segunda-feira, 8 de agosto de 2016


08 de agosto de 2016 | N° 18602
OLIMPIANGERS | Marcos Piangers

Tem Pokémon no Rio de Janeiro


A febre mundial Pokémon GO chegou ao Brasil e, claro, ao Rio de Janeiro. Em um passeio rápido pela praia de Copacabana entrevistamos 10 pessoas jogando – uma delas, um garoto de 10 anos, tinha passado a noite acordado colecionando mais de 150 pokémons. Um pai comentou:

– Pelo menos eles não estão no sofá jogando videogame.

A principal preocupação dos usuários é com segurança. Luana, 14 anos, disse que “está sempre receosa de ficar com o celular à mostra na rua”. O próprio app avisa: fique sempre alerta ao seu redor enquanto estiver jogando.

Nossa equipe de reportagem já colecionou 21 pokémons, entre eles, um Bulbasaur.

A semana pré-jogos realmente teve movimento abaixo do esperado. Segundo números da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) a ocupação em algumas zonas está 15% mais baixa do que o esperado.

– O número deveria estar perto de 100% de ocupação – disse um representante.

Enquanto isso, nos hotéis do Centro a taxa de ocupação é de 81,67%. Hotéis nos bairros Flamengo e Botafogo estão com 92,14% de taxa de ocupação. O bairro com maior índice de ocupação é a Barra da Tijuca, com 97,92%. Ou seja, em todos os bairros, há vagas.

EMOJIS OLÍMPICOS

A emissora NBC, canal americano oficial de transmissão dos Jogos Olímpicos Rio 2016, acaba de lançar um app que transforma seu teclado do celular em emojis olímpicos.

08 de agosto de 2016 | N° 18602
DAVID COIMBRA | David Coimbra

UM POUCO DE AMOR-PRÓPRIO

Deus, como precisávamos disso! Como precisávamos mostrar para o mundo e, principalmente, para nós mesmos que podemos fazer coisas boas e grandiosas.

Falo da cerimônia de abertura da Olimpíada, que se deu em um tempo remoto, sexta à noite, mas que ainda me faz sorrir por ter nos devolvido algo que é tão importante para viver quanto a água de beber: o amor-próprio.

Não vaidade, e sim autoestima.

Porque, se você não gosta de si mesmo, quem há de gostar? Quando você não gosta de si mesmo, as outras pessoas pensam: “Ele deve ter razão; afinal, ele se conhece”. Assim, elas concordam com você e também passam a desprezá-lo. É o princípio da propaganda utilizado ao contrário.

Vale para os produtos, vale para as pessoas, vale para as nações.

O PAÍS DO FUTURO
Quantos países são capazes de produzir a cerimônia linda e simples, emocionante e de bom gosto, humana e harmônica, como foi a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio?

Sempre se disse que o Brasil é o país do futuro, e o futuro nunca chega. Pois na noite azul-marinho de sexta, no Maracanã, tivemos um vislumbre do que pode ser o nosso futuro. Reunimos o que há de melhor no Brasil e banimos o que há de pior. Houve ordem, mas com criatividade; houve beleza, sem haver desperdício; houve valorização da nossa cultura, sem haver ufanismo; houve sensibilidade, sem haver pieguice; houve até uma mensagem, sem haver sectarismo.

Se ainda não temos esse Brasil, esse é o Brasil que queremos. E, o melhor de tudo, está provado que é o Brasil que podemos fazer.

LÁGRIMAS JAPONESAS
Depois da abertura bem-sucedida, os estrangeiros passaram a elogiar a Olimpíada brasileira. O Rio, que continua lindo, tornou-se ainda mais lindo. E eles são sinceros, quando falam bem do Brasil. Hanako Hiraoka, jovem repórter da TV NHK, de Tóquio, sentiu seus olhos amendoados marejarem, em meio à cerimônia.

– Meus colegas me diziam para parar de chorar, mas eu não conseguia – contou. – Chorei muito, principalmente quando os círculos olímpicos explodiram em folhas verdes de árvores.

Sei que há brasileiros capazes de fazer coisas monstruosas, como aquele criminoso que decepou a mão de outro ser humano em Porto Alegre, dias atrás. Mas também há brasileiros capazes de coisas maravilhosas, tão belas que desmancham até a fleuma oriental.

GISELE, A LEOA
Ainda estou impactado pela visão de Gisele Bündchen ondulando sua beleza dourada na passarela de 128 metros do Maracanã. Sozinha no centro de um Coliseu onde incautos já foram devorados, ouvindo as exclamações de 75 mil bocas, sabendo ser observada por 3 bilhões de pares de olhos, ela avançou com a serenidade orgulhosa do leão e com a elegância do cavalo. Gisele, naquele momento, era isso, era a essência do bicho humano, era o mais belo animal da Terra, como um dia já se disse de Ava Gardner.

A Gisele, basta-lhe andar sobre o mundo para ser uma rainha. Todos, ali, sentiam a volúpia de se humilhar ante aquele ser obviamente superior. Foi difícil reprimir o desejo de se ajoelhar diante de seus scarpins tamanho 41.

ANITTA, A GATA
Anitta também virou bicho, na sexta à noite. Mas de outra espécie: ela era uma gatinha a ronronar entre os dois velhos baianos. Cheguei a temer pela saúde de Gilberto Gil. Um homem nem sempre reúne condições de lidar com certas emoções.

O TAMBOR DO BRASIL
Getúlio Vargas dizia que o Rio de Janeiro é o tambor do Brasil. Valia para os anos 40, quando Chico Viola era o Rei da Voz e o Rio era a capital federal, e vale ainda hoje, na vigência de Brasília e Wesley Safadão.

O Rio é mais cosmopolita, porque só o Rio tem espaço para ser grandioso.

São Paulo é rica, mas é estreita. O Rio se abre para o horizonte, o olhar se estica e se deixa maravilhar com tudo o que a Natureza oferece e o que o homem cria.

Ontem, passei o dia caminhando pelo complexo olímpico que se ergue na Barra da Tijuca e contemplei essa verdade geográfica acerca do Rio. Ali não havia apenas um descampado onde se poderiam plantar arenas desmontáveis. Ali há montanha, mato e água, cortados por largas avenidas asfaltadas. No meio disso, entre o mar e o morro, foram levantados prédios e ginásios de arquitetura primorosa. Senti pena, ao saber que muito daquilo será desfeito, ao cabo dos Jogos. Sei que a ideia é usar o que ficar de pé em projetos educacionais e esportivos. Se isso for levado a sério, o Brasil poderá enfim ter um centro formador de atletas, no futuro, porque, como já disse, haveremos de ter futuro.

domingo, 7 de agosto de 2016




É próprio de um governo populista convencer de que oposição odeia pobres


Ao contrário dos outros partidos, que buscam convencer o eleitorado de que nasceram para governar em benefício de toda a sociedade, o Partido dos Trabalhadores afirma que veio para governar em benefício dos que são explorados e oprimidos pelos ricos.

A realidade mostrou que a coisa não é bem assim. De fato, os governos petistas, tanto o de Lula quanto o de Dilma, implementaram programas em benefício da parte mais carente da população. Ao mesmo tempo, aliaram-se a grande empresários com o propósito de usar recursos públicos para permanecer no poder.
Rubem Grillo/Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração Ferreira Gullar de 7.ago.2016
Esse é um projeto fadado, cedo ou tarde, ao fracasso, uma vez que não investe nos setores fundamentais da economia e, sim, num projeto demagógico que termina por levar à carência do crescimento e à crise econômica, como ocorreu aqui no Brasil. É próprio desse tipo de governo populista convencer, sobretudo os setores carentes do eleitorado, de que toda a crítica que lhe fazem advém daqueles que odeiam os pobres e querem manter a desigualdade social.

Seria essa a razão das críticas aos governos petistas. Lula chegou ao ponto de afirmar que o mensalão nunca houve, foi uma invenção as imprensa. Disse isso muito embora José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares –altos dirigentes do PT– tenham sido julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal.
Não por acaso o PT tornou-se conhecido como o partido da mentira, mesmo porque não encontra outro modo de escafeder-se das sucessivas acusações que lhe são feitas –não pela imprensa, que apenas as divulga–, mas pelos órgãos do Estado brasileiro, encarregados de apurar a corrupção e punir os corruptos.

Pode alguém, em sã consciência, acreditar que, da Polícia Federal à Procuradoria Geral da República, o Ministério Público e até mesmo o Supremo Tribunal Federal, enfim, todos os órgãos policiais e judiciais, todos, sem exceção, participem de um conluio para perseguir a Lula, Dilma e os petistas em geral? Pode alguém acreditar nisso?

Claro que não. Sucede que não é isso o que preocupa Lula e sua turma. Eles não pretendem convencer o povo brasileiro em geral: tudo o que dizem e fazem tem por objetivo o seu eleitorado, os aliciados pelo PT, pois sabem muito bem que, com suas mentiras, não convencem o povo em geral, mas convencem os que rezam por sua cartilha.

Por isso, não importa se você ou eu não acreditamos que o impeachment seja ou não um golpe: importa, isso sim, que seu eleitorado acredite no que dizem e continue votando no PT. Sim, porque, se ele muda de ideia e acredita na verdade, será o fim de Lula e seu partido.

E é com esse mesmo propósito que, para surpresa geral, Lula recorreu à Organização das Nações Unidas, alegando ser vítima de abuso de poder da parte do juiz Sérgio Moro. A rigor, o que significa semelhante recurso a um órgão internacional da importância da ONU?

Significa, implicitamente, afirmar que os órgãos responsáveis pela aplicação da Justiça, no Brasil, não têm isenção para aplicá-la. Consequentemente, para que Lula tenha seus direitos de cidadão respeitados, torna-se necessária a intervenção daquela entidade internacional. Ou seja, como no caso do mensalão e do petrolão, ele continua sendo acusado injustamente.

Trata-se, na verdade, de um disparate, mesmo porque a ONU só intervém em tais casos depois que são esgotados todos os recursos judiciais do país onde o problema ocorre. O que não é o caso de Lula, que nem réu ainda era quando impetrou o tal recurso.

A conclusão a que inevitavelmente temos de chegar é que Lula, sabendo da improcedência de tal recurso, usou-o para se fazer de vítima em vez de culpado, o que o obrigaria a explicar-se diante de seus eleitores. Em suma, não importa se é tudo uma farsa e que você e eu saibamos disso: importa é que os petistas acreditem nele e continuem a tê-lo como o defensor dos explorados. E do Marcelo Odebrecht também? 



Novo-desenvolvimentismo não funciona em países com taxa de poupança tão baixa como o Brasil

Eduardo Knapp - 17.jun.2003/Folhapress
So Paulo, SP. 17.06.2003. 16h. Foto Eduardo Knapp/Folha Imagem. Digital Credito Financeiro: Anuncio de emprestimo de dinheiro na Rua So Bento
O novo-desenvolvimentismo, ao contrário do tradicional, teria uma preocupação maior com a parte fiscal

Têm tido repercussão na imprensa as propostas conhecidas por novo-desenvolvimentismo. O ex-ministro da Fazenda Bresser-Pereira, em colaboração com os professores José Oreiro e Nelson Marconi, acaba de lançar o livro "Macroeconomia Desenvolvimentista".

O ponto de partida da análise novo-desenvolvimentista é que a indústria de transformação é um setor especial. Ele lidera o desenvolvimento econômico, e o investimento na indústria gera ganhos tecnológicos que transbordam para os demais setores. Ou seja, uma falha de mercado –o ganho social do investimento no setor industrial é maior do que o ganho privado– justifica algum tipo de intervenção do setor público nos mercados para estimular o investimento no setor. Uma das novidades da abordagem é a maior preocupação com o equilíbrio fiscal, em comparação ao desenvolvimentismo tradicional.

Outro elemento importante da estratégia novo-desenvolvimentista é algum tipo de controle cambial. A ideia é que câmbio real mais desvalorizado induz maiores investimentos na indústria e aumenta o crescimento de longo prazo da economia.
Segundo essa escola, a valorização do câmbio ao longo do governo Lula (2003-2010) seria responsável pela perda –ao menos em parte– do dinamismo da economia.

Minha interpretação é distinta. Nos melhores anos do governo Lula, os ganhos de produtividade e as boas perspectivas estimularam o crescimento do investimento em velocidade superior à da economia. Nossa economia política impediu que o maior crescimento no período gerasse elevação da poupança doméstica, para financiar o aumento do investimento.

O aumento da taxa de investimento, com uma taxa de poupança doméstica estável, gerou a contínua piora das contas externas –pela necessária absorção de poupança internacional– e a consequente valorização do câmbio. Ou seja, caso não houvesse a valorização do câmbio e a maior absorção de poupança externa, a inflação teria sido maior.

Houve naquele período fortíssimo processo de acumulação de reservas, que contribuiu para moderar o processo de valorização. No entanto, no Brasil a acumulação de reservas não é muito efetiva para impedir um processo de valorização do câmbio, pois, devido à baixa poupança do setor público, o Banco Central tem que emitir dívida doméstica para recomprar os reais que emitiu para adquirir as reservas. 

Nos países asiáticos, que praticaram políticas próximas das defendidas pelos novos-desenvolvimentistas, a elevada taxa de poupança permite que a acumulação de reservas não pressione a liquidez e a inflação domésticas.
Chegamos sempre ao mesmo ponto: controlar o câmbio sem que o setor público tenha posição fiscal extremamente sólida só redunda em inflação. Por outro lado, se houver forte aumento da poupança pública, o câmbio real desvalorizar-se-á naturalmente.

Finamente, a adoção de alguma meta de câmbio real tem o efeito colateral ruim de estimular que as empresas assumam passivos em moeda estrangeira mesmo que não tenham seguro contra oscilações do câmbio nominal. Aumentam em muito os riscos de uma crise cambial.

Sem entrar no mérito do argumento principal –a essencialidade da indústria de transformação para desenvolvimento econômico–, o novo-desenvolvimentismo é um modelo que pode até funcionar nas economias asiáticas que apresentam taxas de poupança acima de 35% do PIB. Difícil imaginar que irá funcionar com nossos ridículos 15%-20% do PIB de taxa de poupança!


O mito da meritocracia

Divulgação
Al Pacino como Michael Corleone no filme "O Poderoso Chefão 2" Crédito: Divulgação ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Al Pacino como Michael Corleone no filme "O Poderoso Chefão 2"

Meritocracia. Essa se tornou uma das palavras preferidas dos conservadores. Se o multibilionário se deu bem na vida, é porque tem talento e trabalhou duro. É verdade, mas apenas parte dela. É difícil que alguém construa um império, se não tiver nenhuma aptidão, mas daí não decorre que todo mundo que seja competente dará certo. O sucesso tem muito mais a ver com sorte do que gostamos de crer. A meritocracia, em sua acepção forte, não passa de um mito. Aqui, são os liberais que estão certos.

Essa é basicamente a mensagem do livro "Success and Luck" (sucesso e sorte), de Robert Frank (Cornell). E, para nos convencer dela, ele usa um amplo e saboroso leque de histórias, estatísticas e estudos que mostram que o acaso não apenas define o que conquistamos como também está ficando cada vez mais influente, à medida que mais setores da economia passam a operar em modelos do tipo o vencedor leva tudo.

Os caprichos do destino começam a atuar antes mesmo do nascimento, já que características decisivas para o sucesso, como inteligência e disposição para o trabalho, das quais nos sentimos "donos", em nada diferem de outras que corretamente percebemos como fruto da loteria genética, como a cor dos olhos ou tipo de nariz.

Nascer no país certo também faz enorme diferença. Só viver nos EUA já determina que o indivíduo tenha renda média 93 vezes maior do que quem nasce no Congo (ex-Zaire). E, evidentemente, não há mais mérito em ser americano do que congolês.

De resto, mesmo entre os muito talentosos, pequenas mudanças nas condições iniciais podem ter consequências dramáticas. Al Pacino é um grande ator, mas há muitos grandes atores. Ele se deu bem, entre outras razões, porque teve a sorte de ser escalado para fazer o papel de Michael Corleone em "O Poderoso Chefão", o que o lançou ao estrelato. Frank encerra montando um bom caso em favor de uma taxação mais progressiva

06 de agosto de 2016 | N° 18601
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

QUANDO É DIFÍCIL SER ORIGINAL

Se todos sabemos que é inevitável, por que ela nunca parece natural? Se reconhecemos a dolorosa proximidade, por que a dissimulação? Por que os nossos amados não aceitam conversar sobre despedida, mesmo quando ela se anuncia tão evidente? E qual a razão para que nossos conhecidos, ao saberem da nossa desventura, se comportarem como se fôssemos invisíveis?

Na primeira consulta do Alceu, o Cândido veio junto. Eram tão parecidos que os supus irmãos, mas eram só colegas de trabalho, desses que, de tão próximos, se fazem parentes. Mesmo emprego há 27 anos, mesmos time e paixão política, eram siameses por circunstância e afeto. Ao questionar o Alceu se ele fumava, o Cândido resumiu: “Nós acendemos o cigarro um do outro”. Quando tossiram juntos, evitei comentar que até nisso se copiavam. Mas aí, aparentemente, terminavam as semelhanças. O Alceu era mimado e carente e tinha uma família que o amparava, e o Cândido, um solitário, mais por iniciativa que por desamor.

Usei o vínculo afetivo dos dois para fazer chegar à família a gravidade da situação do Alceu, portador de um tumor avançado, com sintomas negligenciados há meses. Impressionou-me desde o início a curiosidade do Cândido em saber detalhes da doença do amigo, tempo de evolução, limitações e desfecho. Apesar do carinho da família, ninguém rivalizava com o amigo em proteção e desvelo. Quando se aproximou o fim, toda a família no quarto, um dos filhos queridos perguntou ao pai o que sentia. Com os olhos semicerrados, ele respondeu: “De vez em quando, um pouco de frio, mais nada”. Foi então que o netinho de seis anos disse: “Se quiser, eu durmo contigo, vô. A mãe disse que eu sou muito quentinho!” Houve uma debandada geral. Ninguém resistiu à contundência de afeto de que só as crianças são capazes.

Encontrei o Cândido aos prantos no jardim. Ficamos abraçados um tempo e ele lamentou: “Vai ser uma grande pena não tê-lo por perto quando chegar a hora da minha morte”. Tentei interromper o pranto dizendo que não valia a pena antecipar o sofrimento, que nem temos ideia do quando virá e que até por instinto protetor, é razoável que nos comportemos como se soubéssemos que poderia nunca vir. Ele, então, surpreendeu: “Acontece que estou numa situação idêntica. Só não consultei contigo porque não queria desviar o foco do meu amigo, que é uma pessoa muito mais frágil. Tentei conversar com meus filhos, mas eles são muito ocupados. 

Mas não estou reclamando, sempre me virei sozinho. Só queria contar com o doutor na hora de comprar esses remédios que precisam de receita. Por favor, não me considere um egoísta, mas agora mesmo estava aqui chorando de pena de mim, porque a única pessoa de quem eu realmente sentirei falta vai morrer antes de mim!”. Impressionante que duas pessoas tão identificadas em gostos e sentimentos, tão irmanadas em exigências e afetos, tenham comportamentos tão divergentes na única etapa desta passagem que não podemos evitar. Lembrei desta dupla ao assistir a Truman, o último e maravilhoso filme de Ricardo Darín em que, numa certa altura, ele diz: “Cada um morre do seu jeito”. Uma ironia que o único momento da vida em que somos obrigados a ser originais é justo quando ela termina.

sábado, 6 de agosto de 2016



06 de agosto de 2016 | N° 18601 
MARTHA MEDEIROS

ATLETAS

Meu lugar não é no pódio, e sim na arquibancada, na plateia, na frente da tevê

Em passo acelerado, cruzo com outro caminhante, ambos orgulhosos do nosso feito: num sábado de manhã gelado, não estamos embaixo das cobertas, e sim na rua, colocando as pernas em movimento, o corpo em marcha, isso em plena meia-idade. Ninguém diz. De legging, tênis, rabo de cavalo, fone de ouvido, ninguém diz nada. Esforçados não merecem críticas, apenas incentivo, ou no mínimo um silêncio cúmplice.

Nunca fui uma atleta. Joguei caçador quando criança, andei muito de bicicleta, mas não era uma esportista. Depois me atrevi ao vôlei, mas só um pouquinho. Tentei o tênis uma tarde e meia, não rolou. Frequentei academias de jazz por anos, mas dança é arte, não esporte. O frescobol vingou e vinga até hoje, mas não existe gaúcha no ranking. Fiz meia dúzia de aulas de beach tênis, mas parei quando esfriou. Trilha, só em viagens de aventura, não são cotidianas. No final das contas, me restou a literatura, a mais sedentária das atividades.

Faço pilates há quatro anos e mereceria ao menos um bronze pelas acrobacias que minha instrutora exige, mas o Esporte espetacular me esnoba, nunca irá me filmar, e também ninguém jamais me flagrou conduzindo um caiaque numa praia da Tailândia ou escalando um morro em Machu Picchu. Férias não contam. Melhor esquecer. Não produzo suor suficiente.

Meu lugar não é no pódio, e sim na arquibancada, na plateia, na frente da tevê.

Eu poderia (e provavelmente deveria) ser mais uma a dizer que é um absurdo o que gastaram nessa Olimpíada do Rio, que é um vexame a infraestrutura ser tão meia-boca, mas à medida que o evento acontece, meu espírito crítico vai minguando, contraindo e dando espaço para o coração expandir (palavrinha trazida na bagagem de todas as comitivas: coração).

A verdade é que acho bacana tudo isso.

Vários jovens de diversas nações unidos pela farra, mas competindo por um frame de segundo que pode virar um recorde. Braços musculosos, abdômens inexistentes, bíceps, tríceps e sorrisos confiantes. Gente que se alimenta direito, que acorda cedo, que treina, que vive no ginásio, que quase não namora, ou namora escondido, gente que não chega nem perto de droga, gente que rema, dribla, salta, pontua, supera. De quatro em quatro anos, novos deuses do esporte cantam seus hinos pátrios, carregam medalhas no peito e voltam pra casa com a missão cumprida.

Dessa vez acontece no quintal da gente, nessa casa esculhambada que conhecemos como ninguém, mas mesmo que alguma coisa ou muitas coisas deem errado, só nos resta aplaudir – e no outro dia acordar cedo para caminhar, modestamente caminhar: se não a sua, minha única forma de compartilhar.


06 de agosto de 2016 | N° 18601 
CARPINEJAR

A gentileza é o óleo das relações


Somos educados com estranhos. A ironia é que não somos educados com quem amamos.

Parece que amar é perder o freio da língua, que deixamos de medir as expressões quando estamos à vontade na cozinha, de abrigo e havaiana, conversando com a família, que intimidade é o antônimo de formalidade.

Existe a mania de entender que a convivência traz a possibilidade de falar qualquer coisa a qualquer hora. Conferimos licença para grosserias sob alegação de espontaneidade.

A preguiça atrofia o amadurecimento, abandonar o cumprimento e o agradecimento traduz um completo desprezo a todos que nos acompanham. É também um sinal de pouca humildade, já que nos sentimos superiores a ponto de nem olhar para os lados.

Não acredito que um filho respeitará o pai se não adotar “com licença” e “obrigado” dentro do lar. Nunca abdiquei, por exemplo, do costume de solicitar a bênção para a mãe no momento em que me despeço dela – baixo a cabeça em obediência aos mais velhos e ofereço a minha testa para receber a sua proteção.

A gentileza começa com o dever de casa e se estende aos demais. Quem abdica da cordialidade com a família jamais será genuinamente afetuoso nem absorverá o sábio rigor do silêncio e a pausa de reflexão diante dos erros cometidos.

O rancor surge da falta de controle. A agressividade emerge da ansiedade.

A educação é pensar duas vezes antes de fazer uma bobagem, representa um intervalo entre os impulsos para organizar a emoção. Ela renova o alvará da rotina, reconhecendo o valor daquilo que se tem.

Educação não é frieza, não é censura, mas proteção para não machucar e ferir os mais próximos.

Desfaz mal-entendidos com a paciência da linguagem. Equivale à uma fisioterapia da alma, quando as palavras se apoiam nas barras do cavalheirismo para fortalecer as longas pernas da verdade.

Não canso de avisar de meus movimentos e retribuir os outros pela preocupação comigo.

Não há dia em que não diga “bom dia” para a minha mulher, mesmo que seja redundante. Não há noite em que não diga “boa noite” para a minha mulher, apesar de dormir e despertar sempre com ela. A qualquer pedido que faço, reitero o “por favor”. É para alcançar o sal ou o controle da tevê. Ela não tem obrigação nenhuma em me atender, trata-se de um agrado a ser recompensado igualmente com o meu capricho.

Não é porque nos conhecemos que dispensarei o cuidado. Até porque o tempo de casamento não torna ninguém resistente, somos mais frágeis e vulneráveis quanto mais nos entregamos.



06 de agosto de 2016 | N° 18601 
L.F. VERISSIMO

Novos musicais


Já fizeram musicais sobre a Evita Perón, Os miseráveis, de Victor Hugo, os poemas de T.S. Eliot sobre gatos e o naufrágio do Titanic, e uma ópera sobre o encontro do Richard Nixon com o Mao Tsé-tung. Não demora e aparecerá em alguma marquise Das kapital – O musical. Por que não? Na verdade, não há nada – salvo, talvez, O livro dos mortos – que não possa ser musicado, coreografado e posto num palco.

Já posso imaginar até a abertura de Das kapital, com o coro cantando “Cogito, ergo – som!”, e entra a orquestra. Uma canção que a namorada abandonada do Ser canta para seu retrato: “O ser em si, o ser para si – e você”. O plangente Fenomenologia blues, cantado pelo Ser quando tudo parece perdido e o Nada vencerá. Interlúdios cômicos, com três sapateadores cantando Hegel, Husserl, Heidegger:

“Somos Hegel, Husserl e Heidegger

Rapazes que ruminam a razão.

Como róbi refletimos

E raramente rimos

Ajuda se você for alemão”.

Alguns musicais dariam mais trabalho. O Novo Dicionário da Língua Portuguesa teria um título pronto (Aurelião!) e algumas frases para a publicidade do espetáculo: “Ação, beleza, conflitos... e xifódimo e zurzidela também. Tudo está em Aurelião!”.

Da Bíblia, já usaram a vida de Cristo para um bom musical, por que não fazer algo com a história de Noé e sua arca? Noé recebendo os pares de bichos no topo da rampa e orientando sua distribuição dentro da arca, cantando uma adaptação de São dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc. Haveria um fantástico número de dança com toda a companhia no convés com o efeito devastador da valsa dos elefantes.

Uma ópera-rock sobre Adão e Eva. Adão para Eva, num momento de irritação:

“Me chateias

Me agrides

Me enches 

Me esgoelas...

Cuidado, mulher,

Eu tenho outras costelas”.

Jane para Tarzan, num musical sobre a dupla:

“Fico louca com seus músculos

Sobre cada tendão escreveria opúsculos

Sua cabeleira revolta

E sua tanga semissolta

E esse seu jeito, Tarzan,

De virar a cabeça e dizer “Ahn?”

Acima de tudo amo seu grito

Esse selvagem bramido

Mas, por favor, não no meu ouvido”.



06 de agosto de 2016 | N° 18601
DAVID COIMBRA | David Coimbra


DIA 3 - A abertura

Acordei com um suspiro de cansaço antecipado. Cerimônias de abertura de qualquer coisa são estressantes. Sei bem como funcionam. Todas aquelas danças.

É bonito ver uma mulher dançando, mas uma só. Uma única mulher dançando, como uma Salomé, pode valer a cabeça de um João Batista. Ou, se ela dança como uma Mata Hari, pode desvendar os segredos do exército francês. Ou, ainda, se é uma Aline Riscado, pode fazer com que você beba mais cerveja, e isso é bom.

Uma só mulher dançando é um espetáculo particular e insinuante. Coreografias, não. Coreografias me cansam.

Depois do café, revigorado pelos scrambles, considerei que o cansaço antecipado talvez fosse produto da minha idade provecta. Sim, porque, olhe para o dia azul e amarelo do Rio, sinta o ar fino do inverno carioca. Está tudo bem, sim senhor. Otimismo, é disso que precisamos!

É que vi muitas cerimônias de abertura na vida. Aqui mesmo, no Rio, assisti a algumas, e a melhor de todas foi a do Pan, em 2007. O presidente do comitê pan-americano tomou o microfone para discursar. Falou em espanhol um “hoje” puxado: “hooooy”. Os torcedores acharam que ele os estava cumprimentando e responderam:

– Ooooooi...Gostei daquilo. Uma cerimônia de abertura pode ter boas surpresas, afinal.

Na saída do hotel, encontrei Carlos Kastrup. Você não conhece Carlos Kastrup. Eu também não conhecia. Ele faz parte da equipe de levantamento de peso do Brasil, esporte que é mais popular entre búlgaros, bielo-russos e ucranianos. E mais: hoje, já cinquentão, Kastrup não participa de competições. Ele tem uma escola de levantamento de peso em Teresópolis e atua como árbitro. Na Olimpíada, exercerá funções auxiliares.

Mas, então, por mil chopes cremosos no Leblon, por que estou falando de Carlos Kastrup?

Porque Carlos Kastrup me disse uma frase forte: – Eu tenho tudo.

Fiquei admirado. Um homem que tem tudo! Aí ele listou um pouco do seu “tudo”: pressão alta, hérnia de hiato, apneia do sono, diabetes, lesão no peitoral, gastrite... Ah, e em 1982, Carlos Kastrup quebrou a perna em quatro lugares ao tentar cabecear a bola num jogo de futebol, ficou um ano sem andar e nunca mais conseguiu levantar 250 quilos, como fazia quando jovem.

Cheguei a pensar em dizer algo para consolá-lo, mas, antes que pudesse pronunciar um “puxa”, ele emendou: – Mas nada disso importa. O que importa é que estou vivo.

Balancei a cabeça, em concordância. Esse é o verdadeiro espírito olímpico. Nada de me impacientar com coreografias. Nada de resmungar. Otimismo!

Com esse sentimento, enfrentei uma das mais longas filas da minha existência, na entrada do Maracanã. Um dos voluntários, com evidente sotaque inglês, mandava-nos encostar em uma tela:

– In the fence! In the fence! Disse tanto aquilo, que irritou uns jornalistas estrangeiros. Eles o xingaram, mas ele não se intimidou. Continuou nos mandando para a cerca. Eu, graças à minha nova atitude otimista, não me incomodei.

Finalmente, instalado nas arquibancadas do Maracanã, tive de assistir à Regina Casé mandando a assistência pronunciar o “som da Terra”. O “om”. E gritou ao microfone:

– Ommmmm... E repetia:– Ommmmm... E de novo: – Ommmmm...Poucas pessoas disseram om de volta.

Chata, essa Regina Casé. Algumas pessoas da assistência ensaiaram um “fora Temer”, mas foram abafados pela vaia. Não era hora de política, era hora de coreografias.

Começou a primeira coreografia. Uns caras dançando com papel alumínio, imitando as ondas do mar. Foi bem bonito, se você quer saber.

Aí chegou a hora do hasteamento da bandeira. E sabe quem cantou o Hino Nacional? O Paulinho da Viola! O grande Paulinho da Viola! Foi a mais bela interpretação do Hino Nacional Brasileiro em todos os tempos. Fiquei até um pouco emocionado. Talvez devido à idade provecta, talvez por morar longe do Brasil, não sei, só sei que vale a pena viver um dia otimista.



06 de agosto de 2016 | N° 18601 
ANTONIO PRATA

PRIMEIRO DIA


Da zona sul até a Barra, pegando a nova linha 04 do metrô, vou otimista: o metrô existe, as escadas rolantes rolam, as luzes iluminam, sobre os trilhos corre um trem. Da Barra à Cidade Olímpica, pelo BRT, continuo contente: o BRT também existe, os ônibus têm rodas e janelas, o motor não funde, o teto não cai. Chegando à Cidade Olímpica, o mais surpreendente: os estádios – até eles! – existem, imponentes, vistosos, prontinhos para os Jogos. Caramba, não é que conseguimos?

“Conseguimos o que, cara pálida?!”, é o que me pergunto durante o novo trecho, o BRT da linha TransOlímpica, que sobe dessa Jacarepaguá futurista rumo ao velho Engenho de Dentro, cruzando os intestinos da zona oeste carioca. De uma hora pra outra, o Rio olímpico dá lugar ao Rio telúrico. Do lado de fora da janela, é Curicica, mas poderia ser Capão Redondo, Caracas, Islamabad. Como já dizia Mano Brown: “Periferia é periferia em qualquer lugar”.

O BRT parece uma cápsula extraterrestre com seus adesivos coloridos levando loiros e ruivas e orientais vestindo uniformes amarelos com crachás reluzentes sobre o mar ocre e cinza de autoconstrução, esquadrias de alumínio e pichações. De tempos em tempos, cruzamos um veículo blindado cercado por soldados com fuzis e metralhadoras. Estou indo assistir a uma competição olímpica, mas parece que fui parar num episódio de Homeland.

Descemos em Magalhães Bastos para pegar o trem. A estação é cercada dos dois lados pelo Exército. Na plataforma, alguns soldados muito jovens e assustados caminham de um lado pro outro. O trem chega lotado. Nós, os branquelos coloridos, somos observados pelos demais passageiros com um misto de assombro e hostilidade. Ambulantes cruzam os vagões. “Skol Latão! Guaracamp! Água! Grapete!”. Os gringos, ressabiados, tentam não fazer contato visual.

Vejo uma jaqueta do Exército despontar no começo do vagão e confesso sentir um certo alívio, mas é outro vendedor: “O celular descarregou no trem? No ônibus? Na barca? Aqui, ó, é só meter no fio! Coisa de cinema! De filme! Só por cinco real! Cinco real!”. Logo depois, outro ambulante camuflado: “Olha a batata, batata cebola e salsa, é só dois, só dois real na minha mão!”.

De onde virão essas jaquetas? Serão da ocupação do Exército na Copa? Na Rio+20? Terão sido trocadas por colchões? Por batatas? Pela trégua do tráfico ou das milícias? Impossível não lembrar dos soldados que combateram em Canudos 120 anos atrás e de volta ao Rio formaram, junto a ex-escravos, a primeira favela da cidade.

Chegamos no Engenhão. O estádio existe. As cadeiras estão no lugar. As bandeiras dos países todas penduradas. A grama é verdinha. A seleção feminina faz três na China. Vinte e sete mil pessoas cantam “Brasil! Brasil! Brasil!” e volto a ficar otimista. Há notícias de muita desorganização, mas, talvez, no frigir dos ovos e no tilintar de milhões de socorro público, os Jogos funcionem. Basta pensar nisso e fico triste de novo: durante estas duas semanas, talvez a única coisa que funcione no Brasil seja a Olimpíada. O resto do país, do lado de lá da cápsula olímpica, continuará ao Deus dará – e Deus, pelo menos em boa parte da zona oeste do Rio, pelo que se nota, não dá.



06 de agosto de 2016 | N° 18601 
DIANA CORSO

A CULPA INCURÁVEL DAS MULHERES

É difícil sair ileso do filme Julieta, de Pedro Almodóvar. Como mulher, como mãe, consigo sentir a força da dor e principalmente da culpa da personagem que perdeu a filha. Não se trata de uma morte, mas de um rompimento absoluto, prenhe de acusações dirigidas à mãe. São acusações do tipo bem comum, que já fizemos ou recebemos: por não ter sido suficientemente presente, atenta. Por isso, todas nós sentimos como se esse drama fosse nosso: um dia chegaria a conta pela mulher ou pela mãe que não soubemos ser.

Julieta, como a de Shakespeare, está igualmente fadada a desencontrar-se do amor e esbarrar na morte. Viu seu eleito ser tragado pelo mar, mas não morreu de amor. Não era essa a maior dor que a aguardava: ela é uma mãe destinada a sofrer o abandono da filha. O filme é inspirado em três contos do livro A Fugitiva, de Alice Munro. A partir deles, Almodóvar imprimiu suas cores fortes à história, mas nem por isso lhe adulterou a essência. Livro e filme tratam da sobrevivência a esse luto impossível, que é perder um filho que não morreu.

A filha de Julieta decide ir para um retiro espiritual, onde conclui que precisava romper com tudo, a começar pela mãe. Somente vários anos depois do sumiço, por acaso, chegam notícias do seu destino: vive em uma região retirada e tem vários filhos. Ao desaparecer, o único recado que deixou atrás de si consistiu em uma queixa: sentia-se solitária junto à mãe. O troco, o castigo que impôs a ela por essa suposta omissão, foi o abandono.

Estar sozinho é um inferno quando significa ser condenado à companhia constante de uma falta. Aparentemente, a filha sentia-se também assim em presença de sua mãe. Na história, essa insatisfação é tudo o que sabemos dela.

A autoacusação constante faz parte da feminilidade. Julgamos que deveríamos ter acolhido mais, escutado mais, exigido menos, jamais ter outras prioridades. É como se aqueles a quem amamos estivessem ainda ligados a nós por um cordão, já não umbilical, mas ainda vital. O que o filme ressalta é o quanto nós, mulheres, acabamos dependendo desse tipo de relação. A filha de Julieta corta radicalmente esse cordão, e quem quase morre é a mãe.

Um dos motores dessa culpa está em considerarem-se imprescindíveis. O problema é que essa dependência acabou sendo vital para nós, tanto que o desmame costuma ser mais sofrido para a mãe do que para o bebê. Essa disponibilidade absoluta, como se os outros ainda habitassem nosso corpo, é herdeira de uma missão que já não é a única das mulheres, mas resta enquanto terreno conhecido.

Nessa história, a culpa permeia outras relações além da maternidade. A perda inaugural de Julieta nada tem a ver com a filha, mas sim com o pecado capital da desatenção. Ainda jovem, ela estava em um trem, e um senhor desconhecido sentou-se à sua frente puxando conversa. Incomodada, ela tentou retomar a leitura, mas ele foi insistente, sugerindo que poderiam fazer-se um pouco companhia. 

Infelizmente, tal rejeição foi fatal para a esperança dele que, na primeira oportunidade, joga-se na frente dos trilhos: aquele tinha sido seu último apelo ao mundo. Na sequência, após uma discussão em que ela não conseguia perdoar o marido por uma antiga traição, ele, que era pescador, sucumbiu a uma tempestade. Teria ele corrido risco desnecessário influenciado pelo clima ruim da relação?

Culpa e culpa, por não escutar, por não perdoar, por não ser a mãe que a filha queria que ela fosse. Julieta revela-nos um drama tão contemporâneo das mulheres que nunca acham que estão onde, como e quanto deveriam. Se há algo que aprisiona, é nossa própria fantasia de uma mãe que esteja plena e completamente entregue à missão, essa que nunca seremos, mas que gostaríamos de ter tido. Resta-nos a pergunta: será que essa mulher atenta, disponível, magnânima, alguma vez existiu? Talvez seja ela mesma o fantasma do qual, por meio da culpa, não conseguimos nos separar.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016



lançamento
DIVULGAÇÃO/JC

Se for para chorar que seja de alegria (Global, 182 páginas), de Loyola Brandão, apresenta crônicas sobre bares, ruas de São Paulo, seus mistérios e lições. Com seus encontros, desencontros, sempre contemplados com sensibilidade, humor e inteligência por Loyola, que há dias recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

Dicionário de gastronomia (Matrix Editora, 552 páginas, R$ 99,90), da tecnóloga em gastronomia Myrna Corrêa, formada pelo Iesb-Brasília, onde vive. Alimentos, técnicas, personagens ilustres, utensílios, contextos histórico-geográficos e muito mais estão na alentada obra da autora que já teve aulas com Roberta Sudbrack, Luciano Boseggia e Laurent Suaudeau.

Primeiras lições de vida (Ed. do autor e mun.de Bento Gonçalves, 252 páginas), do consagrado professor e advogado Alzir Cogorni, traz, com muita emoção, verdade e texto bem escrito em português e talian, suas memórias e vivências em Bento Gonçalves. Narrativa plena de amor, saudade, superação e esperança no futuro. Homenagem muito merecida aos imigrantes italianos.
Nem todas as respostas, mas muitas perguntas boas

Pensando bem... um olhar original a respeito de religião, liberdade, violência, educação, história, ciência, comportamento e política (Editora Contexto, 304 páginas, R$ 49,90) do filósofo e jornalista da Folha de S. Paulo Hélio Schwartsman é, antes e acima de tudo, um saudável e necessário contraponto aos "sábios" que, com frequência, especialmente nas redes sociais, andam fornecendo respostas prontas para todos os problemas do País e do mundo, com base em fé ideológica, religiosa ou de qualquer outro tipo.

Bacharel em filosofia e jornalismo, Schwartsman já ocupou diversos cargos na Folha e, entre 2008-2009, foi fellow na Universidade de Michigan. A Editora Contexto, do historiador Jaime Pinsky, como se sabe, há 29 anos é especialista em ciências humanas e volta-se para a universidade e para o público geral.

Os textos de Schwartsman, em geral, são curtos - o que já é uma grande qualidade -, mesmo quando tratam de grandes temas. O primeiro trabalho da antologia trata de prostituição, novo moralismo e posições de parte das feministas e militantes de direitos humanos sobre o tema. O último texto trata de alimentação, verdades dietéticas e opiniões exageradas sobre alimentos, saúde e a complexa ciência da nutrição.

Sem deixar de opinar sobre milhões de assuntos, notícias, livros, filmes e acontecimentos, Schwartsman, ao fim e ao cabo, procura não ser dogmático e, muito menos, é dos que pretendem apresentar verdades definitivas sobre temas como o terrorismo, a democracia, o preconceito, a demografia do Prêmio Nobel, o valor do diploma e outras dezenas de assuntos que todos os dias tomam conta de nossas mentes pós-modernas.

Schwartsman sabe mais do que ninguém que filosofar, acima de tudo, é perguntar. E sabe que não sabemos e nunca saberemos tudo. O que até é muito bom, caso contrário a vida e o mundo seriam muitos chatos e destituídos dos mistérios e das aventuras de todos os dias.

O autor apresenta alguns dados, muitas informações, fornece opiniões rápidas e claras sobre humor, limites do humor, liberdade de expressão, racionalidade e irracionalidade humanas, discos voadores, problemas educacionais, pátrio poder, homossexualidade, família, crime, violência, polícia e outras dezenas de tópicos. Schwartsman pergunta, responde, informa e, muitas vezes, deixa uma pergunta para que a conversa continue.

Os leitores mais atentos e perspicazes é óbvio que constatarão que o autor tem algumas verdades mais consolidadas, algumas crenças menos abaladas e, como todos nós, carrega uma história, uma cultura, muitas leituras e pontos de vista que vão chegando, ficando, mudando, indo e voltando.
Falando de violência, por exemplo, Schwartsman, com certo otimismo, entende que as sociedades de hoje são menos violentas e mais prósperas do que eram nos primórdios e mesmo em épocas nem tão remotas. Mas mesmo com esse pensamento reconfortante, ele acha que temos que manter a vigilância, que sempre estamos perigosamente perto da barbárie.

a propósito...

O espírito dos textos de Hélio Schwartsman, pensando bem, foi publicado em livro em momento adequado. Com nossas crises econômica, política e social, mais a queda do governo Dilma e o esgotamento dos modelos político-econômicos e a escassez de grana, ética, líderes e ideias, melhor pensar em perguntar o que realmente está acontecendo, sem buscar verdades prontas e acabadas. 

Levaremos tempo, teremos de nos esforçar, as perguntas ainda serão muitas, mas algumas respostas virão, com certeza. Elas sempre vêm. Antes e depois de novas, intermináveis questões, que a história nunca acaba.
Jaime Cimenti