sábado, 6 de junho de 2020



06 DE JUNHO DE 2020
COM A PALAVRA - TODD CHAPMAN, embaixador dos EUA no Brasil, 58 anos

VEMOS NO BRASIL UM ALIADO NATURAL DOS ESTADOS UNIDOS

Diplomata de carreira no governo norte-americano desde os anos 1990, era embaixador no Equador antes de assumir o posto em Brasília, em março.

Maior autoridade do governo Donald Trump no Brasil, o embaixador Todd Chapman exibe no português perfeito sua proximidade com o país no qual morou, em diferentes momentos, por 11 anos. Chegou em 1974, ainda criança, depois que a empresa americana na qual seu pai trabalhava transferiu a família para São Paulo. Antes de ingressar no corpo diplomático, atuou na área financeira em Nova York e na Arábia Saudita e depois, como consultor no Brasil e em sua cidade natal, Houston, no Texas. Trabalhou na embaixada dos EUA em Cabul, no Afeganistão, e em Maputo, Moçambique, além de ocupar postos na Bolívia, na Costa Rica, na Nigéria e em Taiwan. Antes de voltar ao Brasil para assumir o cargo de embaixador no país, trabalhou entre 2011 e 2014 como vice-chefe da missão na representação em Brasília. Nesta entrevista, por videoconferência, fala sobre a crise racial nos EUA, o coronavírus e as perspectivas de alinhamento com o Brasil.

O SENHOR ESTÁ CHEGANDO DE VOLTA AO BRASIL DEPOIS DE SEIS ANOS. QUE MUDANÇAS PERCEBE ENTRE AQUELE PAÍS QUE O SENHOR DEIXOU E PARA O QUAL ESTÁ RETORNANDO?

Há vários períodos na minha vida em que morei no Brasil. Cheguei em 1974, quando tinha 11 anos. Claro, nesse tempo, houve uma transformação radical. Durante esses anos, fui ao Rio Grande do Sul com meus pais, fomos a Gramado, a Porto Alegre por um curto período, na década de 1970, e isso me marcou muito. Pensando entre 2011 e 2014, quando estive em Brasília, foi outro tempo, outro momento político. Lembro do início das manifestações sociais em 2013, na Avenida Paulista (em São Paulo), foi o começo de toda essa questão sobre corrupção. Agora, voltando, é um Brasil diferente, não há dúvidas. Não somente com relação à política, mas também na maneira como a economia está sendo transformada: tem mais Brasil no mundo, mais tecnologia, mais startups aqui, mais agroindústria. Esse é um Brasil bastante diferente, e acho que, para EUA e Brasil, é um momento de oportunidade e de otimismo do que podemos fazer.

O SENHOR É OTIMISTA COM RELAÇÃO A ESTE MOMENTO DAS RELAÇÕES ENTRE OS DOIS PAÍSES. QUANDO O GOVERNO NORTE-AMERICANO OLHA PARA O BRASIL HOJE, QUE IMAGEM VÊ?

Olhando o Brasil, desde Washington, o que vemos: é uma das 10 maiores economias do mundo, uma grande população, um país com uma tradição democrática, um irmão americano e uma força que está avançando nos princípios com os quais compartilhamos. Falo isso muito além da política, pensando nas liberdades de expressão, de imprensa, de associação, da importância do voto, de dizer o que você quer. Esses são princípios básicos fundamentais que existem na tradição dos EUA e do Brasil. 

Então, vemos um aliado natural. É tão bom que agora estamos nos aproximando mais e mais não somente na área política. Olhe os investimentos de empresas brasileiras, inclusive do Rio Grande do Sul, nos EUA. E também, claro, investimentos de décadas de empresas como General Motors, John Deere, no Rio Grande do Sul. Tem essa tradição. Vemos um aliado, mas acho que também vemos uma parceria que não é completamente otimizada. Nós podemos fazer muito mais juntos. Nosso fluxo de comércio é de US$ 105 bilhões. Com o México, é de mais de US$ 600 bilhões. E se trata de uma economia menor, mas com seis vezes mais (fluxo comercial). Por isso, digo que podemos duplicar nosso comércio em cinco anos, se tivermos acordos, entendimentos, essa fluidez de informação, baixando tarifas, regulamentos que restringem o setor privado. Por isso, sim, sou otimista. Mas otimista com razão.

SOBRE A QUESTÃO DA INTERNET 5G, EM ALGUM MOMENTO O BRASIL TERÁ DE DECIDIR SE VAI USAR A TECNOLOGIA DA CHINA OU SE FICARÁ AO LADO DOS EUA. ESSE SERÁ O PONTO DECISIVO PARA A APROXIMAÇÃO DOS DOIS PAÍSES?

Sempre quando seu país está avançando precisa avaliar várias questões: número 1, qual é meu interesse nacional? Um país tem de trabalhar pensando em seus interesses nacionais. Isso é primordial. Número 2: tem de pensar não somente no curto prazo, nos próximos três ou seis meses. É exatamente isso que é importante para o Brasil neste momento. E, nesse tema, como em outros, nós queremos compartilhar não somente nossa tecnologia e experiência, mas também nossa impressão quando observamos que há perigos para um aliado, um país irmão. Temos obrigação, como amigo, de alertar. Não estamos dizendo o que tem de fazer. Não vamos fazer isso, mas compartilhamos nossa preocupação e falamos da consequência. Isso não é ameaça, é para alertar. Um país como a China comunista tem uma lei, que é aberta, todos podem ver, que diz: qualquer empresa é obrigada a entregar toda a informação que passa por ela ao Partido Comunista e ao exército. Se você se preocupa com dados pessoais, sobre seus ativos de saúde, patentes, propriedade intelectual - e o Brasil produz muita propriedade intelectual -, você tem de fazer de tudo para se proteger. Por isso, alertamos. Nós já implementamos 5G com Nokia (finlandesa), com Ericsson (sueca), já há sucesso com essas empresas. E, quando os melhores e mais eficientes mercados e economias do mundo estão chegando a uma conclusão, é necessário prestar atenção. Por que o Japão? Por que a Austrália? Por que a Dinamarca? (Países que não usaram a tecnologia da chinesa Huawei.) Porque é real. Esse não é um assunto comercial. Essas nações têm os mesmos princípios que nós, que amamos a liberdade, a proteção da informação.

O SENHOR COSTUMA DIZER: VOCÊ PODE VENDER PARA QUEM NÃO CONCORDA, MAS NÃO SE VENDER. OS EUA PODEM RETALIAR O BRASIL SE CONTINUAR VENDENDO SOJA PARA A CHINA? O BRASIL PODE TER COMÉRCIO COM A CHINA E SEGUIR SE RELACIONANDO BEM COM OS EUA?

É claro que sim, porque nós vendemos mais para a China do que o Brasil vende. Vocês vão ter problemas conosco porque vedemos para a China? Posso fazer essa pergunta a você. Não. Não é o caso. Quem são os maiores produtores de soja? EUA e Brasil. Ótimo, fantástico, juntos podemos alimentar o mundo. É isso o que queremos fazer, com nossa tecnologia, com nossas empresas. Há brasileiros com grandes investimentos na agricultura na Flórida e em outras partes dos EUA. E aqui, quem são os maiores exportadores de soja? Cargill, Bunge, ADM, empresas norte-americanas. A cadeia de produção dos produtos agrícolas é integrada, e isso é fantástico. Vamos continuar com isso. Vamos alimentar o mundo juntos, porque somos os melhores do mundo.

FALANDO DE ESTADOS UNIDOS, O SENHOR ADMITE QUE A QUESTÃO RACIAL É UM PROBLEMA HISTÓRICO NÃO RESOLVIDO?

A sociedade norte-americana é multirracial, multiétnica. Somos um país de imigrantes que vieram legalmente aos EUA para recomeçar suas vidas desde Europa, Japão, desde muitos lugares. Há conflitos sociais. Não se pode negar isso. Mas estamos evoluindo como sociedade. A maneira como meus pais viram os temas do movimento de direitos civis, na década de 1950, é muito diferente de hoje. Estamos evoluindo, isso é importante. Mas ainda temos muito a fazer. Lamentavelmente, ainda há preconceito racial, que existe em muitas pessoas. 

Temos de, por meio da educação, do conhecimento, seguir evoluindo. Lembro que, quando morei na Filadélfia, cheguei a uma nova cidade, subúrbio da cidade, tinha 10 anos. Eu e outro menino, éramos os dois novos na região. Eu era branco como todos os outros, e ele era negro. Como acontece muitas vezes, os dois novos vão juntos. Ele foi meu melhor amigo em 1971, 1972. Pedi para minha mãe: "Posso levá-lo a minha casa?". "Sim, pode." Cheguei, brincamos de tudo. Adoro minha mãe, agora ela esta no céu, mas lembro que ela perguntou para mim: "Por que você não me contou que ele era negro?". Eu não pensei nisso. Mas olha a diferença de 1972 a 2020. Hoje isso seria diferente. Tem uma evolução nos entendimentos. Somos um país que continua a construir entendimentos e uma sociedade multirracial, sempre diminuindo os preconceitos. 

Vamos continuar trabalhando nisso. O ato pelo qual passou George Floyd é repugnante, é completamente um abuso, não só de direitos humanos, mas um ato criminoso, que agora será processado nos EUA. Mas também a morte de David Dorn, policial de 77 anos de Saint Louis, que foi morto, depois de mais de 30 anos como policial, agora aposentado, por alguns criminosos que estavam se aproveitando da situação para roubar lojas. Também é repugnante. Temos muito o que trabalhar nos EUA, e vamos continuar trabalhando. Ao mesmo tempo, como país multirracial, o Brasil também tem seus desafios na área. Temos todos de unir nossas forças para combater isso.

DESEMPREGO, PANDEMIA E VIOLÊNCIA NAS RUAS: OS EUA ESTÃO EM CRISE?

Eu diria que estamos passando por um momento difícil. Isso ninguém pode negar. Economicamente, está batendo fortemente. Mas, ao mesmo tempo, tenho muita confiança em nossa economia, a maior do mundo, capaz de se recuperar rapidamente. Como já estamos vendo, nossa bolsa de valores está subindo de novo. Tem um otimismo crescente de que nossa retomada econômica vai ser rápida. Acho que antes do final do ano vamos ver coisas voltando fortemente. Tenho muita confiança na solidez econômica, no espírito de empreendedorismo. Tanto dinheiro que estamos colocando em nossa economia, trilhões de dólares, como o Brasil, para sustentá-la durante este tempo de dificuldades, vai facilitar muito a recuperação da economia. Isso vai acontecer.

JAIR BOLSONARO E DONALD TRUMP TÊM ALGUMAS CARACTERÍSTICAS EM COMUM, ENTRE ELAS A BRIGA CONSTANTE COM A IMPRENSA. O SENHOR ESTÁ HÁ 30 ANOS NO SERVIÇO PÚBLICO E SABE A QUALIDADE DE JORNAIS COMO WASHINGTON POST E THE NEW YORK TIMES. ESSAS BRIGAS DO GOVERNO NÃO PREJUDICAM A DEMOCRACIA E A LIBERDADE DE IMPRENSA?

Acho muito importante ter uma conversa ativa, aberta e constante com a imprensa. Porque, se falo com você tomando um café, estou falando com um brasileiro. Se falo com você como jornalista, falando com todo o Rio Grande do Sul, estou falando com milhões de pessoas. É importante essa via de comunicação para poder ter esse diálogo. Mas, como funcionário público que já foi mal representado (pela imprensa) às vezes, vou dizer com toda a sinceridade: muitas vezes, jornalistas têm uma agenda que vai muito além de simplesmente reportar o que está dizendo a fonte. Existe frustração e, às vezes, essa frustração cresce. 

Eu entendo. Mas vamos continuar com a importância de preservar a liberdade de imprensa, mesmo criticando a mim, ao meu governo, o que seja. É uma liberdade bastante importante. Mas também tenho o direito de responder. E vou responder. E agora há muito mais canais pelos quais se comunicar. Algumas pessoas são mais agressivas, outras, menos, todos têm seu jeito, mas o importante é que o canal está aberto. O presidente Trump está dando mais acesso à imprensa do que qualquer outro presidente que já vi. Ele faz conferências de imprensa que duram mais de uma hora.

ELE GOSTA DE APARECER NAS CÂMERAS.

É bom ter mais acesso, mas está tendo problemas. Depende da personalidade, do jeito, da estratégia das pessoas. Estou tendo muita abertura com a imprensa. Estou sendo criticado, alguém não vai gostar do que digo. Tudo bem. Mas também vou preservar meu direito de responder. E acho que isso é importante. E talvez estejamos vendo que há mais abertura para responder diretamente quando se está sendo mal representado.

POR QUE, NA SUA OPINIÃO, OS EUA SÃO HOJE O PAÍS MAIS ATINGIDO PELO CORONAVÍRUS? O GOVERNO FALHOU NA RESPOSTA OU PODERIA TER FEITO MAIS PARA CONTER A PANDEMIA?

Somos referência mundial com nosso Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Temos os melhores pesquisadores. Também temos uma das maiores populações do mundo. Mas o controle de doenças, de vírus, de pandemias, depende da informação científica, de um trabalho em conjunto, internacional, para controlar o vírus. E, lamentavelmente, dias e horas são importantes. Se você não conhece a informação correta no momento correto, você tem problemas. 

E, lamentavelmente, o vírus saiu de Wuhan, da China. Todo esse esforço da China comunista cria dúvida. O vírus não foi controlado dentro de Wuhan e da China. E, mesmo dois meses depois, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse, em meados de janeiro, não ter evidência de transmissão de pessoa para pessoa. Era uma informação completamente errada. E isso causou muitos danos. Quando você vive em uma sociedade aberta e livre é mais difícil controlar a população. Se eu chego em sua casa, com chave, e eu o tranco, você não pode sair, como fizeram em outros países autoritários. Você vai reclamar. Você tem o direito de sair de sua casa. Há diferenças em como se pode tratar pandemia em países democráticos e autoritários. 

Mas também se pode ver a Nova Zelândia, o Japão, a Coreia do Sul: eles tiveram mais sucesso, com maneiras diferentes de lidar com o problema. Essa é uma doença que ainda não entendemos totalmente. Todos estão trabalhando com o máximo possível de esforços para encontrar uma vacina. Há vários países que estão em fases avançadas de testagem. Estamos cooperando com o Brasil. Cada morte é lamentável. Mas vamos continuar trabalhando até o fim para que isso esteja sob controle.

COMO O SENHOR IMAGINA QUE SERÁ O MUNDO PÓS-PANDEMIA? O SENHOR ACREDITA QUE POSSA HAVER DESGLOBALIZAÇÃO E, POR EXEMPLO, RISCO DE EMPRESAS AMERICANAS DO BRASIL EM GERAL E DO RIO GRANDE DO SUL EM PARTICULAR SAÍREM DAQUI?

Acho que vamos ter mais atenção à reciprocidade nas relações entre os países, porque alguns não estão trabalhando de maneira recíproca. Vamos ver países como o nosso analisando de novo a cadeia de produção e onde estão as vulnerabilidades. Descobrimos, com essa pandemia, que há uma dependência de produtos de vários países. Quem sabia que uma máscara seria um item de segurança nacional? Agora, sabemos. 

É de interesse nacional produzir isso com países amigáveis, que não vão usar a saúde pública como uma arma, como fez a China comunista, dizendo "vamos deixar os EUA mergulhar no mar do coronavírus". O que é isso? Não vamos deixar isso acontecer de novo. Vamos selecionar nossos parceiros com muita atenção. Por isso, é uma oportunidade para o Brasil, porque muitas empresas vão sair da China comunista. O Japão já tem programa para isso. Muitos países têm, devido aos seus interesses nacionais e econômicos. Para onde vão? Muitos vão voltar para os EUA, muito bom. 

Mas essa é uma oportunidade de ouro para o Brasil, um país já bastante industrial, que já exporta muito, que tem muito para crescer industrialmente. Por isso, acho que podemos duplicar nosso comércio em cinco anos. Não é que vão sair do Rio Grande do Sul, minha opinião, de jeito nenhum. Eles vão ver: onde é um lugar excelente para produzir no Brasil? Onde tem empresas como Dell, GM, General Motors, John Deere, HP, esses grandes nomes dos EUA, empresas que têm uma contribuição no Brasil há décadas. O sul do país é muito competitivo. Então, acho que esse é um momento de oportunidade. Temos todos de trabalhar nesse sentido para aproveitar o momento, aumentar nosso comércio e criar as condições, com acordos e entendimentos, para crescermos economicamente juntos, como aliados que somos.

RODRIGO LOPES


06 DE JUNHO DE 2020
INFÂNCIA

O DESENVOLVIMENTO NO CONFINAMENTO

HÁ ESPAÇO PARA APRENDIZAGEM QUANDO NOSSOS FILHOS ESTÃO TENTANDO DIGERIR AS INDIGESTAS RESTRIÇÕES DO DISTANCIAMENTO SOCIAL?

As aulas da Educação Infantil foram suspensas em março. Com as crianças em casa e o acúmulo de atividades, surgem muitas dúvidas quanto às possibilidades que se têm de estimulação no ambiente familiar. Nem sempre os estudos domiciliares são exequíveis com crianças pequenas. É possível não haver prejuízos neste cenário?

Estamos vivendo um período sem precedentes. A cada dia, novos desafios e questionamentos. Ainda não é tangível o retorno às escolas. Cenários estão sendo estudados e há espera por mais conhecimento de como a covid-19 se comportará em nossa cidade. Enquanto isso, as crianças seguem aguardando em casa, respeitando o distanciamento social.

O progresso da aprendizagem na primeira infância se dá através de amplas experiências. O corpo, os movimentos, o convívio e as vivências tornam o espaço educacional uma experiência completa. Assim sendo, o desenvolvimento nesta etapa não significa a aprendizagem de conteúdos.

Como reproduzir, em casa, este estímulo? Pais vêm se esforçando, incansavelmente, buscando incentivar seus filhos para as videoaulas. Nem sempre o esforço resulta em saldo positivo, e muito mal-estar pode ser criado nestas tentativas.

Antes do coronavírus, havia uma grande mobilização da Sociedade Brasileira de Pediatria orientando a restrição às telas para crianças pequenas. Hoje, temos as aulas justamente pelas telas. É a possibilidade que temos no momento, mas é inegável que estamos "tateando".

A pandemia provocou muitas perdas para a sociedade. Há famílias ansiosas diante da possibilidade de perder empregos - ou mesmo já tendo de lidar com o desemprego. Há o distanciamento de familiares queridos. A impossibilidade de ir e vir. Crianças privadas do convívio com seus pares. O clima angustiante ronda as casas. Há espaço para aprendizagem quando as crianças estão tentando digerir as indigestas restrições às quais temos que observar? A insistência em realizar as tarefas escolares pode ser prejudicial aos pequenos?

Este não é um artigo de respostas. As certezas andam em falta. Porém, quando estuda-se sobre desenvolvimento infantil, é inegável que a tranquilidade das crianças possibilita a elas desbravar e aprender. Então, não seria momento de trabalharmos em prol de bem-estar emocional?

Se por um lado temos a privação do coletivo, nunca as crianças conviveram tanto em família. Este pode ser um grande ganho: pais desenvolvendo novas formas de se relacionar com seus filhos, tendo mais intimidade. Aproveitar este momento e deixar as crianças usufruírem do seu espaço, brincando, explorando e criando, pode ser a melhor saída. Ficar fixado nas perdas pode ter repercussões muito danosas, como ansiedade e tristeza.

Ainda que não saibamos como a pandemia ficará registrada na criançada, estar atento aos limites que os pequenos assinalam e impedir prejuízos emocionais é um passo acertado. Se estiverem em harmonia, o convívio em família será combustível para os pequenos enquanto esperamos a reabertura das escolas. Aguardemos brincando!

*Psicóloga - DÉBORA LAKS*

06 DE JUNHO DE 2020
J.J. CAMARGO

VERGONHA DE SENTIR MEDO


Uma mudança de estado de espírito não virá por decreto governamental. "O homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez, enquanto os covardes morrem muito, antes de morrer." (Shakespeare, em Júlio César)

"Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo que esteriliza os abraços." (Carlos Drummond de Andrade)

Se viver é um estado de permanente descoberta, nestes tempos medonhos descobrimo-nos medrosos de um jeito que não precisava ser tanto. E ninguém acredita quando tentamos convencer que este tremor é só por causa do frio, que acabou de chegar. Agradecemos que as máscaras escondam nossas caras de medo, mas sabemos o quanto os olhos são delatores.

Temerosos de que os tempos do abraço não voltem mais, nos tornamos equilibristas nas escadas rolantes da vida, por puro medo do corrimão, tocado sabe-se lá por quantas mãos que, graças a Deus, estamos proibidos de apertar. Pelo menos até isso tudo passar, se é que um dia passará. E torcemos que o elevador não venha carregado para não termos que improvisar aquela cara de desculpe, eu não vou subir agora, obrigado. E quando o elevador finalmente chega vazio, ficamos rezando que nenhum inconveniente decida interromper a marcha até o nosso andar. E por garantia não respiramos durante o trajeto, porque a televisão avisou que, em ambientes confinados, o vírus pode ficar flutuando durante muito tempo.

E, na fila do caixa, ficamos irritados com a quantidade de gente que não tem noção do que seja uma distância de dois metros, pô!

E aceleramos o passo para aproveitar a brecha da porta automática, para passar sem tocar nessa promíscua que, despudoradamente, se permite apalpar por mãos devassas que deixam suas maçanetas carregadas de vírus.

Temos medo da rua e de receber um descuidado que venha de lá. Tememos o inverno que sempre traz uma gripe que pode se parecer com aquilo que nem queremos falar o nome. E não confessamos o medo que a primavera ainda nos encontre com esta cara de susto. E desconfiamos do vento, esse dissimulado que pode estar trazendo pra perto o que queremos bem longe.

Morremos de medo de adoecer porque, com a pouca sorte dos últimos tempos, como saber se a roleta chinesa do destino não vai nos colocar entre aqueles 5% que morrerão? Não suportamos mais as imagens fúnebres dos noticiários, com aqueles especialistas em dar notícia ruim com ar de indiferença. Mesmo que lá pelas tantas um deles aparente emoção com a tragédia, nosso preconceito só verá fingimento.

Depois de um tempo, nem sabemos se mais tememos contaminar ou ser contaminados, e então misturamos o medo surreal da doença com a tristeza verdadeira da solidão.

Dando a cada um o direito de assumir ou dissimular seu temor, estamos, de certa forma, todos inscritos no Congresso Internacional do Medo, uma das mais lindas poesias de Drummond, que termina assim: "Temos medo da morte, e medo do depois morte. E depois morreremos de medo. E sobre os nossos túmulos, crescerão flores amarelas. E medrosas".

E assim, dia após dia, de parágrafo em parágrafo, vamos plantando a desesperança que só servirá para azedar o trajeto, porque a única certeza que até o pessimista tem é que sairemos dessa. E se isso é inevitável, que tal começarmos a nos preparar para rir, no futuro, desse medo que hoje nos amordaça, atormenta e ridiculariza?

Esta mudança de estado de espírito não virá por decreto governamental. Então, melhor que cada um assuma a sua cota na resignação ao medo que nos envergonha, vista o paletó esperança e anime-se. Se faltar estímulo, lembre-se: depressão abaixa a imunidade e anima o vírus.

J.J. CAMARGO


06 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Por que os poetas eram cegos?

Bernard Shaw estava dando uma palestra e um estudante lhe perguntou se era verdade que Homero não havia escrito a Ilíada e a Odisseia. Shaw ergueu uma sobrancelha e respondeu: - É verdade. Não foi Homero quem escreveu a Ilíada e a Odisseia. Quem escreveu foi um homem que também se chamava Homero e que viveu na mesma época que ele. 

Eis uma resposta perfeita para dar a esses historiadores que querem tirar o homem da história do homem. Eles procuram uma trama sem protagonistas, eles acreditam que tudo que acontece aconteceria de qualquer forma, mesmo que os personagens envolvidos no enredo não fizessem o que fizeram. É uma espécie de determinismo socioeconômico, quase que uma crença no Destino, em Tupã, em Tutátis ou no Cavalo Celeste.

Para eles, Cleópatra era feia, Jesus não existiu e Shakespeare não era um, era muitos. Para eles, não há quem cometa façanhas, apenas há façanhas.

Uns chatolas. Mas há que se admitir: é verdade que Homero não escreveu a Ilíada e a Odisseia. Porque ele era cego, registrava os poemas não em um livro, mas na memória, e saía pelas cidades da Grécia a recitá-los e a encantar toda a gente.

Antes de Homero, houve outro poeta que, de tão famoso, misturou-se com a mitologia. Chamava-se Tamiris e cantava como uma Elis. Certa feita, tornou-se campeão de canto nos jogos gregos e ficou todo exibido. Saiu pela cidade dizendo que cantava melhor do que as Musas. Não foi uma boa ideia. As Musas se enfureceram com a concorrência e o cegaram. Ao contrário de Homero, Tamiris abateu-se com a cegueira, atirou a lira em um rio e nunca mais cantou.

Outros poetas gregos daquela época também se mesclaram com a lenda, como, por exemplo: Dáfnis, que era cego; Teiresias, que, aliás, era cego; e Estesicoro, que, inclusive, era cego.

Por Santa Luzia, por que os poetas gregos eram cegos? Ciumeira das Musas, como aconteceu com Tamiris? Ou alguma doença da época, como dizem que acometeu Homero?

Há historiadores que afirmam que não foi nada disso. Os poetas gregos não eram cegos, eles ficaram cegos. Os reis das pólis gregas gostavam tanto deles que os queriam manter presos a seus reinos. Assim, para que os poetas não pudessem gozar de independência e sair lépidos pelas ilhas gregas, agradando a outros reis com seus belos cantos, os monarcas mandavam os esbirros lhes arrancar os olhos.

É a lógica do passarinho na gaiola: os bonitos são aprisionados, os feios podem voar em liberdade.

Mandatários que cobiçam, invejam ou temem o talento alheio são perigosos. No entanto, se o governante é bom, ele se cerca dos melhores. E os ouve. E pondera sobre o que dizem. Mas, se é inseguro, tenta destruir os que parecem melhores do que ele.

Bolsonaro, ao ver Mandetta crescer na crise do coronavírus, enciumou-se de sua popularidade e o repeliu. O país perdeu a orientação que tinha para combater a pandemia, e o resultado foi trágico: agora, morre um brasileiro por minuto devido à covid-19. Enquanto isso, o ministro da Saúde é interino, as ações do ministério são erráticas e o presidente da República estimula aglomerações, contrariando orientações de cientistas do mundo todo.

Por que Bolsonaro não usufruiu do bom trabalho do seu auxiliar, em vez de sabotá-lo e, assim, sabotar a própria administração?

A resposta é óbvia: é porque Mandetta, como Tamiris, estava cantando melhor do que ele. Bolsonaro, temendo a concorrência de Mandetta, tentou arrancar-lhe os olhos. De certa forma, conseguiu. Mas acabou deixando o país em um rumo cego. Um morto por minuto. É um massacre. É uma guerra. E o governo não vê.

DAVID COIMBRA

06 DE JUNHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

E DEPOIS?


O inesperado (ou o futuro) está em tudo, até em dobrar a esquina e ver o que ainda não havíamos visto. Assim, este 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, tornou-se em 2020 uma data de angustiosa tristeza.

A covid-19 mostrou a fragilidade humana e, após extinta (sim, esse dia virá!), teremos de nos preparar para uma avalanche ainda mais destrutiva, mas anunciada, há muito, pela ciência - o horror das mudanças climáticas.

A falsa visão de progresso que a sociedade de consumo implantou (em que o dióxido de carbono nos afoga e a cobiça destrói a obra divina da Criação) leva a reivindicar mais hospitais e medicamentos, como na pandemia atual. Não vemos, porém, as causas profundas da tragédia que surge como sina da nossa estupidez.

Neste 5 de junho, a Vigília Climática pela Vida e pela Saúde do Planeta, auspiciada no Rio Grande pelo arcebispo dom Jaime Spengler e pelas ONGs 350 e Ayara, nos fez entender o alerta do papa Francisco na encíclica Laudato Si?, de 2015.

Às 20h, acendi uma vela na janela, como muitos mais, em sinal de respeito à vida no planeta. Foi um gesto simbólico, mas de rebeldia ao desdém com que tratamos a origem das "mudanças climáticas". Todos temos culpa no desastre anunciado, não só governantes demagogos ou empresários cobiçosos. Aceitar que os fósseis (como o carvão mineral) degradem a vida é crime em si.

O Papa frisa, sempre, que o desastroso pecado ecológico arrasa "o lar comum". Em junho de 2015, a encíclica de Francisco despontou como documento inigualável para entender o desvario humano na avaliação do que seja "progresso". Ele não se dirigiu apenas aos católicos, mas à humanidade inteira e, assim, juntou as igrejas luteranas tradicionais e ramos do judaísmo na defesa da obra da Criação.

A Organização Mundial da Saúde, o secretário- geral da ONU e as pesquisas da ciência alertam para "a brutalidade" das mudanças climáticas, mas as reuniões governamentais tentam apenas mitigar o horror, sem tocar na causa profunda - o desvario hedonista da sociedade de consumo.

No Brasil, sequer há planos para "após a Covid-19". Os fanáticos adeptos do presidente da República dedicam-se mais a estimular o caos (pedindo fecharem-se os tribunais) do que a pensar no que a pandemia agravou.

O alerta do ministro do Supremo Tribunal Celso de Mello apontou nossas semelhanças com a Alemanha de 1933, quando Hitler subiu ao poder pelo voto. A visão histórica não afeta a imparcialidade do decano do STF, pois ninguém - menos ainda um juiz - pode ser neutro face ao crime.

Numa caricatura de si próprio, Bolsonaro desfila a cavalo entre seus adeptos, como um Napoleão tropical. O que virá depois?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

06 DE JUNHO DE 2020
PATRIMÔNIO HISTÓRICO

O que prevê a concessão do Mercado


A prefeitura de Porto Alegre detalhou, na sexta-feira, o edital de concessão do Mercado Público. A gestão do tradicional ponto de comércio da Capital será cedida à iniciativa privada pelos próximos 25 anos. Em uma transmissão pelas redes sociais, o Executivo municipal detalhou algumas regras do certame. Entre elas, está a garantia da continuidade, por quatro anos, dos atuais permissionários.

- Depois desse período, os permissionários passarão a ser locatários e irão negociar diretamente com a concessionária. Mas eles terão cláusula muito forte de preferência. Qualquer proposta de terceiros poderá ser coberta pelo atual locatário - informou o secretário de Parcerias Estratégicas da Capital, Thiago Ribeiro.

A nova concessionária terá de realizar reformas no espaço. Estão previstas melhorias na drenagem de águas, nos sanitários e na fachada do prédio. Além disso, o Mercado Público deverá contar com sistema de monitoramento com câmeras interligadas a uma central da prefeitura. O novo gestor terá de executar todas as obras sem a necessidade de fechamento do local.

Em outubro do ano passado, o Executivo recebeu sugestões para o projeto de concessão. Uma audiência pública reuniu cerca de 200 pessoas no Auditório Araújo Vianna - entre eles, representantes de religiões com matrizes africanas. Eles solicitaram a garantia do acesso ao assentamento Bará, na área central do andar térreo. No edital, estão liberadas as manifestações religiosas populares de caráter cultural e sem fins lucrativos.

Propostas

A prefeitura informou ainda que não será permitida a comercialização de vestuários, calçados, eletrônicos, móveis e utilidades domésticas, que não estão na linha atual de produtos oferecidos.

Conforme o edital, o valor total em investimentos diretos e operacionais será de R$ 85,9 milhões. A outorga minima inicial será de R$ 17,8 milhões - R$ 11 milhões menor do que havia sido proposto em consulta pública. A redução, segundo a prefeitura, se fez necessária devido à covid-19.

- Fizemos revisão total do modelo devido aos efeitos da pandemia, com menos possibilidade de aglomeração, que reduziu o potencial do negócio - justificou Ribeiro.

A prefeitura começa a receber propostas a partir de 31 de julho e prevê a assinatura com vencedor no quarto trimestre.

EDUARDO PINZON

06 DE JUNHO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Sem protagonismo nem transparência


Além de ter perdido protagonismo, o Ministério da Saúde resolveu abrir mão da transparência. Esse é o recado que o ministro interino, general Eduardo Pazuello, passa quando atrasa a divulgação dos números do coronavírus no país para driblar a audiência dos principais telejornais.

Se dependesse do Palácio do Planalto, essa medida teria sido adotada há mais tempo. No entanto, em sua época, o ministro Luiz Henrique Mandetta fazia questão de manter a rotina que ele mesmo implantou, das divulgações no final da tarde. O começo da estratégia de enfrentamento foi marcado pela revelação sistemática de números e tabelas, acompanhada pela explicação de técnicos. Mas, por mais de uma vez, o próprio presidente da República questionou os dados.

Na sequência ensaiada, apoiadores de Jair Bolsonaro nas redes sociais passaram a levantar dúvidas sobre o número de mortos pela covid-19 por ignorância ou má fé. Afinal, qualquer secretário de Saúde ou cientista que acompanha a evolução da pandemia reconhece o risco das subnotificações.

Militarizada, a atual equipe da Saúde resolveu puxar o freio e fez a vontade do presidente. Estratégia que chamou atenção até do Supremo Tribunal Federal. O ministro Gilmar Mendes fez questão de lembrar que, na pandemia, a divulgação de dados deve estar aberta ao público, aos gestores e à imprensa de forma consistente e ordenada.

A tática do avestruz, de enfiar a cabeça no chão, não transfere ou elimina a responsabilidade do presidente da República. Mas atrapalha quem quer fazer o que é certo.

CAROLINA BAHIA

06 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Jogo sujo


É perfeitamente legítimo não gostar do presidente ou de seu governo. Cada um tem sua visão de mundo, alguém pode achar que o estilo de Bolsonaro é terrível, ou discordar da agenda de reformas. É parte do jogo democrático.

O que não é parte do jogo é flertar com todo tipo de instrumento golpista para derrubar um governo de que não gosta. Dilma, vamos lembrar, não sofreu golpe, mas sim um impeachment após o PT destruir o Brasil, milhões tomarem as ruas de forma pacífica para protestar, e das pedaladas fiscais.

O que tentam fazer com Bolsonaro não tem nada a ver com isso. É buscar uma vitória no "tapetão" após derrota nas urnas. O presidente desconfia de um complô contra ele e tem todos os motivos do mundo para tanto. É inegável que parece haver um movimento orquestrado para retirá-lo do poder.

Duvida? Então vejamos: como pode alguém achar normal um ministro do STF tocar um inquérito que envolve o presidente, quem ele considera uma espécie de Hitler? Que tal o outro inquérito, sobre fake news, relatado por Alexandre de Moraes, totalmente irregular e que manda a Polícia Federal na casa de apoiadores do presidente sem qualquer fundamento legal, e ainda impede seus advogados de terem acesso aos processos?

Não bastasse o que vem de um Supremo que é vergonha nacional, temos agora a mídia flertando até com terroristas da Antifa ou com marginais das torcidas organizadas, chamando-os de "democratas" só para inflar arruaças nas ruas em plena pandemia, pois podem enfraquecer o governo.

Até o comedido vice-presidente Mourão perdeu a paciência e lembrou que baderneiros são caso de polícia, não de política, além de alertar que democracia não se defende com faces mascaradas, roupas negras e barras de ferro. Mourão alfinetou ainda os "sessentões nas redações", que resolveram voltar aos seus anos dourados de agitação estudantil. No ponto!

O que fica claro é que a turma derrotada nas eleições tenta esticar a corda ao máximo, na esperança de que o "fascismo imaginário" se torne real. É feio e perigoso. É um jogo muito sujo. Democratas de verdade aceitam o resultado das urnas!

RODRIGO CONSTANTINO


06 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

UFRGS muda eleições para reitor

Maior universidade gaúcha, a UFRGS escolherá o seu novo reitor através de uma eleição virtual. A decisão mantém o calendário da instituição e, ao mesmo tempo, contempla a necessidade de evitar deslocamentos e aglomerações em tempos de pandemia.

Uma comissão foi nomeada para definir prazos e outros detalhes da eleição, que deve estar concluída até 20 de julho.

A definição dos novos nomes da reitoria da UFRGS começa com uma consulta à comunidade, composta por professores, alunos e técnicos. O resultado é enviado ao Conselho Universitário, que elabora uma lista tríplice submetida ao presidente da República, a quem cabe a escolha final e a nomeação até 20 de setembro, quando termina o mandato do atual reitor, Rui Oppermann.

Seguradoras de veículos economizam R$500 milhões em abril

A retração do movimento nas ruas, imposta pela pandemia, teve um impacto significativo no mercado de seguros. As informações são do site da Superintendência de Seguros Privados - SUSEP, compiladas e analisadas pela consultoria gaúcha Mirador Atuarial. A tabela apresenta o volume de sinistros ocorridos no país em abril de 2020, comparando com o mesmo mês do ano passado.

Em um dos segmentos mais relevantes, o de automóveis, a queda da circulação dos veículos, dos acidentes, dos furtos e dos roubos levou a uma redução de 30% no volume de sinistros. Houve queda em outros setores. "A pandemia alterou o comportamento das pessoas, afetando a dinâmica dos riscos assumidos pelas seguradoras", analisa o consultor Sérgio Rangel, da Mirador Atuarial. Confira os números:

TULIO MILMAN

06 DE JUNHO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Jornalismo na essência


Jornalista, na sua essência, deve ser um obstinado. É curioso, não se contenta com a superficialidade, destrincha números para entender o que está abordando, precisa sempre ter um olhar próprio para compreender a real dimensão de um fato. Desde que passamos a enfrentar a pandemia do coronavírus, a repórter Larissa Roso - uma profissional que segue à risca essa obstinação - procura trazer em suas reportagens um olhar que vai além de estatísticas e projeções.

Formada em Jornalismo pela PUCRS, mestre em Medicina pela Faculdade de Medicina da UFRGS e há 22 anos em ZH, Lari, como é chamada pelos colegas, tem conseguido traduzir como poucos o que tem se passado nos hospitais da Capital e os sentimentos dos profissionais que diariamente estão sendo desafiados por uma doença ainda cercada de mistérios.

Desde o início, Lari tinha em mente que em algum momento chegaria a hora de conhecer de perto a realidade das áreas mais sensíveis desta pandemia: as unidades ou centros de tratamento intensivo (UTIs e CTIs). Após fazer análise minuciosa do cenário de cada hospital e abrir negociação para que pudesse entrar numa dessas unidades, na sexta-feira, 29 de maio, ela e o fotógrafo Jefferson Botega conseguiram acompanhar a rotina do CTI do Hospital Conceição. Seguindo os rigorosos protocolos, vivenciaram durante uma manhã a tensa rotina de médicos, enfermeiros e pacientes.

- Vi ao vivo o que significam os números da pandemia, cada vez mais assustadores no Brasil. Mostrar o que se passa e o que se ouve ao redor do leito de um paciente em estado grave ou gravíssimo talvez sensibilize quem ainda não entendeu a dimensão arrasadora do que estamos vivendo - afirma Lari.

Desde 1996 na RBS e acostumado a grandes coberturas nacionais e internacionais, Jefferson Botega, o Jeff, relata ter tido uma experiência única na sua carreira.

- Entrar em um CTI que concentra grande número de infectados para ser os olhos da sociedade foi uma das experiências mais marcantes que já tive em minha profissão e na minha vida - conta Jeff, que precisou, por questões de segurança sanitária, tirar a barba que cultivava havia mais de década.

A reportagem pode ser conferida no caderno DOC. Os textos e fotos, além de vídeo, também estão em GaúchaZH.

Boa leitura.

DIONE KUHN

sexta-feira, 5 de junho de 2020



05 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Uma linda quarentena

Nunca mais vou ver filme de amor. Nem de terror. Tomei essa decisão durante a quarentena. Mas, entenda, não sou contra o amor, embora seja contra o terror. De filme de terror, já contei, tenho medo. Vejo e, depois, sonho de noite. Mesmo assim, reconheço alguns clássicos do gênero. O Exorcista. O Iluminado. O Bebê de Rosemary. O Sexto Sentido e O Advogado do Diabo também são ótimos. Filmes a que é preciso assistir, enfim, mas que não assistirei mais, para não me impressionar.

Tempos atrás, vi uma sequência de O Exorcista, o terceiro filme da série. Tinha uma cena filmada do fundo de um corredor de hospital, a ação se passa em silêncio, ao longe, a enfermeira atravessa de um quarto para outro e... No desfecho, dei um pulo da cadeira do cinema, mas um PULO! Todo mundo riu, na fileira de trás. Não esqueci mais daquela cena. Não vou descrevê-la para não dar spoiler.

Já os filmes de amor, desses não gosto mesmo, é muito mel, ainda que reconheça a beleza do amor e tal. Aliás, tenho bem aqui, sobre minha mesa, uma coleção de livros de que gosto muito, seis tomos encadernados em couro marrom, Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura, de autoria de ninguém menos do que Jânio Quadros. Sim, perplexo leitor, já tivemos presidentes letrados. Jânio prezava a última flor do Lácio, inculta e bela. É famosa aquela resposta que deu a um repórter que lhe perguntou por que bebia:

"Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia".

Pois Jânio, nessa sua obra, explica a teoria poética tradicional, os versos dísticos, o terceto, a sextilha e por aí vai. E cita como exemplos doces poemas de amor, como esse no qual esbarrei ontem, de Garret:

"Este inferno de amar - como eu amo!

Quem mo pôs aqui n?alma... quem foi?

Esta chama que alenta e consome,

Que é a vida - e que a vida destrói

Como é que se veio a atear,

Quando, ai, quando há ela de se apagar?"

Sei distinguir a beleza desses versos de amor, posso recitar poesias que tais, mas filmes, não. Não verei filmes de amor! Porque eles me aborrecem e não tenho tempo a perder. Eis o que é importante: há muito para ver e ler, há muito para avançar. Há quem esteja aproveitando a quarentena para aprender. Como os americanos. Eles descobriram ninguém menos do que Machado de Assis durante seus dias de isolamento. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi traduzido para o inglês, lançado no último dia 2 e esgotado no dia 3. "Um dos mais espirituosos livros jamais escritos", festejou um artigo na The New Yorker. Fiquei orgulhoso. Peguei meu Memórias Póstumas da estante. Abri:

"Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem 50, nem 20 e, quando muito, 10", escreveu Machado, por meio de seu personagem Brás Cubas.

Como estava equivocado o Bruxo do Cosme Velho. Agora, esse mulato gago e epiléptico, que foi vendedor de balas e sacristão, que era filho de um pintor de paredes com uma lavadeira, esse símbolo do povo brasileiro está conquistando o outro lado da América. E eu, em sua homenagem, vou tomar minha coleção de Machados, que tenho todos, e vou reler os que li e ler os que não li. Será uma linda quarentena.

DAVID COIMBRA

05 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

DESATINOS IDEOLÓGICOS


O Brasil já é o segundo país do mundo em número de casos de covid-19 e a cada semana bate recordes em número de mortes. Nem essa estatística macabra, que recomenda mais do que nunca o distanciamento social, desestimula lideranças extremistas de seguirem convocando manifestações de rua a favor e contra o presidente Jair Bolsonaro.

Felizmente, o Brasil vive uma democracia e manifestações fazem parte dela, contanto que dentro da legalidade e sem recurso à violência. No entanto, salta aos olhos que, neste momento, opostos ideológicos se provoquem para além dos alucinados ataques em redes sociais e se disponham a confrontos nas ruas. Tais medições de força já seriam temerárias em tempos normais. Mas, no curso de uma pandemia, são atos que desnudam ainda mais a irresponsabilidade social e política desses ativistas.

Não se pode dizer que haja surpresa nesses desatinos. Na história do país, grupelhos que se arvoram donos da verdade costumam fazer protestos ruidosos e procuram chamar a atenção a custa de agressões ou palavras de ordem, à esquerda e à direita, contra instituições da democracia, como o Judiciário, o Congresso e a imprensa. Insistir nessas atitudes extremadas neste momento, porém, é duplamente arriscado: enquanto se risca o fósforo da radicalização ideológica, alimenta-se a fogueira do coronavírus no Brasil.

Os dois lados que se preparam para embates nas ruas não merecem crédito em seus propósitos democráticos. Entre fanáticos seguidores do presidente, pede-se intervenção militar, marcha-se com tochas pelas noites de Brasília ou exibem-se bandeiras associadas ao neonazismo na Ucrânia. No lado dos que se dizem "pró-democracia" ou "antifascistas", povoam membros de torcidas organizadas que agem como os violentos "barra bravas" argentinos e ocultam-se extremistas de esquerda que pretendem desde sempre varrer da Terra o que chamam de "democracia burguesa".

Por isso, mais do que nunca é preciso que as vozes da razão e da legítima defesa democrática se levantem, não com irresponsáveis atos nas ruas, mas com manifestações firmes em todas as esferas, das suas relações sociais aos espaços institucionais, em prol do Estado de direito. A moderação dos que respeitam divergências pacíficas e condenam aglomerações agora não é covardia e muito menos omissão: à luz da História, é a atitude a ser assumida pela imensa maioria que assiste pasmada aos desvarios radicais e totalitários dos que tentam tomar cidades e a política como reféns em um momento de emergência sanitária e social.


05 DE JUNHO DE 2020
O PRAZER DAS PALAVRAS

Esposas

Aniceto O., um ilustrado leitor de Foz do Iguaçu, levanta uma questão assaz interessante: "Prezado professor, nasci e cresci aqui na fronteira com o Paraguai. Costumo usar muitas palavras do castelhano na minha fala diária, como sei que também acontece com meus amigos aí do Sul que vivem perto da Argentina ou do Uruguai. Há muito acompanho suas colunas e aprendi que o Português e o Espanhol são as duas línguas mais próximas da família latina, que nunca, desde a sua origem, deixaram de estar em contato, tanto aqui como na Europa, o que facilita a comunicação. Claro que nem sempre eles usam os mesmos nomes que damos para as coisas - nossa calça é o pantalón deles, nosso garfo é o tenedor, por exemplo, mas acho isso normal. Só estranho quando os dois lados usam exatamente a mesma palavra, mas para dizer coisas diferentes, como esposas, que é como chamam as nossas algemas. Isso tem algum sentido oculto?".

Caro Aniceto, as palavras, como as moedas, têm o valor que a elas atribuímos, e isso pode variar de um lado da fronteira para o outro - às vezes, até mesmo dentro da mesma comunidade linguística, como é o caso de Brasil e Portugal. Um exemplo famoso é o vocábulo propina, que já andou aparecendo numa coluna de muitos anos atrás (para quem não se deu conta, em breve o Prazer das Palavras estará chegando aos 20 anos de idade...). Na ocasião, um leitor atento como tu manifestou sua estranheza com a manchete lida num jornal de Coimbra que anunciava uma manifestação dos estudantes contra a nova tabela de propinas. 

Como nem os corruptos brasileiros chegaram à perfeição de tabelar o que cobram, nosso leitor descartou desde logo o significado habitual de suborno e foi pesquisar no Priberam, que é um bom dicionário português on-line: lá, na terrinha, propina é "quantia paga para frequentar um estabelecimento de ensino superior" (no final do verbete, uma rubrica nada honrosa informa que no Brasil significa "dinheiro ou bem que se oferece a alguém em troca de favor ou negócio lucrativo, geralmente ilícito". Eita, ferro!). O vocábulo original, vindo do Latim, sempre manteve a carga semântica de "pagamento": pagar uma bebida na taberna, ou gratificar alguém por um serviço bem feito, ou pagar taxas por documentos oficiais, ou pagar as anuidades escolares - sem esquecer comprar a conivência de um político corrupto - tudo isso faz parte do bufê que propina oferece. É simples: Portugal escolheu um prato, nós escolhemos outro.

O caso das esposas é semelhante, mas um pouco diferente... Isso, acredito, foi o que chamou tua atenção: o Espanhol dá a este termo tanto o significado de mulher casada quanto o de algemas, o que naturalmente levanta a suspeita de que os dois significados estejam indissoluvelmente relacionados na cabeça dos hispanofalantes. Misoginia, má-vontade para com as nossas caras-metades? Não vamos tão longe. 

Desde a origem latina, esposar significa "comprometer-se", "ligar-se por um vínculo", "amarrar-se", como dizem por aí. O casamento amarra, prende como algemas - claro que com "algemas de seda", como diziam os antigos romances escritos para mocinhas. Esta mesma ideia está presente - e bem escondidinha, aliás - no vocábulo cônjuge ("conje", para o vulgo), que vem da mesma raiz de jugo, aquela canga que junta os bois da carreta...

De qualquer forma, prezado leitor, estamos juntos: minha imaginação também se perturba quando vejo na internet do Uruguai anúncios de esposas inoxidables, esposas en el Mercado Libre ou de esposas importadas de Alemania.

Escreva com a Cíntia Moscovich - Ah, e um aviso oportuníssimo para todos aqueles que, como eu, acham que escrever a torto e a direito é uma das ocupações mais prazerosas que existem: a Cíntia abriu sua preciosa Oficina de Pequeníssimas Narrativas, um curso on-line para desenvolver, como ela própria diz, "formas breves, superbreves e megabreves". O curso começa em 17 de junho próximo, e você encontrará mais informações no endereço oficinasubtexto@gmail.com.

CLÁUDIO MORENO

O FILHO MORTO DA DOMÉSTICA 
Fabrício Carpinejar

Não é omissão. É desprezo. 

A vida de Miguel, 5 anos, de Recife (PE), não valia nada para a patroa. Ela talvez pensasse que correspondia a um absurdo a empregada trazer o filho para o serviço e misturar vida profissional com pessoal. Talvez tivesse reclamado ao marido. Talvez tivesse considerado um abuso de paciência. Talvez tivesse o chamado de demônio, teimoso e sem educação. Os preconceitos moram na intimidade - condicionam atitudes, porém não são declarados da porta para a rua. 

Nem sentiu nenhuma culpa ao conduzir o pequeno ao elevador (apertou qual andar?), sem altura para controlar os botões, e que ele fosse procurar sozinho a mãe lá embaixo, que passeava com os cachorros do apartamento em que trabalhava, obrigada a seguir seu ganha-pão no meio da pandemia. 

Não teve uma ponta de remorso do desatino que cometia com o pequeno, desorientado e desinformado do lugar em que estava. Não podia olhá-lo um pouco até por respeito por tudo o que já fez a babá de sua família? Nem por gratidão, mas por reconhecimento. Não podia descer junto, se fosse o caso? 

Por certo, não desejava perder tempo, sacrificar meia horinha de seu conforto, incomodar-se em entreter quem não partilhava nenhum parentesco. 

Certamente ela nunca agiu assim com o próprio filho (se fosse o contrário?), mas não se via paga para cuidar do Miguel, cria da doméstica. Não era problema dela. Não era coisa alguma dela. Com repugnante descaso, o menino foi vítima da sua condição social, do racismo.  A criança se extraviou no nono andar, em prédio que desconhecia, entrou onde não sabia, caiu e morreu. 

Se não é crime doloso, intencional, prevendo a tragédia e assumindo as consequências, é o quê? 
O que se espera de um menino indefeso no elevador?  Não duvido que a patroa nunca houvesse reconhecido a existência dele, a ponto de não se importar com a sua morte



05 DE JUNHO DE 2020
PORTO ALEGRE

Marchezan quer criar pedágio no Centro

Ideia do prefeito é destinar verba para viabilizar o transporte público

Em poucos dias, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre deve receber novo pacote do governo Nelson Marchezan de enfrentamento aos problemas causados pela covid-19. Entre medidas que abrangem da assistência social à saúde, está uma proposta de geração de receita para o transporte público, que perdeu cerca de 70% dos passageiros ao longo da pandemia. O subsídio viria de uma tarifa para a circulação de carros pelo Centro Histórico.

A ideia é uma reformulação do projeto apresentado em janeiro, que instituiria pedágio para ingresso de carros de outros municípios na cidade e ainda não foi apreciado pela Câmara. À época, uma das críticas da proposta era de discriminar motoristas de fora da Capital, e uma das sugestões era transformá-lo em tarifa específica para regiões congestionadas.

Embora a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) não tenha detalhado o projeto após o anúncio do prefeito, a ideia, ao menos em tese, é vista com simpatia por especialistas em transportes, que veem nela uma forma de "taxação de externalidades negativas" pelo uso do carro. Ou seja, uma maneira de tributar os motoristas pelos males que o veículo causa à cidade e a seus habitantes.

- O carro gera congestionamento, má-qualidade do ar que ataca a todos os órgãos humanos. Faz todo sentido cobrar as externalidades do automóvel, especialmente em contexto em que o transporte público precisa de fontes de financiamento para sobreviver - declara Luiz Antonio Lindau, diretor do programa de cidades do WRI no Brasil.

Lindau atenta ainda para o uso do termo "pedágio urbano", no seu entendimento uma má-tradução e exemplo de como a questão é tratada equivocadamente no Brasil. Em lugares que aplicaram medidas semelhantes, ela é tratada como "taxa de congestionamento", para que os motoristas não se sintam onerados, mas sim respondendo a um problema em tempo real.

Referências

Não há exemplos de medidas semelhantes em países em desenvolvimento. As referências vêm da Inglaterra, Suécia e Singapura - país em que o sistema é aprimorado desde a década de 1970 e hoje funciona de forma invisível, com tarifas dinâmicas à semelhança de uma corrida por aplicativo.

Para Clarisse Linke, diretora- executiva da ONG Instituto de Políticas de Transportes e Desenvolvimento, a não aplicação em países como o Brasil se dá por falta de vontade política, e ela elogia o pioneirismo de Porto Alegre na discussão. Porém, atenta para problemas da aplicação da medida:

- É preciso cuidado para que isso não gere alguns oásis pela cidade enquanto as periferias se tornam ainda mais degradadas, poluídas e congestionadas.

Embora simpático à medida como alternativa para redução de congestionamentos, o urbanista Anthony Ling faz ressalvas à simples transferência desses recursos para empresas concessionárias do sistema de ônibus:

- Vejo (o pedágio) como forma de utilizar melhor os espaços da cidade e de arrecadação como qualquer outra. Mas quando se fala em gestão, é sempre um problema ter verbas carimbadas. E anunciar que essa verba iria diretamente para as empresas que têm histórico de problemas, de deficiências, talvez possa pegar mal.

De qualquer forma, o problema do transporte público clama por soluções. Em alusão à pandemia da covid-19, Lindau dá o tom da urgência:

- Dizem que o século 21 começou de verdade neste ano. Diante de um problema novo, precisamos de soluções novas. Já será uma vitória se o transporte público sobreviver.

CAUE FONSECA

05 DE JUNHO DE 2020
+ ECONOMIA

RS não abre mão de projetos de gás


O naufrágio do projeto de até R$ 3 bilhões em uma usina térmica e um terminal de regaseificação em Rio Grande encerra uma história, mas dará origem a outra, avisa o secretário de Meio Ambiente e Infraestrutura, Artur Lemos. Nos planos, está a busca de um novo investidor para uma termelétrica no sul do Estado e tentativa de convencer o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, da necessidade de completar o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre. Conforme o secretário, o governo do Estado fez um esforço, na reta final, para tentar reativar o projeto, mas admite que o processo estava "truncado". Na avaliação de Lemos, o fracasso desse projeto não significa que implantar uma usina térmica em Rio Grande seja inviável:

- Isso vai nos liberar para buscar outros agentes para projetar uma térmica que se sustente por si própria. Alguns investidores que avaliaram gostavam do projeto, mas os números não paravam em pé.

Um gasoduto de Uruguaiana a Porto Alegre faz parte de um sonho antigo de "fechar o anel" no sul da América Latina. Lemos pondera que as grandes reservas de gás de xisto das jazidas de Vaca Muerta, na Argentina, são um estímulo para a conexão.

- Não podemos ter duas usinas a gás no Estado e nenhuma funcionar por falta de combustível - pondera.

Em Uruguaiana, a americana AES construiu uma termelétrica a gás e um gasoduto entre a Argentina e a cidade gaúcha, na década de 1990. Na primeira dificuldade de abastecimento interno, os argentinos cortaram o suprimento da usina.

Em Canoas, a Petrobras investiu para converter uma térmica a óleo para que pudesse operar também com gás natural. O problema é que o Estado não tem o suficiente para abastecê-la. No mês passado, a estatal pôs à venda essa unidade.

Enquanto esses projetos - que reconhece ser de "médio e longo prazos" - não avançam, Lemos diz estar negociando com a própria Petrobras um ajuste na compressão do Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol), para aumentar em cerca de 30% a disponibilidade no Estado. Embora acompanhe a evolução do projeto da Golar Power em São Francisco do Sul (SC), o secretário avalia que a "competição" entre os reforços público e privado pode beneficiar o Estado.

MARTA SFREDO

quinta-feira, 4 de junho de 2020



04 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Repartir o pão

Ainda existe pão semolina? No meio da tarde, minha mãe mandava: "David, vai lá na tendinha e traz meio quilo de pão semolina e um litro de leite".

A tendinha ficava numa espécie de rua de areão que se esticava entre dois blocos de edifícios, o da Coorigha e o da Guasepe, em frente aos prédios amarelos do IAPI. A gente chamava aquele lugar de, obviamente, Rua da Tendinha. Gostávamos de jogar bola lá. Então, quando ia buscar pão e leite, se tinha algum joguinho, eu sempre parava para dar uma olhada e, de repente, arrumava um furo e entrava no jogo e me distraía e deixava o pão e o leite ao lado da goleirinha de chinelo de dedo e a minha mãe, em casa, dava pulos de raiva.

Mas é claro que, depois de aplicar alguns dos meus desconcertantes dribles da levantadinha, acabava voltando para casa com o pão e o leite. Aí a mãe me xingava e ia fazer o café da tarde. Cortava o pão em fatias da espessura de um dedo polegar, passava manteiga e chimia e botava na minha frente, sobre um pires. Ao lado, o café com leite fumegante.

Aí é que está. Desisti do café com leite. Sabe por quê? Porque não consigo mais estabelecer o equilíbrio, aquele tom exato de marrom que a minha mãe alcançava ao derramar café na xícara de leite. Eu adoçava com uma colher e meia de açúcar, precisamente uma colher e meia e... ah... o café com leite perfeito! Agora, quando vou tomar café com leite acontece como na política brasileira, ou fica muito claro ou muito escuro. Então, aborrecido com os extremos, desisti do café com leite e da política brasileira.

Mas o que realmente importa, filosoficamente falando, é o pão semolina de meio quilo. Era um pão grande, alimentava a família toda por um dia inteiro. E, agora, o que é feito do pão semolina de meio quilo? Ninguém sabe, ninguém viu. Agora, o que vige é o cacetinho, como chamamos no Rio Grande amado, um pãozinho pequeno, do tamanho do punho do Paulo Miranda, do Grêmio, que atende a um único comensal.

Mas não é só isso. Não. Temos também a garrafinha de cerveja long neck, enquanto antes o que havia era o casco de cerveja de 660ml, uma cerveja que o garçom botava na mesa com orgulho e certo estrondo, e você partilhava com os amigos sorrindo. E quem não bebia cerveja, quem preferia Minuano Limão, o que tinha? Tinha o tamanho família, com um litro e pouco, que servia todas as crianças da casa. E não fica por aí! Ah, não. Porque o sorvete mais excitante que havia era o tijolo da Kibon, um sorvete que era, bem, um tijolo. Quando a mãe comprava um tijolo, meu Deus, que luxo. Uma época eles lançaram o Napolitano, com não um, nem dois, mas TRÊS sabores. Quanta fartura. Quanta alegria.

Você entende o que quero dizer? Quero dizer que nós compartilhávamos o alimento e a bebida. As porções generosas vinham à mesa e as dividíamos entre nós. O que se tornava parte de nós tornava-se também parte dos outros que estavam à mesa conosco. Nós comungávamos a cada almoço, a cada jantar, a cada café da tarde. Hoje, não. Hoje é cada qual com seu pãozinho, com sua cervejinha, com seu sorvetinho. Individualistas! Foi no que nos transformamos. Não é à toa que não existe mais união no Brasil. Nos esquecemos do grande ensinamento da civilização cristã. Nos esquecemos que temos de repartir o pão.

DAVID COIMBRA

04 DE JUNHO DE 2020
ARTIGOS

Direcionar energias para plantar o amanhã

"Se soubesse que o mundo se acaba amanhã, eu ainda hoje plantaria uma árvore." Essa frase nos traz uma reflexão profunda sobre o mundo hodierno e os desafios do amanhã. O momento pelo qual passamos nos convida a repensar prioridades. Vimo- nos obrigados a nos privar do convívio social e de expressar a afetuosidade que caracteriza o nosso povo para mitigar a propagação do novo coronavírus, para preservar a vida humana. Ao mesmo tempo, o número de municípios que decretaram estado de emergência devido à forte estiagem que atinge o nosso Estado superou a marca de 400 na última semana de maio, sendo adotadas medidas para garantir o abastecimento de água para consumo humano nas regiões em que o nível dos rios atingiu limites mínimos.

Neste contexto, chegamos à Semana Mundial do Meio Ambiente com o compromisso de direcionar nossas energias para plantar o nosso amanhã. Com o novo código ambiental, que dá maior clareza ao cumprimento da lei, o Estado trouxe expressamente o bioma Pampa para orientar a sua proteção. A ênfase na fiscalização e apoio dos municípios reduziu em 15% o desmatamento da Mata Atlântica no Estado nos últimos anos. 

Após assinar o contrato de PPP da Corsan que ampliará o tratamento de esgoto para 87,3% em nove municípios da Região Metropolitana em até 10 anos, retomamos o Plano Estadual de Saneamento para diagnosticar e indicar onde há maior urgência de atuação nesse setor que tanto impacta a saúde. A antecipação das obras de linhas de transmissão de energia permitirá a retomada de investimentos em geração eólica e hídrica. Ainda, estamos atuando para regulamentar a lei de combate às mudanças climáticas, para projetar e executar ações mais efetivas para o seu enfrentamento.

Semeando hoje, com a proposição e execução conjunta de políticas públicas que estimulem a proteção do meio ambiente e, individualmente, com hábitos de consumo consciente e de educação ambiental diários, as nossas gerações futuras colherão saúde e bem-estar.

ARTUR LEMOS JÚNIOR


04 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O preço do centrão

Ao contrário do verificado em governos anteriores, inexistem até agora indícios de corrupção sistêmica na gestão de Jair Bolsonaro. Mas, aflito com o risco de um processo de impeachment, o presidente não hesita em descumprir uma das principais promessas de campanha e aderir abertamente ao toma lá da cá e se associar a raposas da chamada velha política, em nome de sua sobrevivência. Sem nenhum esforço para formar uma base sólida em torno de um projeto consistente de país desde que assumiu, Bolsonaro paga agora um preço caro ao ter de ceder a indicações do centrão uma série de cargos que gerenciam orçamentos polpudos.

Acende todos os sinais de alerta a chegada desse amplo grupo de partidos sem ideologia identificável ao núcleo parlamentar de apoio ao Planalto, devido à reputação questionável de diversos de seus líderes, histórico de fisiologismo e envolvimento em escândalos. O governo, até agora caracterizado por traços autoritários e descoordenação administrativa, passa a correr um sério risco de ter uma de suas últimas bandeiras rasgadas. Afinal, foram rifados órgãos e autarquias que movimentam quantias vultosas, como o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, com orçamento de R$ 54 bilhões.

E o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, com R$ 1 bilhão, que passam às mãos de legendas que não se notabilizam exatamente por terem um programa robusto de desenvolvimento para o Brasil, mas por negociatas por onde passaram. Instituições fiscalizatórias passam a ter de estar cada vez mais atentas a contratos e licitações desses e de outros braços públicos agora controlados pelo centrão, que, no total, teriam orçamentos somados de R$ 110 bilhões. O Banco do Nordeste, concedido ao bloco, pode ter o presidente empossado na terça-feira exonerado do cargo por irregularidades anteriores. Mostra algum cuidado, embora o seu currículo devesse ter sido checado antes.

Formado por representantes de siglas como PP, PL, Republicanos, PTB, PSD, DEM, MDB e Solidariedade, o centrão teria cerca de 200 votos na Câmara, o suficiente para impedir um eventual afastamento do presidente, que precisaria ter pelo menos 172 dos 513 deputados. Muitos são conhecidos de episódios como o mensalão e a Lava-Jato. Roberto Jefferson (PTB), Valdemar Costa Neto (PL) e Arthur Lira (Progressistas) são alguns dos luminares desse grupo, com um passado recente nada recomendável e que agora surgem para formar uma providencial tropa de choque. Os R$ 6,2 bilhões empenhados em emendas apenas em abril reforçam a percepção de que a troca de favores, prática que Bolsonaro se comprometeu a não utilizar, prossegue em Brasília. É a conta da desarticulação com o Congresso.

Como obscuro deputado do baixo clero por quase três décadas, o presidente assistiu a seus novos parceiros aderirem a governos, mas também abandonarem o navio perto do naufrágio. A proteção, portanto, pode ser fugaz, conforme se desenrolem os acontecimentos das crises política, econômica e sanitária. Como um predador oportunista da natureza, o centrão sabe se aproveitar de uma presa frágil, como é o governo Bolsonaro, mas também não se constrange em se afastar da carcaça quando os riscos são maiores do que as conveniências.

OPINIÃO DA RBS