sábado, 6 de março de 2021

 

06 DE MARÇO DE 2021
J.J. CAMARGO

NOSSA JUVENTUDE É AUDACIOSA. OU O QUÊ?

As presunções são muitas, mas a sensação final, frente a tantas manifestações de imprudência, é de que há alguma coisa a mais por trás dessa aparente "bravura juvenil". Como tudo o que se diga atiça uma resposta com ares de provocação, talvez a nossa abordagem não esteja pedagogicamente adequada.

O convite que recebi era para uma live esclarecedora sobre os riscos que todos corremos com as aglutinações, que na juventude aparentemente são estimuladas pelas proibições, um comportamento frequente entre adolescentes ingênuos e adultos jovens imaturos, servindo de modelos de uma conduta abestalhada.

Não havendo como antecipar as reações do grupo, me aventurei pelo caminho mais lógico, o das verdades científicas, com todas as incertezas que a ciência ainda não resolveu. Usando os olhos dos meninos como monitores da aceitação, fui avançando pelos caminhos inseguros do convencimento. Desisti precocemente de falar das características do vírus porque nada é mais enfadonho do que o retrato falado do invisível.

Ao confessar que ainda estamos aprendendo sobre uma doença nova que, diferentemente dos outros vírus que comprometiam, quase exclusivamente, os pulmões, este tem sido encontrado praticamente em qualquer órgão, tive a percepção de alguns bocejos.

O início da recuperação do interesse da plateia de garotos coincidiu com a informação de que este novo corona foi encontrado até no sêmen. Foi impressão minha ou alguns, prudentemente, cruzaram as pernas?

A informação de que um de cada quatro sobreviventes de formas graves, aqueles que exigiram respiração artificial, morreram nos seis meses seguintes à alta, e de que 40% deles necessitaram de reinternação neste mesmo período para tratamento de sequelas da doença, impressionou menos do que esperava, porque os meninos partiam do princípio que as vítimas deviam ser mesmo pacientes em idade de morrer, em que a covid-19 foi uma mera despachante.

Admiti que a idade não ajuda nada, especialmente na análise comparativa com os jovens, quanto à cognição e memória, significativamente alteradas nos idosos que adoeceram. Mas, querendo recuperar o interesse da galera, passei a falar do dano muscular, um alvo de preocupação naquela fase da vida em que cérebro e músculo disputam primazia.

Vários mudaram de posição na cadeira quando citei uma pesquisa que acompanha atletas pós-covid, que demoram muito ou não conseguem, na convalescência, retornar aos índices de excelência física que a atividade atlética de alta performance exige, e que isso tem sido atribuído a uma "má fase", quando na verdade é provável que o problema esteja no coração, que como músculo que é, pode demorar muito a voltar a ser o que era.

A primeira pergunta, quando abrimos o espaço para o debate, foi emblemática: "Por que nós, jovens, temos que ficar privados da nossa liberdade, se essa é uma doença de velhos?". Senti, então, que a minha apresentação ia finalmente começar!

- Duas razões, e vocês estão convocados a dar-lhes a ordem de importância: primeiro, desejo ardentemente que vocês tenham pais, e torço que ainda tenham avós! Se for assim, espera-se que vocês não pretendam ser cúmplices do vírus na eliminação deles. Segundo, a nova onda de infecção está com perfil diferente, envolvendo mais pacientes jovens, sem nenhuma comorbidade conhecida. 

Então aconselho-os à autopreservação, porque a morte na juventude é maneira menos inteligente de evitar a descoberta de que a velhice não é a pior coisa que pode acontecer a alguém. Deste privilégio foi agraciada a minha geração, que já superou esta idade audaciosa e agora está preocupada com vocês, que não têm nenhuma certeza que envelhecerão.

No final, resolvi investigar: - Pessoal, vendo as aglomerações nos bares, fiquei curioso: e se alguém aparecer de máscara, o que acontece com ele? Um desavisado confirmou minha intuição: "Leva a maior vaia da galera!".

Questão respondida: a ousadia é falsa. O constrangimento do bullying é verdadeiro!

J.J. CAMARGO

06 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

É possível falar bem de políticos

Eu, com os políticos, eu tenho certas reservas. Não que os considere todos desonestos, claro que não. Não existe, em Brasília, uma árvore que dê muda de político, eles saem do meio do povo, um era sindicalista, outro era empresário, outro era jornalista.

O que me faz desconfiar do político é a natureza da sua atividade. Ele lida com poder, dinheiro e interesses. Ele está sempre cercado de tentações, como Jesus no deserto da Judeia.

É fácil resistir às tentações quando não se é tentado. Você é fiel à sua mulher, mas a Ísis Valverde nunca lhe mandou um olhar de ladinho. E se ela mandar? Você resiste? Alguém, alguma vez, já lhe ofereceu R$ 1 milhão em troca de uma facilidade escusa? Como você pode ter certeza da sua integridade se ela nunca foi posta à prova?

A integridade dos políticos, pelo menos dos que têm alguma importância, está sempre sendo posta à prova. No livro A Organização, de Malu Gaspar, ela conta como a Odebrecht mapeava os políticos em ascensão para cooptá-los com mimos antes mesmo que eles se tornassem relevantes. Uma espécie de pagamento antecipado para favores futuros.

Mas é evidente que muitos políticos, como Jesus no deserto da Judeia, resistem às tentações. O Rio Grande do Sul é pródigo na produção de políticos probos. Já citei e de novo cito alguns políticos retos que não atuam mais: à direita temos os reluzentes exemplos de Germano Bonow, apesar de ter sido, imagine, do PFL, e Guilherme Vilela, talvez o melhor prefeito da história de Porto Alegre. Mais ao centro, uma lenda: Pedro Simon. À esquerda dele, um gigante: Leonel Brizola. E, entre os petistas, muitos que me detestam por minhas críticas aos governos de Lula e Dilma: Olívio Dutra, Flávio Koutzii, Bisol e Raul Pont, que, tempos atrás, escreveu um artigo me desancando e falando mal até de Boston, que foi o que me deixou mais chateado.

Quero dizer, desta forma, que tento ser justo quando faço uma análise. Não levo discordâncias para o lado pessoal, a não ser que o político me ataque pessoalmente e, assim, revele um pedaço do seu caráter. Não faz muito, Tarso Genro publicou um artigo em sites me classificando como "bolsonarista extremado". Fiquei irritado. Não exatamente pela classificação, que, para mim é, sim, uma ofensa, mas porque Tarso sabe que não é verdade. Ele foi malicioso, maldoso e injusto, e disse isso a ele.

Tudo bem, passou. Tudo certo.

Mas é preciso destacar que talvez eu tenha sido o primeiro jornalista a publicar crônica pedindo ao eleitor "Não vote em Bolsonaro", e o fiz dois anos antes da eleição. Às vésperas da votação, essa coluna foi recuperada por petistas e viralizou na internet.

Continuo achando que a eleição de Bolsonaro foi um erro, e ele reforça essa convicção todos os dias com sua grosseria, sua falta de educação, sua inépcia e sua crueldade. A forma como se comporta na pandemia, então, é mais do que reprovável. É triste.

Mas sou capaz, sim, de elogiar a ação de algum político em atividade. Disse de Marchezan, quando ele saiu da prefeitura: foi um bom prefeito. Se seria de novo, não sei. Se fará algo mais de positivo, também não sei. Falo do que fez.

Posso falar, também, do que está sendo feito, e me refiro agora ao governador do Estado, Eduardo Leite. Ele lançou sua pré-candidatura à Presidência da República e, a partir daí, entrou na linha de tiro dos bolsonaristas. Virou o inimigo a ser abatido. É essa, mais do que quaisquer outras, a razão das acerbas críticas que vem recebendo pelo seu manejo da crise do coronavírus no Estado.

É óbvio que muitas pessoas são contra o fechamento do comércio. Ninguém gosta de uma medida tão radical e, no começo da pandemia, também achei que houve algum exagero. Mas, agora, não. Agora é necessário. Estamos vivendo o pior período da peste. O mais grave.

Assim, com um pé atrás, as mãos espalmadas para a frente e algum receio no peito, afirmo: Eduardo Leite está certo. Precisamos ter disciplina germânica e fleuma britânica pelo menos por mais duas semanas. Depois, quem sabe, pode haver um relaxamento, e o comércio retorne, sempre com cautelas, que esse é um tempo de cautelas. Em momentos de perigo, o líder tem de tomar atitudes assertivas. É o que o governador está fazendo. E está fazendo bem. E, olha, eu com os políticos, eu tenho certas reservas.

DAVID COIMBRA

06 DE MARÇO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

PANDEMÔNIO E PANDEMIA

Nunca pretendi ser profeta nem vaticinar e, nas raras vezes em que "li" as linhas da mão, inventei a esmo, só para alegrar. Sete dias atrás, porém, alertei aqui para o perigo de o caos em torno da pandemia ampliar-se por si só, criando pânico.

Agora, estamos chegando perto disso, tal qual ocorre no modelar Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, no qual a dificuldade já não é salvar vidas, mas - sim - onde colocar os mortos por covid-19. O necrotério está repleto e os cadáveres passaram a ser guardados em contêineres refrigerados, normalmente utilizados para frangos e outras carnes de cozinha.

Serão essas as nossas "novas façanhas" apregoadas na propaganda do governo estadual? Ou isto busca, apenas, preparar-nos para a morte, não para a vida em si?

De outra forma, repete-se na capital gaúcha a tragédia de Manaus, no distante Amazonas. Lá, as mortes pela peste criaram o que foi chamado de "crise de sepultamento", pois faltaram coveiros para cavar sepulturas.

Aqui, o primeiro ato do prefeito Sebastião Melo foi adquirir cloroquina para remediar a peste. Ignorou as advertências da medicina (de usar cloroquina só em casos de malária) e preferiu guiar-se pelo improvisado médico-charlatão instalado no Palácio do Planalto. Com isto, expôs a população ao horror.

A vereadora Comandante Nádia, vice-líder do governo da Capital, acusa os críticos do uso da cloroquina, de "obstruírem o tratamento da pandemia", invertendo as conclusões da própria ciência médica. No final de 2020, prefeito e secretários municipais receberam Bolsonaro na ponte do Guaíba, acintosamente sem máscaras. O absurdo completou-se, dias atrás, com o secretário municipal da Saúde afirmando que "o pior já passou".

Por tudo isso, nossa capital já não tem as cores farroupilhas e, agora, é "bandeira preta" ou "vermelha", indicando o horror. Ou o pandemônio na pandemia retratado nos contêineres refrigerados, cheios de cadáveres.

Pandemônio é um neologismo criado pelo poeta inglês John Milton no século 17, para significar "a capital do Inferno" ou "o palácio de Satã" e, modernamente, tem o sentido de tumulto, balbúrdia ou confusão.

Agora, o presidente Bolsonaro reuniu todas essas acepções negativas para apregoar que a máscara antipandemia provoca efeitos colaterais, como irritabilidade, difícil concentração, recusa de ir à escola, vertigem e desânimo, além de "diminuir a percepção de felicidade".

É o pandemônio inundando a pandemia.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

06 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

UM ANO DE PANDEMIA NO RS

Na próxima quarta-feira, completa um ano o primeiro caso do novo coronavírus no Rio Grande do Sul. Esta trágica efeméride, exatamente nos dias em que o Estado vive o período mais crítico da pandemia, abre a oportunidade para um balanço e uma série de reflexões sobre como a sociedade e o poder público reagiram a esse episódio, que ficará marcado para sempre na história do mundo.

É inevitável admitir o fracasso na contenção dos contágios, embora não seja um insucesso restrito ao Rio Grande do Sul, mas disseminado pelo país, pelo equivocado incentivo a uma divisão que criou a falsa dicotomia entre saúde e economia. Apesar de alertas e súplicas das autoridades responsáveis, não foi possível manter o distanciamento social nos níveis desejados, por uma profusão de razões, como negacionismo, a impossibilidade de isolamento da população que vive em condições precárias, a alta informalidade no trabalho e, por fim, o relaxamento e uma dose de egoísmo em aglomerações e festas clandestinas. O resultado não poderia ser pior: o Estado soma 13 mil mortes e foi inevitável reeditar restrições a atividades, com impacto negativo na economia.

Embora prevaleçam, não há apenas aspectos negativos a ressaltar. A pandemia desnudou ainda mais a desigualdade no país - e no Rio Grande do Sul -, mas ao mesmo tempo provocou o surgimento de uma onda irrefreável de solidariedade para amparar os mais necessitados que uniu empresas, entidades e cidadãos. Impelida pela necessidade, a tecnologia e a digitalização avançaram de forma poucas vezes vista em áreas como saúde, na própria economia e na educação, apesar de aqui, no ensino, também ter se formado um pesado passivo a ser recuperado. Graças ao esforço de um grande número de cientistas espalhados pelo planeta, o mundo ganhou uma série de vacinas contra a covid-19 em tempo recorde. São a esperança palpável para o fim deste pesadelo global que, infelizmente, hoje açoita de forma drástica o Rio Grande do Sul. É o facho de luz em meio às trevas.

Além da solidariedade, o Estado viu surgirem milhares de heróis anônimos. São os profissionais de áreas essenciais como segurança, transportes e outros serviços de utilidade pública, mas principalmente da área da saúde. Submetidos a desgastantes jornadas e à exaustão de um ano na trincheira dos hospitais, dedicam-se diuturnamente para salvar vidas. Algumas dessas pessoas em funções mais proeminentes, talvez em um futuro não tão distante, serão devidamente reconhecidas e receberão justas homenagens pela dedicação e desprendimento. Sabem estar do lado certo da História, ao contrário de outras lideranças que se notabilizaram por agir na contramão das orientações científicas e, indiferentes ao sofrimento alheio, um dia talvez tenham de acertar as contas com a Justiça.

Ficam lições como a necessidade de olhar mais para a ciência como instrumento de desenvolvimento e de precaução para outras calamidades que possam vir e a urgência de se combater a vergonhosa desigualdade, que no Rio Grande do Sul é um pouco menor em relação à média brasileira, mas mesmo assim atinge níveis inaceitáveis. Mesmo desgastada, é a política, com a pressão e a participação da sociedade, que tem de dar as respostas e implementá-las. Chegou a hora de os agentes públicos sensatos unirem esforços em busca de uma guinada na trajetória do Estado e do Brasil. Se não for agora, em meio a este marcante e traumático episódio da humanidade, será quando?


06 DE MARÇO DE 2021
MARCELO RECH

Quem está no comando?

A pandemia dividiu o mundo em três categorias. Há os países que controlaram o coronavírus, os que são controlados por ele e os que estão em transição entre os dois estágios. Entre os que controlaram, identificam-se desde a rica Austrália ao modesto Camboja. Na transição para o controle, estão, por exemplo, EUA, Portugal e Israel. Já na categoria dos controlados pelo vírus, desponta o Brasil.

O Brasil não está onde está por trapaça do destino. Chegamos ao epicentro da mais aguda tragédia da República muito pelo fato de o presidente governar, mas não liderar, o país em sua guerra mais traiçoeira. Lembremos: a heroica Força Expedicionária Brasileira perdeu 457 pracinhas nos campos da Itália da Segunda Guerra, menos do que uma noite de homens e mulheres tombados pelo coronavírus em hospitais e nas filas de UTI do Brasil de março de 2021.

A liderança é um dom que está presente ou aflora em momentos decisivos. Churchill salvou sua pequena ilha da sanha nazista não pelo mero repasse de impostos britânicos para distritos e condados, mas pela força inspiradora que levou o Reino Unido a resistir, enfrentar e vencer o inimigo. Esperar algo parecido de Jair Bolsonaro seria injusto com ele. A tarefa de mobilizar o Brasil em sua mais devastadora guerra sanitária, social e econômica vai muito além de sua capacidade e senso de liderança, que até a Presidência só haviam sido testados em uma indisciplinada carreira militar e na gestão de um gabinete de deputado.

Ao desdenhar das vacinas, sabotar o uso de máscaras, estimular aglomerações e não incentivar o distanciamento social, Bolsonaro abdicou de inspirar o Brasil e de combater o inimigo pela raiz. Vencer o coronavírus não é uma questão de gosto ideológico, como demonstra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, com quem Bolsonaro tem muitas afinidades, mas não a indispensável disposição de liderar a nação na sua hora mais grave.

Em liderança, não há vácuo. Na ausência dela, outros a ocupam. Em mais nenhum país se tem notícia de governadores e prefeitos se unindo para comprar vacinas diante da incúria do governo central. Ao anunciar finalmente acordos com outros fabricantes, mais uma vez o Planalto acordou no susto, embora siga propagando a fantasia de que o STF tenha atado suas ações. Falso. O que o STF fez foi impedir que, em seu delírio negacionista, Bolsonaro obrigasse Estados e municípios a seguir sua receita de menosprezo ao inimigo.

Esse cardápio vem sendo explicitado ao país em desabafos de Bolsonaro a apoiadores. "Brasileiro pula em esgoto e não acontece nada", "Gripezinha", "País de maricas", "E daí? Quer que eu faça o quê?". É simples. De um líder numa guerra se espera que lidere - ou então deixe a tarefa para outros mais capazes.

MARCELO RECH

06 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

A flor no ombro do Buda

Mistérios, mistérios...um deles se apresentou botanicamente na área aberta do meu apartamento. A primavera engatinhava quando notei um ramo de planta crescendo na direção do Buda sentado sobre um pequeno estrado de madeira.

O Buda foi trazido da Índia. Para mim, não chega a ser um símbolo religioso, mas vai muito além de uma peça de decoração. Perdão, não é esse o meu relato.

O ramo veio crescendo e, na sua ponta, formou-se um botão. Que virou flor, dois dias depois. Uau, pensei, quando vi as pétalas brancas manchadas de roxo, exatamente sobre o ombro da pequena estátua. Tive certeza de que havia ali uma mensagem, um ensinamento. A flor no ombro do Buda. Na pior das hipóteses, é um baita nome de livro de autoajuda. Só falta agora escrever.

Mas aí a flor murchou, secou, morreu. E a vida seguiu. Uma semana depois, notei que um segundo ramo se esticava na mesma direção do anterior. Passados dois dias, pela manhã, uma outra flor nasceu. No mesmo lugar. Definitivamente, o cosmo tentava me mostrar alguma coisa, só que eu não entendia.

A história poderia terminar aqui, se não houvessem se sucedido pelo menos mais nove flores. No ombro esquerdo do Buda. Foi só ali que elas nasceram desse jeito, em série. Cheguei a comentar com um amigo budista. Mas os budistas que conheço não são definitivos, porque entendem de impermanência e sabem das conexões insondáveis do universo. Agora, com o verão chegando ao fim, pensei que tinha terminado. Semana passada, uma outra flor nasceu ali. No ombro do Buda. E nada de eu encontrar uma resposta. Talvez porque, me dei conta agora, a resposta pouco importe. As flores do ombro do Buda estão me ensinando, de forma suave e luminosa, sobre a beleza da pergunta.

TULIO MILMAN

06 DE MARÇO DE 2021
J.R. GUZZO

PIB de 2021 pode piorar

Chegou a primeira conta - ou melhor, chegou o primeiro demonstrativo numérico, pois a conta já está sendo paga há muito tempo - do prejuízo que o país teve com o fechamento da economia e a destruição de postos de trabalho em 2020, por conta da covid-19. O PIB brasileiro caiu 4,1% em 2020 - uma pancada para ninguém botar defeito, a maior desde há muito tempo. É verdade que Dilma Rousseff, sem epidemia nenhuma, conseguiu não ficar longe disso, com a sua recessão dupla de 2015 e 2016, mas aí não vale; Dilma é uma calamidade por si própria, e não permite comparações. Em suma: 2020 foi um desastre para o Brasil e para os brasileiros.

Recessões, naturalmente, valem pelos seus efeitos práticos - a devastação causada por esta queda de 4% está aí, à vista de todos, e os sofrimentos que trouxe são aqueles que todos podem constatar olhando à sua volta. São os empregos perdidos, os negócios fechados, os investimentos que foram para o lixo e por aí afora. Mas, para serem melhor entendidas, certamente ajuda comparar as recessões do país A ou B com as do país C ou D. É aí que se tem uma ideia mais precisa do que aconteceu.

Nessas comparações com o resto do mundo, o Brasil não está nada mal - quer dizer, está horrível, mas tem muita gente boa que está muito, ou muitíssimo pior. No mesmo ano de 2020, a Itália, por exemplo, teve uma queda de 9% na sua economia, mais do que o dobro do recuo brasileiro. A Inglaterra caiu 10%. Na Espanha foram 11%. É certo que são economias muito mais ricas do que a do Brasil e que, assim sendo, suas populações sofrem bem menos com a recessão. Mas não há como dizer que estamos sozinhos nesta desgraça.

A questão, agora, é 2021. Pelo pânico descontrolado das "autoridades locais", que se lançam de novo a medidas extremas de fechamento da sociedade, o ano não promete nada de bom. A recessão de 2020, como se pode constatar pela aritmética, foi inútil. Em troca de milhões de empregos destruídos, e um aumento inédito nos índices de miséria, ignorância e desigualdade, tudo o que se conseguiu foram quase 260 mil mortos, de acordo com os números divulgados pelo Ministério da Saúde, e o colapso do sistema hospitalar gerido por governadores e prefeitos.

Pelo jeito, a maioria deles está querendo mais. Quem sabe, para dobrar a meta, uma recessão de 8% em 2021? Muito país sério já conseguiu mais do que isso.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO*

sexta-feira, 5 de março de 2021


05 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Por que amamos os bichos

Sei qual é a razão da popularidade dos bichos de estimação, esses agora chamados de "pets". Eu inclusive, pelo mesmo motivo que exporei adiante, sinto apreço por cães e gatos, animais que só sobrevivem em companhia de humanos, e também por outros tantos que já tive, como duas desanimadas tartarugas, que mantinha na casa do meu avô, meu garboso galo branco Alfredo, que foi parar na panela assassina da minha mãe, minha amada codorninha Matilde, que me seguia por toda parte, feito um cachorro, e ainda diversos passarinhos, entre eles pintassilgos, canários, caturritas e periquitos, uns, voejando livres pela casa, outros lamentavelmente presos, erro que hoje não cometeria, hoje não prendo passarinhos.

Pois bem.

Pergunto: por que prezamos tanto a companhia dos bichos?

Respondo: porque eles não falam.

Essa é a grande vantagem dos animais sobre os tristes macacos pelados que somos nós. Podemos fazer ou dizer qualquer coisa, os animais não verbalizam aprovação nem censura. No máximo eles latem ou miam ou zurram ou mugem, talvez crocitem, como o corvo, ou blaterem, como o dromedário, talvez. E, se no céu azul-escuro houver lua cheia, os lobos uivarão, os sapos coaxarão e as raposas, para a sua surpresa, regougarão, que raposas regougam. Só quem poderá dizer algo compreensível na língua de Camões e Ísis Valverde é o papagaio, mas ele apenas repetirá o que já lhe foi ensinado, não haverá conteúdo na sua manifestação, tão somente forma.

Agora, imagine se não fosse assim. Imagine se seu vira-lata Piloto começasse a proclamar "Mito! Mito!", e receitasse cloroquina para tratamento contra a covid, e dissesse que a mídia aterroriza a população para quebrar a economia. Imagine ainda que a cachorra do seu vizinho, uma ruidosa lulu da Pomerânia chamada "Vida", passasse o dia repetindo "Lula lá!" e se queixasse do golpe contra a presidenta e prometesse morder o Moro e o Dalagnol.

Imagine. Vida e Piloto não seriam tão amados, é provável até que fossem odiados, pelo menos por uma parcela da vizinhança.

Vida e Piloto, no entanto, nem precisariam se expressar sobre política para receber desaprovação humana. Quaisquer opiniões seriam mal recebidas. Você comete um erro, seja qual for, e o Piloto comenta:

- Mas é mesmo um animal... Você suspira: cachorro chato... E pensa que, se o mandar embora, ele vai sair falando mal de você por toda a cidade.

Porém, para a nossa suprema felicidade, os bichos não falam. Eu, sabedor que sou do valor desse predicado deles, vou mais adiante: meus seres vivos preferidos, neste planeta azul, são as árvores. Majestosas, elegantes, úteis e, sobretudo, silenciosas árvores. Eu as amo.

Os problemas desse mundo se concentram nos seres falantes. Os humanos. Que, com as redes sociais, se tornaram ainda mais falantes. As pessoas sentem uma inexplicável ânsia de se expressar e correm para postar textos, e tomam de seus celulares e gravam vídeos ou áudios, e olham para a câmera e levantam uma sobrancelha e iniciam o que julgam ser um comentário inteligente: "Hoje eu estava fazendo uma reflexão..."

Eu tento não ouvir. Não quero conhecer a opinião daquela pessoa, quero manter sua imagem intacta, como se ela fosse um garboso cavalo ou um fiel cão. Mas é inútil, as opiniões vazam pelos bueiros da internet afora e a gente acaba sabendo o que os outros pensam. É terrível. O cérebro alheio é um lugar sombrio. Antes, só uns poucos inditosos, como nós, jornalistas, estávamos expostos à nossa própria tolice. Agora, todos podem ser parvos em público, e sem ganhar um centavo por isso.

Os animais, não. Os animais entendem que o silêncio é uma bênção. Então, eles nos ouvem e, sabiamente, se calam. Podem até balir ou grasnar ou zoar ou estridular, mas jamais nos deixarão conhecer suas opiniões. Eles nos encaram, às vezes com aparência inexpressiva, às vezes até com simpatia, e nada dizem. Mas, por dentro, talvez estejam rindo.

DAVID COIMBRA

05 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A FORÇA DO CAMPO

A divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2020, na quarta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou outra vez a agropecuária como um grande esteio da economia nacional. As atividades da porteira para dentro das propriedades rurais cresceram 2% em relação a 2019, enquanto os outros dois grandes setores, indústria e serviços, caíram 3,5% e 4,5%, respectivamente. Ou seja, o campo impediu uma retração ainda maior do PIB do Brasil no ano passado. Em meio à profusão de desafios impostos pela pandemia, é mais um resultado excepcional de um segmento que, de forma recorrente, tem ajudado a puxar para cima os negócios e a geração de emprego e renda nos anos em que há crescimento da economia e, nos períodos ruins, impede quedas maiores.

Os efeitos positivos do desempenho da agricultura e da pecuária, é preciso ressaltar, se disseminam por outros elos da cadeia do agronegócio. Quando o campo vai bem, o que tem sido uma regra, carrega junto uma variada gama de atividades industriais, de serviços e do comércio, principalmente nas regiões fortemente vinculadas à produção primária, como grande parte do Rio Grande do Sul. As exportações especialmente de soja e de carne, da mesma forma, vêm garantindo substanciais superávits comerciais, contribuindo para o ingresso de divisas e a saúde das contas externas no país.

Ao longo de 2020, o campo foi ajudado por uma série de fatores. Além de não parar mesmo nos períodos de maiores restrições relacionadas à pandemia, tirou proveito da grande demanda internacional por grãos e proteína animal, especialmente da China. No caso do Rio Grande do Sul, a seca levou a uma quebra significativa na colheita da soja, principal lavoura do Estado, mas fatores como mudanças de hábitos alimentares da população durante os dias de maior isolamento social e o pagamento do auxílio emergencial deram importante fôlego para os produtores de arroz. O início de 2021 é promissor tanto em nível nacional quanto no Estado. Para os produtores gaúchos, as perspectivas positivas vêm da manutenção dos preços altos e das condições climáticas bem melhores em relação às observadas no último verão. Neste ano, portanto, a agropecuária tende a alavancar também a recuperação do PIB do Rio Grande do Sul.

O agronegócio, que inclui a agropecuária e atividades diretamente vinculadas a ela, é sem dúvida o setor em que o Brasil é mais competitivo internacionalmente. Com uma constante incorporação de tecnologia e o trabalho dedicado dos homens e mulheres do campo, tem ainda grande capacidade de elevar a produção por aumento de rendimento, sem precisar de desflorestamento. Tamanha potencialidade, por óbvio, vez por outra gera reações protecionistas. Por sua importância estratégica, precisa ter cuidados especiais com o ambiente, como já faz a grande maioria dos produtores, a exemplo dos do Rio Grande do Sul, para evitar que práticas criminosas como as observadas em algumas regiões da Amazônia manchem a reputação da agricultura e da pecuária responsáveis, gerem boicotes e prejudiquem negócios. Produzir protegendo a natureza, com sustentabilidade, é e será cada vez mais um diferencial, com ganhos para o Brasil e para o mundo.


05 DE MARÇO DE 2021
DIÁRIOS DO MUNDO

O Brasil da covid-19 ameaça o mundo

O descontrole da pandemia no Brasil é o golpe de misericórdia na imagem do país, já deteriorada, na arena internacional, pela diplomacia errática que contraria as tradições da Casa Rio Branco, pelos incêndios na Amazônia, e pela postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro demonstrada em momentos anteriores de pico da covid-19.

Enquanto nações da Europa começam a sair do lockdown, à medida que a vacinação avança, e os Estados Unidos reabrem a economia, também graças à evolução da imunização, o Brasil vê a curva em ascensão de infecções e mortes e, como um avião desgovernado, mergulha no atoleiro das incertezas.

Nesses dois anos em que o Brasil foi se isolando do mundo em parte graças a uma fidelidade automática à Casa Branca de Donald Trump, o país comprou briga com parceiros de negócio e aliados históricos, colocando em risco relações comerciais com países islâmicos e com a China e elevando a ideologia acima dos interesses nacionais.

O olhar assombrado do mundo para o Brasil não é de hoje. Na história recente, começou com aquela que foi uma das mais emblemáticas capas da revista The Economist, em que o Cristo Redentor aparecia como um foguete em queda livre ("O Brasil estragou tudo?" era a manchete). Apesar de o impeachment de Dilma Rousseff ainda não estar no radar àquela altura, a Economist já via sinais de perigo no Brasil, citando as manifestações contra o governo e os escândalos da Lava-Jato. A imagem era uma referência a outra capa, de 2009, em que o monumento icônico fora transformado em uma nave em ascensão ("Brasil decola" era o título).

No auge dos incêndios na Amazônia, assunto mais imagético como notícia do que os sinais de decadência política e econômica, o retrato do país voltou a se deteriorar. O fogo na floresta estampou as capas de dezenas de jornais e portais internacionais. Reativo como de costume, Bolsonaro atacou a imprensa e ONGs, culpou o "globalismo", apelou ao nacionalismo com cheiro de mofo da época da ditadura - "A Amazônia é nossa" - para acusar líderes internacionais de tentativa de ingerência interna. Como argumento não é sua especialidade, o presidente apelou para xingamentos pessoais e sexismo, como contra a primeira-dama da França, Brigitte, esposa do presidente Emmanuel Macron.

O descalabro brasileiro diante do coronavírus já havia se tornado notícia internacional em 2020, por conta da demissão de dois ministros da Saúde no auge da primeira onda e enquanto corpos eram depositados em valas em Manaus. Agora, seria apenas mais um grave e repetido drama interno, a ser observado e lamentado de longe pelos governos mundo afora.

Mas não é só isso. Hoje, o Brasil coloca em risco todos os esforços que outros países fizeram até agora, nesse quase um ano de pandemia - a ser lembrado daqui a sete dias, em 11 de março, quando, 365 dias antes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou crise global.

O Brasil é um risco ao planeta porque a transmissão descontrolada do coronavírus pode fazer o país celeiro de variantes - que não só podem comprometer a eficiência da vacina (algo ainda em estudo) como ultrapassar fronteiras, voltar a contaminar populações, obrigar a novos lockdowns, colocando em novos riscos as economias - em círculo vicioso.

Problemas como uma crise sanitária ou uma floresta que arde e polui transcendem os recortes territoriais que os políticos um dia passaram a chamar de fronteiras. A Amazônia é um assunto do Brasil e do mundo. O vírus descontrolado por aqui e suas mutações, como atestam cientistas em dois dos mais influentes jornais do mundo, The New York Times e The Guardian, é problema nosso, mas transborda para o planeta.

RODRIGO LOPES

05 DE MARÇO DE 2021
EDUARDO BUENO

Meu avô e a Espanhola

Meu avô se chamava Augusto. Era uma pessoa, bem, uma pessoa augusta - e olímpica também (embora tivesse sido antes assíduo frequentador da Baixada). Augusto nasceu em Porto Alegre, em abril de 1900 - "ele acompanha o século", dizia minha mãe, cada vez que o velho aniversariava. E nasceu em casa, na esquina da rua dos Moinhos de Vento (hoje 24 de Outubro) com a Praça Júlio de Castilhos. Quando tinha 12 anos, morreu-lhe o pai, cujo nome agora me escapa. Mas sei que meu pobre bisavô tinha tenros 33 anos ao partir desta para pior. Mas pobre mesmo foi minha bisavó: os cunhados tomaram tudo da viúva. E assim, desamparada e sem teto, minha bisa alistou meu avô na Marinha, em 1913, como grumete.

Estudei sobre os grumetes - e os porretes e desgraças que recaíam sobre eles nas naus do século 16. Meus favoritos foram os cinco que desertaram da frota de Cabral e se deixaram ficar na Terra de Vera Cruz, "pelos dulcíssimos frutos que ela tem". Meu avô também teve porretadas e desgraças, mas não desertou. Tanto é que, aos 17 anos, viu-se envolvido numa guerra mundial. Sim, em outubro de 1917, o Brasil declarou guerra à Alemanha e, em janeiro de 1918, constituiu a sua Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG), composta por dois cruzadores e quatro contratorpedeiros. Augusto fazia parte da tripulação do cruzador Rio Grande do Sul. E a bordo dele zarpou em maio rumo a Dacar, no Senegal.

Após certas peripécias e alguns vexames que passaram para a História, a esquadra fundeou em Dacar a 25 de agosto de 1918. E lá, em uma semana, 464 marinheiros morreram - mas não vítimas da guerra. Foram mortos pela gripe espanhola. Meu avô sempre nos contava essa história. Ela era verdadeira, mas ele era um fabulador e, como os netos, ao invés de incomodar, acomodavam-se para ouvir o conto, ele ia aumentando um ponto. À certa altura - ele narrou a história por anos a fio -, os únicos sobreviventes do cruzador viraram ele e (por motivos óbvios) o cozinheiro. Só que, ao desembarcarem no Rio, em maio de 1919, meu avô e o mestre-cuca não encontraram paz: a cidade debatia-se contra o mesmo e insidioso inimigo, a bailarina da morte, a maldita Espanhola.

"Mas sabe que tinha gente que não acreditava?", dizia Augusto. E a gente: "Que só tu e o cozinheiro tinham trazido o navio de volta para a casa?". E ele: "Não, claro que não! Quem iria duvidar disso? Não acreditavam na gripe! Não queriam usar máscara! Tomavam remédios que não serviam para nada. E eu tinha visto Dacar inteira ir parar no hospital ou no cemitério".

Para nós era mais fácil acreditar que meu avô havia comandado um cruzador sozinho do que numa gripe que pudesse matar. Mas as coisas mudam e as pessoas evoluem. Quer dizer, nem todas. E o pior é que os retardados põem em risco a esquadra inteira.

EDUARDO BUENO

05 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Bolsonaro e a contaminação das Forças Armadas

Quando o governo de Michel Temer mal engatinhava, fui dos primeiros jornalistas brasileiros a alertar para o crescimento da influência das Forças Armadas na política brasileira. Na época, esse era um fenômeno ainda oculto, restrito aos bastidores do poder.

Fui questionado e acusado de conspirador. De fato, apenas cumpria com o meu dever de informar e de analisar. Eu tinha informações confiáveis de Brasília e por isso não tive dúvidas ao afirmar que o impeachment de Dilma Rousseff teve o aval dos principais generais brasileiros e que inaugurava-se ali uma nova era, verde-oliva por dentro, traje e gravata por fora. Os contornos exatos desse novo teatro de operações seriam definidos depois.

Um país com autoridade esfacelada recebeu de braços abertos um ex-capitão obscuro, chamado de "mau militar" pelo ex-presidente Ernesto Geisel. Com Bolsonaro, generais e coronéis, a imensa maioria já na reserva, saíram dos bastidores para ocupar o centro dos holofotes, em postos-chave da nação. Mas, mantendo antes de seus nomes, suas patentes militares.

Há uma diferença entre a existência de militares no poder e o exercício de um poder militar. Mesmo que, institucionalmente, as Forças Armadas não façam parte do governo, a presença de seus integrantes em altos cargos políticos acaba impactando no governo e na percepção dos brasileiros. E isso, em uma perspectiva institucional de perenidade, não é bom para o Exército, para a Marinha e para a Aeronáutica, que cumprem de forma exemplar, desde a redemocratização, o seu papel constitucional, depois do gigantesco desgaste gerado pela repressão protagonizada pelo regime militar inaugurado em 1964.

Agora, a mesma armadilha parece ter funcionado de novo. A repulsa à esquerda empurrou os militares para um palco que não é deles - o das artimanhas, negociações, conchavos e disputas de poder, que no mundo civil são bem mais complexas do que a dicotomia amigo-inimigo. Outra consequência inexorável dessa dinâmica é o contrabando de debates políticos em temperatura mais elevada para dentro dos quarteis, onde sempre houve pontos de vista diferentes, mas que invariavelmente se amalgamavam de forma sólida e monolítica, modulados pela disciplina e pela hierarquia. Seria um erro falar em cisão, mas também seria não mencionar, em 2021, a palavra divisão.

Foram anos recuperando a imagem arranhada pela tortura e pelos exageros dos anos de chumbo. O surgimento de uma nova geração de oficiais democratas e altamente capacitados permitia afirmar que a vacina tinha funcionado. Mas faltou a segunda dose. Hoje, um general está à frente do Ministério da Saúde durante o maior fiasco sanitário da história do Brasil, que tem filas nas UTIs e mortos empilhados nos cemitérios, vítimas, em boa parte, de um presidente negacionista e de comportamento errático. Uma conta alta, dolorida e cruel, que será cobrada para sempre "dos militares", numerosos integrantes de um governo que, certamente, será julgado pela História.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 4 de março de 2021


04 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

Agora é a hora de sentir medo

Sócrates era um chato. Isso ele próprio admitia, tanto que se definia como um "moscardo", que nada mais é do que um moscão, e não na acepção brasileira, de pessoa distraída, meio abobada, e sim no conceito biológico, de ser uma mosca grande, daquelas que pousa no seu braço e você espanta e ela foge voando por dois metros e retorna e você espanta de novo e de novo ela faz que vai embora, mas volta, e outra vez você espanta e outra vez ela desvia do tapa, faz um voo irregular e retorna. Não tem bicho mais chato do que a mosca.

Sócrates era assim profissionalmente. Tratava-se de seu método filosófico. Ele saía pelas ruas de Atenas e, quando encontrava um conhecido, o detinha:

- Polidoro, my friend, vamos conversar. Tenho cá uma dúvida, diga-me: o que é a coragem?

Polidoro, pego de surpresa, balbuciava:

- Bem... coragem é não sentir medo.

- Hmmm - ponderava Sócrates. - E se um leão faminto vier em sua direção e você sentir medo, isso significa que você é covarde?

Polidoro imaginava a situação e admitia:

- Não, não. Seria normal que eu sentisse medo...

- Então, o que é coragem?

- Enfrentar o medo!

- Isso significa que um homem corajoso enfrentaria o leão faminto, mesmo se tivesse possibilidade de fuga?

- Não, não. Aí ele seria estúpido!

- Então, o que é coragem?

Sócrates ficava cercando o interlocutor com perguntas, desbastando o conceito que queria definir, até que, por meio dessa espécie de raciocínio induzido e conduzido, alcançava o mais próximo da verdade buscada.

Suponho que os atenienses, quando vissem o velho filósofo se aproximando, debandassem:

- Lá vem aquela mala do Sócrates!

Pensei em Sócrates não por causa de Sócrates, e sim por causa desse exemplo que gosto de usar para falar da forma como ele escrutinava o cérebro humano. Pois é interessante a confusão que as pessoas fazem entre coragem e ausência de medo. Não levar o medo em consideração, muitas vezes, é burrice. O medo é um sinal de alerta: cuidado, há um perigo ali adiante. Tome precauções!

Lembro agora de quando morava em Criciúma. Meu apartamento, que dividia com o Plisnou e a Nádia Couto, era o 1001, no décimo andar do edifício Visconde de Ouro Preto. Um dia, cheguei em casa e deparei com uma amiga nossa sentada no parapeito da janela. As pernas dela balançavam para o quarto em que estavam a Nádia e o Plisnou, e as costas davam para o oxigênio que pairava à altura do décimo andar, nada mais havendo entre elas e o térreo. A cena primeiro me deixou congelado. Depois, me aproximei com calma e disse com mais calma ainda, baixinho, para não assustar a moça:

- Desce daí agora, por favor...

Ela sorriu, possivelmente achando que era brincadeira minha. Repeti com gentil firmeza:

- Agora! Ela desceu. Então, soltei o ar que estava represado em meus pulmões e rosnei, entre dentes: - Se tu quiser te matar, sobre pro décimo primeiro, mas não vai fazer isso aqui de casa!

Ela rebateu: - Eu não tenho medo. E eu, ainda furioso:

- Não é caso de ter medo. É caso de ter inteligência. Alguém pode achar que exagerei, mas penso que não. Aquela pequena imprudência juvenil poderia trazer graves consequências. Não sentir medo, portanto, pode ser bem ruim em determinadas circunstâncias. Uma dessas é a nossa atual.

Negacionistas dizem que a imprensa e os médicos querem amedrontar a população. Estão certos! A população precisa sentir medo da covid, neste sombrio mês de março, que pode vir a ser o pior mês da nossa história. Porque só o medo fará com que as pessoas se previnam, só o medo fará com que tomem cuidado.

Sintam medo, irmãos brasileiros, sintam muito medo! Nada de se sentar na janela do décimo andar, nada de enfrentar o leão. Essa é a hora da prudência. Essa é a hora em que medo é sinônimo de inteligência.

DAVID COIMBRA

04 DE MARÇO DE 2021
ARTIGOS

A IMAGEM E AS MIL PALAVRAS 

A mídia brasileira pode contribuir mais para o combate à pandemia. É verdade que grande parte tem apelado para que a população evite aglomeração e use máscara. São de fato as únicas armas enquanto a vacina não chega. Escrevo dos Estados Unidos, onde a imprensa não tem pudor em exibir cenas de pessoas doentes, entubadas ou até mortas. As fotos são chocantes sim, porém transmitem a correta e necessária percepção de gravidade.

Fiquei muito impactado quando comecei a ver as imagens por aqui e, confesso, passei a ter muito mais respeito (medo) pelo vírus. Observei a mesma reação nos grupos de WhatsApp para os quais enviei as imagens. Uma delas mostrava, em detalhes, a terrível condição e o sofrimento de um paciente entubado. A outra, era dos pés de uma mulher com as unhas pintadas de vermelho e uma etiqueta entre os seus dedos. Os tamancos coloridos ao lado dos pés da mulher, no necrotério, passavam duas mensagens subliminares: tratava-se de uma pessoa relativamente jovem e que não pôde ter contato com seus familiares antes de partir, pois seus pertences ainda estavam ali. Muito forte!

Não prego o sensacionalismo midiático, e sim uma forma mais eficaz de comunicar o perigo. O inimigo é feroz e, com a vacinação lenta, os cuidados pessoais são fundamentais. Aos negacionistas, que alegam que a mortalidade da covid-19 não é maior do que outras moléstias infecciosas, lembro o óbvio: os hospitais estão abarrotados, as pessoas estão morrendo não somente nas mãos dos médicos e longe da família, mas também por não terem a possibilidade de atendimento. Isso sem falar nos pacientes de outras enfermidades que sofrem com a falta leitos, o atraso em diagnósticos e a interrupção de tratamentos.

Apesar de não pertencer a nenhum grupo de risco e estar em ótima forma física, passei uma semana internado com 30% de comprometimento pulmonar. Atesto que não é uma "gripezinha" e nem está restrita aos idosos?

Portanto, faço este apelo a todos os jornalistas e editores. Sejam explícitos! Não tenham pudor em mostrar as entranhas dessa doença. As pessoas precisam ser fortemente impactadas, pois seguem aglomerando-se irresponsavelmente. Falar e escrever não basta, tem que mostrar, explicitar. Afinal, não é de hoje que sabemos que uma imagem vale bem mais do que mil palavras!

FERNANDO GOLDSZTEIN


04 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

O BRASIL AOS OLHOS DO MUNDO

As falhas no combate à pandemia no país começam a causar uma inquietação mundial. Reportagens publicadas ontem nos jornais The New York Times, dos EUA, e no The Guardian, do Reino Unido, apontam a preocupação de cientistas com a circulação desenfreada do vírus da covid-19 no território nacional. Essa difusão descontrolada cria condições ideais para o surgimento de novas variantes potencialmente mais contagiosas e agressivas, que ofereçam maior risco de reinfecções e possam fazer com que as vacinas hoje disponíveis não tenham a mesma eficácia. Tornando- se uma espécie de berçário de cepas, alertam os especialistas, o Brasil pode acabar comprometendo os esforços da maior parte das nações para controlar a pandemia. Em resumo, a percepção é, cada vez mais, a de que o país está sendo elevado à categoria de ameaça global. É premente uma reação coordenada das autoridades responsáveis e de lideranças conectadas com a realidade para contornar essa situa- ção calamitosa com medidas racionais.

Com recordes de mortes e hospitais em colapso, o país vê a sua campanha de vacinação claudicar, sem a certeza de que será possível imunizar a população em um prazo razoável. O vírus, pelo contrário, se dissemina de maneira veloz. Enquanto especialistas da área de saúde advertem exaustivamente sobre as ações necessárias para deter o agente infeccioso e a maior parte dos governadores e prefeitos tenta implementar medidas para frear contágios, o presidente da República age no sentido inverso. Além do atraso na compra de vacinas, Jair Bolsonaro insiste na postura danosa de lançar desconfiança sobre vacinas, de desestimular o uso de máscara e de promover aglomerações. É tudo do que a dinâmica de multiplicação do vírus precisa.

A variante identificada em Manaus já se mostrou até 2,2 vezes mais contagiosa e faz os enfermos terem carga viral até 10 vezes maior, elevando as preocupações com uma aceleração ainda maior das mortes. É uma escalada fatal inclusive para a economia, diante da obrigatoriedade de restrições para tentar minimizar a mobilidade e o morticínio.

O outrora simpático Brasil, que há não muito conseguia ser influente com o seu soft power, virou um pária global. O desdém com a questão ambiental já vinha, nos últimos dois anos, aumentando a censura mundial. Com a troca de governo nos EUA, que faz aposta pesada na vacinação, o Brasil fica mais isolado no mapa-múndi negando a gravidade da pandemia.

O desgaste de imagem tem o potencial de prejudicar ainda mais a economia brasileira, com possíveis sanções que atinjam o agronegócio e demais produtos e serviços nacionais. O fluxo de investimentos estrangeiros no país também fica ameaçado, postergando outra vez as chances de retomada do desenvolvimento e realimentando o ciclo de baixíssimo crescimento observado na última década. Tornar-se um perigo sanitário internacional por decisões políticas equivocadas só piora a situação. Não será fácil desfazer os estragos, que já são palpáveis. Mas é inadiável que a sociedade, empresários, entidades da organização civil, forças políticas e população despertem do estado de torpor e reajam para evitar prejuízos ainda maiores ao Brasil, que chora um número inimaginável de mortes e vê crescerem as chances de ser cada vez mais marginalizado aos olhos do mundo. É premente uma reação coordenada das autoridades e de lideranças conectadas com a realidade para contornar esta situação calamitosa


04 DE MARÇO DE 2021
POLÍTICA +

Cautela com a promessa de ministério

Pressionado pelos governadores e prefeitos, o governo Jair Bolsonaro reagiu e o Ministério da Saúde anunciou a compra de vacinas da Pfizer e da Janssen. Trata-se de excelente notícia, se os contratos forem de fato assinados e o programa nacional de vacinação deslanchar neste primeiro semestre.

Como estão escaldados pelas idas e vindas do governo federal no enfrentamento à pandemia, prefeitos e governadores que planejavam compras diretas não devem se desmobilizar até ter certeza de que as doses virão.

Ao mesmo tempo em que comemora a possibilidade de o Brasil receber vacinas de mais dois laboratórios, o governador Eduardo Leite mantém a cautela:

- De parte do Rio Grande do Sul, o anúncio não nos desmobiliza. Vamos continuar buscando frentes que nos permitam antecipar a vacinação. Saudamos a disposição do Ministério da Saúde de fazer as aquisições, mas aguardamos a confirmação dessa compra e, principalmente o cronograma.

Leite diz que, se as vacinas só vierem no segundo semestre, será tarde diante do colapso dos hospitais e do crescimento no número de mortes:

- Mais do que comprar vacinas, precisamos de um cronograma que garanta a antecipação da imunização. Infelizmente, temos tido constantes frustrações com o Ministério da Saúde, o que nos deixa ansiosos e nos incomoda.

Pela manhã, Leite postou mensagem no grupo de governadores, sugerindo um esforço diplomático para conseguir mais vacinas.

Como até aqui o Itamaraty atrapalhou as negociações para a compra do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), insumo necessário à fabricação das vacinas, retardando o início da produção no Brasil, o apelo tende a funcionar como mais um instrumento de pressão sobre o governo federal, que agiu movido por dois motores: a política e a economia.

No campo político, o presidente percebeu que corria o risco de ser atropelado pelos governadores, com quem disputa protagonismo e entre os quais poderá estar o adversário de 2022.

No campo econômico, a pressão vem do próprio ministro Paulo Guedes, do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e dos empresários que clamam pela vacina como caminho único para a retomada das atividades econômicas.

"A vida não tem VAR", diz médico

Em entrevista ao Gaúcha Atualidade, ontem, o presidente do conselho de administração da Unimed Porto Alegre, Flávio da Costa Vieira, fez um desabafo sobre a situação da pandemia e o sofrimento dos médicos, enfermeiros e gestores hospitalares durante a pandemia:

- Ao invés de falar de culpa, vamos falar de responsabilidade. Os gestores públicos estão tomando as decisões. Certas ou erradas, o tempo vai mostrar. Na segunda-feira, eu estava falando com o governador e disse a ele que os gestores têm alguma coisa semelhante ao juiz de futebol. Tu apitas o fato, tu tomas a decisão no momento. Só que na vida real não tem VAR. O juiz de futebol volta atrás, olha e muda o curso da história. A gente, como gestor, toma uma decisão e não tem VAR. Ela está tomada. 

Os diretores de hospitais estão fazendo o que podem, realocando áreas, comprando equipamentos. Mas os médicos, os enfermeiros, os atendentes de enfermagem estão exauridos. Eu sei que me emociono ao falar disso, mas não tenho como ser diferente.

ROSANE DE OLIVEIRA

04 DE MARÇO DE 2021
L. F VERISSIMO

Detalhes, detalhes

Há momentos de grave introspecção em que um homem faz um inventário de si mesmo - seus sonhos, suas desilusões, suas possibilidades e onde diabo ele enfiou o chaveiro e o antiácido - e se faz perguntas. Valeu a pena? Devo continuar? Quem sou eu, e por que estou falando sozinho? Desta espécie de promontório filosófico, ele avista o caminho que já percorreu e o caminho que ainda precisa andar ou, se tiver sorte e aparecer um táxi, rodar.

O Brasil já teve várias oportunidades de, por assim dizer, afastar-se de si mesmo, examinar-se, decidir o que precisava ser feito, ajustar a gola da camisa e ir em frente. Falam que os nossos partidos políticos não significam nada como se isto fosse um grande defeito, e é uma das nossas vantagens sobre países mais ortodoxos e sem graça. Ou seria uma vantagem se fosse aproveitada. 

Nada está preestabelecido na nossa política, não temos compromisso com nenhuma forma de coerência, podemos ir inventando nosso destino no caminho. Mas nosso distanciamento crítico raramente leva à sabedoria. Nossos momentos de introspeção geram curiosidades - um maluco que foge da Presidência, um atleta que é corrido da Presidência, um torneiro mecânico que sucede a um sociólogo como se fosse a coisa mais natural - sem um mínimo de lógica ou fidelidade a princípios rígidos ou até a preconceitos claros.

Como o Brasil, também deveríamos nos reavaliar e nos reinventar, e praticar, a intervalos, uma espécie de escafandrismo interior para descobrir o que somos, o que fizemos e deixamos de fazer, como continuar, como parar e como votar - mesmo sabendo que só uma pequena parte do nosso destino é decidida por nós e que o acaso e a natureza decidem o resto. E devemos nos consolar com o seguinte pensamento: só um detalhe nos separa da fortuna e da solução de todos os nossos problemas. Foi a mãe do Bill Gates que teve o Bill Gates, não a nossa. E você acertar todos os números de uma Sena acumulada menos um, esse um é o detalhe. Esse um decide o seu destino.

O detalhe é como o vidro de um aquário.

Um vidro com poucos milímetros de espessura através do qual você vê claramente os peixes coloridos e as plantas exóticas do outro lado. Os milímetros do vidro do aquário separam dois mundos inteiramente diferentes. Só um detalhe parecido separa você de outra vida.

Luis Fernando Verissimo está em licença médica.

Esta coluna foi publicada originalmente em 29 de setembro de 2014

L.F. VERISSIMO