segunda-feira, 27 de julho de 2015


WALCYR CARRASCO
21/07/2015 - 08h00 - Atualizado 21/07/2015 08h00

Um mundo descartável


Hoje em dia, nem mesmo as ideias duram. Ideologias passam tão rápido como tendências de roupa

Eu tenho um amigo, Remo, há 30 anos. Não nos vemos o tempo todo, mas sempre sabemos um do outro. Como ele, tenho outros amigos duradouros: Ricardo, há mais de 20, Raul, Eduardo, Pérsio, desde os 15. Luiz e Antônio Carlos, de infância. Dia destes, Remo comentou:

– Já notou como hoje tudo é rápido, descartável? Mesmo amigos surgem em nossas vidas, a gente vê todos os dias durante um certo tempo. E, de repente, desaparecem, tomam outros rumos. Quando a gente se encontra, é aquela alegria. Prometemos nos ver de novo, mas fica por isso mesmo. Ambos sabemos que não vai acontecer.

Concordei. Amigos novos são pessoas que entram e saem de minha vida, rapidamente. Eu culpava minha profissão. Durante uma peça de teatro ou novela, há um contato forte entre autor, atores, diretor e produção. Quando acaba, cada um vai para seu lado. Descobri que o mesmo acontece com muita gente. Amizades duradouras são raras. As pessoas simplesmente passam pelas vidas das outras.

Eu não acho certo ou errado. Mas antes não era assim.

Quando eu era jovem, as novelas tinham pares românticos, estrelas inquestionáveis: Regina Duarte e Francisco Cuoco, Glória Menezes e Tarcísio Meira. Da mesma forma, os astros e estrelas de Hollywood estavam firmemente assentados sobre seus pedestais. Hoje, não. Alguém explode e, depois de um tempo, nem lembramos mais. Qual a última estrela de Hollywood que realmente ficou na minha vida? Vale para tudo. Lembro de Marion Zimmer Bradley com os livros da série As brumas de Avalon. Foi uma comoção mundial. Hoje, poucos lembram. 

Daqui a pouco vão esquecer Harry Potter. Estou lendo O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura. Fala de Ramon Mercader, assassino de Trótski. Ixi, seria longo explicar agora quem foi Trótski e como ele se opôs a Stálin, na aurora do comunismo russo. Indico o Google. Mas o que me surpreende no livro, excelente por sinal, é que fala de pessoas que acreditavam em ideias. Havia os marxistas, entre eles divisões. 

Os monarquistas. Enfim, uma pluralidade de pensamentos. Mas mesmo aqui no Brasil, onde as ideias frequentemente andaram em areias movediças, a gente sabia quem era quem. Hoje em dia, nem mesmo as ideias duram. Ideologias passam tão rápido como as tendências de roupa. Diante do panorama político brasileiro, me pergunto:

– Quem seria capaz de morrer por uma ideia?

Posso estar errado, mas não vejo ninguém.

Amanhã vem uma nova tendência em regime para emagrecer. Depois um novo autor, que todo mundo lê e depois esquece. Um político assume uma postura que aplaudimos. Dali a pouco, esquecemos, ou ele se faz esquecer, mudando rapidamente de partido ou se envolvendo em escândalos. Casamentos são rápidos, graças às leis do divórcio. Alguns amigos continuam de esquerda radical. Outro dia comentei: – Você está fora de moda.

E, de repente, me critiquei. Forma de pensar agora é moda? Também deixei esse tempo de coisas efêmeras me envolver. Corto o cabelo na moda, compro roupas da estação, quero estar por dentro de cada tendência. Mas não sou completamente viciado em modismos, ainda bem. Prova disso é o susto que levo cada vez que alguém some, tragado por outros rumos de vida. Telefono, convido, quero ver. O ex-novo amigo marca. No dia, avisa:

– Surgiu um compromisso de última hora, desculpe.

Mas não remarca. Deixa para depois. Agora, já entendo o recado. Simplesmente, não há mais lugar para mim na vida que ele está tendo, repleta de novos compromissos e pessoas. Muitos amigos somem,  não adianta insistir. Não são pessoas melhores ou piores, simplesmente o mundo tem muitas possibilidades, a vida deles é diferente, ou mais fácil, eu gosto das madrugadas e eles trabalham de dia. Não sobra tempo para mim.

Ficam os que sempre ficaram.

É um mundo onde, eu sinto, tornou-se difícil estabelecer novas relações com continuidade. Em que as coisas não duram. O destino turístico que é moda hoje será o mico de amanhã. Ninguém parece acreditar em nada, a não ser em si mesmo, seus próprios gostos, desejos pessoais.

Como autor, até consigo encarar a vida nessa velocidade. Como pessoa, sinto necessidade de raízes. Ainda bem que tenho esses amigos de tantos anos, mas relações tão longas não serão fora de moda, tão antigas quanto a máquina de escrever?

Às vezes eu me sinto um dinossauro. Fico curioso, como será o mundo que vai acontecer? Tão volátil? Sem dúvida, também será incrivelmente solitário.


27 de julho de 2015 | N° 18239
MUNDO ANOS DE CHUMBO

DE SEQUESTRADOR A CRIADOR DE GALINHAS


EX-POLICIAL FEDERAL ARGENTINO, integrante de uma lista de 63 repressores acusados de crimes contra a humanidade, vivia tranquilamente em um sítio no interior de Viamão até ser capturado no começo deste mês

Em meio a campos e cavalos na zona rural de Viamão, na pele de um modesto criador de galinhas, o ex- oficial principal da Polícia Federal em Buenos Aires Roberto Oscar González, 64 anos, em nada lembrava um repressor que atuou durante a ditadura Argentina (1976 a 1983). De codinomes Federico, Fede e Obdulio, chamado de Gonzalito pelos mais chegados, o ex-policial, capturado pela Polícia Federal (PF) gaúcha, escolhera o Rio Grande do Sul para se esconder da justiça argentina, que busca punir responsáveis por um massacre que fez desaparecer cerca de 30 mil pessoas.

O nome de González consta de uma lista de 63 repressores acusados de crimes contra a humanidade. Por informações que levassem a ele, o governo argentino oferecia R$ 180 mil. A mesma recompensa era estipulada a um colega, o agente federal Pedro Osvaldo Salvia, o Lobo, vitimado por uma doença, no mês passado, aos 63 anos, no Hospital de Viamão. Pesavam contra ambos crimes como sequestros e assassinatos – o mais rumoroso deles, o do escritor e jornalista Rodolfo Walsh (leia ao lado).

Em junho de 2005, a Suprema Corte da Argentina anulou duas leis que anistiavam repressores e o Código Penal Militar, abrindo caminho para novos processos na Justiça comum. A opção de González e Salvia foi fugir para o Brasil. González deixou mulher e filha e se estabeleceu em Porto Alegre, onde tinha familiares. Salvia, solteiro, sem irmãos, mulher ou filhos, foi para o Rio de Janeiro.

Vivendo como clandestino (sem regularizar visto) na Capital, mas se apresentando com o nome e documentos verdadeiros, González abriu com parentes uma empresa de importação e exportação de hortifrutigranjeiros chamada Rumonorte, no bairro Jardim Botânico. A firma teria funcionado apenas por alguns meses.

Em outubro de 2005, a justiça argentina declarou González e Salvia foragidos, e os nomes foram incluídos na lista vermelha da Interpol (Polícia Internacional). Oito anos depois, foi expedido um pedido de extradição ao governo brasileiro, e o Supremo Tribunal Federal emitiu ordem de prisão preventiva para os dois.

RECLUSO, GONZÁLEZ PLANTAVA CHUCHU E TAMBÉM VENDIA OVOS

Agentes do Núcleo de Inteligência da PF gaúcha (representantes da Interpol) souberam que a empresa de González tinha registrado em nome dela um Peugeot 405 vermelho, ano 2005, com placas de Porto Alegre. Apesar de a empresa não operar mais, a Rumonorte seguia pagando o IPVA do carro em dia. A partir de uma multa aplicada ao carro em Viamão, os federais chegaram à propriedade rural em que González vivia no município.

No local, funciona um criadouro de cavalos e uma oficina que fabrica touro sobre rodas, equipamento usado em treinamento de laço. González morava, havia dois anos, em uma antiga casa de alvenaria com três quartos, mobília velha e pátio com piscina abandonada. Vivia sozinho, não recebia visitas e pouco saía. Tratava os vizinhos com gentileza e, com ar de sofrimento, se dizia aposentado. Plantava chuchu, tempero verde, criava galinha, vendia ovos e fazia bicos na oficina do dono do sítio.

Meses atrás, González havia acolhido Salvia. Vindo do Rio de Janeiro com mal de Parkinson, ele não sabia da morte dos pais, os únicos parentes ainda vivos. González dava comida na boca do amigo. Em 17 de junho, Salvia piorou. González o levou ao Hospital de Viamão, mas Salvia chegou lá sem vida. Temendo ser descoberto, González abandonou o colega na hora da morte. Até ontem, o corpo seguia no Departamento Médico Legal à espera de um familiar ou responsável para o sepultamento.

Em 6 de julho, González foi preso. Desarmado, não reagiu. Pegou roupas, um livro espírita, R$ 1,5 mil que tinha em casa e foi levado a uma cela da carceragem da PF em Porto Alegre, à espera da extradição. Demonstrou frieza, sem arrependimentos, e o desejo de ficar preso no Brasil. Conhece as cadeias do seu país e, por ser quem ele é, sabe que não seria bem tratado por lá.

joseluis.costa@zerohora.com.br


27 de julho de 2015 | N° 18239 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

Pirâmides, faraós e SEXO

Acredito que o nosso fascínio com o Antigo Egito começa pelo fato de ele ser antigo pra caramba. Qualquer coisa para cá de 1.000 a.C. para eles já tem sabor de história contemporânea. Pois o canal americano Spike acaba de mostrar a série em três episódios Tut, naturalmente centrada na figura do faraó-menino Tutankamon, que reinou por volta de 1.300 a.C, quando o Egito vivia tempos gloriosos.

Quando Hollywood se dispõe a fazer um drama sobre alguma cultura exótica, pimba, Ben Kingsley é automaticamente convocado, e lá está ele em Tut, com uma maquiagem certamente exótica e um olhar de quem não quer que você, ou ninguém mais, inclusive ele mesmo, saiba o que ele maquina por trás dos olhos cheios de rímel.

E eu acho que isso mais ou menos descreve Tut: uma série histórica sobre um período distante demais para que a gente realmente saiba muito sobre ele. Um grande historiador disse uma vez que “História é 50% suposição e 50% preconceito”, ou algo assim. Muito do que sabemos sobre essas culturas vem dos seus dominadores, que certamente os viam com olhos cheios de preconceito. 

Os antigos egípcios costumam ser pintados como confusos, decadentes, corruptos e propensos a envenenar faraós, mesmo sendo eles filhos do sol, Rá, Amon-Rá, ou algo assim. Na prática, eles dominaram o Nilo e suas enchentes, produziram alimento para comer e exportar, construíram as estruturas mais impressionantes que o mundo já viu, dominaram todos os povos ao seu redor e ainda criaram uma escrita pra lá de visual e iconográfica, que só fomos entender no século 19.

Tut é uma série americana sobre o incompreensível e vale por tentar, ao menos, nos mostrar um pouco do que a vida no Egito deve ter mais ou menos sido, ou não. E é sobre um soberano e sua corte. O Egito é muito mais do que isso, mas também é isso.

Quando passar no Brasil, e a qualquer momento isso pode acontecer, vejam.


27 de julho de 2015 | N° 18239 
DAVID COIMBRA

Quem é a elite perversa de Lula


Lula acha que os governos do PT são criticados e que a popularidade de Dilma é de apenas 7% porque graças a ele, Lula, os pobres agora viajam de avião e comem em restaurantes.

Sério, ele pensa isso.

Sua frase, durante um discurso para 200 pessoas no ABC paulista, no fim de semana, foi a seguinte:

“Eu ando de saco cheio. Tudo que é conquista social incomoda uma elite perversa neste país”.

É estranho. Jurava que a elite amava Lula. Afinal, vejamos:

1. Nunca na história deste país, os banqueiros obtiveram tantos lucros como nos governos do PT;

2. A elite política, representada por Maluf, Sarney, Calheiros, Temer, entre outros, sempre esteve fechada com Lula. Um de seus aliados, Fernando Collor, inclusive, pôde montar uma linda coleção de carros de playboy durante as administrações petistas;

3. Empresários emergentes, como Eike Batista, emergiram de vez graças a generosos empréstimos do BNDES, mesmo que depois tenham submergido;

4. Há vários amigos próximos de Lula morando atualmente no Paraná, todos com sobrenomes famosos, como Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. Um deles até o apelidou, carinhosamente, de “Brahma”.

Esses é que são a elite do Brasil. A elite do Brasil mora em tríplex, como Lula. Roda em Maseratis, como Collor. Tem contas na Suíça, como Odebrecht. Assalariados, como eu e a maioria dos meus amigos, não pertencemos à elite. Mas Lula quer dizer que sim. 

Quer dizer que eu, filho de professora primária e neto de sapateiro, que sustento minha família com meu salário, amigo de aposentados que ganham mil reais por mês, de funcionários públicos que pagam aluguel, de jornalistas que andam de ônibus, Lula quer dizer que eu e toda essa gente que sofre com o desconto do Imposto de Renda, com a falta de água e de luz a cada chuva, com as ruas esburacadas, com os assaltos, com a educação deficiente, com os hospitais lotados e com o preço do tomate, Lula quer dizer que nós somos da elite?

Não somos, Lula. E tampouco nos importamos, eu e todas, absolutamente todas as pessoas que conheço, com pobres que frequentem restaurantes ou aeroportos. Nos importamos é com um país em que os assalariados pagam imposto para ter segurança, saúde e educação públicas e, ao mesmo tempo, pagam por segurança, saúde e educação privadas. Nos importamos é com um país que coloca presos em masmorras medievais, um país em que 60 mil pessoas são assassinadas e outras 50 mil morrem em acidentes de trânsito a cada ano, um país em que são gastos bilhões para construção de estádios em lugares onde praticamente não existe futebol, um país que tem sua principal estatal sangrada em bilhões de dólares pela navalha da corrupção. 

É com isso que nos importamos, nós, que você chama de elite perversa. Nós, elite perversa? Não. Elite perversa são seus amigos magnatas que o levam para passear de jato fretado, são seus intelectuais apaniguados, seus jornalistas financiados, seus donos de blogs comprados, seus parlamentares cooptados. Você, Lula, e os parasitas dos trabalhadores do Brasil, vocês são a elite perversa.


27 de julho de 2015 | N° 18239 
L. F. VERISSIMO

Barbaridades


Sou solidário com o ganso. Também acho uma barbaridade alimentarem o pobre bicho à força para hipertrofiar seu fígado e produzir o (mmmm) “foie gras”. Desculpe, retiro o “mmmm”. É uma barbaridade.

Mas se vamos reprovar o que fazem com o ganso, devemos lembrar também o que fazem com outros animais que nos dão de comer. Os métodos para abater bois nos matadouros não são exatamente humanitários. E o que dizer dos bois mantidos em cativeiro a vida toda, só comendo e crescendo sem sair do lugar, sem ter qualquer vida social, sem conhecer o mundo? A carne excepcionalmente tenra que produzem justifica o sacrifício, mas vá dizer isso ao boi.

E os galetos, galinhas assassinadas antes de chegar à puberdade sem que nenhuma voz se erga contra o infanticídio? E as poedeiras, também condenadas a viver confinadas até morrer, só produzindo ovos, ovos, ovos, sua única razão de ser? 

Camus escolheu o mito de Sísifo, cuja punição por desafiar os deuses foi passar a vida inteira empurrando uma grande pedra para cima de um morro, só para vê-la rolar morro abaixo quando chegava ao topo, como uma representação do absurdo da existência. 

Descontado o ridículo de usar uma galinha poedeira no lugar de Sísifo (perdão, Camus), sua sina é a mesma. Uma vida reduzida a um ovo depois do outro depois do outro. Nenhuma variedade, nenhuma diversão, nenhuma vida sexual, nenhum sentido. Nada. Onde estão os protestos contra a existência absurda das galinhas poedeiras?

Os hortifrutigranjeiros também são coisas vivas, ou eram até chegar no nosso prato. Quem colhe uma fruta ou um vegetal está interrompendo uma vida. Uma colheita, qualquer colheita, não deixa de ser um massacre. Especula-se sobre como seria se as plantas gritassem e gemessem como gente, na perspectiva de serem arrancadas do seu chão para virar comida. 

E se as árvores dissessem “Ai, ai, ai” ao som de uma serra elétrica, ou uivassem de dor ao serem cortadas? Imagine uma grande plantação de trigo ou soja rebelando-se e gritando “Não! Não!” à aproximação das colheitadeiras.

Não à maldade que fazem com o ganso para podermos comer seu fígado gordo. Mas, pensando bem, comer qualquer coisa – salvo, talvez, iogurte natural – é uma barbaridade.

domingo, 26 de julho de 2015



FERREIRA GULLAR

As boas e as más intenções


Não há sentido em alguém ganhar milhões de dólares por hora enquanto outros mal ganham para sobreviver

Numa coisa Karl Marx estava certo: o capitalismo é um regime de exploração. Mas daí partiu para uma conclusão errada: só o trabalhador produz riqueza e o capitalista só explora. Não é verdade, e essa conclusão errada foi responsável pelo fracasso dos governos comunistas, que excluíram a iniciativa privada –ou seja, o empreendedor– e puseram em seu lugar meia dúzia de burocratas do partido, incapazes de gerir até mesmo uma quitanda.

É curioso que ninguém se tenha dado conta disso, a começar pelo próprio Marx, homem culto e de rara inteligência. Talvez a razão de tal equívoco tenha sido o caráter selvagem do capitalismo do século 19, que explorava os trabalhadores sem qualquer escrúpulo.

Marx via os capitalistas, portanto, como cruéis exploradores que não mereciam participar da sociedade igualitária do futuro, a qual, segundo ele, seria governada pela ditadura do proletariado. O que, aliás, nunca aconteceu nem podia acontecer, uma vez que, a começar por ele, quase todos os líderes revolucionários de esquerda eram de classe média.

Chego a pensar que tampouco a classe operária sonhada por Marx era revolucionária. O operário não só não tinha conhecimento dos problemas da sociedade como temia perder o emprego, uma vez que não lhe restaria outro meio de sobrevivência.

Ele era pobre, o irmão era pobre, o pai era pobre. Já o cara de classe média, se perdia o emprego, tinha o pai para socorrê-lo ou algum outro parente. Por isso o operário pensava duas vezes antes de se meter em encrenca. Tanto isso é verdade que, em nenhum país desenvolvido, a revolução operária aconteceu. Nos Estados Unidos, que possuíam a maior classe operária do planeta, o partido comunista nunca teve qualquer importância.

A verdade é que, se sem o trabalhador não há produção, sem o empresário também não há. Neste momento, aqui mesmo no Brasil, há milhões de pessoas inventando agora pequenas empresas, médias empresas, grandes empresas, que vão promover o crescimento econômico do país, gerar empregos e riqueza.

Mas não é o empresário que, sozinho, vai pôr sua empresa para funcionar; precisa do trabalhador. O problema é que a riqueza produzida assim é mal dividida: o patrão fica com a parte do leão. Daí a desigualdade que caracteriza a sociedade capitalista e que, se já não é a mesma que no século 21, tampouco conseguiu eliminar a pobreza, mesmo em países desenvolvidos.

Está errado, mas também não estaria certo todo mundo ganhar a mesma coisa, uma vez que as pessoas têm capacidades diferentes. Nem todo mundo é Bill Gates ou Pelé ou Picasso. Tampouco tem sentido alguém ganhar milhões de dólares por hora enquanto outros mal ganham para sobreviver.

A conclusão a tirar de tudo isso, conforme penso, é que, se o regime capitalista tem a virtude de produzir riqueza, é uma riqueza desigualmente dividida. A conclusão inevitável é que devemos batalhar por uma divisão menos injusta possível.

Inteiramente justa, jamais o conseguiremos, porque, como se viu, a própria natureza é injusta, cria pessoas com capacidades desiguais. A justiça é, portanto, uma invenção humana e, por isso mesmo, depende das pessoas e das instituições para acontecer de fato.

Mas não é assim que pensam certos políticos que decidiram pôr, no lugar do marxismo extinto, um populismo dito de esquerda, que se vale da referida desigualdade social para ganhar o apoio dos mais pobres para chegar ao poder e pôr em prática programas assistencialistas, que não resolvem os problemas; pelo contrário, os agravam, como ocorre hoje na Venezuela, na Argentina e no Brasil. Não há exagero, portanto, em apontar o caráter demagógico do populismo que, chegado ao governo, faz o contrário do que prometeu.

É possível até que, em alguns casos, acreditem, na sua visão equivocada, que têm a solução dos problemas, mas, na hora de enfrentá-los, veem que, nesse campo, milagres não acontecem. O resultado é o desastre, de que é exemplo o governo Dilma no Brasil.

Mas esse populismo está sendo desmistificado pela realidade dos fatos, como ocorreu agora mesmo na Grécia, onde o premiê Alexis Tsipras teve que fazer exatamente o contrário do que prometeu para chegar ao poder: submeteu-se às imposições dos credores.


MAURICIO STYCER


No país das novelas


Mesmo com 16 folhetins à disposição, o espectador nunca viu um momento tão pobre na teledramaturgia
A grande novidade na televisão brasileira nesta semana é a estreia, na segunda-feira (27), de três reprises de novelas –duas na Record ("Dona Xepa" e "Prova de Amor") e uma na Globo ("Caminho das Índias").

O espectador fã do gênero passa a contar, assim, com 16 novelas por dia na grade da TV aberta –talvez um recorde brasileiro. A Globo lidera o ranking com sete produções (incluindo "Malhação", no ar há 20 anos).

O SBT vem em segundo lugar, com cinco novelas –uma delas, a mexicana "A Usurpadora", está sendo exibida pela sexta vez. A Record com três e a Band com uma completam o rol.

Quantidade, naturalmente, não é sinônimo de qualidade no país das novelas. Ao contrário, tenho a impressão de que há muito tempo não se vive um momento tão pobre na teledramaturgia brasileira.

Com o fim de "Sete Vidas", em 10 de julho, a paisagem se tornou ainda mais desoladora. Para além dos clichês e truques obrigatórios, a novela de Lícia Manzo conseguia manter o espectador em permanente estado de atenção por conta de seus diálogos densos.

Fundada muito mais em conversas do que em ação, a história teve o mérito de apresentar personagens de carne e osso, confusos, contraditórios e hesitantes em suas relações pessoais e profissionais.

É sintomático que "Sete Vidas" tenha sido substituída por um dramalhão clássico. "Além do Tempo" é uma novela de época de linhagem espírita. Encerrada a primeira fase, que se passa no século 19, os personagens do passado viverão uma nova vida nos dias atuais.

Apesar da produção impecável e do bom elenco (com destaque para Irene Ravache), não vi até agora uma situação surpreendente, um diálogo inesperado ou algum tipo mais complexo na história de Elizabeth Jhin. Muito pelo contrário. Tudo tem gosto de déjà-vu.

Aliás, pensando em todas as novelas a que assisto com alguma regularidade, só consigo me lembrar de duas personagens que fogem ao padrão binário hoje dominante (bom ou mau, herói ou vilão, todos retos e sem dúvidas).
Estou falando de um universo que inclui as quatro produções originais da Globo ("Além do Tempo", "I Love Paraisópolis", "Babilônia" e "Verdades Secretas"), a da Record ("Os Dez Mandamentos") e a infantil do SBT ("Chiquititas").

Giovanna (Agatha Moreira) e Arlete/Angel (Camila Queiroz), duas adolescentes, se destacam em meio a uma história escrita quase sempre com mão pesada por Walcyr Carrasco. Uma rica, a outra de origem humilde, elas oferecem uma visão muito diferente do universo adolescente habitualmente descrito pela TV no Brasil.
Cada uma à sua maneira, ambas são inteligentes, mas perdidas, confusas e inconsequentes em seus atos. Consomem drogas, bebem, fazem sexo por prazer e por dinheiro. Estou simplificando, mas quem vê a novela já deve ter se dado conta de que as duas são personagens complexas, que provocam e fazem o espectador pensar.

Os idiotas da objetividade dirão que isso só é possível porque "Verdades Secretas" é exibida por volta das 23h. A questão é outra. É possível fugir da obviedade e da simplificação barata em qualquer horário, com qualquer tema.

O atual rebaixamento no padrão, acho, se dá por dois motivos. Enquanto parte da audiência fugiu em busca de produtos mais qualificados, as emissoras parecem não confiar na capacidade de compreensão do público que ficou.


ELIO GASPARI

As meninas de Santa Leopoldina


Quando tudo parece dar errado, Fábia, Fabiele e Fabíola mostraram o vigor do andar de baixo de Pindorama

Há algumas semanas, havia um pedágio na entrada da cidade de Santa Leopoldina (800 habitantes), na região serrana do Espírito Santo. Jovens pediam dinheiro aos motoristas para ajudar a pagar a viagem das trigêmeas Fábia, Fabiele e Fabíola Loterio ao Rio. Filhas de pequenos agricultores da zona rural próxima a Vitória, elas iriam a uma cerimônia no Theatro Municipal para receber as medalhas de ouro e prata que conquistaram na 10ª Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas. Fábia e Fabiele empataram no primeiro lugar e Fabíola ficou em segundo entre os concorrentes capixabas.

Matematicamente, coisas desse tipo talvez aconteçam uma vez a cada milênio, mas as meninas de Santa Leopoldina ofenderam várias outras vezes a lei das probabilidades. O pai, Paulo, cursara até o 2º ano do ensino fundamental, a mãe, Lauriza, foi até o 4º. Vivem do que plantam, numa casa sem conexão com a internet. A roça de 18 hectares de hortaliças, legumes e eucaliptos da família fica num município de 12 mil habitantes, cujo PIB per capita está abaixo de R$ 1 mil mensais.

Numa época em que tudo parece dar errado, apareceram as meninas de 15 anos de Santa Leopoldina. Elas são um exemplo do vigor do andar de baixo de Pindorama e da eficácia de políticas públicas na área de educação.
Assim como o juiz Sergio Moro decifra a origem das petrorroubalheiras do andar de cima, pode-se pesquisar a origem de um sucesso do andar de baixo.

As trigêmeas de Santa Leopoldina tiveram o estímulo dos pais. Antes delas, educou-se Flávia, a irmã mais velha. Estudou na rede pública e formou-se em enfermagem com a ajuda de uma bolsa de estudos integral. (Aos 23 anos, ela hoje faz doutorado em Biotecnologia na Universidade Federal do Espírito Santo e trabalha no projeto de um equipamento robótico para pessoas que sofreram AVCs.) Ainda pequenas, as quatro brincavam de estudar. Flávia foi a primeira jovem da região a entrar para uma faculdade.

Há dez anos, o professor César Camacho, diretor do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o IMPA, levou a ideia da olimpíada de escolas públicas ao então ministro de Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos. Lula comprou-a e hoje ela é a maior do mundo, com 18 milhões de participantes. O programa administra não só o exame, como a concessão de bolsas aos medalhistas. Custa R$ 52 milhões por ano. Nunca foi tisnado por um fiapo de irregularidade, mas raramente recebe o devido reconhecimento.

As trigêmeas começaram a competir quando cursavam o 6º ano do ensino fundamental. Em 2012, Fabíola conseguiu uma medalha de bronze e uma vaga no Programa de Iniciação Científica, com direito a uma ajuda de R$ 1.200 anuais e reuniões periódicas em Vitória. No ano seguinte, Fabiele ganhou a bolsa do PIC e Fábia conseguiu a sua indo assistir às aulas com as irmãs. Viajavam no velho caminhão do pai.

Todas três ingressaram no Instituto Federal do Espírito Santo, onde cursam o ensino profissionalizante em agropecuária e vivem no campus da instituição, em Santa Teresa. Passam a maior parte do tempo na biblioteca e há pouco procuraram professores, interessadas em conhecer o currículo do ano que vem. Para receber suas medalhas, as irmãs entraram pela primeira vez num avião.
As trigêmeas de Santa Leopoldina são um produto da força de vontade de cada uma, do estímulo dos pais, do sistema público de ensino, de políticas bem sucedidas e de uma professora que estimula seus alunos, Andréia Biasutti.

OS LARÁPIOS DE SANTA LEOPOLDINA

Em 2010, Fábia, Fabiele e Fabíola estavam no 5º ano do ensino fundamental. O PIB do munícipio de Santa Leopoldina era de R$ 56,5 milhões de reais, ou US$ 34 milhões. Ou seja, tudo o que seus 12 mil habitantes (inclusive a família Loterio) produziam cabia nas propinas recebidas por Pedro Barusco e ainda sobravam ao petrocomissário US$ 12 milhões.

O andar de cima de Santa Leopoldina seguia os manuais das oligarquias. Em abril daquele ano, o promotor Jefferson Valente Muniz abriu uma investigação para apurar roubalheiras no município e denominou-a Operação Moeda de Troca. Em cinco meses, botou onze pessoas na cadeia. Eram políticos, empresários e servidores que haviam desviado cerca de R$ 28 milhões dos cofres públicos, ervanário equivalente a um ano de arrecadação municipal. 

Na cabeça da quadrilha, estava o poderoso empresário Aldo Martins Prudêncio, irmão de Ronaldo, o prefeito da cidade. Viciavam licitações e inventavam emergências para favorecer fornecedores. Mordiam onde podiam, de aluguel de carros a compras de material escolar, de rodeios a eventos do Carnaval. A apresentação de uma cantora contratada por R$ 5 mil custava à prefeitura R$ 15 mil. A certa altura a prefeitura chegou a ensaiar o aluguel de um carro de luxo, com computador a bordo.

Ronaldo Prudêncio foi afastado pela Câmara Municipal. Mesmo com sete ações por improbidade nas costas, manobra seu retorno ao cargo. O promotor Jefferson comeu o pão que o Tinhoso amassou, sendo obrigado a responder a um processo junto ao Conselho Nacional do Ministério Público. A defesa da quadrilha dizia que utilizara provas obtidas ilegalmente.

Em junho passado, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo manteve as condenações da quadrilha, expandindo-lhe as penas. O doutor Aldo Prudêncio tomou sete anos. Outros nove pegaram de três a cinco anos. Como diria a doutora Dilma, "todos soltos", pois recorrem em liberdade.

Do jeito que estão as coisas, há gente pensando em fugir da crise brasileira para tentar a vida lá fora, talvez em Miami. Pode-se pensar em Santa Leopoldina. Além da Operação Moeda de Troca e das trigêmeas Loterio, o município tem um só carro para cada seis habitantes, clima de montanha e 12 cachoeiras.

sábado, 25 de julho de 2015



26 de julho de 2015 | N° 18238 
PAULO FAGUNDES VISENTINI

Os grandes desertos britânicos I: Canadá


O Império britânico colonizou regiões em volta de todo o planeta e originou duas grandes nações desérticas, o Canadá e a Austrália. O Canadá é a segunda nação mais extensa do mundo, uma vastidão fria de 9,9 milhões de quilômetros quadrados, mas com apenas 35 milhões de habitantes, 90% concentrados na fronteira com os Estados Unidos. O vale do Rio São Lourenço e os Grandes Lagos são o coração do país e sua zona povoada. O centro é coberto de lagos e pinheiros, evoluindo para a tundra ao norte e o gelado arquipélago do Oceano Ártico. No oeste há as férteis pradarias e as impactantes montanhas Rochosas.

A origem do país remonta à longa luta entre ingleses e franceses, que foram os primeiros colonizadores europeus no Canadá. Em 1763, Quebec foi tomada pelos britânicos, mas eles perderam as 13 colônias americanas vinte anos depois. Interessante, um terço dos colonos americanos lutou ao lado da Inglaterra e, depois da independência, emigrou para o quase despovoado Canadá. Durante a luta pela independência, a jovem república americana tentou anexá-lo, e outra vez em 1812, mas fracassou.

Assim, a independência dos EUA também deu origem ao Canadá inglês, cuja fronteira foi fixada com a linha reta do paralelo 49. Mas os canadenses sempre temeram os poderosos vizinhos e atraíram colonos britânicos ao se expandir para o Pacífico. Os russos, rivais dos ingleses, venderam o Alasca aos americanos em 1867, para não perdê-lo, em mais um lance da rivalidade entre irmãos. Os ciclos do ouro e do trigo atraíram ainda mais povoadores, e a ferrovia transcontinental Canadian Pacific foi completada em 1888. Em 1907, o país se tornou um Domínio autônomo na Commonwealth, e sua prosperidade econômica e Estado de bem-estar social atraiu outros colonos europeus.

Mas com o tempo, surgiram rivalidades internas: o nacionalismo separatista do Quebec (mesmo com a adoção do bilinguismo) e a reivindicação autonomista de indígenas e esquimós (que já têm sua reserva no norte, Nunavut). A indústria sempre sofreu a concorrência norte-americana, mas o país também exporta minérios, gás, petróleo, trigo e madeira. Todavia, o Canadá padeceu economicamente com o neoliberalismo ao aderir ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte e, politicamente, com o enfraquecimento do governo federal em detrimento das províncias, o que aumenta o risco de separatismo.

A imigração atual é dominada por asiáticos, latinos e caribenhos, incentivada para compensar a emigração (frio glacial e falta de empregos), especialmente de trabalhadores qualificados. O perfil demográfico está mudando rapidamente e a região Atlântica estagnou, enquanto a Colúmbia Britânica, no Pacífico, é mais dinâmica. O país é um grande destino turístico, com a mescla de cultura inglesa (também francesa e nativa) e de paisagem rústica americana. Mas, cuidado, nada ofende mais a um canadense do que ser confundido com americano!


26 de julho de 2015 | N° 18238 
ANTONIO PRATA

The day after

ET – E acabou por que? 

Último Remanescente da Humanidade – Resumindo bem, a Terra esquentou muito e a gente, tipo, cozinhou.

ET – Ah... Foi meteoro? Vulcão? Gigante Vermelha?

URH – Não, no caso, foi vacilo, mesmo. A gente queimou petróleo, muito petróleo, até o mundo virar uma sauna seca.

ET – E queimaram petróleo pra que?

URM – Pra se locomover, basicamente. A gente criou umas caixas de metal que queimavam petróleo e te levavam de lá pra cá, sem você ter que cansar as pernas.

ET – E vocês iam de lá pra cá, pra que? Pra fugir de predadores?

URH – Não, não. Os predadores viraram bolsa e tapete bem antes. A gente queimava petróleo pra ir e voltar do trabalho, da padaria, do posto, onde a galera ia encher a caixa de metal com mais petróleo e fazer uma social na lojinha, tomando Skol latão.

ET – E por que vocês não iam a pé pro trabalho, pra padaria, pro posto, fazer social na lojinha, tomando Skol latão?

URH – Porque todo mundo se aglomerava numas cidades enormes e acabava ficando meio longe do trabalho, da padaria, do posto.

ET – E por que vocês não se dividiam em cidades menores, onde dava pra fazer tudo a pé?

URH – Porque nas cidades enormes tinha mais possibilidade de trabalhar e de ganhar dinheiro pra poder comprar uma caixa de metal maior e mais cara, que gastasse mais petróleo.

ET – E por que alguém quereria isso?

URH – Porque dava status e status era tudo. No trabalho, na padaria, no posto, neguinho via tua caixona de metal, capaz de ir a 240 KM/H e dizia: “pô, ó o cara!”.

ET – Nossa, olhando esses escombros, agora, nem dá pra imaginar que por aqui passavam caixas de metal a 240 quilômetros por hora.

URH – Não, na verdade, não era assim, não: como eram muitas caixas de metal e todos queriam se locomover ao mesmo tempo, ficava tudo engarrafado. Nos horários de pico a média era de de oito quilômetros por hora.

ET – Ué, até onde eu sei, com as pernas vocês podiam ir mais rápido que isso, não?

URH – Poder, podia. Mas a gente preferia ir devagarinho na caixa de metal, com os vidros fechados, ar condicionado e insulfilm, de boa, ouvindo notícias sobre o trânsito e tirando meleca do nariz.

ET – Tirando meleca do nariz? Dava algum prazer físico, isso?

URH – Dava um prazer medíocre. E uma culpinha, também. Prazer mesmo dava era o sexo, mas no fim ninguém mais tinha tempo pro sexo, porque tava ou trabalhando que nem louco pra comprar uma caixa de metal, ou parado dentro da caixa de metal, por horas, tentando chegar ao trabalho, onde trabalharia que nem louco pra comprar outra caixa de metal.

ET – Então vocês todos morreram porque gostavam de ficar parados em caixas de metal que queimavam petróleo pra levar vocês de lá pra cá a uma velocidade inferior a das próprias pernas?

URH – É. Por causa disso, das bandejinhas de isopor e de umas pessoas que insistiram até o fim em empurrar folha na calçada com o esguicho.

ET – Oi?

URH – Esquece. Podemos falar de outro assunto? E lá de onde cê vem, é bonito? Fresquinho? Tem praia?








26 de julho de 2015 | N° 18238 
MOISÉS MENDES

Só falta um rei



Vivemos tempos de logros diversos. O árbitro do futebol talvez esteja comprado. A Fórmula-1 é uma encenação e pode ser adquirida por investidores chineses. O futebol é gerido por uma máfia e seus membros só correm o risco de prisão na Suíça. O leite é adulterado. A velocidade da sua internet não é a que foi contratada. Em quem, afinal, você confia?

Não há confiança de consenso nem mesmo em torno da Operação Lava-Jato. Desconfiam da Polícia Federal, que desconfia do Ministério Público. Quem confia no juiz Sergio Moro? Petistas não confiam. Tucanos confiam demais.

Quem passou a confiar no Tribunal de Contas da União, como instituição capaz de apontar delitos graves no comportamento do Tesouro? Por que as tais pedaladas eram prática de governo por tanto tempo, mas só agora se fala delas?

Por que o TCU virou protagonista da política? Você acredita que o TCU é um órgão técnico que repentinamente decidiu fazer seu marketing como guardião independente da moralidade? E, no Tribunal Superior Eleitoral, você confia? O Tribunal poderá determinar que as contas da campanha de Dilma Rousseff são irregulares, se acolher recurso do PSDB. E você confia nas contas do PSDB? Acha que o TSE pode ser isento e determinar a cassação de Dilma?

E, na Polícia Federal, no MP e na Justiça, você confia? Você acha que os delegados que insultavam o PT, Lula e Dilma pelas redes sociais – e ao mesmo tempo trabalhavam na Lava- Jato e exaltavam Aécio – podem conduzir o caso até o fim?

Você é dos que desconfiam que os procuradores do caso são tucanos? E que o juiz Moro irá restringir suas ações ao período do governo petista e a personagens ligados ao PT na Lava- Jato? Fora a torcida tucana dos policiais federais, mostrada em detalhes em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo após a eleição, nada há de concreto contra os procuradores e o juiz Moro. Mas há desconfianças. Por quê?

Porque há o medo da parcialidade, o sentimento que se manifestou depois do julgamento do mensalão pelo Supremo, quando a reparação que condenou a gangue petista não se reproduziu para a quadrilha tucana de Minas (com investigados, indiciados e denunciados até agora impunes).

Em 1996, o americano Francis Fukuyama tentou se redimir, depois do anúncio do fim da História – quando previu que os valores da democracia e do liberalismo ocidentais enfim prevaleceriam no mundo –, e publicou Confiança – As Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade (Editora Rocco).

O liberal Fukuyama sustenta, com exemplos, que uma sociedade prospera com um bom alicerce de confiança social construído ao longo do tempo, e não pela efetividade de normas e leis formais. É a coesão entre as pessoas que forma o capital social e suas normas não escritas. Quanto mais uma sociedade confia nela mesma e nas instituições, menos depende da imposição das leis. Americanos, alemães e japoneses seriam os melhores exemplos. É, como se dizia antigamente, livro de pegar e não largar.

Exageram os que consideram Fukuyama o Paulo Coelho da ciência política com lantejoulas de filosofia. É provável que estejamos precisando disso mesmo, enquanto desconfiamos dos que se ocupam das nossas instituições.

Francis Fukuyama pode nos ajudar a entender por que o TCU passou a ser tão poderoso, o TSE pode cassar a presidente e alguns defendem até a volta da monarquia. Era só o que faltava: um rei, bem corado, que nos distraia com as nossas desconfianças.



26 de julho de 2015 | N° 18238 
CARPINEJAR

Quando nevar em Porto Alegre

Todos os amigos e familiares me questionam quando voltarei a sair, a aceitar convites, a me alegrar, a oferecer chance e paciência para outras mulheres.

Todos me perguntam quando desistirei de amá-la, que já passou o tempo de luto, que está na hora de encontrar alguém, que venho exagerando na cena e no drama, que é patético sofrer platonicamente na minha meia-idade.

Eles pedem uma resposta, eu dou: somente não vou mais amá-la quando nevar em Porto Alegre.

Antes, nunca. Não mudo de ideia com tempestade de granizos, furacões, tornados. Porque somos raros como a neve na capital gaúcha.

Deixarei de amá-la só quando Porto Alegre amanhecer coberta de branco. Coberta totalmente. E que não seja a neve granular de 1879, 1910, 1994, 2000 e 2006. E que a geada seja mais longa do que os trinta minutos de 1984, que dure algumas noites e alguns dias, que amplie o nosso entendimento do silêncio e da solidão, que aumente a gramatura da saudade e do suspiro.

Eu desistirei de nosso amor quando enxergar o viaduto da Borges coberto de branco, o Parque Marinha do Brasil coberto de branco, os telhados do Menino Deus cobertos de branco. Só quando as torres e a cúpula da Catedral Metropolitana trocarem a brancura cinzenta das pombas pela palidez do nevoeiro.

Só quando as cerejeiras e os plátanos penderem folhas de cristal e vidro em seus galhos. Só quando a dupla Gre-Nal cancelar os jogos no Beira-Rio e na Arena pelo mau tempo.Só quando suspenderem os passeios de pedalinho no lago da Redenção.

Só quando o Guaíba congelar suas margens. E o crepúsculo pedir emprestado vermelho para as nuvens. Só quando as crianças escreverem palavrões de gelo nos para-brisas dos carros.

Só quando os pais emprestarem suas mantas para os bonecos de neve dos filhos. Só quando não decifrar meio palmo em minha frente no momento de sair de casa.

Só quando uma vassoura não for suficiente para limpar a entrada das garagens. Só quando tiver a obrigação de me segurar nos corrimões das escadas para não escorregar.

Só quando tivermos compaixão do guarda-chuva e das galochas. Eu abandono o nosso amor quando nevar em Porto Alegre. Antes, nunca. Só vou deixar de amá-la quando Porto Alegre estiver coberta de branco.

Quando Porto Alegre virar a minha noiva, e daí a minha dor casará para sempre com a minha cidade.

26 de julho de 2015 | N° 18238 CLÁUDIA LAITANO
MARTHA MEDEIROS 
ESTÁ EM FÉRIAS ATÉ O DIA 2 DE AGOSTO

Por que amamos Audrey

Atriz conseguiu associar sua imagem

a valores que ultrapassaram sua juventude e mesmo sua própria vida


Ela aparece em todas as listas das estrelas mais bonitas de todos os tempos, mas beleza, elegância e charme, isolados, não explicam o mistério de sua permanência no imaginário de fãs do mundo todo há tanto tempo. Mais de 20 anos depois de sua morte, referências a Audrey Hepburn (1929 - 1993) são ainda frequentes na moda, no cinema, na TV, em livros de etiqueta, manuais de maquiagem, publicidade em 2013, uma versão computadorizada assustadoramente convincente da atriz estrelou um comercial de chocolate.

“Algumas pessoas morrem e deixam para seus filhos um restaurante, uma loja de sapatos, um hotel, e a cada vez que o filho passa por aquela porta giratória do hotel ele enxerga seu pai, esse tipo de coisa. Eu aprendi que posso caminhar por qualquer local do mundo que haverá uma foto da minha mãe, e tenho certeza de que também é assim no Brasil”, disse Sean Ferrer, 55, em entrevista concedida há poucas semanas ao ator e roteirista brasileiro Octavio Caruso (“Sim, no meu quarto, por exemplo, tem uma foto dela, que estou vendo nesse momento”, respondeu na hora o entrevistador).

Filho mais velho da atriz e responsável por administrar a ativa carreira póstuma da mãe, Ferrer conta na entrevista que a estrela que estreou no cinema fazendo o papel de um membro da realeza europeia (A Princesa e o Plebeu) envergonhava-se por não ter podido completar os estudos, interrompidos durante a II Guerra. Para compensar as limitações do ensino formal e para se sentir mais segura como atriz, tornou-se uma leitora aplicada. Estudava em profundidade tudo que envolvia o universo dos personagens que interpretava e, mais tarde, como embaixadora da Unicef, dedicou-se com o mesmo empenho a conhecer a realidade de cada país que visitou.

As mulheres mudaram muito desde os tempos em que as personagens de Audrey Hepburn andavam de lambreta pelas ruas de Roma ou tomavam café da manhã em frente à joalheria Tiffany’s. Muitas estrelas da geração dela projetaram uma imagem de feminilidade que se tornou anacrônica ou perdeu o diálogo com as novas gerações: Marilyn Monroe era a diva exuberante, mas dependente e frágil, Grace Kelly era a musa sofisticada, mas inacessível.

Audrey Hepburn conseguiu associar sua imagem a valores que ultrapassaram sua juventude e mesmo sua própria vida. Um sentido de elegância muito próprio que não vinha das roupas ou do sex appeal. Algo que parece se nutrir de delicadeza, simplicidade e de uma conexão genuína com tudo e todos a sua volta. Atributos que as pessoas podem admirar como um ideal – mas que não são essencialmente inatingíveis.









RUTH DE AQUINO
24/07/2015 - 20h44 - Atualizado 24/07/2015 20h53

O destrambelhado Cunha


“Existe alguém mais arrogante do que eu?”, deve perguntar Dilma a seu espelho. “Sim!”, responde o espelho

Às vésperas das manifestações de agosto, às voltas com o “ajuste do ajuste” e o “arrocho do arrocho”, a presidente Dilma Rousseff ganha enfim um trunfo: a exposição de seu maior adversário. Ele se chama Eduardo Cunha, o destrambelhado presidente da Câmara. Em seu quarto, diante da penteadeira, Dilma deve se perguntar: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais arrogante do que eu?”. “Sim”, responde a voz do espelho.

É inaceitável a pressão de Cunha sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) para afastar da condução da Operação Lava Jato o juiz federal Sergio Moro. Cunha não gostou de ter vindo a público a delação que o envolveu em recebimento de propina milionária, em dólares, por contratos de navios-sonda assinados pela Petrobras. Tem direito de não gostar. Mas pedir a cabeça de Moro e exigir que a ação na Justiça Federal do Paraná corra em sigilo e seja conduzida pelo Supremo porque ele, Cunha, tem foro privilegiado... isso é moralmente discutível. No mínimo.

Também é inaceitável que, em seu rompante de diva, acreditando mesmo protagonizar a oposição a Dilma, Cunha tenha “rompido” com o governo federal. Esqueceu que é do PMDB e que faz par caipira com o presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos detentores dos implantes capilares mais vistosos do Congresso? Não temeu desgostar Temer – o vice-presidente mais quietinho da história contemporânea? Ignorou seu cargo de presidente da Câmara e partiu para o vale-tudo, em vez de jogar xadrez? Isolou-se no mesmo dia em que o Congresso entrava em “recesso branco” de duas semanas, suspendendo todos os debates e trabalhos? Um desastre.

Tudo inaceitável. Mas previsível, para quem acompanha Cunha desde que presidiu a Telerj (entre 1991 e 1993) no governo de Fernando Collor, filiado ao PRN (Partido da Reconstrução Nacional) e ligado a PC Farias. Normal, não? Filiou-se ao PPB (Partido Progressista Brasileiro) em 1994. Cunha se uniu ao líder evangélico Francisco Silva, com quem trabalhou na Rádio Melodia. Um comunicador. 

Tornou-se aprendiz e afilhado fiel de Anthony Garotinho. Presidiu a Cehab (Companhia Estadual de Habitação) para Garotinho e foi demitido, em 2000, acusado de fraudes em contratos assinados em sua gestão. Foi eleito deputado pelo PPB em 2002 e, depois, pelo PMDB. Safou-se de todas as acusações e sindicâncias contra ele até hoje no exercício do poder – licitações irregulares, desvios, achaques, favorecimentos. Responde a tudo em seu site. Ataca ferozmente quem o denuncia. Uma de suas frases mais conhecidas é: “O povo não está nem aí para o que eu digo, só pega a última frase”.

Quando eu dirigia o jornal carioca O Dia, em agosto de 1996, pude perceber como Cunha agia ao se sentir acuado. O episódio era prosaico. Não havia crime. Ex-presidente da Telerj nesse tempo – e fonte assídua e ardorosa de jornalistas –, Cunha foi parar com a ex-mulher, Cristina Dytz, numa delegacia da Barra da Tijuca, no Rio. O motivo tinha sido uma briga de casal. Vizinhos chamaram a PM porque Cunha estaria, aos gritos, tentando entrar no apartamento do condomínio em que Cristina morava com os filhos, sob o pretexto de apanhar documentos. 

Cunha tinha 38 anos, morava num apart-hotel, estava com a perna engessada e, segundo se apurou, não queria pagar a pensão mensal de R$ 18 mil para ela e os três filhos, depois de 12 anos de união. A PM levou o casal para a delegacia, com seus advogados, e o jornal publicou uma matéria curta. Até aí, nada. Mas Cunha fez de tudo para impedir a publicação. Telefonou primeiro para um editor, depois telefonou para o dono do jornal. A reportagem saiu. Cunha travou com o jornalista um diálogo pesado ao telefone. E o levou à Justiça. Perdeu, porque nada havia ali que configurasse difamação ou injúria. Apenas fatos.

Por seu temperamento e seu histórico de desavenças, Cunha é, portanto, o opositor “ideal” de Dilma porque joga a presidente e Lula nos braços de uma oposição mais sensata. Não é de espantar que Lula, às vésperas de manifestações convocadas para agosto, pró e contra Dilma, se aproxime do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Um Cunha em inferno astral, isolado pelo próprio PMDB, é tudo que Dilma precisa para tirar o holofote de cima da inflação de dois dígitos, do desemprego, do corte de R$ 3,4 bilhões no programa de creches e pré-escola, da meta que não convence, das contas que não fecham.

Há quem peça, no Congresso, a renúncia de Cunha até que seja apurado seu envolvimento na Lava Jato. Enquanto isso, Dilma vai ao Nordeste para vender um Brasil que não existe a eleitores que também não existem mais.


25 de julho de 2015 | N° 18237 
NÍLSON SOUZA

GUTENBERG E OS ANALFABETOS


O incansável Caco Barcellos e sua equipe do Profissão Repórter mostraram nesta semana como vivem alguns dos 13 milhões de analfabetos brasileiros, homens e mulheres que enfrentam com dificuldade e constrangimento o cotidiano de uma sociedade organizada em torno das letras. 

Ninguém deveria se sentir envergonhado por não saber ler, até mesmo porque as pessoas que cresceram sem decifrar os códigos da leitura e da escrita, em sua maioria, esbarraram na falta de oportunidades e de estímulos. Mas a verdade é que o analfabetismo exclui. Na prática, iletrados viram cidadãos de segunda classe, ficam mais tempo desempregados, são menos valorizados no trabalho, têm dificuldade para se comunicar e até mesmo para fazer compras ou se deslocar sozinhos pela cidade.

O mundo é hostil com os analfabetos e eles, invariavelmente, se defendem com retração e pequenos truques. Outro dia, contratei um excelente faz-tudo para pintar o telhado da minha casa. Na hora de pagar o homem, fiz um recibo e pedi para ele assinar. Ele perguntou se a assinatura não podia ser do seu filho, que tinha a letra mais bonita. Imediatamente, me dei conta da situação e desisti do papel.

A tecnologia, infelizmente, não está ajudando a resolver o problema. Embora faça uso de símbolos e ícones que de certa forma nos remetem à era pré-escrita, os equipamentos só funcionam com quem sabe ler e escrever, com quem domina senhas e aplicativos, com quem consegue se comunicar pelas redes sociais – lendo, digitando e arrematando com emoticons. E agora temos também os analfabetos digitais.

O parênteses de Gutenberg pode estar se fechando, como previu o professor britânico Thomas Pettitt, autor da polêmica tese do retorno da humanidade à cultura da transmissão oral do conhecimento. Porém, se estamos “falando pelos dedos”, que é a justificativa central de sua tese, só o fazemos porque sabemos ler e escrever.

Acho que ainda não podemos dispensar essa competência. Mesmo que os livros e os jornais desapareçam no formato impresso, as letras sobreviverão no universo virtual, pois são elas que dão sentido à civilização. A escrita nos tornou mais humanos – ainda que as dificuldades e as humilhações relatadas pelos analfabetos da reportagem desautorizem esta conclusão.


25 de julho de 2015 | N° 18237
ARTIGOS - ESTHER PILLAR GROSSI*

FALÁCIA E BASE CURRICULAR PARA O BRASIL

Sem Campos Conceituais, uma base curricular comum para todo o Brasil vai ser mais uma falácia.

Detalhar claramente, ano a ano, conhecimentos que todos os alunos têm direito de aprender, sem compreender como é que eles podem aprender de verdade, vai ser mais um incentivo à memorização imediata e transitória, sem a compreensão, que é o que interessa e que é estável e permanente.

O que as comunidades científicas mais atualizadas sabem sobre a construção, por exemplo, dos primeiros conhecimentos matemáticos.

No ensino convencional, os conhecimentos previstos são ordenados linearmente. Primeiro os números (contagem, leitura e escrita de numerais), depois adição, depois subtração, mais tarde multiplicação e por último a divisão. De acréscimo, formas geométricas, sobretudo planas (quadrado, triângulo, círculo...).

A primeira operação aritmética pela qual alguém começa a aprender matemática é a divisão, e não a adição.

Muito cedo, e muitas vezes, as pessoas se defrontam com a necessidade de repartir coisas. Uma criança que tenha três balas e receba mais uma não tem nenhum problema matemático real para resolver. Mas se ela tiver que repartir irmãmente três balas com outra criança, aí, sim, ela tem pela frente um desafio de âmbito matemático, que ultrapassa até a esfera dos números inteiros, exigindo os fracionários, pois ela terá que dar uma bala e meia para cada uma.

Além do mais, a divisão não se aprende isolada, sem números, adição, espaço e lógica, isto é, num conjunto de conceitos. É isto que Gérard Vergnaud, o elaborador da teoria dos Campos Conceituais, nos ensinou: não se aprende conceito por conceito e só se aprende a partir de situações significativas do dia a dia ou bem organizadas pela escola.

É animador que essas ideias já estejam na ordem do dia da Academia em nosso país – acabo de ser convidada para expor num colóquio internacional sobre Campos Conceituais, em Minas Gerais.

O processo de aprendizagem tem uma lógica própria: a lógica dos campos conceituais, linda, criativa e engenhosa.

Seguindo-a é que se ensina pra valer.