sábado, 26 de setembro de 2009



26 de setembro de 2009
N° 16106 - PAULO SANT’ANA


A descoberta

Continua repercutindo o anúncio de Lojas Colombo colocado pela Agência Escala em cima da página destinada à minha coluna esta semana aqui em ZH.

O Alfredo Fedrizzi, diretor da Escala, me mandou extensa correspondência de agradecimento por ter eu taxado de talentosíssima a iniciativa da sua agência.

Por sinal, o jornalismo tem estreita familiaridade com a publicidade, tanto que os cursos correspondentes convivem umbilicalmente na mesma universidade.

Se eu não tivesse sido jornalista, teria me tornado publicitário. Com o Luis Fernando Verissimo, que por sinal aniversaria hoje, deu-se isso. Durante longos anos desempenhou ambas as profissões, claro que com grande sucesso.

O Ruy Ostermann também aniversaria hoje. Abraços aos dois.

Seguidamente me entrevero com publicitários. O João Satt, diretor da Competence, é meu grande amigo, está inclusive bolando com o Mottin, da Panvel, uma campanha minha em três veículos de comunicação sobre remédios mais baratos.

Mas, então, voltando ao anúncio que cobriu a penúltima e a antepenúltima página de ZH na quarta-feira passada, Lojas Colombo, a marca do anúncio, tem sido também muito cumprimentada pelo evento.

Lojas Colombo está com o sorriso nas orelhas. E o Moisés Mendes, ex e futuro interino desta coluna, fez a grande piada sobre o assunto:

– Foi com certeza, depois da América, a maior descoberta da Colombo.

Almocei anteontem com um destacado advogado crimininalista de nosso meio.

Ele se queixou amargamente de que um réu que defendeu em processo criminal não pagou até hoje seus honorários.

Acrescentou-me que é muito comum que os réus caloteiem seus advogados defensores.

“Basta”, disse ele, “que o réu esteja ou passe a ser solto para que nunca mais pague seu advogado. A única maneira de advogado receber seus honorários de réu criminal é enquanto ele estiver preso.

Aí, Sant’Ana, com o réu no fundo da cadeia, surge dinheiro não se sabe de onde vindo, por todos os lados, para pagar o advogado. Mas, com réu solto, duvido que algum advogado seja pago por seu trabalho. A não ser que cobre adiantado, mas isso é raro.”

Interessante é que mesmo tendo sido caloteado violentamente por seu réu, o advogado tenha insistido em me afirmar que o acusado era inocente.

Por sinal, os advogados criminalistas têm a mania de achar que sempre seus constituintes são inocentes.

Uma vez, eu estava na sala do júri em que era julgado o então deputado estadual Antônio Dexheimer, acusado de ter sido o matador do também deputado José Antônio Daudt, por sinal o réu foi absolvido do crime por falta de provas, um caso de muita publicidade.

E eu na frente do réu e de seu defensor: Oswaldo de Lia Pires. Disse eu então uma frase de impacto para o doutor Lia Pires:

– O senhor nunca defendeu um réu inocente.

E Lia Pires respondeu-me imediatamente, apontando para Dexheimer: “Um exemplo disso é este homem, que é inocente”.

Dias depois, Dexheimer foi declarado realmente inocente.

E Lia Pires veio me tocar flauta. E eu disse a ele que eu não lhe afirmara que todos os seus réus eram inocentados, eu asseverara que todos os seus réus não eram inocentes.


26 de setembro de 2009
N° 16106 - CLÁUDIA LAITANO


Por que os homens amam o Zé Mayer

José Mayer é o cara – dos caras. O ator tornou-se um dos tópicos mais populares da internet na semana passada, quando estreou a nova novela das oito, não (apenas) por seu sucesso com as mulheres, mas principalmente por causa dos homens.

Recapitulando: a nova brincadeira no Twitter (site de relacionamento que permite que os usuários troquem microtextos de, no máximo, 140 caracteres) consiste em inventar situações em que o estereótipo de garanhão das novelas entra em ação, postadas sob o tópico “zemayerfacts”, algo como “fatos sobre Zé Mayer”.

Tipo: “Zé Mayer foi o responsável pela política do filho único na China após passar férias por lá” ou “Don Juan se deitou com 1.000 mulheres, e foi o Zé Mayer que passou o telefone delas pra ele”, e a minha preferida: “A primeira Helena que o Zé Mayer pegou foi a de Troia”.

José Mayer não estaria interpretando galãs há tanto tempo se não fizesse sucesso com as mulheres (e as novelas da Globo não estariam no ar há mais de 40 anos se não fossem extremamente sensíveis às oscilações de gosto do público feminino), mas o ator só se transformou em fenômeno pop e internético, dando vazão às mais delirantes fantasias de virilidade, porque os homens, por algum motivo, gostam de gostar dele – ou, mais ainda, gostam de imaginar que ele encarna “o que toda mulher quer”.

Um tipo que não é exatamente bonito ou jovem, nem especialmente inteligente ou sensível, e que ainda assim alcança 100% de eficiência em suas abordagens ao sexo oposto – um sujeito comum, só que com um pouquinho mais de sorte.

Em um de seus desempenhos mais emblemáticos, e que provavelmente deu origem à atual fama de garanhão infalível, o Pedro da novela Laços de Família (2000), José Mayer encarnava um capataz que, além de pegar metade do elenco feminino, era grosso, arrogante e só dizia palavras gentis para os cavalos – ou seja, um típico machão à moda antiga, daqueles que não limpam os pés no capacho e não têm medo de levar xingão da mulher quando jogam a toalha molhada na cama.

Quanto mais ele tratava mal as mulheres, mais elas gostavam: na pele de Pedro, José Mayer era o vingador de todos os homens oprimidos por esposas e namoradas que exigem gentilezas, atenção e bons modos à mesa.

Esse herói tosco e pegador ainda tem seu apelo, tanto na fantasia dos homens quanto na das mulheres, mas a consagração de José Mayer como o grande galã televisivo de sua geração talvez tenha menos a ver com o estereótipo que se aderiu a ele do que com a dificuldade da TV (e do cinema) para produzir em série essa curiosa e inquestionável persona masculina chamada galã (uma palavra que sequer comporta gênero feminino).

Enquanto as candidatas a Regina Duarte se contam aos montes, os candidatos a Tarcisio Meira surgem e desaparecem sem que o posto seja ocupado.

Os homens dizem que não sabem o que as mulheres querem, e muitas vezes nem elas sabem. Uma coisa o sucesso do José Mayer comprova: não é apenas um rostinho bonito.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


FERNANDO GABEIRA

Uma jogada em Honduras

RIO DE JANEIRO - Estamos com um pepino em Tegucigalpa. Foi o que disse para apressar um debate e correr para o Congresso. Zelaya entrara na Embaixada do Brasil. Nesses momentos, discute-se a responsabilidade ou concentra-se em resolver uma situação delicada.

Política externa no Brasil não dá nem tira um mísero voto. Mas nossa importância está crescendo no mundo. Com ela, cresce a audácia de seus formuladores. O egípcio Farouk Hosni, que tanto criticamos, foi abraçado orgulhosamente por Lula e Amorim. Perdeu a eleição na Unesco. Quanto mais criticávamos a escolha, mais assumiram que era esse o caminho correto.

Já pedi asilo, já levei amigos que se asilaram e visitei outros que foram acolhidos. Conheço um pouco esse processo. Não acredito na versão. Mas é preciso contribuir para que o governo saia dessa situação delicada. Mesmo porque a melhor maneira de influenciá-los não passa pela crítica. De um modo geral, sentem-se feridos e empacam.

Manter a integridade de nosso prédio e das pessoas é uma causa comum. A outra é impedir que Zelaya transforme a representação brasileira numa sede de governo. A partir dessas premissas, é possível que o pior seja evitado.

Há uma chance de que a crise se arraste até as eleições. Nesse caso, o problema seria resolvido pelo novo governo, investido do voto popular.

Vamos jogar paciência. Se Honduras não se importa que Zelaya fique um tempo, como declarou Micheletti, se Zelaya não se importa em ficar calado, há uma ampla margem de manobra.

Num outro país, talvez fosse possível influenciar o governo a partir do Congresso. Aqui é difícil. Há uma santíssima trindade que tudo sabe, tudo vê, tudo decide. Se optou por um salto no escuro é preciso ajudá-la. Caso contrário, a saída é tomar um porre com Farouk em Charm El Sheik.

ELIANE CANTANHÊDE

O azar e o porquê

BRASÍLIA - A queda de dois aviões Rafale franceses foi provavelmente como a maioria dos acidentes: descuido humano e um baita azar.

É improvável que dois aviões da mesma marca, da mesma Marinha, do mesmo porta-aviões tenham sofrido panes separadamente na mesma hora e caído. Ou seja: não é crível que foi falha técnica e que, portanto, os aviões são ruins.

Mas a queda esquenta a discussão sobre o programa FX-2 (de renovação da frota da FAB), pois a aparente decisão de Lula a favor dos Rafale tem muito a ver com a indicação de José Antônio Dias Toffoli para o Supremo. Um ato de voluntarismo explícito, sem a devida correspondência técnica e de argumentos.

Em outras palavras: tanto os Rafale quanto Toffoli parecem carregar uma lista de desvantagens, sem que as vantagens fiquem claras e consistentes. Sabe-se por que não. Não se entende por que sim.

A fábrica Dassault anda mal das pernas, como relata a imprensa francesa. Os Rafale só foram vendidos para as Forças Armadas da própria França, enquanto os F-18 da Boeing (EUA) rodam o mundo. E o preço e a manutenção são bem mais altos do que os do Gripen NG da Saab (Suécia), por exemplo.

Assim como Toffoli só tem 41 anos, não tem mestrado nem doutorado, levou duas bombas para juiz estadual e responde a dois processos na própria Justiça.

Então, por que Lula insiste nos Rafale, a ponto de o presidente da França, Nicolas Sarkozy, se dar ao direito de anunciar publicamente que o negócio já está virtualmente fechado? Porque o governo brasileiro decidiu fazer uma tal "aliança estratégica" com os franceses.

E por que Lula insiste em Toffoli e já está tudo bem amarrado no Congresso e no Supremo para nomeá-lo ministro da mais Alta Corte? Porque Toffoli foi um bom advogado das campanhas do PT.

Ou seja, no duro, no duro, a resposta é uma só: porque Lula quer.

elianec@uol.com.br


25 de setembro de 2009 | N° 16105

BASTA À INDISCIPLINA

Desabafo de pai e professor

Educador comenta episódio em que professora puniu adolescente pichador e propõe um novo olhar sobre a paternidade

O episódio em que a professora Maria Denise Bandeira fez um aluno retocar a pintura de nove salas de aula como punição por ter pichado o apelido em uma delas, revelado por ZH e zerohora.com, foi tema ontem do programa Polêmica, na Rádio Gaúcha.

Embora tenha despertado críticas dos pais do adolescente de 14 anos, a professora da Escola Estadual de Ensino Médio Barão de Lucena recebeu o apoio de 97% dos 2.278 participantes de enquete do programa.

Professor e pai de seis filhos, Régis Gonzaga foi um dos convidados a debater a questão no Polêmica e fez um contundente manifesto a favor da paternidade responsável.

ZH publica a opinião do educador abaixo.

A professora Maria Denise, que nada tem do que se envergonhar, declarou ter agido com raiva no episódio da pichação da escola em que trabalha, em Viamão. Essa mesma raiva tem de tomar conta de todos nós. Chega de passar a mão por cima de tudo.

Chega de morar em uma cidade imunda, suja, em que todos os prédios estão pichados, e ninguém faz absolutamente nada. Está na hora de dar um basta, mas não o basta da professora tão somente, um basta de toda a sociedade.

Espero que essa pichação signifique a retomada de um novo debate. Que tipo de sociedade nós queremos para os nossos filhos? Que tipo de sociedade nós estamos deixando para os nossos netos? O nosso papel como educadores é dizer: “olha, chegou.

Vai haver repercussão, algumas pessoas são contra.” Houve quem dissesse que a atitude da professora não educa. Essas pessoas deveriam conviver com jovens, como nós fazemos diariamente, e ver como alguns adolescentes que agem corretamente se queixam. Alguém tem de dar limites, alguém tem de dizer chega.

Estes jovens estão pedindo: “olhem pra mim”

Nós vivemos em um mundo em que há um animal em extinção, e não poderia. O adulto. Há pais que agem como colegas de seus filhos. Estou cansado de ir a festas em que os pais compram vodca com energético para os filhos de 12, 13 anos.

Cansado de ver pais reclamarem do professor do filho porque ele aplicou uma prova um pouquinho mais difícil. Hoje, os bons alunos, mesmo os com uma estrutura familiar razoável, têm vergonha de dizer que estudam. Quantas e quantas vezes eu presenciei o diálogo entre dois meninos:

– E aí, Fulano. Estudou para a prova?

– Não, não estudei.

– Pô, mas eu liguei para a tua casa, a tua mãe disse que tu estava estudando.

– Não, não, estava vendo o jogo. Estava enganando a velha.

Vergonha de dizer que tinha estudado, porque é feio estudar. Que valores são esses? Está na hora da sociedade toda se dar conta de que nós estamos indo para a tragédia. E há tragédia em todos os setores.

Vivemos em um país em que os senadores mentem, os deputados mentem, os vereadores mentem, e nada acontece. Que mensagem nós passamos para essa gurizada? A mentira é uma boa.

Aos pais do garoto que escreveu o apelido na parede da escola, quero dizer que a punição faz parte do aprendizado, e que eles não precisam ficar chateados. Se não houver punição, sai da escola, vai para o telefone público, vai para os prédios históricos, vai para os monumentos.

E a cidade, que poderia ser bonita, paga a conta em razão de pichadores. Esses jovens estão pedindo desesperadamente: “olhem para mim! Por favor, me estabeleçam limites.” É por aí que nós podemos começar. Faz parte de ser jovem cometer deslizes, cometer erros. Mas cabe aos mais velhos corrigir para que eles não se repitam.

A gurizada quer ser do bem, falta oportunidade

Para não dizer que só falei mal da gurizada, é importante ressaltar que os responsáveis por esse tipo de incidente correspondem a uma parcela muito pequena da juventude. Faltam nas comunidades mais atividades que levem o jovem para o bem.

A Fundação Thiago Gonzaga tem mais de 10 mil inscritos em Porto Alegre. O que isso quer dizer? Que a gurizada quer ser do bem, está faltando oportunidade. Para o mal, em cada esquina, há seis chances.

O que as escolas podem fazer é criar atividades voltadas ao voluntariado, à ecologia, a tentar construir um mundo melhor. A grande maioria, tenho certeza, está disposta a participar.

RÉGIS GONZAGA | PROFESSOR

Uma linda sexta-feira e um gostoso fim de semana para todos nós.


25 de setembro de 2009 | N° 16105
PAULO SANT’ANA


Pensamentos íntimos

Basta que se faça um bem para uma pessoa e, passado algum tempo, ela retribuirá com o mal.

Quem semeia o bem logo colherá o mal. Isso não é uma verdade absoluta, mas se trata de uma verdade corriqueira. E fatal, e inevitável.

Parece que é uma ampulheta. Tudo que você dedica de amparo, ajuda, afetividade, auxílio a uma pessoa, ali adiante ela devolverá em mal, em agressão, quando não em desprezo ou indiferença, mas principalmente em mal.

Essa lei da vida é uma desgraça, porque ela caminha no contrafluxo da caridade, do amor ao próximo, da solidariedade.

Explico: essa lei espúria da vida desanima a pessoa que quer fazer o bem, ela passa a enxergar como um inimigo em potencial toda outra pessoa que lhe pede ajuda. Fica ela logo aguardando que dali daquele objeto da sua afeição logo virá uma traição.

De cada pessoa suplicante corresponderá uma punhalada sangrenta. A cada beijo, corresponderá uma bofetada. A cada carinho, um safanão.

Quanto mais abrires tua bolsa e teu alforje para alcançar alimentos para quem te suplica compaixão, mais serás atingido pelos golpes contundentes ou incisivos do teu beneficiário.

Quanto mais fores cordial, sorridente e compassivo com quem necessita de ti, mais dele receberás como pagamento manobras insidiosas ou ações de agressividade ímpar e surpreendente.

Isso é como diz meu poeta Augusto dos Anjos na mais célebre das suas criações:

Toma um fósforo, acende teu cigarro.

O beijo, amigo, é a véspera do escarro

E a mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nesta boca que te beija.

Cometi esta semana um erro imperdoável. Ao citar uma das obras primas de Lupicínio Rodrigues, denominei-a de Aves de Rapina, quando o título verdadeiro é Aves Daninhas.

Perdoem, deve ser porque eu já estava dominado pela revolta contra as aves rapineiras da ingratidão.

Mas apesar da maldade das pessoas, apesar da infinitude dos gestos incordiais, do mau humor de atos agressivos, da ausência de limites para o não reconhecimento das obras mais nobres de que se beneficiam os devedores, apesar da bondade que é replicada com violências de desagradecimento, apesar da caridade ser paga com a crueldade, o mundo ainda há de ser viável, restará ainda a esperança de que se regenerem os maus e prevaleça o bem a presidir todos os gestos inter-relativos aos homens.

Não há de ser só de falta de gratidão que regerá a bolsa de pagamentos e recebimentos dos seres humanos.

Um dia o sol nascerá dessas sombras de irreconhecimento.


25 de setembro de 2009 | N° 16105
DAVID COIMBRA


A entrevista

Vez em quando, releio certo naco de um livro que descansa na estante bem às minhas costas, ao alcance do braço esticado. O livro é A Arte da Entrevista. O texto, bem, é uma entrevista. Com Freud, feita por um jornalista americano, George Viereck.

Os dois caminham em meio a um jardim, admirando as flores, conversando. Passa-se em 1930. Aos 74 anos, Freud era torturado por um câncer na boca e usava uma prótese no maxilar. Nove anos depois, num 23 de setembro como o que há pouco se foi, morreu. A seu pedido, por meio de uma eutanásia piedosa.

Mas em 1930 Freud ainda produzia com vigor. Escreveu um de seus melhores livros, O Mal-Estar na Civilização, genial pelo conteúdo e pelo estilo. E, na entrevista, concebeu reflexões de uma sabedoria singela e comovedora da qual só é capaz um homem no rumo do fim. Algumas frases são diamantes:

“Não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire a alegria das coisas simples da vida.”

Quando o repórter toca o tema da decrepitude inevitável, Freud faz um comentário resignado, mas suave, quase doce:

“Não me revolto contra a ordem universal, afinal, vivi mais de 70 anos. Tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas – do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr do sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?”

Finalmente, o repórter tece uma observação que irrita Freud:

– Sempre me pareceu que a psicanálise desperta em todos aqueles que a praticam o espírito da caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não nos permita entender. E tudo compreendido é tudo perdoado.

Freud, segundo o repórter, enfureceu-se:

– Pelo contrário. Entender não é perdoar. A psicanálise não apenas nos ensina o que temos de suportar, também ensina o que temos de evitar. Nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância do mal não é, de maneira nenhuma, uma consequência do conhecimento.

Entender não é perdoar. Irretocável. Mas Freud se irritou precisamente por saber que a psicanálise estava conduzindo a humanidade na direção oposta, como talvez Cristo se irritasse ao ver no que se transformou o cristianismo.

Depois da II Guerra, a compreensão se confundiu com a leniência. Sobretudo no Brasil, qualquer repressão era antidemocrática, qualquer punição era cruel. Hoje, a sociedade movimenta-se para o outro lado.

Nesta semana, junto ao registro do aniversário de 70 anos da morte de Freud, os jornais mostraram a comunidade exultante por duas razões: com a punição aplicada ao menino que pichou sua escola, e com as crianças obrigadas a cantar o Hino Nacional. Uma notícia se relaciona com a outra.

A intenção óbvia da lei que obriga a execução do Hino é despertar nas crianças o chamado “amor à pátria”. Que, em tese, é bom sentimento: quem ama sua pátria a preserva e não faz como o garoto pichador, não vandaliza o patrimônio público. Mas e a pátria dos outros? E a escola dos outros?

Pode ser depredada? Pela lógica do patriotismo, isso é irrelevante – relevante é a pátria. Freud, um judeu-austríaco que durante a maior parte da vida se considerou alemão, sofreu com esse tipo de sentimento mais do que com o câncer na boca. Talvez por isso, em vez do amor à pátria, preferisse o amor às pessoas.

Um amor que sempre entende, como pretende a psicanálise, e às vezes perdoa, como prega o cristianismo. E que, como uma e outro, reprime, se tiver de reprimir, pune, se for preciso punir.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009



O semeador de discórdias

Em entrevista à Folha, ex-crítico de restaurantes do "NYT" relata seus transtornos alimentares e conta sobre as perseguições e pedidos de donos de restaurantes em "Born Round", livro de memórias ainda inédito no Brasil

JANAINA LAGE - DE NOVA YORK

"Quem nasce redondo não morre quadrado." A frase, repetida à exaustão pela avó paterna, ecoou durante muito tempo na cabeça de Frank Bruni, ex-crítico de restaurantes do "New York Times". Para a avó, vencer a própria natureza era meta impossível. Para Bruni, o natural sempre foi comer, e comer sem medida.

Bruni assumiu o cargo de crítico de restaurantes do jornal em 2004 e logo despertou apreço e fúria entre os chefs e donos de restaurante da cidade. Ao primeiro sinal de comentários mais ácidos, os chefs criticavam sua falta de experiência. Ele havia trabalhado antes como repórter de política e depois como correspondente na Itália.

O que os leitores e os donos de restaurantes não sabiam é que Bruni mantinha uma relação de amor e ódio com a comida desde pequeno. Após deixar a vaga, em agosto deste ano, decidiu contar sua história em um livro de memórias, "Born Round" (em tradução livre, nascido redondo).

Em entrevista à Folha, Bruni conta sobre como aprendeu a controlar seu "apetite indomável" mesmo em meio a uma rotina de oito a dez refeições semanais em alguns dos melhores restaurantes da cidade. Descreve ainda o difícil relacionamento entre críticos, chefs e donos de restaurantes.

Bulimia e jejuns

O sinal de alerta para a família sobre o apetite voraz de Bruni soou quando ele tinha 18 meses. Com choro alto, o bebê pedia para que a mãe servisse o terceiro hambúrguer seguido.

A partir daí, a história de Bruni foi uma sucessão de euforia e depressão alimentar, com pratos mirabolantes, dietas idem e artifícios para disfarçar os quilos extras. Uma trajetória com direito a dieta do dr. Atkins, bulimia e jejuns prolongados.

Bruni narra com honestidade aquele sentimento próprio de quem posterga a dieta para a próxima segunda e vive comendo qualquer coisa porque não tem rotina, mas tem prazos constantes a cumprir. A aparência era sua principal preocupação.

Quando finalmente abandonou as soluções mágicas e apostou na tradicional receita de porções controladas e atividade física, perdeu peso e em seguida foi convidado para trabalhar como crítico.

Em pouco tempo, Bruni descobriu que a vida de crítico requer organização e método. Ele fazia reservas e pagava as contas com nomes e cartões falsos. Ainda assim, foi reconhecido algumas vezes por conta da farta troca de informações entre cozinhas de renome.

"Colocavam minha foto na cozinha e ofereciam gratificação para o funcionário que me reconhecesse. Quando era flagrado, divulgavam o nome e o telefone que usei para outros restaurantes. É similar a um daqueles programas sobre o FBI onde aparecem os perfis dos serial killers", brinca.

Para Bruni, é importante tentar se manter incógnito, mesmo que depois de um tempo isso se torne virtualmente impossível. Após ter sua foto divulgada, o crítico que o sucedeu já tirou do ar as que tinha no Facebook e no jornal.

A principal resposta negativa a seu trabalho veio de Jeffrey Chodorow, dono de restaurante que não ficou satisfeito com a nota recebida. Além de reclamar, ele pagou pela publicação de uma carta ao lado da crítica de Bruni desancando o jornalista.

Após o entrevero, Bruni foi obrigado a seguir disfarçado para o novo restaurante de Chodorow, que havia ameaçado expulsá-lo se o visse. No dia a dia, diz que não há como manter a rotina de homem dos mil disfarces. "Você gasta energia demais em algo que não é o mais importante."

Na luta por uma boa avaliação, vale tudo para os donos de restaurantes de NY. Um deles mandou uma carta da mãe contando agruras e pedindo uma boa nota. Outro, ao reconhecer Bruni, começou a mostrar as fotos dos filhos, dizendo que o futuro deles dependia do comentário do crítico.

Bruni diz que é preciso colocar o leitor em primeiro lugar. "Essas pessoas tomam decisões que envolvem dinheiro com base no que escrevia. Um bom jantar para dois em Nova York pode sair por US$ 150 a US$ 250 [R$ 270 a R$ 450]", disse.

Na primeira semana após deixar a vaga, Bruni disse que só sentiu alívio ao perceber que não há ninguém olhando com desespero sua reação enquanto come. Ele passa agora a escrever na revista de domingo do jornal.

O ditado da avó já ficou no passado. "Penso que você pode mudar. Hoje tenho uma relação saudável com a comida, tenho de trabalhar todos os dias para mantê-la", resume.


24 de setembro de 2009 | N° 16104
RICARDO SILVESTRIN


Jovens, adultos e velhos

Existe um passado à nossa espera. Um passado que nos foi negado sabe-se lá por que razão ou desrazão. Nosso ensino centrado na literatura brasileira é parte disso. Como se o mundo tivesse começado em 1500. Como se só existisse a cultura do nosso país.

A valorização do que é nosso distorce o nosso valor. Não nos vemos em relação aos outros. Só em relação a nós mesmos. Mas não só isso. Há uma excessiva valorização do presente.

Como se o novo fosse o atual. Há muita coisa, a maioria, que nasce hoje e nada mais é do que a repetição da repetição. Mais: nos atocharam que o passado é sisudo, nobre, elevado. Toda essa mediação acaba tirando do horizonte textos que deveríamos ter lido com a mesma naturalidade com que foram escritos.

Por exemplo, Aristóteles na sua Arte Retórica, nos capítulos em que trata sobre os jovens, os adultos e os velhos. Só de se falar o nome Aristóteles já vem um velho grego, filósofo, lido apenas por iniciados. Mas ele nada mais é, nesses capítulos, do que um amigo nosso, próximo, sábio e extremamente contemporâneo.

Não aquela contemporaneidade que se chega traçando paralelos, muitas vezes forçados, entre a antiguidade e os dias de hoje. Aliás, antiguidade é outro nome que não ajuda.

Só serve para parecer que é algo do tempo do epa, ultrapassado. Entretanto, a visão que o filósofo grego nos passa nesses textos é mais do que contemporânea. Vai tão fundo que ultrapassa a noção de época. E ainda nos surpreende quando vemos que a vida é a mesma.

Os problemas humanos não mudam. Tenho percebido que há uma possibilidade de pensamento vertical, que acha as coisas próximas de como são, lá na raiz. Quem traz isso à tona fica. Chamem de clássico ou do nome que quiser. Eu estou chamando de pensamento vertical.

O resumo do que disse Aristóteles, já filtrado e incorporado por mim: o destino de todas as coisas é dar errado. Mas isso a gente só sabe na velhice. Lá vivenciamos na prática e vemos como os amores acabam, o dinheiro que se ganha vai embora facilmente, tudo se relativiza, as conquistas se esboroam, não são mais o que pareciam antes de serem conquistadas.

Na juventude, não se sabe disso. Daí a força, a coragem, a ideia de que é preciso lutar para realizar os planos, para pôr em prática o que idealizamos, a sensação de que se é quase imortal, de que vamos conseguir.

Na idade madura, para Aristóteles aos 49 anos, fazemos o balanço entre a força da juventude e a prudência da visão adulta.

Já vislumbramos que as coisas caminham para acabar e conseguimos ter capacidade de realização temperada pela consciência. Não era pra todo mundo ter lido isso antes dos 20 anos?


24 de setembro de 2009 | N° 16104
ARTIGOS


Palmas à professora e... ao aluno, por Patrícia Trunfo*

No mesmo dia em que é sancionada a lei que determina a execução do Hino Nacional, uma vez por semana, nas escolas públicas e particulares de Ensino Fundamental do país, com o objetivo, entre outros, de trabalhar noções de civismo e respeito à pátria com os alunos, somos surpreendidos pela notícia de que um adolescente havia marcado com o seu nome a parede de uma sala de aula de uma escola estadual, recém pintada pela comunidade reunida em mutirão.

Em consequência, o jovem recebeu a reprimenda de uma professora, que lhe determinou a correção do ato, mediante a pintura da parede em questão e de outras existentes na escola.

O ato desse aluno reflete, sem dúvida, a ferida educacional presente na sociedade brasileira moderna, causada pela crise de valores e princípios que arranha as virtudes cívicas, gerando um total desrespeito aos demais cidadãos, à comunidade e ao patrimônio público, concretizado, no caso presente, no deboche às pessoas que, após oito meses de esforço,

reuniram-se no feriado de 7 de setembro e conseguiram pintar a escola em prol do corpo de estudantes – no que se inclui o dito rapaz –, que passaria a usufruir de um local limpo e agradável para suas atividades educacionais.

No entanto, houve uma professora que ousou repreender o aluno, determinando-lhe, coerentemente, que arrumasse o que havia estragado.

Palmas à professora! Não é fácil para os educadores, nos dias de hoje, em que são diariamente agredidos por alunos que vêm à escola sem noções de limites, ética e respeito – o que justifica emocionalmente eventual excesso –, cumprir seu papel de orientadores cívicos.

A professora agiu, sem dúvida, não só na defesa do patrimônio público, mas, principalmente, no interesse dos estudantes, que devem ser educados de modo a terem condições de se tornarem cidadãos de bem, úteis a si e à sociedade.

Por outro lado, não podemos negar o fato de que o aluno reconheceu a autoridade da professora e cumpriu o que lhe foi determinado, demonstrando que nem tudo está perdido, ou seja, errou, mas aceitou corrigir; palmas ao aluno!

A virtude cívica não se desenvolve somente com o cantar do Hino Nacional. Em que pese o conhecimento dos símbolos nacionais seja inerente a um bom patriota, o desenvolvimento do país depende da educação de seus cidadãos, cunhada sobre bases sólidas de ética, respeito ao próximo, ao patrimônio próprio, público e alheio, à família e à escola, reconhecida esta como pilar básico de construção da cidadania.

Façamos votos de que episódios como este não tornem a se repetir, mas, caso assim não seja, torçamos para que os professores continuem ousando educar seus alunos e para que os alunos tenham condições de receber a benéfica orientação cívica e patriótica.

*Advogada da União Federal e professora universitária

Ainda que com chuva nesa Capital Federal que possamos ter todos um lindo dia.


24 de setembro de 2009 | N° 16104
PAULO SANT’ANA


Asilo enjambrado

O Rio Grande do Sul acordou perplexo ontem: todos foram abrir Zero Hora pela penúltima página e não estava ali esta coluna.

Um astucioso publicitário da Agência Escala havia comprado um anúncio conjugado que compreendia a penúltima e a antepenúltima página deste jornal.

Os leitores foram brindados com um inteligente anúncio das Lojas Colombo.

Mais talentosa foi ainda a Agência Escala, porque o preço das duas páginas custou um quinto do que seria o anúncio nas páginas 2 e 3 de ZH e a leitura acabou sendo 10 vezes maior.

O fato virou ontem um case que vai embasar a escolha do Publicitário do Ano, ninguém poderá bater este feito espetacular do marketing da mídia impressa; o anúncio foi comprado por preço irrisório perto da nobreza da penúltima página, que, como se sabe, há décadas é a mais lida do jornal.

Disseram-me hoje que Lojas Colombo entrou ontem em negociação com ZH para desde já deixar encomendado espaço idêntico para o Natal deste ano e Dia das Mães do ano que vem.

O diabo é que rege o mercado publicitário uma tabela sobre as partes mais lidas dos jornais e, segundo me comunicaram, o preço de duas páginas no mesmo local usado ontem dobrou nas últimas 24 horas.

É um fato assombroso.

E tanto mais se torna por ter sido uma campanha das Lojas Colombo que consiste em amarrar seus anúncios em várias páginas de ZH, fazendo com que atinja sua culminância na penúltima página do jornal, onde modestamente escrevo.

Não bastasse isso e, pela terceira vez na semana, ontem, um cronista usou a expressão “conversinha” para designar “conversa fiada”’, termo que criei há poucos dias na imprensa gaúcha.

É inumerável a sequência de palavras cujos novos significados crio ou adoto. E, tão logo caem no gosto do público, em seguida os cronistas, num efeito manada, passam a usar todos os dias as expressões que elaboro.

Sinto-me honrado. Nada há que orgulhe mais um colunista do que ser usurpado em seu direito autoral, sendo imitado por seus admiradores em expressões de livre uso mas de clara e indiscutível propriedade privada.

Eu e todos já tínhamos visto um presidente da República ser deposto em qualquer lugar do mundo, refugiar-se então numa embaixada estrangeira dentro do território em liça.

O que nunca tínhamos visto é o que está acontecendo incrivelmente agora: um presidente hondurenho foi deposto, saiu de seu país, agora voltou para lá com a visível ajuda do governo brasileiro e refugiou-se na embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

É um fato inédito e assustador.

O que espanta no episódio é o Brasil astutamente ter montado a devolução do presidente deposto de Honduras ao território de seu país, depois de lá ter fugido.

Ou seja, o Brasil concedeu, em sua embaixada, asilo, dentro de Honduras, a um presidente que não morava mais em Honduras, nunca foi visto nada igual.

Em outras palavras, o Brasil criou em Honduras um domicílio para o presidente deposto. Só que, se foi cessado esse domicílio pelo governo que assumiu o poder, só ele poderia devolvê-lo ao desterrado, nunca um Brasil que nada tem a ver com a história e meteu-se nela de modo atravessado.

O excesso de protagonismo do Brasil não pode ser encarado como uma frivolidade diplomática, e sim como uma grave intromissão nos interesses de uma nação estrangeira.


24 de setembro de 2009 | N° 16104
L. F. VERISSIMO


Ciência neutra

No século 17, a busca por um meio de estabelecer a longitude levou cientistas a experimentar com métodos que, se não resolveram o desafio principal, o de assegurar a orientação dos barcos em alto-mar (o que só viria no século 18), trouxeram grandes avanços para a cartografia e a medição de distâncias em terra.

Valendo-se da nova ciência da astronomia e dos movimentos dos planetas e seus satélites, Galileu e outros redesenharam o mapa do mundo. Tanto que o rei Luiz XIV da França, diante de um mapa revisado dos seus domínios, reclamou que estava perdendo mais território para seus astrônomos do que para seus inimigos.

Anos antes, um outro rei, Rodolfo II, da Boêmia, tinha tentado fazer o contrário, engajar a ciência, ou o que passava por ciência na sua época, na ampliação dos seus poderes.

Rodolfo II tornou-se patrono de todas as artes claras e ocultas de que ouvia falar e recrutou para sua corte, além de artistas e pesquisadores “sérios”, como Tycho Brahe e Johannes Kepler, gente como os ingleses Edward Kelley, um vigarista metafísico, e John Dee, conhecido como conselheiro da rainha Elizabeth I para assuntos esotéricos.

Na corte de Rodolfo II, experimentava-se com todos os tipos de divinação e apelo ao sobrenatural (seu astrólogo era o próprio Nostradamus) e dava-se ênfase especial à alquimia, com a qual o rei pretendia eternizar-se. Rodolfo II queria, também, o domínio do tempo e do destino.

Da ciência que prometia onipotência a reis interessados, como Rodolfo II, à que diminuía o território e, portanto, a majestade de Luiz XIV, andou-se um bom caminho na dessacralização do poder, e tudo em menos de um século.

Ainda há governantes que se acham autorizados por Deus e a Natureza a reivindicar um poder eterno – ou pelo menos um terceiro mandato –, mas já são raros.

E a neutralidade da ciência ajuda a sepultar qualquer presunção de favorecimento divino e qualquer mentira mantida por conveniência política ou vaidade.

A ciência da estatística – escrevi tudo isto pensando nos dados recém-publicados pela Fundação Getulio Vargas sobre a melhoria na distribuição de renda no Brasil nos últimos anos – é um bom exemplo de ciência neutra. Não é a favor ou contra ninguém, mas é à prova de falsificações históricas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009


MARCELO COELHO

A lei dos mais fortes

Contestado nos Estados Unidos, o darwinismo lá funciona nas situações erradas

OS ESCOCESES gostam de gaita de foles, os franceses comem caramujos, e os americanos... Bem, os americanos têm muitas particularidades, e uma das mais espantosas é a resistência deles a um serviço universal de saúde.

Bastou querer que exista atendimento médico para todos, pago com recursos do contribuinte, para que Barack Obama comece a ser chamado de nazista e comunista.

É difícil entender por que tantos grupos de opinião se mostram irredutíveis nesse ponto; afinal, países como França e Inglaterra estão longe de constituir uma ditadura socialista, e mesmo a ultraliberal Margaret Thatcher não foi a ponto de privatizar o sistema de saúde britânico.

O assunto, de qualquer modo, não teria muito para mobilizar um colunista brasileiro; eis um tema bastante técnico e interno à sociedade norte-americana.

Acontece que peguei recentemente, em DVD, o documentário de Michael Moore sobre o problema. Chama-se "Sicko", e não há como reagir com indiferença às coisas que ele mostra ali. Imagino o que ele faria no Brasil.

Moore é criticado pelo sensacionalismo e pela parcialidade. Mas de uma coisa ninguém pode reclamar.

Não há tema, por ingrato que seja, que ele não transforme num documentário eletrizante, de significado universal.

É simplesmente diabólico. Casos e mais casos de arrepiar os cabelos (e de partir o coração, para usar outro clichê) sucedem-se na tela, sem prolongamentos excessivos nem abreviações forçadas.

Vemos uma pessoa cuja quimioterapia não será paga pelo seguro-saúde particular. O argumento é que havia sonegado uma informação quando preencheu os formulários.
A saber, que tinha tido catapora ou coisa parecida quando era criança.

Seria apenas um caso isolado; mas o diretor passa a entrevistar uma médica, que trabalhava para um seguro-saúde. Os pedidos de reembolso e de pagamento passavam por suas mãos. Ela conta que o plano de saúde dava bônus salariais quanto maior fosse o número de pedidos que recusasse.

Esse nem sequer é o maior problema, como se sabe. Dezenas de milhões de americanos não têm plano de saúde nenhum. E tome casos apavorantes.

Uma velhinha, depois de uma semana num hospital, não tem mais como pagar. Solução: é posta num táxi, com o tubo de soro ainda enfiado na veia. Deixam-na diante da porta de um albergue, onde não estão previstos cuidados médicos. Seria tudo uma sucessão de histórias desse tipo, se Michael Moore fosse um documentarista comum.

Ele vai muito além, e o caminho que o filme vai tomando é de uma radicalidade genial.

Moore resolve saber o que aconteceu com as pessoas que se apresentaram como voluntárias para ajudar no resgate das vítimas do 11 de Setembro. Não bombeiros ou paramédicos, que dispõem de algum tipo de cobertura de saúde. Mas sim os cidadãos comuns, que se mobilizaram com a tragédia.

Muitos sofrem de problemas pulmonares, dada a quantidade de fumaça e poeira que inalaram durante as operações de salvamento. Não tinham plano de saúde. Onde encontrarão assistência médica?

A solução apresentada por Moore, que reúne um grupo de pessoas nessa condição, deve ser mantida em segredo aqui. Só posso recomendar que se assista ao DVD.

Fica-se também com uma ideia razoável a respeito do intenso processo de doutrinação ideológica que foi feito nos Estados Unidos, pelo menos a partir da década de 1950.

Havia um LP, distribuído para grupos de donas de casa, em que Ronald Reagan lia uma preleção a respeito dos perigos da medicina "socializada".

Lembro-me de que, mesmo no Brasil, um pouco desse lobby foi tentado, durante os debates sobre a Constituição de 1988.

O problema, de todo modo, tende a ficar mais complicado. Na medida que as pesquisas científicas podem prever com mais exatidão as chances de alguém desenvolver uma doença, o próprio conceito de seguro-saúde se altera: o componente de acaso do sistema vai desaparecendo no limite -enquanto o custo dos cuidados médicos cresce e agrava as desigualdades entre os cidadãos.

O debate em torno do assunto pode ser interno aos Estados Unidos e -como a questão do darwinismo, por exemplo- relativamente resolvido em qualquer outro país civilizado. Mas diz muito a respeito do mundo em que vivemos. Justamente, a velha lei da sobrevivência dos mais fortes, sem dúvida, mostra aqui as suas garras, como nunca.

coelhofsp@uol.com.br

ANTONIO DELFIM NETTO

A hora da inovação

A NATUREZA das dificuldades criadas pela crise financeira mundial que acabou desabando sobre a economia real e o fato de não termos aumentado (relativamente) nossa participação no mercado mundial de produtos industrializados sugerem por que a economia brasileira revelou resistência extraordinária.

Não se discutem as vantagens comparativas da agricultura brasileira (fortemente prejudicada pelas deficiências da infraestrutura), os extraordinários avanços de nossa pesquisa tecnológica, a nossa situação privilegiada na substituição (com grande vantagem energética) de combustível fóssil por energia renovável de massa.

E, muito menos, discute-se o fato de que o aumento da demanda de nossos produtos agrícolas, juntamente com a desvalorização do dólar, provocaram um aumento dos nossos preços de exportação que, em menos de seis anos, libertaram a economia brasileira de sua dependência externa. Esse resultado extraordinário foi produto de pelo menos cinco causas:

1ª) da continuidade da política monetária e fiscal;

2ª) da garantia (às vezes duvidosa) da propriedade privada na agricultura e do "espírito" de apropriação dos ganhos tecnológicos;

3ª) dos benefícios dos investimentos na Embrapa desde o início dos anos 70;

4ª) de políticas de subsídios que, graças à concorrência no setor agrícola, foram largamente devolvidos ao consumidor na forma da redução da relação de preços agrícolas/preços industriais; e

5ª) da extraordinária ampliação dos preços externos.

A sustentação do nível de atividade e do emprego foi, entretanto, consequência da existência de um setor industrial com maior sofisticação do que a sugerida por seu tamanho. Foi o forte mercado interno brasileiro, muito mais do que a política monetária sempre atrasada e tímida e a política fiscal de duvidoso "anticiclismo", que sustentou o nível de atividade.

É este mercado urbano (que perdeu a exportação industrial) que está pagando o preço do ajuste produzido pela "supervalorização" do real.
Estamos num novo momento da história da economia brasileira. É preciso pensá-la 25 anos à frente.

Ela, certamente, não será nem a continuação da atual, nem apenas o "pré-sal", apesar de sua visibilidade e importância decisivas. Ela será o que fizermos para antecipar o ajuste do setor agrícola (com a mudança do clima), do setor industrial (com as novas "ideias-força" da energia renovável) e do setor de serviços (com as novas tecnologias).

contatodelfimnetto@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Muito além de 2010

PITTSBURGH - Admito que é divertido ficar se distraindo com a gangorra nas pesquisas eleitorais.

Mas, como já escrevi, a propósito de pesquisa anterior, do Datafolha, que a novidade real era a intenção de voto em Ciro Gomes, o único dos três mais "votados" que não tem tido forte exposição à mídia, dispenso-me de voltar agora ao assunto, em cima do Ibope.

Na verdade, o que incomoda em relação à eleição de 2010 é que não parece estar no horizonte o futuro pós-pleito, ao contrário do que está acontecendo no mundo ou, ao menos, nos Estados Unidos.

Agora, na reunião do G20 que se inicia amanhã, duas expressões aparentadas tendem a ser dominantes: crescimento econômico sustentável e crescimento econômico equilibrado.

À parte conceitos genéricos e fáceis de puxar aplausos, querem dizer o seguinte: como transitar de uma economia que gera gases em excesso para uma mais limpa. Essa discussão até que entra na agenda brasileira, mas de leve, o que talvez mude com Marina Silva.

Já crescimento equilibrado significa que os Estados Unidos, avisa reiteradamente o presidente Barack Obama, não voltarão tão cedo a ser a pantagruélica máquina de consumo que foram até a crise, o que pede que outros países (e ele mira especialmente a China) consumam mais internamente e exportem menos.

O presidente Lula ficou impressionado quando ouviu ao vivo e em cores essa avaliação de Obama durante o G8 ampliado da Itália. Como o Brasil entra nesse jogo?

Afinal, os Estados Unidos ainda são o maior comprador de produtos brasileiros. Se tiverem menos apetite, quem os substitui como comprador principal? A ideia de reequilibrar a economia global não é operação trivial. Quais dos candidatos presumíveis tem propostas a respeito? Eu não sei. Você sabe?

crossi@uol.com.br


23 de setembro de 2009 | N° 16103
MARTHA MEDEIROS


Negro, mulher, gay, e daí?

Hoje quase não assisto a novelas, mas quando elas são assinadas por Gilberto Braga ou Manoel Carlos, o sofá me chama. Foi esparramada nele que assisti ao primeiro capítulo de Viver a Vida, não porque teria a-primeira-protagonista-negra-de-uma-novela-das-oito, como exaustivamente anunciaram a presença de Taís Araújo no elenco, mas porque achei que iria me divertir, que é para o que servem as novelas.

No entanto, em vez de me divertir, gelei ao ouvir uma frase da personagem de Lilia Cabral, que, conversando com a filha sobre o ex-marido, desdenhou: “Ele sempre trocou o vinho pela cerveja, o banquete pelo sanduíche, o restaurante pelo boteco, é natural que agora, recém-divorciado, troque uma branca por uma negra”.

Entendo perfeitamente que Manoel Carlos queira mostrar o quão hipócrita é essa história de dizer que no Brasil não existe racismo, e jogou essa bomba atômica já no primeiro capítulo para alertar que, fora de casa, as pessoas podem até ter aprendido que discriminação é crime, mas que intramuros, sem fiscalização e testemunhas, ainda se dizem barbaridades e se propaga o preconceito.

Em todo caso, me pergunto como seria se, em vez de “provocar reflexões”, simplesmente tratássemos nossa convivência com mais naturalidade. Ou seja: imagine se ninguém mencionasse que Taís Araújo é negra. Que ela fosse mocinha ou bandida sem que sua raça importasse para a sinopse da trama, da mesma forma que ninguém salienta que Aline Moraes é branca.

Haveria quem detectasse aí uma perda de oportunidade para se discutir uma questão social importante do país, mas, na minha utópica inocência, creio que não estimular uma percepção diferenciada poderia fazer mais pela igualdade racial do que seguir martelando “o primeiro negro a fazer isso”, “a primeira mulher a fazer aquilo”, “o primeiro homossexual a conquistar tal coisa”. Aos poucos, ninguém mais repararia se é um negro, uma mulher ou um gay a vencer: seria uma pessoa como outra qualquer – como de fato é.

Esperar que não se mencionasse que Obama foi o primeiro presidente negro eleito nos Estados Unidos já seria inocência demais, ok. Mas é preciso continuar a falar disso?

Se Dilma ou Marina se elegerem presidente do Brasil, não seria interessante que elas não entrassem para a História como as primeiras mulheres a ocupar tão honorável cargo, e sim tratá-las exatamente como se trataria o Serra ao assumir o posto?

Sempre tive esta fantasia: a de que, ao não evidenciarmos as diferenças de raça, sexo ou idade, ninguém faria grande distinção entre preto ou branco, mulher ou homem, jovem ou velho, e deixaria para perceber o que realmente importa: se é competente ou não, se é honesto ou desonesto, se é um liberal ou conservador, enfim, as variantes que realmente fazem uma sociedade avançar ou retroceder.

Se Manoel Carlos não tivesse colocado aquela frase desagradável na boca da Lilia, eu não estaria aqui discutindo publicamente sobre racismo, eu sei.

Mas já não acredito tanto no impacto das ações negativas, e sim das positivas: mostrar na TV pessoas de raças e sexos diferentes convivendo no mesmo universo, recebendo o mesmo tratamento e as mesmas oportunidades, conscientiza igual e não ofende ninguém.

Well a esplanada dos ministérios continua tudo cor de cinza de uma chuva que teimosamente tende a continuar por aqui, ainda que precoce antecipando a primavera em Brasília, e que no calendário já iniciou ontem, às 18 horas e alguns minutos. Uma linda quarta-feira para você.


23 de setembro de 2009 | N° 16103
JOSÉ PEDRO GOULART


Piquet e o circo

Nas palavras de minha mãe, meu pai era um bon vivant. Demorei para entender o que isso queria dizer. Quando caiu a ficha já era tarde: nunca me vi com capacidade de aproveitar a vida do mesmo jeito que ele, um gozador. Aliás, defino meu pai e minha mãe da seguinte forma: ambos roncavam, mas só o meu pai não se importava com isso.

O bon vivant é carismático, simpático, tem sempre um monte de gente na volta. Outra característica de um bon vivant é pedir grana emprestada sem cerimônia; e frequentemente esquecer o compromisso. Mesmo assim, sempre tem alguém disposto a lhe alcançar algum novamente.

Eu, que faço parte do grupo que reclama de ronco, tenho a impressão que passei toda a vida emprestando dinheiro ao meu pai. De maneira que não foi surpresa o sonho que tive depois que ele morreu. Nesse sonho eu recebi uma ligação telefônica dele do “outro” lado. E a ligação – juro, não estou inventando – era a cobrar.

Tudo se resume a pais e filhos. Ou não? Agora mesmo o Nelson pai resolveu incendiar o circo da velocidade: pôs na roda a história de que o Nelson filho bateu de propósito com o propósito de ajudar o Alonso a ganhar. Tudo isso planejado pelo capo dei capi, Briatore.

Há, além da enorme falcatrua, uma outra questão: o fracasso. Schumacher, Sena, Prost jamais ganhariam atestado de nobreza, mas foram supercampeões. O gol de mão do Maradona foi legalizado pela história. E por quê?

Porque ele fez um outro em que driblou o time inteiro da Inglaterra e ainda levantou a taça. O busílis é que o Nelsinho Piquet só perdeu na Fórmula-1, o fracasso o condena duplamente. Aos perdedores, as batatas.

Foi demais para o Nelsão: um Piquet perdedor e ainda escorraçado como um cachorro sarnento? Sendo ele um conhecedor de cada pódio do planeta, um cara conhecido pela audácia nas pistas e no tratamento com donos da bola. Essa não. Que fosse servido o prato gelado da vingança; mesmo que sobre ele estivesse a cabeça do próprio filho.

A vida já é suficientemente difícil sem uma figura paterna que faça sombra. Quanto da atitude de Nelsinho não terá sido tomada no afã de conseguir algo que fizesse jus à tremenda expectativa do pai?

Percebo que muitos tem o Nelson Piquet nesse episódio como “o justo”, mas para mim ele é um pai que – por vaidade – mostrou ao mundo o quanto o filho é um bunda mole. Nem todos tem a sorte de ter um bon vivant à cabeceira da mesa.


23 de setembro de 2009 | N° 16103
PAULO SANT’ANA


O fracasso do dia

Foi um fracasso enorme a comemoração, ontem, do Dia Mundial sem Carro: a Avenida Ipiranga estava completamente engarrafada.

É um absurdo comemorar esses dias especiais: Dia Mundial sem o Marido, Dia Mundial sem o Cigarro, Dia Mundial sem o Chiclete.

Nunca vi tamanha asneira.

O que as pessoas pensam desses “dias”? Que um só dia de abstenção ou abstinência não adianta nada. O certo é esta campanha: Crack, Nem Pensar. Não por ser da RBS. Mas é que uma campanha tem de ser para sempre, não deve escolher só um dia. Ou é para sempre, ou não se faça campanha nenhuma.

Também aconteceu ontem uma falsa esperteza global: cada um pensou que seria um dia ideal para dirigir, o trânsito estaria manso e tranquilo, com os “bobos” deixando seus carros nas garagens e usando o transporte coletivo.

Aconteceu então que todo mundo foi usar desse estratagema, e Porto Alegre e o Brasil inteiro ficaram engarrafados nas grandes cidades.

Quem já tem mais de 50 anos, como eu, fica com saudade da juventude. Pura tolice.

A gente inveja os jovens esquecendo que já se foi jovem e eles têm o mesmo problema que tínhamos na idade tenra: aborrecimentos, tédio, angústia, desemprego, incerteza quanto ao futuro etc.

Então, o tempo é que é o senhor da razão: a vida pode ser boa ou ruim na juventude e na velhice, tudo depende da sorte e/ou do esforço e inteligência que se cometer para melhorá-la.

Tenho me ocupado em ouvir as gravações sobre o escândalo da Operação Rodin, a roubalheira que havia no Detran.

Não tem nada de novo nas gravações quanto ao conteúdo e mérito, só quanto à forma e ao estilo.

Então, que fique claro que sob o meu ponto de vista houve uma roubalheira, não transijo disso.

O que eu queria dizer é que se me gravarem, se gravarem o meu leitor ou a minha leitora, nas conversas que ouvirão os analistas das gravações, sempre encontrarão nos diálogos cifrados ou com cuidados um certo comprometimento.

Eu já escrevi aqui que sou contra todo tipo de gravação por parte das autoridades porque ela atenta contra o artigo quinto da Constituição, que não permite a violação da intimidade, da privacidade das pessoas.

Sou só a favor de gravar-se uma pessoa quando estiver em jogo a vida de outra pessoa, um exemplo típico é um sequestro que está sendo planejado ou se desenrolando, com a vítima em poder dos sequestradores.

Do jeito que é, grava-se a tudo e a todos. Há gravações que são feitas antes de as autoridades pedirem ao juiz que as conceda. Isso é um absurdo e um crime, afirmo. Ainda mais com tantos órgãos autorizados a gravar, alguns até envolvidos em brigas filosóficas, de competência ou existenciais intestinas.

Mas onde eu queria chegar é que qualquer conversa demorada pode se constituir, sob o ponto de vista de quem está investigando um fato, num indício, numa suspeita de que esta ou aquela frase interessa à investigação.

Não estou defendendo nenhum réu, até mesmo porque no escândalo do Detran existem réus indefensáveis.

O que quero dizer e afirmo é que os nexos encontrados em conversas soltas ao vento podem ser falsos muitas vezes.

E aí há que se pensar também se essas gravações podem ser publicadas antes de os réus que delas participaram serem condenados.

Isso é outra coisa que demandaria um século debater.


23 de setembro de 2009 | N° 16103
DAVID COIMBRA


Uma irmã linda, outra feia

Raquel e Lia eram irmãs. Raquel, que em hebraico significa “ovelha”, era linda; Lia, que em hebraico significa “gazela”, era feia. A história delas é narrada no Gênesis, o primeiro dos 73 livros da Bíblia. Ou seja: desde o princípio do mundo isso de haver uma irmã linda e outra feia na mesma família rende boas histórias.

Jacó, um dos patriarcas do povo hebreu, neto de Abraão, o fundador das três grandes religiões monoteístas, Jacó era primo dessas duas irmãs. O pai delas, tio de Jacó, chamava-se Labão. Nome estranho, certo, mas não menos do que Wianey.

Jacó, que não era bobo, apaixonou-se pela bonita. Pediu-a em casamento. Labão concordou, mas interpôs uma condição: Jacó teria de trabalhar de graça para ele durante sete anos. Jacó topou, donde se conclui que Raquel devia ser mesmo a mulher mais linda da Mesopotâmia.

Depois de sete anos se esfalfando feito um subeditor no plantão de sábado, Jacó enfim viu chegar o dia do casamento. Sentia-se tão feliz com a ideia de se libertar e possuir a mulher amada que bebeu demais durante a festa.

À noite, enquanto o noivo se abraçava aos convidados e dizia te considero pra caramba, Labão mandou que Lia, a feia, se enfiasse no leito conjugal. Quando Jacó chegou, meteu-se entre os lençóis e consumou o ato com Lia, balbuciando:

– Du é a minha brinzezinha, Raquel...

No dia seguinte... Ah, o dia seguinte... Todos os homens já experimentaram a medonha sensação que Jacó experimentou naquela manhã. Ao despertar, ele abriu os olhos pensando cara, como a vida é boa, virou-se para o lado e... WOLFREMBAER!!! O que é que aquele xis-bacon estava fazendo ali???

Jacó correu furioso até Labão, mas Labão era como a maioria dos comerciantes brasileiros: não aceitava devoluções. Jacó reclamou que havia sido enganado, e aí Labão veio com uma conversinha, explicou que era tradição casar a filha mais velha antes da mais nova e bibibi. Naqueles tempos em que não havia Engov, Jacó, decerto com a cabeça latejando, acreditou. Concordou em ficar com a feia, mas queria casar com a bonita também. Labão aceitou. Com uma condição:

– Vai ter que trabalhar outros sete anos de graça.

Jacó suspirou e topou. Essa Raquel devia ser mesmo uma côsa. Fico imaginando-a: uma mulher de pernas de louça e voz de leite condensado e... bem, você sabe. O fato é que, depois de mais sete anos suando como um moto-boy, Jacó se casou com Raquel.

Labão, mostrando afinal alguma generosidade, deu duas moças de presente às filhas. Não como criadas, apenas para lhes fazer companhia. Zilpa e Bila, chamavam-se elas. Nomes estranhos, sei, mas não menos do que Suélen.

Jacó, obviamente, preferia a bonita, e passava quase todas as noites com ela. Mas vez em quando decidia dar uma variada, dormia com Lia e, sempre que fazia isso, blup, Lia engravidava. Teve quatro filhos, um atrás do outro, enquanto Raquel, nada.

Naqueles tempos a turma ainda estava na atividade de povoar a Terra e tudo mais. Assim, Jacó passou a admirar a fecundidade de Lia. Raquel, aflita, decidiu contragolpear. Deu sua dama de companhia Bila ao marido, que nela fez dois filhos: Naftali, ou “engenhoso”, e Dã. Algum gaiato pode achar que o menino se chamava Dã por ser meio abobado. Não: Dã quer dizer “julgamento de Deus”.

Nesse meio tempo, Lia, que não queria perder para a irmã, deu Zilpa a Jacó, e nela Jacó fez outros dois filhos de nomes interessantes: Gade, “vindo por acaso”; e Aser, “felicidade”.

Jacó, portanto, estava bem abastecido de filhos e mulheres. Mas ainda preferia a bela Raquel e praticamente só dormia com ela. Até que um dia o filho mais velho de Lia lhe trouxe algumas mandrágoras para comer. Nunca comi uma mandrágora, mas já li a respeito.

Sei que as bruxas da Idade Média adoravam mandrágora, uma planta que tinha o apelido de
“Maçã de Satã”. Seja. Acontece que Raquel gostava muito de mandrágora e pediu uma para Lia. Lia respondeu que lhe daria uma madragorinha, desde que pudesse passar mais uma ou duas noites com Jacó. Negócio fechado. E, claro, Lia engravidou. Mais dois filhos.

Nessa história, contada tanto no Gênesis como por Flávio Josefo, o que me espanta não é a capacidade parideira de Lia, a beleza de Raquel ou a astúcia de Labão. É a forma como as mulheres dispunham de Jacó.

Eram mulheres do Oriente Médio, que viviam pouco depois do rei Hamurábi, isto é, há cerca de 3.500 anos. Deviam ser submissas, pois. Não eram. Ao fim e ao cabo, elas é que tomavam as decisões sobre o que era importante.

É assim mesmo: quem resolve são os jogadores em campo, não o técnico no banco. Jonas decidiu bater o pênalti. Nem sequer olhou para a margem do gramado, onde Autuori esbravejava. Foi lá e bateu. Errou, verdade, mas foi ele quem tomou a decisão.

As mulheres em casa e os jogadores em campo, são esses que ganham o jogo. A história do mundo deve mais a resoluções pessoais dos subalternos do que se pode concluir pelo que está escrito.

terça-feira, 22 de setembro de 2009



22 de setembro de 2009 | N° 16102
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Do visual e do tempo

Esses dias, alguém me atribuiu menos idade do que realmente tenho. Não fez isso por simples gentileza, nem para mostrar-se delicada. Falou por pensar que estava certa. Tratei logo de revelar-lhe meu calendário pessoal e intransferível e não se cuidou mais do assunto.

À noite, em casa, no entanto, ouvindo Brahms em coquetel com um cálice de vinho, me dei conta de que não era a primeira vez que se enganavam com o número de setembros que carrego. Talvez isso se deva à pouca pressa com que raros fios brancos vão invadindo a cobertura de meu cérebro. Talvez se deva à ausência de rugas que vem me poupando o rosto.

Nada disso é realmente importante. Tive um avô que morreu com a bíblica idade de 105 anos e contudo aparentava duas décadas menos. Não quero viver 105 anos, prefiro não ultrapassar os 104, mas isso é apenas um devaneio. O que não quero é chegar a algum algarismo avançado havendo perdido a lucidez acerca dos seres e das coisas, o que, aliás, não sucedeu com meu avô.

Tenho, nesta sala, fotos de meus ancestrais. Creio que me fitam com alguma desaprovação. Enquanto seus rostos são vincados daquela inquietude com que as criaturas de antanho fixavam-se nas máquinas fotográficas, eu desafio pacificamente meu incerto futuro, posando tranquilo com meu neto. Ambos sorrimos, ambos não receamos o amanhã.

Suponho que sejamos, os dois, colecionadores de momentos. Há pessoas que juntam moedas, selos, desilusões. Meu neto e eu, neste retrato, reunimos instantes. É a melhor maneira de singrar a vida: armazenando os segundos, desfrutando-os intensamente, degustando-os sem pressa.

É disso que se tece a existência. É dela a calma, pacífica consciência de que os minutos e as horas se sucedem não pelo tempo que passa, mas pelo que nele construímos.

Quanto ao visual, é um trivial acidente. Algum dia a neve branqueará meus cabelos. Não devo me preocupar nem por isso, nem pelos vincos que se desenharem em meus traços, como nos de meus antepassados.

Não é isso realmente o que conta. O que vale é a íntima noção de que a jornada de cada um de nós se delineia menos pelo espaço que compreende do que pela felicidade com que a compomos.

Well, ainda que eu esteja na Capital Federal de meu País, tem uma pessoinha numa cidadezinha pequena que está de folga hoje e para quem desejo uma òtima folga. Primavera começa às 18 horas por ai e foi-se o inverno.

Que seja primavera lá fora e dentro de cada um de nós. Uma ótima terça-feira.