segunda-feira, 19 de outubro de 2009


FERNANDO DE BARROS E SILVA

Tiro ao alvo

SÃO PAULO - Alvejado no ar, o helicóptero explode ao tentar o pouso e dois policiais morrem, carbonizados. Há feridos, um em estado muito grave. Pela primeira vez, o tráfico derruba um helicóptero da PM no Rio -mais uma barreira foi transposta pelo crime organizado.

A polícia mobiliza entre 2.000 e 3.000 homens, recebidos com barricadas de pneus em chamas. Uma escola pública fica parcialmente destruída pelo fogo e oito ônibus são incendiados pela cidade para desviar a atenção do Morro dos Macacos, na zona norte.

O saldo do sábado é de 15 mortos e oito feridos. Ontem, novos confrontos na Favela do Jacarezinho resultaram em mais dois cadáveres.

Alguém poderia dizer que a Olimpíada no Rio já começou. Pela prova de tiro ao alvo. Mas não há, diante dessas cenas, espaço para gracejos, tampouco para o discurso triunfalista de duas semanas atrás. Se isso não for guerra civil, qual é o nome?

Ainda atônito, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, tentava circunscrever a barbárie: "Isso não é um problema do Rio. Isso é o problema de uma região, está acontecendo num ponto muito específico da cidade".

Parecia fala para inglês ver, como se fosse dirigida a algum fantasma do COI em Copenhague, e não aos moradores, exaustos ou anestesiados, de uma cidade que vive refém de uma rotina de terror intolerável.

A questão, aqui, não é saber se o Rio poderá sediar uma Olimpíada. Vai sediar, na base da maquiagem midiático-militar das suas fraturas expostas. A questão é saber se um dia ainda seremos um país decente.

Até onde a vista alcança, o conflito do tráfico no Rio ficou insolúvel. Sérgio Cabral parece enxugar gelo com seu bangue-bangue após décadas de favelização e omissões criminosas do Estado. Haverá dinheiro e energia social suficientes para reverter a dinâmica histórica de desmanche da vida civilizada?

Por ora, vimos só a vingança da vida como ela é sobre o festival de ilusões protagonizado por Lula e sua claque.


19 de outubro de 2009 | N° 16129
KLEDIR RAMIL


A dona do mundo

No futuro haverá apenas uma empresa. Com essa tendência de fusões que vem acontecendo, onde as grandes vão engolindo as pequenas, estão sobrando cada vez menos empresas. Em breve, teremos só meia dúzia.

Todos os automóveis serão produzidos pela General Motors, ou por alguma China Motors, se a GM não conseguir driblar a crise financeira atual. Para o consumidor não faz diferença, pois os carros já estão superparecidos uns com os outros.

Alem do design, todos são pintados com a mesma cor: o cinza metálico. Ou uma variante entre o preto e o cinza claro. Você olha o trânsito de uma grande cidade e o único carro colorido, com vida, é o táxi.

Os bancos todos estarão fundidos em torno do JPMorgan. Pensando bem, acho que todos os bancos terão sido engolidos pelo HSBC, cujo nome traz a sigla de HongKong and Shanghai Banking Corporation. Informática e internet será assunto da GoogleYahooMicrosoft.

Tudo o que depender de rede e microchips será propriedade do Bill Gates. Ou do Yang. A indústria do lazer, comunicação e entretenimento será comandada pela TimeWarnerAolNbcUniversalDisneyBmg. Por fim, essa meia dúzia de empresas será comprada pela mais forte economicamente.

Teremos então apenas uma empresa no mundo. Seremos todos empregados e dependentes dela. Os governos deixarão de fazer sentido, pois quem vai decidir o que pode e o que não pode será o CEO da empresa master.

Será o fim da livre iniciativa, da sociedade competitiva, já que uma empresa terá finalmente vencido. Teremos chegado ao estágio mais avançado do sistema capitalista, que é o comunismo no seu estado puro.

Não haverá mais propriedade privada, pois a tal empresa terá comprado todos os imóveis. E se ela comprar tudo o que existe, obviamente será a dona do mundo. Quem quiser entrar, vai ter que pagar ingresso.

É o que vai acontecer quando alguém quiser ter um filho, vai ter que pagar taxa de natalidade. Em contrapartida, não vamos precisar mais nos preocupar com emprego, saúde e educação. Tudo será bancado pela empresa.

Todo mundo vai falar inglês. Outras línguas mortas serão estudadas apenas como curiosidade. Ou será que a língua oficial será o mandarim?

É possível, esqueci que a loja que mais cresce no mundo é a ChinatownStore, com seus departamentos ao ar livre. Visível em Manhattan, na Canal Street, e nos camelódromos do mundo inteiro. Já pensou?


19 de outubro de 2009 | N° 16129
PAULO SANT’ANA


Dou explicações

Estou recebendo e-mails que estranham esta coluna ter publicado no sábado duas manifestações rudes e enérgicas de pessoas contra mim.

Estranhar por quê? Tantas e tantas vezes já publiquei elogios a mim dirigidos, como poderia agora sonegar as críticas assacadas contra este colunista?

Deixei-as rolar portanto na coluna de sábado, permiti assim aos leitores duas situações: 1) a de que soubessem que há, por mínima que seja, oposição a alguma coisa que eu escreva; 2) que os leitores lessem as duas críticas que recebi e avaliassem a procedência delas.

Eu faço um jornalismo diferente de todos os outros jornalistas. Esperem, não me julguem apressadamente por esta frase anterior, ela não contém nenhuma vaidade ou arrogância.

É que eu faço nesta coluna um jornalismo intimista, falo muito em mim, falo no que está me acontecendo e, principalmente, quando escrevo minhas colunas ponho nelas aquilo exatamente o que estou sentindo naquele instante em que estou no computador.

E sendo assim, como não reviso, não copidesco meus pensamentos, senão a escrita, corro o risco de ser contrariado em minhas opiniões e impressões.

Natural que eu tenha leitor que se oponha ao que eu escrevo. Vaidosamente digo que são mínimas as oposições, mas sempre existe alguma.

Então eu botei duas oposições a mim, transcritas dos originais que recebi, sem a mudança ou supressão sequer de qualquer vírgula, na minha coluna de sábado passado.

Nada de anormal nem de surpreendente, confesso que senti as pauladas que levei, mas até mesmo para aliviar-me da dor, pasmem, resolvi publicar os dois ataques contra mim.

Eu falo em alívio porque guardar dois e-mails ofensivos como aqueles na gaveta ou jogá-los no lixo significa alguma forma de pusilanimidade. Assim não, fiquei em paz com minha consciência, publiquei as duas agressões contra mim ... e fosse o que Deus quisesse!

Além de tudo devem ter ficado recompensados os dois missivistas: tiveram suas mensagens lidas pelo Rio Grande inteiro. Devem ter babado de prazer sádico, tendo feito o colunista dobrar a sua cerviz, humilhar-se e publicar os tapas no rosto que recebeu.

Também tem outro aspecto: nós jornalistas ficamos imperialmente dando nossas opiniões a respeito dos fatos, parece que nos adonamos da realidade e do cotidiano e no dia seguinte saboreamos nossas opiniões impressas nos jornais.

Então sempre é bom o exercício democrático da resposta e da reação ao que escrevemos.

Foi assim que decidi publicar os dois e-mails de sábado, nunca é demasiada ou incômoda uma dose de humildade.

No caso da reação da senhora Kytti Kroeff às críticas que fiz ao seu irmão, o presidente do Grêmio, Duda Kroeff, quero também dizer que não retiro as censuras que escrevi ao dirigente máximo gremista.

Mas quero apenas acrescentar que fiz essas críticas ao presidente gremista e aos dirigentes que o assessoram no futebol – e ao treinador gremista Paulo Autuori – movido por violenta emoção: o Grêmio tinha perdido naquele dia para o Corínthians, era mais uma derrota fora de casa, quando o Grêmio já jogou 29 partidas no Brasileirão e só ganhou um jogo fora, contra o Náutico, entre os 15 jogos em que atuou fora do Olímpico, um absurdo!

Digo mais, esta marca dos jogos fora é inadmissível até mesmo para um clube em dificuldades financeiras, caso do Grêmio. Tinha que ter ganho no mínimo cinco jogos fora, é inaceitável que não o tenha feito.

Por isso e pela minha violenta emoção é que critiquei o presidente do Grêmio.

domingo, 18 de outubro de 2009



DANUZA LEÃO

Só às vezes

Difícil a tal coerência, quando se trata de nosso sono, da nossa vida. Mas é preciso pensar no bem do país
GENTE LUTA pelas conquistas sociais, pensa no bem geral, na justiça entre os homens -mas até que ponto? Até onde esses ideais não interferem em nossos interesses pessoais, claro.

Numa eleição você escolheu seu candidato por razões precisas: entre outras, ele prometeu lutar para que as mulheres tivessem o direito de ficar quatro meses em casa depois do parto.

Agora, seja sincera e diga o que sente, no fundo do coração, quando sua empregada, que você adora e trata tão bem de suas crianças, comunica que está grávida.

Fica feliz ou pensa, lá no fundo, que ela não precisava inventar esse filho logo agora? (O bebê vai nascer nos primeiros dias de dezembro, deixando você sozinha no Natal, no Ano Novo e no Carnaval, e ainda por cima nas férias).

Quando você vai a uma festa daquelas, no sábado, e domingo às 9h da manhã, bem na porta de sua casa, estaciona um caminhão de som lutando pelos direitos dos deficientes, com direito a muitos discursos e muito samba, dá para dizer o que passa pela sua cabeça ou é melhor ficar calada, para não ser tachada de nazista?

Num país com tantas desigualdades sociais, quem pode, como você, comprar ingresso para ver seu artista predileto numa casa de shows é uma pessoa privilegiada; e nada mais digno de aplausos do que o projeto cultural que prometeu instalar em alguns pontos da cidade pequenos palcos onde aos sábados, domingos e feriados cantores se apresentarão.

Um desses palcos é a 50 metros de sua casa, e todo fim de semana, enquanto a galera vibra, canta e dança, você, que trabalha a semana inteira e tudo o que queria era silêncio para ler um livro em paz, e que votou nesse candidato exatamente porque ele prometeu levar alegria às ruas, amaldiçoa o evento ou fica feliz, vendo o povo contente nas ruas?

A Linha Vermelha é uma maravilha. Uma maravilha, sim, e palmas para tudo que melhora nossa cidade: palmas, bem entendido, quando você vai para o aeroporto, toda feliz, pegar seu avião para Nova York, ou rumo a Petrópolis, passar o fim de semana no sítio.

Mas num belo dia de sol, você percebe que não pode ir à praia porque a Linha Vermelha -oh, surpresa- tem uma mão que vai, mas também tem uma que vem, o que significa que na areia não vai encontrar nem 50 cm de espaço para se sentar -e deitar, nem pensar; você pensa o quê? Melhor nem falar.

Aquela praia quase particular pertinho de Angra, de dificílimo acesso e pela qual você pagou uma fortuna, parecia toda sua; mas um dia aparecem cinco pessoas e armam uma barraca a 500 metros de sua casa.

Ninguém jogando futebol, fazendo churrasco, ou tomando banho de mar pelado, todos na mais perfeita paz; e você, que votou no PV achando que o mar é um bem de todos, começa a pensar seriamente em mandar subir uma cerca eletrificada para desfrutar do paraíso sozinho com seus amigos. Oh, vida.

Difícil a tal coerência, quando se trata de nosso sono, da nossa casa, dos nossos filhos, da nossa vida. Mas é preciso pensar no bem do país, no bem dos que têm muito menos do que você; será pedir muito?

Naquela manhã em que o samba impediu você de dormir, quanta gente se divertiu -e não é bom saber disso? E sua babá, que está feliz porque vai ter um filho; puxe pela memória e lembre como você ficou, quando soube que ia ter o seu.

Mesmo que você não seja uma Madre Teresa de Calcutá, deixar a bondade vencer a maldade que temos juntinhas, no mesmo coração, faz bem. Tente, pelo menos às vezes.

danuza.leao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! O Zé Mayer derruba todas

E tem uma amiga que vai mudar o nome pra Helena pra ver se ele se anima

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Continuo com a minha série Os Predestinados! Uma amiga levou o pai no geriatra e adivinha o nome dele? José Carlos Aquino VELHO! E o superintendente da Pirelli Pneus?

Carlos REDONDO! E o delegado de entorpecentes de Campinas? APOCALYPSE JOIA! E um amigo gaúcho tem um urologista chamado Giorgio RABOLINI! É o que eu digo: não é vocação, é predestinação!

E a última da Igreja Universal: Edir Macedo é o nosso pastor e NADA NOS SOBRARÁ! E sabe o que significa ENEM? Eu Não Estudo Mais! ENEM eu! Rarará! E o Zé Mayer, hein? Toda novela ele já entra derrubando todas. Eu vou escrever a biografia do Zé Mayer, o comedor.

Na casa do Zé Mayer nem o azeite é virgem! E o Zé Mayer deu palestra pra um auditório lotado e espirrou.

Foram registrados 42 orgasmos. O Zé Mayer pra dormir não conta carneirinhos, conta Helenas. E Deus disse: "Faça-se a luz!". E o Zé Mayer gritou: "Deixa essa porra desligada que eu tô transando".

E aí o homem falou pra esposa: "O Zé Mayer disse que transou com todas as mulheres do prédio, menos uma". E a mulher: "Então deve ser a nojentinha do sexto andar". Rarará! E tem uma amiga que vai mudar o nome pra Helena.

Pra ver se o Zé Mayer se anima! E o Zelaya ganhou um prêmio.

Prêmio NONDURAS 2009! E Honduras vai levar o Zelaya pra Copa.

Porque ele é especialista em embaixada. Vai ficar fazendo embaixadinhas. A Embaixada da Mãe Joana. La Embajada de La Madre Juana!

E o lançamento dos bonecos Obama e Michelle? O Brasil também podia lançar. Boneca Marta, já vem com botox! Boneco Serra versão Drácula com gripe. E a dona Marisa, uma Hello Kitty. Porque ela é uma boneca muda. Aliás, eu acho que a dona Marisa não é muda, é ATÔNITA! Ficar ouvindo o Lula falar! O boneco mais caro é o do Sarney, vem com a família inteira. E o mais barato é o do Lula; vem faltando um dedo. Um dedo e um cérebro. Rarará!

E adorei o senador Mão Santa: "Não tem voo aéreo internacional em Teresina". E a pergunta num programa de rádio da Bahia: "Como é o nome do tráfego aéreo intenso entre duas cidades?". E o baiano: "SALVADOR!". Rarará! Adorei esse baiano!

É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!".

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. ENEM nunca mais! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

sábado, 17 de outubro de 2009



Os estranhos do bem

Pouco lembro do apartamento onde passei minha infância, mas não esqueci nada da rua onde morava, das casas vizinhas, do quarteirão inteiro onde eu brincava desde o início da tarde até o início da noite e, por vezes, inclusive à noite.

Naquela época não havia medo de assaltos, de atropelamentos, de sequestros relâmpagos: a gente pegava a bicicleta e saía com a maior liberdade, sem pânico nem neuras, o oposto do que acontece hoje, quando as crianças só podem brincar dentro do prédio, em prisão domiciliar. Porém, mesmo com liberdade, havia um perigo rondando.

Você deve lembrar o que nossos pais buzinavam em nossos ouvidos a cada vez que abríamos a porta de casa para sair: Não dê conversa a estranhos. Mais uma vez, é o oposto do que acontece hoje. Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos.

Quando menina, eu me perguntava: o que será que eles (os adultos) querem dizer com “estranho”? Estranho, pra mim, era um cara que usasse óculos escuros à noite, tivesse um bruta cicatriz ao lado da orelha e uma faca ensanguentada entre os dentes. Mas estranho, pra eles, ia além: era qualquer um que a gente não conhecesse. Podia ser o pároco do bairro: um estranho. Corra!

Assim que tive idade para diferenciar conhecidos e estranhos, acolhi ambos. De um lado, me apegava às amigas do colégio, todas falando igual, vestindo igual, pensando igual e usando o mesmo cabelo: nada como reforçar nossa identidade. De outro, queria saber como era viver em outro país, ter experiências diferentes das minhas, outros costumes. Os livros e o cinema alimentavam essa minha curiosidade, mas não bastava.

Então me inscrevi num programa de intercâmbio de correspondências e acabei fazendo amizade com a Julie, que morava no interior da Inglaterra, com o Carlos, que morava no México, e com a Michelle, que morava na Nova Zelândia.

Trocávamos fotos, falávamos da nossa vida pessoal, contávamos segredos que atravessavam oceanos, tudo em cartas escritas ora em inglês, ora em espanhol, e quando ninguém se entendia, desenhava-se. O que foi feito deles? Não faço a mínima ideia. Mas foram esses estranhos que ampliaram um pouco os meus horizontes e deram sabor de aventura à minha adolescência.

Aí a gente cresce e inventam um troço chamado computador. E os pais somos nós! Conscientes das nossas responsabilidades, batemos à porta do quarto das crianças e damos sequência à tradição, alertando-os: “Não dê conversa a estranhos”.

Quá, quá, quá.

Afora as orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados em geral, é preciso relaxar: ninguém com mais de 10 anos evita estranhos, ao contrário, eles são buscados freneticamente no MSN, no Facebook, no Twitter, no Orkut, onde todos se expõem, transformando o mundo num gigantesco albergue coletivo.

Uma versão ligeiramente mais abrangente e instantânea do que aquele meu programa de correspondência internacional.

Jamais pedi atestado de bons antecedentes para quem não conheço. Estranho é mau? Estranho é pior do que a gente? Se devemos ter vigilância com nossos filhos - e devemos mesmo - é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes, e provavelmente jamais verão.

Dar conversa a estranhos não significa dar o endereço, o telefone e a senha do banco. Pode ser apenas um bate-papo divertido. E só pra lembrar: estranhos, somos todos.


18 de outubro de 2009 | N° 16128
MOACYR SCLIAR


O voo como martírio

Com a expansão da classe média e a possibilidade de conseguir passagens a preços acessíveis, cada vez mais brasileiros estão viajando de avião.

E isto muda aquilo que poderíamos chamar de “a cultura da viagem aérea”. No passado, essa cultura caracterizava-se, antes de mais nada, por um refinamento frequentemente exagerado. Os homens viajavam de terno e gravata, as mulheres com vestidos elegantes.

Lautas refeições, muitas vezes acompanhadas de vinhos finos (não chegavam ao Romanée Conti, mas quase), eram servidas. Tudo isto custava muito caro, e o resultado é que as aeronaves não raro decolavam semi-vazias. Numa viagem para o Exterior a gente podia pegar uma fila inteira de poltronas e espichar-se nela como numa cama. Melhor que a primeira classe.

Isto acabou. Os aviões estão cheios, o espaço para os passageiros, como observou tempos atrás o ministro Nelson Jobim, não é dos maiores. O que até seria suportável. Mas há situações, criadas por algumas pessoas, que transformam o voo em verdadeiro martírio.

A primeira situação é representada pelo cara que entra carregando uma gigantesca mochila, maletas, pacotes. Ele para no corredor e vira-se de um lado para outro em busca de seu lugar. E cada vez que o faz golpeia-nos com sua mochila que, para causar mais dano, vem equipada com uma dura fivela de metal.

Quando o passageiro finalmente consegue sentar, jazemos em nossos bancos, nocauteados - e por uma mochila, o que é um vexame maior ainda.

O segundo caso é o do passageiro, ou da passageira, praticantes daquilo que poderíamos chamar de “o imperialismo do compartimento de bagagem”. Essas pessoas simplesmente monopolizam todo o acanhado espaço para este fim destinado, e não hesitam para isso em rechaçar furiosamente a bagagem, ou o casaco, ou qualquer outra coisa pertencente aos demais passageiros.

O terceiro caso é o passageiro transbordante. Ele transborda de sua poltrona, às vezes por causa de seu volume corporal, mas não raro por simples má educação – e aí, pobre de quem senta ao lado.

No quarto caso temos o passageiro, ou a passageira, que falam alto. Há variantes. Por exemplo: um grupo que vai fazer uma excursão e está excitadíssimo com a viagem. Um time qualquer (desde que não tenha sido derrotado no dia anterior). Namorados. Pessoas que, para sua surpresa, encontram-se no voo.

Pode acontecer que estes interlocutores estejam separados, um em cada ponta da aeronave. Isto não impedirá o diálogo, que aí se realizará aos gritos. Pouco importa que se trate de um longo voo noturno, com passageiros querendo dormir. A conversa tem precedência sobre tudo. Às vezes não é só conversa. Já viajei ao lado de um cara que cantava. Cantava alto, e cantava horrivelmente mal, mas com um entusiasmo de tenor de ópera.

E depois temos o passageiro que, sentado junto à janela, quer ir ao banheiro a cada cinco minutos, e faz os demais se levantarem. Não adianta sugerir que ele sente na poltrona do corredor. Não, ele gosta da janela. E gosta de levantar. Azar dos outros.

Se Santos Dumont tivesse antecipado todas estas situações provavelmente não teria inventado o avião. Mas agora é tarde. Que saudades dos tempos em que se viajava a cavalo.

Agradeço as mensagens de Alberto Stein, Mauro Duarte, Ronaldo Sindermann, Regis Nestrovski, Marco Aurelio Baggio, Marino Boeira, Rafael Anschau, Gabriel Ramos Paglioli, Matt McCormick, P.Prates, Vera Silveira, Renato Lampert. Gente culta e atenta!

Já viajei ao lado de um cara que cantava. Cantava alto, e cantava horrivelmente mal, mas com um entusiasmo de tenor de ópera.


18 de outubro de 2009 | N° 16128
PAULO SANT’ANA


Aurora e crepúsculo

Esses dias, um amigo meu se recusou a ir tomar um cafezinho no bar e fumar um cigarro no fumódromo em minha companhia, alegando que tinha muito que fazer e não podia me dar esse prazer.

Eu, então, abandonado, gritei a plenos pulmões aqui na sala: “Como é chato ser dependente de um amigo!”.

Examinando bem a frase que gritei, chegaremos à conclusão de que ela encerra uma grande verdade: a gente se torna refém de todas as pessoas que ama ou que estima.

E tem o outro lado da coisa: quando se estima ou ama outra pessoa, exige-se tudo dela, comer churrasco conosco, fumar no fumódromo conosco, ir até o bar ou bistrô ou cinema conosco, enfim queremos tomar conta do ser amado ou estimado.

Eu fiquei fulo da cara quando meu amigo me disse que não podia ir até o fumódromo comigo.

Quando a gente ama ou estima alguém, acha que esse alguém tem de estar sempre à nossa disposição.

E não é assim, para a pessoa a quem amamos, somos apenas uma parte de sua vida. Parte importante, mas não única.

Uma vez, soube que no horóscopo chinês os signos são representados por animais. Gêmeos, por exemplo, no horóscopo chinês, é cachorro, Sagitário é cavalo.

Um dia, eu encontrei uma mulher casada com um amigo meu que era cavalo no horóscopo chinês.

Essa senhora era muito ciumenta de seu marido, o tal meu amigo.

E eu a aconselhava a não ser ciumenta, a não querer prender seu marido dentro de casa, não obrigá-lo a sempre estar ao lado dela.

Olhem o que eu disse a ela:

– É bobagem você querer dominá-lo e tê-lo sempre junto de si. Você tem de fazer exatamente o contrário. Porque ele é cavalo no horóscopo chinês e sabe o que diz o horóscopo chinês para os que são do signo de cavalo? Diz o seguinte: “Se queres prendê-lo, solta-lhe as rédeas”.

Os chineses são sábios, eles sabem que quanto mais você oprimir seu parceiro na relação, mais ele se cansará de você.

Solte-o a galopar nas campinas repletas de fêmeas equinas.

Cá para nós, se você tem um marido – ou uma mulher –, se você tem um(a) namorado(a) e sabe que ele vem mantendo alguns namoriscos de pequenas consequências, cá para nós, que ninguém nos ouça, faça que não vê, não dê pelota, deixa ele seguir com seu retoço externo, que em seguida ele cansa e volta para seu remanso.

Não se pode querer tomar conta total de quem se ama ou estima. Pode e deve acarinhá-lo, mas não o sufoque.

Cá para nós, se amamos profundamente alguém, até é bom que esse nosso amor circule pelo mundo e mantenha estreitas relações de amizade com outras pessoas. Quando voltar de suas relações de amizade, será muito mais afetivo e estuante de amor conosco.

E, lembre-se bem, se você ama ou estima alguém, tenha sempre tolerância com ele. A tolerância é fundamental em qualquer relação amorosa ou de amizade. Está totalmente incapacitado para amar ou ser amigo quem não dedica tolerância à pessoa amada ou estimada.

A tolerância é a aurora de qualquer relação, a intolerância é o crepúsculo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009



14 de outubro de 2009 | N° 16124
MARTHA MEDEIROS


Mulheres honestas

Foi apenas em 2005 que aprovaram por unanimidade a exclusão do termo “mulher honesta” do Código Penal. Antes disso, a definição de um crime sexual era: “Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”. Em bom português, se a mulher era “honesta” (virgem, casada, pudica, casta), o violador ia para a cadeia, mas se a mulher fosse “desonesta” (promíscua, livre, notívaga, festeira), o cara era absolvido e ainda recebia uns tapinhas nas costas.

Hoje, a violência sexual contra qualquer mulher, tenha a profissão ou os hábitos que tiver, é punida de forma igual. Reparem: a diferenciação foi suprimida apenas há quatro anos! Antes disso, a violência sexual, ao menos nos termos da lei, era um castigo merecido para a mulher que não andasse na linha.

Algumas entidades religiosas lamentam até hoje que não haja mais a distinção entre mulher honesta e desonesta, e agora surge um livro para acabar com o restinho de fé dos beatos: o mulherio inteiro fez um pacto com o demo, a julgar pelo candidato a best-seller Why Woman Have Sex: understanding sexual motivations from adventure to revange (“Por que as mulheres fazem sexo: compreendendo suas motivações, desde aventura até vingança”), dos pesquisadores Cindy Meston e David Buss.

Eles entrevistaram mais de mil mulheres entre 18 e 87 anos e descobriram 237 razões diferentes para as mulheres praticarem o bem-bom. Se eu, que não levo uma auréola sobre a cabeça, fiquei espantada com a variedade de motivos, imagine o pessoal do Vaticano e seus discípulos: devem ter desmaiado, acordado e desmaiado de novo.

237 razões diferentes para ir para a cama? Os homens, segundo uma divertida crônica do escritor Marcelo Carneiro da Cunha, julgavam que só existisse uma nobilíssima razão para a gente cometer essa barbaridade: o amor. A selvageria e a cachorrice sempre foram monopólio deles. Que história é essa de a gente ter outro motivo além de estar enfeitiçada pelo príncipe encantado?

Bom, eu consigo imaginar mais umas quatro ou cinco razões para as mulheres curtirem uma lua de mel por algumas horas com um quase desconhecido, além do indiscutível e acalantado amor. Elas (não eu!) podem estar querendo um filho. Podem estar dando o troco no marido galinha. Podem achar que é hora de serem promovidas. Podem estar testando seu poder de sedução. Listei quatro. Vamos ao quinto motivo: elas podem simplesmente estar com vontade, já que sexo é bom. Reparem que usei um adjetivo discreto.

Cinco, mais o amor, somam seis razões, nem todas louváveis. Sobram 231 razões que, na minha santa ingenuidade, não consigo imaginar, mas o livro entrega: elas (não eu!) transam para garantir uma nota alta na prova, para queimar calorias, para ganhar presentes, para agradecer uma carona, para se livrar da enxaqueca, para se exibir para as amigas, para estrear uma lingerie nova, por piedade, pra cumprir promessa, e acredite, transam até em troca de favores domésticos: sou tua, desde que você se encarregue da louça no domingo.

Acabo de listar mais 10 razões, todas igualmente menos elevadas que o amor, e ainda restam inacreditáveis 221 que minha debilitada inspiração não consegue adivinhar. Só sei que, até quatro anos atrás, essas moças entre 18 e 87 anos estariam presas. Hoje estão aí, livres, leves, soltas e esbanjando criatividade.

Bem nesta quarta-feira a gente sai um pouqinho de Lisboa para o interior de Portugal. Dias de céu azul, mar calmo e um sol de verão. Uma linda quarta-feira para todos nós.


14 de outubro de 2009 | N° 16124
DIANA CORSO


Um filme up sobre uma época down

Para os velhos, o rugido da vida cotidiana diminuiu, talvez estejam mais surdos para ele por ficarem mais atentos aos ruídos internos. O corpo fica barulhento, como uma máquina antiga. Mas há também o barulho das lembranças, que chamam alto: eles vivem como se cada objeto fosse dar um discurso, cada lugar contasse a história de tantos outros onde já se esteve. Velhos ouvem vozes, no bom sentido. Muitas vezes os velhos distraem-se do que acontece fora porque têm muito para ouvir por dentro.

Up, o filme de animação, é uma história de amor e de balanço da vida, o fim da jornada de um casal que sonhou com aventuras que não viveu. Carl Fredricksen, 78 anos, encerrava uma inglória carreira de vendedor de balões e amargava as saudades da esposa perdida.

Sentia-se em dívida com a amada, por isso transformou a velha casa em um dirigível, amarrando nela milhares de balões, e rumou voando nesse improvável veículo para o lugar com o qual o casal sonhara: um paraíso natural na América do Sul, onde um explorador que eles admiravam fizera descobertas.

Por engano foi junto um escoteiro gordinho, que o importunava tentando fazer-lhe favores. É a partir daí que aquele senhor ranzinza começa a incorporar a figura do avô. Em espanhol existe uma palavra que nos faz falta em português: abuelidad, similar ao paternidad. Trata-se de tornar-se avô, que é uma forma leve de conviver com os descendentes, na qual só se fica com a parte boa. Afinal, algo tem que ser bom na velhice, a melhor idade para sentir dores e tomar remédios.

No seu destino, Carl encontra o tal explorador no fim da vida, ainda obcecado pelo sucesso e pela carreira. Ambos velhos perseguiam uma pendência, mas ele levava outra bagagem, simbolizada pela casa cheia de lembranças da esposa e o escoteiro.

Ele descobriu que sequer o grande explorador sentia-se em paz com as suas realizações, que dirá ele, vendedor de balões. Mas Carl possuía melhor acervo: uma história de amor para lembrar e uma criança chata para aprender a se vincular. Essa história de idosos não parece assunto para crianças, mas convém lembrar que a vida dos pequenos muitas vezes é mais próxima dos velhos do que a dos adultos.

Os pais estão tontos da correria da vida, aparando golpes de todos os lados, e não têm tempo de escutar seu ruído interno, nem a voz baixa das crianças, estão exaustos. Estes veem no velho um espantalho assustador do que lhes espera na próxima estação, pena. É um filme para todas as idades, mas são os mais crescidos que vão aprender mais.


14 de outubro de 2009 | N° 16124
PAULO SANT’ANA


Canjas medicinais

Quando eu por acaso chego num bar noturno para dar uma canja aos músicos, canto para valer.

E aquele público todo me olhando, me ovacionando, alguns dançam ou dançaram, é chegado o momento em que falo com o público e digo sempre a mesma frase: “Tenham a certeza, meus queridos, de que aqui está muito melhor que lá na minha casa!”.

O pessoal cai na gargalhada.

Quando saio todas as noites do trabalho aqui de Zero Hora, muitos me perguntam:

– Sant’Ana, aonde vais agora?

Respondo imediatamente:

– Não sei, sinceramente, aonde eu vou. O que sei é o lugar para onde não vou: minha casa.

Outro dia, um amigo meu foi ao cardiologista, acompanhado da mulher.

O médico disse que estava ali com os exames clínicos do meu amigo, que estava tudo globalmente bem, mas havia um probleminha.

E que, por cautela, disse o médico, olhando para a mulher feia e gorda do meu amigo, “o senhor não pode ter emoções fortes, sexo só pode fazer em casa”.

E o Guerrinha foi fazer os exames anuais de check-up na central de atendimento médico dos funcionários, aqui na RBS.

O Guerrinha levou para os médicos os exames de fezes, urina, sangue, batimentos cardíacos etc.

Um dos médicos olhou para o Guerrinha e disse:

– Como o senhor está bem!

– Foi também o que outro médico disse a meu respeito.

– Quantos anos o senhor tem?

– 51.

– Muito bem, então vou lhe encaminhar para a esteira.

– Nada de esteira. Não aceito fazer esteira. Por que vocês, médicos, me dizem todos que estou bem mas ainda assim querem me mandar para a esteira? Recuso-me a fazer esteira. Porque, depois da esteira, eu já sei para onde vocês vão me mandar: a esteira é o passaporte para o crematório.

A loira andava a 140 quilômetros por hora na rodovia e foi atacada pelo soldado do trânsito.

O soldado pediu carteiras de motorista e identidade.

A loira disse:

– O senhor pode pegar aí no porta-luvas, só que vai encontrar junto seis quilos de cocaína.

– Cocaína?

– Sim e tem mais, seu guarda, lá no porta-malas há um cadáver de um homem que atropelei na estrada.

O soldado achou que cocaína no porta-luvas e cadáver no porta-malas tornavam o caso muito grave e foi chamar o capitão.

O capitão aproximou-se da loira, que ainda estava no volante, e pediu os documentos:

– Carteiras de motorista e identidade, por favor.

A loira mostrou tranquilamente os documentos, não havia cocaína nenhuma no porta-luvas.

O capitão foi lá vistoriar o porta-malas e não achou nada, nem sinal do cadáver.

“Como é que a senhora disse para o meu soldado que havia cocaína no porta-luvas e um cadáver no porta malas?”, indagou o capitão.

E a loira:

– Vai ver que esse mentiroso do seu soldado vai lhe dizer que eu andava a 140 quilômetros por hora.


14 de outubro de 2009 | N° 16124
MARTHA MEDEIROS


Mulheres honestas

Foi apenas em 2005 que aprovaram por unanimidade a exclusão do termo “mulher honesta” do Código Penal. Antes disso, a definição de um crime sexual era: “Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”. Em bom português, se a mulher era “honesta” (virgem, casada, pudica, casta), o violador ia para a cadeia, mas se a mulher fosse “desonesta” (promíscua, livre, notívaga, festeira), o cara era absolvido e ainda recebia uns tapinhas nas costas.

Hoje, a violência sexual contra qualquer mulher, tenha a profissão ou os hábitos que tiver, é punida de forma igual. Reparem: a diferenciação foi suprimida apenas há quatro anos! Antes disso, a violência sexual, ao menos nos termos da lei, era um castigo merecido para a mulher que não andasse na linha.

Algumas entidades religiosas lamentam até hoje que não haja mais a distinção entre mulher honesta e desonesta, e agora surge um livro para acabar com o restinho de fé dos beatos: o mulherio inteiro fez um pacto com o demo, a julgar pelo candidato a best-seller Why Woman Have Sex: understanding sexual motivations from adventure to revange (“Por que as mulheres fazem sexo: compreendendo suas motivações, desde aventura até vingança”), dos pesquisadores Cindy Meston e David Buss.

Eles entrevistaram mais de mil mulheres entre 18 e 87 anos e descobriram 237 razões diferentes para as mulheres praticarem o bem-bom. Se eu, que não levo uma auréola sobre a cabeça, fiquei espantada com a variedade de motivos, imagine o pessoal do Vaticano e seus discípulos: devem ter desmaiado, acordado e desmaiado de novo.

237 razões diferentes para ir para a cama? Os homens, segundo uma divertida crônica do escritor Marcelo Carneiro da Cunha, julgavam que só existisse uma nobilíssima razão para a gente cometer essa barbaridade: o amor. A selvageria e a cachorrice sempre foram monopólio deles. Que história é essa de a gente ter outro motivo além de estar enfeitiçada pelo príncipe encantado?

Bom, eu consigo imaginar mais umas quatro ou cinco razões para as mulheres curtirem uma lua de mel por algumas horas com um quase desconhecido, além do indiscutível e acalantado amor. Elas (não eu!) podem estar querendo um filho. Podem estar dando o troco no marido galinha. Podem achar que é hora de serem promovidas. Podem estar testando seu poder de sedução. Listei quatro. Vamos ao quinto motivo: elas podem simplesmente estar com vontade, já que sexo é bom. Reparem que usei um adjetivo discreto.

Cinco, mais o amor, somam seis razões, nem todas louváveis. Sobram 231 razões que, na minha santa ingenuidade, não consigo imaginar, mas o livro entrega: elas (não eu!) transam para garantir uma nota alta na prova, para queimar calorias, para ganhar presentes, para agradecer uma carona, para se livrar da enxaqueca, para se exibir para as amigas, para estrear uma lingerie nova, por piedade, pra cumprir promessa, e acredite, transam até em troca de favores domésticos: sou tua, desde que você se encarregue da louça no domingo.

Acabo de listar mais 10 razões, todas igualmente menos elevadas que o amor, e ainda restam inacreditáveis 221 que minha debilitada inspiração não consegue adivinhar. Só sei que, até quatro anos atrás, essas moças entre 18 e 87 anos estariam presas. Hoje estão aí, livres, leves, soltas e esbanjando criatividade.

Bem nesta quarta-feira a gente sai um pouqinho de Lisboa para o interior de Portugal. Dias de céu azul, mar calmo e um sol de verão. Uma linda quarta-feira para todos nós.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009



12 de outubro de 2009
N° 16122 PIT STOP MENTAL


Como se recarregar no feriado

Aproveitar um feriado como o de hoje parece simples – mas nem sempre é assim para profissionais assoberbados e pessoas com dificuldade de se desligar do trabalho ou do estudo.

Especialistas alertam que a mudança na rotina é fundamental para manter características como a disposição e a criatividade em alta

Mesmo conscientes da necessidade do descanso no feriado, executivos como Gerson Luis da Silva vão acordar hoje e trabalhar. Silva, gerente de marketing da Unimed de Porto Alegre, precisa assistir a um vídeo produzido para a cooperativa de saúde. O executivo, no entanto, garante que o tempo investido no trabalho durante o feriado terá um efeito positivo no relaxamento.

– Isso vai permitir que eu fique tranquilo – conta.

Silva, que trabalhou como jornalista durante nove anos, quando não tinha feriados e ocupava pelo menos um dia do final de semana, aprendeu a valorizar os dias de descanso. O segredo, para ele, está na harmonia entre o trabalho e a vida pessoal.

– Nos feriados, você consegue se distanciar, mas dificilmente consegue se desligar do trabalho. Mas tu ficas mais livre para pensar e tomar decisões com calma, durante uma caminhada, por exemplo – aconselha.

A vice-presidente de gestão e inovação da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio Grande do Sul (ABRH-RS), Crismeri Corrêa, concorda com a abordagem do executivo: o ideal é utilizar o tempo de descanso para fazer o que deixa o profissional feliz. Se trabalhar um pouco ou cumprir uma rotina intensa de atividades sociais ajudam a levantar o moral e a relaxar o cérebro, Crismeri é favor.

Depois de conferir o vídeo, Gerson da Silva pretende ir para uma praça e almoçar com a família. Mas, se o tempo impedir parte da programação, ele tem outra dica: seja flexível. A frustração com a mudança de planos pode ser a ignição de um ócio estressante.

A psicóloga organizacional Thays Borba, 45 anos, olhava a chuva ontem enquanto refletia sobre o sentimento dúbio que a folga pode provocar.

É fundamental aproveitar os feriadões

Para Thays, a parada de três dias representou uma dificuldade a mais para concluir uma tarefa estafante até o final do mês: ouvir cerca de 600 candidatos para indicar 150 deles a uma empresa. Para dar conta, tem trabalhado até aos sábados.

– Um feriadão, às vezes, pode cair mal quando interrompe um projeto.

Para a especialista, esse tipo de dilema costuma afetar mais profissionais liberais, executivos e empresários, que lidam mais com metas e prazos do que com horários de trabalho pré-determinados. Servidores públicos e funcionários tendem a receber os feriadões com maior naturalidade. A verdade é que os especialistas consideram fundamental aproveitar da melhor maneira possível os feriadões.

Para a PhD em Psicologia Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), é importante encarar o intervalo na rotina como uma oportunidade de recuperação pessoal, não de perda de tempo ou de negócios.

– Um desgaste muito grande compromete a criatividade e dificulta a tomada de decisões – avalia.

O psiquiatra Rogério Cardoso, membro da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, alerta ainda que, quando uma pessoa se recusa a aproveitar os momentos de descontração, isso pode ser indício de um transtorno um pouco mais grave:

– Se alguém acha que precisa trabalhar todo final de semana, é sinal de que algo vai mal.

ALEXANDRE DE SANTI E MARCELO GONZATTO

Aproveite sua folga

Veja algumas sugestões dos especialistas de como aproveitar ao máximo um feriadão:
- Conscientize-se de que há situações que fogem ao seu controle e tente se adaptar a elas da melhor forma – como uma interrupção indesejada em um projeto de trabalho

- Se você não tem um hobby ou atividade além do trabalho que lhe dê grande satisfação, descubra algum. Se já tem, aproveite para exercitá-lo nos períodos de folga
- Não se sinta pressionado a fazer grandes aventuras só porque é feriado. Pese a relação custo/benefício: se você acha muito desgastante viajar pela BR-101 em obras, por exemplo, escolha outro destino ou fique em casa

- Se você de fato não pode se libertar integralmente do trabalho, ao menos procure concentrar a tarefa em um determinado período e reserve o restante para o lazer
- Manter um bom círculo de amizades é um dos melhores caminhos para ter bons programas
- Viajar é uma maneira eficiente de espairecer e recarregar as energias

Fonte: Fontes: Ana Maria Rossi, PhD em Psicologia, Rogério Cardoso, psiquiatra, e Thays Borba, psicóloga

Parabéns pelo nosso dia hoje. Faça sempre aflorar a criança que há em você


12 de outubro de 2009
N° 16122 - PAULO SANT’ANA


Outra derrota. Até quando?

Malditos sejam os que quebraram o Grêmio por incompetência e corrupção, condenando o clube a estes times medíocres que os torcedores são obrigados a suportar nos últimos anos.

Que os incompetentes e corruptos que quebraram o Grêmio há alguns anos sejam lambidos e devorados pelas chamas do inferno quando morrerem. Para justiça dos tempos.

Agora vamos à atualidade do Grêmio: além da fatalidade de o clube ter mergulhado em dívidas cruciantes, vem ele sendo administrado por dirigentes que não entendem nada de futebol.

Este ano, a calamitosa direção gremista não trouxe de volta Marcelinho Paraíba, como mandava o bom senso. Nem teve a capacidade de comprar Paulo Baier, como imperava o bom senso.

Os poucos recursos que o Grêmio possui davam, no entanto, para facilmente adquirir estes dois jogadores e outros que tinham de ter vindo.

Muitos outros erros de avaliação absurdos marcam a administração canhestra de Duda Kroeff e seus companheiros da direção de futebol.

Nenhum lampejo, nenhuma faísca de talento dos dirigentes gremistas para formar um time digno da tradição de um clube que já foi, acreditem, campeão mundial.

Nada, nada restou dos escombros das administrações fracassadas que não souberam remendar a tragédia da falência financeira gremista. O que se aconselha, como última e humilde esperança, é que, não podendo se afastar o presidente, sejam chamados para 2010 nomes de reconhecida competência para dirigir o futebol do Grêmio.

Chega de neófitos, de curiosos dirigindo o falido Grêmio.

Abaixo os principiantes, os inexperientes, os aventurescos.

Chega de supliciar a destemida e imensa nação tricolor de bravos e doloridos torcedores.

Basta! O Grêmio é grande demais para ser conduzido por tão pequenas direções.

Desculpem a rudeza destas palavras.

Mas o Grêmio é sagrado e exige neste momento em que mediocremente o time e o treinador não ganham nenhum jogo fora um protesto definitivo.

Basta! Pelo amor de Deus, basta!

Tenham compaixão desta torcida maior do Rio Grande.

Basta!

Pelo amor de Deus, vamos agora ao treinador: como ele sabia que tinha em mãos um time medíocre, havia que ter planejado os 19 jogos de fora de casa, armando em todos eles uma retranca férrea. Evidentemente que dos 19 jogos conseguiria obter seis vitórias, mais ou menos, o restante seria de derrotas e empates.

Com essa estratégia, dava até para disputar o título nacional, quanto mais ingressar no G-4.

Mas não, o senhor Paulo Autuori usou do mesmo esquema com que se saiu bem no Olímpico nos jogos fora de casa. Ilustre ingenuidade! Ele tem que ter consciência de que tem nas mãos um time sofrível, portanto teria de usar de humildade nos jogos fora de casa.

Esse senhor Paulo Autuori até agora nos enganou a todos com aquela sua voz grave e mansa.

Não entende nada de estratégia global de um campeonato. Tinha que ter se retrancado fora e, ao contrário, jogou com o mesmo esquema com que joga em casa.

Trágica direção, deficiente treinador. Está faltando dirigentes para discernir isso.

Basta! Basta! Basta


12 de outubro de 2009
N° 16122 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Desculpas

É moda: desculpas públicas. Alguém diz algo inconveniente a uma pessoa, a um grupo étnico, a uma religião. Nos dias seguintes, com a previsibilidade de um relógio, esse alguém reúne a mídia e, cabeça baixa, olhar contrito, faz uma declaração de arrependimento e o infalível pedido de desculpas. Eis um estilo de comportamento – de origem americana – que ganhou o mundo: arrependem-se presidentes, reis, primeiros-ministros, secretários, diretores de escola, professores – enfim, todos.

O caso internacional mais recente foi a de Jimmy Carter acerca dos ataques feitos a seu companheiro de partido, Barack Obama. Atribuiu-os ao racismo e, naturalmente, pediu desculpas por atribuir ao racismo. O próprio Barack Obama, há alguns meses, reuniu algumas pessoas para uma insólita cervejada para desculpar-se por algo inconveniente que havia dito.

Há duas hipóteses para considerar: 1) a pessoa estava mentindo quando fez a declaração ofensiva; 2) a pessoa está mentindo quando faz o pedido de escusas. Sob a perspectiva ética, o quadro é lamentável.

Pior fica quando o ofendido diz aceitar as desculpas e dá o caso por encerrado: isso se assemelha aos antigos duelos, em que
os dois cavalheiros davam cada qual um tiro para o ar e com isso consideravam-se quites um com o outro. É a soberana lógica da hipocrisia, só possível numa sociedade de aparências.

Até um passado bem recente as pessoas assumiam suas ações e palavras. Se outrora houvesse a prática dos pedidos de desculpas, não existiriam a tragédia grega, nem Hamlet, nem Dom Quixote, nem Crime e Castigo.

Não existiria a literatura, enfim, pois esta nutre-se de alguma iniquidade. Pode-se imaginar Goethe reunindo os jornais da época e declarando de público que não quis provocar suicídios em massa quando lançou Os Sofrimentos do Jovem Werther? Ou Camões pedindo perdão por algumas passagens ofensivas aos islâmicos em Os Lusíadas?

Nesse sentido, é notável que o Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc tenha rejeitado o pedido de desculpas do governador André Puccinelli, do Mato Grosso do Sul, que o chamara de viado [sic] e maconheiro. Não só não aceitou como, em troco, acusou-o de coisas realmente graves, como querer a destruição do Pantanal com imensas plantações de cana-de-açúcar.

Talvez esse caminho do ministro seja o melhor para revisarmos essa prática tão nociva, a qual eleva a mentira ao patamar da sinceridade e que, bem vistas as coisas, só convence os ingênuos.


12 de outubro de 2009 | N° 16122
L. F. VERISSIMO


Nomes

“Bikini” dava medo. Era o nome de um remoto atol no Pacífico onde os americanos faziam seus testes com bombas nucleares. Especulava-se sobre os efeitos dos testes na atmosfera e da sua irradiação na humanidade.

Lembro-me de um filme de ficção científica da época, em que um iate desavisado passava muito perto da zona dos testes e seus ocupantes, quando voltavam para casa, começavam a virar monstros.

E notícias de Bikini eram lembretes constantes da possibilidade de uma guerra nuclear que nos liquidaria a todos. Mas as notícias constantes também popularizaram o nome, que foi adotado para o maiô de duas peças reduzidas que começava a aparecer nas praias. Não sei de quem foi a ideia de chamar o novo maiô de bikini, nem se havia outro motivo para usar o nome além do fato de ele estar em evidência.

Talvez uma alusão ao poder demolidor de um belo corpo exposto de maneira inédita?

De qualquer maneira, o nome pegou. Dizem que o atol de Bikini ainda brilha no escuro e peixes mutantes nadam ao seu redor. A ameaça nuclear não terminou. Mas, para o consumo do mundo, a banalidade derrotou o terror.

Em 1957, para espanto de todos e embaraço dos Estados Unidos, a União Soviética pulou na frente na corrida espacial, lançando o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik.

Os americanos responderam acelerando o seu próprio programa espacial, que acabou colocando um homem na Lua, mas durante algum tempo tiveram que conviver com aquela prova da superioridade científica dos russos girando sobre suas cabeças.

Mesmo se, como diziam os cínicos, a única vantagem dos russos sobre os americanos era que tinham ficado com melhores cientistas alemães no fim da II Guerra Mundial, para todos os efeitos de propaganda e autoestima a competição era entre dois sistemas, e o comunista estava ganhando. Mas, se sentiam-se ameaçados pela coisa, os americanos adoraram o seu nome.

Em pouco tempo o sufixo “nik” passou a ser usado para tudo nos Estados Unidos. Membros da geração “beat” ficaram conhecidos como “beatniks”, embora em nada lembrassem uma bola dando voltas na Terra e fazendo “bip, bip”. Ou talvez, às vezes, lembrassem. No caso do Sputnik, também ganhou a banalidade.

Bai bai

Vou tirar férias. Volto no dia 16 de novembro. Comportem-se.

sábado, 10 de outubro de 2009



Sua majestade, a criança

Tem se falado muito na falta de limites das crianças de hoje. A garotada manda e desmanda nos pais e estes, sentindo-se culpados pelo pouco tempo que ficam em casa, aceitam a troca de hierarquia – hoje os adultos é que recebem ordens e reprimendas, e não demora serão colocados de castigo.

Segundo os pedagogos, precisamos voltar a dizer não para a pirralhada. É a ausência do não que faz com que meninas saiam de madrugada sem avisar para onde estão indo, garotos peguem o carro do pai sem ter habilitação e todos sejam estimulados a consumir descontroladamente, a não dar explicações e a viver sem custódia. Mas onde encontrar energia para discutir com filho?

Pai e mãe se jogam no sofá e pensam: “Façam o que bem entender, desde que nos deixem quietos vendo a novela”.

Alguns adultos defendem-se dizendo que é impossível dar limites, vigiar e orientar, tendo que sair de manhã para o batente e voltar à noite demolidos pelo cansaço. Compreendo, é complicado mesmo.

Se existe uma liberalidade e agressividade maior hoje entre as crianças, é claro que o fato de as mulheres terem entrado no mercado de trabalho e deixado em aberto o posto de rainhas do lar tem algo a ver com isso. Mas nem me passa pela cabeça estimular um meia-volta, volver. A sociedade avançou com a participação das mulheres e esse é um caminho sem retorno. O que compromete o destino de uma criança é não ter sido amada. E muitas não foram, mesmo com os pais por perto.

A falta de amor é a origem de grande parte das neuroses, psicoses e desvios de conduta. Uma criança que não se sentiu amada pode cometer erros de avaliação sobre si própria e cometer desvarios para alcançar uma autoestima que está sempre fora de alcance.

Não adianta o pai e a mãe passarem a mão na cabeça do filhote de vez em quando e repetir um “eu te amo” automático. A criança precisa se sentir amada de verdade, e as demonstrações não se dão apenas com beijos e abraços, e tampouco com proibições sem justa causa.

O “não deixo, não pode” tem que ser argumentado. “Não deixo e não pode porque....” Tem que gastar o latim. Explicar. E prestar atenção no filho, controlar seus hábitos, perceber seus silêncios, demonstrar interesse pelo que ele faz, pelo que ele pensa, quem são seus amigos, quais suas aptidões, do que ele se ressente, o que está calando, por que está chorando, se sua rebeldia é uma maneira de pedir socorro, se está precisando conversar, se o que tem sentido é demasiado pesado pra ele, se precisa repartir suas dores, se está sendo bem acolhido pela escola,

se não estão exigindo dele mais do que ele pode dar, se não foram transferidas responsabilidades para ele que são incompatíveis com sua idade, se há como entender e aceitar seus desejos, se ele está arriscando a própria vida e precisa de freio, se estamos deixando ele sonhar alto demais, se estamos induzindo que ele sonhe de menos, se ele está recebendo os estímulos certos ou desenvolvendo preconceitos generalizados.

Dá uma trabalheira, mas isso é amar.

Algumas crianças são criadas por empregadas, ou seja, são terceirizadas e depois o psiquiatra que junte os cacos. Com amor, ao contrário, toda criança sente-se ilustríssima, majestade, vossa excelência, sem fazer mau uso do cargo.

Será confiante e segura como um rei, não se violentará para agradar os outros (usando drogas ou imitando o que os outros fazem para ser aceita num grupo). Será o que é, afinada com o próprio eixo. E se transformará num adulto bem resolvido, porque a lembrança da infância terá deixado nela a dimensão da importância que ela tem.

Bem a viagem pela TAP ainda é muito gostosa, haja vista a janta que servem com vários cardápios ainda para escolher, bem como o café da manhã. As colinas de Lisboa continuam as mesmas e hoje a gente foi rever a do Castelo de São Jorge.

Enquanto os meninos/meninas sairam para bebemorar nos barzinhos aqui do Bairro do Chiado eu estou a postar para voces. Um bom domingo e um ótimo início de semana.


11 de outubro de 2009 | N° 16121
DAVID COIMBRA


Ó mar salgado!

Fernando Pessoa não se contentava só com a sua vida. Tinha de criar outras, e criou. Inventou pessoas, deu-lhes nomes, biografias e gostos próprios. Eram todos poetas, cada qual com seu estilo de versejar.

Publicaram livros, granjearam admiradores, fizeram sucesso. Eram os seus “heterônimos”. Não é o mesmo que pseudônimo. Pseudônimo é um nome falso. Um autor escreve algo e publica sob assinatura diferente.

Simples. Heterônimo é mais sofisticado. Hetero vem do grego, e quer dizer “outro”. Fernando Pessoa, ao criar um heterônimo, criava outro indivíduo. Alguns até morrer, morriam. Um deles, chamado Ricardo Reis, não morreu. Ou, pelo menos, não teve a data da sua morte estabelecida por Fernando Pessoa.

Saramago encarregou-se disso ao escrever o romance “O ano da morte de Ricardo Reis”. Assim, um dos heterônimos de Fernando Pessoa sobreviveu a Fernando Pessoa.

O poeta mesmo, de carne, osso, óculos e bigodinho, o chamado “ortônimo”, morreu em 1935, aos 47 anos de idade. Nas horas derradeiras, ele chamava o nome de seus heterônimos. Fico imaginando a cena entre poderosa e comovente: o poeta clamando pela presença dos poetas que ele tinha inventado. Mas, no último momento, Fernando Pessoa não chamou por ninguém, real ou imaginário. Exalou o suspiro derradeiro proferindo uma enigmática frase em inglês:

– I know not what tomorrow will bring.

“Eu não sei o que o amanhã trará”.

Justo Fernando Pessoa, que dizia que a língua portuguesa era a sua pátria, como bem lembrou Caetano Veloso em um de seus clássicos.

Seis meses antes de proferir esta frase misteriosa, Fernando Pessoa escreveu um poema, que, como a frase e como os seus heterônimos, se presta a várias interpretações. O título é “Mar Português”:

Ó, mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Leia e releia para apreciar a genialidade dos versos, para beber de todas as suas possibilidades. Já encontrei alentados textos com exegeses desta poesia imortal. Eu aqui tenho o meu naco preferido. É seu trecho mais célebre, no qual Pessoa pergunta se valeu a pena tamanho sacrifício, para em seguida ele mesmo responder que tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

Portanto, o choro das mães pelos filhos que se perderam no oceano, os filhos que rezaram em vão pelo retorno de seus pais, as noivas que não se casaram porque os noivos jamais voltaram, tudo isso valeu a pena para que Portugal realizasse o sonho de conquistar o mar. É um canto à ousadia, à aventura, uma ode ao inconformismo, um elogio a quem faz.

E isso é o mais importante: fazer.

Sou sempre a favor de fazer. Erros podem ser cometidos? Que sejam enfrentados, que se tente resolvê-los, desde que se faça. Quem é contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, quem é contra a realização da Olimpíada no Rio de Janeiro, é contra fazer.

Poderia eu argumentar que a Copa e a Olimpíada gerarão empregos e melhorarão a infraestrutura do país; poderia argumentar que o dinheiro que será investido nos eventos não seria investido em Educação e Saúde, se os eventos não ocorressem; poderia argumentar que a corrupção pode ser controlada, se se quiser. Poderia argumentar tudo isso.

Mas o que mais me incomoda é que as pessoas simplesmente não querem fazer. É a inação, a apatia, a falta de ousadia. A pequenez.

O medo pode se transformar em excesso de prudência, e o excesso de prudência pode se transformar em paralisia. Pode-se passar a vida inteira assim, a não fazer. Uma vida pequena, uma alma pequena. Aí, é claro, nada vale a pena.


11 de outubro de 2009 | N° 16121
PAULO SANT’ANA


O drama das diferenças

Já escrevi, mas repito, que nunca me conformei com as iniquidades que o destino comete.

Não passa pela minha intelecção que o destino, a Providência, Deus, seja lá quem for que lance seus desígnios sobre a sorte das pessoas, crie homens ricos e outros pobres.

Foge da minha inteligência que o destino – ou a fatalidade – crie homens talentosos e outros homens medíocres.

Grande injustiça!

Por que há homens fracos fisicamente e há outros homens de saúde física de ferro?

Por quê?

Por que há homens belos, cortejados pelas mulheres, enquanto há outros homens feios, indesejados, quando não desprezados pelas mulheres?

Por quê? Por quê?

Eu não exigiria que todos os homens fossem ricos, talentosos, fortes ou bonitos.

Não, não chegaria a tal ponto. Mas que pelo menos fossem ricos uns, mas não fossem miseráveis os outros, que tivessem pelo menos um padrão econômico-financeiro razoável.

Mas, não, há homens com a beleza física de um Adônis e outros com a feiura abominável de um Quasímodo!

É desigual, é injusto. E não é só minha inteligência que rejeita essa relação díspar. Também meu coração repele-a. Também minha compaixão disso se apieda.

Sei que há uma lei distributivo-qualitativa que impede valores iguais.

Sei que, se os homens fossem iguais em talento, força, aspecto físico ou aptidão financeira, esta vida seria maçante e inviável.

Mas sonho que pelo menos as diferenças fossem mais dignas.

Que alguns tivessem ouvido apurado, está bem, mas que outros não fossem completamente surdos. Meia-boca!

Em suma, eu não queria que as pessoas fossem todas iguais.

O que eu queria é que não fossem tão diferentes.

Por isso, mais ainda me impressionam as pessoas que nascem com esses desfavores, nascem pobres, medíocres, doentes, feios, e conseguem, apesar disso, dar a volta por cima e atingir o sucesso, o êxito.

Essas são as pessoas heróicas e admiráveis.

Por isso é que, quando os bebês nascem ou têm poucos dias de vida, os circunstantes vaticinam: “Como ele é belo, tem os olhos azuis!”. “Como ele é forte, nasceu com sete quilos!”. “Como ele é inteligente, sabe que chorando lhe darão de mamar”. Ou “como ele é feiozinho, com o tempo pode ficar mais bonito”.

Desde cedo, isso é o que me revolta, fica lançada a sorte das pessoas por toda a vida.

Malditas sejam todas as diferenças!

Mas sobre esse assunto eu tenho uma muito boa: nascer pobre é uma fatalidade, mas morrer rico é uma burrice.


11 de outubro de 2009 | N° 16121
MOACYR SCLIAR


Voltando à infância

O Dia da Criança é um dia de alegria, um dia de conviver com os filhos e também um dia para lembrar a infância. Voltar a ser criança é um sonho que todo adulto tem, e que em parte realiza quando tem filhos. Aí a gente pode se permitir brincar como criança, rir como criança e até ter sustos como criança.

Uma oportunidade que às vezes surge de maneira inesperada. A primeira e única vez que andei de montanha-russa foi na Disneylândia, na Califórnia. Era uma montanha-russa enorme, altíssima, os vagonetes voando sobre os trilhos a velocidades fantásticas.

Valeria a pena tentar. Achei que sim. Eu sabia que era aterrorizante, que eu iria dar vexame, mas como ninguém me conhecia, qual era o problema? Embarquei, dei o esperado vexame gritando a plenos pulmões (para espanto dos meninos americanos que estavam no vagonete comigo), desembarquei mais morto que vivo. Mas feliz.

Na semana passada, minha mulher e eu vivemos outra dessas aventuras, no Museu Aeroespacial de Washington. Lugar fantástico: toda a história da aviação está ali, desde os tempos heroicos das primeiras aeronaves até a era espacial – neste ano, por causa do aniversário da chegada do homem à Lua, há uma grande exposição sobre o tema. A gente vê os aviões, e os satélites, e as naves espaciais, e os mísseis.

Em algumas dessas aeronaves e espaçonaves podemos entrar e ter, ao menos por alguns momentos a sensação do que são essas incríveis viagens.

Em uma seção é oferecida a oportunidade de pilotar um avião de combate. Na verdade não é um avião; é uma espécie de cabine, capaz de se movimentar, e equipada com uma tela que dá a ilusão do voo. Existem dois modelos: um com movimentos limitados e outro que faz tudo o que um avião de verdade pode fazer. Foi esse que escolhemos.

Entramos na cabine, eu como piloto, Judith, a meu lado, como artilheira. A moça que nos orientava mastigou algumas instruções, fez com que colocássemos os cintos de segurança e, detalhe preocupante, baixou sobre nós uma espécie de concha plástica, o que já antecipava o que estava por vir.

Decolamos, e logo ficou claro que aquele era um voo absolutamente maluco. Éramos jogados de um lado para outro e de repente estávamos de cabeça para baixo, eu tentando controlar a aeronave, Judith agarrando-se no banco.

O voo durou exatos seis minutos – os seis minutos mais longos de nossas vidas. Finalmente pousamos, mais mortos que vivos. A moça nos ajudou a sair e deu-nos uma notícia surpreendente: Judith tinha, sem saber como, abatido um avião inimigo. Quem era esse inimigo, onde estava o tal avião, e como tínhamos conseguido acabar com ele ficou sendo um mistério. Como os mistérios que povoam nossa infância e que com ela voam.

Agradeço as mensagens de Vilmar Machado, Clailton K. Ferreira, Antenor E. Fernandez, Bruno Boeckel, Maria Morales H.Dias, Roberto Girardi, Telmo Kiguel, Volson Cadore, Marcelo Zerbes, Renato Lampert, Ronaldo José Sinderman, Adriana M. Barros, Edson A. M. Ferreira, Luiz R. M. Centurião. Um abraço para vocês, amigos.

Entramos na cabine, eu como piloto, Judith como artilheira. Baixou sobre nós uma concha plástica que antecipava o que estava por vir.