sábado, 3 de agosto de 2024


03 de Agosto de 2024
DECLÍNIO COGNITIVO - Bianca Dilly

DECLÍNIO COGNITIVO

O cérebro também precisa de exercícios

Cerca de 150 mil gaúchos sofrem com algum tipo de demência. Explorar novas habilidades ajuda a proteger contra danos.

Aprender uma nova habilidade, participar de jogos que estimulem o raciocínio lógico, integrar discussões em grupo, testar habilidades musicais, de computação ou fazer aulas para praticar um novo idioma. Mais do que aumentar os conhecimentos e se divertir, atividades como essas fazem bem ao estado geral do cérebro.

De acordo com especialistas, o treinamento cognitivo é um dos cinco fatores que protegem e melhoram a performance e a saúde cerebral a longo prazo. Segundo o médico neurologista responsável técnico pelo Centro de Pesquisa e Investigação Clínica do Instituto do Cérebro (Inscer), Cristiano Aguzzoli, a importância do treino intelectual fica ao lado de manter uma dieta balanceada, praticar atividades físicas regularmente, controlar os fatores de risco cardiovasculares e se engajar em atividades sociais.

Quando essa combinação não recebe atenção, o declínio cognitivo pode ser uma consequência. Em relação ao treinamento intelectual, o presidente da Sociedade de Neurologia e Neurocirurgia do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Distúrbios Cognitivos da Santa Casa, André Luiz Rodrigues Palmeira, destaca que quando se deixa de praticar habilidades, o cérebro vai perdendo a capacidade plástica:

- Ele vai se tornando mais vulnerável aos danos. Quando aprendemos coisas novas, estamos estimulando a formação de novas conexões. É o que chamamos de neuroplasticidade. Quando estimulamos, melhor se responde ao processo de desenvolvimento e às doenças que possam surgir - detalha.

Atualmente, há estimativas que apontam a existência de aproximadamente 150 mil gaúchos com alguma demência, dos quais 50% a 60% dos casos são relativos à doença de Alzheimer. O cálculo é do médico geriatra e professor da Universidade Feevale Leandro Minozzo, baseado no número de idosos e a partir de dados do Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (Renade). É um levantamento que preocupa e que deve piorar.

- As projeções apontam para o crescimento do número de casos de demência no mundo todo, em especial em países em desenvolvimento. A região da América Latina é a área do mundo onde se tem a maior prevalência de casos de demência. Também há estudos que mostram de 700 mil a 800 mil casos sem diagnóstico no Brasil, o que torna a situação mais complexa e demandante para toda a sociedade - aponta Minozzo.

Por isso, o treinamento é necessário por toda a vida. Segundo especialistas, a preocupação começa já na infância. E entre os fatores que mais protegem o cérebro nesse sentido é a educação. Há estudos que relacionam a baixa escolaridade com o aumento da chance de um indivíduo desenvolver demência.

Conforme Aguzzoli, os anos de educação são primordiais a longo prazo:

- Mais anos de escolaridade estão relacionados à proteção. Na fase adulta mais avançada, o treinamento cognitivo é fundamental para ter a mente ativa.

"Um bônus"

Entre as formas indicadas para as atividades intelectuais, está o aprendizado de idiomas. Na Associação Cristã de Moços do Rio Grande do Sul (ACM-RS), pessoas de todas as idades se encontram semanalmente no Centro Histórico de Porto Alegre para estudar inglês e espanhol. São cerca de 150 alunos, com idades entre 13 e 83 anos. Há grupos focados na terceira idade.

- Precisa manter o cérebro ativo. E o estudo de um idioma, que não é a nossa língua-mãe, é fundamental para a ginástica cerebral - relata a policial civil aposentada Katia Beirão Haag, 57 anos.

Professora de línguas e coordenadora de idiomas da ACM- RS, Nádua Gallo Muhammad conta que o trabalho é humanizado:

- Temos a missão de olhar para o próximo, acolher. O aprendizado de línguas exercita a mente, mas também traz a socialização como um dos benefícios.

O engajamento em atividades sociais é outro ponto importante para a saúde cerebral e também entra como fator decisivo para os alunos. Além disso, os colegas, para além da sala de aula, tornam-se amigos.

- Esse grupo é muito importante para todos nós. Nós conseguimos nos aproximar como pessoas. Inclusive, viajamos juntos. Eu considero essas aulas como uma terapia de vida. Trocamos experiências. Aprender espanhol é um bônus - conclui a estilista aposentada Rejane Penck de Araujo, 69. _

A América Latina é a área do mundo onde se tem a maior prevalência de casos de demência. Há estudos que mostram de 700 mil a 800 mil casos sem diagnóstico no Brasil.

Leandro Minozzo - Médico geriatra


03 de Agosto de 2024
J.J. CAMARGO

Os limites da verdade

Um mundo sem mentiras teria muitas vantagens, no entanto, o supersincero é uma figura assustadora e temida. Claro que o constrangimento resultante será uma exclusividade das pessoas de boa índole, aquelas que motivaram a publicação dessa crônica. E que em nada se parecem com os limitados de caráter, sempre enredados em escusas fabricadas, contextos falsos e vieses convenientes.

Normalmente vista como a vilã dos relacionamentos pessoais, a mentira existe, em muito, porque nos ajuda a cumprir um propósito essencial: a convivência harmoniosa em sociedade. Não seria um exagero chamá-la de mentira do bem porquanto pode significar de preservação da dignidade que, para os desprovidos amiúde, representa a única e pífia justificativa para a sobrevivência.

Certamente, o mundo sem mentiras teria muitas vantagens: (1) os políticos teriam que encontrar virtudes verdadeiras, (2) os compromissos seriam respeitados, (3) ninguém manteria segredos e (4) a traição não existiria.

Na essência, todos desejamos que as pessoas nos tratem com sinceridade, mas intimamente tememos o supersincero, uma figura sempre assustadora.

Para quem acha relaxante o convívio com a verdade, uma recomendação útil: retenha toda a informação bombástica até comprovar sua autenticidade. Sites como Snopes e FactCheck.org podem ajudar.

Uma dúvida constante é o quanto estamos, de fato, preparados para a sinceridade absoluta. Porque, sem mentiras, você teria que ouvir com naturalidade o que os outros pensam da sua aparência, das suas opiniões, dos seus amores e, que desagradável, do seu desempenho profissional.

Todos admitem que a mentira pode ser uma bengala para a autoestima. Em consequência, quase nada do que se publica, por exemplo, em sites de relacionamento, é verdadeiro. Uma pesquisa baseada em uma rede social na Califórnia mostrou que os homens eram, em média, cinco centímetros mais baixos e as mulheres estavam seis quilos acima do peso anunciado.

Como a verdade está atrelada à palavra, ficamos sempre à mercê do jeito de dizer, com termos conciliadores ou belicosos, que fluirão condicionados a gatilhos de risco, como preconceito, intolerância, sequelas emocionais ou, simplesmente, cansaço.

Com uma visão isenta, é fácil concluir que dois predicados frequentes tornam a verdade uma ameaça ao convívio social amistoso: a verdade absoluta e a verdade permanente. A fonte de intolerância mais antiga é o contador de vantagens, um tipo frequente em reuniões sociais e quase obrigatório em entrevistas de emprego.

Como era de se esperar, essa intolerância aumenta com a velhice porque parece cada vez mais irritante que alguém suponha que apesar de tudo o que a idade ensina ainda sejamos impressionáveis.

Por outro lado, a prática da verdade tem significado diverso em diferentes ambientes, usando-se como extremos, a fidelização à verdade nas pesquisas científicas - onde a falsidade é repudiada com veemência máxima porquanto representa de malefício para a sociedade - e a permissividade sem filtro das redes sociais, que rapidamente se revelaram os celeiros das notícias falsas, com o descompromisso moral de quem não se importa que uma mentira possa destruir uma família ou emporcalhar uma biografia.

Em medicina, especialmente em condições extremas, verdade é empregada até o limite em que, por aspereza, possa comprometer a esperança. Perceber a diferença entre verdade total e verdade útil, em prol do paciente, é puro talento médico. _

J.J. CAMARGO

Amores disfarçados de amizade

Eu me ponho a matutar: será que é verdade? Se você está acostumado com a ideia do amor romântico - um amor sofrido, angustiado, obcecado, em que se quer fazer tudo junto -, você não é capaz de notar quando a afeição autêntica surge em sua frente. Seu olhar se aliena, condicionado a uma viseira de expectativas e sensações predeterminadas.

Não é possível reconhecer um amor manso, calmo, compreensivo. Vai assimilar que aquilo é amizade, não amor.

Quantos amores passaram pela sua vida disfarçados de amizade? Aquela pessoa dava colo, aquela pessoa ouvia até o fim, aquela pessoa era parceira de dança, de balada, das conversas do bar, aquela pessoa incentivava as suas iniciativas, aquela pessoa ria das suas piadas, aquela pessoa entendia as suas loucuras a ponto de não rotulá-las, mas você pensava que era só um amigo.

Como não padecia dos sintomas românticos, julgava que não havia química. Nem se arriscou a investir, a explorar a cumplicidade para um compromisso.

Seguia uma bula, concebia estar amando como não ter fôlego, morrer de saudade, permanecer aflito por uma mensagem, amaldiçoar a distância, atravessar crises de ciúme. Assim confundiu o placebo com a vacina. Tão ocupado em perseguir uma idealização, deixou de amar quem realmente merecia, quem o destino disponibilizou em seu caminho para fornecer clareza e discernimento.

Você simplesmente não permitiu ao amor crescer de uma forma que você não conhecia, misteriosa, feita de paz, de suavidade, de concordância, de respeito ao seu espaço. Esperava borboletas no estômago, e elas estavam espalhadas pelo seu jardim. Esperava perder a cabeça, a razão, o chão, e vinha alguém devolvendo sua cabeça, sua razão, seu chão.

Esperava um tormento, um redemoinho apertando a sua rotina, e havia a leveza de alguém que não sufocava, não implicava, não explodia e, mesmo sem passionalidade nenhuma, demonstrava que você era a presença mais importante do universo.

Quantos romances foram cortados pela raiz, pois não se assemelhavam aos romances de antes?

Você esquecia que as suas experiências pregressas apenas causaram aborrecimentos, e aquela, pelo contrário, era benéfica. Então, não confiava. Não admitia que flechadas no coração pudessem não sangrar.

Negou-se a experimentar uma combinação diferente, não foi a fundo, estabeleceu um limite prévio para a intimidade. Quando está habituado a sofrer, você interpreta equivocadamente a sua saúde emocional como monotonia.

Acha que o contato carece de taquicardia, de adrenalina, de ansiedade, do extremo da preocupação. Parece dizer a si mesmo: é muito sossego para ser forte, é muita convergência para ser atração.  Não havia o monopólio, a disponibilidade integral, a fixação, e estranhou a expansiva liberdade.

Não se mostrava tensionado, sem saber se a pessoa voltaria no dia seguinte. Não existia desespero e chantagem, não precisava correr atrás ou mendigar atenção, e acreditou que não sentia nada demais.

Não raciocinou por um minuto que amor bom é o da confiança: você não tem medo de perder o outro porque o outro já faz parte de você. Quando há tranquilidade, você finalmente encontra o encaixe de dois inteiros. Não é mais metade de ninguém. _


Hereditariedade e o câncer de próstata

No mês em que o Dia dos Pais é comemorado, em 11 de agosto, a saúde do homem fica em evidência novamente. É importante pontuar que, além de amor, carinho e valores transmitidos de pai para filho, muitas predisposições genéticas são passadas de forma hereditária. As particularidades da saúde masculina levam a reflexões passíveis de prevenir possíveis doenças e ampliar o cuidado para diminuir as ocorrências. Assim como os fatores ambientais e o estilo de vida, a genética desempenha função essencial para entender o desenvolvimento das enfermidades.

Em algumas doenças, a hereditariedade é a única forma de transmissão, como a hemofilia A e a fibrose cística. Outras patologias, como câncer e obesidade, possuem diferentes causas, entre elas os fatores genéticos, ambientais e hábitos do indivíduo. Em ambos os casos, entender o papel do atavismo no desenvolvimento de enfermidades traz ferramentas importantes para compreensão, diagnóstico precoce e tratamento dessas condições.

No caso da urologia, a principal preocupação relacionada às condições genéticas é o câncer de próstata, o segundo tipo mais comum entre homens, atrás apenas do câncer de pele. De acordo a OMS, são registrados mais de 1,4 milhão de novos diagnósticos anuais da doença. O Brasil é o quarto país em casos, atrás de Estados Unidos, China e Japão, e a estimativa do Instituto Nacional do Câncer é de 71.740 novos casos a cada ano, o que representa aumento de 8,5% da análise anterior.

Como estima-se que 10% dos tumores são hereditários, a análise do histórico familiar cumpre papel significativo na obtenção de informações complementares e vitais na busca por estratégias terapêuticas mais eficazes. Para pessoas com parentes próximos que descobriram câncer de próstata, como irmãos ou pai, há maior risco de desenvolver a doença em algum momento da vida. No entanto, ao identificar uma predisposição genética, é possível agregar ações preventivas para o homem, seja no mês dos pais ou em qualquer outra época do ano. 


03 de Agosto de 2024
MARCELO RECH

Qual Lula fala sobre a Venezuela?

As idas e vindas em relação à Venezuela abrem uma incógnita sobre qual Lula está falando quando diz que não viu nada de grave na farsa eleitoral de Nicolás Maduro. Há muitos Lulas possíveis na pele do presidente. Escolha a sua versão.

O amigão - Em 2013, Lula gravou um vídeo de apoio para a campanha de Maduro. E foi o brasileiro quem estendeu o tapete vermelho para receber o aliado em Brasília, em maio de 2023, demarcando seu retorno aos salões de uma democracia. Na ocasião, como velhos amigos, trocaram sorrisos, abraços e promessas de cooperação.

O caradura - Lula sabe bem o que se passa no submundo do regime e das eleições venezuelanas, mas faz de conta que a Venezuela vive na normalidade democrática. Confuso, ingênuo ou cínico, trata o conselho eleitoral da Venezuela, um braço do governo de Maduro, como se fosse uma justiça independente, que não existe na Venezuela. Apesar de líder inconteste do PT, afirma que o partido, como na defesa da vitória de Maduro, tem autonomia para se manifestar.

O pragmático - Esse Lula também coloca uma venda nos olhos, mas faz considerações incômodas a Maduro, como pedir transparência e a divulgação das atas eleitorais, sem avançar a linha que possa levar a um desentendimento. A versão pragmática de Lula pensa na dívida de U$ 1,2 bilhão da Venezuela com o Brasil, nos negócios entre os dois países e na extensa fronteira ao Norte.

O diplomático - Lula articula países da região para pressionar por eleições livres, e segue na afinidade com o chavismo para manter alguma ingerência sobre Maduro, evitando ainda mais loucuras, como a invasão da Guiana pela Venezuela. Esse Lula conversa com Joe Biden sobre o vizinho e sonha em ser um indutor da sua redemocratização.

O esquerdista - A aliança histórica do PT e do MST com o chavismo bloqueia qualquer tentativa de desgarre de Lula em relação a Maduro. Quando se trata da autocracia chavista, o Lula que escolheu Cuba para passar o Réveillon de 2020 para 2021 está mais para a esquerda caquética e autoritária do nicaraguense Daniel Ortega do que para a esquerda contemporânea e democrática, além de crítica a Maduro, do chileno Gabriel Boric.

O antiquado - Um Lula que deixou de ser novidade nos círculos de maior prestígio empurra a diplomacia do Brasil para o lado de párias como a Rússia, o Irã e o Hamas. Lula não viu o tempo passar e tem dificuldade de lidar com a nova ordem mundial.

A esfinge - Quando não se entende um comportamento, é porque tem algo que não quer ou não pode vir à tona. Na relação com a Venezuela, é um enigma a ser decifrado

O contraditório - Uma combinação de todos acima. _

MARCELO RECH

03 de Agosto de 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

O jornalismo em uma eleição singular?

Começa em duas semanas, de forma oficial, a campanha eleitoral para o pleito municipal de 2024. No Rio Grande do Sul, a disputa não será igual às anteriores. A busca pelo voto terá a singularidade de ocorrer em meio à reconstrução que se segue à mais devastadora catástrofe climática da história do país. Postulantes às prefeituras e às câmaras de vereadores serão cobrados pela população e pelo jornalismo do Grupo RBS, engajado com os gaúchos no esforço coletivo de retomada do desenvolvimento. Devem estar à altura das responsabilidades deste tempo em que o Estado está desafiado não só a se reerguer, mas a se tornar mais resistente.?

?A tarefa de forjar um Rio Grande do Sul adaptado ao aquecimento global e capaz de mitigar estragos causados por eventos meteorológicos extremos começa pelas ações sob a incumbência dos municípios. Será um tema inescapável. Dividirá atenções com outras pautas que permeiam as eleições municipais, como saúde, educação e transporte público. Mesmo nas cidades que não sofreram danos severos pelas enchentes que assolam o Estado desde o ano passado. Não há candidatura que possa garantir aos eleitores um futuro sem perdas materiais e risco à vida por secas, cheias ou pela fúria de tempestades.

O Grupo RBS, fiel aos princípios editoriais que norteiam a cobertura jornalística de períodos eleitorais, reitera o compromisso de colaborar para cada votante fazer a sua escolha de forma consciente e livre. Essa contribuição, na prática, se dá com um jornalismo preocupado com a relevância e a informação de qualidade. Mais do que buscar responsabilidades, é hora de dar atenção especial às propostas, ao cotejo de ideias, programas e biografias, e com insistência para que os aspirantes aos Executivos e Legislativos expliquem como viabilizar seus projetos. Os gaúchos conhecem os problemas de suas cidades. Estão à espera de soluções factíveis e, por isso, devem deixar clara a precedência do debate construtivo. Dos candidatos, esperam-se mais propostas e menos troca de insultos.?

A disseminação de desinformação, inquietação recorrente nos processos eleitorais recentes, vai requerer cuidado adicional. A rápida evolução das ferramentas de inteligência artificial, também mais acessíveis, eleva o risco de circulação de conteúdos fraudulentos, como as deepfakes. São os casos de vídeos e áudios falsos, embora convincentes. Criam uma situação, uma fala ou uma cena inexistentes, mas ultrarrealistas.

A difusão de falsidades, distorções e versões tendenciosas, com o intuito de enganar e confundir, conspurca a democracia por manipular a decisão do eleitor. Um voto contaminado pelo engodo não é um sufrágio livre. É neste momento que o jornalismo profissional, exercido com equilíbrio, rigor e técnica, se investe de ainda mais importância para a sociedade. O voto consciente é fruto da opinião individual formada a partir de dados verdadeiros e fatos constatáveis e checados.

?A poucos dias do início da campanha para um pleito de singular importância pelo momento histórico do Estado, a RBS reforça os seus deveres como grupo de comunicação. Entre eles estão a priorização de informações úteis ao eleitor, o debate em torno de temas da vida real que contribuam para o desenvolvimento dos municípios, a apuração, a checagem, a independência e a abertura de espaços para diferentes visões. É o que reafirma o jornalismo como pilar da democracia.? 



03 de Agosto de 2024
PERIGOSO OU NATURAL?

PERIGOSO OU NATURAL?

O que dizem especialistas sobre a "nova" ilha do Guaíba. Banco de areia já existia, mas aumentou depois da cheia de maio. Profissionais divergem sobre necessidade de intervenção na área

Vinicius Coimbra

A expansão de um banco de areia no Guaíba, em Porto Alegre, motiva posicionamentos contraditórios de estudiosos e autoridades. Parte deles define o local como problemático para embarcações no futuro e um risco em caso de uma nova enchente, o que justificaria uma intervenção. Outros defendem que a formação da ilha é um processo natural, que não significa risco.

Segundo Elírio Toldo Jr, pesquisador do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica (Ceco) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a ilha já existia antes de maio.

- É um processo lento e natural que seguirá para o interior do Guaíba - pontua.

Ele ressalta que o crescimento do banco de areia não significa prejuízo ao canal por onde passam os navios. Para ele, a ilha também não preocupa em caso de cheias.

Francisco Milanez, diretor-técnico e científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, afirma ser contrário à ideia de que o crescimento do banco de areia deva ser freado:

- É uma manifestação do arquipélago, uma formação arenosa estável, resultado da hidrodinâmica dos rios.

Desassoreamento

Já o posicionamento do Consórcio Metropolitano Granpal é de preocupação quanto ao aparecimento do banco de areia.

A entidade, que reúne 17 municípios, defende política de desassoreamento na região.

- A dragagem é urgente. Em épocas de seca, há sérios riscos de a operação do Catamarã ser interrompida - diz Marcelo Maranata, presidente do consórcio e prefeito de Guaíba.

Conforme Marcelo Dutra, doutor em ciência e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), o crescimento da nova ilha deve motivar iniciativas para o longo prazo:

- Vamos observar alterações drásticas se esse material não for retirado ou se novas entradas não forem evitadas. Estamos perdendo a capacidade de navegação. 



03 de Agosto de 2024
ACERTO DAS TUAS CONTAS

Giane Guerra acerto das (tuas) contas - com Guilherme Jacques e Guilherme Gonçalves

Investimentos que escapam da mordida do Leão

Um grande "charme" de uma aplicação financeira é ser isenta de Imposto de Renda, mas nem todas têm as mesmas regras. Na semana passada, a coluna falou da Letra de Crédito de Desenvolvimento (LCD), criada recentemente e ainda sem data para chegar ao mercado dos investidores. Hoje, traz uma lista dos investimentos que escapam da mordida do Leão. Mas antes lembre-se de que esse é apenas um dos atrativos. Diversos outros pontos devem ser levados em consideração na hora de escolher onde guardar o seu dinheiro.

LETRA DE CRÉDITO DE DESENVOLVIMENTO (LCD) - É isenta para pessoas físicas residentes no Brasil. Para investidores pessoa jurídica ou moradores do Exterior, a alíquota de IR é reduzida para 15%. O papel, emitido pelo BNDES, captará recursos para investimento de infraestrutura e inovação industrial.

LETRA DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO (LCI) E DO AGRONEGÓCIO (LCA) - Com rendimento isento de IR, o papel é emitido por empresas destes setores.

LETRA IMOBILIÁRIA GARANTIDA (LIG) - Emitidas por instituições como bancos e sociedades de crédito. Conta com o atrativo da isenção de IR, mas não entra na proteção de R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) no caso de calote da instituição financeira.

CERTIFICADO DE RECEBÍVEIS IMOBILIÁRIOS (CRI) E DO AGRONEGÓCIO (CRA) - Títulos emitidos por empresas com garantia nos créditos que ela tem a receber, como uma construtora que ainda será paga nas parcelas do imóvel que vendeu. Como a LIG, são isentos de IR, mas não têm proteção do FGC.

DEBÊNTURES INCENTIVADAS - Papéis emitidos por empresas para investir em infraestrutura,como saneamento e rodovias. Elas são isentas de IR para pessoas físicas, ao contrário das debênturescomuns ou corporativas. Também não são protegidas pelo FGC, mas bateram recorde de emissões no primeiro semestre.

FUNDOS DE INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO - Há vários tipos, que vão da compra de títulos emitidos por empresas aos que adquirem o próprio imóvel para alugar e são chamados de tijolo. Bons pagadores de dividendos são isentos para pessoas físicas, mas, no caso de negociação das cotas em bolsa, paga 20% no ganho de capital.

FUNDO DE INVESTIMENTO EM CADEIAS PRODUTIVAS AGROINDUSTRIAIS (FIAGRO) - Criado há poucos anos, pode aplicar em silos e galpões ou comprar fatias de empresas do agronegócio. O lucro distribuído a pessoas físicas é isento, mas o ganho com a venda de cotas paga 20% de IR.

POUPANÇA - A caderneta também é isenta, mas seu rendimento é baixo, chegando até a perder para a inflação em alguns anos.

AÇÕES NA BOLSA DE VALORES - A venda é isenta quando a negociação ficar abaixo de R$ 20 mil no mês. Se exceder, tem que pagar 15% sobre o ganho de capital. Compra e venda no dia (day trade) recolhe 20%. Distribuição do lucro ao acionista, o dividendo é isento. Já o juro sobre capital próprio (JCP) recolhe 15% na fonte, ou seja, chega no investidor comIRpago. _

Do gastador ao investidor: o perfil do consumidor da Capital

Use lupa nos rótulos dos alimentos que você compra

Consumidor verde

Entusiasta da educação financeira, mesmo que no comando de uma entidade de varejo, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA), Irio Piva, costuma inserir em pesquisas básicas de datas de vendas recortes que mostrem como estão as contas do consumidor. Na última, em parceria com a Vitamina Pesquisas Orgânicas e Criativas, os entrevistados foram questionados com qual perfil de consumo se identificam mais. _

A diretora Rosângela Cabral é também, claro, consumidora, e a coluna perguntou sua exigência para comprar alimentos:

- Procuro produtos naturais e orgânicos, mas nem todos são. Me preocupo em olhar o rótulo. Se tem ingredientes artificiais, nomes que não sei o que são, não compro - diz Rosângela.

Assim como cuida do meio ambiente e da comunidade, o consumidor sustentável preserva seu corpo com bons alimentos. A expressão que a coluna adora: "comida de verdade". _

37,5%

Gastador

26%

Poupador

18%

Desligado

10%

Devedor

8,5%

Investidor

Gasto o que ganho. Não tenho dívidas, mas também não costuma sobrar nada.

Consigo economizar parte do que ganho para reservas de emergência ou algum objetivo específico.

Não gasto tudo que ganho, mas deixo o que sobra parado. Não coloco na poupança nem invisto.

Tenho dívidas que não consigo saldar e entro em uma bola de neve, pois tenho gastos maiores que a minha renda.

Destino parte da minha receita a investimentos financeiros, mesmo que possa gerar maior risco.

ACERTO DAS TUAS CONTAS


03 de Agosto de 2024
CARTA DA EDITORA

Chega mais

As diversas modalidades esportivas ainda estarão em evidência nos próximos dias. E as Gu aproveitaram para mostrar que é possível estar na moda até na hora de praticar exercícios, tanto que já escolheram os seus looks fitness, que podem ser encontrados na Pompéia.

A dupla de ouro legging e jaqueta corta-vento foi a aposta da Alice Bastos Neves e é ideal para os dias em que o frio é a companhia na hora de se exercitar. Já a Kelly Costa prezou pelo conforto do básico com camiseta e legging. Nos pés, uma das escolhas mais importantes para quem vai praticar atividades físicas: o tênis, que precisa ter o modelo apropriado para evitar lesões.

Se inspirou? Garanta essas e outras opções nas lojas, no site lojaspompeia.com e no app. Para conferir de perto, visite a unidade da Pompéia no Shopping Iguatemi (Av. João Wallig, 1.800, 1º andar, de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 11h às 22h) e aproveite o serviço de consultoria gratuito. 

Já peguei muita estrada pavimentada nas conquistas das liberdades femininas. Mercado de trabalho talvez seja a mais preciosa para mim, herança de uma geração que colocou uma boa dose da identidade na profissão - tente falar comigo durante 15 minutos e saberás. Uma forma de conquista, porém, ficou para atrás na minha bibliografia: sou péssima em tomar a iniciativa quando algum homem me interessa. Assim como também não facilito minha vida só postando fotos da Tannat e da Tulipa, minhas gatas, no Instagram.

Embalada por essas observações do meu precário marketing pessoal como solteira, fui editar a matéria de capa desta edição, feita e proposta pela repórter Karine Dalla Valle. Assim como temos histórias bacanas como a da estrategista de marca Karine Adiers, que conduz o par escolhido por ela mesma pelo salão de dança, temos reflexões importantes, a exemplo de uma onipresente visão social daquela menina moldada para ser "a eleita".

Não me encaixo atualmente em nenhum dos modelos acima. Mas cabe a quem tem acesso a boas conversas, como nós de Donna e vocês leitoras, lançar um olhar atento para a provocação da psicóloga Lavínia Palma, que nos entrega observações como "Se a mulher esconder o que sente, ou ficar em uma posição de espera, isso, de alguma forma, ainda confere valor para ela".

Em pleno 2024, ainda temos estereótipos nos calcanhares quando o assunto é vida sexual, mesmo as que já dispensaram há muito o sapatinho de cristal. _

Profissionais da moda e da arquitetura se reúnem no próximo dia 10 no evento Cenários do Design, na Fábrica do Futuro (Rua Câncio Gomes, 609, Floresta), em Porto Alegre, para debater as tendências futuristas do design e fortalecer a produção local, oferecendo novas perspectivas aos criativos da região. O encontro promoverá networking e painéis, além de conteúdo exclusivo de feiras internacionais como Salone del Mobile, integrando tendências globais com a realidade local. Os ingressos estão disponíveis via plataforma Sympla.

A De Sírius Cosméticos criou a linha de tratamento capilar Hair Curve, que reativa a definição de cabelos cacheados, ondulados e crespos que passaram por processos químicos como mechas, progressiva e uso excessivo de chapinha, deixando os fios mais saudáveis e fortes. Os produtos estão à venda no site da marca desirius.com.br/hair-curve.

Malha gaúcha - Trama tropical

Criando malhas há 38 anos, a Biamar lançou a coleção de primavera com mais de cem novos modelos. Sob o conceito Trama Tropical, a marca se inspirou tanto no clima ameno quanto no inverno brasileiro, trazendo peças de tricô como blusas, casacos, saias, entre outros, sempre apostando em tons pastel. As roupas estão disponíveis no site loja.biamar.com.br.

Feira La Movida - Moda e cultura

Ocorre neste domingo, das 10h às 18h, mais uma edição da Feira La Movida na João Telles, esquina com a Osvaldo Aranha, com moda, arte, gastronomia e cultura. Além disso, o evento contará com música ao vivo e outras atividades no local. Mais informações no perfil @feiralamovida.

CARTA DA EDITORA

sexta-feira, 2 de agosto de 2024


02/08/2024
Jaime Cimenti

Cem mil anos de criatividade humana

uma breve história da arte

Há cem mil anos o ser humano faz arte, buscando expressar suas emoções, sua história e sua cultura. A arte é o território da liberdade e da criatividade infinitas, e sua história confunde-se com a trajetória da humanidade. Desde os desenhos rupestres até os atuais movimentos como arte conceitual, pop art, arte de novas mídias e hiperrealismo, a arte busca beleza, harmonia, equilíbrio, resistência e participação. Há quem diga que está difícil definir o que é arte hoje, mas isso mostra as buscas permanentes e as saudáveis inquietações dos artistas.

Uma breve história da arte (L&PM Editores, 304 páginas, R$ 63,90), de Charlotte Mullins, experiente e detalhista apresentadora, escritora e crítica de arte, autora de doze livros sobre artes visuais, é um belo e instigante passeio pelos cem mil anos de arte no mundo. Charlotte fala das marcas dos povos pré-históricos, das obras-primas da Antiguidade e da longeva relação da arte com a religião. A autora trata do Renascimento, de Da Vinci, Giotto, Donatello, Van Eyck, Michelângelo e outros.

Mais adiante, relata como artistas se agrupam e se separam em meio ao tumultuado século XX. Picasso, Frida Kahlo, Georgia O'Keefle, Kathe Kollwitz e outros são enfocados pela autora, que depois fala sobre nossos agitados dias. Arte como resistência aos desafios sociais, novas plataformas e ideias, conceito e atitude sendo mais valorizados que, necessariamente, o objeto final. Artistas como Ai Weiwei, Shirin Neshat e o ícone pop Yayoi Kusama estão na obra. São apresentados artistas esquecidos, como a italiana Sofonisba Anguissola e a chinesa Guan Daosheng. O livro foge do eurocentrismo e do cânone e a jornada traz a América do Sul, Austrália, passando pela Índia, Oriente Médio, Vale do Niger, Japão, Java e Rapa Nui.

O livro proporciona a estudantes, universitários e qualquer adulto interessado uma visão global, ampla e aguçada da história da arte de forma concisa. O livro é ao mesmo tempo erudito, fresco, inclusivo e acessível e mostra como a arte pode fazer pessoas e mundo melhores. 

Lançamentos

Uma poética do efêmero e outros textos ( Edição do Autor, 104 páginas) quarto livro do poeta e escritor dois Santos dos Santos , tem três partes: uma poética do efêmero e outros textos; microcontos e aforismos. “É fluida a nossa percepção de mundo, e nessa insegurança andamos a vida inteira por lugares movediços.” é um dos belos aforismos schopenhauerianos do livro.

Censura por toda parte ( Avis Rara-Faro, R$ 27,47, 128 páginas) de André Marsiglia,consagrado advogado constitucionalista especializado em Liberdade de Expressão , analisa com profundidade e objetividade os bastidores jurídicos do inquérito das fake news e a nova onda repressora que assola o Brasil.

Os maridos ( Editora Intrínseca, 352 páginas, R$ 56,30) romance de estréia de Holly Gramazio é um olhar original e divertido sobre relacionamentos e escolhas determinantes da vida. Ao voltar da despedida de solteira da melhor amiga Lauren é recebida por Michael,seu marido. Só que ela não é casada com ele , que desaparece depois de ir ao sótão trocar uma lâmpada...aí aparecem outros maridos,que desaparecem no sótão...

Domingo

Domingo frio, céu em tons de chumbo, sol escondido. Garoa fina. Acordo cedo, vou em busca do café e dos jornais. Como sou meio cult e setentão, gosto de jornais impressos. Na sacada observo as árvores e os postes com seus fios de energia elétrica e telefonia. Nos cabos de fibra ótica um passarinho pousa. Como se estivesse fazendo um exercício de pilates, ele fica ali, firme, sem ligar para a chuvinha.

Ele está sozinho, enfrentando o frio, o vento e a água. É um bom pássaro gaúcho, que não se entrega diante dos rigores do inverno. Estou só de pijama, está frio ali na sacada, mas não me afasto, hipnotizado pela imagem da ave, que segue ali, impávida, firme e forte.

Os minutos vão passando e a ave ali, sem mover uma peninha sequer, sem um pio, silêncio e concentração totais. O passarinho lembra o cavalo Caramelo, símbolo da resistência, que se quedou, parado, em cima do telhado, aguardando o futuro, no meio da inundação. O pássaro segue ali, seguro de si, na corda bamba, fazendo seu espetáculo de circo ao ar livre, sem se preocupar com toldo, arquibancadas, plateias e aplausos. Ele esta ali, vivendo o seu momento, vivo, sereno, não dando a mínima para as persistentes gotículas da chuva.

Mas eis que o sol aparece entre as nuvens cinzentas, que se abrem como se fossem as cortinas do Theatro São Pedro. O astro-rei mostra que está ali, como em quase todos os dias, para clarear o mundo e as ideias dos humanos e jogar luz na fauna, na flora, nos rios e nos mares. Depois de um primeiro ato, o sol desaparece e as nuvens se movimentam, formando novas cortinas. Como disse o Ulysses Guimarães, política é como nuvem, sempre em movimento .

Digo eu que a política e nuvens se movimentam, muitas vezes, para que tudo fique como já era no tempo do Rei Salomão, que nos deixou o Eclesiastes, onde está escrito que não há novidades debaixo da luz do sol. Nesses últimos séculos houve muitas e rápidas mudanças, mas ainda temos muito o que aprender em matéria de humanismo propriamente dito. O sol volta, o pássaro voa em direção ao infinito, como se fosse um avião pontual carregando passageiros, bagagens e esperanças em direção a algum ponto do planeta.

Era um pássaro ou uma pássara? Não sei, não deu para ver e nem importa. Resolvi tirar o pijama, pois não sou civil e nem militar de pijama. Depois de algum tempo fora da cama, semi-aposentado, visto a roupa do dia. Antigamente alguns aposentados ficavam de pijama o dia inteiro. Uns até iam no armazém da esquina de chinelos e pijama, como seu Setembrino, na minha terra, que botava o pijama assim que chegava em casa e, nos fins de semana, usava o pijama de sexta de tardezinha até segunda de manhã. O Setembrino já fazia isso antes de se aposentar. Já a Maria, que mora sozinha na Serra, depois de aposentada, só tira o pijama quando sai. 

A propósito

Com um mate, sento na poltrona confortável e leio os jornais. Antigamente, de manhãzita, muitos gaúchos pegavam o Correio do Povo e iam direto para o banheiro, para o café ou para o mate. Muitos ainda devem fazer o mesmo, com o Correio, a Zero Hora e o Jornal do Comércio, eterno noventão competente, lépido e fagueiro. Hoje muitos levam o celular para todo lado e aí podem ler os jornais sentados no trono. Nos periódicos as agressões e polarizacões deletérias do planeta, os egos oceânicos, as guerras sem sentido e as notícias boas da reconstrução do RS, das artes e dos esportes. Tem até crônica clássica sobre passarinho, falta de assunto e outras amenidades amadas pelos leitores. (Jaime Cimenti)


02 de Agosto de 2024
MARCO MATOS

Me deixem dormir!

Acordar cedo é ruim. Ponto final. Já reparou como atualmente virou moda dizer que acorda cedo? Parece uma disputa! Se fulano diz que acorda às 6h, logo vem alguém dizer que acorda às 5h. Onde isso vai parar?

Me deixem dormir em paz! Não quero acordar perto do meio-dia, mas não pode ser tão improdutivo assim acordar às 7h. Fim de semana às 8h? Bem, na verdade meu trauma é acordar com o barulho do despertador! Que som terrível.

Mas o fato em questão é que, cada vez mais, incentivada pelo milagre de acordar cedo, que muita gente passa o dia se enchendo de café, energético pra vencer o sono. Lembra daquela dica de dormir oito horas por noite? Eu, particularmente, sigo isso e me faz muito bem. Uma hora a menos e passo o dia com dificuldade de concentração.

O meu segredo pra não ser julgado pela sociedade que exige acordar antes das 6h é ir dormir cedo. A partir das 20h30min já começo a ir pra cama. A conta é simples. Somo oito horas de sono e acordo bem. Mas essa cobrança por fazer "o dia render", "terminar tudo de mais importante até as 10h", "ir malhar, ler, tomar café e chegar no trabalho antes das 8h"... e várias outras coisas me faz pensar que na verdade tem muita gente vivendo no fuso errado.

Sou um defensor do sono. De uma noite bem dormida. De um dia inteiro para cumprir as tarefas. Pra que a pressa de terminar o dia ainda pela manhã? Esses dias li um estudo sobre as curvas de energia do ser humano. Achei interessantíssimo. Nele dizia que pela manhã temos um pico de energia. À tarde temos outro. Mas pra aproveitar essa onda de criatividade e disposição, não podemos ter tanta afobação.

Cada dia tem uma receita nova, truque infalível para ter mais eficiência na rotina. Como se a vida fosse uma grande empresa em busca de resultado.

É nesse ponto que chegamos a outra discussão: seu tempo é de qualidade? Saborear as horas, os minutos... Vivenciar o dia é espetacular. Dividir as tarefas em múltiplas possibilidades de viver em sociedade. Encontrar tempo para tudo é difícil, mas nem por isso a gente precisa encurtar o sono - como se esse tempo fosse perdido.

É dormindo que o corpo se reequilibra. E não é acordando antes das 5h que alguém é melhor do que você. _

MARCO MATOS

EDITORIAL

Pelo crescimento duradouro e saudável

O mercado de trabalho continua surpreendendo e demonstrando força no país. O desemprego no trimestre encerrado em junho ficou em 6,9%, menor taxa para o período desde 2014. Também em junho, foram criados 201,7 mil postos com carteira assinada, número acima das estimativas do mercado.

São sinais inequívocos de que a economia nacional performa razoavelmente bem ao longo do ano. Enquanto o Boletim Focus, do Banco Central (BC), aponta para um avanço de 2,19% do PIB, o Ministério da Fazenda estima alta de 2,5%. Não é nada extraordinário, mas no início do ano as apostas do mercado situavam-se ao redor de 1,5%.

São indicadores que devem dar conforto ao governo federal para cortar despesas e buscar o cumprimento das regras do arcabouço fiscal. Sabe-se que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é adepto de estímulos governamentais para dar impulso à atividade. Mas os dados conhecidos sobre o desempenho da economia até a metade do ano mostram que, em termos de país, não é um empurrão necessário. O mais adequado é ter cautela com os gastos públicos para garantir que não exista deterioração maior dos fundamentos essenciais para continuidade do crescimento nos próximos anos.

Preocupa, por exemplo, o avanço da dívida bruta do governo. Em junho, conforme o BC, chegou a 77,8% do PIB. É o maior nível desde novembro de 2021, reflexo da política fiscal expansionista do governo. Duas semanas atrás, a Fazenda informou um bloqueio de R$ 12 bilhões do orçamento de 2024, mais um contingenciamento de R$ 3,8 bilhões. Assim, chegaria a um déficit de 0,25% do PIB neste ano, o limite inferior da banda de variação que formalmente permitiria afirmar que a meta do marco fiscal foi cumprida. Ou seja, o esforço foi o mínimo necessário.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decidiu na quarta-feira manter a Selic em 10,5% ao ano e, no comunicado, não fechou totalmente a porta para uma alta na próxima reunião. O fiscal é um dos riscos listados. Um aviso, portanto, de que seria necessário se empenhar mais na gestão dos gastos.

Um novo aperto monetário seria desastroso em especial para o Rio Grande do Sul, que ainda tenta se recuperar do tombo econômico causado pela cheia de maio. Juro mais alto trava a economia, os investimentos produtivos e o crédito. Registre-se que, na contramão do restante do país, o Estado fechou postos com carteira assinada em maio e junho.

O governo federal também anunciou um pente-fino nos desembolsos com o benefício de prestação continuada (BCP) para detectar irregularidades. Deveria ir além e revisar de forma estrutural gastos como as despesas obrigatórias e indexadas. Voltar a produzir superávits é importante inclusive para melhor enfrentar situações excepcionais, como a tragédia climática gaúcha. O apoio financeiro ao Rio Grande do Sul, pelo caráter atípico do acontecimento e pela crise humanitária que gerou, ficou fora da redução de despesas anunciadas pela Fazenda, como deveria ser. Mas, para se reerguer economicamente, o Estado também precisa que o Brasil cresça de forma duradoura e saudável, sem novos solavancos. _ 


02 de Agosto de 2024
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Temor com Oriente Médio leva dólar a R$ 5,735

Se na véspera foi a cotação do petróleo que disparou, ontem foi a vez de o dólar ter forte alta, de 1,43%, para R$ 5,735, motivada pelo cenário global de aversão ao risco. Esse é o maior nível desde 21 de dezembro de 2021, quando fechou em R$ 5,738.

Entre os elementos do cenário de aversão ao risco, estão o assassinato de Ismail Haniyeh, líder formal do Hamas, e a morte do chefe da ala militar do grupo, Mohammed Deif, conforme o governo de Israel, em um bombardeio na Faixa de Gaza em julho.

O dólar se valorizou ante várias outras moedas. No Brasil, também pesou o fato de o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) não ter sido considerado suficientemente duro pelo mercado. Por isso, a bolsa de valores, que havia se valorizado muito em julho, recuou 0,2% ontem.

Faltou sinal de subida de juro, dizem analistas

Conforme analistas, embora o comunicado tenha usado palavras fortes para indicar luz amarela, pode ter sido "leniente" ao não contemplar hipótese clara de retomada de aumentos no juro básico, algo que o mercado discute desde junho passado.

E se já havia preocupação com a inflação "desancorada" no Brasil antes dos últimos episódios no Oriente Médio, o aumento no risco de ampliação do conflito só acentua essa inquietação.

A alta no preço do petróleo pressiona preços de todos os tipos, porque é matéria-prima de combustíveis a embalagens de alimentos. Ontem, a cotação até recuou 1,3%, para US$ 79,52, com a situação estável dos estoques. Mas não se sabe até onde chegará caso o conflito se amplie.

Ninguém duvida de que o Irã vai retaliar. O que não se sabe é se, desta vez, a diplomacia internacional será capaz de conter o ímpeto. O país se considera duplamente atacado pelo fato de o ataque que matou Raniyeh ter ocorrido em seu território. _

1,21%

foi a queda da bolsa de Nova York, sintoma da aversão de risco global

Mudança abre espaço para "comida de mãe"

Desocupado desde fevereiro, quando a Leiteria 639 - negócio que mistura cafeteria, confeitaria, restaurante, parrilla e bar - se mudou, o imóvel da Avenida Venâncio Aires, 639, ganha nova operação no próximo dia 8, ainda no guarda-chuva da Leiteria. O restaurante Madre abre com foco em reproduzir "receitas de mãe".

A primeira inspiração será a mãe de Tiago Leite, criador da Leiteria, que costuma fazer galinhadas. Os clientes também vão poder indicar comidas típicas dos seus redutos familiares para serem repetidas no Madre. Os pratos vão complementar um bufê.

- É um projeto que tem alma, com lembranças por meio da comida e memórias afetivas - afirma Leite.

O Madre vai funcionar de terça-feira a domingo, apenas no horário do almoço. _

Avança alternativa ao Salgado Filho

Mesmo com a previsão de volta do aeroporto Salgado Filho, estão mantidos os planos para garantir que o Estado tenha uma alternativa, o Aeroporto da Regional Serra Gaúcha, em Vila Oliva, Caxias do Sul.

Como a coluna antecipou, é o projeto de nova estrutura mais adiantado. Conforme Rogério Rodrigues, diretor-executivo do MobiCaxias, a intenção é começar a construção da pista de 1,95 mil metros ainda neste ano:

- A outorga é do município. Nasceu como regional, mas mudou para o foco internacional.

Ao longo dessa evolução, destaca Rogério, o que era chamado de "aeroporto de Vila Oliva" mudou de nome para Aeroporto Regional da Serra Gaúcha:

- Vai nascer como aeroporto regional, mas com especificações técnicas para fazer a transformação, por isso o tamanho da pista já é maior.

A extensão planejada é maior do que a prevista para a reestreia do Salgado Filho, de 1,7 mil metros. Existe uma dotação de R$ 200 milhões. Esse recursos seriam suficientes para a construção da pista, sustenta.

Embora o projeto tenha quase 20 anos, foi modificado a partir de 2018, a partir da regra de que não pode existir mais de um aeroporto regional em um raio de 50 quilômetros.

- Grandes projetos que virão para o RS precisarão de um aeroporto de grande porte na Serra - diz Rogério.

Conforme a secretária de Planejamento de Caxias, Margarete Bender, as informações são de que os recursos para o aeroporto não serão afetados pelos cortes no orçamento da União:

- É um equipamento extremamente necessário para a região e o Rio Grande do Sul. Se o governo federal não cumprir o convênio, a orientação é partir para parcerias. Já temos sido procurados.

A secretária detalha que a licitação agora só depende de uma confirmação da Secretaria da Aviação Civil (SAC) prevista ainda para este mês. _

Gerdau agora é "empresa B"

Nascida em Porto Alegre há 123 anos, a Gerdau se tornou a primeira indústria de aço certificada como "empresa B" na América do Norte.

- Isso reforça o compromisso da Gerdau de contribuir para resolver desafios e dilemas da sociedade - afirmou o CEO da siderúrgica, Gustavo Werneck.

O que define uma "empresa B" é o compromisso com um plano de desenvolvimento contínuo que sai da lógica de mitigação de impacto negativo para uma de geração de impacto positivo. A companhia já aportou R$ 26 milhões em ajuda emergencial e de reconstrução ao Rio Grande do Sul.

De abril a junho, o lucro líquido ajustado despencou 55,9% em relação a igual período de 2023, para R$ 945 milhões. O desempenho, conforme Werneck, reflete o "cenário ainda desafiador" no Brasil, que enfrenta entrada de aço chinês.

- Nos últimos 12 meses, a média mensal de entrada de aço importado foi de 396 mil toneladas, 66% acima da média histórica e com 19,2% de taxa de penetração (percentual de material estrangeiro nas vendas totais), conforme dados do Instituto Aço Brasil - detalhou. _

R$ 46,6 bi

é o total de contenção de gastos que os ministérios terão de fazer entre agosto e setembro para evitar o estouro da meta fiscal. Além dos cortes de R$ 15 bilhões, foram definidos limites de empenho: até setembro, até 35%, e até novembro, outros 35% do saldo.

Os gaúchos que vendem "Morte Súbita" no mundo

Três gaúchos comandam uma das mais conhecidas marcas de cosméticos do país, a Lola From Rio, criada em 2011 no Rio de Janeiro. Os sócios Dione e Jaqueline Vasconcellos e Milton Taguchi nasceram em São Leopoldo.

O nome original era Lola Cosmetics, mas mudou para ampliar o foco com até produtos para a casa e consolidar as vendas para 30 países, segundo o diretor de operações, Pedro Taguchi. Os produtos têm nomes curiosos, como Morte Súbita, para hidratação, e Rapunzel, para crescimento.

O mercado cosmético é dominado por multinacionais. Temos uma marca com brasilidade forte - diz Pedro.

No primeiro semestre, a empresa ampliou em 80% as vendas no Exterior e prevê triplicar a receita com exportação (hoje, 12% do total) até o final de 2025. No Estado, quer crescer no Interior, no Litoral e na Serra no próximo ano. _

GPS DA ECONOMIA

02 de Agosto de 2024
JUDICIÁRIO E MP NO RS

JUDICIÁRIO E MP NO RS

Judiciário e MP no RS

R$ 112 milhões por ano com retorno dos quinquênios

Benefícios voltaram a ser depositados nos contracheques de magistrados e membros do Ministério Público no Estado depois de quase duas décadas extintos. Além disso, é feito o pagamento retroativo ao período em que as vantagens não foram repassadas

Paulo Egídio

O pagamento de valores equivalentes a adicionais por tempo de serviço a magistrados e membros do Ministério Público (MP) custa R$ 112,36 milhões por ano aos cofres públicos. O valor é similar aos R$ 115 milhões previstos no orçamento do Estado em 2024 para o enfrentamento a eventos climáticos. Esse é o primeiro balanço do retorno dos benefícios aos contracheques de juízes, desembargadores, promotores e procuradores depois de quase duas décadas.

Nesse rol, estão os quinquênios (leia ao lado). Esses benefícios foram extintos em 2004, mas voltaram a ser pagos pelo Judiciário no final de 2023, após aprovação no Órgão Especial do Tribunal de Justiça (TJ). Utilizando o precedente, o MP também retomou o pagamento em fevereiro deste ano.

Atualmente, a parcela extra beneficia 848 magistrados do TJ e do Tribunal de Justiça Militar, ao custo de R$ 94,09 milhões. No MP, a vantagem é auferida por 645 promotores e procuradores, gerando dispêndio de R$ 18,27 milhões. Os dados foram repassados pelas instituições a pedido de ZH.

Os benefícios foram suprimidos em todo o país a partir de 2005, quando os juízes passaram a receber pelo regime de subsídios.

Nesse sistema, o salário e as gratificações temporais foram reunidos em uma única quantia. Na época, o modelo foi apresentado pelos defensores da proposta como alternativa para evitar o acúmulo de "penduricalhos".

No entanto, os quinquênios e gratificações voltaram a ser pagos a juízes, membros do MP e integrantes de outras carreiras jurídicas em diversos Estados com base em decisões do STF, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

No RS, Defensoria Pública e Tribunal de Contas não reativaram o benefício até o momento.

Pessoal inativo

Embora a maioria dos beneficiários ainda esteja na ativa, o custo maior com o pagamento dos quinquênios é com pessoal inativo. Isso ocorre porque, ao irem para a aposentadoria, os membros de Judiciário e MP deixam de receber algumas gratificações e adicionais - como o acúmulo de acervo, por exemplo. Sem esses acréscimos, abre-se espaço para o pagamento da parcela equivalente aos adicionais. A remuneração de todas as carreiras está sujeita ao teto constitucional de R$ 44 mil.

Além do retorno dos quinquênios e das gratificações, juízes e membros do MP estão recebendo pagamentos retroativos, referentes ao período em que os adicionais ficaram de fora dos contracheques. No TJ, já foram feitos três pagamentos que somam R$ 203 milhões. O MP informou que os pagamentos retroativos tiveram início em março, mas não divulgou o montante.

Presidente do conselho de comunicação do TJ, o desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira disse que o pagamento está de acordo decisão do STF, cujo entendimento é de que as vantagens pessoais não poderiam ter sido retiradas no momento da implantação dos subsídios. O MP informou que a decisão administrativa foi aprovada por unanimidade pelo Órgão Especial do Colégio de Procuradores em dezembro passado. _


02 de Agosto de 2024
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A massa falida da boate Kiss

Mais de 11 anos depois da tragédia da Kiss, que matou 242 pessoas em Santa Maria, a falência da boate, enquanto pessoa jurídica, foi decretada no último dia 10 de julho. O processo está a cargo do juiz Alexandre Moreno Lahude, da Vara Regional Empresarial de Pelotas. Os processos de falência de empresas de Santa Maria, como o caso da Kiss, são direcionados para essa comarca.

Kiss, na verdade, é o nome fantasia da boate que pegou fogo em janeiro de 2013. O CNPJ da empresa está registrado na Junta Comercial do RS como Santo Entretenimentos Limitada. A partir da decretação de falência, o magistrado nomeou um administrador judicial, que, por sua vez, assumiu a representação processual da massa falida da boate. O responsável é a Catalise Administração Judicial, de Porto Alegre.

Nos cabe agora arrecadar todos os bens que a boate Kiss, porventura, tenha. Relacionar todos os credores e distribuir o eventual saldo de recursos que exista, de acordo com uma ordem preferencial - explicou à coluna o advogado Fábio Caineli de Almeida, sócio do escritório.

O processo está na fase de busca de bens. Almeida antecipou que, provavelmente, se houver, serão insignificantes.

Não há expectativa de muito. Pelas informações que temos é de que da boate Kiss, CNPJ, teria em torno de R$ 15 mil. Não se sabe se já foi distribuído - explica.

O advogado lembra que a Kiss, após a tragédia, acumulou dívidas milionárias devido às indenizações e aos passivos trabalhistas, principalmente porque os funcionários que estavam trabalhando naquele dia morreram no incêndio. Com isso, seus herdeiros legais receberam os direitos às indenizações na Justiça do Trabalho (não, necessariamente, os valores). No âmbito cível, as indenizações couberam aos frequentadores da boate - no caso de vítimas fatais, seus sucessores.

A boate Kiss, pelo contrato social, está em nome de outras sócias na Junta Comercial. Há um contrato de cessão. O Ministério Público do RS espera que o Supremo Tribunal Federal (STF) paute ainda para este ano a sessão para julgar os recursos contra a decisão que anulou a condenação de quatro réus - além dos dois sócios na época do incêndio, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, os músicos Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão. Civilmente, as antigas sócias estão com os bens bloqueados.

Do ponto de vista da massa falida, os advogados têm outro desafio.

- Existem bens bloqueados, a maioria é da pessoa física. A falência não se aplica, em princípio, à pessoa física. Só da pessoa jurídica. Sobre a boate, em si, não tínhamos bens a arrecadar nem a lacrar porque os bens dela estavam dentro do imóvel que incendiou - diz Almeida.

O imóvel onde funcionava a Kiss era alugado. Hoje, o prédio, que recentemente começou a ser destruído, foi tombado e servirá para a construção do memorial.

Não seria revertido à venda. O que faz diferença é que o que tinha dentro, o mobiliário, e se perdeu no incêndio.

Foi identificada a existência de cerca de 250 processos, mas, na grande maioria, a empresa é ré. Então, são dívidas. Dentro de um dos processos, há uma cautelar em que foi decretada a indisponibilidade dos bens. E lá se reuniu o bloqueio de todas as contas bancárias da boate Kiss e dos sócios.

- Vamos poder arrecadar para pagar os credores o que tiver sido bloqueado nessa ação cautelar, que depois foi distribuída à Justiça do Trabalho. Vamos ter de localizar esse dinheiro para agora distribuir na ordem da falência. Mas este, aparentemente, é o único bem que a boate Kiss possui - diz. _

Marina Silva no RS

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, estará no RS no sábado.

Pela manhã se encontrará com a pré-candidata à prefeitura da Capital Maria do Rosário (PT) em um evento chamado "Porto Alegre e o Plano Clima". À tarde, Marina estará em Sapucaia do Sul, em um encontro do Rede Sustentabilidade, partido pelo qual foi eleita deputada federal. _

Entrevista - Phil Klose

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 1 de agosto de 2024



01 de Agosto de 2024
CARPINEJAR

Assuma!

Estão terminando as férias escolares. Escolas particulares já voltaram. Escolas estaduais e municipais retornam até 5 de agosto. No período que se finda, amigos meus quase enlouqueceram conciliando a liberdade de filhos pequenos e a responsabilidade dos expedientes, o tempo vago dos rebentos e o tempo das suas incumbências profissionais. Não sobrou nada para o romance.

Famílias sem babá, sem apoio doméstico, sem avós por perto, experimentam um pandemônio. Não reclamam diretamente porque é amor. Não confessam o horror porque os filhos são seus maiores tesouros. Mas o casamento estremece, tem suas estruturas abaladas, com estranhas pressões mútuas, esquisitas rixas e esdrúxulas implicâncias.

A dinâmica do convívio muda drasticamente. Para pior. Casal costuma ser composto por quem trabalha fora com emprego fixo e quem é autônomo e faz home office. Daí vem o perigo. Aquela pessoa que fica em casa inventando ocupações, mirabolando passatempos, improvisando brincadeiras para as crianças, logo que vê a sua parceria chegar do serviço, esbraveja:

- Assuma! Não a deixa tomar banho, não a deixa jantar, não a deixa se sentar no sofá, não a deixa assistir à televisão, não a deixa respirar, só passa a tutela. Não dá espaço para arrego ou um minutinho. Com o comando seguinte, não resta dúvida:

- Os filhos também são seus! Põe os pequenos no colo do seu cônjuge para negar o intervalo, para não aceitar desculpas, para não tolerar recreio.

É uma transferência imediata de bastão na porta. Porque o encarregado do lar não aguenta mais. Está a ponto de explodir de tanto que foi solicitado, de tanto que ouviu seu nome, de tanto que precisou fazer duas ou três tarefas simultâneas. Não podia atender ao telefone em paz, não podia fazer call em silêncio, não podia manter a sequência de um raciocínio por mais de 15 minutos.

O que acontece é uma tortura psicológica dentro do matrimônio. Mesmo que o outro estivesse trabalhando fora, e dando tudo de si, quem permaneceu protegendo a prole quer que seu par sofra de noite o que sofreu ao longo do dia, que ponha sozinho a turma para jantar, fazer higiene e dormir, longe de qualquer cooperação.

É uma espécie de castigo inconsciente, uma vingança involuntária. Esposas castigam os maridos, maridos castigam as esposas. Não existem concessões terapêuticas, licenças psicanalíticas. O romantismo, a gentileza, o respeito devem sobreviver às férias escolares.

Talvez os pais tenham que trocar seu software. A culpa não gera uma boa maternidade, uma boa paternidade. Eles não são obrigados a entreter os filhos, tampouco merecem uma sobrecarga por não contar com situação financeira privilegiada que possibilite descanso numa praia, num lugar paradisíaco.

É a hora de dividir a realidade mais do que se puxar pela imaginação para produzir conteúdo de recreação. Permita que os filhos sintam tédio, permita que os filhos encontrem algo para brincar, permita que os filhos conheçam o poder do silêncio. Se não são bebês, eles se viram com o que há no quarto ou com os seus amigos.

Proteção em excesso só forma pessoas fracas. 

CARPINEJAR