sexta-feira, 3 de novembro de 2023


03 DE NOVEMBRO DE 2023
CELSO LOUREIRO CHAVES

Os 60 anos da sede da Filarmônica de Berlim

É bem comum comemorar aniversários redondos de compositores, como Bruno Kiefer e seu centenário, a serem celebrados pela Ospa no concerto agora do dia 10 de novembro. É este o caso também com certas obras mestras, como a Sagração da Primavera de Stravinsky, que no ano do centenário ganhou um livro de presente, Avatar da Modernidade, esquadrinhando todos os aspectos da peça.

Muito mais raro é celebrar datas redondas de salas de concerto, esses lugares de ir e vir e ficar um pouco, para ouvir música, aplaudir (em casos muito raros, vaiar) e ir embora. No entanto, isso também acontece: agora mesmo os 60 anos da sede da Filarmônica de Berlim estão sendo comemorados numa temporada inteira em que a sala virou ponto focal, ao lado da música e dos solistas estrelados.

É que o prédio da Filarmônica de Berlim é uma rara confluência de arquitetura, música, política e ideologia. Quando começou a ser construído, em 1959, o seu local de habitação era um descampado deprimente, bem ao lado daquele que uma vez tinha sido o cruzamento urbano mais movimentado do mundo, a praça Potsdam. Naquele momento, poucos anos depois do final da Segunda Guerra, era terra de ninguém.

Havia um motivo para a localização esdrúxula: o prédio ficava quase ao lado da fronteira entre as duas Berlim, Ocidental e Oriental, como um monumento capitalista a desafiar o socialismo. Logo depois veio o Muro e quando a sala foi inaugurada, em 1963, a terra de ninguém tinha virado um território de cimento e torres de vigilância, embora a música insistisse em ficar ali, com Herbert von Karajan e seus Beethovens preferidos.

Ao projetar o prédio, a grande inovação do arquiteto Hans Scharoun foi colocar a orquestra no centro do espaço e não numa das pontas, empilhando a plateia ao redor dos músicos, naquele que ficou conhecido como "modelo videira". A partir daí, o modelo da Filarmônica de Berlim foi repetido várias vezes em outros lugares, com variações e aperfeiçoamentos para domar a acústica que, nos primeiros tempos, era intratável.

Décadas depois, a acústica foi dominada com intervenções aqui e ali. Tanto assim que, ao assistir um concerto na Filarmônica de Berlim, algo impressiona que nada tem a ver com música. Maestro no pódio, músicos a postos, plateia serenada - então se instala um silêncio impressionante e raro e o prédio todo parece respirar, pronto a adquirir vida. É isto o que faz essa arquitetura que foi inovadora em seu tempo: transformar o silêncio em algo que, às vezes, chega a ser mais expressivo do que a música.

CELSO LOUREIRO CHAVES

03 DE NOVEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

O BRASIL QUE RESISTE

Os números e percentuais da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), divulgados na última terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atestam a resiliência dos empregadores brasileiros diante das dificuldades econômicas do país, das adversidades do clima e das hesitações dos governantes. Enquanto o governo federal emite sinais confusos sobre o próprio compromisso de controlar gastos públicos, o mercado de trabalho registra recorde histórico de ocupação e queda consistente na taxa de desemprego. De acordo com o levantamento referido, o país encerrou o trimestre concluído em setembro com o menor patamar de desempregados desde fevereiro de 2015.

E o mais animador é que esse avanço está centrado no aumento do trabalho formal. Na comparação com o trimestre terminado em junho, a taxa de ocupação evoluiu positivamente em 0,9% - o que, em números absolutos, indica quase 1 milhão de pessoas a mais no mercado de trabalho, sendo que metade desse contingente (587 mil pessoas) foi contratada com carteira de trabalho assinada. Numa tradução simplificada, significa mais de meio milhão de trabalhadores com renda e direito a férias, Fundo de Garantia e 13º salário.

A informalidade ainda é grande no país. O mesmo levantamento registra a incorporação de 299 mil trabalhadores informais no trimestre, elevando o contingente para 39 milhões de pessoas atuando sem as garantias trabalhistas, ainda que muitas contribuam como trabalhadores autônomos para, ao menos, desfrutar de benefícios previdenciários.

Outro dado promissor do recente levantamento é o aumento do rendimento médio dos trabalhadores. Embora pouco significativo do ponto de vista meramente econômico, houve ganho real para o trabalhador brasileiro neste período, com um aumento de R$ 49 no rendimento médio, enquanto no ano chegou a R$ 120. De acordo com o IBGE, esse pequeno aumento individual fez com que a massa de rendimentos do país atingisse o maior patamar da série histórica da pesquisa.

Ainda que o último trimestre do ano possa apontar para uma reversão da atual tendência, os números agora divulgados contrariam até mesmo a previsão da Organização Internacional do Trabalho de que o Brasil encerraria 2023 com um índice entre 9,1% e 9,9% de brasileiros sem trabalho. Chegamos ao final de setembro com 7,7% e com o desafio de manter ou reduzir esse índice, mesmo diante de ameaças visíveis, entre as quais o cenário externo de guerra na região produtora de petróleo e o cenário interno de incertezas quanto ao equilíbrio das contas públicas.

Quando a política não atrapalha, o setor privado faz bem a sua parte. E quando a administração pública ajuda, implementando políticas fiscais e monetárias adequadas, facilitando o consumo e o crédito, ou mesmo gerando empregos compatíveis com suas necessidades, a população inteira se beneficia. Porém, é necessário que o governo se torne um agente ativo do processo de desenvolvimento sem ceder à tentação populista de gastar mais do que arrecada. Evidentemente, os gastos em programas sociais são necessários, o melhor dos investimentos continua sendo proporcionar oportunidades para que os cidadãos garantam a própria subsistência.

OPINIÃO DA RBS

03 DE NOVEMBRO DE 2023
FEIRA DO LIVRO

O fantástico em destaque na Praça

Evento literário da Capital abre espaços da programação para discutir características e nuances da literatura de fantasia

Horror, fantasia, ficção científica e, é claro, o fantástico. Desses gêneros literários surge o grande campo da literatura fantástica, que tem ganhado força no mercado nacional - com destaque para Porto Alegre, que, até 15 de novembro, recebe a 69ª Feira do Livro, com parte da programação voltada a esses gêneros.

Na Capital, a recepção dessas obras é ótima, garante o escritor, editor e professor Duda Falcão, 48 anos. Ele participará de uma série de eventos com essa temática. Amanhã, às 15h30min, estará no Sarau Itinerante de Literatura de Horror, na Biblioteca Erico Verissimo da Casa de Cultura Mario Quintana. No dia 14, às 14h, no Auditório do Memorial do RS, promoverá uma oficina intitulada Escrevendo Literatura Fantástica: Uma Jornada pela Escrita de Horror, Fantasia e Ficção Científica, na qual falará sobre seu livro Guia de Literatura Fantástica - que autografará na sequência, às 16h, na Praça de Autógrafos Gerdau.

Falcão organiza o congresso literário Odisseia de Literatura Fantástica, que, em sua nona edição, realizada no início de outubro, reuniu em torno de 200 pessoas.

- Porto Alegre é uma das cidades que mais consomem o fantástico. A gente tem apreço por isso - afirma, citando a Semana do Horror, na Casa de Cultura Mario Quintana, como indicativo.

Escritora e designer de narrativas para jogos digitais, Kali de los Santos, 32 anos, também percebe um grande consumo desses produtos. A autora considera Tormenta - universo de fantasia para o qual escreve - uma parte forte disso. Kali acaba de escrever um romance infantojuvenil a ser publicado no próximo ano pela editora Jambô, ampliando o público-alvo para além dos adultos.

- Acho que a gente tem uma cena bem interessante de autores gaúchos de fantasia, de ficção científica e de horror - pontua a escritora, que participará, ao lado de outros autores, de um painel na Feira do Livro no próximo dia 12, às 16h, no Auditório Barbosa Lessa do Espaço Força e Luz, intitulado Tormenta: A Coleção Arton, sobre esse universo literário e de RPG e seus novos títulos.

Apesar do aumento da produção e da procura, no entanto, Falcão ainda sente falta de um certo ímpeto dos leitores de comprar mais obras de autores brasileiros.

- Ainda se compram muitas obras de autores estrangeiros, isso eu acho que está bem em alta. A gente tem um pouco de dificuldade de romper esse padrão de consumo, de trazer mais para os autores nacionais esse tipo de venda - observa o especialista.

Importado

A escritora de Tormenta também percebe um consumo ainda muito atrelado ao Exterior, com booktubers e booktokers trazendo essas indicações. A produção nacional, por vezes, também é muito espelhada na estrangeira. Contudo, ainda que o panorama não tenha se alterado completamente, Kali destaca que a procura por conteúdo nacional está crescendo. Ela atribui esse fenômeno a uma tendência recente de querer se identificar mais com aquilo que é consumido.

- Acho que o pessoal que lê aqui no Brasil pensou: eu posso ler alguém que escreve não necessariamente sobre a minha realidade, mas que vem a partir da minha realidade. Um exemplo: a alta fantasia que eu escrevo, mesmo sendo em um mundo medieval, vai ser especificamente brasileira, porque sou brasileira e vou escrever com o jeito que a gente tem de lidar com as coisas - explica Kali.

O impulso desse tipo de literatura está vinculado ainda a outros fatores, na visão da autora, como as crises mundiais, as guerras e as questões climáticas acontecendo simultaneamente e tornando difícil, por vezes, lidar com a realidade. A arte entra, então, não como uma possibilidade de escape, mas como uma ajuda para processar - ao ler, por exemplo, uma história de ficção científica que trata da crise climática. Além disso, para Falcão, os gêneros fantásticos são muito divulgados em seriados e filmes. Assim, o audiovisual acaba se destacando como outra maneira de levar essas obras até o público.

- É uma pena que, no audiovisual no Brasil, a gente ainda não tenha tantos filmes de terror e seriados conhecidos, porque essa é uma indústria que nos Estados Unidos funciona superbem e acaba sendo exportada - afirma.

Conforme o autor, no cenário brasileiro, o momento ainda é de criar alicerces para chegar a esse patamar.

FERNANDA POLO


03 DE NOVEMBRO DE 2023
FEIRA DO LIVRO

À tarde, um encontro dos mais esperados

O fim da tarde de ontem reservou um momento aguardado da programação desta 69ª edição da Feira. Mesmo com a chuva, o Espaço Petrobras Carlos Urbim ficou abarrotado de gente para ouvir o bate-papo entre Itamar Vieira Junior e Jeferson Tenório.

No bate-papo Conversas Inspiradoras, mediado pela também escritora Nathallia Protazio, a dupla puxou para fora das páginas de suas bem-sucedidas obras questões sociais e históricas. Na conversa, eles convidaram a plateia para refletir sobre lutas sociais e as transformações necessárias para uma sociedade mais justa. Mais de 300 pessoas estavam presentes no recinto - e havia ainda algumas dezenas ouvindo do lado de fora, sob seus guarda-chuvas.

Ao ser questionado por Nathallia se era um autor que saiu da periferia e foi para o centro, Tenório respondeu:

- A leitura mudou a minha vida. A coisa mais transgressora que fiz na vida foi a leitura. Me deu oportunidade de imaginar um futuro. A imaginação é um modo de resistência para quem mora na periferia. A minha perspectiva era de uma semana, um mês, eu não conseguia projetar um futuro longo. Porque a ordem do dia era sobreviver. O maior papel da literatura é ajudar a imaginar um futuro possível. E o centro pode ser em todo lugar.

Itamar foi questionado sobre o sucesso de Torto Arado (2019), um livro que rompe barreiras, alcançando espaços que têm pouca tradição de leitura.

- Fico feliz pela capacidade que a narrativa tem de se ligar às pessoas de maneira muito direta - respondeu. - Este é o maior prêmio que eu poderia receber: escrever um livro que não é inacessível. Neste país, o livro ainda é objeto de luxo, mas não no ponto de vista de compreensão da história.

A 69ª Feira vai até o dia 15 de novembro. As bancas ficam abertas todos os dias, das 10h às 20h.

CARLOS REDEL

03 DE NOVEMBRO DE 2023
DANIEL SCOLA

RS como referência hospitalar

Sobrevivi graças à qualidade da saúde privada do Rio Grande do Sul. Em julho de 2021, tive um câncer na cabeça e optei por ser operado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, um dos melhores do Brasil. Para um assunto tão sério, eu precisava estar no melhor hospital da minha cidade, acompanhado dos melhores profissionais médicos. Claro, o meu plano de saúde - que antes do câncer, para mim, era um gasto, e agora considero como um investimento - cobria as despesas no Moinhos.

Naquele inverno de 2021, descobri que o tumor na minha cabeça precisaria ser removido e a cirurgia teria de ser feita imediatamente. Cheguei a consultar um médico renomado como segunda opinião. Ele me deu o mesmo diagnóstico. O problema, para mim, é que ele operava em outro hospital. No Moinhos, o médico Arthur Pereira Filho, neurocirurgião, me deu conforto e um diagnóstico preciso, sem meias palavras. É disso que um paciente que carrega um tumor na cabeça precisa.

Depois da cirurgia, que eu fiz no dia 21 de julho daquele ano, fui levado ao consultório do diretor médico do Moinhos de Vento, Dr. Luís Antônio Nasi. A consulta, online, foi com o médico americano Roger Paker, que estava em Nova Iorque. Ele é um especialista do tipo de câncer que eu tive, meduloblastoma, no cerebelo, logo abaixo do cérebro. A conversa foi mediada pelo oncologista André Fay. Ao final da consulta, o doutor Paker queria a garantia de que eu faria o tratamento no meu hospital em Porto Alegre, porque ele conhecia a estrutura do Moinhos. O Moinhos é certificado pelo Hospital Johns Hopkins, conhecido nos Estados Unidos pelo altíssimo padrão de atendimento. Paker me disse assim: "Desde que faças aí, tudo bem".

Desta forma, comecei o tratamento de radioterapia sem precisar sair da cidade onde moro - a ideia dele era de que eu fizesse o tratamento oncológico no hospital em que ele atende, na capital americana. A menção ao Moinhos de Vento se deve à experiência pessoal, mas poderia citar outros hospitais de excelência, como o Hospital de Clínicas, por exemplo, que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e serve também como hospital escola para alunos de Medicina e Enfermagem. A verdade é que nosso Estado está bem servido de hospitais.

DANIEL SCOLA


03 DE NOVEMBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Pedindo bis para Plauto Cruz

O documentário Plauto, Um Sopro Musical estreou nos cinemas no início de outubro, mas ficou pouco tempo no circuito comercial. Agora, uma ação tenta fazer com que a obra sobre o gaúcho (foto), um dos maiores flautistas da história da música brasileira, volte às salas.

A mobilização, desta vez, ocorre de uma forma diferente. Será por meio da ação Peça Plauto, promovida pela Lança Filmes. A ideia é que o próprio público viabilize as exibições por meio de agendamentos de grupos interessados em assistir ao longa-metragem em suas cidades. A partir de um número mínimo de interessados, será possível agendar sessões especiais, seguidas de debate sobre a produção, seu inspirador e sua obra. Uma das formas de se inscrever é pelo WhatsApp (51) 99476-3614. Após o contato, é preciso esperar o retorno da organização, com as informações.

O documentário da Guarujá Produções usa elementos de ficção e de musicais para contar a trajetória de Plauto, também considerado um mestre do choro, dono de uma carreira com mais de 40 discos gravados e 60 prêmios em festivais. O filme tem a direção de Rodrigo Portela, roteiro de Márcio Schoenardie, produção de Carlos Peralta e conta com a participação especial de diversos outros músicos, personalidades, amigos, familiares e fãs.

Plauto Cruz morreu em 2017, aos 87 anos.

Obstáculos

Representantes da Associação Passofundense de Cegos (Apace) e da prefeitura de Passo Fundo se reuniram no Parque Linear, na quarta-feira, para discutir alterações no piso tátil instalado no local. No final do mês, a entidade reclamou que as faixas em alto relevo que deveriam facilitar a locomoção de pessoas com deficiência visual tinham sérios erros de implantação. Quem seguisse a linha deparava com obstáculos, canteiros (foto) e até com uma ciclovia, criando risco de acidentes para os usuários.

Entre as adaptações definidas estão a instalação de desvios em alguns pisos já colocados e também o uso de novos acessórios que auxiliarão na localização, como mapas táteis da planta do parque.

Desde a última semana, a prefeitura colocou pisos que sinalizam a necessidade de atenção, alertando para o início das ciclovias. Um desvio também foi aprimorado em um dos canteiros, permitindo que um caminho com curvas seja feito agora em linha reta.

Colaboraram Eduarda Costa e Günther Schöler

O maior poeta do Rio Grande do Sul, Mario Quintana, não poderia ficar de fora da exposição Autorias, que homenageia 51 escritores gaúchos com retratos pintados por 43 artistas. O autor de clássicos como A Rua dos Cataventos (1940) e Sapato Florido (1948) foi retratado pela designer Liana Timm, inspirado na pop art. A mostra fica em cartaz, com entrada franca, no Espaço Cultural Correios, junto à Feira do Livro da Capital.

CAIO CIGANA INTERINO

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

 

Secos & Molhados - Rosa de Hiroshima (Letra Oficial)

 

Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad/Vinicius de Moraes)


Luiz Caldas - A Rosa de Hiroshima (Vinícius de Moraes e Gerson Conrad)

02 DE NOVEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Injustiças em viagens

Férias boas são aquelas em que você fica um longo período fora para sentir saudade do seu travesseiro. Férias ruins são aquelas que, de tão rápidas, fazem você jurar que não aproveitou o suficiente e voltar não querendo voltar. Em meio a minha vasta experiência em hotéis e restaurantes, devido a palestras e shows pelo país, tenho visto algumas injustiças. A primeira se refere aos hóspedes.

Eles são tratados como sem-teto até a liberação do quarto, tendo que vagar pelos corredores e áreas em comum da recepção. Famílias extenuadas ficam amontoadas com as suas malas no sofá, sem chance imediata de se recuperarem da viagem.

Na maioria dos estabelecimentos, prevalece a norma de que você só pode entrar no quarto a partir das 15h. Nunca fui bom em matemática, porém não sou bobo. Se você entra somente no meio da tarde, mas é obrigado a sair às 12h, onde vão parar as três horas restantes? Não pode ser considerada uma diária, já que representa 21h de hospedagem.

Há o rigor espartano na hora do checkout e um adiamento inexplicável no check-in.

Ninguém paga menos ou tem um desconto por essa abreviação. Sequer recebe um pedido de desculpa ou um upgrade. Eu me intrigo com o buraco negro na linha do espaço-tempo: por que são necessárias três horas para efetuar a limpeza do quarto?

Com três horas, eu faxino a casa inteira. Sobra tempo para varrer a frente, bater o capacho, encerar o piso, deixar as janelas brilhando, dar conta de duas lavagens da máquina.

Devemos levar em consideração que nem todos os hóspedes permanecem pela manhã, já que muitos dependem de voos cedo. Assim sendo, duvido que dormitórios não estejam disponíveis para o rápido ingresso.

Existe, ainda, outra arbitrariedade, que costumo testemunhar em grande parte dos restaurantes: parece que o cardápio é dirigido exclusivamente para casais. Solteiros não têm vez. Os melhores pratos são sempre porções para duas pessoas. Se você está desacompanhado e deseja as atrações gastronômicas do lugar, será constrangido a pagar 60% ou 70% da refeição. Qual a diferença de preparar para uma ou para duas pessoas? É o esforço de tirar uma concha a menos da panela?

São mistérios do turismo.

Relacionamentos também não escapam da regra da quantidade. Se um dos dois apresenta restrição alimentar ou intolerância à lactose ou ao glúten, o par acaba por ser incluído na punição solteira.

Vejo o quanto a minha esposa pena indevidamente com a minha alergia a frutos do mar. Seu sonho é pedir uma paella, amarela de açafrão, com o pujante caldo de peixe entremeado de mariscos, moluscos, camarões e pescados. Só que não posso participar, e nenhum garçom recomenda, pelo baixo custo-benefício.

Não posso dizer para ela embrulhar a sobra, paella é como gentileza: não tem como ser requentada.

CARPINEJAR

02 DE NOVEMBRO DE 2023
EM DIA

O SEGREDO DA FELICIDADE

Será esta a coluna de um milhão de dólares? Talvez não, mas garanto a você que pode nos fazer pensar em um meio de chegar lá.

Este ano, pela sexta vez consecutiva, a Finlândia foi eleita o país mais feliz do mundo. De onde saiu isso? Do Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report), que é uma medição da felicidade publicada anualmente desde 2012 pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU. O que ele mede? O ranking considera fatores como apoio social, renda, saúde, senso de liberdade, generosidade e ausência de corrupção nos três últimos anos.

Um dos fatores que garantem a colocação da Finlândia no pódio da felicidade é a baixa desigualdade de renda. Isso, aliás, é um elemento que tem forte correlação com a felicidade, quando analisados os números de todos os países do estudo. De forma geral, quando a desigualdade de renda é maior, e há falta de condições financeiras mínimas para grande parte da população, as pessoas são menos felizes.

Mas não é só a desigualdade de renda a responsável pela (in)felicidade. A Costa Rica, por exemplo, com um nível de desigualdade de renda muito maior do que a Hungria, que é também um país europeu como a Finlândia, tem um índice de felicidade bem superior. O que faz com que a Hungria fique pior no ranking, se a diferença de renda no país é tão próxima à da Finlândia e da Noruega? 

Para quem pensou no clima, já que a Costa Rica é um país de praias, lembre-se que a Finlândia tem um inverno gelado e escuro, que pode durar até sete meses e as temperaturas chegam a 20 graus negativos. O inverno da Hungria é menos severo, mas igualmente muito frio. Uma das causas apontadas é a questão política. Em 2022, o parlamento europeu indicou que "a Hungria não pode mais ser considerada uma democracia plena". Por outro lado, a Costa Rica, segundo seu presidente, ao ter eliminado seu exército (em 2013) consegue investir 8% do PIB em educação e define a força do país como sendo o talento e o bem-estar humano.

O Brasil está na 49ª posição no ranking, ficando em terceiro lugar na América Latina, atrás do Uruguai, em 28ª, e do Chile, que ocupa a 35ª posição global.

Talvez o segredo da felicidade seja muito bem guardado e difícil de alcançar. Mas algumas coisas são fáceis de entender: enquanto houver desigualdades abismais - e infelicidade de muitos para satisfação de alguns - será difícil evoluir. Talvez o caminho seja longo e, por isso, é urgente começar.


02 DE NOVEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

SEM MAIS CONCESSÕES

Confirmaram-se receios e o conteúdo do parecer do senador Eduardo Braga (MDB-AM) sobre a proposta de reforma tributária, apresentado na semana passada, amplia o número de exceções e setores com tratamento diferenciado em relação ao texto aprovado na Câmara. É natural que, ao longo dos próximos passos da tramitação antes da votação no Senado e depois, quando voltará à apreciação dos deputados federais, novas pressões apareçam em busca de benefícios. 

Deve-se outra vez lembrar que, quanto mais segmentos receberem vantagens, maior será a alíquota geral do futuro Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Nada será dado de graça. A conta acaba dividida com toda a sociedade.

Assim sendo, é preciso apelar novamente aos congressistas para que preservem a visão do todo que deve nortear a reforma tributária. Em seu relatório, Braga incluiu setores como concessão de rodovias, agências de viagens, transporte coletivo de passageiros, entre outros, na lista das atividades que terão regime específico. Ainda criou uma quarta alíquota, com desconto de 30% em relação à cheia, para a prestação de serviços de profissões regulamentadas, como médicos e advogados. 

Ocorre, no entanto, que a maior parte desses profissionais está enquadrada no Simples Nacional. A medida, portanto, beneficiará a pequena parcela com faturamento anual superior a R$ 4,8 milhões. Trata-se de uma generosidade bastante questionável do ponto de vista do mérito. Vai de encontro ao ideal de progressividade do sistema de impostos.

Permanece, desta forma, a dúvida sobre o percentual da alíquota-padrão. Ao que parece, dificilmente será da ordem de 25,45%, como chegou a projetar em um cenário considerado "factível" o Ministério da Fazenda, em um estudo com simulações de diferentes graus de exceções. Talvez se aproxime mais da hipótese classificada como "conservadora" pela pasta, calculada em 27%, semelhante à praticada na Hungria, país com o maior IVA do mundo.

Na hipótese irreal de não existir nenhum tratamento diferenciado, a alíquota cheia poderia ser de 20,73% a 22,02%. Mas seria preciso muita ingenuidade para supor que uma reforma no Brasil poderia ser levada adiante e aprovada somente com base nas melhores práticas conhecidas. A pressão de diferentes setores, legítima, já era esperada. Assim como a tendência de parlamentares a ceder a certos grupos de interesse. É do jogo democrático. Apenas aguarda-se que novas concessões sejam evitadas.

O relatório tem outros pontos que merecem reparos. Um deles é o aumento do Fundo de Desenvolvimento Regional de R$ 40 bilhões para R$ 60 bilhões, sem se apontar de onde sairão os recursos. Ainda assim, é essencial manter o foco no principal. Mesmo sujeita a críticas, porque poderia ser melhor, a reforma tributária que até aqui se desenha ainda é um enorme ganho, substituindo o atual sistema, disfuncional, oneroso e complexo. 

A simplificação à frente, com a unificação de impostos, fim da cumulatividade e cobrança no destino fará o Brasil mais competitivo e com capacidade de fazer a economia crescer de acordo com o potencial do país. Os benefícios superam em muito as imperfeições.



02 DE NOVEMBRO DE 2023
+ ECONOMIA

Dívida de R$ 44 bi: Equatorial vende

Controladora da área de distribuição da CEEE há dois anos e meio, a Equatorial anunciou a venda da Integração Transmissora de Energia (Intesa) para reduzir a dívida de R$ 44 bilhões, como explicita no comunicado ao mercado: "É importante destacar que a operação não representa a saída do grupo Equatorial do segmento de transmissão, mas permite avançar na aceleração da sua trajetória de desalavancagem".

A Infraestrutura e Energia Brasil deve pagar R$ 319 milhões quando a operação for aprovada no Cade e na Aneel.

No balanço do segundo trimestre, a Equatorial apontou dívida bruta consolidada até 30 de junho de R$ 44 bilhões. Corresponde a valor 3,8 vezes superior da geração de caixa (pelo ebitda, lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização). Uma proporção superior a três vezes não é considerada saudável. No segundo trimestre, o prejuízo da CEEE-D subiu 57,8%, para R$ 159 milhões, em relação ao mesmo período de 2022.

As brigas por trás do socorro a bancos

No segunda metade da década de 1990, o Brasil viveu intensa quebradeira de bancos. Foi necessário criar dois programas de resgate, um para bancos privados, o Proer, e outro para os públicos, o Proes. Para que isso não voltasse a acontecer, o Banco Central decidiu tornar mais robusto seu trabalho de supervisão. Uma grande equipe se envolveu, com tamanho empenho que criou sérios conflitos. Deu tanta briga que, a certa altura, foi preciso criar o "dia do armistício" (suspensão das hostilidades).

Essa é uma das histórias narradas pelo gaúcho Gilneu Vivan, chefe do Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro do BC, e pela ex-colega Paula Oliveira, já aposentada, na obra As Novas Fronteiras da Supervisão, que será lançado na Feira do Livro no domingo, às 14h. Com três prefácios, um dos quais o do presidente do BC, Roberto Campos Neto, o livro conta como o Brasil saiu de uma das maiores crises da história do sistema bancário para virar referência na área de supervisão e segurança. Ou seja, Vivan e seus colegas conseguiram fazer um esforço raro no Brasil: transformar um enorme problema em uma grande solução. A coluna, claro, quis saber como se faz.

- Houve muita briga, porque havia dois grupos inconciliáveis. Não trouxemos um modelo de outro país e implantamos. Nós construímos, e hoje é referência mundo afora. É uma amostra do que é possível fazer quando tem decisão, recursos, foco e gestão. Aí, conseguimos fazer projetos reconhecidos mundialmente - diz Vivan.

E complementa:

- Uma característica essencial foi a continuidade de projeto, que passou por quatro governos e conseguiu manter um grupo de servidores dedicados a um projeto técnico. E, ainda, tem uma característica fantástica do BC, interferência política muito baixa.

Ao relatar as dificuldades, explica um dos autores, a ideia foi dar dimensão humana a esse capítulo da história econômica do país.

- Entrevistamos 68 pessoas, todos os ex-presidentes do BC desde Armínio Fraga, diretores, chefes de departamento e vários colegas que participaram do trabalho. O livro não é um manual para ensinar a fazer supervisão, mas para mostrar como, depois de muita cabeçada, dois ou três projetos convivendo ao mesmo tempo, um inferno, foi possível construir e fechar um modelo, que foi bem-sucedido.

Na crise financeira de 2008, que derrubou bancos como peças de dominó mundo afora, o Brasil sofreu, mas bem menos, lembra Vivan, muito graças ao modelo sofisticado de supervisão. Em um dos capítulos, o ex-presidente do BC Henrique Meirelles lembra como foi recebido com aplausos em uma das tensas reuniões internacionais que ocorreram na esteira da quebradeira global.

Hoje, afirma o gaúcho que monitora a saúde do sistema financeiro, o sistema processa um volume de micro dados "inconcebível em outro lugar do mundo". E o trabalho ajudou em outro solavanco global:

- Na pandemia, o fato de conhecermos os dados, os modelos de negócio, permitiu desenhar em três semanas uma ferramenta para enfrentar aquele momento, uma letra financeira garantida para ajudar a dar liquidez para o sistema, usando a nossa base de dados.

Isso não significa, claro, que os desafios tenham sido todos vencidos. Agora, para avaliar os riscos do sistema, é preciso conhecer não só dados bancários, mas climáticos e de ciber segurança, exemplifica Vivan. Mas ter uma rara história de sucesso na solução de um grande e complexo problema dá confiança.

MARTA SFREDO

02 DE NOVEMBRO DE 2023
TULIO MILMAN

O lobo do homem

Todos querem paz. Você quer paz, eu quero paz, os palestinos querem paz, o Hamas quer paz, a ONU quer paz, os israelenses querem paz. A dona Sandira, que mora no Cazaquistão, quer paz.

Pergunte a eles o que é paz. É aí que começa... a guerra.

É fácil postar textões no Facebook enquanto tanta gente inocente morre nos dois lados do conflito. Pega bem condenar, ampla e genericamente, a violência. E deve mesmo ser condenada.

Para boa parte dos pacifistas de ocasião, sentados em suas poltronas macias, paz significa parar imediatamente com as hostilidades, dar as mãos e cantar Imagine, assistindo ao sol se pôr no horizonte. Seria lindo. Mas como diria Garrincha, faltou combinar com os russos. Ou, no caso, com o Hamas.

Para esse movimento radical e terrorista, paz significa outra coisa: varrer Israel do Oriente Médio. Depois, aniquilar ou converter à força todos os que não professam a sua cartilha e, então, implementar uma ditadura religiosa. Não sou eu quem diz. Está no estatuto do Hamas. Procure na internet e veja com seus próprios olhos.

Já Israel é um país democrático, que tem seus problemas e suas virtudes. Pode e deve ser criticado, mas que seja pelos motivos certos. Seu governo atual é um fiasco. Isso, porém, tem cura: pressão das ruas e eleições livres, o que não acontece nos territórios comandados por ditaduras, como a Faixa de Gaza. Nada pior para a causa palestina do que ser confundida com a loucura sanguinária do Hamas.

Eu quero paz. E explico, a seguir, o que isso significa para mim. Paz não é um lugar ou um momento de alegria, de compreensão e de plenitude. Essa é uma idealização que só leva à paralisia e à frustração. Paz, para mim, é conviver com as diferenças e com as tensões de uma forma civilizada. E isso só se consegue, até que inventem algo melhor, com democracia: respeito às leis civis, respeito às mulheres, às minorias, às diferenças e à liberdade de expressão. São valores universais que devemos, todos, defender.

Fora disso, a palavra paz é um lobo em pele de cordeiro. Israel não é o verdadeiro inimigo da civilização, embora muita gente, por preguiça intelectual ou por interesse eleitoreiro, prefira não saber ou fazer de conta que não sabe. Até que um dia o lobo se sente confiante o suficiente para avançar mais um pouco mais. E mais um pouco. E mais um pouco. Escondido na pele de cordeiro, sob o aplauso dos incautos, dos desavisados, dos oportunistas... e dos outros lobos.

TULIO MILMAN


02 DE NOVEMBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Voluntariado além das fronteiras

Durante 18 dias, a arquiteta Aline Fuhrmeister (foto), de Porto Alegre, embarcou em uma viagem de aprendizado e doação. Ela foi à Índia conhecer e participar de uma ação de voluntariado com um grupo de mulheres brasileiras. Voltou diferente.

Líder do projeto social DU99, Aline tem levado a arquitetura a lugares onde ela não chega. "Du" significa "tu" em alemão e simboliza a ideia de "fazer pelo outro". O "99" vem de uma estimativa segundo a qual apenas 1% da população mundial tem acesso a um(a) arquiteto(a).

Com o apoio de voluntários e de empresas parceiras, a DU99 já transformou um beco, uma delegacia, uma escola pública, a sede de uma orquestra, um asilo e outros 11 espaços na Capital. São ações rápidas, de um dia, sem cobrar nada por isso.

Em busca de conhecimento, Aline decidiu ir mais longe. Procurou a Exchange do Bem - liderada pelo também gaúcho Eduardo Mariano e especializada em conectar voluntários a projetos ao redor do mundo - e partiu para Jaipur, ao norte do território indiano.

Lá, ao lado de 12 companheiras de diferentes regiões do Brasil, ajudou a revitalizar o Aashray Care Home. É um orfanato que acolhe meninas com HIV e integra a ONG Postive Women Network of Rajhastan.

- Levei a expertise da DU99 para pintar os quartos das meninas e refazer a fachada do prédio. Além disso, queria muito entender como se capta voluntários de todos os lugares do mundo, que é o que acontece lá - conta Aline, já de volta.

Ela não só aprendeu, como vivenciou algo único. Não ficou em hotel nem comeu comida luxuosa. Ficou na sede de uma ONG e fez refeições no local. Doou seu trabalho e, em troca, ganhou gratidão e experiência.

- Vi gente de diferentes lugares, inclusive alemães que, antes de iniciar a faculdade, têm a tradição de ir para locais longínquos e ficar meses, fazendo trabalho voluntário. Como atraí-los? Como a DU99 pode entrar nesse circuito? É isso que quero pensar a partir de agora - diz ela.

Se der certo, Porto Alegre só terá a ganhar.

Médicos do sorriso em Porto Alegre

A turma do projeto Médicos do Sorriso (foto) - nascido em Caxias do Sul, em 2004 - vai realizar uma oficina gratuita de palhaçaria em Porto Alegre. Será nos próximos dias 11 e 12, e qualquer pessoa pode participar. Basta querer conhecer as técnicas e a cultura clown e ter vontade de atrair boas gargalhadas.

A iniciativa vai incluir visitas a pacientes do Hospital Presidente Vargas nos setores de pediatria, emergência e área da mulher durante seis meses, de novembro de 2023 e abril de 2024. Montenegro, Caxias, Horizontina e Santa Rosa também estão na rota do riso.

As inscrições podem ser feitas pelo link abre.ai/medicos do sorriso em porto alegre ou pelo perfil do projeto no Instagram (@medicosdosorriso). São 20 vagas disponíveis para maiores de 16 anos. Corre lá.

JULIANA BUBLITZ

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

IPE Saúde lança Simulador de Contribuição para facilitar cálculo dos usuários

Ferramenta informa novos valores de contribuição de acordo com a proposta do governo

Publicação: 

A partir desta terça-feira (23/5), os usuários do IPE Saúde têm à disposição uma nova ferramenta para facilitar o cálculo da contribuição proposta no projeto de reestruturação da autarquia. Trata-se do Simulador de Contribuição do Plano Principal. A ferramenta vai dar mais transparência e melhorar o poder de decisão dos segurados em relação à nova proposta.

A aplicação, desenvolvida em parceria com a Procergs, permitirá que o usuário conheça os novos valores de contribuição para o seu caso específico. O segurado terá acesso aos valores discriminados para cada indivíduo do grupo familiar e ao valor total da contribuição. A ferramenta mostra, ainda, em qual alíquota ou faixa de contribuição o segurado se enquadra. Além disso, existe um comparativo entre a nova contribuição proposta e os valores de mercado para um plano de saúde equivalente. 

“Esse simulador foi pensado para facilitar a vida dos nossos segurados. Nesse momento de transformação do instituto, em que muitas notícias são veiculadas, é necessário oferecer uma forma clara e transparente para facilitar a tomada de decisão. Enfatizamos que ele serve apenas como uma simulação, baseada na proposta de lei que foi encaminhada para a Assembleia Legislativa. Portanto, é possível que ele passe por mudanças após uma eventual aprovação do projeto de lei”, destacou o presidente do IPE Saúde, Bruno Jatene. 

O Simulador de Contribuição pode ser acessado pelo site do IPE Saúde, na página inicial, ou diretamente pelo link do simulador.

Para entender como funciona o simulador, imagine um servidor de 55 anos, que receba R$ 3 mil de salário. Ele tem três dependentes: um cônjuge, de 54 anos, e dois filhos: um de 23 anos e um de 20 anos. Ao preencher o formulário do simulador com esses dados, o resultado da simulação mostra o valor que será pago na nova proposta, e faz a comparação com a média de planos privados. 

Preenchimento de dados para simulação do caso de servidor de 55 anos com cônjuge de 54 anos e dois filhos, de 23 anos e 20 anos.

A grande novidade da proposta de reformulação do IPE é a trava global de 12% como desconto máximo sobre a remuneração, o que beneficia quem ganha menos. No exemplo proposto acima, o total da contribuição para a família desse servidor seria de R$ 519,20. Como o valor não pode ultrapassar 12% do salário do titular, a contribuição efetiva, nesse caso, teria um desconto de R$ 159,20, totalizando R$ 360 pagos ao IPE, assegurando a cobertura para toda a família que, em um plano privado, gastaria, em média, R$ 3.086.

Resultado da simulação para servidor de 55 anos com cônjuge de 54 anos e dois filhos, de 23 anos e 20 anos.

Principais pontos do novo modelo de financiamento

Com o objetivo de promover o necessário reequilíbrio financeiro e a qualificação do serviço prestado pelo IPE Saúde, o governo apresentou, na última semana, a proposta final de reestruturação do plano de saúde dos servidores. Confira os principais pontos:  

No plano principal, a contribuição dos titulares subiria dos atuais 3,1% para 3,6% do salário – índice que era aplicado até 2004. A contribuição paritária do Estado também aumentaria para o mesmo patamar. Os valores para os segurados não poderiam exceder o que determina a Tabela de Referência de Mensalidade (TRM), conforme a sua faixa etária. Ou seja, o segurado pagaria sempre o que for menor: ou o valor previsto na tabela ou o montante extraído do cálculo percentual com base no salário.  

IPE   TRM

Para os dependentes, que hoje não contribuem financeiramente com uma mensalidade, existiria uma tabela com valores fixos por faixa etária. Por exemplo, dependentes até 23 anos pagariam menos de R$ 50 por mês. Nas demais faixas etárias, os dependentes pagariam 35% do valor da TRM para titulares. Outra novidade foi a colocação do dependente sob condição de invalidez na faixa de menor contribuição, independentemente da idade.

IPE   TRM 2

Na proposta, que foi enviada para a Assembleia Legislativa, foi adicionado um novo limitador de contribuição familiar para proteger sobretudo os servidores de menor poder aquisitivo: a Trava Global. O mecanismo estabelece que o total de contribuição do titular e seus dependentes não poderá exceder 12% do salário do titular.



01 DE NOVEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Adão e Eva em Córdoba

Eu tenho o dom das gafes nas viagens. Ainda mais quando estou fora do país, em outro idioma. Solicito pratos errados, confundo expressões de várias línguas. Sem perceber, estou falando português, espanhol e inglês ao mesmo tempo, com construções absolutamente personalíssimas.

Em Córdoba, terra do barroco Góngora, cheguei ao extremo de cometer um furto. Um furto estranho, infantil, jamais suporia que aquilo poderia ser chamado assim.

Encontrava-me no hotel com Beatriz. Costumo fazer estoque de banana e maçã para o lanche da tarde. Eu passei pela recepção e vi maçãs verdes dando sopa na bandejinha da água aromatizada. Entendi que representavam uma cortesia. Peguei uma fruta e coloquei no bolso do casaco. Era bem como eu gostava, compacta, dura, pois odeio quando a polpa é mole, frouxa, macilenta e se desmancha na boca. Gosto do barulho, do croc.

Abasteci a minha mochila para comer depois. Eu mantenho um porta-bananas e um porta-maçãs, para não deixar cheiro nos livros - sou dessas máximas de requinte. Deitei-me para a sesta, já que na Espanha o comércio fecha das 14h às 16h. Logo que acordei, minha esposa, desesperada, disse que o hotel pedia a devolução de um item que eu havia subtraído da recepção.

Não acreditei que o hotel cobraria a maçã. Tratava-se de descarada avareza. Respondi que pagaria tranquilamente, que deixassem o drama de lado e colocassem o valor a mais na conta.

Beatriz argumentou que não era o caso, não correspondia a um produto com possibilidade de ser consumido. O pessoal não se referia a uma maçã, mas a um objeto de adorno. Expliquei para ela que só tinha pegado uma boba fruta. Uma simples maçã de uma bandeja cheia de maçãs.

Comecei a ficar confuso. A recepcionista considerou esquisita a minha atitude, e esperou para ver o que eu faria. Como desapareci, ela entrou em contato reivindicando o apetrecho. Estava receosa e apreensiva, evitava classificar a minha impostura de roubo. Ainda buscava maiores informações para esclarecer o incidente.

Só sei que criei um impasse diplomático, nenhum hóspede jamais levara pertences da decoração antes. Abria-se um histórico, um precedente perigoso.

Então, eu tirei a maçã da bolsa para provar a minha inocência. Ao dar uma mordida por desforra, quase quebrei os dentes. Descobri que ela era de cera. Devolvi a maçã com imensa vergonha, Beatriz mais ainda por ser casada comigo. Num hotel em Córdoba, existe um cesto de maçãs verdes. Numa delas, você poderá encontrar a minha mordida. O meu pecado original ficou inscrito para sempre.

CARPINEJAR

01 DE NOVEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

A SERVIÇO DAS FACÇÕES

São estarrecedoras as revelações sobre diversos episódios de vazamento de informações por estagiários e servidores do Judiciário gaúcho para facções criminosas no Estado. O caso foi mostrado pelo repórter Giovani Grizotti no programa Fantástico, no domingo, e também apresentado na edição de segunda-feira de Zero Hora. É mais uma situação a demonstrar o quanto o poder público e autoridades têm de estar atentos à atuação desses grupos que também buscam ter infiltrados nas instituições e cooptar funcionários.

Os fatos até agora descobertos são desconcertantes. Utilizando senhas funcionais, os envolvidos tinham acesso antecipado a mandados de busca, de apreensão e de prisão. Forneciam essas informações aos criminosos, que, assim, conseguiam fugir antes das operações policiais, evitando prisões e ocultando provas. Várias ações planejadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público (MP), autorizadas pelo Judiciário, foram frustradas. Os informantes até agora descobertos atuavam no Tribunal de Justiça do Estado (TJRS) e em comarcas do Interior. Revelou-se um caso em que os advogados da associação criminosa tiveram acesso aos pedidos de prisão e busca e apreensão antes mesmo de serem examinados pelo magistrado responsável.

Segundo o TJRS, que participou das investigações com o seu Núcleo de Inteligência, junto da Polícia Civil e do MP, 14 estagiários foram afastados e sete servidores do Judiciário são investigados. Além de levar a apuração a fundo e punir exemplarmente os envolvidos, mostra-se indispensável um maior controle do uso de senhas e mesmo de filtros no processo de seleção de estagiários e servidores, além de meios para aferir se acessos aos sistemas internos estão de acordo com as conformidades funcionais, sem desvios.

Em algumas das situações reveladas, foram usadas senhas utilizadas por pessoas que já tinham até encerrado os estágios. De acordo com o TJRS, entre as providências tomadas está a troca de todas as senhas de acesso ao sistema. E ainda a inabilitação de cerca de 500 ex-estagiários que, apesar de não estarem mais nas funções, ainda tinham os códigos ativos - um fato que, por si, chama atenção e mostra uma falha de segurança. Outra medida do tribunal foi reforçar que o compartilhamento de senhas é irregular.

Em todo o país, as facções criminosas mostram-se bastante articuladas e com grande capacidade de se reorganizarem, a despeito da captura de seus líderes. Além das atividades originais, como tráfico de drogas e de armas, sofisticaram a atuação com negócios de fachada e lavagem de dinheiro.

Fora do Estado, a maior facção brasileira chega a custear a formação de membros em Direito. Há casos já noticiados em que financiam a preparação de colaboradores para concursos no MP e no Judiciário. Atento a esse movimento, o Tribunal de Justiça de São Paulo já afastou candidatos de certames nos últimos anos após investigar a vida pregressa. No Rio Grande do Sul, há casos conhecidos de vereadores presos por ligação com associações criminosas. Além de combater os delinquentes nas ruas, passa a ser indispensável maior atenção para evitar que seus prepostos se infiltrem nas instituições.



01 DE NOVEMBRO DE 2023
+ ECONOMIA

Para morar com APP

Com acesso à Lagoa dos Quadros para navegação, um condomínio de casas em Capão da Canoa, no Litoral Norte, terá área de preservação permanente (APP) de seis hectares. As obras devem começar até dezembro, e a entrega é prevista para 2026.

O Víz Home Lake, da Nazale Incorporadora, ocupará uma área total de 32 hectares. Serão 458 terrenos, com áreas que vão de 260 a 442 metros quadrados. Com parcelamento de até 68 meses, direto com a incorporadora, os lotes partem de preço ao redor de R$ 410 mil. O investimento da empresa no empreendimento é de cerca de R$ 80 milhões, e o valor geral de vendas (VGV) projetado é de R$ 170 milhões.

O empreendimento será no quilômetro 36 da Estrada do Mar (ERS-389). O condomínio terá infraestrutura de lazer com piscina, espaço fitness, salões de convivência, playground, clubhouse e quadras esportivas, com segurança 24 horas.

O projeto arquitetônico do empreendimento é da Vortex, o de interiores ficou sob responsabilidade da MMRA, e o paisagístico, a cargo de Daniel Dillemburg. A gestão comercial e de lançamento é da 2Day Consultoria.

Terminal fluvial tem recorde no RS

Em setembro passado, o Tecon Santa Clara, terminal de contêineres de navegação interior localizado em Triunfo, registrou recorde de movimentação, com 5.073 TEUs (unidade de medida que corresponde a um contêiner de 20 pés).

Foi o melhor desempenho desde que o terminal do transporte regular pela hidrovia começou a operar, em outubro de 2016. Uma parceria entre a Wilson Sons, empresa operadora logística portuária, e a Braskem, reativou o píer IV do terminal, e retomou o transporte de carga pelo Rio Jacuí entre Triunfo e o porto de Rio Grande.

Desde outubro de 2016, o terminal completou 283.780 TEUs transportados, em sete anos de operação. Até este último mês de setembro, a maior movimentação registrada no terminal havia sido em março deste ano, com 4.765 TEUs.

MARTA SFREDO

01 DE NOVEMBRO DE 2023
MÁRIO CORSO

Namorando robôs

Uma das possibilidades da inteligência artificial é criar avatares para interação. A imaginação para inventar com quem trocar ideias é o limite. Porém, como os humanos são previsíveis, o uso mais frequente destes robôs é para namorar. Existem vários aplicativos para isso. O usuário escolhe as características de afinidade para seu "par romântico" e vai para o amor.

Como o fenômeno é recente, o impacto do uso desses simuladores de humanos no destino social do usuário não é sabido ainda. Porém, há indícios de que os mais envolvidos e afetados são os homens jovens, incrementando a solidão que já tinham. Eles não se casam, entre outros motivos, porque suprem as necessidades emocionais com avatares. Eles são tantos, que os americanos preocupam-se em como isso afetará a economia.

Reserve a informação acima, vamos a outra. O número de homens nas universidades americanas declinou a tal ponto que, para romper o desequilíbrio de gênero, algumas adotaram cotas para homens. Entre as explicações está a saúde mental masculina. Os homens usam mais drogas e se suicidam em maior número. Além disso, as mulheres são mais bem preparadas intelectualmente desde o ensino médio.

Uso exemplos americanos porque eles fornecem melhores números sobre as tendências que já temos aqui, ou que virão. A questão é: o que acontece com os homens desta geração?

Eles têm uma falha na identidade masculina, a vigente é anacrônica e a próxima ainda não chegou. Não sabendo o que é ser homem hoje, muitos vão abastecer-se no baú do avô. As ideias cheirando a naftalina os deixam ainda mais isolados e sem software para decifrar suas coetâneas.

Não existe um imperativo de envolver-se emocionalmente com alguém. Dá para viver sem, mas o risco é ficar suscetível a cair no campo gravitacional familiar e viver como um eterno e imaturo filho.

A marca do século passado foi a mulher ganhar vida pública. Talvez o deste seja os homens aprenderem a conviver com isso. Como clínico, escutando os dois lados, constato a imaturidade de muitos jovens homens. Eles não receberam uma educação para o novo momento. Por isso, como seus pais, acreditam que as suas futuras parceiras serão como suas mães, que toleram sua preguiça com a casa, sua ingratidão pelo que recebem e sua grosseria no trato diário. Para aturá-los, pois sem noção do quanto são insuportáveis, só avatares femininos de inteligência artificial.

MÁRIO CORSO


01 DE NOVEMBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Desde quando ter 60 anos é ser velho?

Eles têm razão. Amigos que nasceram algumas décadas antes de mim não se conformam com essa história de chamar de "idoso" quem faz 60 anos. O conceito mudou. Até mesmo o ato de envelhecer se transformou. E o Rio Grande do Sul, como você já sabe pelos resultados do censo, assumiu a dianteira nesse processo, com o maior percentual de cabeças brancas (ou tingidas, vá lá) do país.

Nunca se falou tanto disso. Se você está nas redes sociais, é possível que já os tenha visto: há uma legião de influenciadores digitais que conquistaram milhares de seguidores falando sobre envelhecimento, mas de um jeito diferente. É gente que critica os estereótipos ultrapassados que teimam em resistir e reforçar rótulos.

Quem disse que alguém, apenas por cruzar a linha dos 60 anos, não pode mais namorar, estudar, aprender uma nova língua, realizar sonhos, tentar uma carreira ou viajar pelo mundo? Onde está escrito que se aposentar é desistir da vida?

"Velho" não deveria ser um termo pejorativo, mas virou palavrão - como escreveu o Nílson Souza, a palavra "expressa algo ou alguém que já não serve mais". É no mínimo um disparate, quando se sabe, segundo projeções oficiais, que a turma dos 60+ vai representar nada menos do que 30% da população mundial em 2050 - aqui no Estado, já são mais de 20%. Os incautos seguirão disseminando preconceitos descabidos por aí?

Envelhecer, avisa a doutora Margareth Dalcolmo, "merece mais do que respeito".

É preciso mudar um monte de coisas, desde repensar as cidades e a estrutura de saúde até engrenar uma mudança de cultura. Se for só para bonito, não adianta se definir como "age-friendly" (mais um desses modismos em inglês que os brazucas adoram porque parece mais "cool"). Se tudo der certo, todo mundo vai passar dos 60 um dia.

É de Helena Stainer o quadro da escritora Cíntia Moscovich (ao lado) na exposição Autorias, em cartaz na Feira do Livro da Capital. Escritora, jornalista, colunista de ZH e professora "anti-clichês", Cíntia foi patrona da festa em 2016. Ela costuma contar que se tornou escritora por um comentário da mãe, que um dia veio com essa:

- E tu, ao invés de ser comerciante ou advogada, inventou essa coisa de escrever!

Fast Heroes

A prefeitura de Sapucaia do Sul adotou o projeto Fast Heroes 192 nas escolas. A ideia partiu da equipe de cuidado ao AVC da Fundação Hospitalar Getúlio Vargas e da Iniciativa Angels, que atua para reduzir as mortes pela doença no mundo. O projeto tem as crianças como aliadas na identificação dos primeiros sintomas. Para levar o tema às salas de aula, educadores de 24 colégios municipais passaram por treinamento. A meta é ensinar 4 mil alunos, até o fim do ano, a reconhecer casos suspeitos e pedir atendimento de urgência.

JULIANA BUBLITZ