inverno devido à destruição de pelo menos 30 de suas 40 salas de aula, outros seis colégios da Capital precisaram modificar suas rotinas recentemente, por medo da violência e da ação de traficantes. Não há maior atestado de falência do poder público quando os governos nem sequer conseguem assegurar proteção às escolas.

No caso da instituição do bairro Jardim Carvalho, chama a atenção que o problema tenha sido registrado logo depois da presença da Brigada Militar no local para debater questões ligadas justamente à violência. Esse tipo de iniciativa, mesmo incomodando alguns segmentos da comunidade, precisa ser mantido, pois contribui para indicar as origens da criminalidade, associadas à falência de valores, e para a adoção de medidas preventivas.

Por mais que o poder público tenha responsabilidade nesses casos, alternativas como a de manter policiais em todas as escolas 24 horas por dia são inviáveis. Só a punição dos culpados e a consciência coletiva de que escolas devem ser território imune a vandalismo podem levar à prevenção de tais atos.