sábado, 8 de agosto de 2015


RUTH DE AQUINO
07/08/2015 - 20h07 - Atualizado 07/08/2015 20h07

A quem interessa a queda de Dilma

Se Dilma renunciar, ou se sofrer impeachment, Lula é quem mais ganhará. Quem disse que a política é linear?

Numa bolsa de apostas apartidária, livre e intuitiva, poucos hoje investiriam seu dinheirinho na permanência de Dilma Rousseff como presidente por mais três anos e meio. Não sou a favor do impeachment de Dilma. Ainda não surgiram provas irrefutáveis de sua desonestidade, apenas de sua incompetência na gestão econômica e política. Por enquanto, Dilma não é Zé Dirceu. Não parece ter a ganância do companheiro.

O que pode manter Dilma no Planalto? Numa crise econômica provocada por ela mesma e pelo PT, e que nada tem de passageira, a presidente precisa de apoio para recolocar o país nos trilhos. Urgente.

Dilma não pede uma vaquinha, apenas paciência. Pede união a quem pensa “só em si mesmo”. Não tem coragem de mostrar na TV, na galeria dos egoístas, a foto de Eduardo Cunha – quem, mais que ele, tenta tumultuar? A pauta-­bomba do presidente da Câmara é clara: inviabilizar Dilma, derrubar a presidente por estrangulamento e por meios legais. PDT e PTB já aderiram ao motim e anunciaram a saída da base aliada.

O Brasil cai no tal alçapão mostrado pelo ator José de Abreu na TV. Os apelos de Dilma não encontram eco, só barulho. Mas é patética a tentativa do PT de intimidar o brasileiro com a alternativa D ou D: “Dilma” ou “Ditadura”. Isso não existe.

De onde pode vir o apoio para Dilma se manter? Da população, não: só 8% aprovam seu governo e 71% a reprovam, segundo pesquisa Datafolha. Da Câmara, jamais – o Planalto considera Eduardo Cunha “ingovernável”. Do Senado, depende do sedento Renan Calheiros. O vice Michel Temer foi o primeiro a constatar o lugar vago da presidente, ao dizer que “alguém” precisa unir o Brasil. Quem será esse alguém? Temer jogou a toalha como articulador. Ou puxou o tapete. A semana dramática culminou em apelos petistas ao PSDB e aos empresários.

Nenhum presidente governa sozinho. Essa fórmula não fica de pé. Chico Buarque cantava que “é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”. O ar que emerge dos panelaços hoje cheira a azedo. Dilma descobrirá que não pode fazer troça de manifestações populares. O humor, nesses casos, vira provocação. Se Dilma negociar sua saída do Planalto em nome da governabilidade e ceder sua cadeira ao vice Michel Temer, quem ganhará com isso? Se Dilma sofrer impeachment, e levar junto o vice, com convocação de novas eleições, quem será o mais forte adversário do novo presidente, seja ele do PMDB ou do PSDB?

Em ambas as hipóteses, Lula é quem mais ganhará. Ganhará fôlego para a eleição de 2018. Ganhará liberdade para aumentar as críticas a “tudo que está aí” – como vem fazendo de forma subliminar. Jogará a conta no novo governo e nos economistas liberais. Dirá que sabe como fazer o Brasil crescer. Os remédios amargos para curar o país do “mal de Dilma” não serão mais ministrados pelo PT.

“O Lula é um animal político, dos mais sagazes e mais capazes de manipular a opinião pública”, disse Roberto Romano, cientista político da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas. “Lula tem uma liderança inconteste, mesmo em baixa nas pesquisas. A prisão do Dirceu foi um golpe, mas ele já isolou o companheiro. Com Lula é assim: os ônus vão para os auxiliares. Desde o Getúlio (Vargas), não existe personagem mais rápido para se reorganizar. Saindo Dilma, poderá bater sem pudor no Levy, na terceirização. Dirá que Dilma não seguiu a linha dele, e que ele é a salvação da lavoura.”

Não sou a favor do impeachment de Dilma. Também não acho bonito o cenário de Dilma sangrando até o final, sem base e sem chão. A continuidade da presidente interessa à economia, pois o impeachment agrava a crise. Interessa a Serra e Alckmin, que sonham em ser candidatos tucanos em 2018. Interessa à parte do PMDB que quer disputar com alguma viabilidade a Presidência – leia-se o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Interessa à terceira via, Marina Silva. Interessa a todos que odeiam tanto o PT que têm medo de fortalecer Lula para 2018. Paradoxo? A política nunca foi uma ciência linear.

Não vejo ninguém capaz de unir o país, nem na base aliada nem na oposição. Faltam líderes com credibilidade. O melhor para o Brasil seria que a presidente tivesse habilidade para dialogar com as forças políticas e a população. Utopia.

Enquanto o PT tiver a cara de pau de defender que evitou por seis anos que a crise internacional chegasse ao Brasil, que o país vive “problemas passageiros na economia” e que reprovar Dilma equivale a nos jogar nos braços de uma ditadura de direita, será difícil reconquistar a população. Chamar críticos de trouxas e fascistas é desespero de causa. Diz o PT: “Hoje, há uma pessoa capaz de evitar uma grave crise política no país: você”. Não diga! “Juízo”, aconselham mamãe Dilma e papai Lula. O que você fará no dia 16?


08 de agosto de 2015 | N° 18252 
LISANDRA PIONER

A AUSÊNCIA CONSENTIDA

Crianças não precisam de muito dinheiro. elas precisam muito de seus pais mais perto

Não sei se estou mais sensível a esse tipo de observação ou se realmente esse é um fenômeno que tem surgido agora, mas o fato é que tenho percebido o quanto, cada vez mais, as crianças estão fazendo questão de falar o que sentem. Nessa minha convivência diária com elas, e principalmente na preparação de datas especiais, como o Dia dos Pais, ouço e leio desabafos de muitas em relação ao tempo que compartilham com os seus.

Nesses últimos dias, ouvi e li doces confissões de crianças que sentem falta de seus pais. Não pela inexistência deles, mas pela ausência consentida e voluntária, sabe? Talvez o pior tipo de ausência.

Sei que se compararmos os pais de hoje com os dos anos 60, por exemplo, ficará nítida uma diferença abissal. Os homens estão muito mais ativos, participativos, interativos. Muitos pais de hoje são mais do que simples progenitores e provedores, são cuidadores. Se envolvem com as crianças e até com as tarefas domésticas.

Porém, será que, apesar dessa redefinição de papéis, a sociedade ainda não vende uma imagem de que o homem bem-sucedido é aquele que preenche seu tempo com trabalho e possui um carro potente? Aquele que pode pagar jantares caros e bancar uma família inteira?

Não me embasei em estatísticas, apenas no testemunho de algumas dezenas de pequenos seres com quem convivo entre aulas e consultório. E, baseada nesse testemunho, digo uma coisa: definitivamente, crianças não precisam de muito dinheiro, nem de muito espaço, muitos brinquedos, muitos passeios, muitas viagens, muitas roupas... Crianças precisam muito de seus pais mais perto!

É o tempo, mais do que a conta bancária, que encanta as crianças e aquece seus corações. É a atenção, mais do que os presentes, que faz dos pais seres imprescindíveis.

Vivemos buscando o reconhecimento social, a ascensão profissional e o progresso financeiro, mas esquecemos que quando nos tornamos pais (ou mães) esses anseios deveriam ser deixados um pouco de lado, pois são necessidades apenas nossas – e já não somos apenas um.



08 de agosto de 2015 | N° 18252 
NÍLSON SOUZA

TELEFONE SEM FIO

Caos em Porto Alegre: arrastões no centro da Capital, tiroteios em diversos bairros, assaltos nos engarrafamentos de trânsito e muita troca de mensagens nas redes sociais, com avisos alarmantes e notícias sobre ocorrências policiais. Assim começou para os gaúchos uma semana marcada por paralisações e protestos de servidores públicos com salários atrasados. 

Só que não. A única coisa real desse cenário é a compreensível revolta dos trabalhadores com o parcelamento de seus salários. Tudo o mais faz parte de uma onda de boatos que provocou fechamento antecipado de lojas e causou pânico nas pessoas.

O boato é filho do medo e tem a maldade como madrasta. Nem sempre é intencional. Quando fiz meu estágio de Educação Física, uma das brincadeiras que gostava de fazer com as crianças na hora do “volta à calma” era a do telefone sem fio. Inventa-se uma frase secreta, de preferência com certa complexidade, dispõe-se a garotada em fila ou em círculo, e o primeiro conta a historinha em voz baixa no ouvido do segundo, que repassa ao terceiro e assim por diante. O último diz em voz alta o que ouviu – e, invariavelmente, o resultado é desastroso, engraçado, com muita coisa diferente daquilo que foi proposto no início.

Pois o telefone sem fio, tanto o aparelho quanto o da brincadeira, é agora uma realidade. Qualquer pessoa tem poder para lançar uma afirmação, uma suposição ou até uma maledicência – e a tecnologia da retuitagem faz o resto.

Claro, o boato é antigo como o mundo. Há incontáveis exemplos na história da humanidade de fofocas que interferiram nos rumos dos fatos. Em tempo de guerra, mentira é como terra – diz o ditado. A própria imprensa foi rotulada de fofoqueira durante anos, o que a obrigou a desenvolver mecanismos de checagem e transparência para reconquistar a confiança do público. Não que esteja totalmente livre de erros e até de desvios éticos. Ainda ocorrem. Mas agora essa pecha de pouco confiável está passando para as redes sociais.

Durante o dia confuso do início da semana, os jornalistas e os veículos de comunicação foram muito pressionados a divulgar as informações sobre os tais arrastões e assaltos que cidadãos sérios e preocupados repassavam aos amigos. Poucos profissionais, porém, caíram na armadilha da boataria.

Acho que nos saímos satisfatoriamente desse deprimente e nem sempre bem-intencionado telefone sem fio.


08 de agosto de 2015 | N° 18252 
DAVID COIMBRA

Pesadelo vivo – final

Rezar. Eric rezou e o fez com fé: – Livra-nos do Mal. Livra-nos do Mal!

Mas o Mal continuava lá, exatamente como no pesadelo. A mulher com o rosto nas sombras, olhando para ele. Ele sabia que ela estava olhando para ele. As pernas de Eric fraquejaram e ele teve vontade de vomitar. Mas não vomitou. Fechou a cortina, respirou fundo e pensou:

– Tenho de enfrentar o medo! Abriu de novo a cortina, decidido a não tirar mais os olhos da aparição.

E ela não estava mais lá.

Eric ficou desnorteado. Caminhou pela sala, indeciso. Deu a volta na mesinha de centro, foi até a cozinha, acendeu a luz, voltou... Tinha de falar com alguém! Pegou o celular. Ligou para Salomé. E despejou toda a história. Tudo. O pesadelo recorrente. Como acordava assustado. E, agora, o fantasma do outro lado da rua. Salomé ouviu até o fim e, então, falou exatamente o que ele não queria ouvir:

– Já pensou em procurar um psicanalista?

Naquele momento, a raiva tomou o lugar do medo. Eric precisou se conter para não gritar um palavrão e desligar. Despediram-se, enfim, e ele ficou rosnando:

– Sociólogas! Jornalistas!

E assim se fez a luz.

A verdade abriu-se diante dele. Ou, pelo menos, o que ele achava ser a verdade.

Eric, subitamente, surpreendentemente, traçou um plano. Foi algo quase automático em sua cabeça.

E, naquela noite, ele conseguiu dormir. No dia seguinte, estava alerta e ansioso para colocar seu plano em funcionamento.

Salomé ligou, preocupada, sugerindo o nome de um analista, convidando-o para jantar na casa dela, mas ele recusou com educação. Tinha algo importante a fazer, respondeu. E era verdade.

Ao chegar em casa, tomou duas providências: deixou o portão da frente aberto e trouxe Vírgula para a sala. E esperou. Vírgula, conhecendo o dono, esperou também, apreensivo, deitado no tapete, mas sempre olhando para o rosto de Eric.

A hora, enfim, chegou.

Com o coração palpitando forte, Eric chamou Vírgula e esgueirou- se até a janela. Abriu uma fresta da cortina, o suficiente para espiar com um só olho.

Ela estava lá. A mulher do pesadelo. Eric gritou:

– Vem, Vírgula!

E saiu correndo. O grande pastor alemão foi atrás dele, a toda velocidade. Saíram pela porta da frente. Em um segundo, estavam na calçada. Eric apontou para a mulher de preto:

– Pega, Vírgula!

E então percebeu nela o pânico que nenhum espírito maligno sentiria. Quando a mulher viu o cachorro correndo em sua direção, soltou um grito de pavor, virou-se e correu. O chapéu preto caiu no chão e Eric riu, riu e gritou:

– Pega, Vírgula! Nem precisava. Vírgula já a encurralara. E ela gritava, desesperada:

– Socorro! Tira esse cachorro de cima de mim! Eric, sentindo-se realizado: – Parado, Vírgula!

Vírgula estacou, rosnando. A mulher-fantasma estava encostada no muro de uma casa, completamente em pânico, um pânico que mulheres-fantasmas não sentem.

– Diz pra ele ficar longe de mim! – implorava, olhando fixamente para os dentes que o pastor alemão lhe apresentava como advertência.

– Foi a Eva? – perguntou Eric, embora já soubesse a resposta.

– Foi! Foi! Era só pra ser um susto! Só uma brincadeira!

– Não... – disse Eric. – Não era brincadeira. Era vingança...

Chamou Vírgula e deixou a mulher ir embora, correndo. Voltou para casa balançando a cabeça. Mulheres! Quando Salomé deu a ideia de procurar um psicanalista, ele lembrou-se de Eva e compreendeu: Eva sabia do pesadelo, podia ter armado tudo. Como, de fato, armou.

Ao chegar em casa, Eric estava decidido. Ligou para ela. Para Salomé, não para Eva. Terminou o namoro por telefone mesmo. Nem deu muita explicação. Queria ficar sozinho, pronto. Sociólogas, jornalistas, mulheres que ficam indignadas com propaganda de cerveja, nunca mais!


08 de agosto de 2015 | N° 18252 
CLÁUDIA LAITANO

Fumaça preta


Entre os muitos mistérios jamais esclarecidos da trama de Lost (2004-2010), o monstro da fumaça preta era o mais sinistro e perturbador. Uma criatura etérea, onipresente, que se podia ver e ouvir, cheirar talvez, mas que não se sabia de onde vinha nem para onde ia. Chegava devagar, sinuosa, flanando no ar como uma serpente fantasma, antes de dar o bote, deixando suas vítimas sem qualquer possibilidade de reação a não ser torcer para que o exu aéreo as considerasse uma presa desprezível – ou que o fim trágico fosse apenas rápido e indolor.

Tenho pensado muito sobre a fumaça funesta de Lost nos últimos dias. Primeiro porque a coisa tá preta, segundo porque as ameaças parecem vir de todos os lados, limitando a capacidade de reação da maioria das pessoas a fazer pose de estátua enquanto a nuvem negra estaciona sobre nossas cabeças – em camadas sobrepostas de baixo-astral que se estendem da calçada em frente de casa à Praça dos Três Poderes.

Diante de uma crise dessas proporções, as reações podem ir do desespero ao sangue-frio, da ação enérgica ao imobilismo, da depressão ao baile da Ilha Fiscal, do espírito público ao paroquialismo mais estreito. Há gente tentando apagar o incêndio e gente atiçando a fogueira, gente sendo inconsequente por falta de informação e outros deliberada e calculadamente.

À atitude muitas vezes incompreensível de políticos e figuras públicas que parecem jogar a favor da fumaça preta, correspondem, na microesfera da vidinha miúda e das redes sociais, comportamentos igualmente inconsequentes ou mesquinhos. Como se a preocupação, a insegurança e o mal-estar generalizado causado pela sensação de instabilidade política e econômica justificassem todo tipo de insensatez e intolerância. Sofro, logo surto.

No limite, enfrentar uma crise sobre a qual não podemos agir apenas como indivíduos não é muito diferente de enfrentar uma crise pessoal, que depende unicamente da nossa capacidade de ação e reação para ser revertida (ou sobrevivida). OK, não podemos chamar o amigo Japão, em geral sensato e muito experiente, para desabafar, nem esperar que o cunhado EUA, sempre bem de vida, compre nosso artesanato para nos dar uma forcinha – não sem antes mencionar que o Haiti, coitado, esse, sim, está bem pior do que nós. Mas devemos manter (ou inventar) a compostura – como indivíduos e também como nação.

A crise, todas as crises, jogam luz alta sobre o caráter do sofrente e revelam sua verdadeira natureza. Quem se torna um crápula porque perdeu a mulher, o marido, o emprego, o negócio, a juventude (ou por medo de perder tudo isso) já era um crápula antes – apenas estava em modo repouso. Um país (ou Estado) que não consegue aproximar adversários em torno de uma pauta mínima comum de diálogo e espírito público tem problemas muito maiores do que a falta de dinheiro.

O que a fumaça preta exige da gente é coragem – e caráter.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015



07 de agosto de 2015 | N° 18250
RINDO DAS DIFERENÇAS

Comédia ecumênica


SUCESSO DE BILHETERIA, filme faz graça com o tema da integração na França

Como no Brasil, são as comédias que têm levado o público aos cinemas na França. Pois o maior sucesso de bilheteria francês em 2014 entrou em cartaz nesta semana na Capital: Que Mal Eu Fiz a Deus? atingiu a marca de 12 milhões de espectadores, fazendo rir de temas espinhosos como preconceito racial e religioso, conservadorismo e colonialismo. Sexto maior êxito cinematográfico francês da história, a comédia já somou 10 milhões de espectadores fora do país.

Na trama de Que Mal Eu Fiz a Deus?, Claude (Christian Clavier) e Marie (Chantal Lauby) formam um casal tradicional e católico, cujas três filhas mais velhas escolheram homens de etnias e religiões diferentes para casar: um advogado muçulmano de origem argelina, um empresário judeu e um investidor chinês. Em nome da harmonia familiar, os pais tentam esconder o desconforto com os genros, alimentando a esperança de que Laure (Elodie Fontan), a filha mais nova, case-se com um francês legítimo. Para desconsolo dos Verneuil, porém, a caçula está noiva de Charles (Noom Diawara), jovem ator negro nascido na Costa do Marfim.

O diretor e roteirista Philippe de Chauveron, especialista em comédias como O Aluno Ducobu (2011) – adaptação de uma popular série belga de quadrinhos –, e o ator Diawara estiveram no Brasil em junho, integrando a comitiva que veio promover o Festival Varilux de Cinema Francês 2015.

– O que representa bem essa ideia de integração é a sequência em que os três filhos de imigrantes cantam emocionados A Marselhesa (hino da França). Há cada vez mais franceses de origem estrangeira no nosso cinema, porque eles estão se integrando bem. Antes, poucas pessoas com esse perfil ousavam fazer carreira cinematográfica – disse Diawara em entrevista a Zero Hora.

ENTREVISTA: PHILIPPE DE CHAUVERON - Diretor francês

Como você criou essa história?

Tudo começou com um artigo que li no jornal que dizia que a França é o país onde há mais casamentos mistos entre comunidades diferentes. Isso me interessou porque espelha o que é a França, uma terra de misturas e contradições. Também foi uma forma de homenagear as comunidades de estrangeiros que formam a França. Quis dar a eles empregos verdadeiros, e não como costumam aparecer no cinema, como traficantes e coisas assim.

Você sempre pensou em abordar esse tema no registro de comédia?

Sempre penso em comédias. É o que eu dizia antes sobre a esquizofrenia do país. Os filhos dos imigrantes têm a mesma cultura que os filhos de franceses, mas, apesar disso, são considerados menos franceses do que estes. Quis falar sobre isso.

Como você chegou a Noom Diawara?

Eu o vi pela primeira vez em uma peça chamada Amour Sur Place ou à Emporter (“Amor no local ou para viagem”), que foi um grande sucesso na França. Ele foi minha primeira opção para o papel. Eu queria personagens que fossem sedutores, mas engraçados ao mesmo tempo.

roger.lerina@zerohora.com.br


07 de agosto de 2015 | N° 18250
ARTIGOS - EDUARDO K. M. CARRION*

MISÉRIA DA ESQUERDA OU ESQUERDA DA MISÉRIA?


Em 1847, Ma r x procurou com a Miséria da Filosofia responder a A Filosofia da Miséria, publicado em 1846 por Proudhon, pensador esse em grande parte protagonista de um socialismo pluralista e antidogmático e cuja obra se faz cada vez mais contemporânea, entre outras coisas em face da derrocada da experiência do denominado “socialismo real”, em especial do stalinismo.

Numa outra perspectiva, poderíamos nos perguntar se a debacle atual do projeto político que controla o governo federal está a revelar uma miséria da esquerda, comprometendo política e genericamente qualquer projeto de esquerda, ou pura e simplesmente uma esquerda da miséria, ou seja, a degenerescência moral e política de um projeto pretensamente de esquerda.

São inegáveis os avanços nos últimos anos em termos de políticas sociais, que, aliás, remontam também a governos anteriores, embora ampliadas na atual fase. Entretanto, políticas sociais não constituem monopólio da esquerda. 

O liberalismo europeu compatibilizou-se durante muito tempo com o Estado Social. Infelizmente, no Brasil, temos um liberalismo de marca conservadora, avesso em grande parte a políticas sociais. Não gratuitamente, cunhou-se na nossa literatura política a expressão “liberal-conservadorismo”, para identificar a natureza e a prática do nosso pretenso liberalismo.

Uma coisa, entretanto, revela- se incontestável: um projeto progressista e alternativo é incompatível com a corrupção, com o assalto ao patrimônio público, seja em benefício partidário, seja também, como tudo indica, em benefício pessoal. Tratou-se, finalmente, de um projeto, na dimensão histórica, de pernas curtas. 

Que, talvez contra a vontade, engrandece o legado getulista. Nada a ver com maquiavelismo: seria não só nada compreender de Maquiavel, como aviltar seu pensamento. Trata-se mesmo de indigência e de demissão políticas. E isso já se alertava desde pelo menos 2003.

Provavelmente, abre-se agora um período de reforço de uma hegemonia liberal-conservadora, em grande parte por responsabilidade de um projeto político generoso e transformador nas suas origens e nas suas intenções que foi rapidamente, utilizando aqui metaforicamente uma expressão com origem na biologia, “fagocitado” (absorvido, destruído) pelo que existe de mais atrasado e tradicional na nossa experiência política.

*Professor titular de Direito Constitucional da UFRGS e da FMP


07 de agosto de 2015 | N° 18250 
DAVID COIMBRA

Pesadelo vivo – 2


Eric não via filme de terror. Tinha medo. Não se envergonhava de admitir que tinha medo. Mas é claro que assistira a alguns filmes apavorantes, e, neles, o ataque do Mal sempre acontecia quando alguém fazia aquilo que ele estava prestes a fazer: havia tirado os olhos da aparição e lhe dera as costas, para ir à cozinha, tomar um copo d’água. Nos filmes, era esse o momento de alguma coisa terrível acontecer. Foi o que o deteve: a sensação de que não devia ter deixado de olhar para a mulher lá fora, de que a distração era um erro.

Voltou correndo até a janela.

Abriu a cortina, temendo que a mulher do pesadelo estivesse mais perto, talvez sobre a grama do jardim.

Mas ela não estava mais lá. Havia sumido.

Eric ficou algum tempo olhando para a rua deserta. Então suspirou, fechou a cortina e, por fim, caminhou até a cozinha. Abriu a porta da geladeira, pensativo. Tomou um copo d’água. Largou o copo na pia. E decidiu se recolher.

Ao chegar ao corredor, hesitou. O corredor escuro parecia ameaçador. Eric suspirou. Lembrou-se da mãe, que dizia sempre, quando ele era menino:

– Enfrente o medo!

Encheu os pulmões de ar e avançou escuridão adentro. O corredor lhe parecia mais comprido do que o normal. Parecia um corredor de pesadelo, interminável.

Mas terminou. Eric chegou ao quarto, escovou os dentes rapidamente, deitou-se na cama e apagou a luz do abajur.

Quem diz que conseguia dormir? O pavor cresceu. Eric ouvia ruídos. A madeira das paredes estalando. Passos na calçada. O vento balançando as folhas. Tudo lhe parecia fantasmagórico e ameaçador. A madrugada já ia alta quando ele fez o que há muito tempo não fazia: rezou. Rezou com concentração, força e fé. Rezou, rezou, desfiou Pais Nossos e Aves Marias, rezou sem parar, até cansar e, finalmente, adormecer.

Quando o sol raiou, Eric acordou cansado, mas o medo havia se derretido com a claridade. Mesmo assim, passou o dia irritado com a falta de sono e tenso com a lembrança da noite. Salomé ligou, queria beber algo na Cidade Baixa, mas ele disse que não havia dormido bem, que estava exausto e que queria ir para casa. O que era verdade, mas ela agiu como se não acreditasse nele e desligou agastada. Dane-se!

Ao voltar para casa, Eric passou algum tempo conversando com o filho dos seus vizinhos, o menino Tiaguinho, e brincando com seu pastor alemão, o Vírgula. Isso o deixou relaxado. Jantou no sofá, em frente à TV ligada, com Vírgula deitado ao seu lado. Depois, levou-o ao quintal, fechou a casa e preparou-se para dormir um pouco mais cedo. Tentava não pensar no assunto, mas a lembrança do pesadelo ainda o inquietava. Será que... O pensamento apertava-lhe o peito. Será que... Caminhou, então, até a janela da sala. Levou uma mão vacilante até a cortina. Abriu-a.

E lá estava ela. A mulher do seu pesadelo, debaixo da árvore, na escuridão, olhando para ele.

Medo. Sente-se medo de algo que pode acontecer, não do que está acontecendo. Quando está acontecendo, em geral, não se sente mais medo. Mas aquilo estava acontecendo e era exatamente do que Eric tinha mais medo na vida, e ele ainda assim continuava sentindo medo. O medo denso, pesado, pastoso injetou-se em seu coração e o fez inflar até tomar conta do peito inteiro, da garganta, da boca. Eric mal conseguia respirar, vendo o seu pesadelo materializado do outro lado da rua. O que fazer? O que fazer? Saiba amanhã o que ele fez!


07 de agosto de 2015 | N° 18250 
MARCOS PIANGERS

Ser pai é comum


Ser pai é a coisa mais comum do mundo. Os 7 bilhões de pessoas no mundo vieram de um. Não do mesmo cara, imagina o cansaço do sujeito, mas todo nascimento, desses 7 bilhões, teve um dedinho de um homem (na verdade outra coisa). Mesmo assim, cada pai é um deslumbrado. Cada descoberta de gravidez é chocante. Cada parto é pateticamente acompanhado por um pai nervoso, atrapalhado, nauseado pelo sangue, dificultando a passagem de médicos e profissionais pela sala de parto. Todo pai é um atrapalhado. O atrapalhado mais comum do mundo.

Mesmo com toda a normalidade do evento, o pai ainda não está preparado. O vô não preparou o pai. Não deixou o pai brincar de boneca quando era criança, com medo de ele afeminar. Agora, o pai tem que aprender a segurar o bebê, a trocar fralda, a dar de mamar. O pai, pateticamente atrapalhado, aprende tudo isso. O pai aprende tudo. A acalmar a criança, a alimentá-la, a fazê-la dormir. O pai aprende a ver a criança crescer. O pai se orgulha com cada conquista infantil.

O pai se emociona com qualquer presente. Qualquer desenho em que a sua cabeça esteja grande demais, qualquer cartolina escrita “eu te amo”. São os presentes mais comuns do mundo, mas para o pai são únicos. O pai se emociona ao ver o filho falar pela primeira vez. Todas as crianças falam, um dia. Mas o pai acha que aquele é um momento histórico.

Alguns pais filmam o filho falando palavras embaralhadas. Alguns pais choram com isso.

O filho irá para a escola e o pai achará que cada nota alta é a prova de que é um filho fora do comum. Na formatura, serão 50 formandos, mas o pai achará que seu filho é especial. Serão 50 pais achando que seus 50 filhos são extraordinários, inteligentes demais, brilhantes demais. Todo final de semestre, milhões de alunos se formam no mundo. E milhões de pais acreditam que aquele é um momento único.

Ser pai é a coisa mais comum do mundo. Todos os dias nascem crianças, crescem jovens, se formam adultos. Todos os dias a paternidade se torna cada vez mais trivial, mais corriqueira. Ainda assim, cada pai se sente especial. Cada pai se emociona com cada momento comum. Todo pai é um apaixonado por banalidades. Como quando seu filho aprende a dirigir. Como quando seu filho se casa. Como quando seu filho tiver um filho.

Ser pai é a coisa mais comum do mundo. E, ainda assim, cada pai acha que é extraordinário. Porque, na verdade, é mesmo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015



06 de agosto de 2015 | N° 18249 
LUCIANO ALABARSE

O QUE VEM A SER ISSO?


Está na Bíblia, transcrevo aqui: “Estavam todos estupefatos. E, atônitos, perguntavam uns aos outros: o que vem a ser isso?”. Para os que acompanham os bastidores da vida nacional está difícil acompanhar os escândalos e ilícitos que os noticiários nos revelam diariamente sem fazer coro à perplexidade bíblica: “o que vem a ser isso?”. 

Um exemplo: o filho do presidente do TCU pratica advocacia administrativa no órgão que o pai preside, e é como se isso fosse absolutamente correto. Não é. Nenhum dos dois, porém, demonstra qualquer constrangimento. Claro: um novo descalabro logo o substituirá nas manchetes e outros desmandos nos surpreenderão.

Enquanto o dólar dispara e a bolsa despenca, Chico César grava a mais contundente, politizada e “bob dylanesca” canção brasileira dos últimos anos, a quilométrica Reis do Agronegócio. Tiago Rinaldi, o melhor cantor gaúcho de sua geração, deveria cantá-la. Deveríamos cantar juntos. Todos nós.

Agosto, mês do desgosto: em visita a Portugal, o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, admitiu que “talvez tenhamos errado no acordo ortográfico”. Enquanto do lado de lá do Atlântico não há consenso algum, desde 2010 o Brasil teve de reaprender regras de gramática, pontuações, o diabo. 

Ainda tenho a sensação de escrever errado quando não coloco acento em determinadas palavras ou hífen em expressões compostas. Nunca gostei do tal acordo – que começará a valer oficialmente em 2016. Pelo simples fato de que a língua que se fala em Portugal não é a mesma que se fala aqui. Belas, sim, mas distintas. E se a Pátria Mãe voltar atrás? Teremos de desaprender tudo de novo?

Pra não dizer que não falei de flores: aos 90 anos, depois de 35 sem publicar, James Salter nos dá um presentão: Tudo que É, romance maravilhosamente bem escrito. Sem o apelo midiático de Harper Lee, o autor contabiliza elogios de gente como Philip Roth, Susan Sontag e Saul Bellow. Leia direto. E ouça/veja Loucura, CD e DVD em que Adriana Calcanhotto canta Lupicínio. Uma bênção.



06 de agosto de 2015 | N° 18249 
DAVID COIMBRA

Pesadelo vivo


Ela estava parada do outro lado da rua, à sombra de uma árvore. Quando Eric a viu, a sensação de horror fechou-lhe a garganta, cortou-lhe a respiração. O coração começou a ribombar no peito, e ele teve vontade de correr. Mas não correu. Continuou com a cortina na mão, olhando pela janela da sala, quase sem acreditar. Estava vendo o seu pesadelo.

Pesadelo mesmo. Eric já havia sonhado com aquela cena. Era um sonho recorrente: uma mulher dentro de um longo vestido preto, debaixo de um chapéu também preto, observava-o do outro lado da calçada, de pé, em silêncio, apenas olhando para sua casa, para ele, durante horas. Ele não conseguia ver-lhe o rosto, mas sabia que ela o fitava.

Por alguma razão, Eric sentia pânico ao sonhar com aquilo. Quando estava casado com Eva, para sua vergonha, por duas vezes protagonizou o drama clássico: acordou gritando. Nas duas vezes, a ex-mulher fez a sugestão que todo jornalista faria:

– Que tal procurar um psicanalista?

Psicanalista! Por essas coisas que Eric havia se separado dela. Por essas e porque ela tentara matar seu cachorro, o Vírgula, por puro ciúme, imagina! Bastava pensar nisso, e Eric sentia raiva dela. Como podia ser tão má? Aquele relacionamento não terminara bem, de jeito nenhum. Eric a expulsara de casa, e ela saíra batendo porta e jurando vingança.

De certa forma, dera-se a vingança. Logo depois que eles se separaram, Eric se envolveu com uma amiga de Eva, uma mulher jovem e atraente, mas que era... socióloga. Eric descobriu que sociólogos conseguiam ser mais pretensiosos do que jornalistas. E mais inúteis. Para que serve um sociólogo?, ele se perguntava em silêncio, enquanto a namorada ficava analisando o machismo das propagandas de cerveja. E para si mesmo respondia: para formar outros sociólogos. E para encher o saco de pessoas como ele, que estavam pouco ligando para a mensagem subliminar das propagandas de cerveja ou para os preconceitos da sociedade conservadora ou para o que o Bolsonaro acha imoral.

Não, ele definitivamente não queria mais se envolver com jornalistas ou sociólogas. Infelizmente, havia sido fraco. Como sempre. Deixara-se seduzir pelo corpo flexível daquela Salomé, esse o nome dela, Salomé, nome de uma cortadora de cabeças, pois deixara-se seduzir por um par de pernas compridas e um sorriso de promessas, levara-a ao cinema, jantara com ela e, agora, pronto, estava metido em mais um namoro no qual não sabia como entrara e do qual não sabia como sair. Só não queria que fosse pela guerra, como ocorreu com Eva.

Se bem que, agora, o que o preocupava de verdade não era a ex-esposa ou a atual namorada, mas a outra mulher, o fantasma parado na calçada. Só podia ser um fantasma. Como aquela criatura podia ter saído do seu sonho para se materializar na vida real? Eram 2h da madrugada, ninguém ficava estático na rua, debaixo de uma árvore, daquele jeito assustador, àquela hora. Todas as pessoas deviam estar dormindo. Eric também pretendera dormir. 

Havia desligado a TV depois de assistir a um filme na Netflix e, no momento de puxar a cortina, deparara com a aparição. O que era aquilo? A mulher não desviava o olhar. Ele não conseguia ver seus olhos, mas sabia que estavam cravados na sua janela. Nele. Eric se arrepiou. O que devia fazer? Ir lá? Não... Isso é que não... Já estava tremendo. Decidiu ir à cozinha, tomar um copo d’água, para se acalmar. Fechou a cortina. Deu as costas à janela. Começou a atravessar a sala. Então, algo o deteve. O que foi? Saiba amanhã, na segunda parte de... “Pesadelo vivo”.


06 de agosto de 2015 | N° 18249 
L. F. VERISSIMO

O bum

Vá entender. Imaginava-se que, depois dos 7 a 1, o torcedor brasileiro, desencantado, passaria a se interessar por badminton, balé aquático ou outro esporte que não envolvesse bola ou qualquer coisa vagamente esférica. O desastre na Copa de 14 não só nos convenceria de que não éramos mais o país do futebol como nos levaria a odiar o futebol. O futebol seria para nós como a História para Stephen Dedalus, aquele personagem do James Joyce: um pesadelo do qual estaríamos tentando acordar. 

Mas, não. Assimilamos a derrota até com uma certa resignação filosófica. Depois da derrota para o Uruguai em 50 correram boatos de suicídios em massa, de torcedores ateando fogo às vestes, do Bigode engolindo formicida e do Barbosa pedindo asilo numa embaixada estrangeira. Depois dos 7 a 1, não houve nada parecido, nem boatos de coisa parecida. Foi uma desilusão dolorida, não foi uma tragédia.

E aconteceu o contrário. Estão dizendo que, no futebol brasileiro, nunca houve um ano como este, o ano depois dos 7 a 1. Os estádios estão enchendo como nunca dantes, mesmo aqueles construídos para a Copa com o entendimento tácito de que depois não serviriam para mais nada, salvo show da Madonna ou luta de mulheres. 

As rendas também cresceram, em parte porque os preços para entrar nos estádios cresceram. O que causa outra peculiaridade: o principal entretenimento popular do brasileiro, à medida que atrai mais público fica menos popular. Pelo menos a TV mostra um povo cada vez mais escandinavo nos estádios. E cada vez maior.

Como o futebol servido para este público não melhorou muito desde o ano passado, sobra a especulação: foi a humilhação dos 7 a 1 que detonou esse bum como uma espécie de autodesagravo nacional ou isto é sociologia barata? De qualquer maneira, vá entender.

O BANQUINHO

Lendo sobre os milhões, bilhões e, em breve, trilhões enchendo os bolsos de corruptos que não se contentam com o que já têm, me lembrei da história – que nem sei se é verdadeira – do alpinista que escalou o Everest carregando um banquinho, além da pesada parafernália para a escalada. O alpinista chegou no cume do Everest – e subiu no banquinho. Queria a gloria da subida, e um pouquinho mais. É sempre o pouquinho mais.




06 de agosto de 2015 | N° 18249 
LUCIANO ALABARSE

O QUE VEM A SER ISSO?


Está na Bíblia, transcrevo aqui: “Estavam todos estupefatos. E, atônitos, perguntavam uns aos outros: o que vem a ser isso?”. Para os que acompanham os bastidores da vida nacional está difícil acompanhar os escândalos e ilícitos que os noticiários nos revelam diariamente sem fazer coro à perplexidade bíblica: “o que vem a ser isso?”. 

Um exemplo: o filho do presidente do TCU pratica advocacia administrativa no órgão que o pai preside, e é como se isso fosse absolutamente correto. Não é. Nenhum dos dois, porém, demonstra qualquer constrangimento. Claro: um novo descalabro logo o substituirá nas manchetes e outros desmandos nos surpreenderão.

Enquanto o dólar dispara e a bolsa despenca, Chico César grava a mais contundente, politizada e “bob dylanesca” canção brasileira dos últimos anos, a quilométrica Reis do Agronegócio. Tiago Rinaldi, o melhor cantor gaúcho de sua geração, deveria cantá-la. Deveríamos cantar juntos. Todos nós.

Agosto, mês do desgosto: em visita a Portugal, o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, admitiu que “talvez tenhamos errado no acordo ortográfico”. Enquanto do lado de lá do Atlântico não há consenso algum, desde 2010 o Brasil teve de reaprender regras de gramática, pontuações, o diabo. 

Ainda tenho a sensação de escrever errado quando não coloco acento em determinadas palavras ou hífen em expressões compostas. Nunca gostei do tal acordo – que começará a valer oficialmente em 2016. Pelo simples fato de que a língua que se fala em Portugal não é a mesma que se fala aqui. Belas, sim, mas distintas. E se a Pátria Mãe voltar atrás? Teremos de desaprender tudo de novo?

Pra não dizer que não falei de flores: aos 90 anos, depois de 35 sem publicar, James Salter nos dá um presentão: Tudo que É, romance maravilhosamente bem escrito. Sem o apelo midiático de Harper Lee, o autor contabiliza elogios de gente como Philip Roth, Susan Sontag e Saul Bellow. Leia direto. E ouça/veja Loucura, CD e DVD em que Adriana Calcanhotto canta Lupicínio. Uma bênção.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

José Dirceu: de ‘capitão do time’ do PT a símbolo de desilusão

Suspeita de enriquecimento pessoal contra ex-ministro de Lula apaga imagem de ex-guerrilheiro e põe em xeque futuro do partido

POR ALESSANDRA DUARTE, CRISTINA TARDÁGUILA E LETICIA FERNANDES
05/08/2015 6:00 / ATUALIZADO 05/08/2015 8:35

RIO - No dia 12 de dezembro de 2013, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiram ao palco do Centro de Convenções Brasil 21, em Brasília, e ouviram da plateia do 5º Congresso Nacional do PT um grito contínuo: “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro! Dirceu, guerreiro do povo brasileiro!”. 

Vinte e oito dias antes, em 15 de novembro, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu havia levantado o punho cerrado — reproduzindo o símbolo do movimento operário internacional contra os exploradores capitalistas — ao subir a rampa da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo para começar a cumprir pena no caso do mensalão. Agora, com a nova prisão, na Operação Lava-Jato, e a acusação de que dinheiro desviado da Petrobras o beneficiou pessoalmente, a solidariedade deu lugar à decepção.

Na noite da última segunda-feira, horas depois de Dirceu ser preso de forma preventiva, o PT emitiu uma nota enxuta sobre o caso. Defendeu a legalidade das operações financeiras da legenda e não fez qualquer menção ao “guerreiro do povo brasileiro”, que, em 2003, ao assumir a Casa Civil, havia sido apresentado por Lula como “o capitão do time”. A nota de agora é um sinal de afastamento cauteloso da sigla em relação a um de seus ícones.

Dirceu, por sua vez, ao entrar no carro que a Polícia Federal usara para buscá-lo em sua casa, adotou postura discreta. De terno cinza e mais grisalho, não olhou para as câmeras e não levantou o braço. Muito menos cerrou o punho. Em vez do apoio que recebera, há menos de dois anos, no congresso do PT, na noite de segunda-feira, a prisão mobilizou uma tímida vigília com apenas 15 manifestantes, reunidos em seu apoio, em frente ao Supremo Tribunal Federal. O mito do guerrilheiro, do político alinhado com bandeiras sociais e do ministro superpoderoso ruiu e insuflou a discussão sobre o futuro de seu partido.

— Dirceu teve três momentos — analisa o deputado federal Miro Teixeira (PROS-RJ). — No primeiro, tinha muito poder. Era bajulado. No segundo, o da denúncia do mensalão, teve a solidariedade dos companheiros. A partir da condenação, veio o terceiro, que foi o de não bater em quem já está preso. Agora, a nota oficial do PT, sem falar dele, é um sintoma do quarto momento: o da decepção.

GERAÇÃO DESENCANTADA

Pelos corredores de Brasília, Miro conta que são poucas as pessoas próximas a Dirceu que nos dois últimos dias teceram comentários públicos:

— Os que falam dizem apenas: “Que decepção”.

Desde 2005, quando vieram à tona as primeiras denúncias do mensalão, parte da militância e de simpatizantes do partido começou a se desiludir. Anteontem, a sensação de perda se agravou, segundo relatos colhidos pelo GLOBO entre pessoas de diferentes segmentos da sociedade.

— Dirceu era meu ídolo nos anos 1960. A decepção é gigantesca — conta a escritora e pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, com certo desconforto. — Ver um ídolo acusado de manipular a política, de comprar apoio… é uma dor que os anos 1960 não merecem.

Há também aqueles que lamentam o desfecho melancólico da carreira política de Dirceu.

— Politicamente, é o fim. Encerra o mito de maneira dolorosa e cruel. Tenho muita pena — afirma o ex-senador Pedro Simon (PMDB-RS), sobre seu ex-colega de Congresso. — Dirceu está em situação trágica. Foi algo que, aos poucos, foi se confirmando, mas a gente torcia para que não fosse verdade.

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Um terceiro grupo, mais crítico, reúne aqueles dispostos a atacar a conduta do ex-ministro e acreditam que só agora as reais ambições de Dirceu se revelaram por completo.

— Todos os jovens querem quebrar tabus, mudar o mundo. Só conhecemos o ser humano de verdade depois da meia-idade. Agora, sabemos exatamente quem é José Dirceu. Eu nasci em Leningrado e me disseram que eu morreria em Lulagrado, numa espécie de karma. Mas acho que não vou mais, não — diz a atriz Elke Maravilha, prevendo que o PT, que “subestimou a inteligência” do povo, provavelmente não voltará ao poder.

A acusação de que Dirceu teria se beneficiado pessoalmente alimenta essa reação. Em vez de comprar apoio para seu partido, como no mensalão, teria recebido recursos de propina para, entre outras coisas, reformar a casa e viajar de avião.

— Comparando-se as duas investigações, agora chama a atenção o envolvimento no plano pessoal — destaca Ayres Britto, ex-presidente do STF. — Se for confirmada a investigação, ele passa a responder por corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Sua situação se agrava muito.

UM PARTIDO SEM SEU ‘CAPITÃO’

Para Ayres Britto, ainda que Dirceu tenha sido preso preventivamente, sua situação “já respinga” e “é prejudicial para o PT”. A visão é compartilhada por parlamentares aliados e de oposição.

— O PT já está todo maculado. Isso é uma pá de terra, e não sei se a última — observa o deputado federal JarbasVasconcelos (PMDB-PE). — Está enterrada essa figura do “capitão do time”. Se ele foi expulso de campo, foi preso e voltou à prisão, o que o partido tem mais a dizer?

— O PT está afetado no limite máximo, pelo que algumas pessoas da sigla realizaram, tanto no chamado mensalão, como no caso da Petrobras. Não há mais o que afetar — completa Tarso Genro (PT), ex-governador do Rio Grande do Sul, que, no entanto, aponta uma “divulgação direcionada das investigações” contra o partido. —Tanto de verdades como de mentiras. Essa divulgação já causou o dano máximo que tinha que causar.

Roberto Jefferson, ex-deputado do PTB-RJ e um dos maiores desafetos de Dirceu — que nele despertava “os instintos mais primitivos” — avalia que o PT “perde um de seus alicerces”:

— O PT perde um ícone, um de seus mitos. Por outro lado, a prisão de Dirceu apazigua os ânimos. O povo vê que os homens mais poderosos não escapam das garras da lei.

Sobre os efeitos a longo prazo da nova prisão do ex-ministro no cenário político-eleitoral, não há consenso. Carlos Velloso, ex-ministro do Supremo, entende que “a credibilidade do PT é praticamente zero” e que o único caminho possível para a sobrevivência do partido nas próximas eleições é “um exame de consciência”:

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— O PT deve abominar esses fatos, em vez de tentar justificá-los. Há membros do partido que já defendem uma tomada de posição em favor da ética, que pode até significar uma expulsão. Já Vladimir Palmeira, um dos fundadores do PT e, hoje, filiado ao PSB, não acredita em tamanho impacto para as próximas eleições:

— Não acho que a prisão de Dirceu tenha influência para o PT nas próximas eleições. Já tinham descoberto esse tremendo esquema de corrupção na Petrobras. O estrago já está feito.


05 de agosto de 2015 | N° 18248 
MARTHA MEDEIROS

Beleza


A palavra beleza, assim, solitária, virou gíria. Vou te buscar às nove. Beleza. Semana que vem estarei em São Paulo. Beleza. Amanhã entra em cartaz o novo filme do Jorge Furtado. Beleza.

Real Beleza, quase acertou.

Poderia comentar as ótimas atuações do elenco, com destaque para a expressiva participação de Francisco Cuoco. Ou salientar a relevância da trilha sonora, que ficou a cargo de Leo Henkin. Ou registrar os ares de As Pontes de Madison que o filme invoca. Ou ainda celebrar as pausas e a economia dos diálogos sempre precisos do Jorge. Enfim, é mais um produto da grife Casa de Cinema, mas me deu vontade mesmo é de tentar definir o que é beleza, que está muito além de uma simples gíria.

Alguns consideram que o encantamento pelo belo é prova irrefutável da nossa superficialidade. Seria uma manifestação de esnobismo. Ora, é justamente o contrário. A apreciação da beleza está intimamente ligada à nossa compreensão do quanto viver é difícil, ou seja, é prova da nossa profundidade.

Quanto mais sintonizados com as dificuldades da existência, mais desfrutamos o belo.

O valor da beleza está na consciência do que é trágico.

A beleza de um quadro, de uma música, de uma decoração, de um jardim, de um poema, de uma paisagem, do perfil de uma moça ou da postura de um rapaz é apreciada justamente pelo contraste com a decrepitude que há em torno, com a decadência das formas, com a frieza dos costumes, com o apodrecimento das intenções, com o feio em nossas vidas. A beleza é o alívio para a desesperança.

Reconhecê-la é um consolo, uma confirmação de que não fomos sepultados, não capitulamos, não fomos engolidos pela descrença.

Admiro quem reconhece o belo, quem se sensibiliza com ele em vez de criticá-lo como se fosse algo dispensável. A beleza é sempre uma homenagem. Contemplá-la é um gesto de grandeza. Pobres daqueles que a desprezam, que não percebem que a crueza da humanidade é uma desordem a ser combatida, que julgam natural permanecer em constante estado de dor e não alcançam jamais o êxtase, o enlevo, o deleite que resgata nossa essência.

A beleza de uma pessoa está em tudo que ela é. Tanto em sua aparência física (quando se tem a sorte de nascer com ela) quanto – e principalmente – na beleza buscada pelo espírito como forma de resistir à hostilidade que nos cerca, à escuridão e sua opressiva nuvem negra. Escapamos do breu através de olhares, silêncios, traços, sorrisos, sutilezas, delicadezas, instantes, sintonias.

É apenas um filme e não trata de nada disso. Ou trata. Vai depender do seu olhar, do que você enxerga, de quão terna e bela é sua mirada pra vida.


05 de agosto de 2015 | N° 18248 
MOISÉS MENDES

Bravas Virgílias

Sempre que sou atendido por um servidor público, me atrevo a tentar adivinhar quanto ganha e quantas vezes é afrontado por semana. Se fosse escolher um agora, como imagem recente de servidor, eu nem escolheria um do funcionalismo estadual, com salário atrasado e sem saber o que será da suas contas e da sua vida.

Assim, de memória, eu penso logo em uma moça que me atendeu há poucos meses, na agência da Previdência Social da Travessa Mário Cinco Paus, no Centro, atrás da Secretaria de Administração.

Parecia uma namoradeira, dessas de papel machê. Mas não era contemplativa. Era uma negra com brilho na pele, sorridente, lenço colorido na cabeça, brincos para serem notados, batom vermelho. Estava na recepção. Eu buscava um documento, e ela me orientou a ir ao terceiro andar.

Não deu certo e eu voltei à portaria. Ela me ajudou e eu subi de novo. Cinco minutos depois, lá estava ela, ao meu lado. Queria saber se eu estava no lugar certo, não porque me achou caduco, mas porque sentiu que aquele era um cliente atucanado.

Aquela moça (não sei seu nome, mas ainda deve estar por ali) percebeu que eu, não muito paciencioso, poderia voltar à portaria. E foi me dar suporte. Ganhei energia para dois meses. Fui tratado como cliente VIP do Banque Privée Edmond de Rothschild.

Também gostei de ser atendido há pouco por uma moça de cabelo curto no Tudo Fácil da Borges. Ela atenderia dezenas de pessoas naquele dia. Mas estava compenetrada e feliz fazendo seu trabalho.

Às vezes, tenho a tentação de entrar em uma repartição só para esfolar o estigma jogado sobre o servidor, esse de que não atende direito, como se fosse funcionário de estatal ucraniana. Me agrada, por algum dos tantos mistérios da empatia, em especial o desprendimento de um servidor de atendimento ao público, desses de balcão, de cara a cara, sem escudos contra salivas e desaforos no rosto.

Escrevi tudo isso até aqui para dizer que a mais dedicada, a mais suave servidora pública que conheci se chama Virgília de Almeida Mangelôs, diretora do Grupo Escolar Alexandre Lisboa, lá nos anos 60, no Alegrete. Como eu me negava a entrar na aula, ficava ao seu lado, na sala da direção. Só eu e ela. Minha primeira professora.

Acho que vejo, em cada servidor, as virtudes da professora Virgília. Assim, de repente, pensei nela e em todas as professoras Virgílias destes tempos de incertezas, penúrias e bravuras.



05 de agosto de 2015 | N° 18248 
DAVID COIMBRA

Estamos salvos


Sempre ouvi dizer que, se o brasileiro discutisse política com a mesma intensidade com que discutia futebol, todos os problemas do país estariam resolvidos.

Bem...

Será que evoluímos? Será que estamos prestes a resolver todos os nossos problemas? Ou será que, agora, é o futebol que vai decair?

Tenho medo do futuro da dupla Gre-Nal.

Outra possível prova de nossa evolução está na frase célebre de Nelson Rodrigues:

“Toda unanimidade é burra”.

Isso no tempo dele. Hoje, qualquer unanimidade é impossível.

Estaremos mais inteligentes?

Brizola versus Gre-Nal

Essas coisas de agosto.

Um importante Gre-Nal estava marcado para um domingo de agosto de 1961, exatamente como está marcado para o domingo do agosto que ora vivemos.

No agosto d’antanho, o Gre-Nal não foi realizado. Suspenderam-no porque, dois dias antes, o presidente da República, Jânio Quadros, renunciara. Suponho que, então, como agora, falava-se mais de política do que de futebol.

Quem iria querer saber do veloz ponta colorado Sapiranga ou do clássico zagueiro gremista Aírton Ferreira da Silva, se quem reluzia, faiscava e coruscava era Brizola?

E a boa nova andar no campo

Entrevistei Brizola sobre aquele agosto. Deu-se, o nosso encontro, 30 anos depois, em 1991, que em 61 eu ainda não existia. Brizola era governador do Rio. Fiquei dois dias de plantão, passando calor no belíssimo Palácio das Laranjeiras, até que ele concordasse em falar.

O Brizola governador do Rio de Janeiro, aos 66 anos de idade, lembrava-se de pormenores do Brizola governador do Rio Grande do Sul, aos 36 anos de idade. Lembrava-se de como chovia com abundância em Porto Alegre quando Jânio renunciou. De como ele desconfiou que os generais ficaram sabendo da renúncia antes dele, durante o desfile militar que estava sendo realizado e que foi interrompido, segundo alegação, por causa da chuva. De como ele próprio tomou conhecimento da queda de Jânio, por meio dos seus assessores de imprensa, que foram informados pela France Presse.

O que não recordo é se Brizola creditava quaisquer dos acontecimentos a alguma solércia de agosto. Nem recordo se Brizola era supersticioso. Tinha aquilo de sempre usar camisa azul com as mangas dobradas, mas desconfio de que era mais por praticidade do que por superstição.

Não sou supersticioso, embora reconheça as coincidências. Em outro agosto brasileiro agitado, o de 1954, Getúlio se matou com um tiro no coração.

O que acontecia no futebol gaúcho de então?

O Renner interrompeu uma sequência de 25 anos de vitórias da Dupla Gre-Nal e conquistou o campeonato. No ano seguinte, a hegemonia da Dupla foi retomada.

Em 1961, também houve uma interrupção de hegemonia: o Grêmio de Foguinho era pentacampeão, o Inter ganhou naquele ano e, depois, o Grêmio encarreirou sete títulos, até 1969.

Crises e clássicos de agosto. Como será que estaremos, quando entrar setembro? A boa nova andará nos campos? Teremos plantado perdão para que o vejamos brotar? Não sei, não sei, não temos plantado perdão.


05 de agosto de 2015 | N° 18248 
PEDRO GONZAGA

O DICIONÁRIO DA VIDA


Escrever uma crônica em meio à confusão da cidade grande (algumas expressões nunca ficam antigas) passa – ao menos para mim – por fazer as pazes com seus ruídos, com o barulho dos carros, do novo bar que desconhece a hora do silêncio, com o som da televisão que chega carregando as promessas dos pastores e dos políticos, com os gritos que vêm do apartamento ao lado onde uma mulher há mais de 30 minutos dispara – sua ira não fraqueja um instante sequer – uma série de acusações (de traição a descaso) contra alguém do outro lado da linha, sem saber que ao fazê-lo se torna parte desta coluna, fato que muito provavelmente haverá de ignorar, protegida pelo anonimato da mesma cidade grande.

É a sina desse apartamento vizinho – a infelicidade doméstica, mais do que a esperada em outras habitações. Devia haver um alerta para isso na imobiliária, mas, dado os meus constantes atrasos no pagamento do condomínio, deixemos isso quieto. 

Antes vivera ali um casal que assistia a todas as partidas de futebol juntos, por um regimento que nunca fui capaz de compreender, porque ela odiava cada minuto daquilo. No meio do primeiro tempo, começavam a se xingar. Nas noites seguintes, ela chorava, ele chorava, até a próxima rodada. Um dia se separaram. Agora nossa nova inquilina brada: “Tu acha que eu sou uma imbecil?”.

Admito que deitando na cama enquanto escrevo, sinto um alívio por não ser eu a receber aquele telefonema. E então me lembro de Drummond: “As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios/ provam apenas que a vida prossegue/ e nem todos se libertaram ainda”.

A grande poesia é uma espécie de dicionário da vida. Os versos são suas estruturas básicas, seus verbetes. Se lidos depois da experiência, eles a nomeiam. Se lidos antes, clarificam-na. A etimologia do amor está num soneto de Camões, o melhor sinônimo para nostalgia, num passo de Álvaro de Campos: “O que eu sou hoje/ é terem vendido a casa/ é terem morrido todos/ é estar eu sobrevivente a mim-mesmo/ como um fósforo frio”.

Ao terminar a crônica, a ligação foi encerrada, parece que a mulher chora. Mas pode ser um riso. Os ruídos urbanos são sempre confusos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015



04 de agosto de 2015 | N° 18247 
CARPINEJAR

A minha primeira carteira de motorista

Tirei a minha primeira carta de motorista dentro de um supermercado.

Tinha cinco anos. Já não entrava mais no banquinho de bebê do carrinho, muito menos me equilibrava na grade de trás, junto com os produtos.

A mãe precisava me ocupar. Queria que não incomodasse para comprar salgadinho, bolacha recheada, sorvete e refrigerante. Ela sabia o perigo que era qualquer criança de pé e sozinha, com a possibilidade de mexer nas prateleiras com liberdade.

Lembro claramente quando, numa tardezinha de sexta-feira, ela me ordenou:

– Hoje, você leva o carrinho. Toma! – Eu?

O mercado estava lotado, véspera de Carnaval.

Não explicou como se manobrava. Não me deu aula de direção. Não treinou balizas. Não realizei nenhum psicotécnico, exame médico e prova teórica.

Entregou o veículo com displicência, avaliando o ato como fácil e instintivo.

O “toma” me marcou definitivamente. Eu merecia um tutorial. Afinal, o que há de gente que nem consegue pilotar um guarda-chuva e vive batendo em quem está se protegendo nas marquises.

De uma hora para outra, tornei-me o responsável pelas compras da casa. Não lia e nem escrevia, e já dirigia carrinho de supermercado.

Aquilo me envaideceu, meu primeiro grande passo de adulto, e também me enervou, talvez fosse o meu primeiro grande tropeço de adulto.

Assumi o comando da barra com as duas mãos, tremendo, suando barbaridade, mal enxergava um palmo à minha frente.

Cauteloso com a função, comecei devagarinho, a 0,01 km/h, mas ela me pediu que andasse mais rápido pois não contava com a noite inteira.

Foi quando colidi com o enorme traseiro floreado de uma senhora selecionando verduras.

– Uiii! Também foi a primeira vez que fiz uma mulher gemer na vida.

– Olhe por onde você anda, menino! – ela protestou.

Em vez de me apoiar, a mãe engrossou o coro:

– Mais atenção para não atropelar as pessoas, senão tiro o carrinho de você.

Eu não havia pedido para dirigir, mas a arte materna consistia em transformar suas imposições em nossas escolhas.

Segui por mais quatro corredores, já rezava para que aquilo terminasse logo, que a listinha encurtasse de repente, que a mãe não entendesse mais sua letra.

Na grande quina das bebidas com os itens de higiene, realizei uma curva muito fechada e não vi a pilha de galões de clorofina em promoção.

Dei no meio: garrafas voaram para todos os lados. Criei um lago de água sanitária na entrada dos caixas.

Lavei o súper e instalei um pânico de rodos, panos e vassouras entre os empacotadores.

O cheiro da água sanitária vem junto com a lembrança. Inspiro com força até umedecer os olhos, e recordo de cada detalhe desse entardecer emocionante, em que comprei minha primeira carta de motorista dentro de um supermercado – e não saiu barato para o Zaffari.