quinta-feira, 7 de março de 2024



07 DE MARÇO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

IMPULSO À ECONOMIA

A economia gaúcha ganha alento adicional em 2024 com a confirmação da Emater de que o Rio Grande do Sul deve colher neste ano um volume recorde de soja. O levantamento divulgado na terça-feira aponta que o montante produzido pode chegar a 22,2 milhões de toneladas, um acréscimo de 71,5% em relação ao ciclo 2022/2023. Deve ser lembrado que o Estado amargou uma sequência de três safras frustradas nos quatro anos anteriores por falta de chuva.

Trata-se de uma informação auspiciosa não apenas para os agricultores. A soja é o principal produto da agropecuária do Estado. Colheitas fartas influenciam os números do PIB gaúcho de forma direta e indireta. Safras cheias movimentam outros setores, como o de transportes, disseminam resultados positivos no comércio das regiões por onde a cultura se espalha e também melhoram a demanda da indústria, especialmente a ligada ao agronegócio, como a de tratores, colheitadeiras, implementos e sistemas de armazenagem e irrigação. 

Assim, geram trabalho e renda para uma série de segmentos. Para as fábricas, a expectativa de juros menores ao longo do ano também pode ser um fator a ajudar na demanda. As exportações gaúchas, da mesma forma, tendem a ter um salto em 2024.

Só não há euforia dos produtores devido às cotações. Também conforme a Emater, o preço médio da saca de 60 quilos no Estado está abaixo de R$ 110. Um ano atrás o valor girava em torno de R$ 165. Mesmo assim, o resultado é significativo. Até porque, nas demais regiões produtoras do país, a colheita tende a ficar abaixo da do ano passado devido à umidade insuficiente nas lavouras. Por aqui, ao contrário, o excesso de chuva até atrapalhou o plantio, mas as precipitações nos meses seguintes beneficiaram as lavouras.

Confirmando-se as previsões divulgadas ontem na Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, o Rio Grande do Sul deve assumir neste ano a condição de segundo maior produtor de soja do país, superado apenas por Mato Grosso. O Paraná, que usualmente tem a vice-liderança nacional, deve produzir nesta safra 21 milhões toneladas, estimou na semana passada o Departamento de Economia Rural (Deral), órgão do governo paranaense. 

É um volume um quinto menor na comparação com o ciclo anterior. No país, a projeção atual da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de uma produção de 149,4 milhões de toneladas, 3,4% abaixo do obtido no ano passado.

O milho, por sua vez, deve ter um volume de produção da ordem 5,2 milhões de toneladas no Rio Grande do Sul. É um avanço de 31,5% ante a safra 2022/2023, mas o clima excessivamente chuvoso diminuiu o potencial de rendimento. O grão é de grande importância para a cadeia de proteína animal do Estado, por ser o principal componente das rações.

Outra notícia positiva vem do arroz. Não há um grande salto de produção. São as cotações que animam os produtores. A colheita deve chegar a 7,5 milhões de toneladas, um crescimento de 3,5%. A saca de 50 quilos, no entanto, é comercializada em média no Estado por R$ 107, contra R$ 85 um ano atrás.

No total, a safra de grãos de verão no Estado, incluindo-se o feijão, deve somar 35 milhões de toneladas, uma alta de 44% sobre o último ciclo. É um impulso que tende a espalhar influências positivas na economia gaúcha em 2024.


"Postura autoritária e conservadora"

Autor de O Avesso da Pele, Jeferson Tenório mostrou-se preocupado, em entrevista concedida ontem ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, sobre os recentes casos de censura em relação ao livro.

- O perigo é fazer com que isso se estenda e, daqui a pouco, a gente veja livros sendo queimados em praça pública - desabafou o escritor.

Na entrevista, Tenório ressaltou a importância de deixar a decisão, sobre se os livros são adequados para uso ou não, nas mãos dos especialistas em educação e literatura. O autor enfatizou que não se trata de uma obra sobre sexo, mas sim uma crítica à objetificação e sexualização das pessoas negras pela sociedade.

- As cenas de sexo não se sobrepõem ao que o livro realmente fala que é o racismo, a violência policial, o preconceito, a educação precarizada no Brasil - disse.

Constituição

Sobre os casos de censura e recolhimento de O Avesso da Pele em escolas, Tenório mostrou aflição com a "postura autoritária e conservadora" adotada por algumas autoridades educacionais:

- A Constituição garante que o material que está na escola deve ser utilizado e não retirado. Nenhuma autoridade tem o poder de tirar livros ou qualquer tipo de material pedagógico da escola. Isso está na Constituição - finalizou. 


07 DE MARÇO DE 2024
POLÍTICA +

Proposta de fim da reeleição é emenda pior que o soneto

A falta de estabilidade nas regras do jogo explica em boa parte o descrédito da política no Brasil. Discute-se agora o fim da reeleição, instituto criado no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, para que pudesse disputar o segundo mandato em 1998.

A aprovação foi cercada de denúncias de compra de votos, mas os que eram contra usufruíram da mudança e não tentaram revogar. Como a classe política não soube lidar com a reeleição de forma republicana, o senso comum sugere que se acabe com a reeleição, o que não terminará com os problemas do presidencialismo de coalizão, verdadeira origem da orgia que desencanta o eleitor.

De prefeito a presidente, a reeleição pode ser boa ou ruim, dependendo da forma como o governante se comporta em relação ao uso da máquina. Regras mais rígidas (ou simplesmente mais claras) poderiam evitar os desvios de conduta que desmoralizam a reeleição.

A proposta agora é acabar com a reeleição, esticando os mandatos para cinco ou seis anos. Resolve o problema da má gestão, da corrupção, da incompetência? Não resolve, mas tem adeptos por diferentes razões - da verdadeira crença na evolução do sistema democrático aos interesses pessoais de potenciais candidatos.

Com a possibilidade de reeleição, um mau presidente, governador ou prefeito pode ser substituído ao final de quatro anos. Se o mandato for de cinco ou seis anos, serão mais 365 ou 730 longos dias. E por que não dar aos bons a possibilidade de continuar por mais quatro anos, se esse for o desejo do eleitor? Há no mundo boas e más experiências de reeleição. Por que não aperfeiçoar as regras em vez de jogar a criança fora com a água do banho?

É provável que, se Fernando Henrique não tivesse disputado a reeleição, o Plano Real, que enfrentou séria crise no início de 1999, tivesse naufragado pelas mãos do sucessor. Os quatro anos adicionais deram tempo a FHC de consolidar o Real, que enfrentava críticas do PT. Quando Lula chegou ao poder, em 2003, teve de se render ao sucesso do plano.

ROSANE DE OLIVEIRA

07 DE MARÇO DE 2024
TULIO MILMAN

Os sintomas e a causa

Há um dilema ético na discussão atual sobre a criação de um Estado Palestino. Nada a ver com o mérito. Não há futuro possível sem a solução de dois Estados. Vivem na região cerca de 7 milhões de judeus e 4 milhões de árabes palestinos. Como nenhuma dessas populações vai embora, a convivência passa a ser um caminho inevitável. Mas, para que esse modelo prospere em uma perspectiva sustentável, suas bases devem ser construídas com o cimento da vida, do respeito e da democracia.

Por isso, é preciso resolver, antes, uma questão central. Não é aceitável que a defesa de um Estado Palestino esteja alicerçada nos ganhos políticos de uma ação terrorista.

No dia 7 de outubro de 2023, o Hamas invadiu Israel, assassinou 1,2 mil pessoas e sequestrou mais de 200. Matou crianças, violentou mulheres, incendiou casas e famílias. Por mais que não gostemos do governo Netanyahu e da resposta que ele vem dando, o fato motivador de tudo o que acontece hoje é a violência de um grupo terrorista que usa a barbárie e a mentira como armas.

Antes de falar em um Estado Palestino, três fatores deveriam ser colocados como pré-requisitos:

1) Libertação dos reféns mantidos pelo Hamas.

2) Reconhecimento, por todos os movimentos palestinos, do direito à existência de Israel.

3) Punição dos terroristas.

Não se trata de dar razão para A ou para B, mas sim da defesa de valores universais, sem os quais o mundo ingressaria em uma era de trevas e de dor. O Hamas, o Irã e seus aliados não querem um Estado Palestino. Seu objetivo, tantas vezes explicitado por eles mesmos, é destruir o único país democrático da região e, depois, converter o Oriente Médio e o mundo em uma ditadura religiosa. Só a ingenuidade, o preconceito ou a má-fé explicam a defesa genérica de um Estado Palestino sem determinar os valores básicos e os compromissos éticos e humanos que devem estar na gênese desse novo país.

Isso não impede medidas urgentes e necessárias, como a ajuda humanitária aos inocentes que sofrem com a guerra, dos dois lados da fronteira. A violência, no nível em que está posta hoje, terá como efeito o surgimento de mais uma geração educada pelo ódio e pela dor.

O que se vê, porém, é a demagogia egocêntrica e vaidosa de quem deveria construir pontes, mas busca apenas o aplauso fácil dos que querem acabar com o sintoma sem atacar a causa. E a causa é a incapacidade de aceitar a democracia, a liberdade e a diversidade como valores inegociáveis.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 6 de março de 2024


06 DE MARÇO DE 2024
CARPINEJAR

Um grande livro censurado

Enganos podem ser trágicos. Interpretações fora do contexto podem ser fatais. Diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Ernesto Alves de Oliveira pediu a retirada do livro O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, das salas de aula.

Cerca de 200 exemplares de O Avesso da Pele, que aborda o racismo estrutural, chegaram à escola Ernesto Alves em dezembro de 2023, para serem trabalhados pelas turmas. O livro fazia parte do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação (MEC), que distribui obras didáticas e literárias às escolas públicas, por solicitação das próprias instituições.

A censura partiu da alegação de que o romance apresenta palavras que definem órgãos sexuais e descrevem relações íntimas.

A diretora pinçou pequenos trechos das quase 200 páginas do livro. São momentos isolados e pouco representativos do cerne da trama. Ela ficou horrorizada com o vocabulário de baixo calão, que apenas retrata a linguagem coloquial da vida como ela é, de acordo com as idiossincrasias e faixa etária dos personagens. Não é o autor falando, porém seus personagens.

Existe uma injustiça na presunção da vulgaridade.

Primeiramente, a obra foi eleita por comissão do Ministério da Educação, na gestão de Jair Bolsonaro. Em seguida, cada escola desfrutou de livre-arbítrio para definir os autores aprovados que pretendia adotar no currículo. Ou seja, a escola de Santa Cruz do Sul é que escolheu O Avesso da Pele entre centenas de títulos habilitados. Não consistiu em uma imposição.

Não existe contraindicação para a narrativa. Pelo contrário, O Avesso da Pele tem o reconhecimento do Prêmio Jabuti, a maior premiação literária do país. Já contou com adaptação para o teatro e seus direitos acabaram de ser vendidos para o cinema. Traduzido para 10 idiomas, encontra-se na 13° edição no país. Duzentas mil pessoas compraram um exemplar por espontânea e soberana vontade, devido a gosto pessoal, paixão pela proposta e afinidade com o estilo. O sucesso de crítica e público coloca o romance acima de qualquer suspeita.

Vale destacar que o livro não está sendo direcionado para o Ensino Fundamental, naquilo que poderia ser classificado como "precocidade sexual", mas destinado aos adolescentes do Ensino Médio. Portanto, para jovens que namoram e que necessitam de orientação educacional a respeito da sua sexualidade.

Os termos que causaram repulsa são desconstruções críticas do negro como objeto sexual, maldosamente exposto como superdotado, esvaziado de alma e de personalidade por piadas preconceituosas, numa curiosidade tipificada do racismo. Jeferson combate a forma como o negro é percebido, enfrenta a exploração inadequada e utilitária do seu corpo.

Conheço Jeferson Tenório. Ele me antecedeu como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre e me confiou a chave da Praça da Alfândega. Garanto que ele é um dos escritores mais sérios, compenetrados e dedicados da literatura brasileira. É o oposto da escatologia, da pornografia, da safadeza. Trata-se de alguém rigoroso, elegante e refinado. Escreve com a sobriedade de um clássico, privilegiando a transmissão das ideias a partir das suas figuras ficcionais.

Converse com ele por meia hora e se verá deslumbrado pela sua educação, pela sua maneira respeitosa e atenciosa de acolher a todos. Talvez a origem do escândalo seja mais profunda, pelo fato de o protagonista ser um professor negro.

Na história, o professor é assassinado por engano numa abordagem policial em Porto Alegre. Seu filho tenta entender o que aconteceu e quem era o pai. Parece que ele foi assassinado pela segunda vez, agora em Santa Cruz do Sul.

CARPINEJAR

06 DE MARÇO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

INTEGRAÇÃO NA SEGURANÇA

Fazem todo o sentido as iniciativas acordadas entre os governadores do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) de planejar aquisições conjuntas de equipamentos para a área de segurança pública e firmar um pacto para melhor enfrentar o crime organizado. As tratativas avançaram durante o encontro do grupo realizado entre a última quinta-feira e o sábado, em Porto Alegre. Integram o Cosud, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

As compras em conjunto têm a vantagem de permitir uma economia nos desembolsos. Sete Estados reunidos, negociando grandes volumes, por lógica conseguem ter maior poder de barganha com os fornecedores. Viaturas, armamentos, câmeras corporais e softwares são alguns exemplos de itens que poderão ser barateados com encomendas de grande escala. 

A estratégia colabora com a saúde das finanças dos Executivos estaduais. Pode representar uma economia substancial, importante em especial para os Estados em situação mais delicada de suas contas. Assim, aguarda-se que a ideia seja de fato implementada pelo Cosud, fórum que reúne unidades da federação com população somada de 114 milhões de pessoas, responsáveis por cerca de 70% do PIB brasileiro.

Tem grande relevância, da mesma forma, uma maior colaboração entre Sul e Sudeste para o combate ao crime organizado. Facções nacionais e locais têm cada vez mais conexões em diferentes áreas do país. Atuam geograficamente articuladas com outros grupos. A troca de informações, portanto, passa a ser essencial para um cerco mais efetivo à atuação dos delinquentes. 

O funcionamento dessas organizações é cada vez mais sofisticado, com lavagem de dinheiro, negócios de fachada e operações no mercado financeiro. O compartilhamento de informações e dados a partir do intercâmbio na área de inteligência das forças de segurança, portanto, ganha importância. Tanto para desarticular as quadrilhas e prender líderes como para apreender bens e capitais.

A decisão dos governadores foi de criar um gabinete integrado de inteligência, responsável por coordenar ações e padronizar procedimentos. Seria itinerante, permanecendo seis meses em cada Estado. O essencial é que tenha funcionalidade e cumpra o seu propósito, apesar da previsão de deslocamentos contínuos do centro de comando. Outra vez deve-se sublinhar que o desafio é colocar a estrutura em funcionamento e torná-la perene, sem sofrer descontinuidade com a alternância de poder nos Estados.

Os governadores também defenderam alterações legislativas para tornar o enfrentamento ao crime organizado mais efetivo. Neste ponto, será necessária uma articulação com as bancadas federais para que as propostas prosperem no Congresso. As compras conjuntas e um órgão de inteligência centralizado, ao contrário, dependem apenas da vontade dos governadores de fazer as intenções irem além do plano das ideias. Se as iniciativas forem adiante, haverá benefícios financeiros e ganhos para os cidadãos pelo combate mais eficiente a grupos criminosos.


06 DE MARÇO DE 2024
CHAMOU ATENÇÃO

Obra mais cara e demorada

A prefeitura de Porto Alegre vai gastar mais para poder concluir as obras do viaduto Otávio Rocha, localizado na Avenida Borges de Medeiros, no Centro Histórico. Um termo aditivo informa que a reforma da estrutura agora está custando R$ 17,27 milhões.

O valor é 26% superior ao custo inicial. Em novembro de 2022, quando a restauração começou, a prefeitura previa investir R$ 13,7 milhões.

A data de término também foi alterada. Agora, a ideia é finalizar a revitalização em junho. Isso significa que a obra seria entregue em quatro meses.

Porém, esse prazo será insuficiente para as demandas ainda necessárias. A expectativa da prefeitura é poder liberar a circulação total de pessoas no lado do viaduto do sentido bairro-centro nas próximas semanas - a promessa anterior era fevereiro.

- Não estará totalmente concluído porque vai faltar acabamentos em lojas e questões da iluminação - explica o secretário municipal de Obras e Infraestrutura, André Flores.

Além da recuperação das paredes pichadas, as lojas do viaduto estão sendo reconstruídas. Elas estão ganhando nova rede elétrica e hidrossanitária. Em dois dos quatro cantos do viaduto haverá banheiros públicos. A Guarda Municipal ganhará uma sala de monitoramento no local.

Patrimônio

A revitalização está sendo executada com recursos recebidos da Corporação Andina de Fomento (CAF) para recuperar a orla do Guaíba.

Paralelamente, a prefeitura da Capital contratou a empresa São Paulo Parcerias para desenvolver os estudos necessários para repassar a manutenção do espaço para a iniciativa privada. Os trabalhos serão desempenhados ao longo de dois anos.

Inaugurada em 1932, a construção foi tombada como patrimônio histórico cultural em outubro de 1988. A última vez que o viaduto de 270 metros de extensão foi recuperado foi em 2001.

JOCIMAR FARINA


06 DE MARÇO DE 2024
eX-PRESIDENTE NO RS

Bolsonaro faz visita à Expodireto

O ex-presidente Jair Bolsonaro chegou ontem ao Rio Grande do Sul. No primeiro dia da agenda, ele visitou a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, onde foi acompanhado por uma multidão de apoiadores.

Bolsonaro desembarcou no Aeroporto Lauro Kortz, em Passo Fundo, por volta das 13h50min, protegido por cerca de 20 seguranças. Centenas de simpatizantes o aguardavam no local. De lá, o ex-presidente se deslocou à feira em Não-Me-Toque. Ao chegar ao parque, às 15h50min, dirigiu-se à Casa Cotrijal, onde foi recebido pelo presidente do evento, Nei Manica.

Vestindo uma jaqueta azul, Bolsonaro se deslocou pelo parque em uma caminhonete, acompanhado do deputado federal Luciano Zucco (PL). Famílias com crianças pequenas se empoleiraram nos tratores e máquinas em busca de um ponto de vista privilegiado para assistir à movimentação e tirar fotos. Eram ouvidos gritos de "mito" e xingamentos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Quando entrou no espaço da Cotrijal, onde teve um encontro reservado com a direção e um grupo de lideres de entidades empresariais e políticos, a multidão tentou entrar junto. Os seguranças tiveram dificuldade para conter os mais afoitos que, por pouco, não quebraram as portas de vidro.

No total, Bolsonaro ficou cerca de 40 minutos no parque. Não discursou ou conversou com a imprensa. À noite, estava previsto um jantar com cerca de 500 convidados na sede da Stara.

Pré-candidatos

Hoje, ele se reunirá com pré- candidatos a prefeito e vereadores da região em Passo Fundo. Depois, retornará para Brasília.

A presença do ex-presidente movimentou o parque. No início do dia, o trajeto entre Carazinho e Não- Me-Toque, que normalmente leva menos de 30 minutos, ficou lento por causa do volume de veículos. Alguns motoristas enfrentaram quase duas horas para estacionar.


06 DE MARÇO DE 2024
MÁRIO CORSO

Reunião dos Trocados pelo Celular Anônimos

Carlos: - Bem-vindos a mais uma reunião dos que sofrem pela perda de seu par para o celular. Hoje temos um aviso e a apresentação de um novo membro. Como vocês já notaram, a Rita e o Maurício não vieram nas últimas reuniões. Eles me comunicaram que desistiram dos respectivos casamentos. Saíram de casa e estão morando juntos faz duas semanas.

Marta: - Meu Deus! Qual foi a reação dos cônjuges?

Carlos: - Não sabemos, eles ainda não se deram conta. Apenas mandam mensagens como: não tem nada para comer nesta casa, acabou o papel higiênico. Mas vamos passar a palavra para Léo, nosso novo membro.

Léo: - Oi gente, meu nome é Léo, obrigado por me acolherem. Minha esposa não me olha mais. Só é feliz e ri com o celular. Fala comigo para pedir algo ou reclamar. Não tenho acesso a ela. É sempre: tô terminando uma mensagem; não me interrompa, é coisa do trabalho; não posso ficar em paz um minuto? Não existo mais na vida dela.

Anna: - É assim mesmo. Eles não nos olham. Até testei. Pelada, calcei um salto, peguei a bolsa e fui para a porta. Disse: estou saindo meu bem. Ele respondeu: na volta traz pão.

Léo: - Só penso em atirar o celular pela janela.

Valter: - Eu joguei. Mas a Amazon trouxe outro ligeirinho. E adivinhem quem pagou o novo?

Carlos: - Pois é Leo, nosso desafio é ter paciência e?

(Rita e Maurício entram abruptamente na reunião)

Rita: - Paciência o cacete! Nos traíram com uma máquina. Tem mais é que meter corno nesses FDPs abobados do celular.

Marta: - Calma Rita, você está sensível, magoada.

Rita: - Quer um conselho: manda seu marido enfiar o celular dele no c*!

Maurício: - Desculpem, mas na nossa experiência, essa reunião só serve para passar pano para narcisista. Desistam desses malas.

Carlos: - Por favor, todos, nosso objetivo é resgatar casais em crise, apostar no amor. Não estamos aqui para arquitetar vinganças.

Rita: - Carlos, você está aqui ajudando os outros, e sua mulher vendo besteira no Insta, no TikTok. Aposto que a maioria é de putaria.

Carlos: - Não há condições de respeito e ponderação, dou a reunião por encerrada. Nos vemos na próxima semana.

(Bate-boca generalizado. Carlos busca Léo para uma fala a sós)

Carlos: - Desculpa Léo, tua primeira reunião, e foi isso.

Léo: - Que nada! Foi muito bom! Estou me sentindo mais leve. Traduzido no que penso. Semana que vem estarei aqui sem falta.

MÁRIO CORSO

terça-feira, 5 de março de 2024


05 DE MARÇO DE 2024
CARPINEJAR

O melhor ataque do país

Já estou iludido. Já estou sonhando. Mas não é o Palmeiras, nem o Flamengo, muito menos o Atlético Mineiro que tem o melhor ataque do país, é o Inter. A vinda de Rafael Borré por 6,2 milhões de euros sacramenta essa verdade no início da temporada.

O presidente Alessandro Barcellos, tão criticado na vida, merece os créditos. Parece que não está para brincadeira na sua segunda gestão. Antecipou para hoje a chegada do reforço, em uma longa negociação primeiramente com o Eintracht Frankfurt, detentor dos direitos do jogador, e depois com o Werder Bremen, equipe à qual havia sido emprestado, para a sua imediata liberação, reduzindo a multa rescisória de 1,5 milhão de euros para 200 mil euros.

Que o aeroporto Salgado Filho, no início da tarde de hoje, seja invadido pela charanga colorada para recepcionar o novo camisa 19 do Clube do Povo, incremento importante para a Copa do Brasil e quartas de final do Gauchão.

É a segunda maior negociação da história do clube, e talvez a mais acertada em custo-benefício. Borré não se integra ao plantel para se aposentar, com as facilidades de transferência por um fim de carreira. O colombiano se encontra no auge da trajetória, aos 28 anos. É titular da seleção do seu país, campeão da Libertadores e da Recopa pelo River, egresso da competitiva Bundesliga.

É aquela figura incômoda, ameaçadora e letal dentro da área. Costuma tabelar rapidamente para se infiltrar perto do gol. Destro, soberano do lado direito, busca a bola para sua entrada de surpresa, num movimento chamado de "facão", aproveitando uma cochilada da defesa ou em jogada combinada nas costas dos zagueiros.

O Inter dispõe agora de um esquadrão ofensivo dos sonhos, devendo atender ao esquema clássico 4-1-3-2 do treinador Eduardo Coudet.

Imagine a beleza do tabuleiro: o chileno Aránguiz passa a ser o primeiro do meio-campo, Alan Patrick recua da função de segundo atacante para a de meia central, ambos servirão dois atacantes altamente agressivos, o equatoriano Enner Valencia e Borré, além de Maurício e Wanderson fechando os corredores. Será um deus me acuda de velocidade, um espanto de marcação alta, um escândalo de finalização.

Trata-se de um ataque 100%, e eu provo. Casualidades não existem diante das superstições necessárias aos títulos. Podemos somar os números das camisetas de Aránguiz (20), de Alan Patrick (10), de Enner (13), de Borré (19), de Mauricio (27) e de Wanderson (11), e teremos a soma perfeita e inacreditável de cem. Só um louco e fanático como eu para fazer a conta.

O que me põe a delirar é que já tivemos, nas últimas décadas, grandes centroavantes isolados - Nilmar, Nilson, Fernandão, Damião -, mas jamais um meio de campo e ataque com tantas opções e peças de destaque.

Não é apenas time, mas elenco, levando em consideração toda a nossa armada beligerante, que também apresenta no banco as reservas luxuosas de Alario, Lucca e Wesley.

Será que estamos nos aproximando do rolo compressor de 1975-1976, responsável pelo octa gaúcho e bicampeonato nacional? Quem se lembra de Paulo César Carpegiani (Batista), Caçapava e Falcão; Valdomiro (Jair), Flávio (Dario) e Lula (Escurinho)?

Naquela época, testemunhamos um massacre: 51 gols marcados em 30 partidas (média de 1,7 gols por jogo) no Brasileiro de 1975, e 59 gols marcados em 23 partidas (média de 2,5 gols por jogo) no Brasileiro de 1976.

Ainda que falte um lateral-esquerdo, ainda que o nosso goleiro atual se mostre inexperiente, posso assegurar que a dor de cotovelo de Luis Alberto Suárez, estrela da campanha gremista do ano passado, está finalmente curada.

CARPINEJAR

05 DE MARÇO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

DUAS NAÇÕES

O trágico episódio no norte da Faixa de Gaza na última quinta-feira, fatal para ao menos uma centena de palestinos, elevou o tom dos questionamentos internacionais quanto à estratégia e à proporcionalidade da resposta de Israel ao atentado terrorista de 7 de outubro do ano passado. Ainda é necessária uma investigação independente para se compreender melhor o que de fato aconteceu. 

Não está claro se o que ocorreu foi causado por disparos de soldados israelenses contra a multidão ou se as mortes decorreram de pisoteamentos resultantes de confusão e correria por tiros de advertência desferidos durante uma distribuição caótica de alimentos para a população faminta do enclave.

Seja qual for a explicação, parece crível a responsabilidade do exército de Israel pelo planejamento equivocado no momento da distribuição de alimentos em Gaza. Se existisse uma melhor organização para a chegada de ajuda humanitária, é bastante provável que o desfecho daquela situação poderia ter sido diferente, evitando mortes de inocentes. Ao mesmo tempo, também se avolumam dúvidas quanto aos cuidados militares de Israel para minimizar as baixas civis ocasionadas indiretamente pelo conflito contra o Hamas.

Essas são algumas das razões que levam cada vez mais a comunidade internacional a questionar a dimensão da ação israelense. Não se pode ignorar, porém, que o início da guerra em curso teve como causa o violento ataque do grupo terrorista ao território de Israel em que mais de 1,2 mil pessoas foram assassinadas de maneira brutal e outras 250 foram levadas como reféns. Pelo menos uma centena permanece sob cativeiro, nas mãos dos extremistas. A própria Organização das Nações Unidas reconheceu ontem, após investigação, que durante a ofensiva do 7 de outubro mulheres foram vítimas de estupro.

Diante do impasse humanitário e da manutenção dos reféns aprisionados, é necessário, em primeiro lugar, um imediato cessar-fogo. Em seguida, deve ser iniciada uma nova etapa de negociação que leve à solução duradoura da criação de um Estado palestino, que reconheça o de Israel e tenha condições de coexistência harmônica. Mas, no curto prazo, a paralisação do conflito deve ser o resultado de um acordo assentado sobre algumas premissas básicas. Uma delas é a libertação, por parte do Hamas, de todos os israelenses mantidos reféns. A outra é a facilitação de Israel para a entrada da ajuda humanitária aos palestinos na Faixa de Gaza.

O estabelecimento das duas nações, deve-se lembrar, foi previsto em 1947 pela Organização das Nações Unidas (ONU), quando foi aprovado o Plano de Partilha da Palestina. É responsabilidade tanto de israelenses quanto de palestinos trabalhar por este propósito. O governo de extrema direita capitaneado por Benjamin Netanyahu precisa sinalizar ao mundo sua disposição pela criação do Estado palestino. Da mesma forma, os palestinos e demais países árabes precisam se unir para ajudar nessa construção. O Hamas não pode ser parte dessa negociação, e de maneira alguma pode ser legitimado na futura solução desse conflito.

Por ser uma democracia, Israel tem de assegurar que mais adiante Netanyahu terá ainda a sua conduta escrutinada para averiguar eventual culpabilidade por falhas de segurança que facilitaram o ataque de 7 de outubro e suas possíveis responsabilidades ao longo do conflito. Essa é a diferença entre uma sociedade erguida sobre princípios republicanos e um grupo terrorista à frente de um regime baseado na opressão armada.

É desejável um futuro Estado palestino com uma nova proposta, com reformas básicas no sistema de educação, com sustentabilidade econômica, com a criminalização do terrorismo e a eliminação do ódio contra Israel e o povo judeu.

Deve ser lembrado que o Hamas sempre se posicionou de forma contrária a essa solução, reconhecida como a melhor forma de os palestinos também construírem a sua autodeterminação. O grupo terrorista, portanto, tem de ser excluído de qualquer negociação.

A costura da solução de dois Estados deve merecer esforços de governos da região e das nações mais influentes na geopolítica global, assim como os da ONU. É a fórmula para trazer a pacificação esperada e plantar as sementes da tolerância para as próximas gerações. A coexistência harmoniosa entre judeus e palestinos na região e no mundo contribuirá para dissolver preconceitos hoje reavivados, como o antissemitismo e a islamofobia.

OPINIÃO DA RBS


05 DE MARÇO DE 2024
POLÊMICA DO LIVRO

"Já temos tão poucos leitores no Brasil", lamenta Tenório

A Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul (Seduc) determinou que exemplares do livro O Avesso da Pele, do autor Jeferson Tenório, sejam mantidos em escolas da região de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo.

Na sexta-feira, a diretora da Escola Estadual Ernesto Alves de Oliveira, Janaina Venzon, publicou vídeo nas redes sociais pedindo que exemplares da obra fossem retirados da instituição e não fossem usados por professores dentro da sala de aula.

Na postagem, ela disse que é "lamentável o governo federal através do Ministério da Educação (MEC) adquirir esta obra literária e enviar para as escolas com vocabulários de tão baixo nível para serem trabalhados com estudantes do Ensino Médio".

Ontem, em entrevista à GloboNews, Tenório lamentou o protesto da diretora: - Me causa sempre espanto, porque já temos tão poucos leitores no Brasil e deveríamos estar preocupados em formar leitores, e não censurar livros.

Retirada

Depois da publicação, a 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), ligada à Seduc, chegou a orientar a retirada dos exemplares da escola. No domingo, a Seduc afirmou que "não orientou que a obra (...) fosse retirada de bibliotecas da rede estadual de ensino" e que "a 6ª CRE vai seguir a orientação e providenciar que as escolas da região usem adequadamente os livros".



05 DE MARÇO DE 2024
CERTO DE CONTAS

Aprovado incentivo para John Deere comprar área que permitirá expansão de R$ 230 milhões

Foi aprovado pelo governo gaúcho um novo projeto da John Deere via Programa de Implantação de Distritos Industriais (Proedi). O valor do incentivo é de R$ 3,2 milhões para uma área em Montenegro, no Vale do Caí, onde a empresa já tem uma fábrica de tratores. O programa permite a expansão de indústrias oferecendo a possibilidade de compra, com desconto, de terrenos e áreas em distritos industriais que pertencem ao Estado.

Fabricante norte-americana de máquinas agrícolas, a John Deere pretende expandir a unidade que já tem no local com a implementação de um estacionamento para os equipamentos. Com a ampliação, informou ao governo, será possível fazer um investimento de R$ 230 milhões na construção de um novo prédio de armazenagem e instalação de novas linhas de produção, além de um novo restaurante e outras melhorias.

- É um investimento novo, será nos terrenos ao fundo da planta de Montenegro - diz o diretor do Sistema Estadual para Atração e Desenvolvimento de Atividades Produtivas (Seadap), Gustavo Rech.

O Rio Grande do Sul tem distritos industriais com desconto de até 90% para aquisição de terreno. Cada distrito tem o valor de hectare fixado. O terreno é reservado após apresentação do projeto, que será analisado pelo governo. Após todas as aprovações, a empresa providencia os projetos de engenharia, paga a caução e assina o contrato com o Estado.

Noroeste

A fábrica da John Deere em Horizontina também tem um projeto de ampliação, que inclusive recebeu incentivo do Fundo Operação Empresa do Estado do Rio Grande do Sul (Fundopem) de R$ 145 milhões do governo do Estado. A empresa, porém, enfrenta queda na venda de máquinas. Com revendedores estocados, a unidade irá parar a produção por dois meses na unidade, que fabrica colheitadeiras, plantadeiras e plataformas de corte. Após já ter demitido 450 funcionários no ano passado, negocia a suspensão de contrato dos outros para se evitar mais dispensas.

GIANE GUERRA


05 DE MARÇO DE 2024
CONEXÃO BRASÍLIA

Caminho será longo

O esforço do governo Lula em regulamentar o transporte de passageiros por aplicativos é louvável, mas a apresentação de um projeto ao Congresso é apenas o passo inicial de uma discussão que ainda deve ser longa e desgastante.

A negociação é difícil por vários motivos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados em 2022, o país tem ao menos 778 mil pessoas trabalhando em aplicativos de transporte de passageiros. Além de numerosa, a categoria é diversa e tem pouca representatividade. Isso cria empecilhos para estabelecer unidade nas negociações, e dificulta até mesmo a percepção sobre a concordância ou não dos motoristas sobre o projeto apresentado pelo governo.

Do outro lado, sempre houve resistência das empresas a qualquer medida que gere obrigações. O governo garante que conseguiu avançar neste convencimento, mas as divergências devem vir à tona.

O avanço de propostas de regulamentação de aplicativos tem sido difícil em vários países. No Brasil, o projeto do governo envolve apenas o transporte de passageiros, ainda não houve acordo para proposta envolvendo motoboys e ciclistas parceiros de plataformas como iFood e Rappi.

Em funcionamento no Brasil há 10 anos, o serviço executado hoje por Uber, 99 e outras plataformas semelhantes não tem qualquer regulamentação. Por isso, há méritos na iniciativa do governo em tentar formalizar os motoristas como autônomos, com acesso à Previdência Social e exigência de compromisso das plataformas em dar o mínimo de conforto aos trabalhadores.

No Congresso, já há parlamentares debruçados sobre o tema e discutindo outras propostas há bastante tempo. Em ano eleitoral e com diversos projetos na fila, é fundamental que os parlamentares priorizem o tema, até mesmo para evitar insegurança jurídica.

MATHEUS SCHUCH


05 DE MARÇO DE 2024
NÍLSON SOUZA

Na rua assombrada

No período do Império, os presidentes das províncias brasileiras faziam relatórios para prestar contas ao poder central. No ano de 1864, o advogado Esperidião Eloy de Barros Pimentel, escolhido pelo imperador para presidir o Rio Grande do Sul, registrou o seguinte no documento oficial emitido de Porto Alegre: "Continua inalterada a tranquilidade pública. 

Cumpre-me, entretanto, registrar aqui um fato, ocorrido nesta cidade, e que esteve prestes a perturbá-la. Tendo desaparecido o taberneiro Januário Martins, e seu caixeiro, e procedendo a polícia a minuciosas indagações, descobriu em um fosso no quintal da casa em que habitava José Ramos os cadáveres daqueles infelizes; descobrindo-se também naquela ocasião os ossos completos de um esqueleto humano. 

As mais veementes presunções condenavam a Ramos e sua amásia Catharina Palse. Os interrogatórios, que às 3 horas da tarde começaram na Secretaria da Polícia, e continuavam ainda à noite, atraíram curiosos em grande número, e alguns deles ousaram exigir que os presos lhes fossem entregues para serem por suas mãos justiçados. 

Os crimes eram horrorosos, e acompanhados de circunstâncias as mais agravantes. Mas tal pretensão, em todo o caso inadmissível num país civilizado, era tanto mais desarrazoada quanto tinha sido pronta e eficaz a ação da justiça. Os presos foram recolhidos à cadeia, sendo, porém, de lamentar ferimentos em pessoas que, surdas às admoestações da autoridade, conservavam-se diante da força, atirando-lhe pedras, pedaços de garrafas, e apupando-a."

Esse foi o registro oficial do crime da Rua do Arvoredo, atual Fernando Machado, fato que no decorrer dos anos saltou dos registros oficiais e das páginas dos jornais para a literatura, ganhando novas nuances e transformando-se na principal lenda urbana da Capital gaúcha. 

Não há como transitar por aquela artéria da cidade sem lembrar sua história de horror. Ainda na semana passada, estive no Café Mal Assombrado - uma casa criativa e acolhedora inaugurada há menos de dois anos na indigitada rua -, mas recusei delicadamente o pão com linguiça e a torta de sangue sugeridos no cardápio.

Pois agora o célebre episódio ganha uma nova versão saída da imaginação do talentoso escritor Tailor Diniz: o livro Os Canibais da Rua do Arvoredo. Leitura obrigatória. Eles escaparam do linchamento, mas jamais escaparão desta condenação eterna que é a reprise reiterada da história escabrosa. Ainda assim, como pude constatar recentemente na rua mais assombrada de Porto Alegre, continua inalterada a tranquilidade pública.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 4 de março de 2024


04 DE MARÇO DE 2024
CARPINEJAR

Torcedores-raiz

Chegamos às quartas de final do Gauchão com embate solitário somente de ida. Os confrontos derradeiros já estão estabelecidos: Inter x São Luiz, Caxias x São José, Grêmio x Brasil de Pelotas, Guarany de Bagé x Juventude.

É uma boa hora para descrevermos o torcedor ou torcedora que não é eventual, que apresenta fanatismo genuíno, que é figura constante das arquibancadas, que bloqueia a agenda quando tem partida da sua equipe, como se fosse um feriado religioso. Enfim, presto minha homenagem ao torcedor ou torcedora-raiz.

- Não tem essa de só aparecer em clássicos, grandes jogos ou finais. Quem torce de verdade bate cartão nas rodadas em casa no Gauchão. Não se guarda para Libertadores, Sula ou Brasileirão. - Verifica a escalação com antecedência, utilizando-a como munição para polêmicas nos grupos de WhatsApp.

- Não deixa de se fazer presente por previsão de tempestade. - Não deixa de se fazer presente porque é aniversário da esposa ou do marido, ou dos filhos. - Acompanha a programação esportiva durante seu deslocamento até o estádio.

- Concentra-se com sua roda de amigos nas imediações do estádio para atualizar as notícias. Não reclamará da cerveja ou do chope quente no pré-aquecimento da rua. - Tem um lugar cativo no estádio, a ponto de decorar quem está ao lado.

- Já conhece algumas regras mínimas de convivência, como jamais estar de chinelo. Sabe que seu pé será pisado. Da mesma forma, tem consciência de que é impossível atender a telefonemas dentro do estádio - a conexão é péssima.

- Nunca fará um top no manto para parecer mais moderno e sensual. Nunca o transformará em bandana na cabeça. Camiseta do time é sagrada, não permite dobras e enfeites. No máximo, pode ser brandida como bandeira em extremos da comemoração.

- Odeia quem pede licença para se sentar no momento de maior tensão e nervosismo. Que vá para a ópera. - Considera de última categoria quem se vale do estádio para namorar, para encontros de aplicativo, para dates, para prospectar ficantes. Admitem-se pedidos de casamento, desde que sejam no intervalo.

- Perde a paciência com quem pensa unicamente em comer e, a todo instante, chama um ambulante para se servir de pizza, pipoca, cachorro-quente, picolé. É alguém que presta mais atenção nos vendedores do que na movimentação dos jogadores em campo, além de tapar a visão dos outros com seus demorados pagamentos por Pix ou cartão de crédito.

- Não sai antes do apito final para evitar trânsito. - Não sai do estádio sem perder a voz. Se não voltar rouco para casa, fracassou no incentivo: não cantou o suficiente, não apoiou o suficiente. - Não abre mão do radinho de pilha, para não arcar com delay da narração.

- Não suporta quem grita gol de modo precipitado. Até porque esse sujeito jamais acerta a previsão.

- Sente horror dos profetas da selfie, que gravam faltas, escanteios e pênaltis, querendo filmar um gol iminente. Dá zica. São pessoas que sofrem da síndrome de Régis Rösing, conhecido repórter que se antecipava aos principais lances das partidas na beira do gramado.

- Irrita-se quando o elenco se farda de uniformes alternativos, com cores que discrepam das tradicionais do clube. - Possui, no mínimo, cinco camisas do time no seu armário. Com menos do que isso, não é torcedor ou torcedora-raiz.

CARPINEJAR

04 DE MARÇO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

O DINAMISMO DO CAMPO

O potencial agropecuário do Brasil espanta o mundo. O país lidera as exportações globais em uma série de grãos, fibras e proteínas animais. A segurança alimentar do planeta passa pelos produtores brasileiros. Esse patamar não foi alcançado ao acaso. É fruto da dedicação de homens e mulheres do campo e da consciência quanto à necessidade de buscar constantemente o aumento da produtividade. Foi isso que fez o agronegócio se tornar o setor mais dinâmico e competitivo da economia nacional.

Muito dessa história passa pelo Rio Grande do Sul. Tanto pela produção primária gaúcha, uma das maiores e mais tradicionais do Brasil, quanto pelo papel de protagonismo da indústria voltada ao setor, como a de máquinas agrícolas. Deve ser lembrada, também, a migração de agricultores gaúchos que, em décadas passadas, se aventuraram por outras regiões do Brasil, abrindo novas fronteiras agrícolas.

Um dos diferenciais do agronegócio, ao longo dos anos, tem sido a compreensão da importância de sempre incorporar novas tecnologias para produzir mais no mesmo espaço. É nesse contexto que feiras como a Expodireto Cotrijal ganham importância.

Conhecida pelo profissionalismo, a mostra realizada em Não-Me-Toque, no norte do Estado, chega a sua 24ª edição.

A Expodireto, que começa hoje e vai até sexta-feira, está consolidada como um dos mais importantes eventos do gênero na América Latina, tanto pelo volume de negócios como pelo caráter de vitrine das principais inovações e lançamentos em máquinas, equipamentos, insumos, serviços e pesquisas. Ali está a tecnologia de ponta que, em breve, será vista disseminada por campos, lavouras e criatórios para gerar mais produtividade, renda para os produtores, PIB e divisas para o Brasil.

Não é por acaso que, todos os anos, uma série de missões estrangeiras visita a Expodireto Cotrijal para conhecer novidades, tendências e fazer contatos comerciais. Neste ano chegam a Não-Me-Toque representantes de mais de 70 países. Destaque para os chineses, principais clientes das exportações do Rio Grande do Sul e do Brasil.

É verdade que, pela ótica dos produtores, a conjuntura momentânea indica certa cautela para os negócios. O preço de commodities como a soja, carro-chefe do agronegócio do Estado e do país, está bastante abaixo do mesmo período do ano passado. O juro, outro fator que influencia no ímpeto para investir, segue em patamar restritivo, embora em trajetória de queda. Mas períodos desafiadores não são novidades para a agropecuária. O principal é que a tendência segue sendo de um horizonte promissor para os produtores. Ademais, a feira organizada pela Cotrijal é também um importante ponto de encontro para uma série de eventos paralelos destinados a debater os principais temas de interesse do agro.

No Rio Grande do Sul, onde os problemas climáticos se repetem, uma das principais pautas é outra vez a irrigação. Não apenas para diminuir perdas em períodos de estiagem. Ter água no momento certo também significa elevar o potencial produtivo das lavouras. O governo gaúcho apresentou na semana passada uma segunda etapa do seu programa para aumentar a área cultivada no Estado que não depende apenas da chuva. A iniciativa, mesmo bem-vinda, ainda é insuficiente para as necessidades do Rio Grande do Sul. 

Ainda falta solucionar os impasses legais e ambientais que impedem a reservação de água em áreas de preservação permanente (APPs). É preciso crer que, com diálogo e uso de conhecimentos técnicos, será possível encontrar formas de mais uma vez conciliar proteção à natureza e necessidades econômicas. Trata-se de um consenso basilar para se contornar um dos principais gargalos do agronegócio do Estado.


04 DE MARÇO DE 2024
SETOR AUTOMOTIVO

Toyota deve investir R$ 11 bi no Brasil nos próximos anos

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, antecipou, ontem, que a Toyota anunciará investimentos de R$ 11 bilhões no Brasil nos próximos anos, com previsão de lançamento de novos modelos de automóveis. O anúncio deve ocorrer amanhã, em Sorocaba, no interior de São Paulo, onde a Toyota tem fábrica.

"A Toyota está no Brasil há 66 anos e vem contribuindo enormemente para o adensamento das nossas cadeias produtivas. Seu anúncio é uma demonstração clara da confiança dessa grande empresa japonesa em nossa economia", escreveu em postagem nas redes sociais.

Alckmin citou os programas Mobilidade Verde e Inovação (Mover) e Combustível do Futuro. Segundo o vice-presidente, com eles, o Brasil está promovendo "grandes investimentos para descarbonizar sua mobilidade, tornando ainda mais sustentável nossa matriz energética".

O Mover amplia as exigências de sustentabilidade da frota automotiva e, por meio de incentivos fiscais, estimula a produção de novas tecnologias nas áreas de mobilidade e logística.

Já o programa Combustível do Futuro tem um conjunto de iniciativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e estimular o uso e produção de biocombustíveis no Brasil.

Hyundai

No mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também esteve com o presidente global do Grupo Hyundai Motor, Eui-Sun Chung. No encontro, o executivo da empresa sul-coreana anunciou US$ 1,1 bilhão em investimentos no Brasil até 2032, enquanto Lula destacou a importância do setor automotivo para a política de reindustrialização do país.



04 DE MARÇO DE 2024
FUNDO DE GARANTIA

Novo sistema de gestão do FGTS entra em vigor

O FGTS Digital, nova ferramenta de gestão do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, entrou em vigor na última sexta-feira. O sistema substituirá o Conectividade Social/Caixa, usado pelas empresas para enviar informações do FGTS dos empregados. Além de simplificar operações, o sistema permite que o empregador utilize o Pix para recolher o FGTS.

A nova plataforma aproveitará as informações de remuneração declaradas no eSocial, onde os débitos já são individualizados desde sua origem. Assim, os empregadores, ao fornecerem os dados contratuais e de folha de pagamento via eSocial, terão acesso a um sistema que permitirá mais rapidez na geração de guias, no cálculo de indenizações compensatórias e na obtenção de extratos detalhados por trabalhador, além da possibilidade de solicitar estornos e parcelamentos.

Ao todo, 4,5 milhões de empregadores vão usar a plataforma para gerir os dados de mais de 50 milhões de trabalhadores.

Ao apresentar a plataforma, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, disse que o novo sistema resultará em economia e em transparência tanto para patrões quanto para empregados.

- Traz economias de modernização, transparência, eficiência para as empresas. Traz economia de horas trabalhadas. Se somar milhões de empregadores, quantos meses dá no ano? Estamos falando de custo Brasil - afirmou Marinho.

Economia

Segundo levantamento feito pelas empresas do Grupo de Trabalho Piloto do eSocial, o processo de recolhimento do FGTS na sistemática anterior demandava aproximadamente 34 horas mensais dos empregadores. Além disso, o cumprimento de todas as obrigações legais junto ao eSocial exigia cerca de 25 horas por mês.

Todos os meses, serão emitidas 7 milhões de guias para recolhimento do fundo.


04 DE MARÇO DE 2024
CLÁUDIA LAITANO

Só para eles

Acho que, em muitos sentidos, sou uma mulher de sorte. Cresci com dois irmãos mais velhos e nunca senti nenhuma diferença significativa em relação à educação ou à liberdade que desfrutávamos em casa.

No trabalho, vi muitas colegas mulheres alcançarem posições de destaque em todas as áreas ao longo dos anos e raramente percebi que estava sendo tratada de forma desrespeitosa ou condescendente - e ainda bem que foram poucas vezes, porque lembro bem de cada uma delas.

Como dona de casa part-time e mãe em tempo integral, admito que nunca vi as tarefas domésticas serem divididas em partes exatamente iguais entre homens e mulheres, na minha casa ou na dos outros, mas, por sorte, fui abençoada por uma certa tranquilidade com relação a louças não lavadas, roupas não passadas e festinhas infantis terceirizadas.

Ou seja, nunca perdi o sono (ou o tempo) para dar conta de tarefas que me pareciam secundárias em relação a outros interesses ou compromissos. Quando minha filha pedia mais atenção ou reclamava porque eu era a única mãe que nunca buscava os filhos na escola, respondia que um dia ela iria ter um trabalho bacana e que talvez também fosse obrigada a fazer escolhas difíceis.

Acho que ela entendeu o recado, mesmo não gostando muito do argumento na hora, e hoje vejo com orgulho que, aos 18 anos, ela faz parte da geração de jovens feministas que está apertando alguns parafusos que a minha geração tinha deixado frouxos, exigindo oportunidades e fazendo perguntas que, muitas vezes, nem sequer nos ocorriam há 15 ou 20 anos.

Exemplo de um "parafuso frouxo" que sempre me incomodou? A velada misoginia daqueles almoços semanais de amigos e conhecidos em que até os chatos são bem recebidos - desde que tenham nascido homens.

A mensagem subliminar do encontro exclusivo para homens é a de que eles não se sentem à vontade para serem eles mesmos na nossa companhia, seja porque não estamos à altura do seu intelecto e bom humor (risos), seja porque somos todas tão maravilhosas que eles não conseguiriam passar uma hora em nossa companhia sem serem afetados pelo impulso incontrolável de se exibir (mais risos).

Meu modesto sonho de igualdade cotidiana é banal e amplamente factível: que em todas as mesas de almoço, o gênero dominante seja o da camaradagem e do afeto, e não o da convenção e o da preguiça de mudar.

* A cronista Cláudia Laitano está em férias. Este texto foi publicado originalmente em 31 de março de 2017.

CLÁUDIA LAITANO