domingo, 4 de junho de 2017



04/06/2017 02h00antonio prata


Quantos amigos seus estão na cracolândia?



Adams Carvalho/Folhapress




Carl Hart é psicólogo, psiquiatra e foi o primeiro negro a alcançar o posto de professor titular de neurociências na Universidade de Columbia, em Nova York. Em 2015, Hart veio ao Brasil divulgar seus estudos sobre drogas e vício. Numa entrevista ao Drauzio Varella (http://migre.me/wJr6N ), falou sobre sua pesquisa com ratos e macacos, em laboratório. Quando se coloca um animal sozinho numa jaula, capaz de acionar uma alavanca e receber uma dose de cocaína ou meta-anfetamina na veia, o bicho acionará a alavanca até morrer. Quando, porém, há mais estímulos na jaula, além da alavanca, como um outro animal sexualmente ativo, uma rodinha (no caso dos ratos) ou doces, as cobaias sobrevivem.

Extrapolando seus insights para humanos, o que Hart prega é que não adianta combater o vício sem apresentar alternativas à droga. A cracolândia, ele insistiu em entrevistas e palestras, por aqui, não pode ser pensada pela perspectiva do vício sem ser pensada antes pela perspectiva da miséria.

Imagine que você é um mendigo viciado em crack. Seus pertences são uma calça esfarrapada, uma camiseta imunda, um par de Havaianas, um isqueiro. Você se lembra vagamente de ter tido metade de um pente, num passado não muito distante, mas não sabe onde foi parar. Sua existência se resume a pedir dinheiro no farol e a fumar crack. Nos minutos que duram a viagem, você se esquece de tudo. O resto do tempo é o inferno.

Um belo dia você decide parar com o crack. Você luta, faz um esforço sobre-humano e depois de meses está curado. Você deita sob uma marquise na rua Helvétia, apoia a cabeça num paralelepípedo, dá um gole numa poça d'água e pensa: agora eu sou um mendigo saudável! Pensa no futuro. Posso arrumar um trapo para limpar os vidros dos carros, no farol. Quem sabe, vender Suflair? 

Se me esforçar bastante, consigo um carrinho e um cachorro, virarei catador. Talvez você seja uma pessoa mais solar do que eu, mas devo admitir que, se estivesse naquela situação, escolheria o crack. Ficaria na minha jaula acionando a alavanca até morrer.

É verdade que muitas das pessoas que estão na cracolândia chegaram à mendicância por causa da droga, mas não vieram de muito longe. A maioria, segundo censo da prefeitura, não completou o ensino fundamental. São pobres, negros e pardos. Quando aparece alguém de fora desse estrato é um espanto, como foi a suspeita de que o irmão da Suzane Richthofen era viciado. Claro que parte da comoção com a notícia tem a ver com a tragédia daquele garoto. Mas uma parte do susto é: meu Deus, um loiro na cracolândia! Um descendente de alemães! Que estudou em escola particular!

Quantas pessoas do seu círculo consomem álcool regularmente? E maconha? Aposto que você conhece pessoas profissionalmente ativas e bem sucedidas que consomem cocaína. E crack? Quantos viciados em crack há na sua família, na sua turma de escola, dormindo no chão, na praça Princesa Isabel? Princesa Isabel, veja só.

Em 2015, Carl Hart, negro, com dreads, foi barrado na entrada de um hotel, em São Paulo. Questionado a respeito, disse não entender porque as pessoas estavam tão chocadas por ele ter sido barrado no hotel, mas não se chocavam com o fato de não haver um só negro no público de suas palestras.

Infelizmente, entre nós, o choque mais comum diante da desigualdade é a tropa. 

04/06/2017 02h00
elio gaspari

Jogo no TSE pode virar contra Temer, mas depende de fato novo
Eduardo Knapp/Folhapress
Sao Paulo, SP, BRASIL, 30-05-2017: Presidente Michel Temer (PMDB) passa ao lado do prefeito Joao Doria (PSDB) na abertura do Forum de Investimentos Brasil 2017 no Hotel Grand Hyatt, em Sao Paulo (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, PODER).
Presidente Michel Temer em São Paulo

Um veterano frequentador de manifestações que estava na esplanada dos Ministérios no dia 24 de maio garante que havia dois tipos de black blocs barbarizando a cena. Um, o mais aguerrido, podia ser reconhecido por duas características: estava na faixa dos trinta anos (enquanto o outro grupo estava nos vinte) e sua máscara era nova.

TEMPO SUPREMO

Na sessão em que teve a palavra para dar seu voto no julgamento do fim do foro privilegiado, o ministro Alexandre de Moraes falou por hora e meia, a duração de uma partida de futebol.
Ao fim, pediu vistas, coisa que era sabida e esperada.

Três ministros anteciparam seus votos, acompanhando Luís Roberto Barroso, que defende a morte do privilégio. A antecipação foi uma clara demonstração de desconforto dos colegas.

É sabido que Moraes ama o Direito e a própria voz. Resta saber se honrará seus aliados com um longo silêncio.

COMANDO MILITAR

Desde março, quando gravou oficialmente um vídeo revelando que padece de uma "doença neuromotora de caráter degenerativo", sabe-se que o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, caminha com dificuldade, apoiado numa bengala.

Deve-se registrar que Villas Bôas pediu ao presidente Michel Temer que o dispensasse do comando. Temer disse-lhe que ficasse.

NOME AOS BOIS

Quando o deputado Osmar Serraglio disse que foi retirado do ministério da Justiça por "trôpegos estrategistas" referia-se a dois marqueses do Planalto: Moreira Franco e Eliseu Padilha.
Resta saber até que ponto eles foram responsáveis por sua desastrosa indicação.

PLACAR

Na segunda-feira da semana passada, era certo que Dilma Rousseff e Michel Temer seriam cassados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Na quarta o placar virara. Dilma e Temer seriam absolvidos, por 5x2 ou 6x1.

Na noite de quinta esse resultado continuava de pé.

Até terça-feira o jogo pode virar, mas seria necessário um fato novo. Por exemplo: uma entrevista de Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala.

FHC E DE GAULLE

Fernando Henrique Cardoso jura que não tem interesse em substituir Michel Temer, caso ele deixe a Presidência.

Nos anos 50, durante as crises da república francesa, o general Charles De Gaulle manteve-se na sua casa da cidadezinha de Colombey-les-Deux-Églises. Se precisassem dele, deveriam vir chamá-lo. Pelo movimento da rua Formosa, onde funciona o Instituto Fernando Henrique Cardoso, se houver um impasse e um apelo multipartidário, FHC pode repensar a questão, voltando ao poder, como De Gaulle.

Uma alma viperina lembra que, completando 86 anos no próximo dia 18, FHC está cronologicamente afastado de De Gaulle, que regressou ao palácio aos 67 anos.

Numericamente, assemelha-se mais a outro general francês, levado ao poder em 1940 pelo que restava da França depois da invasão alemã. O marechal Philippe Pétain, herói da primeira guerra, tinha 84 anos. Assumiu a república de Vichy como Pai da Pátria, apoiado por um pedaço do conservadorismo francês.

Com o fim da guerra, Petain foi trancafiado numa fortaleza e lá morreu, em 1951


04/06/2017 02h00carlos heitor cony

Faz vergonha


Ainda bem que não conheço nada, sobretudo de política, economia e tecnologia. Para mim, 2 + 2 podem ser cinco ou três. Não estou nem aí. Houve tempo em que tentei entender filosofia e teologia, estudava num seminário que também não entendia.

Minha ignorância chegou ao nível máximo num carnaval distante, tinha nove ou dez anos, e até hoje não entendi por que me colocaram uma fantasia de chinês com direito a uma sombrinha e um bigode de rolha queimada. Vinguei-me colocando no peito o slogan que me acompanha até hoje: "Eu Sozinho".

Embora não estivesse sozinho, mas cercado de palhaços, centuriões romanos, morcegos, mocinhos de cinema e marinheiros do "Couraçado Minas Gerais", desfilei num bloco que se chamava "Faz Vergonha". Fiz.


E até hoje continuo fazendo, sobretudo quando leio ou vejo pela TV o divertido bloco de deputados, senadores, ministros, colunistas e até um presidente da República.


Mesmo sem ser carnaval, ou carnaval de mais, continuo sozinho, sem nada entender. Sei que estão tentando expulsar o presidente da República -já existem vários candidatos para ocupar o seu posto.
A Constituição que nos rege e guia e estabelece uma linha sucessória que coloca o presidente da Câmara Federal como a terceira via legal para substituir um presidente afastado e um vice-presidente ameaçado de ser também afastado. Sei também que o STF sempre foi o guardião da Constituição, seja ela qual for. 

Tivemos até mesmo uma Constituição que passou à história como "polaca".

Embora sem fantasia de chinês, sem sombrinha nem bigode de rolha queimada, faço parte do "Eu Sozinho" e, obedecendo ao nome do meu bloco "Faz Vergonha", continuo fazendo.
A mídia também integra o divertido bloco do "Faz Vergonha". E, como sempre, o "Faz Vergonha" está fazendo.

04/06/2017 02h00-hélio schwartsman


"O Eu Diário"



Quando você acessa alguma rede social em busca de notícias, acaba lendo um "jornal" que poderia muito bem receber o nome de "O Eu Diário". É que quem se informa apenas pelas redes acaba adquirindo um conteúdo ultrafiltrado, que exclui tudo o que o titular da conta não aprecia. O "noticiário" esportivo fala apenas do seu time; o político, do partido com o qual você se identifica; e as páginas de opinião trazem justamente as opiniões com as quais você já concorda.

Para alguns, essa poderia ser a definição de vida perfeita: um filtro que elimina tudo aquilo de que eu não gosto. Mas, como o mundo não é tão simples, a prática tem alguns efeitos colaterais deletérios. É esse o tema central de "#republic", de Cass Sunstein. 

Para o autor, as câmaras de eco em que as redes sociais nos colocam acabam reforçando a fragmentação e a polarização da sociedade. Sunstein analisa com competência a literatura psicológica que mostra por que e em quais condições isso ocorre. Para ele, as redes tratam as pessoas como consumidoras e não como cidadãs, e a diferença é importante para a democracia.

Se, no registro do consumo, podemos perfeitamente nos pautar apenas por nossos gostos e idiossincrasias, no da cidadania, precisamos nos expor a assuntos e ideias que não fazem parte de nossa pauta favorita. É preciso até ouvir e avaliar argumentos com os quais não concordamos.
Sem isso, os aspectos mais deliberativos de nossa democracia, que só funcionam em condições muito específicas, entram em colapso. 

E não é só. Sem uma base comum de problemas e ideias que valem a pena discutir, não temos nem sequer uma linguagem que possa ser usada -e compreendida- por todos.
Para Sunstein a questão não é se devemos ou não regular a internet e a liberdade de expressão, mas como fazê-lo para preservar ao máximo as vantagens da rede, as liberdades civis e a saúde da República. 

sábado, 3 de junho de 2017

Livros destacam mulheres inovadoras; veja lançamentos


O Cifras & Letras seleciona semanalmente lançamentos nacionais e internacionais na área de negócios e economia.
Esta semana dois livros destacados tratam de mulheres inovadoras.
Entre os nacionais, "Wonder Women" apresenta o perfil de 25 notáveis em áreas como inovação, ciências e engenharia.
Já entre os internacionais, o livro "Geek Girls Rising" conta a história de mulheres que entraram no mercado de tecnologia do "Vale do Silício", na califóornia (EUA)) para comandar start-ups.
Veja abaixo:
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MAIS VENDIDOS

Teoria e Análise
1º (1º) Rápido e Devagar - Daniel Kahneman (Objetiva) - R$ 54,90
2º (-) A Quarta Revolução Industrial - Klaus Schwab (Edipro) - R$ 49
3º (-) O Capital no Século 21 - Thomas Piketty (Intrínseca) - R$ 59,90
4º (-) O Capital (Livro 1) - Karl Marx (Boitempo)
5º (3º) Os Axiomas de Zurique - Max Gunther (Best Business) - R$ 35,90
Práticas e Pessoas
1º (5º) Poder e Alta Performance - Paulo Vieira (Gente) - R$ 29,90
2º (1º) O Poder da Ação - Paulo Vieira (Gente) R$ 29,90
3º (-) Impacto - Maurício Sampaio (Buzz) - R$ 29,90
4º (2º) Por que Fazemos o que Fazemos? - Mario Sergio Cortella (Planeta) R$ 31,90
5º (4º) Qual É a Tua Obra? - Mario Sergio Cortella (Vozes) - R$ 29,90
Lista feita com amostra informada pelas livrarias Saraiva, Curitiba, Martins Fontes, Fnac, Livraria da Vila, Livraria Cultura e Argumento; os preços são referência do mercado e podem variar; semana entre 21/5 e 27/5; entre parênteses, a posição na semana anterior 

03/06/2017 02h00CLÓVIS ROSSICOLUNISTA DA FOLHA

Pequim faz bom-mocismo diplomático a baixo custo

É uma das raríssimas vezes em que China e Estados Unidos votam da mesma maneira no Conselho de Segurança no dossiê norte-coreano.
Li Muzi/Xinhua
O embaixador da China na ONU, Liu Jieyi, vota a favor de sanções contra Pyongyang no Conselho de Segurança
O embaixador da China na ONU, Liu Jieyi, vota contra a aliada Pyongyang no Conselho de Segurança
O jogo, naquela região, é claro: a ditadura da Coreia do Norte é um pária internacional, respaldada apenas pela China. Não por especial simpatia, mas porque os chineses acreditam que uma eventual desestabilização norte-coreana poderia levar a uma migração maciça para a vizinha China.

Esse risco, bem feitos os cálculos, seja talvez o menor dos que entram na conta da sempre explosiva península Coreana.

O fantasma maior é o de que o imprevisível ditador Kim Jong-un, por iniciativa própria ou por um erro qualquer de cálculo, desencadeie um conflito.

Embora a Coreia do Norte ainda não tenha conseguido desenvolver um míssil nuclear que possa alcançar a costa ocidental dos Estados Unidos, é possível que tenha mísseis com capacidade nuclear que consigam atingir a Coreia do Sul ou o Japão.

Afinal, Seul, a capital sul-coreana, fica a apenas 56 quilômetros da fronteira com a Coreia do Norte, vulnerável, portanto, a uma barragem de artilharia, mesmo que seja convencional.
Tudo o que a China não pode permitir é um acidente que provoque uma guerra, mesmo limitada, na sua área de influência.

Além disso, a China quer se mostrar cada vez mais um ator compatível com as políticas econômicas que o Ocidente adora (no âmbito político, a ditadura é intocável, mas o Ocidente convive bem com ditaduras).

Não por acaso, os chineses estão na linha de frente, por exemplo, do liberalismo comercial: teve intensa repercussão, meses atrás, o fato de o presidente Xi Jinping ter se mostrado um entusiasmado porta-voz da globalização, durante discurso no Fórum de Davos, no exato momento em que Donald Trump tomava posse, com seu discurso nacionalista e protecionista no comércio.

Agora, Xi alinhou-se com os líderes europeus para respaldar o Acordo de Paris sobre o clima, logo que Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do pacto.

Copatrocinar sanções à Coreia do Norte é mais um passo, ainda mais que elas estão voltadas para pessoas e não parecem capazes de estrangular o país.

É um bom-mocismo, aos olhos ocidentais, sem maiores custos. 

03/06/2017 02h00 - hélio schwarts

Zanone Fraissat/Folhapress
 Droga e livre-arbítrio
SAO PAULO/ SP, BRASIL, 02-06-2017 : Movimentacao na Praca Princesa Isabel, a nova cracolandia no centro da cidade. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress, COTIDIANO) - ESPECIAL***EXCLUSIVO****
Movimentação na praça Princesa Isabel, que se tornou a nova cracolândia no centro de São Paulo
Mais opçõesO - Vários leitores escreveram para criticar minha posição contra as internações compulsórias de dependentes de drogas. Para eles, o vício oblitera o livre-arbítrio dos usuários, tornando-os incapazes de tomar as decisões que melhor atendem a seus interesses. Levá-los para uma clínica, mesmo que contra a sua vontade, seria assim não apenas uma possibilidade lógica como também um dever moral. 

Receio que o problema seja mais complexo e nuançado do que pinta essa narrativa. É claro que o dependente tem, em algum grau, sua capacidade para resistir à droga diminuída. Se não tivesse, não estaríamos diante de um quadro patológico. Só que diminuição não é o mesmo que anulação. 

A literatura mostra que mesmo pacientes cujo grau de dependência seja classificado como severo ainda conseguem tomar decisões racionais em relação à continuidade do uso da droga.

Vários estudos sugerem que, quando o preço da substância sobe, cresce também a procura por tratamento. Um trabalho australiano de 1997 revelou que dois terços dos viciados em heroína que procuraram o programa de substituição por metadona citaram o preço como uma das razões. Carl Hart, de Columbia, foi ainda mais longe e, manipulando a qualidade da droga oferecida, fez com que dependentes trocassem doses "ruins" por uma recompensa futura. Se o bolso e a pureza pesam nesse tipo de decisão, é razoável supor que outros circuitos cerebrais também possam influir.

É justamente aí que se abre uma janela para a atuação do poder público. Se houver níveis razoáveis de confiança entre os pacientes e as equipes de saúde, elas têm uma boa chance de convencê-los a aceitar o tratamento, hipótese em que o prognóstico melhora significativamente. O problema de ações destrambelhadas como a da prefeitura é que elas acabam com qualquer confiança que possa existir. 

03/06/2017 02h00 -
 
julianna sofia

BC teme efeito da crise e destoa de euforia do Planalto
Mateus Bonomi/Agif/Folhapress
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, participa de seminário sobre a reforma da Previdência, em Brasília (DF), nesta segunda
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles

BRASÍLIA - Todo o enlevo do presidente Michel Temer e do ministro Henrique Meirelles (Fazenda) com o desempenho da economia no primeiro trimestre, assim como os ares de normalidade que falseiam respirar nas últimas semanas, contrasta com a decisão do Banco Central de acionar o freio na queda dos juros.

O BC indicou que o ritmo de distensão da política monetária foi afetado pela crise política que sorve o Palácio do Planalto. Já no próximo mês poderá limitar uma nova redução da taxa a 0,75 ponto percentual. Foi a primeira reação enfática da área econômica ao cenário caótico derivado da delação da JBS, a despeito da troca de comando no BNDES com o intuito de abrir a torneira do crédito para o empresariado.

Diante das incertezas (citadas cinco vezes no comunicado do BC da última quarta), o ciclo de afrouxamento dos juros pode até mesmo ser interrompido mais cedo do que o esperado. Sem as reformas, aumentam as chances de a Selic encerrar o ano acima dos 8,5% almejados.

Nesta semana, a base governista se viu obrigada a adiar a votação da reforma trabalhista em comissão do Senado por falta de segurança nos votos. A nova Previdência está parada, com previsão pouco realista de ser votada na Câmara na próxima semana, quando haverá o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE; ou na seguinte, quando haverá feriado.

Como bem resumiu o ministro Gilmar Mendes (STF), reinam no Planalto ramos das Organizações Tabajara, que não cuidam de seus ofícios, mas palpitam e buscam influenciar atribuições de outrem. O pito de Gilmar (jogo combinado com Temer?) referia-se a pressões do governo para postergar a decisão do TSE.

A mão firme do atual Banco Central —que devolveu credibilidade ao combate à inflação e, junto com a recessão, derrubou os preços— desagradou agora muita gente por sua reação anti-Tabajara.
Com todo o respeito ao império erigido pelo grupo Casseta.

03/06/2017 07h32 - Atualizado às 07h36 - mônica bergamo

Ex-deputado Rocha Loures é preso em Brasília neste sábado
Bruno Santos - 19.mai.2017/Folhapress
SAO PAULO, SP, BRASIL, 19-05-2017: O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) chega de Nova York no Aeroporto de Guarulhos, após ter seu citado na delação de executivos da JBS. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** FSP-PODER *** EXCLUSIVO FOLHA***
O deputado federal afastado Rodrigo Rocha Loures chega a São Paulo

O advogado do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, Cezar Bitencourt, informou à Folha na manhã deste sábado (3) que o ex-parlamentar foi preso. Ele teria sido avisado nesta manhã sobre a prisão pela mulher de Rocha Loures.

O ex-parlamentar foi preso em sua casa, em Brasília, informa ainda Bitencourt. O advogado está em Porto Alegre, pegando avião para se dirigir à capital federal.

A defesa diz que está "indignada", por entender que a Justiça sequer analisou os argumentos apresentados nesta sexta-feira (2) contra a detenção de Loures.

Nesta sexta, a defesa do ex-deputado afirmou ao ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, "quer a prisão [de Loures] apenas para forçar uma delação, como tem sido usual nos últimos tempos".

"Desde o momento em que o deputado Osmar Serraglio não aceitou o Ministério da Cultura e optou por reassumir sua cadeira de deputado na Câmara, a grande mídia tem insistido que a qualquer momento o recorrido Rodrigo Rocha pode ser preso. E, invariavelmente, acrescentam que se ele não for preso provavelmente não irá delatar. 

Ou seja, a própria mídia já encorpou a filosofia adotada na Lava Jato de prender, para humilhar, fragilizar e apavorar os investigados para optarem pela delação", afirma o advogado Cezar Bitencourt nos documentos que apresentou à corte para rebater o novo pedido de prisão feito por Janot.

Entre os argumentos apresentados, ele afirma que "não há uma conduta sequer" por parte do ex-deputado que recomende a prisão, já que a coleta de provas foi finalizada e Loures está "com sua família, recolhido e na mais estrita obediência à lei e ao Judiciário", cumprindo as cautelares que lhe foram impostas". Loures, diz ele, devolveu os R$ 500 mil que teria recebido da JBS numa mala e entregou o passaporte às autoridades.

O ex-deputado é investigado no STF em inquérito com o presidente Michel Temer no âmbito da delação da JBS.

Loures perdeu nesta semana o cargo de deputado federal após o retorno de Osmar Serraglio, 
exonerado do Ministério da Justiça, à Câmara.

sexta-feira, 2 de junho de 2017


Jaime Cimenti - JCRS

Plano Real, o filme e a real 

Infelizmente, nosso Brasil quase não tem grandes fatos históricos para comemorar e nossa história é carente de pais da pátria, heróis ou personagens que permaneçam no imaginário popular e sirvam de bons exemplos e inspirações. Não cito aqui nomes para não cometer injustiças e por que não é o momento. No campo dos esportes, das artes, da cultura, e até na ciência, temos algumas celebridades que nacional e internacionalmente nos orgulham. 

Aqui, de novo, não cito nomes, porque provavelmente esqueceria de alguns. Está em cartaz o filme Real - o plano por trás da História, baseado no livro 3000 dias no bunker, do jornalista Guilherme Fiuza, dirigido por Rodrigo Bittencourt e com coprodução da Maristela Filmes. O thriller político narra como uma seleta equipe econômica, liderada por Fernando Henrique Cardoso na década de 1990, se fechou em um "bunker" para reformar o Estado, vencer a hiperinflação e criar a nova moeda. 

Há vários livros sobre o Plano Real, o principal e considerado definitivo é o da jornalista Miriam Leitão (Saga Brasileira - A longa luta de um povo por sua moeda, da Editora Record). O filme é protagonizado por Gustavo Franco, a "espinha dorsal" da equipe, interpretado por Emílio Orciollo Neto, o mais jovem do grupo, que tinha Pedro Malan, Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Clóvis Carvalho e Winston Fritsch. Benvindo Siqueira interpreta Itamar Franco e Norival Rizzo, Fernando Henrique Cardoso. A narrativa comporta várias leituras. 

A favor, contra ou mais ou menos, o que a valoriza. O mais importante, a meu ver, é que a obra conta sobre, talvez, o fato mais importante da história brasileira. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso mereciam mais espaço e protagonismo no filme e, especialmente Itamar, um presidente que podia ser provinciano, de temperamento agitado, mas que ficou na história da República sem marcas de corrupção. Na livraria do aeroporto de Brasília há livros sobre os últimos presidentes, com críticas e acusações. Sobre Itamar Franco não pairam suspeitas de irregularidades e ele ficou com seu nome gravado na história por ter determinado a elaboração do Plano Real. Não é pouco. 

O filme sobre o plano deveria ter enfatizado o papel da sociedade brasileira, do povo brasileiro, que teve papel importantíssimo antes, durante e depois das reformas que até hoje deixaram boas marcas. A existência de nossas moedas de cinco, dez, vinte e cinco, cinquenta centavos e um real mostra valorização de nossa moeda que, hoje, como se sabe, passa por problemas, diante de crises econômica, ética e política. 

Os mais velhos se lembram de uma taxa de inflação que chegou aos terríveis e galopantes 46,58% em junho de 1994, época em que havia muito mais mês do que salário e que as maquininhas de remarcar dos supermercados infernizavam a vida dos sofridos brasileiros. 

a propósito... 

O filme sobre o Plano Real, no momento complicadíssimo que vivemos no Brasil, serve, além de ilustração, de esperança e inspiração para nós. Mostra como, mesmo com as inevitáveis falhas humanas e complicações da economia e da política, um presidente obstinado, um ministro da fazenda experiente e uma equipe econômica graduada podem ajudar o País, contando, é claro, com a indispensável e importante participação popular. 

É claro que o filme não é isento de críticas, obra humana que é. O bom é saber como o plano foi elaborado e que funcionou, com a participação popular. Que venham outros fatos históricos como este.    - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/colunas/livros/565238-suspense-psicologico-e-sedutor.html)

Jaime Cimenti - JCRS

Suspense psicológico e sedutor 

Em águas sombrias (Editora Record, 362 páginas, tradução de Claudia Costa Guimarães) é o novo romance de alto suspense psicológico de Paula Hawkins, nascida no Zimbábue em 1972. Em 2015, a Record lançou no Brasil seu aclamado romance A garota do trem, fenômeno global com 20 milhões de exemplares vendidos e que foi filmado com sucesso em 2016. Emily Blunt, Rebecca Ferguson e Haley Bennett estrelaram a película.

O livro Em águas sombrias teve seus direitos de adaptação cinematográfica adquiridos pela DreamWorks Pictures e consolida a autora na área dos thrillers psicológicos, de muita aceitação pelos leitores e espectadores das telonas. A narrativa se inicia, com sua verdade escorregadia, em 2015, e de cara vai envolvendo o leitor com a história da mãe solteira que aparece morta no rio que atravessa a cidade. Pouco tempo depois, uma adolescente vulnerável tem o mesmo destino.

Não são as primeiras mulheres perdidas para estas águas escuras, e suas mortes causam uma perturbação no rio e em sua história, dragando dele segredos há muito submersos. A autora alterna no texto a primeira e a terceira pessoas, dependendo do relato das personagens. Bem e mal, verdade e mentira e outros aspectos mostram como Paula lida com a complexidade dos humanos. Ao leitor, não é dado um norte e os quadros narrativos são instáveis, turvos.

"É preciso ter cuidado com as superfícies muito calmas, pois nunca se sabe o que pode haver embaixo delas", está dito na apresentação do livro. É bem por aí. Nos dias que antecederam sua morte, Nel ligou para a irmã, mas Jules, como sempre, não atendeu seu telefonema. Jules foi obrigada a voltar ao único lugar do qual achou que havia escapado para sempre. Jules está com medo, com um medo visceral. Medo do passado há muito enterrado na Casa do Moinho, da certeza que Nel jamais teria se jogado para a morte. Nel teve sempre uma relação frágil com a irmã e Jules a evitava.

Acima de tudo, Nel está com medo do rio e especialmente do trecho que todos chamam de "O Poço dos Afogamentos". Este romance tem a mesma escrita frenética e a mesma caracterização precisa dos instintos humanos que a narrativa de A garota no trem. Com um ritmo eletrizante, capítulos curtos e narrativa sedutora, Paula Hawkins vai superando as expectativas sobre histórias que contamos de nosso passado e sobre o poder que elas têm de destruir nosso presente.

Ao final, os leitores vão gostar desta história que mostra pessoas tentando se reconciliar com traumas e acontecimentos do passado e buscando redenção.

 lançamentos 

Empreendedorismo feminino - Mulheres de alto impacto (Editora Gregory, 210 páginas), coordenado por Regina Gregório, traz relatos de mulheres que construíram negócios, atingiram objetivos e partilham lições. Apresentações de Débora dos Santos e Luiza Helena Trajano - CEO do Magazine Luiza. Todas as emoções deste mundo (Artes e Ofícios, 224 páginas), da turismóloga, administradora e internacionalista Antonella Guimarães Satyro, traz belas crônicas sobre viagens e experiências.

A autora conhece 60 países e acha que viajar é abrir uma porta transcendental de possibilidades para a vida. As leis do acaso - Como a probabilidade pode nos ajudar a compreender a incerteza (Zahar, 304 páginas), do professor e escritor de ciência britânico Robert Matthews, ajuda a entender o acaso e saber quando uma série de eventos é significativa e não mera coincidência. - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/colunas/livros/565238-suspense-psicologico-e-sedutor.html)

Respeite as abstêmias!

Peço perdão aos donos desse espaço. Eles certamente preferem quando lhes dou alguma audiência. Mas o assunto hoje encontrará raros e humilhados semelhantes.

Escreverei sobre o meu completo desinteresse em relação a bebidas alcoólicas. Não me agradam gostos, cheiros, motivos, efeitos. Sobretudo, não me agradam seus entusiastas mais desinibidos e, o pior da espécie, os que nunca vão embora.

São tantas pessoas chocadas, incomodadas e ofendidas com a minha recusa, que já cheguei a me encarar horrorizada no espelho dos bares, indagando com profunda tristeza e solidão a raiz de tão grave deficiência.

Vasculhei cenas, frases, traumas. Nasci ouvindo o sofrimento causado por um tio e um tio avô que morreram de cirrose hepática. Meu pai, quando eu era criança, após uma festa de casamento, vomitou vinho no tapete novinho e por meses eu encarava aquela mancha fantasiando sobre um assassinato. Minha mãe conta que ficou de pileque e quase morreu afogada quando era adolescente. Quando eu tinha doze anos, minha avó, um dia antes de falecer, me pediu que eu jamais aceitasse bebida dos outros.

Mas não é nada disso. Assim como algumas pessoas odeiam cachorros, o que eu acho um absurdo. Assim como algumas pessoas odeiam crianças, o que eu acho surreal. Assim como algumas pessoas odeiam trabalhar, o que eu jamais entenderei.

Eu odeio beber álcool e preciso do seu amor. Cansei de não ter o meu direito ao chá respeitado. Estou farta da sua carinha de nojo pra minha maravilhosa água com gás. Sim, o suco de melancia com limão vai continuar em minha vida, apesar da azia.

Passei os últimos vinte anos me explicando. Não posso, estou tomando antibiótico. Ops, hoje não, tô com a maior ressaca de ontem. Eita, não comi nada, melhor não bobear. É que fiz promessa. É que faço exame de sangue amanhã. MENTIRA. Eu apenas acho uma merda o gosto da cerveja, apenas sinto o mundo azedar dentro da minha barriga quando bebo vinho.

Tenho horror a vodca e uísque. Champanhe é bile com roupa de rico. E pinga, Deus do céu, vi jogarem no pé da minha tia quando a coitada pisou em um caco de vidro. E ela ficou boa.

Por que somos obrigados a gostar de beber? Por que morro de vergonha sempre que alguém me oferece um copo e os músculos da minha cara se tornam involuntariamente sinceros, promovendo caretas repletas de asco? Por que somos obrigados a gostar de álcool, Ano Novo, Natal, festa de casamento, despedida de solteiro, Carnaval? Por que somos obrigados a preferir o Rio de Janeiro a São Paulo? Suruba a regar plantas? Doze horas em pé num boteco sujo ao deleite de uma cama limpinha? Quem disse que ser feliz é o que a maioria acha que é?

Por que passei os últimos mil anos me forçando a ir, ficar e aturar esses lugares e as pessoas desses lugares? Dando pequenos golinhos falsos em líquidos que me pareciam o néctar do ânus do demônio? Dando pequenas e falsas bitoquinhas em bitucas que me pareciam o pum macabro do esfíncter do capeta?

Não, eu não bebo. Não, eu não tenho que lhe explicar os motivos. Não, eu não vou mais ser simpática mediante as palavras "nunca, nada e nem um pouquinho" seguidas de interrogações. Respeite as "mina" (abstêmia), porra!

PIB foi bom, enquanto durou

Jorge Araujo - 29.mai.17/Folhapress
Sao Paulo SP Brasil 29 05 2017 O presidenteMichel Temer participou de jantar por ocasião do Fórum de Investimentos Brasil 2017. com João Doria e Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles no Grand Hotel Hyatt. PODER. Jorge Araujo Folhapress 703 ORG XMIT: XXX
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para quem o resultado do PIB foi histórico
A REPULSA a Michel Temer e hipocrisias fizeram muito comentarista econômico bater no resultado do PIB do primeiro trimestre, que foi bastante bom enquanto durou, no entanto. Dada a imundície política, não sabemos mais o que virá.

Alguns outros, como se tivessem desembarcado ontem no Brasil, vindos de Andrômeda ou do Planeta Mongo, diziam que é "preciso cautela", ou outro clichê, pois a economia cresceu "apenas" com o impulso de agricultura e exportações (e estoques, aliás).

Poderia ter crescido com base no impulso da venda de pão de queijo para a Mongólia ou da construção de pirâmides, tanto faz. Certamente o impulso não viria agora de consumo privado, gasto do governo ou investimento privado. Era óbvio.

Esta nossa situação é o resultado do desastre Dilma Rousseff combinado à política econômica de Michel Temer e seus amigos de Patópolis, os empresários do Pato Amarelo, inimigos de um plano que contasse com aumento de impostos, por exemplo. Isto posto, o resultado do primeiro trimestre foi bom, no âmbito do que seria possível esperar com realismo para este 2017.

Ou seja, um crescimento no máximo equivalente ao do aumento da população, 0,8%: estagnação do PIB per capita. Com resultados melhorzinhos ao longo do ano, seria possível esperar uma aceleração em 2018, quem sabe para 3%.

Esta seria uma recuperação baseada apenas na redução da taxa de juros e das dívidas de famílias, empresas e governo (sem imposto, a contenção de deficit e dívida fica mais lerda).

Levaria tempo, pois. A maioria dos economistas, que aceitou o plano, não poderia esperar outra coisa, afora milagres.

"Seria", "levaria": futuro do passado. O tumulto político pode estancar o único impulso macroeconômico maior, taxas de juros em baixa rápida.
Além do mais, um choque de confiança pode reforçar a retranca de consumidores, empresas e bancos –até julho, pouco vamos saber disso.
Enfim, ainda bem que a agricultura é capaz. Sim, fazendo estritamente menos de 6% do PIB, não pode carregar a economia nas costas. Mas o aumento da renda agropecuária se disseminava por fabricação de insumos, mesmo máquinas; auxiliou o setor de serviços, como transportes.

A safra ajudou a derrubar a inflação, com o que a massa de rendimentos do trabalho e o consumo das famílias pelo menos pararam de cair, na prática, apesar do desemprego brutal.

A partir daqui, o piparote nos gastos com o dinheirinho do FGTS e a queda de juros poderia manter a economia à tona, embora com água pelo nariz.
O sucesso do plano de estabilização econômica e outros reparos permitiria alguma retomada de consumo e investimento no fim do ano.

Goste-se ou não do plano (há muita crítica razoável), fazia sentido e, até agora, funcionava, em seus limites óbvios. Quais? O investimento do governo "em obras" vai à míngua, efeito combinado de pindaíba do governo e aversão a imposto novo.

O investimento privado não vem porque há capacidade ociosa e receio; porque o programa de concessões de obras e infraestrutura pública à iniciativa privada não anda.

O desemprego e o medo de demissão contêm o consumo e ajudam a manter bancos na retranca. Tudo isso era vento contra o crescimento. Caso o choque político perdure, pode virar ventania.

02/06/2017  02h00

Ensinar e aprender em áreas de violência

Mohamed Azakir/Reuters
Kids watch a theater puppet show at an UNRWA school in Burj al-Barajneh in Beirut May 14, 2015. The Arab Puppet Theatre Foundation (APTF) is touring the 68 schools of the UN refugee agency's UNRWA and performs for all 39,000 Palestinian students in Lebanon, in a project with UNICEF and UNRWA. Picture taken May 14, 2015. REUTERS/Mohamed Azakir ORG XMIT: LBN09
Crianças palestinas refugiadas assistem a aula em escola da ONU em Beirute, no Líbano
Infelizmente, em vários países do mundo, crianças estudam em áreas afetadas pela guerra ou por conflitos, que tornam extremamente difícil tanto o ato de ensinar como o de aprender. Algumas organizações acumularam aprendizados sobre como organizar a jornada escolar em campos de refugiados ou em territórios em disputa, caso do Unicef e do Acnur, que mantêm escolas com bom nível de ensino na Faixa de Gaza.

Mas o mais triste é que, em países que não são afetados por formas tão drásticas de conflitos como essas, muitos alunos perdem aulas por "guerras" entre facções rivais do tráfico ou por incursões da polícia para enfrentar traficantes dentro do seu território.

Recentemente, no Rio, particularmente na Maré, isso tem sido frequente. Com isso, dois problemas relacionados vêm crescendo: por um lado, os alunos não conseguem aprender como deveriam, dados os inúmeros dias sem aulas, e, por outro, o modelo de sucesso das crianças e adolescentes passa a ser o do senhor das armas, normalmente o traficante.

Nessas circunstâncias, é fundamental garantir o direito de aprender das futuras gerações como um imperativo ético, por meio de um trabalho intersetorial envolvendo educação, segurança, saúde e assistência social. Tanto professores quanto alunos têm que ter alguma segurança e tranquilidade para, dentro de uma situação desafiadora, levar a vida escolar da melhor forma possível.

Mas, além disso, o que tem funcionado em áreas de vulnerabilidade é desenvolver ações afirmativas, ou seja, dar mais recursos e melhores professores para as escolas que mais necessitam de ajuda. Isso significa pagar mais a professores que lá forem atuar, criar materiais instrucionais mais atraentes e apropriados para os alunos e realizar atividades de pós-escola de artes e esportes: em outros termos, fazer com que os alunos não abandonem as aulas e aprendam a despeito das vicissitudes presentes nesses territórios.

A presença de bons mestres para escolas nessas áreas não significa que eles não necessitem de apoio. Em territórios controlados pelo tráfico, é importante formar os professores em mediação de conflitos e em justiça restaurativa, para impedir que pequenas brigas presentes no dia a dia do ambiente escolar se transformem em disputas abertas envolvendo personagens de fora dos muros das escolas.

Além disso, é fundamental garantir o comprometimento das equipes escolares com a aprendizagem dos alunos. É comum que, em tais situações, as escolas ou até as equipes de supervisão escolar nutram baixas expectativas em relação às crianças e aos adolescentes. Todos podem aprender, desde que se ajustem as condições de ensino.