quarta-feira, 7 de junho de 2017

06/06/2017
celebridades

'Falta homem hétero no mercado pornô', diz atriz com quatro indicações ao prêmio Sexy Hot

A atriz pornô Fabi Thompson, campeã de indicações ao prêmio Sexy Hot 2017
A atriz pornô Fabi Thompson, que tem quatro indicações ao prêmio Sexy Hot 2017 - Rafael Knoll/Divulgação
SIDNEY GONÇALVES DO CARMO
“Falta homem hétero no mercado pornô porque o trabalho dele é mais difícil que o nosso, embora o preconceito recaia mais nas mulheres”, afirma a atriz Fabi Thompson, 33, com quatro indicações ao prêmio Sexy Hot 2017, o Oscar do pornô no Brasil.

A cerimônia acontece nesta terça-feira (6) na Estação São Paulo, em Pinheiros (zona oeste), e será apresentada pelo cantor Léo Jaime, mesmo anfitrião da edição do ano passado. O evento também contará com a presença da drag queen Pabllo Vittar, que entregará os troféus para os ganhadores das categorias ator e atriz homo e atriz trans. 

Neste ano, Fabi concorre em quatro categorias: melhor cena de sexo oral, de orgia e melhor atriz hétero (votação popular) e melhor cena homofeminina (escolhida pelo júri). Em 2014, ganhou o prêmio de melhor atriz. 

Como o mercado pornográfico está fraco de ator, Fabi explica que precisou variar e atuar em outros filmes do segmento, como os homoafetivos. “Hoje em dia tem de tudo. Meio a meio. As cenas que mais gosto de fazer são hétero, mas como há poucos homens no mercado pornô, também comecei a fazer com mulheres.”
O cantor Léo Jaime, que será novamente apresentador do prêmio Sexy Hot
O cantor Léo Jaime, que será novamente apresentador do prêmio Sexy Hot - Divulgação
Sobre as indicações, a gaúcha lembra que está no mercado há 11 anos e que sempre gostou de fazer pornô. “Estou bem feliz. Trabalho desde o tempo em que não existia o prêmio. Ser indicada em várias categorias é um reconhecimento. Espero ganhar pelo menos um. Se não ganhar, vou ficar muito chateada.”

A atriz conta que recebe muito carinho dos fãs e que nunca foi hostilizada. “Tem assédio, mas os fãs são bem respeitosos e nunca fui hostilizada. Há muito carinho e respeito, e faço o que eu gosto, não tenho vergonha.”

Fabi afirma que o prêmio é importante porque a indústria brasileira pornô ainda é pequena e sofre concorrência da internet e da pirataria. "Se tivesse mais canais no Brasil, nós teríamos mais trabalho, como aconteceu nos Estados Unidos. Aqui, o pessoal tem mais dificuldade de se reinventar e a qualidade cai".

Para Maurício Paletta, 54, diretor da “Playboy” do Brasil, responsável pelo canal Sexy Hot, o prêmio ajuda a fomentar e valorizar a indústria pornô, que vive em segundo plano. "Essa iniciativa faz com que os produtores produzam mais filmes e isso tende a aumentar com o passar dos anos. Nós, como qualquer outra indústria, precisamos nos adaptar a novas tecnologias, produzir filmes on demand, 360 graus e, acima de tudo, produzir o que o assinante quer".
Ganhadores do prêmio Sexy Hot 2016
Ganhadores do prêmio Sexy Hot 2016 - Divulgação
Paletta diz que a disputa entre os produtores está mais saudável e que a qualidade dos filmes tem melhorado substancialmente. "Hoje, os produtores têm preocupação com estética, figurino, iluminação, enquadramento para ganhar o troféu. E isso é bom para toda a categoria."

O diretor da “Playboy” lembra que essa melhora na qualidade dos filmes também fez com diminuísse o preconceito. "Já houve muito preconceito, mas hoje ele vem diminuindo e já é visto de outra forma e o prêmio ajuda a desmitificar. É preciso conhecer para acabar com esse receio."

Esta é quarta edição do prêmio Sexy Hot, que recebeu 200 inscrições para 17 categorias, sendo 13 delas por votação popular e quatro por júri técnico --formado por Stanlay Miranda (produtor e diretor de filmes adultos), Mariana Baltar (doutora em comunicação pela UFF), Rafinha Bastos e Paulo Cursino (escritor e roteirista). 

Será a primeira vez que o evento terá transmissão direta do canal do Sexy Hot, o Só para Maiores, no YouTube. Confira abaixo os indicados ao prêmio Sexy Hot 2017.

Melhor cena de sexo oral 

Fabi Thompson e Ed Junior ("Sessões de Fetiche")
Emme White e Erick Fire ("Desejos Femininos")
Aninha Galzerano e Ricardo Branco ("Menina Gulosa")
Melhor cena de sexo oral 
Britney Bitch e Erick ("Rabão Ostentação")
Aline Rios & Loupan ("Fantasias Sexuais 3")
Elisa Sanches e Yuri ("Sexy Blonde")
Melhor cena de DP  
Polly Petrova, Fabiano e Renan Cobra ("As Aventuras de Grazy")
Rebeca Oliveira, Vinny e Yuri ("Duas Gatas, Um Desejo")
Ana Julia, Eduardo Lima e Jack kallahari ("Molhadinhas e Meladinhas 2")
Melhor cena de orgia/gang bang 
Emme White, Mel Fire, Angel Lima, Fabi Thompson e Paty Kimberly ("Orgasmos Múltiplos")
Aleksandra Yalova, Barbara Costa, Fabiane Thompson, Gween Black, Mayanna Rodrigues e Sweet Bird ("Orgia Xplastic")
Alessandro Italiano, Nina Lins, Elisa Sanches e Polly Petrova ("Garotas da Van: Alessandro, o Vulcão Italiano")
Melhor cena de ménage 
Jully DeLarge, Susan Miller e André Garcia ("Player")
Polly Petrova, Sol Soares e Renan Cobra ("As Aventuras de Grazy")
Giovanna Bombom, Pamela Pantera e Jack Kallahari  ("Uma tarde Ninfo - Conto Erótico")
Melhor cena de fetiche 
Grazzie e Toshi San ("Sessões de fetiche 2")
Nego Catra e Sandy Cortez ("Masturbatrix 9")
Britney Bitch e Nina Lins ("Tesão por Pés")
Melhor atriz hétero 
Fabi Thompson ("Sessões de Fetiche 2")
Giovana Bombom ("Quer Sorvete?")
Paty Kimberly ("Uberxxx da Paty")
Melhor ator hétero 
Talmo ("Amor e Outros Fetiches")
Loupan ("Casa da Mãe Joana")
Big Macky ("Na pele e No pelo 2")
Melhor atriz transexual 
Carol Penélope ("Gang Bang com Carol")
Michelly Cinturinha ("Travessuras Sexuais")
Melyna Merlyn ("Trannybrazil: Merlyna Merlyn")
Melhor ator homo masculino 
Kampfer ("Leticia Rodriguez & Kampfer")
Kaleb ("O Tímido da Sauna")
Terrence ("Meus 2 Maravilhosos Cus de Bonecas")
Melhor atriz homo feminina 
Jully DeLarge ("Encontros e Fetiches")
Mel Fire ("Brancas como leite")
Emme White ("Festival Bucetal")
Revelação do ano LGBT 
Mel Fire ("Orgasmos Múltiplos")
Grazi Cinturinha ("Doutor Ponha no Meu Rabo Por Favor")
Lucas Katter ("A Mente Perversa de Katter")
Revelação do ano hétero 
Emme White ("Desejos Femininos")
Elisa Sanches ("Abundância")
Giovanna Bombom ("A Cor da Pele 2")
Melhor cena homo feminina 
Emme White e Grazzie ("Sessões de Fetiche 3")
Aleksandra Yalova, Barbara Costa, Fabiane Thompson, Gween Black, Mayanna Rodrigues e Sweet Bird ("Orgia Xplastic")
Patricia Kimberly, Grazy Moraes, Elisa Sanchez ("Garotas da van: Rolê VIP")
Melhor cena transexual 
Barbara Perez e Kampfer  ("Barbara Perez & Kampfer")
Grazi Cinturinha, Victoria Carvalho e Erick Fire ("Doutor Ponha no meu Rabo Por Favor") 
Merlyna Merlyn, Yago Ribeiro e Babi Ventura ("Trannybrazil: Merlyna Merlyn")
Melhor filme hétero 
"Loucuras de Casal", de André Garcia
"Desejos Femininos", de Bruno Grosso
"Spa do Prazer", de Giovanni Jr. 
Melhor diretor 
Marco Cidade ("Player")
Bruno Grosso ("Desejos Femininos")
Marcos Morais ("Masturbatrix 9")

07/06/2017  02h00

Quando alguém falar de CPI, proteja a sua carteira

Pedro Ladeira - 12.mar.2015/Folhapress
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, presta esclarecimentos à CPI da Petrobras
O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, em depoimento à CPI da Petrobras
O presidente do Senado, Eunício de Oliveira, autorizou a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para investigar a JBS. Ela tem direito à presunção da inocência, mas os antecedentes recomendam a presunção da culpa.

A memória nacional mal se recuperou do vexame da CPI Mista que investigou as atividades do contraventor Carlinhos Cachoeira. Instalada em 2012, durou oito meses e terminou em pizza fria. Tendo diante dos olhos os negócios da empreiteira Delta, os senadores e deputados conseguiram a proeza de não chamar o governador Sérgio Cabral para depor. O dono da Delta era Fernando Cavendish, aquele que cacifou o mimo de um anel de brilhantes para madame Adriana Ancelmo. 

A joia foi comprada na loja Van Cleef de Mônaco enquanto a CPI funcionava em Brasília. Sérgio Cabral está na tranca em Benfica, Adriana está no Leblon em prisão domiciliar e Cavendish, depois de passar alguns dias na cadeia, negocia uma difícil colaboração com o Ministério Público. Nada disso aconteceu por causa das investigações dos senadores ou dos deputados.

Depois do vexame da CPI mista de Carlinhos Cachoeira, o Congresso voltou a afrontar a boa fé do público. Em 2014 criou duas comissões para investigar a Petrobras. Um dos paladinos da iniciativa era o doutor Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara. Dois depoimentos, ambos destinados a proteger petrorroubalheiras, enrubescem quem os revisita. 

Num, a CPI Mista ouviu Paulo Roberto Costa, um ex-diretor da Petrobras que estivera preso. Num discurso heroico, ele mostrou que nada ocorrera de estranho na empresa. Disse até que guardava R$ 1,2 milhão em casa "para fazer pagamentos". Semanas depois "Paulinho" voltou para Curitiba, fez um acordo com o Ministério Público, e deu no que deu.

Passou-se mais de um ano, a Lava Jato já encarcerara 112 maganos, entre eles Marcelo Odebrecht, e o príncipe das empreiteiras foi chamado para depor na CPI. Os parlamentares receberam-no como um potentado. Em seu depoimento o doutor desdenhou a conduta dos acusados que colaboravam com o Ministério Público. Àquela altura eram nove. Logo ele entraria no bloco.

Essas duas CPIs não foram simples fracassos, mas grandes vexames. Fracassos fazem parte da vida. Tanto em relação a Cachoeira como no caso da Petrobras, as CPIs destinaram-se a manipular os interessados e a iludir o público.

A nova CPI, que pretende investigar as traficâncias dos irmãos Batista, anuncia que examinará seus negócios com o BNDES. Isso é o que se diz. Noutra investigação financeira, a do Banco do Estado do Paraná, o Banestado, prevaleceram as conversas paralelas com outros papeleiros. Na CPI do Cachoeira, era falta de educação mencionar os negócios de Cavendish com Cabral. Na da Petrobras chegava a dar pena o desempenho de comissários procurando blindar larápios que meses depois contariam a verdade aos procuradores.

As empreiteiras e a JBS capitularam graças à honestidade e ao trabalho do Ministério Público e do Judiciário. Nada a ver com o Legislativo. Se o senador Eunício de Oliveira quiser ajudar, instala a CPI das CPIs. Os réus da Lava Jato têm muito a contar, começando pelo ex-senador Delcídio do Amaral. 

07/06/2017  02h00

Só o STF poderá salvar o Brasil de desgraça maior

Pedro Ladeira/Folhapress
Michel Temer e a ministra Cármen Lúcia na sessão de posse do novo ministro do STF, Alexandre de Moraes (centro), em Brasília
Michel Temer e a ministra Cármen Lúcia na sessão de posse do ministro Alexandre de Moraes
Sempre tive muitas dúvidas sobre o "vox populi, vox Dei", paixão dos demagogos. Elas agora aumentaram. Por um lado, a tal "vox populi" aparece tão dividida que é difícil saber quem ela é. O critério majoritário para escolhê-la pode ser sangrento se não controlado por dispositivos constitucionais, os quais toda a sociedade contratou para sustentar a liberdade individual e a igualdade de tratamento dos seus membros com relação à lei.

Por outro, tenho a impressão de que a "vox Dei" emudeceu para nós. Depois de tantos desatinos, aventuras e concertos criminosos entre os sucessivos Poderes incumbentes (não o Estado!) e o setor empresarial privado, parece que Deus cansou do Brasil. Desistiu de nós. Mas Ele, caridoso, pode escrever o certo por linhas tortas...

Um doloroso processo de impeachment pôs fim a um voluntarismo desastroso que nos levou à recessão e deixou como herança 14 milhões de desempregados. Eles são subproduto das contradições genéticas do sistema fiscal inscrito na Constituição de 1988. Seus genes estavam adormecidos, esperando uma recessão para serem ativados!

Só alguém portador de um sectarismo cego pode acreditar que o processo foi um "golpe"! Dilma fez uma boa administração em 2011, mas pagou um alto preço por ter ignorado o gigantesco tsunami fiscal que se acumulava.

Ao insistir na sua reeleição e mudar em 180º sua diretriz econômica, ela produziu uma confusão na cabeça de seus eleitores, que a abandonaram, quase imediatamente. O impeachment foi feito dentro da lei, sob supervisão do STF, e foi muito mais uma resposta à "obra geral de Dilma" do que punição por óbvios desvios de conduta. Com o ministro Nelson Barbosa, ela tentou uma reversão. Propôs as reformas necessárias, mas já era tarde. Havia perdido todo o seu protagonismo.

Chegou a apresentar um esboço das reformas, que foram aceitas por seus seguidores, os mesmos que agora ferozmente as combatem, numa demonstração da pobreza e do oportunismo que pragueja o arremedo daquilo que hoje se pensa como "esquerda"!

É inegável que com Temer a situação começou a melhorar e tudo dava a impressão de que poderíamos levar a bom termo as reformas mínimas necessárias para restabelecer o crescimento robusto e inclusivo de que tanto necessitamos. Infelizmente, um "capo" de quadrilha, numa operação bem monitorada para ouvir o presidente, fez uma delação realmente "premiada"!

O quadro é hoje triste, opaco e embaraçoso. Só o STF poderá salvar o Brasil de desgraça ainda maior. Mas, para isso, terá de usar uma ética consequencialista, avaliando cuidadosamente o tempo e o custo social de cada uma das saídas. 

07/06/2017  02h00

Fator Lula

Marcelo Gonçalves-20.mai.2017/Sigmapress/Folhapress
SÃO BERNARDO (SP), 20.05.2017 - O ex-presidente Lula participa hoje (20), da posse do diretório municipal de São Bernardo do Campo. Foto: Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Folhapress
O ex-presidente Lula participa da posse do diretório municipal do PT de São Bernardo do Campo
SÃO PAULO - Parte dos que se opõem à realização de uma eleição direta para definir quem será o presidente da República na hipótese de queda de Michel Temer o faz por recear a volta de Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente, afinal, aparece como favorito nas últimas sondagens, ainda que tenha contra si uma formidável rejeição.

Embora responda a vários processos, Lula está com seus direitos políticos intactos. Se houver eleição nos próximos meses, ele poderá concorrer. Mas, se o pleito só tiver lugar em 2018, a situação poderá ser outra, já que existe uma chance realista de que ele já tenha sido condenado em segunda instância, caso em que a lei da Ficha Limpa o tiraria do páreo.

Até vejo bons argumentos para deixar a eleição direta para 2018, mas o fator Lula não é um deles. Não gosto tanto da ideia de recorrer a tapetões. Penso que o melhor para a democracia é que o principal dirigente de um partido que fracassou tanto no campo ético como no administrativo seja derrotado pelo voto, não pelas regras de alistamento. Num país normal, o PT pós-impeachment passaria por uma fase de autocrítica e depuração antes de retornar como uma legenda competitiva. Mas o Brasil não parece ser um país normal.

E por que é melhor que Lula seja derrotado nas urnas e não nas cortes? Embora eu defenda com unhas e dentes a democracia, não estou entre os que por ela nutrem devoção religiosa. Não creio que o povo seja sábio e faça sempre as melhores escolhas. Ao contrário, ele é imediatista e se deixa manipular pelo populismo. 


A democracia funciona muito mais por disciplinar o conflito e mantê-lo dentro da institucionalidade do que pelas políticas que promove. Ainda assim, penso que, por vezes, o eleitor é capaz de aprender, mesmo que momentaneamente. Essas situações ocorrem em geral quando os cidadãos descobrem que foram enganados e rechaçam, pelo voto, grupos e ideias que não deram certo. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

06/06/2017 02h00joão pereira coutinho

Há 50 anos, Guerra dos Seis Dias foi vitória épica que criou problema épico
Angelo Abu
Fronteiras, Jerusalém, refugiados: quando o assunto é o conflito israelense-palestino, é preciso relembrar sempre essas palavras.

Onde serão as fronteiras do futuro Estado palestino? O que fazer à cidade de Jerusalém, que ambos os povos reivindicam como capital? E que destino para os 5 milhões de refugiados palestinos que continuam sem terra ou nacionalidade?

Todos esses temas, em maior ou menor grau, ficaram gravados na carne da história há precisamente 50 anos. Guerra dos Seis Dias, eis o título. Enganador título. A guerra pode ter durado seis dias, mas a preparação israelense para a sua possibilidade foi longa –mais de uma década para conhecer o inimigo e, sobretudo, como neutralizá-lo.

Os pormenores são conhecidos: estariam as tropas israelenses prontas para invadir a Síria, como se temia em Damasco? Os serviços secretos russos ajudaram à criação desta fantasia.
Mas uma fantasia era uma fantasia: os observadores da ONU na região e os próprios serviços secretos sírios confirmaram a falsidade da propaganda. Mas então era tarde, Inês era Marta.

Existe um bom documentário, intitulado "Six Days in June", que ilustra o clima de euforia bélica que se vivia por aquelas bandas. Sobretudo no Egito, onde um nacionalista vulgar, Gamal Abdel Nasser, prometia liderar o mundo árabe na grande vingança de 1948 (fundação de Israel) e de 1956 (a crise do Suez).

No documentário, escutamos gravações da época –os apelos de Nasser para o extermínio de Israel– e vemos as populações árabes enlouquecidas com a promessa. Como travar uma máquina já em marcha?

Mas também vemos as indecisões de Levi Eshkol (premiê israelense à época, que segurou os cavalos até o último minuto); o colapso nervoso do chefe do Estado-Maior do Exército Yitzhak Rabin (um segredo que a viúva revela em entrevista inédita) –e a entrada em cena do carismático Moshe Dayan, que foi decisivo para a vitória.

Em 5 de junho de 1967, a aviação israelense voa abaixo dos radares egípcios e destrói a aviação de Nasser ainda em terra.

Segue-se o poder aéreo jordano e sírio –tudo arrasado no primeiro dia. E, ainda no primeiro dia, Israel toma Gaza e o Sinai.

No dia seguinte, seguem-se a Cisjordânia e a totalidade de Jerusalém. Com o Egito e a Jordânia fora de jogo, Moshe Dayan ocupa-se da Síria. Em seis dias, Israel triplicava de tamanho, enfiando na sacola o Sinai, os montes Golã, Gaza, a Cisjordânia e a totalidade de Jerusalém.

Mas os ganhos territoriais são parte da história. O país que anteriormente governava 400 mil palestinos passava a ter 1 milhão a mais (600 mil na Cisjordânia, 350 mil em Gaza, 50 mil em Jerusalém Oriental).

Além disso, a guerra de 1967 provocava nova crise de refugiados palestinos: entre 250 mil e 300 mil, que se instalaram maioritariamente na Jordânia e que se juntavam assim aos 800 mil das guerras de 1948-1949. Por outras palavras: a Guerra dos Seis Dias definiu o conflito israelense-palestino até hoje.
Quando se discutem as fronteiras de um futuro Estado palestino, o paradigma de referência são os territórios de Gaza e da Cisjordânia que Israel conquistou.

Quando se discute o estatuto de Jerusalém, a lembrança é a tomada da cidade aos jordanos em 1967.
Quando se discute o destino dos refugiados palestinos –e dos seus filhos, e dos filhos dos filhos– as migrações daquele mês de junho são um capítulo adicional.
E hoje?

Para a "comunidade internacional", a solução dos dois Estados continua em cima da mesa. Para vários céticos, essa solução já não é realista. Melhor optar por um estado binacional –ou, então, por três Estados: um em Gaza (controlado pelo Hamas), um em Israel e outro na Cisjordânia, talvez em associação –federal, confederal– com a Jordânia.

Não acredito em nenhum deles. Três Estados são impensáveis para as lideranças palestinas. Um Estado binacional é impensável para Israel, que muito compreensivelmente não deseja o suicídio demográfico. E os dois Estados desapareceram do horizonte israelense depois dos fracassos negociais de 2000-2001, 2008 e 2014.

Cinquenta anos atrás, uma vitória militar épica criou um problema igualmente épico. Resolver esse problema não será tarefa para seis dias, ou seis anos, ou seis décadas.

05/06/2017 11h30 Cotidiano


Negro e jovem sem estudo são maiores vítimas de violência, mostra pesquisa


Uma realidade histórica do Brasil se tornou ainda mais dramática nos últimos anos: cada vez mais jovens e negros morrem no Brasil. É o que mostra o relatório Atlas da Violência 2017, divulgado na manhã desta segunda-feira (5).

Elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao governo federal, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG especializada no assunto, o estudo analisou dados do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde, que traz informações sobre incidentes até o ano de 2015.

Em 2015, houve, no Brasil, 59.080 homicídios, o que equivale a uma taxa de 28,9 por 100 mil habitantes.

"Isso é equivalente a um avião caindo todos os dias no Brasil", diz Samira Bueno, diretora executiva do FBSP.

"Trata-se de um número exorbitante, que faz com que em apenas três semanas o total de assassinatos no país supere a quantidade de pessoas que foram mortas em todos os ataques terroristas no mundo, nos cinco primeiros meses de 2017, e que envolveram 498 casos, resultando em 3.314 indivíduos mortos", compara o relatório.

O perfil típico das vítimas fatais: homens, jovens, negros e com baixa escolaridade. De 2005 a 2015, a violência contra jovens e negros tenha aumentado ainda mais.

"Há, no Brasil, uma licença para matar, desde que isso aconteça fora das áreas nobres das cidades", diz Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e um dos autores do estudo.

Segundo o relatório, homicídios contra jovens vinham crescendo menos nas últimas décadas – 89,9% nos anos 1980, 20,3% nos 1990 e 2,5% nos 2000. Entre 2005 e 2015, no entanto, houve um aumento de 17,2% na taxa de homicídio de indivíduos entre 15 e 29 anos. Foram 318 mil.


Em 2015, a taxa de mortes entre 15 e 29 anos para cada grupo de 100 mil jovens foi de 60,9. Se apenas homens jovens forem levados em conta, este indicador aumenta para 113,6 – a taxa geral por 100 mil habitantes foi de 28,9.

"Isso tem a ver com a falta de investimentos em outras áreas. Quanto mais anos de escolaridade, menor é a chance de homicídio. O Rio de Janeiro é exemplo disso com a política de UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). A polícia subiu os morros sozinha, então não deu certo", diz Bueno.
Para ela, não há uma resposta clara para por que essas taxas pioraram após algumas décadas de melhora.

"É curioso notar que o crescimento econômico e a redução da desigualdade que o Brasil viveu nas últimas décadas não se traduziu em melhora. O crescimento econômico é positivo, mas, sozinho, não dá conta", diz Bueno.

NEGROS

A violência também avançou contra negros entre 2005 e 2015. Enquanto houve um crescimento de 18,2% na taxa de homicídio de negros, a mortalidade de indivíduos não negros diminuiu 12,2%.
Os autores do estudo estimam que o cidadão negro possui chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação a cidadãos de outras raças/cores, já descontado o efeito da idade, sexo, escolaridade, estado civil e bairro de residência.

"Isso mostra que a cor da pele tem um peso nessas mortes. Os pesquisadores ainda estão tentando entender isso melhor", diz Bueno.

"Talvez tenha a ver com um legado de racismo. Alagoas, por exemplo, é um dos Estados com a maior disparidade entre a morte de negros e brancos, e talvez não por acaso seja a terra de Zumbi dos Palmares", diz Cerqueira.

O aumento da violência contra a população negra também foi observado nos dados de mortes de mulheres. Em 2015, 4.621 mulheres foram assassinadas no Brasil, o que corresponde a uma taxa de 4,5 mortes para cada 100 mil mulheres. Enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras diminuiu 7,4%, entre 2005 e 2015, o indicador equivalente para as mulheres negras aumentou 22,0%.

A arma de fogo foi a principal causadora de mortes em 2015. Respondeu por 71,9% dos homicídios. De acordo com o relatório, depois de uma redução nas mortes por armas de fogo que se seguiu após o Estatuto do Desarmamento até 2007, observou-se um incremento nas mortes por esse tipo de instrumento nos últimos anos, sobretudo, no norte e nordeste do país, os lugares onde mais cresceram as taxas de homicídio.

No que diz respeito à distribuição geográfica dos homicídios, o nordeste segue despontando como líder nesse crime. Com exceção do Tocantins e Amazonas, todos os estados com crescimento superior a 100% nas taxas de homicídios, entre 2005 e 2015, pertenciam a essa região do país.


O Estado de São Paulo teve a maior variação negativa na taxa, de -44,3%. No entanto, diz o estudo, pode haver um problema nos dados, pois há uma proporção grande de mortes violentas por causa indeterminada.

"Ainda assim, apesar da má qualidade dos dados, São Paulo é o Estado mais pacífico", diz Cerqueira.
Entre 2010 e 2015, os maiores crescimentos aconteceram nos estados de Sergipe (+77,7%), Rio Grande do Norte (+75,5%), Piauí (+54,0%) e Maranhão (52,8%) e as maiores quedas, no Espírito Santo (-27,6%), no Paraná (-23,4%) e em Alagoas (-21,8%).

O grosso da violência, sugere o relatório, aconteceu em alguns poucos municípios. Em 2015, 111 municípios (2% do total) responderam por metade dos homicídios no Brasil, e 10% dos municípios (557) concentraram 76,5% do total de mortes no país.

O município considerado o mais pacífico foi Jaraguá do Sul (SC) e o mais violento, Altamira (PA). Além do município catarinense ter índices de desenvolvimento humano muito superiores aos de Altamira, os autores apontam outros fatores que também contribuem para o aumento da violência em cidades, por exemplo, um crescimento rápido e desordenado, como aconteceu em Altamira, no rastro da construção da Usina de Belo Monte.

Para os pesquisadores, tem havido uma interiorização da violência – ela não está mais concentrada em grandes metrópoles.

Outros fatores apontados são: um mau mercado de trabalho – um estudo do Ipea feito em 2015 mostra que a cada 1% de redução na taxa de desemprego de homens, a taxa de homicídio diminui 2,1%; a geração de renda nas cidades, que traz benefícios, mas também torna viáveis economicamente os mercados locais de drogas ilícitas; o desenvolvimento econômico e a consequente vinda de imigrantes às cidades, que podem provocar um esgarçamento do controle social do crime.

"A crise dos últimos três anos certamente teve impacto porque afeta o mercado de trabalho e tira recursos do governo para atuar", diz Cerqueira.

"Se somam a esse cenário características das próprias políticas de segurança. Em primeiro lugar, elas são reativas; em segundo, temos dificuldade de institucionalizá-las – ir além de um líder forte que esteja engajado, caso do Eduardo Campos, em Pernambuco [ex-governador do Estado, morto em 2014] ", diz Bueno.


Essas situações se dão, diz o relatório, "quando as transformações urbanas e sociais acontecem rapidamente e sem as devidas políticas públicas preventivas e de controle, não apenas no campo da segurança pública, mas também do ordenamento urbano e prevenção social, que envolve educação, assistência social, cultura e saúde, constituindo assim o quarto canal pelo qual o desempenho econômico pode afetar a taxa de criminalidade nas cidades. Ou seja, a qualidade da política pública é um dos 21 elementos cruciais que podem conduzir à diminuição das dinâmicas criminais".

O relatório também traz alguns bons exemplos, os casos do Espírito Santo e de Pernambuco. Entre 2007 e 2013, a taxa de homicídio pernambucana caiu 36%, no rastro da implantação do "Pacto pela Vida". Entre 2010 e 2015 a taxa de homicídio no Espírito Santo diminuiu 27,6%, no âmbito do programa "Estado Presente", lançado em 2011.

No entanto, aponta a fragilidade dos avanços nos dois Estados ao lembrar a greve de policiais militares capixabas e o recrudescimento da violência letal em Pernambuco a partir de 2013.

O Atlas da Violência 2017 também faz uma crítica à constante subnotificação no SIM de casos envolvendo letalidade policial -um problema, segundo o estudo, nacional. Em 2015, o SIM registrou 942 casos de intervenções legais, enquanto a segurança pública registrou 3.320 mortes decorrentes de intervenções policiais, ou seja, 3,5 vezes o número de registros da saúde.

Segundo o estudo, o número de mortes decorrentes de intervenção policial já ultrapassou o de latrocínio (roubo seguido de morte), o que demonstra que práticas letais de agentes estatais configuram um padrão institucional de uso da força pelas polícias.


"A letalidade policial e a vitimização policial que a ela se associa são produtos de um modelo de enfrentamento à violência e criminalidade que permanece insulado em sua concepção belicista, que pouco dialoga com a sociedade ou com outros setores da administração pública", dizem os autores do estudo.

Para eles, os episódios de insegurança que marcaram este ano de 2017, como rebeliões em presídios e greve de policiais, vieram na esteira do agravamento da situação de segurança em anos anteriores, sobre os quais o relatório se debruça.

04/06/2017 02h25 - Atualizado em 06/06/2017 às 00h22mauricio stycer


Em sua história, a Globo é confrontada por decisões editoriais polêmicas


O grande número de decisões graves tomadas de forma equivocada ao longo de sua história criou um passivo do qual a emissora não consegue se livrar. Mesmo tendo reconhecido alguns dos erros, a desconfiança de que está sempre pronta a cometer algum desatino se mantém presente.

O fato de, mesmo sendo uma concessão pública, não conseguir disfarçar os seus interesses em matérias políticas e econômicas, ainda que não constitua uma exceção entre as emissoras de TV, ganha dimensão especial na Globo.

O tamanho que a emissora tomou, por seus méritos, dá a ela um poder extraordinário de reverberar e influenciar os seus pontos de vista, bem embalados em opções editoriais.

Tem sido notável, nos últimos anos, o esforço de mudar esta imagem e tentar convencer o espectador de que está diante de um império justo e imparcial.

Na série em que comemorou os 50 anos da TV, exibida em abril de 2015, o "Jornal Nacional" buscou fixar a ideia de que a emissora foi uma grande vítima da censura, deixando em segundo plano o apoio que deu à ditadura militar no período.

Como lembram as pesquisadoras Christina Ferraz Musse e Cláudia Thomé, em "Memórias (Re)construídas pelo Jornal Nacional", "o relato da memória é uma construção do presente".
No artigo, elas avaliam que na série sobre os 50 anos o telejornal ampliou "seu poder de mandar olhar" e, passando a limpo a sua história, indicar "o que deverá ser guardado pelo público".

O artigo integra a coletânea "Telejornalismo e Poder" (ed. Insular, 340 págs., R$ 48), lançada no final de 2016 pela Rede de Pesquisadores em Telejornalismo, formada por professores de diferentes universidades do país.

A Globo, naturalmente, é o tema principal de vários dos ensaios. A ideia de que a emissora criou uma "realidade parcial", como definem Alfredo Vizeu e Laerte Cerqueira, percorre boa parte dos textos.
Mesmo que, em muitos casos, os argumentos não sejam contundentes, a coletânea transpira essa má impressão ao analisar fatos que se estendem à cobertura do impeachment de Dilma Rousseff e à cassação de Eduardo Cunha.

Um ponto frequentemente lembrado em defesa da Globo é a qualidade –indiscutível– de seus profissionais. O argumento, porém, desvia a discussão. Que culpa tem o time de repórteres se a emissora decidiu não dar qualquer informação sobre a greve geral de 28 de abril nos dias que a antecederam?

Ou se a GloboNews optou por não noticiar, no telejornal das 19h do último domingo (28), a enorme manifestação por eleições diretas realizada no Rio? Ou se, às 20h, o assunto foi tratado friamente e de forma editorializada ("Os manifestantes pediram pacificamente eleições diretas, o que não está previsto pela Constituição nestas circunstâncias")?

É natural, por tudo isso, que o papel da Globo no mais recente escândalo político esteja chamando tanta atenção.

Num intervalo de 22 horas, o jornal "O Globo" publicou as primeiras notícias, todos os telejornais da emissora reverberaram com bumbo. Só depois disso é que se ouviu o áudio com as gravações que embasaram todas essas decisões.

No auge do frenesi, o jornal chegou a noticiar que o presidente já havia decidido renunciar. O equívoco, ainda que prontamente corrigido, trouxe a lembrança de muitos outros erros.

06/06/2017 02h00hélio schwartsman


Pelas tangentes

Sérgio Lima - 14.dez.2011/Folhapress
BRASÍLIA, DF, BRASIL 14-12-2011 16h00: Novo predio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), projetado por Oscar Niemeyer, que será inaugurada no 104º aniversário do arquiteto, em Brasília (DF). A obra custou R$ 327 milhões. (Foto: Sérgio Lima/Folhapress PODER)
Prédio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), projetado por Oscar Niemeyer, em Brasília

Tirar ou não Michel Temer da Presidência numa ação relativa à campanha eleitoral que elegeu Dilma? Essa é a dúvida que deve assaltar os sete ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Até há pouco, o julgamento tinha outra dimensão. Dava-se como certo que a corte ou encontraria uma argumentação jurídica para conservar o mandato de Temer ou procrastinaria o processo até que ele perdesse a razão de ser. Mas, depois das explosivas denúncias de Joesley Batista, o juízo no TSE passou a ser visto como "saída honrosa" para a crise.

Não há mais dúvida de que a chapa Dilma-Temer foi alimentada por recursos ilícitos em grande escala. Cassá-la, portanto, seria um caso de justa aplicação da lei com o bônus de ajudar a resolver a encrenca política.

O que pode estar provocando hesitações nos ministros é que, por mais que existam elementos fáticos e jurídicos para anular a vitória da chapa, é difícil não ver nessa solução uma espécie de efeito gambiarra, já que estaríamos utilizando um atalho. Temer, afinal, não estaria sendo removido do cargo pelos crimes de que é acusado, mas pela feliz coincidência de existir um processo inconcluso contra Dilma que o arrasta com ela.

Num plano mais doutrinário, também se contesta a abrangência da legislação, que permite ao TSE interferir num resultado eleitoral quase três anos após o pleito. A simples possibilidade de fazê-lo vai contra o princípio da estabilidade eleitoral e da segurança jurídica. Isso, porém, são favas contadas, pois o STF já declarou que esse dispositivo é constitucional.

Quaisquer que sejam as objeções teóricas e jurídicas à cassação, a questão, me parece, é antes moral e política. Não dá para fingir que não vimos Temer numa situação absolutamente inapropriada com um empresário que confessou ter distribuído propina por toda a República. Se o TSE tem a melhor chance de arrumar as coisas, ainda que pelas tangentes, não vejo por que não utilizá-la.

segunda-feira, 5 de junho de 2017


05/06/2017 02h00
 
jaime spitzcovsky


Trump, europeus e aiatolás





Inflada nas últimas semanas com temas como acordo climático, visões sobre comércio internacional e caminhos da Otan, a coleção de fricções entre o paladino do "America First", Donald Trump, e a dupla europeia Angela Merkel e Emmanuel Macron pode se enrobustecer ainda mais, em breve. No radar, com potencial para gerar mais fissuras transatlânticas, as relações das potências globais com o regime teocrático do Irã.

Trump aponta o governo iraniano como um dos principais fatores de desestabilização no Oriente Médio, propõe isolar Teerã e, assim, coloca em xeque o acordo nuclear, assinado em 2015, entre o Irã e as potências globais: EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha.

Na campanha eleitoral, Trump qualificou o tratado como "o pior de todos os tempos". O polêmico entendimento se baseou na ideia de o Irã recuar de suas ambições nucleares, teoricamente distanciando-se da capacidade de construir bombas, para obter alívio em sanções comerciais e reinserção na economia global.

Para detratores da iniciativa capitaneada por Obama, Teerã teria sido o grande beneficiário do acordo, ao não desmantelar a infraestrutura nuclear, e poder, no futuro e com economia vitaminada, retomar projetos atômicos com contornos militares.

Assumiram tal discurso Israel e Arábia Saudita, principais rivais regionais do Irã, além de republicanos críticos da política externa de uma Casa Branca em mãos democratas.

Obama e aliados argumentam terem arrancado importante recuo do Teerã, a ser acompanhado por rígido esquema de monitoramento interacional das instalações nucleares. Perspectivas de lucrativos negócios com o Irã também estimularam, e muito, o apetite diplomático das potências globais.
Às vésperas da posse de Trump, a União Europeia disparou sinais ao futuro governo, exortando-o a poupar o pacto nuclear com o Irã.

A mensagem chegava embebida por interesses econômicos e também pela percepção de que expandir contatos econômicos e diplomáticos com Teerã contribuem, no médio prazo, para fortalecer setores moderados da sociedade iraniana, enquanto, segue a lógica, isolar o regime dos aiatolás vai ao encontro dos interesses de grupos mais conservadores de Teerã, preocupados em se agarrar ao poder apoiados na pesada retórica contra os EUA e seus aliados, como Israel e Arábia Saudita.

No recente périplo ao Oriente Médio, Trump voltou a insistir no isolamento do Irã, em discursos bem recebidos por anfitriões israelenses e sauditas. A Casa Branca, em fevereiro, impôs novas sanções a Teerã, após o governo iraniano patrocinar teste com mísseis.

Em maio, o regime iraniano sinalizou a opção por preservar o tratado, com a recondução ao poder do presidente Hassan Rouhani, para mais um mandato de quatro anos. "A França permanecerá vigilante, para certificar-se de que Teerã continuará a observar estritamente as condições do acordo", declarou então Macron.

Se Trump insistir em desfazer o tratado, se fortalecerá junto a aliados como os governos israelense e saudita. Mas vai deslanchar mais uma crise, por exemplo, com Alemanha e França. 

05/06/2017 02h00Poder




Governo encurralado




JBS pagou propina para assumir saneamento de Estados, diz delator

Danilo Verpa/Folhapress
Joesley Batista, da empresa JBS: empresa acertou acordo de leniência e ações subiram 8,5%
Joesley Batista, da empresa JBS: grupo J&F planejava entrar no setor de saneamento

Com braços muito além do setor de alimentos, o grupo J&F, dono do frigorífico JBS, tentou em 2014 se aproximar de governadores de ao menos cinco Estados com o objetivo de entrar no setor de saneamento.

O delator Ricardo Saud, executivo do grupo, diz que a ideia era criar uma concessionária dos serviços de água e esgoto pelo país e que o grupo chegou a pesquisar as estatais mais deficitárias.

Segundo ele, as propinas paga aos atuais governadores do Rio Grande do Norte, Robinson Faria (PSD-RN), e de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD-SC), tinham esse objetivo.

No Rio Grande do Norte, contou o delator, o plano da empresa era ousado: indicar um secretário estadual para coordenar a privatização.

Saud também disse que o grupo dono da JBS procurou as campanhas dos governadores Renan Filho (PMDB-AL), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS) e Fernando Pimentel (PT-MG).

"Dissemos, ó Fernando. Tem a Copasa [Companhia de Saneamento de Minas] lá, a gente sabe que é difícil, mas dá um pedaço da Copasa para a gente."

Para Robinson Faria, disse ele, foram pagos R$ 10 milhões dentro desse plano, sendo parte em doação oficial. Saud afirma que o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), filho de Robinson, buscou dinheiro vivo.

A discussão sobre o assunto, falou o delator, ocorreu em um jantar em São Paulo em que esteve a mulher do deputado, Patrícia Abravanel, que é filha do apresentador de TV Silvio Santos.

"[Falamos:] sem nós, você não ganha a eleição. Mas tem que deixar firmado que nós vamos indicar um secretário de Estado, que vai acompanhar tudo de perto porque vocês não são confiáveis." Em Santa Catarina, relatou Saud, a aproximação contou com o apoio do secretário da Fazenda, Antonio Gavazzoni, que pediu demissão após a divulgação do teor da delação.

O delator disse que foram pagos R$ 10 milhões, sendo R$ 8 milhões em doações ao PSD nacional, e R$ 2 milhões em dinheiro vivo, entregues em Florianópolis.

Ele afirma que a J&F precisaria de facilitação nos editais porque não teria como competir com a OAS ou a Odebrecht. O projeto do grupo de Joesley Batista, porém, acabou não se concretizando.
Diante da crise nas empreiteiras em decorrência da Operação Lava Jato, o grupo desistiu da ideia porque "já tinha problema" o suficiente para enfrentar mais adiante.

Saud atuava como lobista da J&F e era uma das principais pontes entre o grupo e políticos. Ele diz que o grupo fez pagamentos a mais de 1.800 candidatos pelo país.

A privatização do saneamento também apareceu na delação da Odebrecht, mas em prefeituras do Estado de São Paulo. O ex-executivo Fernando Reis afirmou que a divisão ambiental da empreiteira procurou se aproximar de candidatos na eleição de 2012 porque tinha em vista os processos de licitação do setor nos municípios.

Onze Estados providenciam atualmente estudos de viabilidade que podem resultar em concessões nessa área.

OUTRO LADO

Os governadores citados pelo delator Ricardo Saud, executivo da J&F, negam que tenham recebido propina da empresa e afirmam que as doações do grupo foram legais.

Robinson Faria (PSD-RN) e seu filho, o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), dizem que os pagamentos não envolveram contrapartidas e que não há razão para para desconfiar da origem da doação ao PSD nacional. O governador sustenta que já desde a campanha disse que não iria privatizar a Companhia de Águas e Esgotos do Estado.

Raimundo Colombo negou "com veemência" as declarações de Ricardo Saud. "Pelo que eu saiba essa é uma empresa de proteína animal, boi, frango, tipo suínos, linguiça e não cabe tratar da Casan [Companhia Catarinense De Águas e Saneamento]", disse, em entrevista.

O governador Renan Filho (PMDB-AL) disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que está revitalizando a companhia de abastecimento e que as contas de sua campanha foram aprovadas.
Fernando Pimentel (PT-MG) falou, também por meio de sua assessoria, que a declaração de Saud é "mentirosa e leviana".

Reinaldo Azambuja, também via assessoria, disse que desconhece qualquer compromisso relacionado à privatização e que cancelou quatro termos de incentivos fiscais concedidos anteriormente à J&F. 

05/06/2017 02h00Diogo Bercito


Como Xerxes, rei dos reis, Donald Trump está diante de seu Helesponto

Divulgação/WarnerBros
O ator Rodrigo Santoro interpreta o rei Xerxes no filme "300"
O ator Rodrigo Santoro interpreta o rei Xerxes no filme "300"

Uma tempestade particularmente violenta destruiu, no século 5º a.C, a ponte que Xerxes mandara construir para seu Exército atravessar o Helesponto. Enraivecido, o rei dos reis ordenou que o mar fosse chicoteado. Então esbravejou: "Você, água odiosa! Xerxes vai cruzá-lo, queira você ou não! Você é um rio barrento e salgado!"

A história é narrada por Heródoto. O monarca persa conseguiu cruzar o estreito de água e invadiu a Grécia. Ele atravessou também as ondas do tempo e ainda hoje esbraveja nas sombras das personalidades políticas soberbas.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode carecer do lirismo de Xerxes, mas não hesita em espernear quando é contestado. Com a diferença de que talvez tivesse preferido construir muros em vez de uma ponte.

Populistas como ele têm ganhado terreno no mundo. O Reino Unido decidiu em junho do ano passado deixar a União Europeia após uma campanha marcada por "fatos alternativos", também conhecidos como mentiras, em torno do sis - tema de saúde e da migração.

Marine Le Pen, do partido Frente Nacional, movimentou exércitos eleitorais na França com a promessa de também arrancar o país do bloco econômico. Ela foi derrotada em 7 de maio, mas teve 34% dos votos, resultado bastante expressivo. Populistas de direita avançam na Áustria e na Holanda, e os de esquerda marcham na Espanha e na Grécia.

O Helesponto, que Xerxes chicoteou, hoje se chama Dardanelos. É uma passagem entre Ásia e Europa e ainda tem um forte simbolismo -como uma linha vermelha cruzada.

A decisão de atravessá-lo não favoreceu os persas de antanho. Embevecido pelo próprio poder, Xerxes atacou uma frota grega em condições desfavoráveis e foi derrotado.

Mais tarde, segundo Heródoto, o rei dos reis cruzou o estreito na direção oposta e abandonou a Grécia. Ele foi morto por Artabano, comandante da guarda real. Foi um dos episódios mais marcantes da Antiguidade e serviu, desde então, como um alerta aos impérios. Mas não a todos.

Trump atravessou outras linhas imaginárias ao escalar o conflito civil sírio, ameaçar a Coreia do Norte e lançar a "mãe de todas as bombas" no Afeganistão -um título, aliás, superlativo como o do rei dos reis.

A exemplo do monarca persa, Trump esbraveja barbaridades contra seus próprios mares. Mais moderno, recorre ao Twitter para reclamar de quem discorde dele. Como a Justiça, que desautorizou seus planos de impedir a entrada de cidadãos de países muçulmanos.

O presidente americano chegou ao ponto em que, com seus recentes conflitos com o FBI e a divulgação de informações sigilosas à Rússia, corre o risco de sofrer um impeachment e ter que cruzar de volta seu Helesponto -e, rei de nada, deixar a Presidência dos EUA.