sábado, 4 de maio de 2019



04 DE MAIO DE 2019
DAVID COIMBRA

O melhor e a mais bela

O Guga Chacra anda dizendo que o Messi é melhor do que Pelé e muita gente tem concordado com isso. Me irrita. O Guga Chacra, se você não sabe, é comentarista de política internacional da Globo News. Ele aparece sempre descabelado, como se tivesse vindo para a TV de moto e sem capacete. Um estilo. Corre a lenda de que a graciosa atriz Natalie Portman, certa feita, abordou o Guga Chacra em uma festa com uma conversinha do tipo:

- Frequentas a casa?

E ele só levantou uma sobrancelha, disse "sorry" e explicou:

- Já tenho namorada?

No IAPI o chamariam de galo cinza.

O Guga Chacra conhece muito de política internacional. Se você quiser saber de Oriente Médio, fale com ele. Se quiser saber de quem é melhor do que Pelé, fale comigo.

Direi quem foi melhor do que Pelé.

Se bem que essa história de "o" melhor é relativa. Quem foi melhor: Leonardo da Vinci ou Michelângelo? Sexta, no Timeline, lembrei-me desses dois gênios, a propósito dos 500 anos da morte de Leonardo. Eles eram rivais, embora Michelângelo fosse bem mais jovem. Na verdade, suspeito que Michelângelo invejasse Leonardo. Ambos eram homossexuais, mas Leonardo elevava-se a 1m90cm de altura, era tão forte que vergava uma ferradura com as mãos nuas e tão bonito que enfeitiçava homens e mulheres, enquanto Michelângelo era baixo, meio corcunda e tinha o nariz quebrado por um soco que levara em uma briga juvenil. Leonardo estava sempre alegre e vivia cercado de pessoas, e Michelângelo, casmurro e misantropo, afastava-se delas.

Se fosse escolher um dos dois como parceiro de bar, para com ele partilhar chopes cremosos, gelados e dourados, não tenho dúvida de que preferiria Leonardo, mas, como artista, sou mais Michelângelo. O David, o Moisés, a Pietà e o teto da Capela Sistina são talvez as maiores obras da arte humana de todos os tempos, amém.

Mas é claro que você pode ficar com a Monalisa e a Última Ceia, tudo bem. Não fica ruim para você.

Recordo-me agora de outra rivalidade célebre, duas grandes atrizes do cinema antigo: Joan Crawford e Bette Davis. Elas se odiavam de uma forma que só mulheres conseguem odiar. Bette era sofisticada e vinha de uma família rica. Joan era belíssima e vinha de uma família pobre.

A propósito de Joan: uma vez, fui entrevistar o ex-técnico, ex-jogador, ex-juiz e ex-comentarista Oswaldo Rolla, o Foguinho, em seu apartamento na Senhor dos Passos. A folhas tantas, Foguinho decidiu me mostrar imagens do seu passado. Colheu uma caixa de papelão do fundo de um armário e de lá foi tirando recortes de jornais e fotos de revistas que guardara por décadas. Uma delas era de Joan Crawford. Foguinho olhou para a foto por algum tempo, suspirou e disse:

- Minha namorada?

Joan exercia tal poder sobre os homens e, provavelmente por isso, Bette a detestava. Um dia, Bette disse sobre Joan:

- Ela dormiu com todos os astros da MGM, menos a Lassie.

Em certo momento, as duas se interessaram pelo mesmo homem. Quem ele escolheria? A mais bonita ou a mais requintada? Joan, a mais bonita, ganhou. Mais tarde, ambas acabaram participando de um mesmo filme. Numa cena em que Bette tinha de esbofetear Joan, ela não perdeu a chance e mandou-lhe A MAIOR BOMBA na cara. A outra teve de ir para o hospital.

Joan acabou morrendo antes de Bette. Entrevistada a respeito, Bette declarou:

- Nós não devemos falar coisas ruins sobre os mortos. Por isso, digo: Joan Crawford está morta, que bom.

Bette Davis era A Malvada.

Mas claro que essas duas não foram as maiores atrizes da história do cinema, nem as mais belas. Apenas alimentavam a maior rivalidade. Pelé experimentou inúmeras rivalidades, embora não as alimentasse. Antes de ele jogar, diziam que Friedenreich, Zizinho ou Di Stéfano podiam ser melhores. Enquanto jogava, a comparação era com Garrincha. Ele, Pelé, a objetividade, o profissionalismo, a fortuna, o sucesso em tudo o que fazia. Garrincha, a alegria irresponsável, o talento inato sem esforço, a ingenuidade, o triste fim.

Uma vez, Garrincha, então jogador do Botafogo, foi visitar a concentração do Cruzeiro de Minas, entrou no quarto de Dirceu Lopes e afirmou:

- Vim ver o maior jogador do Brasil.

Não era. Dirceu Lopes era bom, mas nunca chegou perto de Pelé, nem do próprio Garrincha e nem de outros tantos da época, como Gérson e Rivellino.

Depois que Pelé parou, os argentinos ousaram dizer que Maradona era melhor. Também não era. Como não o é Messi.

Melhor do que Pelé? Só um: Laerte, o Urso. Craque do Próspera, de Criciúma, goleador irresistível, driblador imparável, velocista inalcançável, Laerte, o Urso, só não refulgiu na Seleção Brasileira porque não conseguia jogar fora da sua cidade natal. Era uma coisa que tinha. Uma limitação. Um trauma, talvez. Laerte, o Urso: dentro de Criciúma, melhor do que Pelé, muito melhor do que Messi. Toma essa, Guga Chacra!

DAVID COIMBRA

04 DE MAIO DE 2019
MÁRIO CORSO

As raízes do ódio

Semana passada, no caderno Vida, J.J. Camargo dedicou-se a entender os odiadores. Esses personagens que enchem as redes sociais, e as caixas de comentários dos sites, com esgoto. Segundo ele, essa praga sempre existiu, porém hoje ganha visibilidade graças à internet. A tese dele é que o ódio seria a pauta de quem não tem inserção real no mundo: pela falta de protagonismo, passam a agredir quem a consegue. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, e atacam quem surge ao acaso na sua mira. Seriam medíocres e incompetentes a ladrar para a caravana que passa.

Pego carona no tema pela importância do assunto. Acrescentaria: a raiz do ódio está na sensação de impotência do odiador. Hannah Arendt dizia que, na política, quanto mais isolado, desenraizado e ilegítimo um grupo for, mais seus métodos serão violentos. Quando um partido passa a ter legitimidade, raízes sólidas na comunidade e autoridade moral reconhecida, seu discurso é pacífico.

Na micropolítica bravateira da internet, vale a mesma lógica. Quanto mais alguém é, ou sente-se, um ninguém, mais violento será seu discurso. Só assim ele pensa que será ouvido. Os sábios podem falar baixo, pois os outros param para escutá- los. Ao colérico restam os gritos, os palavrões, as ofensas e as ameaças. Sem estes ingredientes baixos, seu raciocínio, ou melhor, a falta dele, não comove.

Acredito que o odiador típico é alguém sem plausibilidade e sem público, uivando desde seu beco periférico. Busca nas redes sociais um canal para ser ouvido, e faz o que todos fazemos: procura reconhecimento. Se não conseguiu por vias construtivas, tenta o avesso, pela destruição. Engaja outros companheiros, igualmente isolados, para juntos e unidos pelo ressentimento serem profetas de causa nenhuma.

Existem odiadores com canais abertos, bem conhecidos e com seguidores. Agora não se trata de falta de ouvidos, a impotência neste caso está nas teses. Tomem o exemplo do feminismo: como não há argumentos racionais contra a demanda de paridade social entre homens e mulheres, só resta ofender quem a reivindica. Os arrazoados contra as mulheres que teimam em não ser recatadas e do lar chegam encharcados de fel.

Os odiadores não têm o que dizer fora ofensas, não possuem pautas propositivas. Seu universo é o negativo, é destruir o que não entendem e o que os desacomoda. Basta lhes dar espaço para ver que de lá não sai nada, a não ser mais agressões, pois é só o que sabem fazer.

Quanto às atitudes práticas: jamais discuta com um raivoso. É perda de tempo. Lembre-se: não existe um idiota discutindo, são sempre dois. Se você mordeu a isca, já perdeu. Enquanto não envolver crime, como por exemplo ofensas raciais, melhor deixá-los falando sozinhos. Tente perdoar e ter paciência, afinal, não sabem o que dizem...

MÁRIO CORSO

sexta-feira, 3 de maio de 2019



Lançamentos 

Quando éramos filósofos - A história dos alunos de Merlí (Faro Editorial, 288 páginas, R$ 44.90), de Héctor Lozano, criador da famosa série sobre filosofia Merlí, sucesso da Netflix, é o spin-off da série. Relembra momentos na Escola Àngel Guimerà, narrados por Bruno, filho de Merlí, como a chegada do pai ao colégio para assumir a cadeira de filosofia. Como se encontrar na escrita - 

O caminho para despertar a escrita afetuosa em você (Bicicleta Amarela-Rocco, 222 páginas), da jornalista e escritora Ana Holanda, conduz o leitor a descobrir sua escrita afetuosa, a encontrar sua própria voz e a expressá-la da melhor forma para colocar no papel, abandonando o medo de compartilhar o resultado. 

As alegrias da maternidade (Dublinense, 318 páginas), da grande escritora Buchi Emecheta, nascida em Lagos, traz a pungente história de Nnu Ego, filha de um grande líder africano, enviada como esposa a um homem da capital da Nigéria. Ela quer ser mãe, ser mulher "completa". Se submete a condições precárias, luta pela integridade da família e pelos valores de seu povo.   

A propósito... 

Dia do Trabalho é dia de colocar os sonhos em dia. Hora de desejar que muitas pessoas trabalhem com a seriedade, o prazer e a alegria de uma criança brincando. Dia do Trabalho é hora de sonhar com um mundo com menos desigualdade e mais solidariedade. A luta entre o capital e o trabalho segue complicada, mas no final a democracia tem que vencer. 

Nunca é demais lembrar que, provavelmente, a parte mais bonita e importante da história da humanidade, seja a história do trabalho humano. Trabalho de anônimos e de celebridades, de pessoas "comuns" e de gênios. Para finalizar, sempre ele, Mario Quintana: o trabalho é a farra dos velhos.   - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/04/681961-classico-norte-americano.html)


Jaime Cimenti

LIVROS Edição impressa de 03/05/2019. Alterada em 02/05 às 21h32min 


Clássico norte-americano 


O grande escritor e jornalista Ernest Hemingway, Nobel de Literatura e autor da imortal novela O velho e o mar, disse: "Toda a moderna literatura norte-americana foi iniciada com um livro chamado Huckleberry Finn, escrito por Mark Twain. Não existiu nada antes. E desde aí nunca mais voltou a existir nada de tanta qualidade".

Há quem diga que Hemingway exagerou, mas ninguém nega a importância enorme de Aventuras de Huckleberry Finn, que acaba de ser lançado pela Editora Zahar, na Coleção Clássicos, em bela edição encadernada, comentada e ilustrada com mais de cem ilustrações originais de E.W. Kemble. A tradução, a apresentação e as notas são do professor José Roberto O'Shea, da Universidade Federal de Santa Catarina e autor de mais de cinquenta traduções, entre as quais livros de James Joyce e Shakespeare.

A tradução traz o texto integral e respeita a famosa inovação linguística do original, recriando suas nuances e variações. Aventuras de Huckeleberry Finn, romance fundador, é considerada a obra-prima do genial escritor e jornalista Mark Twain, autor de Aventuras de Tom Sawyer, entre outros livros essenciais. Huckeleberry escapa de casa para fugir do pai bêbado e violento e embarca numa jangada para subir o Mississippi, numa série de aventuras.

O companheiro de viagem é o escravo negro fugitivo Jim. Os dois viverão muitos episódios envolvendo racismo e escravidão e o encontro com Rei e Duque, uma das maiores duplas de vigaristas da história da literatura.

O puritanismo religioso e cultural, a brutalidade das relações humanas do "mundo adulto", os valores corruptos e hipócritas da sociedade e o dilema que Huck enfrenta sobre entregar ou não o amigo às autoridades, estão na criativa obra, assim descrita pelo grande escritor argentino Jorge Luis Borges: "O livro não é burlesco nem trágico: é, simplesmente, um livro feliz". Realmente, a narrativa em primeira pessoa pelo próprio Huck, mostrando a viagem de formação de um menino rebelde que se une ao perseguido escravo negro, é uma das melhores da ficção mundial de todos os tempos. 

Dia do Trabalho Quarta-feira, 1/5, do Dia do Trabalho.

Sempre uma boa oportunidade para pensar sobre o trabalho. Trabalho é, quase sempre, a relação mais longa e duradoura que temos na vida, especialmente uma relação conosco mesmo, onde podemos ter prazer e dor. Nos envolvemos com trabalho durante 20, 30 ou até 60, 70 ou mais anos na vida. Com a média de vida aumentando e a reforma da Previdência, os brasileiros vão trabalhar mais tempo. Já acontece em alguns países do exterior, mas é complicado comparar o Brasil com a Dinamarca, por exemplo. A palavra trabalho tem uma origem terrível.

Vem do latim tripalium ou trepalium, antigo instrumento com três paus aguçados utilizado na lavoura e que a partir do século VI passou a ser também um instrumento romano de tortura. Daí a associação de trabalho com suplício, escravidão, perda de liberdade e condição inferior. Desde muitos milênios atrás, quem pôde se livrou do trabalho ou arrumou alguém para fazer o serviço.

Com a Revolução Francesa e com a Revolução Industrial, o trabalho passou a ser respeitado e valorizado e aí passaram a dizer que o trabalho enobrece. Depois que a pessoa fica nobre, bom aí só quer tarefas políticas e intelectuais. Algumas pessoas e alguns regimes políticos botam os vizinhos e os demais cidadãos a pegar no pesado, enquanto defendem, ardorosamente, os operosos trabalhadores. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Nem tanto ócio, nem tantas horas de trampo.

Ócio digno e criativo é bom, especialmente se os outros pagarem a conta. Liberdade é não ter que trabalhar, mas geralmente a preguiça e o ociosidade são as mães dos outros vícios. Na França, por exemplo, muitos querem uma jornada de umas 20 horas semanais, com salários dignos, boas condições de trabalho e direitos assegurados. Uma relação de trabalho melhor existe, mas é cara e a grana anda escassa.

Oito horas de descanso, oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito schillings por dia foi a receita que nos deixaram os trabalhadores da época da revolução industrial. Antes trabalhavam doze, treze, catorze horas por dia. Em alguns lugares a receita até melhorou, mas em nosso mundo globalizado, onde tem muito mais trabalho do que emprego, em muitas situações, até em empresas grandes e mesmo no estrangeiro a coisa não está fácil.

De mais a mais, no plano global, muitas vezes cidadãos, empresas e governos de países ricos aproveitam a mão de obra farta e barata de países pobres ou em desenvolvimento para se dar bem. Na China até pouco tempo atrás as pessoas trabalhavam por um dólar por dia, produzindo muitas coisas que compramos aqui e vivendo em duras condições.

No mundo e em especial em grandes capitais, boa parte do trabalho braçal e mais duro é executado por imigrantes estrangeiros, para que os nacionais e turistas tenham transporte, quarto limpo, comida boa, segurança e outras necessidades básicas atendidas. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/04/681961-classico-norte-americano.html)


03 DE MAIO DE 2019
DAVID COIMBRA

A sardinha, essa desprezada

Primavera, aqui, é coisa séria. Quem vive nos trópicos não faz ideia do quanto. Tente imaginar: você já passou por seis meses de frio. Durante parte desse tempo, o dia terminava às quatro e meia da tarde. Sabe o que é isso? Às 16h30min, está escuro. Quando o Bonner dá boa noite, é como se fossem três da madrugada, você quer se homiziar no aconchego dos cobertores.

Mas, um dia, a primavera chega. Ela vem devagar e, de repente, explode. E as árvores estão cobertas de novo com folhas, os gramados estão verdejantes, há flores por todo lado e o sol continua no céu até as 20h. É verdade que, no começo de maio, a temperatura ainda oscila entre os quatro e os 10 graus Celsius, o que talvez lhe pareça frio, mas não é. Acredite: não é.

Então, ontem de manhã, enquanto caminhava com meu filho em direção à escola dele, olhava para o colorido das ruas, ouvia o chilrear dos passarinhos, cantarolava É Primavera, que o Cassiano fez para o grande Tim, e pensava que o verão não merece todo o prestígio que tem. Primavera e outono, discretos, ponderados, suaves como beijo de mãe, são muito mais agradáveis. O que lhes falta é marketing.

Tudo, na verdade, é marketing. Chico e Caetano são monstros? São. Claro que são. Mas Belchior e Paulinho da Viola não lhes ficam atrás em musicalidade e poesia. Todo mundo fala de Philip Roth, mas ninguém destaca a capacidade de envolver o leitor de um Ed McBain. Você já leu Ed McBain? Não? Pois repetirei a ordem que o arcanjo Gabriel deu ao profeta Maomé em uma caverna no deserto:

- Leia!

E a sardinha? As pessoas se refocilam com atum, as pessoas pedem salmão nos restaurantes, mas a sardinha é desprezada. Você diz que vai fazer massa com sardinha, um dos pratos preferidos do meu amigo Admar Barreto, e as pessoas torcem o nariz.

Sabe o que é isso?

Ignorância.

Preconceito.

Vá para Portugal e se espante ao constatar que, lá, na Pátria-Mãe, a sardinha tem tanta moral quanto o bacalhau (rimou!). Os portugueses amam a sardinha, vão a restaurantes especializados em sardinha e, literalmente, cantam as delícias da sardinha. Amália Rodrigues, a maior cantora de fado da história do mundo de todos os tempos, um dia entoou:

"De uma sardinha fresquinha

Diga-me lá quem não gosta

Salpicadinha, viva da costa

Assim vivinha,

Chegadinha de Cascais

Prateadinha

De comer, chorar por mais

Quem é que não gosta

Quem é que não gosta

De uma sardinha

Salpicadinha da costa".

Os portugueses comem sardinha com pão e é muito bom (rimou de novo!).

Mas a sardinha não tem marketing. A sardinha é circunspecta. Como certos jogadores de futebol.

Ramiro, pequeno, magricela, egresso de Caxias, Ramiro chegou ao Grêmio em silêncio e, em silêncio, transformou-se em um dos jogadores mais importantes do time multicampeão. Sua saída deixou o Grêmio manco. O meio-campo puxa de uma perna sem ele. Só agora surge um jogador capaz de substituí-lo: Thaciano tem a mesma força, a mesma movimentação, a mesma capacidade de entrega e a mesma agudeza de Ramiro. Será titular? Talvez não: como Ramiro, ele é sóbrio. Sobra-lhe competência, falta-lhe exuberância. Falta-lhe marketing. Marketing é tudo.

DAVID COIMBRA


03 DE MAIO DE 2019
RBS BRASÍLIA

Tudo depois da reforma

O vice-presidente, Hamilton Mourão, condiciona a liberação dos 30% cortados das universidades federais à aprovação da reforma da Previdência. Para o general, o problema não são os pelados ou as balbúrdias como disse o ministro Abraham Weintraub (Educação), mas o contingenciamento orçamentário promovido pelo Ministério da Economia. Embora continue sendo lamentável, faz mais sentido. Mourão afirmou que, se a economia voltar a crescer, a verba será descongelada. Aliás, esse discurso começa a tomar conta da Esplanada. 

É jogada ensaiada. Quem vai ao Ministério de Infraestrutura em busca de dinheiro para estradas também ouve a mesma mensagem. Com o rombo no sistema previdenciário, é óbvio que as mudanças nas aposentadorias são necessárias, o sistema não é sustentável. Mas também não é panaceia. É importante também que o governo coloque em prática outras medidas para estimular a economia, inclusive priorizando as políticas para educação.

EFICIÊNCIA

O ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) afirmou à coluna que o governo vai medir o desempenho das instituições federais com indicadores de eficiência, readequando os recursos com base em resultados e métricas. Onyx diz que é uma questão da qualidade do gasto. Usou o exemplo de Sergipe para dizer que as universidades privadas são mais eficientes do que as públicas.

DO BAÚ

Ao longo de 35 minutos de entrevista ao Programa Silvio Santos, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a reforma da Previdência e falou sobre a polêmica dos radares nas rodovias e turismo, entre outros assuntos. A entrevista irá ao ar no domingo.

TAPETE VERMELHO

Importantes para as negociações da reforma da Previdência, os governadores terão tratamento VIP na quarta-feira, em Brasília. Eles serão recebidos pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Abraham Weintraub (Educação) e por líderes partidários. Na pauta, a crise das finanças: Lei Kandir, securitização, seção onerosa, Fundeb e Plano Mansueto, como vem sendo chamada a proposta do governo para o reequilíbrio fiscal dos Estados. O governador Eduardo Leite irá participar.

CAROLINA BAHIA

+ ECONOMIA

HIPOTECA REVERSA, A OPÇÃO DO PLANALTO

A ideia da hipoteca reversa, em estudo na equipe econômica como uma das medidas para tentar acelerar o crescimento da economia, faz parte de reformas microeconômicas para que o mercado possa funcionar melhor, caracteriza Felipe Garcia, gaúcho da Universidade Federal de Pelotas que integra a equipe da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia. Ainda não há definição de como será apresentada a proposta, se por medida provisória ou projeto de lei, e não há data prevista para a regulamentação.

Garcia detalha que é o oposto da hipoteca normal, em que se cria uma dívida a partir de um imóvel que só se transforma em patrimônio no longo prazo. No modelo reverso, o proprietário de uma casa ou apartamento pode começar a receber pagamentos mensais, sem desocupar o imóvel, que só é entregue ao banco no final do contrato, geralmente de longo prazo.

- Há famílias com menos filhos e arranjos domiciliares com só um idoso, sem filhos ou netos. Assim, podem gastar a poupança que acumularam - afirma.

É adotado em países como Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Espanha e Coreia do Sul. Em vários desses casos, é aplicado para pessoas idosas, como forma de aumentar a quantidade de recursos disponíveis nessa etapa da vida, quando a renda diminui.

- É uma alternativa ao crédito consignado do INSS, que acaba aumentando a dívida dessa população, porque sua capacidade de gerar renda é menor. Estamos desenhando o marco regulatório livre, quem vai definir faixa são as instituições financeiras, baseadas em cálculo atuarial e gestão de risco.

Embora concorde que os bancos estão neste momento com grande estoque de imóveis, resultado dos elevados índices de inadimplência e dos distratos entre consumidores e incorporadoras, Garcia pondera que o modelo só vai representar aumento de salas, casas ou apartamentos em carteira dentro de 10 ou 15 anos. Além disso, pondera, dentro do marco regulatório, os bancos poderão criar outros produtos, mecanismos, assim como fundos de investimento imobiliário:

- As possibilidades e opções virão naturalmente.

REDE GLOBAL NA CAPITAL

Quem conhece bem o mercado já esperava, mas agora é oficial: a WeWork, espécie de Uber do coworking, estreia até dezembro em Porto Alegre. Lucas Mendes, diretor-geral da empresa no Brasil, detalha que o primeiro espaço WeWork na Capital será no edifício Mr. Shan Business Offices, na esquisa da Avenida Carlos Gomes com a Rua João Caetano.

- Porto Alegre tem demanda reprimida, vamos começar com um prédio, mas logo teremos outros.

Terá capacidade para 700 clientes, de profissionais liberais a multinacionais. Além das áreas compartilhadas divertidas, usuários da WeWork podem usar a conexão e a rede física global em 27 países, de Estados Unidos a Argentina, passando por Índia e China.

Por meio de aplicativo, o cliente - chamado de "membro" na rede - reserva espaço temporário em qualquer unidade no mundo. No Brasil, detalha Lucas, a WeWork não atua em franquia, tem conexão direta com a central americana. Com os proprietários de imóveis nos quais se instala, usa compartilhamento dos aluguéis que cobra. A confirmação da chegada da WeWork a Porto Alegre coincide com a notícia dos primeiros passos da oferta inicial de ações nos Estados Unidos. Nas especulações de mercado, a avaliação da terceira maior startup dos Estados Unidos varia entre US$ 20 bilhões e US$ 40 bilhões. Lucas diz que não comenta, mas faz questão de lembrar que "faz parte da mesma coisa". 

O MAU HUMOR DO MERCADO ONTEM (DÓLAR SUBIU PARA R$ 3,96 E BOLSA RECUOU 0,86%) TEVE ORIGEM NOS EUA. O FEDERAL RESERVE ESFRIOU OS ÂNIMOS SOBRE UM POSSÍVEL CORTE NO JURO AMERICANO. MAS TAMBÉM TEVE VENTO GELADO DE INATIVIDADE PARLAMENTAR LOGO, DE REFORMA DA PREVIDÊNCIA.

A economia de Caxias do Sul registrou crescimento de 4,6% no primeiro trimestre, conforme a Câmara de Indústria de Comércio e a CDL locais. Em março, o avanço foi de 3,1% ante fevereiro.

MARTA SFREDO


03 DE MAIO DE 2019
EDUARDO BUENO

A caixa de pandora e o Banco do Brasil

Sou o biógrafo oficial da Caixa Econômica Federal. Orgulhoso biógrafo, aliás. Em 2001, a convite do então presidente Fernando Henrique Cardoso, escrevi a história dessa instituição mais que centenária, fundada em janeiro de 1861 por D. Pedro II e pelo barão de Mauá para ser "o banco das classes menos favorecidas". Aceitei a tarefa só pela grana, achando que a história seria uma chatice. Errei feio: o governo me tungou 33% na fonte, mas a história era ótima. 

Pude resgatar a trajetória do primeiro cliente da Caixa, o incrível professor gaúcho Antonio Pereira Coruja (1806-1889); encontrei um conto fabuloso (e perdido) de Machado de Assis sobre o banco (além de seu testamento legando os depósitos em sua caderneta); achei um trecho de Lima Barreto debochando da poupança e "provei" que a Caixa apoiara a Semana de Arte Moderna de 1922.

Levei nove árduos meses para concluir a obra. E ela se tornou a primeira (e até agora única) história da Caixa, o que me leva a pensar no que os formandos em História gastam seu tempo e em que tipo de tese.

Graças ao livro, adquiri a convicção de que a Caixa é nossa, foi feita para nós e surgiu para que todos possamos ter casa própria - e todas as vezes, e não foram poucas, que ela se desviou desse processo foi só porque fomos omissos, incompetentes ou desatentos o bastante para permiti-lo. Escrito com total liberdade editorial, o livro celebrou os 140 anos da Caixa. Dez anos mais tarde, em 2011, a direção do banco me procurou para atualizar a obra para o sesquicentenário da Caixa. Quando a nova edição já estava na gráfica, trechos originais narrando falcatruas cometidas no banco nos governos Sarney e Collor foram suprimidos - sem meu consentimento. Ocorre que o PT estava no poder e Collor e Sarney tinham virado aliados (ou afilhados?) de Lula, o poderoso chefão.

Cabe lembrar, porém, que o PT tornou o banco mais inclusivo, pois o Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida eram atribuições da Caixa. Por isso, seus comerciais abriram o leque e o "povo" e as "minorias" passaram a fazer parte deles - até porque a Caixa nasceu para ser "o banco das classes menos favorecidas". Em acesa competição com a Caixa, o Banco do Brasil trilhou igual caminho em seus anúncios. E assim iam as coisas até que o atual Messias do Brasil decidiu censurar o mais recente comercial do BB - pois não seguia "a linha" dele. Que "linha" é essa nem quero saber.

O que sei é que atos assim conduzem esse governo em direção à lata de lixo da História. Só acho que alguém deveria avisá-los de que lá é um lugar horrível, já habitado por outros censores. Afinal, só estou escrevendo isto porque o presidiário de Curitiba não me censurou (como ao livro), nem conseguiu "regulamentar a mídia", como lamentou não ter feito em entrevista tão constrangedora quanto tantas das declarações do atual presidente, seu suposto antípoda.

Mas eles passarão. E a Caixa e o Banco do Brasil passam a limpo.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 2 de maio de 2019



02 DE MAIO DE 2019
DAVID COIMBRA

Por que os professores de História são de esquerda - final

"Em que lugar o comunismo deu certo?", é o que sempre perguntam debatedores de direita quando querem encurralar os de esquerda. Eles têm razão. O comunismo puro não deu certo em lugar algum. Mas os debatedores de esquerda poderiam rebater: "E em que lugar o capitalismo puro deu certo?".

Resposta: em nenhum.

O capitalismo puro, em que o Mercado tem liberdade completa e se autorregula, nunca funcionou bem. Quando o liberalismo desenfreado vigorou, houve esbulho e opressão dos mais fracos a curto prazo e, a médio e longo prazo, implosão do próprio sistema.

Quer um exemplo luminoso? Este lugar em que hoje vivo, os Estados Unidos da América.

Ontem foi Dia do Trabalho em quase todo o mundo, menos nos Estados Unidos. Ironicamente, o 1º de maio foi instituído como Dia do Trabalho devido a um fato ocorrido NOS Estados Unidos: em 1886, uma manifestação de trabalhadores foi violentamente reprimida pela polícia. Protestantes e policiais morreram. Em decorrência, alguns operários foram presos, levados a julgamento, e cinco receberam nada menos do que a pena de morte. Que se cumpriu: eles foram executados na forca.

Esses operários protestavam contra os baixíssimos salários e as duríssimas condições de trabalho, pediam jornada diária de oito horas (era de 13), folga semanal e férias. Os patrões não queriam ceder porque, na época, eles podiam tudo - os Estados Unidos eram o que mais se aproximava do capitalismo puro. Assim, os empresários obtinham lucros obscenos e, na prática, mandavam no país. Era o tempo dos chamados "barões ladrões", megaempresários corruptos que não tinham nenhum escrúpulo para ganhar dinheiro. As cidades que sediavam esse capitalismo incontrolável eram infernos para se viver: em Nova York e Chicago, proliferavam cortiços infectos e gangues violentas. Lembre-se de que outra efeméride internacional, o Dia da Mulher, é comemorada nessa data porque, num 8 de março, mais de cem mulheres morreram queimadas em um incêndio de uma fábrica de tecidos de Nova York, em 1911.

Mas, como sói acontecer, o liberalismo sem limites se suicidou. Isso se deu na crise de 1929. A partir deste marco, os Estados Unidos foram se afastando do capitalismo puro para jamais voltar.

Só que esse país é uma federação de fato, e não apenas fictícia como a do Brasil. Cada Estado tem, realmente, autonomia, quase como se fosse uma nação independente. É interessante, porque se torna um laboratório socioantropológico. Então, seja você o cientista, investigue entre as pessoas que moram nos Estados Unidos, tente descobrir quais são os melhores Estados para se viver. Você descobrirá que são os que têm mais leis de proteção social, controle de armas e garantias aos trabalhadores. Como Massachusetts, de onde escrevo agora. Massachusetts, creia, é uma espécie de Suécia dentro do território americano. É um Estado de bem-estar social funcionando no país campeão do capitalismo.

Agora estou chegando ao destino que busco a semana inteira. Quero declarar que os professores de História, os filósofos, os sociólogos, eu e você, se examinarmos com critério o que aconteceu e o que acontece no mundo, chegaremos à irretorquível conclusão de que comunismo perfeito e capitalismo perfeito são iguais a seres humanos perfeitos: não existem.

A fórmula de sucesso é não ter uma fórmula de sucesso: uma sociedade precisa adequar-se à realidade. Como Darwin já ensinou, os vencedores não são os mais fortes; são os que mudam e se adaptam ao contexto. Às vezes, o Mercado tem de usufruir de um pouco mais de liberdade, para que o país se desenvolva; às vezes, o Estado tem de se impor e restringir o poder do Mercado, para que os mais fracos não sejam espoliados pelos mais fortes. Dogmas, certezas e cruzadas ideológicas nunca são boas, sejam de esquerda, sejam de direita. A História mostra.

DAVID COIMBRA


02 DE MAIO DE 2019
ENSINO SUPERIOR

Federais gaúchas temem ficar insustentáveis

REITORES DAS UNIVERSIDADES projetam que a situação se tornará inviável diante da redução de 30% nos recursos
O anúncio de que todas as universidades federais terão corte de 30% em seu orçamento neste ano foi recebido com preocupação por reitores do Estado. Eles afirmam que as instituições já sofrem com falta de recursos, não têm mais onde cortar despesas e podem ver-se diante de uma situação insustentável.

O bloqueio geral das verbas foi comunicado na noite de terça-feira pelo secretário de educação superior do Ministério da Educação (MEC), Arnaldo Barbosa de Lima Junior. Veio depois de outro anúncio, segundo o qual perderiam os 30% apenas a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), punidas pelo que o ministro Abraham Weintraub definiu como "balbúrdia" nas instituições.

Com a revelação de que a redução de gastos seria generalizada, os reitores começaram a fazer as contas - e a concluir que elas não fecham. No comando da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Paulo Burmann diz que a medida é um "ataque duro" que vai "levar à insustentabilidade da instituição". O reitor entende que o corte ocorre no contexto de uma "caricatura" que foi feita da universidade pública, "jogando a sociedade contra as instituições".

- Trabalhamos sem recursos de capital, já bloqueados no início do ano, o que leva a preocupação em relação às obras em andamento. Mais de 80% está concluído. Embora tenha havido manifestação dizendo que obras em andamento com percentual elevado de conclusão serão garantidas, não temos essa segurança. Não conseguimos executar o planejamento por conta da incerteza do orçamento. Trabalhamos extrapolando todos os limites - lamentou.

O reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rui Vicente Oppermann, ressalvou ainda não ter recebido confirmação da redução dos repasses, mas considerou o quadro "muito grave", com impactos sérios no ensino, na pesquisa e na extensão universitária. Oppermann diz que ainda não há informações se a tesourada inclui os 25% de corte já anunciados no início do ano - ou seja, mais 5% sobre o orçamento total - ou se representaria 30% adicionais:

- Aí, sim, seria absolutamente inaceitável. Trabalhamos com isso (os 25% a menos) e sabemos que teremos grandes dificuldades de alcançar o fim do ano fazendo as atividades que realizamos.

Apreensão geral quanto à quitação dos compromissos

Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o reitor Pedro Hallal avalia que o corte "inviabiliza o funcionamento da instituição". Ele afirma que, nos dois anos e meio de sua gestão, o orçamento foi inadequado e que, mesmo assim, a universidade conseguiu se encaixar, fazendo cortes:

- Tudo que era minimamente excessivo, nós cortamos. No primeiro ano, conseguimos uma economia de quase R$ 10 milhões mexendo nos terceirizados (limpeza, portaria etc). Uma redução de mais de 10%.

Hallal diz que o orçamento nominal da universidade, da ordem de R$ 800 milhões, na verdade é "uma ficção", porque mais 90% desse valor é destinado a servidores ativos ou aposentados. Sobram R$ 70 milhões, que afetam principalmente o custeio - despesas como energia elétrica e papel higiênico.

- Há muitos anos estamos escolhendo qual conta pagar. No fim do ano, conseguimos estar em dia com todo mundo ou quase todo mundo. Se essa redução se confirmar, não conseguiremos pagar.

A Universidade Federal do Rio Grande (Furg) vive desafios semelhantes. Em nota enviada pela assessoria de imprensa da instituição, a reitora Cleuza Dias afirma estarem todos "apreensivos e esperando mais esclarecimentos do MEC". "O orçamento atual já não era suficiente, o que nos levou a reduzir serviços de apoio como limpeza, vigilância, portaria, entre outros. Um bloqueio de 30% sobre esse valor inviabiliza atividades fundamentais", diz a nota.

Zero Hora também tentou falar com os reitores da Unipampa e da Universidade Federal de Ciências da Saúde (UFCSPA), mas não obteve retorno.

CAMILA KOSACHENCO | ITAMAR MELO


02 DE MAIO DE 2019
ARTIGOS

TRABALHAR POR PRAZER, NÃO POR DEVER

O futuro está mais perto do que podemos imaginar. A crescente velocidade das convergências  tecnológicas, somada aos mais de 3 bilhões de pessoas ocupando o planeta até 2050, aponta para uma eliminação de profissões e empregos jamais vista na história. A inteligência artificial, a biologia sintética, a robótica e outras  formas de automação, além da dinâmica populacional, irão mudar o futuro do trabalho.

Temos duas escolhas: esperar por nos tornarmos uma civilização inútil, tal qual o escritor Yuval Harari pressupõe, ou aproveitar a transferência de funções que as máquinas irão assumir para nos libertar do trabalho hostil e sacrificante. Oportunidade rara de criarmos novos estilos de vida, mais criativos, prazerosos, humanizados.

Temos duas décadas adiante antes que a inteligência artificial comece a ser instalada em todo o mundo. Por isso, precisamos pensar a longo prazo e tomar ações imediatas, porque as mudanças em torno deste fenômeno (desastrosas ou aliviadoras) poderão levar também duas décadas.

Estamos diante de perigos inevitáveis: concentração de riqueza aumentando, crescente exclusão social, a economia crescente com o emprego decrescente.

De acordo com o Banco Mundial, 1 bilhão de pessoas entrarão no mercado de trabalho ao longo dos próximos 10 anos, ao mesmo tempo em que 2 bilhões de empregos serão eliminados em 2030.

Para tentar trazer respostas criativas a esse futuro que se aproxima, o Projeto Millennium, rede global de pesquisadores futuristas, desenvolveu o estudo Trabalho/Tecnologia 2050, que difere dos outros: apresenta mais soluções do que problemas. Através de uma inteligência coletiva com especialistas em diferentes áreas envolvendo 45 países, entre eles o Brasil, aqui algumas das centenas de estratégias que iluminam nossos caminhos e despertam para a ação imediata: rever o conceito de trabalho mediante a aplicação da renda básica universal, popularizar a ciência e a tecnologia, criar um novo contrato social que se paute nos direitos dos trabalhadores em uma economia transacional e global, sistemas de educação que favoreçam habilidades sobre profissões, assim como ensinar o passado, ensinar também o futuro para as novas gerações.

Não existe receita mágica para mudar essa realidade. O que existe é a capacidade infinita que os seres humanos têm de sonhar e tangibilizar futuros que redefinam o trabalho pelo prazer, e não pelo dever.

ROSA ALEGRIA

quarta-feira, 1 de maio de 2019


01 DE MAIO DE 2019
DAVID COIMBRA

Por que os professores de História são de esquerda - II

O homem tenta organizar o mundo. É esse o esforço de cientistas, filósofos, pensadores em geral. O homem cataloga, classifica, inventa categorias, tenta dar lógica a tudo.

Por que isso? Porque ele quer entender as leis que regem a natureza. Quer entender que tipo de JUSTIÇA move a natureza.

Essa palavra, "justiça", está no centro das angústias humanas. Porque o mundo parece injusto, o mundo parece torto, mas não pode, não deve ser. Então, o homem, para dar razoabilidade ao irracional, criou, em primeiro lugar, Deus.

A função das religiões é tentar explicar como as coisas do mundo surgiram e estabelecer normas de convivência para os seres humanos. É um alívio pensar que uma criatura superior está encarregada dessa tarefa.

Mas, por mais que Deus se esforce para fazer com que os homens se comportem, eles não se comportam. Homens mais fortes oprimem os mais fracos. Roubam seus bens, tomam suas terras, violam, agridem, matam e escravizam. Assim, o homem teve de inventar outra entidade para dar justiça ao mundo: o Estado.

O objetivo maior do Estado é esse: é fazer justiça, é tornar as pessoas iguais em direitos e deveres.

Ciente disso, qualquer pessoa que tenha um pouco de compaixão sonhará com um Estado perfeito, que regule as relações e torne os homens iguais. A compaixão, segundo Schopenhauer, é a qualidade que nos humaniza, é o contraponto do egoísmo. Ou seja: se você sente compaixão, você aceita ter menos para que outros tenham um pouco mais, você se escandaliza com a opressão, você quer que a justiça impeça a dominação do mais fraco pelo mais forte.

O professor de História que é compassivo, ao estudar as sociedades humanas, vê o que via Hobbes: que o homem é o lobo do homem. Por isso, ele desejaria que o Estado tivesse poder e força para domar esse lobo. Ao ansiar por um Estado mais forte e mais poderoso, o professor de História torna-se de esquerda.

Se você fizer uma desidratação máxima dos conceitos que definem esquerda e direita, chegará ao seguinte: a esquerda é o Estado, a direita é o Mercado. Se preferir, pode trocar esquerda e direita por comunismo e capitalismo. E pode, também, trocar Mercado e Estado por liberdade e igualdade. Porque, para a esquerda, a razão de ser do Estado é não apenas estabelecer, mas impor a igualdade entre os cidadãos. É nesse ponto que o professor de História pode se atrapalhar. Pois as pessoas não são iguais. Não sendo iguais, as pessoas têm vontades diferentes, condições diferentes e possibilidades diferentes. Marx, sabedor disso, dizia que um dos lemas do Estado deveria ser "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo sua necessidade".

Seria perfeito. A pessoa trabalha no que gosta e faz o melhor que puder. E consome o que quiser, sem precisar pagar por isso. O problema é que, como escrevi lá em cima, o mundo é torto e nós somos tortos. Nós estragamos tudo. Se por acaso detivermos o poder em um Estado gigante, não seremos altruístas; usaremos esse poder para nos manter no poder, e submeteremos os mais fracos. Se por acaso formos humildes proletários, pegaremos mais do que precisamos e trabalharemos menos do que podemos.

O comunismo seria perfeito se fôssemos perfeitos. Mas, se é certo que o comunismo não é funcional, é certo também que o capitalismo é desumano, exatamente porque, no capitalismo, não é levada em consideração a mais humana das qualidades: a compaixão. Qual é a saída? Direi qual é. Amanhã.

DAVID COIMBRA


01 DE MAIO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

UM NOVO DIA DO TRABALHO


O grande desafio para as instituições brasileiras é entender e se adaptar a esta nova realidade, em flagrante contraste com um modelo trabalhista erguido sobre pilares do século passado

A prometida edição, pelo governo Bolsonaro, da Medida Provisória da Liberdade Econômica é uma das mais reluzentes novidades para que o Dia do Trabalho não se revista unicamente de lamentos pela situação do país e de nostalgias por um período em que os sindicatos reinavam dentro e fora do governo. Um tanto camuflada pelos desacertos em série entre membros do governo e pelos tuítes disparatados do círculo íntimo do presidente, a MP nasce com as melhores intenções, como a de desburocratizar iniciativas inovadoras e estimular o ambiente de negócios em um mundo crescentemente digital. Entre as medidas práticas, está a remoção de exigências para startups testarem seus produtos na fase de experimentação.

A MP vem ao encontro da nova realidade do Brasil e do mundo. Segundo o IBGE, já existem 3,8 milhões de trabalhadores em aplicativos de transporte, alimentação e entregas, tornando esta a maior categoria autônoma do país. Enquanto o emprego com carteira assinada entra em declínio de difícil reversão, o novo mundo do trabalho leva renda a milhões de brasileiros que antes não contavam com perspectivas de remuneração que não fossem atividades à margem da sociedade formal.

O grande desafio para as instituições brasileiras é entender e se adaptar a essa nova realidade, em flagrante contraste com um modelo trabalhista erguido sobre pilares do século passado com base na defesa do emprego, na proteção do empregado e na detalhada formalização das relações de trabalho. Tal concepção vem sendo devastada pelo mundo digital, no qual há e haverá cada vez menos empregados tradicionais. No lugar desse modelo em franca caducidade, surgem a flexibilidade de horários e locais e formas de trabalho em carreiras e funções nunca imaginadas por legisladores e reguladores.

Como resultado, instituições desenhadas no século passado para zelar pelas relações do trabalho, como a Justiça do Trabalho, também ingressam numa era de crise de identidade ao não conseguirem encaixar a realidade digital a seus preceitos. As leis e regras foram pensadas para um mundo formalizado no qual as empresas criadas sobre relações de trabalho de décadas atrás sofrem agora triplamente: pelo custo de manter extensas folhas de empregados, pela perda de competitividade em razão dos engessamentos legais e pela concorrência por vezes predatória dos noviços digitais, livres das amarras anteriores. 

A tendência evidente é o enfraquecimento das empresas tradicionais, com a consequente perda de mais empregos formais e o crescimento do trabalho autônomo, pondo em xeque todo o arcabouço gestado para a chamada defesa do trabalhador.

A reforma trabalhista empreendida no governo Temer foi um pequeno passo à frente para tentar modernizar a ossificada legislação trabalhista brasileira, mas, por si só, é incapaz de resolver a equação que desafia o novo mundo do trabalho, confrontado por quatro circunstâncias bem distintas: os empregos formais no setor público e privado, os autônomos e informais, os terceirizados e os desempregados. O futuro da Previdência, da renda e do próprio país depende da capacidade de reduzirmos drasticamente a distância entre tais mundos separados por abismos legais e regulatórios.

01 DE MAIO DE 2019
ARTIGO

AS MUDANÇAS NAS PROFISSÕES E NAS FORMAÇÕES


As profissões se contornam no exercício dos trabalhos e nas mudanças dos arranjos trabalhistas, envoltos em questões políticas, econômicas e culturais. A introdução de novas tecnologias vem há séculos modificando as relações de trabalho. Modificações essas que no contemporâneo podem ser pensadas em termos de força, de processamento de grandes volumes de dados, automação e centralização de sistemas automatizados em tempos cada vez mais acelerados. Prospectar sobre o futuro do trabalho, das ocupações e das formações exige, então, refletir sobre o atravessamento das tecnologias e das relações humanas nisso.

Muito se vem discutindo sobre o trabalho repetitivo e alienador. Todavia, precisamos ter cuidado com o discurso que prega que as novas tecnologias vêm libertar o sujeito dessa alienação para promover afazeres mais complexos. O processo em que as vagas de trabalho são substituídas por máquinas não acompanha a formação dessas pessoas para ingressarem em outras modalidades de ocupação em um país desigual como o nosso. Daí a importância de políticas educacionais sérias e consistentes, buscando congregar as novas profissões que estão surgindo com investimento rigoroso na educação.

A formação superior sempre foi orientada para o desenvolvimento humano e para o pensamento crítico, sendo que a técnica sempre esteve e estará presente no currículo, mesmo numa profissão que derive do ensino universitário. A ação de ensinar e de aprender, de mobilizar conhecimentos para conhecer, fazer, conviver e se constituir como sujeito - ou seja, a formação -, é a grande questão requerida hoje e amanhã na universidade e em suas relações com o trabalho e as profissões. A potencialização do humanismo é uma tendência nas grandes instituições de Ensino Superior pelo mundo.

As universidades podem ser pensadas como lugar atento a essas modificações e responsável por pensá-las de forma mais colaborativa. A formação de futuros empreendedores deve funcionar dentro de um discurso que os construa para uma profunda responsabilidade social, econômica e ambiental, problematizando, inclusive, o consumismo e as desigualdades.

Decano da Escola de Negócios da PUCRS ehenriqson@pucrs.br - ÉDER HENRIQSON


01 DE MAIO DE 2019
RESPOSTAS CAPITAIS

TIVEMOS SORTE DE ASSUMIR NA MAIOR CRISE, PORQUE APRENDEMOS MUITO

ENTREVISTA | CRISTINE GRINGS NOGUEIRA, ANA CAROLINA GRINGS E ANA PAULA GRINGS Presidente, vice e diretora administrativa-financeira da Piccadilly

Na 20ª edição do Fórum Respostas Capitais, realizada no Porto Alegre Country Club, uma novidade: não houve uma, mas três convidadas. Em 2015, no início da crise que ainda não terminou, três integrantes da terceira geração da Piccadilly assumiram o comando da empresa. Quase quatro anos depois, a presidente Cristine Grings Nogueira, a vice-presidente Ana Carolina Grings e a diretora administra-financeira Ana Paula Grings exibem resultados que desafiam o cenário difícil para todos os setores da economia. Foi preciso fazer ajustes, o que exigiu coragem das novas gestoras, mas também colheita de bons indicadores: alta de 54% na geração de caixa e de 19% no lucro em 2018.

Como o processo de sucessão desembocou nas três herdeiras?

Cristine - Nossa história de governança iniciou-se em 2013. Fizemos toda uma construção do acordo societário familiar. Hoje temos três famílias na empresa, sendo que a Grings, da qual fazemos parte, tem mais de 90% do negócio. Todo esse processo culminou com a assinatura do acordo no dia do nosso aniversário de 60 anos, que vai completar quatro anos em 4 de junho. Ao longo do processo, veio à tona a sucessão. Até então, todos os diretores eram acionistas e familiares. Estávamos na segunda geração do negócio, alguns já haviam tomado a decisão de sair da direção. Foi quando meu tio, pai da Ana e da Paula, trouxe à tona o desejo dele de sair da gestão. 

Esse assunto era um certo tabu, veio à tona em uma agenda da terceira geração junto com a empresa que fez o trabalho de governança conosco e foi de uma forma especial para nós. Eu, como presidente, e a Ana, como vice, fomos eleitas pelo nosso grupo da terceira geração. Foi importante porque nos deu união para vencer os desafios que vieram. Criamos naquele mesmo ano o conselho de administração, que vem sendo importante como apoio para a gestão, formado por um membro de cada um dos três principais núcleos familiares. Temos ainda um presidente que não é da família e uma consultora independente.

Qual foi o desafio de assumir no primeiro ano de recessão?

Paula - Tivemos sorte de assumir a empresa na maior crise do país, porque aprendemos muito durante esse período difícil. Se tivéssemos assumido em período muito positivo, e depois viesse um difícil, talvez não conseguíssemos lidar com a situação. Com a humildade de aprender, e de saber que tinha de buscar muita coisa, aproveitamos esse tempo para reestruturar o negócio. Na área administrativa e financeira, criamos controles, métodos de análises. Até 2014, não analisávamos DRE (demonstrações do resultado do exercício). 

Implementamos a cultura de gestão orçamentária, o que trouxe profissionalismo muito grande, ajudou na tomada de decisão. Fez com que alcançássemos bons resultados e permitiu grande investimento na área de gestão de pessoas. Estamos trabalhando meritocracia, desenvolvimento de talentos. Temos pilares fortes para conseguir entregar resultados muito positivos. A segunda geração tinha feeling, expertise, um monte de cabelinho branco, muita coisa vivida, sabendo como conduzir decisões e desafios. Ainda não temos toda essa bagagem. Precisamos criar uma forma de gerir com indicadores, metas e controle.

Qual foi o maior aprendizado?

Paula - O maior é de que as diferenças são complementares. Nós três temos perfis completamente diferentes. Em uma conversa, Ana fez uma analogia, dizendo que se imaginava em cima de um balão, não no cesto, olhando para o céu. A Cristine, no cesto, e eu embaixo, segurando a corda (risos).

Ana - Foi termos humildade e entender que toda a experiência do cabelinho branco da segunda geração foi muito importante. Esses 60 anos que a empresa viveu foram maravilhosos e não devemos deixar de lado o que nos trouxe até aqui, mas agregar àquele conhecimento novas ideias.

Cristine - A resiliência de entender as dificuldades. Logo que iniciamos o processo de sucessão, dizíamos que não éramos novos técnicos querendo mudar o time, mas o time precisava aceitar os novos técnicos. Ter resiliência de entender o quão desafiador era para as pessoas se sentirem seguras e confiantes, colocar o chapéu do acionista que por 40 anos vinha para a empresa no mesmo horário.

Até meados de 2018, a Piccadilly estava com aumento de 70% no lucro, o que ocorreu de lá para cá?

Cristiane - Dali para a frente o mercado deu uma travadinha, infelizmente. Quando apresentamos para os acionistas a proposta de orçamento para 2018, eles disseram que ano de Copa e de eleições é difícil. Sabíamos, mas não queríamos acreditar. Então trabalhamos para que não fosse um ano de resultados negativos. O primeiro quadrimestre foi fantástico. Foi um ano positivo, mas não continuamos na mesma onda de crescimento.

Paula - Tivemos crescimento de 19% no lucro sobre 2017. Esse resultado se deve principalmente à eficiência operacional, em volume o mercado caiu um pouco. Nosso ebitda (geração de caixa) fechou em 54% a mais do que 2017, aumentamos significativamente o valor da empresa.

O processo de sucessão ajudou a credenciar outras herdeiras?

Cristine - Entendemos que faz parte do contexto hoje. A indústria calçadista é muito masculina e, na grande maioria, controlada por pessoas de mais idade. Acaba que nossa realidade vem na contramão do que o mercado tem construído. Temos nossos focos, objetivos claros e não há espaço para preconceito sobre o que é mais relevante, homens ou mulheres. As "gurias da Piccadilly" são comentadas, mas metade da diretoria hoje é de homens, são três. Essa combinação e mistura são muito importantes.

Como estão as franquias?

Cristine - Abrimos duas lojas-piloto em Porto Alegre no ano passado, estamos satisfeitos com os resultados. O objetivo é, sim, iniciar um projeto de expansão. Mas são informações estratégicas que ainda não estamos divulgando. A Piccadilly se tornará uma indústria muito melhor a partir desse movimento, porque hoje a área de produto desenvolve uma coleção baseada no que o lojista comprou. Monitoramos ranking, como está o movimento, mas não nos baseamos no que a consumidora comprou, no giro do produto. Vai ser uma informação a que vamos ter acesso de forma constante e que vai nos dar a possibilidade de entender mais o que a mulher deseja.

Como estão as exportações para a Argentina?

Cristine - A Piccadilly tem uma força global muito forte. Hoje vendemos para mais de cem países. A Argentina chegou a comprar mais de 1 milhão de pares, o potencial da marca lá é muito importante. A Piccadilly já foi mais forte na Argentina do que no Brasil. Não sei se ainda é possível dizer isso por causa do contexto de protecionismo e crise, mas é um mercado ainda muito relevante para nós. Segue como maior comprador, com 15% das vendas ao Exterior. Se estávamos confortáveis, agora precisamos buscar de outras formas. Fui à Cuba, e lá é o lugar no mundo, incluindo o Brasil, onde mais vi a marca Piccadilly. Temos uma força absurda. Temos produtos até nas Ilhas Reunião, perto de Madagascar.

Estão pagando?

Cristine - Na Argentina, temos um parceiro de muitos anos e ele optou, por esse contexto de dificuldade do país, reforçar o trabalho focado na Piccadilly. Apesar do cenário desafiador, a que está conseguindo consumidor é a nossa marca. É a que dá giro para quem vende. Acreditamos em retomada, não sabemos quando. Até lá, queremos manter a marca forte.

E o mercado interno?

Paula - Iniciamos o ano com um olhar muito mais otimista do que temos agora. Enquanto o governo não conseguir fazer as reformas que precisam ser feitas, vamos andar de lado. Acreditamos que o segundo semestre pode vir a ser positivo, dependendo dessas aprovações, mas não estamos contando muito com isso porque são grandes os desafios na economia. Como temos grande potencial com exportações, não costumamos especular com hedge (receita em dólares que protege de flutuações internas), fazemos as travas necessárias para garantir o que precificamos. Quem quer especular corre sérios riscos.

Como a empresa superou a crise?

Paula - Quando recebemos a empresa, o caixa estava extremamente robusto, o que nos possibilitou fazer todos os ajustes necessários. Sem caixa, não se consegue demitir, ajustar nada. Para este ano é a mesma situação, só que tem de ajustar mais rapidamente.

O que muda em uma empresa gerida por mulheres para mulheres?

Cristine - A construção do novo propósito, de revelar a verdadeira mulher, não é só para a consumidora, é também para as colaboradoras. Hoje 61% do nosso grupo de colaboradores é formado por mulheres. As gurias não somos só nós três, são todas as que estão dentro da empresa.

MARTA SFREDO

01 DE MAIO DE 2019
+ ECONOMIA

PARA DESENCALHAR O CAIS


Porto Alegre precisa perseguir o futuro, em vez de lamentar o passado. O governador Eduardo Leite já havia dado sinal de que poderia romper o convênio com o atual concessionário do Cais Mauá quando fez um balanço de seus primeiros cem dias de governo. No dia 10 de abril, afirmara:

- Estamos revisando as condições atuais para cumprir o contrato. Talvez nas condições atuais não seja possível.

Além da Vonpar, que relatou sua experiência negativa em reportagem dos colegas José Luís Costa e Marcelo Gonzatto publicada no dia 27 de abril, empresários interessados no reencontro de Porto Alegre com seu antigo cais tentaram ajudar, participando. Recuaram ao perceber o tamanho da encrenca. Não quiseram expor a crise em público, mas manifestaram reservadamente a interlocutores sua preocupação com o futuro do projeto.

Não se tratava de "caranguejos", palavra que caracteriza quem critica projetos de desenvolvimento local. Nem todo crítico é caranguejo, no sentido de andar para trás. Além de a concepção do projeto ter ficado antiga, o Cais Mauá encalhou sob o peso de transações mal explicadas e sucessivas gestões problemáticas. Há dois anos, já se sabia, nos meios empresariais, que a concessão havia se tornado inviável financeiramente. Insistir na manutenção do atual modelo seria apostar no passado.

O futuro de Porto Alegre não é só digital. Uma solução para o cais que relativize a sustentabilidade - no conceito amplo, econômico, ambiental e social - também amarrará a cidade ao passado. Menos concreto, mais áreas naturais e mais acesso público têm de estar na resposta. Nesse sentido, trocar a concessão por venda de espaço, como sinaliza o governador, pode não ser a melhor resposta. Há risco de descaracterizar a área. Mas é possível fazer. Desde que se olhe para a frente.

--- --- Em nota, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que estimou alta de 1,2% no PIB do Estado em 2018, rebateu a desconfiança do economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz, que considerou "exagerada" a queda de 4,2% na agropecuária. A base veio de de Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, Pesquisa Trimestral do Abate de Animais, Pesquisa Trimestral do Leite e Produção de Ovos de Galinha, todos do IBGE. "É possível evidenciar queda bastante acentuada na produção dos principais itens da agropecuária", sustenta a Fipe.

MARTA SFREDO


01 DE MAIO DE 2019
NÍLSON SOUZA

Invisíveis

Num país com outro país de desempregados dentro dele, chega a parecer irônico celebrar o Dia do Trabalho, mas o feriado desta quarta-feira, independentemente das manifestações sindicais e políticas programadas, serve também para refletirmos sobre os trabalhadores invisíveis do nosso cotidiano. Talvez não tenhamos poder para aumentar-lhes os salários nem para assegurar-lhes melhores condições de trabalho, mas certamente podemos fazer com que se sintam mais importantes e respeitados. Como? Simplesmente reconhecendo que eles existem.

O psicólogo social Fernando Braga protagonizou uma experiência reveladora sobre esse tema em São Paulo. Durante oito anos, vestiu o uniforme de gari e varreu ruas e calçadas da USP, onde estudava. Colegas e professores passaram incontáveis vezes por ele sem reconhecê-lo e sem perceber sua presença. Era como se estivesse vestindo a capa da invisibilidade dos livros de Harry Potter. No convívio prolongado com companheiros de limpeza, descobriu que um simples bom-dia de outras pessoas, o que raramente ocorria, significava para eles um sopro de vida, um sinal de reconhecimento da própria existência.

- Até os animais domésticos são tratados por seus nomes, mas esses trabalhadores são vistos como parte da paisagem - conta em seu livro Homens Invisíveis: relatos de uma humilhação social.

Vale para os garis e também para outros ocupantes de profissões consideradas menos qualificadas, com os quais cruzamos todos os dias sem dar-lhes a devida atenção. Custa muito cumprimentar o porteiro do condomínio e chamá-lo pelo nome? Ou desejar boa viagem ao motorista do ônibus? Ou deixar um elogio para a cozinheira do restaurante? Tudo isso podemos fazer hoje e todos os dias. É a minha sugestão para esta data especial dos trabalhadores. E aproveito para estender esta saudação simbólica também a outro imenso grupo de invisíveis, formado por brasileiros que procuram trabalho, quase sempre vistos apenas como número:

- Aproveitem o dia e acreditem que todo amanhã é uma oportunidade de recomeço.

Em passado não muito distante, participei do planejamento de uma reportagem para mostrar na prática a invisibilidade dos trabalhadores da limpeza urbana em nossa cidade. Consistiu em experiência semelhante à realizada pelo psicólogo paulista, com a diferença de que ocorreu num único dia e os garis improvisados eram celebridades da sociedade gaúcha. Com o uniforme chamativo, boné e vassoura na mão, artistas, apresentadores de TV e até uma ex-miss permaneceram algumas horas em locais movimentados da cidade, filmados e fotografados por câmeras ocultas. Muitas pessoas passaram sem sequer dirigir o olhar para os famosos. Porém, logo que eles foram descobertos ou se identificaram, formou-se uma pequena multidão para abraçá-los e compartilhar fotografias.

Abraços, vale acrescentar na sugestão que fiz acima, são antídotos poderosos para o veneno da invisibilidade.

NÍLSON SOUZA