sexta-feira, 9 de outubro de 2009



FACE SHAKTI EU ACESSO O PODER PARA SER QUEM EU SOU

Nas antigas tradições matriarcais, a força feminina é considerada sagrada, uma manifestação do lado feminino de Deus. Na Índia, essa energia divina é chamada de Shakti e está presente nas divindades femininas e também habita homens e mulheres.

“Quando uso essa face, recebo inspiração para minha verdade e destino, e força para retornar à morada do Eu”, ensina Caroline. Ela nos faz entender o que tem sentido em nossa vida e como podemos contribuir, não a harmonia de todos os seres. Aprendemos a escutar a voz da intuição.

A Face Shakti também revela em que condições podemos nos sentir plenas. E mostra como desperdiçamos energia em coisas que não trazem nenhuma felicidade. O despertar de Shakti leva ao fortalecimento interior, a um despertar para a nossa realidade. Essa força divina, segundo Caroline Ward, está ancorada em oito poderes distintos, que podem ser acionados com exercícios e meditações. Suas principais qualidades são:

O PODER DO AFASTAMENTO:
possibilita o distanciamento da situação emocional em que estamos e deixa ver a realidade de uma perspectiva objetiva.

O PODER DA COOPERAÇÃO:
faz com que usemos nossa força em benefício do outro e nos recompensa com uma energia nova e potente.

O PODER DA LIBERTAÇÃO:
traz força para cortarmos as correntes que nos aprisionam internamente.

O PODER DO ENFRENTAMENTO:
fornece energia para lidarmos com os sentimentos do nosso mundo interior.

O PODER DA TOLERÂNCIA:
mostra como ir além de reações imediatas e intempestivas – é o caminho da sabedoria.

O PODER DA DECISÃO:
dá vigor para nos comprometermos com os objetivos importantes.

O PODER DA ACEITAÇÃ0:
ensina como deixar para trás o que deveria ser para trabalhar com o que de fato é.

O PODER DO DISCERNIMENTO:
permite ver a verdade exatamente como ela é.

A Face Shakti ensina a escutar a voz da intuição, aquela que sabe nos dizer qual o caminho a seguir. Ela torna-se nossa bússola e ativa a memória do que nos faz felizes.

Bem é chegada a hora de ir. Não há mais como procrastinar. Lisboa que me espere, Evora, e outras mais. Até a volta amigos. Fiquem bem

FERNANDO GABEIRA

Uma chance para o Rio

RIO DE JANEIRO - A escolha do Rio para sediar a Olimpíada em 2016 abre grandes caminhos. Líderes políticos, Lula à frente, tiveram um belo papel nisso e merecem os dividendos políticos que vão colher.

Para quem vive na cidade, o tema entrou na agenda. Em primeiro lugar, estudar a história das Olimpíadas e grandes empresas esportivas que floresceram à sua sombra. Em segundo lugar, cooperar com o êxito da inédita experiência brasileira.

O êxito pode ser medido em duas dimensões. A da realização pura e simples da Olimpíada e a do impulso para que o Rio fixe uma identidade global: cidade do conhecimento, laboratório da sustentabilidade urbana e centro internacional de turismo.

Nesse último ponto, o crescimento poderia articular-se com áreas mais próximas: a região serrana, Niterói, o litoral de Búzios, Angra, Parati.

Em 2008, discutimos muito a recuperação do Rio. Os obstáculos são muitos. Mas uma coisa a cidade sempre demonstrou quando foi acionada: a disposição para se mobilizar.

Por que não resolver a pobreza, aumentar a segurança, melhorar o sistema de saúde antes de uma grande aventura? A solução de todos esses problemas depende também de crescimento econômico.

Se o esforço de fazer uma Olimpíada for combinado com uma perspectiva estratégica de recuperação da cidade, as chances são muito maiores. O projeto destinado à vitória na Dinamarca enfatiza a beleza da cidade. A visão de recuperá-la enfoca também as áreas decadentes, como a região portuária.

É possível manter a fidelidade ao projeto original e encaminhar benefícios para o centro do Rio. O prefeito Eduardo Paes parece disposto a caminhar nesse sentido.
Barcelona foi vencedora durante e depois da Olimpíada. Montreal ficou com dívidas e com um gosto de oportunidade perdida.

ELIANE CANTANHÊDE

A cara do Itamaraty

BRASÍLIA - Com o "agrément" do governo argentino para o novo embaixador brasileiro em Buenos Aires, Ênio Cordeiro, o chanceler Celso Amorim formaliza a nova dança de cadeiras no Itamaraty e deixa seus principais amigos e colaboradores em funções-chave da diplomacia na campanha eleitoral e na reta final do governo Lula.

Amorim é um dos quatro ministros que entraram com Lula no primeiro dia do primeiro mandato e tendem a chegar com ele, no mesmo cargo, até o último dia do último mandato. A não ser que, contrariando as expectativas, Amorim decida sacar a sua ficha de filiação ao PT, novinha em folha, para disputar um mandato, por exemplo, de deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Samuel Pinheiro Guimarães, decisivo para enterrar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), se despede da carreira depois de ocupar a Secretaria-Geral, segundo posto da hierarquia, mas sem jamais ter sido embaixador no exterior.

Sai da carreira, mas mantém fortes laços com o PT e com Lula e tem vaga certa na formulação do programa de Dilma à Presidência.

Com o maduro Samuel num posto-chave, Amorim passou a dar destaque para os "jovens" da carreira, a ponto de surpreender com a insólita indicação de Antonio Patriota para a mais poderosa embaixada do planeta, a de Washington, sem que ele jamais tivesse ocupado alguma outra embaixada antes. Ou seja, sem ser treinado nem avaliado.

Uma ousadia e tanto, ainda sem se saber o grau de acerto -ou de erro.

O Itamaraty da campanha e do último ano fica assim: Patriota na Secretaria-Geral, Mauro Vieira na Embaixada de Washington, Ênio Cordeiro na de Buenos Aires, Vera Machado na Subsecretaria-Geral de Política, Roberto Azevedo na OMC e Maria Luiza Viotti na ONU.
Convém registrar esses nomes.

Eles são o Itamaraty de hoje e, provavelmente, de amanhã, ganhe quem ganhar em 2010.

elianec@uol.com.br


09 de outubro de 2009 | N° 16119
PAULO SANT’ANA


La Negra

Muitos leitores me perguntam o motivo de Mercedes Sosa ter sido apelidada de La Negra.

Não sei a razão, mas calculo, presumo: no início de sua carreira, no auge das ditaduras militares argentinas, ela se trajava inteiramente de preto em seus shows, em protesto pela lástima do regime.

Lendo parte da biografia de Mercedes Sosa, fui ver um ponto espetacular: certa vez, no auge da ditadura, La Negra foi cantar num ginásio.

O Exército cercou o local e foi presa Mercedes. Mas incrivelmente foi preso também todo o público.

Eu escrevi, se muitos não acreditam, todo o público.

Nunca vi prenderem o público. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, as polícias e o Ministério Público têm dado batidas e fechado bingos e casas de jogos de maquininha.

Mas o público tem se livrado solto.

Se o custo de uma Olimpíada fosse só o orçado, ainda se a toleraria.

Mas todos sabemos que será 10 vezes mais.

Ontem, um adepto fanatizado em favor da Olimpíada do Rio de Janeiro confessou-me que a frase que o intimidou e deixou-o inerte em argumentação foi: “Ave, Olimpíada, os que vão morrer te saúdam!”.

Deixem que eu me torne um avô coruja. Meu neto Pedro Sant’Ana Wainer, com 13 anos de idade, sagrou-se no mês passado campeão brasileiro de esgrima, na modalidade sabre, batendo sete adversários individualmente e sagrando-se invicto.

Na finalíssima, meu neto lutou contra seu adversário e contra o ginásio inteiro do clube Pinheiros, que torcia por seu representante.

Eta, gurizinho que deu bom.

Existem velhos com saúde de ferro e jovens doentes. Existem solteiros deprimidos e casados plenos de felicidade.

Existem trabalhadores que ganham muito pouco e vagabundos com grandes ganhos.

Existem parlamentares que não fazem nada, absolutamente nada com seus mandatos, mas se reelegem facilmente em todas as eleições. Há, no entanto, parlamentares de grande atuação em seus mandatos que não conseguem se reeleger.

Há mulheres feias que, no entanto, têm ótimo desempenho sexual com seus parceiros, enquanto mulheres de beleza estonteante são absolutamente frias e inertes na alcova, decepcionando até a lástima seus companheiros.

A vida é assim, de onde menos se espera, é que surge algo, de onde se espera alguma coisa, nada surge.

O bom da vida, por sinal, é essa imponderabilidade. Se tudo acontecesse como mandam os códigos e os manuais de conduta, a vida se tornaria maçante, desinteressante.

O surpreendente é o toque delicioso da vida.

Não fosse assim, e trilhões de pessoas não teriam se comovido durante esses últimos 2 mil anos com a obra e a mensagem de um filho de carpinteiro, que peregrinava entre Nazaré e Jerusalém e mudou a face do mundo, empolgou gerações sobre gerações e ensinou que o negócio é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

A Bíblia e as dezenas de livros sagrados que a compõem são repletos de surpresas. E de mistérios, confesso.

Mas, para tudo o que se quer saber, consta na Bíblia a solução.


9 de outubro de 2009 | N° 16119
DAVID COIMBRA


O que um homem realmente quer

Aos dois anos de idade, meu filhinho encontra-se diante de todo o drama humano que se passa debaixo do sol. Atravessa os dias empregando uma espécie de fórmula de encantamento, uma frase curta, mas que resume com exatidão o que há de realmente importante na vida.

Os crimes bestiais, as criações celestiais, as filosofias de Schopenhauer e de Nietzsche, as teses de Freud, o cerne do Cristianismo e, mais ainda, do Budismo, tudo está contido nessa frase. Uma frase que pode ser a salvação ou a perdição do homem, que você pode não falar, mas está todos os dias, o dia todo, pulsando-lhe na alma. Esta:

Eu quero.

Ou, no caso dele, eu quelo. Com a variação evidente, que na verdade não é uma variação, é uma mudança de lado do mesmo objeto: eu não quelo.

O tempo todo ele passa exercitando esse novo poder, recitando as palavras mágicas. Eu quelo! Eu não quelo!

E está tudo ali. Tenho a sorte de ver de perto o espírito humano se formando em toda a sua aparente complexidade, como se eu fosse um cientista da National Geographic observando o comportamento das hienas do Serengeti.

Todos os conflitos que estufam de dólares as contas bancárias dos psicanalistas estão fermentando agora mesmo na alma do meu nenê. Como eu, você e os outros 6 bilhões e meio de pessoas do planeta, ele quer, mas às vezes o que ele quer lhe é negado; ou não quer, mas às vezes o que ele não quer lhe é imposto.

E ainda mais sofisticado: às vezes ele não sabe o que quer, ou, se quer, não sabe que, tendo satisfeito o seu desejo, mais tarde não quererá mais, ou terá outro querer.

O que mais espanta é isso. É que você, adulto formado, você que já trançou a língua na língua de outro adulto formado, você que é capaz de parar um ônibus ao erguer o braço, você que usa óculos escuros, que caminha sozinho pelo centro da cidade, que consulta o Google, você que lê as horas no relógio, que faz todas essas coisas típicas de adultos formados, você não é diferente de um nenê de dois anos, na essência.

Você está cheio de quereres, e quer mais aquilo que não tem, porque o que você já tem você não precisa mais querer.

Como um nenê de dois anos, você passa o dia querendo e tentando satisfazer esses desejos na ilusão de que isso lhe trará felicidade. Você quer tomar um café, você quer ler o jornal, quer comprar uma camisa, quer trocar de carro, quer trançar a língua naquela outra língua. Não são necessidades; são desejos.

A alma do capitalismo, algum cínico pode dizer. E é verdade, porque o capitalismo é o sistema mais humano que há, em tudo o que há de ruim e em tudo o que há de bom.

Desde os dois anos você compreende essa verdade: que querer, de fato, é poder. Mas não poder no sentido de conseguir. Poder no sentido de força. Por causa desta frase, eu quero, o mundo se move, as pessoas se amam e se matam.

Todos querem a todo tempo, e querem tanto e tanto que se confundem. Você sabe realmente o que quer? Decerto que não. Mas talvez você e meu filhinho tenham que descobrir que querer menos é sofrer menos, e sofrer menos, quase sempre, é o máximo que se pode fazer para ser feliz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


KENNETH MAXWELL

Os encrenqueiros

HONDURAS EVIDENTEMENTE não é prioridade para Barack Obama. Pouco maior do que Santa Catarina, e com 7 milhões de habitantes, o país envia aos EUA 70% de suas exportações. Honduras depende dos EUA de maneira quase patética.

Mas a confusão na política norte-americana quanto a Honduras criou uma oportunidade para muitos que não desejam o melhor para Obama. O conflito entre o presidente deposto, Manuel Zelaya, e o governo sucessor, liderado por Roberto Micheletti, tem motivos sérios.

Mas resta o fato de que Zelaya foi removido da Presidência pelas Forças Armadas hondurenhas e conduzido, ainda de pijama, a um avião que o transportou para a Costa Rica. Todos os membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenaram o golpe.

Zelaya está fazendo uma jogada perigosa em Honduras. Ele conta com o apoio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que sem dúvida aconselhou Zelaya a retornar a Honduras clandestinamente.

Quando ele apareceu inesperadamente na embaixada brasileira em Tegucigalpa, o Brasil teve de enfrentar as consequências. Mas a política adotada pelos EUA não ajudou. Especialmente porque o vácuo foi ocupado pelo senador Jim DeMint, republicano da Carolina do Sul, que é um dos mais severos críticos de Obama.

DeMint foi o único senador, excetuado John Kerry, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, a participar das audiências sobre os indicados de Obama para a América Latina.

Subsequentemente, ele bloqueou Arturo Valenzuela, apontado por Obama como secretário assistente de Estado para o hemisfério ocidental, e Thomas Shannon, que o presidente apontou embaixador ao Brasil. Como o governo não conta com os votos necessários para derrubar esse bloqueio no Senado -são necessários 60-, a política dos EUA para a América Latina está no limbo.

Os conservadores se uniram em apoio a DeMint. Na semana passada, o senador Kerry recusou permissão a DeMint para visitar Honduras. Mas o senador Mitch McConnell, do Kentucky, líder da bancada republicana no Senado, interveio e aprovou a viagem.

A deputada Illeana Ros-Lehtinen, líder da bancada republicana no Comitê de Assuntos Internacionais da Câmara, acompanhada por Lincoln e Mario Diaz-Bellart, políticos norte-americanos de ascendência cubana que, como ela, representam a Flórida, chegou a Tegucigalpa na segunda-feira em uma "missão de busca de informações".

O senador DeMint ganhou notoriedade ao declarar, sobre o programa de reforma de saúde de Obama, que "isso será seu Waterloo.

Ele sairá derrotado". Infelizmente, o presidente deu espaço a DeMint para criar ainda mais problemas.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Uma linda quinta-feira para você


08 de outubro de 2009 | N° 16118
PAULO SANT’ANA

Um mutirão de amor

Ainda sobre a menina de 22 anos que já perdeu um olho e está ameaçada de perder o outro por sério glaucoma.

Tão logo leu a primeira coluna que escrevi sobre isso, foi pronto e expedito o secretário da Saúde estadual, Dr. Osmar Terra, telefonando-me: “Sant’Ana. Fiquei sabendo do caso pela tua coluna. Imediatamente fizemos contato com a menina, a qual encaminharemos para um serviço oftalmológico excelente que há na Santa Casa de Misericórdia, onde a submeterão a exames que podem nos dar uma luz sobre uma provável e esperada solução.

Quero te dizer, Sant’Ana, que, se não for caso para ser resolvido em Porto Alegre, nós daremos um jeito de o poder público, por qualquer forma, custear a tentativa de cura dessa moça em qualquer parte do Brasil, onde haja competência específica para o caso e esperança. Tranquiliza-te, Sant’Ana. Tudo faremos”.

Telefonou-me imediatamente a governadora Yeda Crusius, afirmando que seu secretário da Saúde, Osmar Terra, está autorizado a providenciar no tratamento da menina em qualquer lugar do Brasil, de vez que parece que não há técnica compatível com o problema no RS. Pediu-me a governadora que esta coluna continue suas cruzadas em favor da vida das pessoas. Obrigado, governadora.

E pipocavam mensagens de amparo à menina ameaçada de cegueira: “Meu caro Sant’Ana. O Dr. Alexandre Marcon, chefe do Serviço de Oftalmologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre – já falou com a Franciele (conseguimos o telefone dela com a Ana Paula, que tinhas nos passado, quando falamos contigo pelo telefone no início da tarde de hoje). Franciele virá aqui quinta-feira de manhã, dia 8, consultar com o Dr. Marcon.

Aliás, o Dr. Marcon presume que a Santa Casa, com todo o conhecimento médico e com a tecnologia de apoio que ela tem na área da oftalmo, certamente terá condições de ajudar a Franciele. Vamos torcer para que tudo dê certo. E também vamos te manter informado sobre a evolução do caso. O celular do Dr. Marcon é 9969-3262 . Um grande abraço (as.) Ivo Stigger, assessor de imprensa da Santa Casa”.

E o secretário municipal da Saúde, Eliseu Santos, botou mãos à obra. Determinou ao Dr. Valandro que amparasse e conduzisse a menina Franciele para os caminhos esperançosos da cura.

Quando aparece na noite porto-alegrense um espetáculo destacado, é preciso noticiá-lo.

Esses dias, dei de cara na Rua Lima e Silva, nº 601, com uma banda de samba e pagode espetacular. Foi no bar Insano.

E, todas as quintas-feiras, hoje é dia, a Banda Ziriguidum ataca de tal forma o samba no bar, que os clientes se veem obrigados a sair de suas mesas e cair na batucada da pista, eletrificando o ambiente.

Trata-se de uma gafieira que não fica nada a dever às melhores do Rio de Janeiro.

Quem quiser conferir pode ir hoje lá e confirmar o meu elogio.

O cantor da banda é o excelente Caio Martinez.


08 de outubro de 2009 | N° 16118
L. F. VERISSIMO


O horror dos detalhes

Na peça Henrique V, de Shakespeare, há uma cena que diverge do tom de celebração do resto. Boa parte da peça é sobre a famosa batalha de Agincourt, em que um exército inglês liderado por Henrique V derrota um exército francês cinco vezes maior, no dia de São Crispim, e Shakespeare dá ao rei várias falas exaltando o feito dos poucos afortunados como ele – “we few, we happy few” –, cuja coragem e caráter asseguraram a vitória. A peça é um elogio às virtudes peculiares da nobreza inglesa incorporada em Henrique – o que torna mais curiosa a cena destoante.

Tão destoante, que foi sendo cortada ou atenuada através dos anos e não aparece nas duas versões para o cinema, feitas por Laurence Olivier em 1944 e Kenneth Branagh em 1989. É uma cena de atrocidade. O rei ordena o massacre de prisioneiros franceses, que são degolados.

A chacina não apenas desmente todas as belas palavras de Henrique sobre o caráter do seu bando de irmãos, como contraria o código de honra que norteava o comportamento de cavaleiros cristãos nas guerras medievais (mas só contra outros cristãos, como prova o que aprontaram contra os árabes nas Cruzadas).

Talvez Shakespeare, colocando um massacre nada honrado no meio da sua peça mais ufanista, estivesse sendo matreiramente irônico com seus conterrâneos. Ou apenas quisesse lembrar que na celebração de grandes vitórias militares, a exaltação esquece o sangue e as belas palavras costumam esconder o horror dos detalhes.

A fala de Henrique ordenando o massacre é um lacônico “Que cada soldado mate seus prisioneiros. Passe a palavra adiante”. Sem preâmbulo, sem explicação, sem qualquer elaboração. A terrível singeleza da frase até justifica o fato de a cena ter sido frequentemente omitida, já que parece tão inconsequente – a não ser para os degolados, claro.

O próprio Henrique não menciona mais o incidente, banido, até Shakespeare resgatá-lo cem anos depois, da sua biografia.

Que não seria muito longa. Ele se casaria com a filha do rei francês e seria nomeado herdeiro do trono da França, mas morreria pouco depois, aos 35 anos de idade. O que conquistara com tanto sangue foi recuperado pela França, sob a liderança de Joana D’Arc.

Que vingou a derrota humilhante em Agincourt e cuja vitória é celebrada até hoje como a manifestação de um certo espírito peculiarmente francês, esquecidos todos os detalhes sangrentos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


VINICIUS TORRES FREIRE

A grande inflação de camelos

Austrália dá a largada da alta de juros no G20, indústria emergente cresce e mercado surta com ideia de inflação

NESTE ANO , a notícia mais notável, para não dizer comovente, a respeito da Austrália foi a ameaça de um grande massacre de camelos. Parece haver uma grande inflação do ruminante no interior australiano. Um estimado milhão de camelos come a escassa vegetação do país, e assim disputa recursos com os rebanhos. Cogitou-se, portanto, um massacre organizado desse animal tão simpático, importado pelos australianos no século 19.

Essa era a notícia mais notável até ontem, quando o Banco Central da Austrália elevou a taxa básica de juros do país, contra os prognósticos de 95% dos ditos analistas de mercado. A Austrália foi a economia desenvolvida que menos sofreu com a crise. Como havia cortado os juros para o menor nível em 49 anos, para 3%, o BC deles decidiu que a taxa estava excepcionalmente abaixo do "nível de equilíbrio".

A Austrália tinha, antes da crise, uma das taxas mais altas no mundo rico (7,25%), disputando a liderança com a Nova Zelândia, um dos motivos pelos quais se especulava bastante com a sua moeda. As exportações australianas também dependem muito de recursos naturais, como ferro. Pode-se perguntar, "e daí a Austrália"?

Juros, câmbio e as exportações australianos têm certa semelhança com o do Brasil (desistimos de importar camelos, apesar de uma tentativa no Ceará). Nós e os australianos também dependemos muito do consumo chinês. Mas, mais importante, os juros australianos motivaram ontem muita especulação, baseada num surto de inflacionite.

Para os surtados, a Austrália elevar os juros foi um "sinal" de que a economia mundial entrou nos trilhos, que acabou o risco de deflação, que de uma vez por todas "commodities" é um mercado para se estar e especular.

Mais: que o diferencial de juros entre EUA e resto do mundo aumentará, que é bom vender dólar e comprar ativos de países vendedores de commodities. Também influenciou o surto a notícia de que um índice calculado pelo HSBC apontou que a atividade industrial dos emergentes no terceiro trimestre de 2009 foi a maior desde o segundo trimestre de 2008.

No resumo da ópera, aumentou o desejo de comprar ativos de risco, como ações, e embarcar no trem da "recuperação global", antes que tudo fique caro. Ativos que funcionam como proteção contra a inflação e contra a queda do dólar inflaram: petróleo, ouro, platina, prata, cobre etc. subiram.

O dólar afundou mais, empurrado ainda por uma notícia de que países petrolíferos estariam a combinar o banimento do dólar como moeda das transações de petróleo. Real e outras "commodity currencies" subiram: dólares australianos e canadenses e o real, por exemplo. O dólar só não caiu ante a libra esterlina (entre as moedas relevantes), que tropeça como a economia britânica.

Ressalte-se a palavra "surto". O "fundo do poço" mal chegou para EUA e Europa. Não se sabe o que será do consumo depois que passar o efeito maior dos incentivos fiscais.

Não se sabe qual será o resultado das empresas daqui para o começo de 2010 (muito resultado foi inflado por corte pontual de custo ou por ajuda estatal mesmo). Logo, pouco se sabe sobre a "recuperação global". Mas continua o surto dos mercados, dopados por dinheiro barato.

vinit@uol.com.br

MARCELO COELHO

Inocências de classe média

Tudo o que se diz a respeito de direitos humanos dos presos caiu em descrédito para a maioria da população

UMA DAS ironias da Rio-2016 é que nosso filme promocional em Copenhague foi feito pelo cineasta Fernando Meirelles. Trata-se de um talento e tanto, e seu trabalho deve ter contribuído para a decisão do Comitê Olímpico.

Sou do tempo em que as salas de projeção, de vez em quando, trocavam os rolos dos filmes. Felizmente, com as técnicas digitais, isso deixou de acontecer. Porque fico imaginando se, por equívoco, tivessem projetado cenas do premiado "Cidade de Deus", do mesmo Meirelles, em vez de uma produção simpática à Cidade Maravilhosa.

Mas não quero ser espírito de porco (pelo menos não completamente). Os tempos são outros. A euforia em torno da Olimpíada já leva algumas pessoas a acreditarem que até o problema das favelas estará resolvido em 2016.

É mais um capítulo do fenômeno que comentei na semana passada. Hasteamento de bandeira nas escolas, pré-sal, Brasil no G-20, Olimpíada no Rio: em meio a tantas manifestações de entusiasmo, gostei de ter assistido ao filme "Salve Geral", de Sérgio Rezende. O tema, antes que me acusem de bairrismo, são os ataques do PCC em São Paulo, em 2006.

Como em outros filmes brasileiros do gênero ("Tropa de Elite" e o próprio "Cidade de Deus"), houve quem visse em "Salve Geral" muita espetacularização da violência, quando não alguma velada apologia do crime organizado.

Minha tendência é sempre discordar desse tipo de críticas. Qualquer tentativa cinematográfica de retratar essa realidade está obrigada a dar um mínimo de razões, de motivos, para que os personagens façam o que fazem. E, diga-se de passagem, "Salve Geral" é bem menos violento do que seus congêneres.

Claro que alguns chefões do "Partido", como eles dizem, entoam um discurso a favor da paz e dos direitos humanos, reclamando, com toda a razão, de um sistema prisional que, em boa medida, se assemelha aos campos de concentração nazistas. Mas nenhum espectador, vendo a cara daqueles facínoras, há de tomar esse discurso pelo valor de face. O que incomoda é justamente isso.

Tudo o que se diz a respeito de direitos humanos dos presos caiu em descrédito para a vasta maioria da população brasileira. A fraseologia, deixada ao deus-dará, terminou sendo objeto de apropriação por parte do crime organizado; e seu valor real não é nem maior nem menor do que quando utilizada por muitas autoridades constituídas.

Não, o problema de "Salve Geral" não é fazer a apologia do PCC; talvez seja, na verdade, o de fazer uma apologia da classe média. Andréa Beltrão é uma professora de piano cuja situação financeira vai de mal a pior. Seu filho, um bocado bestalhão, termina preso e se envolve com o PCC. Aos poucos, a mãe entra em contato com uma advogada (Denise Weinberg) que centraliza em seu escritório rebeliões de presos, tráfico de drogas nas prisões, sentenças compradas na Justiça.

É esta personagem, chamada de Ruiva, o verdadeiro eixo da narração do filme. O problema de "Salve Geral" é que, por razões compreensíveis, Sergio Rezende quis conquistar a empatia do espectador, criando uma professora de classe média para facilitar nossa identificação emocional com a trama.

O filme seria melhor se não procurasse criar nenhuma identificação. Pois a situação da mãe-protagonista acaba girando em falso.

Tem de ser passiva diante dos acontecimentos, para que aceitemos o pressuposto de sua inocência, de sua neutralidade ética. Só que, com isso, torna-se uma personagem sensata demais para as encrencas em que se mete.

Uma mãe verdadeiramente enlouquecida e descompensada seria mais convincente, mas poderia perder a simpatia da plateia.

Mas a realidade mostrada pelo filme é de tal ordem que não é possível ao espectador identificar-se com ninguém. Tanto que a melhor personagem, a mais interessante, a mais dotada de autonomia, é a antipática e perigosa advogada vivida por Denise Weinberg. Mas talvez eu esteja completamente errado nessa crítica.

A protagonista meio apatetada do filme não está ali para despertar nossa empatia: está precisamente no lugar incômodo, quase inexistente, que corresponde à classe média na vida real.

Vê a conflagração e o crime à sua volta e não tem certeza de nada. Não é que deixe de agir: age passivamente, a exemplo de qualquer um de nós, esperando que tudo possa se acertar um dia. Talvez em 2016, por que não?

coelhofsp@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Rio 2016! Tamo em ponto de bala!

Já temos ouro em assalto triplo, 1.500 m com bolsa de turista e revezamento de celular roubado

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! É que em Santo André tem um urologista chamado Reinaldo Sacco. Isso não é vocação, é predestinação!

Eu tenho uma teoria, há pessoas que nascem predestinadas. Como o ginecologista paraibano O.B. Tavares. E a diretora do presídio de Piracicaba, Elisa Mettefogo! Rebelião? Chama a Elisa Mettefogo! E a psicóloga gaúcha Renata Kulpa! Perfeito. "Ai, doutora, comi uma picanha e tá me dando uma Kulpa."

E o Rio 2016? Diz que no dia da vitória tinha 150 mil cariocas na praia. Normal. Cento e cinquenta mil na praia é dia normal. Isso não é notícia! E aí liguei prum amigo carioca: "E aí, preparados pra Olimpíada?". "Sim, tamo em ponto de bala." Rarará!

E o Brasil já tá com três ouros garantidos: assalto triplo, corrida de 1.500 m com bolsa de turista e revezamento de celular roubado. E o Galvão vai ganhar ouro em berro, grito e ganido. Grito de Tarzan querendo comer a Chita! E o Lula é ouro em assalto orçamental!

E chega a Honduras a missão da OEA para um acordo: a gente só entrega o Zelaya se eles perdoarem a conta da luz, água, telefone, faxineira. Despesas da pensão. Da Embaixada da Mãe Joana. E nunca mais pagar IPTU da embaixada!

E dizem que o Rio é desorganizado. Não é. Corre na internet as placas das ruas, em português e inglês: Morro do Alemão: German Mountain. Encantado: Nice to Meet You. Botafogo: Set Fire. Benfica: Nice Stay.

Olaria: Hello, Smile! Hey Dude, You Lost It. Perdeu, playboy! Rarará! Olimpíada em São Paulo nunca ia dar certo. Os atletas iam ficar engarrafados. Um ficava nadando até o outro chegar! E sabe como vai ser a abertura? 12h20: estouro de fogos pra avisar que chegou a droga.

16h30: juramento, os dirigentes vão jurar que nenhuma obra foi superfaturada. É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber um exemplo irado de antitucanês.

É que em Suassuna, no Ceará, na frente do cemitério, na porta da casa do coveiro tem a placa: "Fornecemos marmita". Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula.

O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enfronhada": companheira feia (pleonasmo) que botaram uma fronha na cara. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br


07 de outubro de 2009 | N° 16117
MARTHA MEDEIROS


O direito ao sumiço, parte 2

Em janeiro de 2008 publiquei uma crônica chamada “O direito ao sumiço”, onde eu falava sobre pessoas que viajam, mas são incentivadas a mandar notícias a todo instante, seja por e-mail, MSN, Skype ou o que for. Uma ansiedade que não havia antes: quando alguém embarcava pra longe, no máximo enviava uma carta, ou um cartão-postal, telefonava de vez em quando, mas ainda conseguia se sentir livre e sozinho, distante de todos e mais próximo de si mesmo.

Hoje, com toda a parafernália tecnológica à disposição, você não consegue desaparecer: é facilmente acessado, esteja no continente que estiver. Vantagem para quem ficou e sente saudade, mas o viajante que não se desconecta perde uma rara oportunidade de levar a cabo a frase que tantas vezes é dita quando estamos sobrecarregados: “Que vontade de dar uma sumida”.

Isso me veio à mente quando li as notícias sobre esse estranho caso da France Telecom. No espaço de um ano e meio, 24 funcionários da empresa se suicidaram, sem contar os 13 que tentaram se matar e não obtiveram sucesso – acho que sucesso não é a palavra mais adequada pra situação, mas enfim.

Eu não conheço os pormenores do assunto, mas me chamou a atenção o fato de a morte desses funcionários estar vinculada às condições de trabalho: todos se sentiam demasiadamente pressionados. Até aí, não vejo justificativa pra dar fim à vida, a pressão faz parte do meio corporativo em qualquer lugar do planeta, mas há um ponto que merece ponderação: a avalanche de mensagens que lotavam seus computadores e blackberry foi relacionada ao profundo estresse que os acometia.

Faz sentido. Algumas pessoas não conseguem mais distinguir o que é vida pessoal e o que é vida profissional. Estão permanentemente conectadas com os outros, a ponto de perder a conexão consigo próprias.

O blackberry, por exemplo (eu sei que ele já está obsoleto, mas eu também estou, conformem-se), me parece infernal: sei de gente que acorda de madrugada para checar e-mails, numa atitude totalmente compulsiva e insana. As pessoas se sentem agoniadas quando ficam fora de alcance.

É como se o isolamento, o silêncio e a privacidade expatriassem a criatura, a impedissem de estar em meio aos acontecimentos. É uma inversão total de percepção: só nos sentimos vivos quando acionados pelos que estão de fora. Parece até que dentro de nós não acontece nada, não há nenhuma novidade a descobrir.

Óbvio que deve haver outros motivos para a onda de suicídios dos funcionários da France Telecom, mas esse vício de ficar conectado 24 horas, seja por mania ou por exigência profissional, merece uma reflexão.

Não podemos perder nosso direito ao sumiço, de dar aquela escapada saudável, que pode acontecer tanto numa viagem como aqui, no dia a dia, bastando pra isso não acessar a internet, desligar o celular e curtir a tão necessária companhia de si mesmo.

Do contrário, vão pipocar mais casos de gente que surta e acaba saltando da ponte como única alternativa de dar uma sumida.

Uma excelente quarta-feira para todos nós. Aproveite o dia.


07 de outubro de 2009 | N° 16117
JOSÉ PEDRO GOULART


Let the sunshine in

Este é um pequeno depoimento de viagem. O sol está intenso aqui em Nova York, agora, enquanto escrevo. Depois de uma semana aqui, meus pés doem, mas há recompensas. Foram dias de caminhadas e noites musicais que começaram de frente, com o trompete do Roy Hargrove e terminaram de costas, com a bunda da Lady GaGa.

Trata-se de um lugar vagabundo, ordinário: sem janelas, enclausurado. É tudo o que se pode afirmar sobre o The Jazz Gallery. Ficamos no frio uns 40 minutos, eu e a Ana Maria, do lado de fora, à espera de que abrissem as portas. Subimos e opa! Primeira fila.

O clube ordinário parecia servir ao propósito de causar contraste. Hargrove, dois Grammy, parceiro de caras com Herbie Hancock, Wynton Marsalis, entrou em transe – posso afirmar, eu estava a um metro dele. E os músicos o acompanhavam na viagem. Meu testemunho só vai até aqui. O êxtase me desprendeu.

Do lixo (chique) para o luxo (brega): Hair na Broadway. O espetáculo símbolo de uma geração agora se transformou nisso: um espetáculo símbolo de uma geração. Não a dos jovens atores que estavam no palco, cantando, tirando a roupa, propagando o amor livre sem saber direito o que isso significou.

Mas a dos pais deles. De maneira que o Hair, antes uma peça de contestação, hoje é só um espetáculo colorido, com aquelas musiquinhas, e uma simulação infantil de uso de drogas e da disposição ao sexo.

Mas espere! Há uma luz que vem do fim do túnel do meu passado afetivo; no final, cantando Let the Sunshine in, o elenco incentiva que o público suba no palco. (Em viagens, uma parte importante do nosso senso de ridículo é neutralizada.) De modo que foi assim, cantando, pulando, que estreei na Broadway.

Congratulations, ouvi no dia seguinte de desconhecidos. Será? Não, não era para mim, saiu o resultado: “Rio 2016”, todos brasileiros recebiam cumprimentos. À noite, desse mesmo dia, um espetáculo inesquecível no Lincoln Center, Dave Brubeck e João Carlos Martins. Brubeck, 89, foi ovacionado por mais de 10 minutos; depois João Carlos Martins regeu, emocionado, uma emocionante versão do Hino Nacional Brasileiro.

Última noite: Lou Reed, Laurie Anderson, Bono Vox, Courtney Love, Scarlet Johanson e outros tantos cruzaram o palco do Carnegie Hall com a mesma profusão dos pedestres na Quinta Avenida. Era um show beneficente de amigos, essas coisas.

E ainda apareceu a Lady GaGa. Eu nem sabia quem era direito, mas ela entrou “de maiô”, sentou ao piano, abriu a boca e a voz da criatura preencheu o teatro. Depois, levantou-se, deu as costas (uau!) e saiu. Bem, lá fora o sol continua forte. Let sunshine in.


07 de outubro de 2009 | N° 16117
PAULO SANT’ANA


Uma ajuda cristã

Quando morreu pelas balas assassinas na Rua Ramiro Barcelos, há quase um ano, o médico Marco Antônio Becker, que era ex-presidente do Cremers, tinha sido encarregado por um pedido meu: que salvasse a vida da menina Franciele Cunha Brandão, residente à Rua Fernando Abott, 715, POA.

Por ser oftalmologista, procurei-o para salvar o último olho da menina, que desde a nascença possuía glaucoma nas duas vistas e já perdera um olho pela doença, restando-lhe apenas o outro.

Becker deparara com o problema de que não há médico nem equipamento para salvar o olho dessa menina em Porto Alegre, é quase certo que um destacado oftalmologista de Goiânia, que também atende em Brasília, muito conhecido no meio médico, pode tratar da doença que está levando a menina fatalmente à cegueira. Fatal e lentamente.

Becker foi assassinado, até hoje não se descobriu nem quem o matou nem quem mandou matá-lo, e uma outra vida está se perdendo: a da menina caolha que está ficando cega.

Becker conhecia o médico de Goiânia que parece ser a derradeira salvação. Não é Dr. Joaquim Xavier, amigo de Becker, que por minhas instâncias também se interessou à época pela questão dramática?

Ocorre que a menina está ficando cega aos poucos e ninguém mais tomou providências. Ao SUS parece que não adianta apelar: os brasileiros ficam cegos, ficam aleijados, ficam mudos, ficam surdos, ficam mutilados, e o SUS a tudo assiste olimpicamente.

Vem a calhar o advérbio “olimpicamente”. Enquanto vão realizar uma Olimpíada que custa centenas de bilhões de reais, o SUS assiste olimpicamente aos brasileiros morrerem nas filas de cirurgias e consultas que ele erigiu.

Pois bem, num gesto de desespero e impotência, mas baseado numa humilde esperança, apelo ao Cremers, ao Sindicato Médico, à Amrigs, para que unam esforços para salvar essa menina da cegueira, acho que ainda dá tempo.

Se ainda assim não atenderam a meu apelo, consulto as entidades empresariais, os empresários individualmente, se poderiam pagar uma quantia que posso chamar de pequena para levar essa menina a Goiânia e talvez operá-la, salvando seu olho e salvando a mocinha da cegueira.

Se ainda assim não for atendido, por maçante e desconfortável, meu apelo, conclamo o Rotary e o Lyons a estenderem suas mãos a essa pequena sofredora, cujos pais assistem cruentamente à visão da filha indo embora aos poucos.

O que estava a meu alcance fazer, estou fazendo nesta coluna.

Deus não mandou ninguém fazer, mandou tentar. E eu estou tentando fazer e torcendo para que me acorde a partir de hoje cedo com a notícia de que alguém providenciou em socorro à menina.

A governadora Yeda Crusius bem que podia, por intermédio talvez do SUS ou de outra entidade pública ligada à Saúde, intentar um amparo a essa menina. Eu ficaria imensamente grato se todos os que citei, ou melhor, que algum entre os nomes citados estendesse a mão à menina e a ajudasse a ter fé e esperança na cura, com as bênçãos do Senhor e da Virgem Santíssima.

Por sinal, o secretário da Saúde estadual, Dr. Osmar Terra, se esse caso for parar em sua mesa, tenho a certeza de que será resolvido por sua proverbial sensibilidade humana e social.

Obrigado a todos. Deus lhes pague!


07 de outubro de 2009 | N° 16117
DAVID COIMBRA


O rei que não gostava de dançarinas

Tenho dois elevados motivos para escrever agora sobre o rei Ludwig II, além do de narrar sua singular história. Poderia discorrer sobre o avô dele, Ludwig I, e talvez até devesse. Era um pândego, o velho Ludwig. Apaixonou-se pela fogosa dançarina espanhola Lola Montez, e por ela perdeu sua fortuna e seu reino. Um homem que é arruinado por uma mulher merece respeito – trata-se de um homem movido por valores sólidos.

Ludwig II, como o avô, tornou-se rei da Baviera, abençoado estado da Alemanha que inventou a Oktoberfest e a cerveja Paulaner. Mas, ao contrário do avô, não era um apreciador de dançarinas, nem de bailarinas, nem de quaisquer fêmeas da espécie.

O jovem Ludwig gostava era de rapagões espadaúdos. Um deles em especial, certo escudeiro com quem manteve relacionamento bastante amistoso por mais de duas décadas. Quando esse escudeiro se casou (com uma mulher), o rei confessou a amigos que o casamento estava-lhe sendo mais doloroso do que a Guerra Franco-Prussiana.

Mas ninguém recebeu tanto amor do rei quanto um homem mais velho: o compositor Richard Wagner. Ludwig protegeu Wagner, quitou-lhe as contas, deu-lhe uma casa onde morar, inaugurou um teatro para representar as óperas de sua autoria e escrevia-lhe cartas abrasadoras, como se estivesse se correspondendo com uma amante. Tipo:

“Inquebrantável é o laço que nos une. Firme, sagrado, eterno e profundamente encantador o amor que por ti arde na minha alma”.

O rei era homossexual, óbvio. Porém, é provável que não tenha perdido a virgindade durante seus parcos 41 anos de vida. Chegou a anunciar o casamento com uma linda priminha, mas desistiu pouco antes da cerimônia, alegando que preferia se afogar num lago dos Alpes a partilhar o leito com uma mulher.

Ludwig sublimou sua repressão sexual de uma forma que só um rei pode fazer: construindo castelos. Consumiu todos os marcos do tesouro real erguendo castelos em meio às nuvens do alto das montanhas da Baviera.

São construções de questionável gosto arquitetônico, mas de inegável imaginação infantil, o que é um mérito, afinal, toda imaginação é infantil. Hoje, mais de 120 anos depois da morte de Ludwig, seus castelos encantam o mundo. Um deles tornou-se célebre ao servir de modelo para a Disney criar o castelo da bruxa arqui-inimiga da Cinderela.

Construir castelos nababescos não foi o suficiente para aplacar as angústias do rei. Aos poucos ele foi se isolando do mundo. Dormia durante o dia e acordava à meia-noite para cavalgar pelos campos reais.

Abraçava ternamente certa coluna de certo castelo, conversava com determinada árvore de determinada floresta, ouvia vozes. Lideranças alemãs cogitaram de declará-lo impedido de governar, mas teriam que passar a coroa para seu irmão mais novo, Otto, e Otto vinha se comportando de maneira ainda mais estranha do que Ludwig nos últimos dias: vez em quando, o príncipe Otto latia para as visitas.

A solução foi transferir o governo para um tio de Ludwig que era mais velho, não falava com árvores e não latia nem rosnava. Um psiquiatra diagnosticou que o rei estava perturbado e Ludwig foi aprisionado em seu próprio castelo.

Um dia, ele e o psiquiatra passeavam pelos jardins e não mais retornaram. Depois de horas de buscas, os corpos de ambos foram encontrados num lago das imediações. Ludwig morreu afogado; o psiquiatra tinha marcas de ter sido agredido. Ninguém jamais descobriu o que aconteceu. Ludwig foi um mistério até na hora da morte.

Eis o resumo da vida de Ludwig II. Fi-lo por dois motivos, como já disse. O primeiro é pelo imeil que recebi de uma leitora, e que reproduzo abaixo:

“Sou sua leitora, ou leitorinha, como costuma definir. Leio o blog, livros, adoro as historias da Jô. Hoje, dia 3 de outubro, assisti ao Café TVCOM. Me encantei com a história que tu tentaste contar sobre o rei Ludwig II, da Baviera.

Peço, humildemente, que faças uma crônica sobre esse rei, pois achei interessante demais a história dele. Usando da psicologia benéfica, argumento que já morei no IAPI e foram os anos mais felizes da minha vida. Se não adiantar, confesso que estou partindo para uma jornada de radioterapia e quimioterapia, após a retirada de um nódulo na mama esquerda. Chantagem emocional maior que essa acho que não há.

Silvia Kuchta”

Sou sensível a chantagens emocionais, como se vê. Mas o segundo motivo pode ser comportado nas páginas esportivas. É que, como se percebe pela história de Ludwig, o problema não é o país ter dinheiro; o problema é como o gasta.

Na Baviera de Ludwig não havia corrupção, mas o rei dissipava os fundos do tesouro em castelos de sonho.

Antes que sejam dissipados em ginásios, estádios, metrôs, avenidas, estacionamentos e segurança pública. Sou a favor da realização da Olimpíada no Rio.

terça-feira, 6 de outubro de 2009


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Bolsistas do Prouni estudarão em Salamanca

Cerca de 40 alunos do Prouni (Programa Universidade para Todos) irão estudar na Universidade de Salamanca, na Espanha. O acordo entre o MEC e a universidade deve valer já para o ano que vem.

A princípio, o governo brasileiro deve dar a eles uma bolsa mensal para que consigam se sustentar no país. Esse valor ainda não foi definido.
Também falta decidir a forma de seleção dos alunos e questões como a duração dos estudos no exterior.

O acordo seria assinado nesta semana, mas a data foi adiada porque, devido à fraude no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o ministro Fernando Haddad não pôde viajar à Espanha.

Uma das iniciativas de maior visibilidade do governo Lula, o Prouni paga o total ou 50% da mensalidade em cursos de graduação oferecidos por instituições particulares para alunos carentes. Para participar, os estudantes devem ter renda familiar mensal de, no máximo, três salários mínimos.

Pós-graduação

A Universidade de Salamanca também deverá inaugurar entre 2010 e 2011 uma pós-graduação em estudos brasileiros. Segundo o diretor do Centro de Estudos Brasileiros da instituição, Gómez Dacal, uma parte dele seria feita no Brasil e outra, na Espanha.

Uma gostosa terça-feira hoje ainda que com chuva outra vez e, para quem está de folga hoje uma ótima folga.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Vamos enforcar 2015!

Tá tudo pronto: Vanusa pro Hino Nacional e Marcelo D2 acendendo a pira olímpica!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Frase da semana: Copa 2014 e Rio 2016. OBA! Vamos enforcar 2015. Essa é nova campanha nacional: Vamos Enforcar 2015!. E o meu PGN (Partido da Genitália Nacional) vai lançar a campanha Rio 2016!

Vamos pegar uma gringa! Argentina não vale. E adivinha quem vai cantar o Hino Nacional na Olimpíada? A Vanusa. E quem vai acender a pira olímpica? Marcelo D2! Tá tudo pronto: Vanusa pro hino e Marcelo D2 acendendo a pira! Ou então o Lula mesmo. Acende a tocha no BAFO!

Aliás, e o Lula, hein? Esse tá com tudo! Como diz o outro: "O Lula nasceu com o LU pra LUA!". Rarará! E como o chargista Marco Aurélio revela: "Só falta ele trazer a eleição do papa pra Aparecida!".

E uma vidente jogou os búzios e chegou à conclusão de que depois do Rio 2016 vem o Eunãosabiadenada 2017, CPI 2018, Pizza 2019 e Fora Sarney 2020.

E diz que CPI é tão útil ao país quanto a buzina em avião. E diz que vai ser assim: Rio 2016 tiros por minuto. Rarará. A gente não vai deixar de sacanear o Rio, né! E eu quero participar da Olimpíada no Rio.

Quero ouro em sandália Havaianas e bicicleta ergométrica! O PUM ASSASSINO! O FIOFÓ BOMBA! Manchete do "Le Figaro": "Supositório-bomba é a nova arma do Al Qaeda!".

Então eu vou botar um ovo bomba. Já temos o homem-bomba, a mulher-bomba (aquela que você tem em casa), bicicleta-bomba, vaca-bomba e traveca-bomba. Traveca-bomba é aquela que você pega na rua pensando que é mulher e na hora H ela mostra A BOMBA! E já temos a companheira-bomba: Heloísa Helena.

E diz que lá no Iraque tem autoescola pra motorista de carro-bomba! Melhor, ainda tem carro pra explodir no Iraque? É mole? É mole, mas sobe. Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Conceição dos Ouros tem um inferninho chamado Belisca a Égua. Esse parece Dias Gomes. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Tripulante": companheiro que na Olimpíada vai dar um salto triplo! Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

MARCOS NOBRE

Lula vai de Ciro

A ESTRATÉGIA parecia boa.

Lula usou sua enorme popularidade para antecipar a disputa presidencial em mais de dois anos e impor uma candidata e uma estratégia em que a eleição seria um plebiscito sobre seu governo.

Não deu certo. Essa estratégia só teria chance de funcionar em um confronto direto e único. E esse cenário já não existe: Ciro veio para ficar. Ainda assim, Lula continua insistindo na mesma estratégia.

Quer agora selar o quanto antes o apoio do PMDB. E tenta neutralizar Ciro.

No final, Lula pagou e vai continuar a pagar um preço extorsivo pelo apoio do PMDB. Conseguirá essa aliança. E a candidatura Dilma será abandonada pelo PMDB assim que começar a patinar.

A lógica tradicional do sistema político se impôs. Conforme o calendário de Brasília, só um ano antes da eleição o quadro sucessório começa a ficar um pouco mais claro. A fidelidade partidária virou piada: nem precisou do disfarce de uma reforma política. Como poças depois da chuva, aparecem as legendas-estacionamento, com políticos esperando o desfecho para aderir à candidatura vencedora.

Enquanto o PT conseguiu apenas filiações simbólicas -como as do empresário Ivo Rosset e do ministro Celso Amorim-, o PSB atuou como se já estivesse fazendo coalizões de governo. Ignorou os desdobramentos da Operação Castelo de Areia da PF, que envolveu seu mais novo filiado, Paulo Skaf.

Não tomou conhecimento das críticas generalizadas à atuação do ex-secretário da Educação Gabriel Chalita.

Esse contraste fica ainda mais dramático quando se vê que Lula perde a cada dia o poder de influenciar as sucessões estaduais. Com a consolidação da candidatura de Ciro, os palanques estaduais vão se pulverizar. A lógica do cada um por si vai acabar se impondo.

Até seis meses atrás, Dilma teve chances de conseguir que Ciro fosse candidato a vice em sua chapa.

Hoje, pode no máximo pretender ser vice de Ciro. Porque Ciro reconheceu o óbvio: que o candidato da oposição é favorito. E Ciro é o autêntico anti-Serra. Tem muito mais legitimidade que Dilma para fazer o confronto no campo do governo FHC, que é para onde pretende levar Serra.

Ninguém tem a mais remota ideia de onde estava Dilma durante o governo FHC. Ciro esteve na posição chave de ministro da Fazenda no final do governo Itamar.

E foi crítico do governo FHC durante oito anos. Dado seu estilo, sua defesa do governo Lula no confronto com o governo FHC terá ares de confronto histórico. E, no final, não vai restar a Lula outra opção que não a de aderir à candidatura de seu ex-ministro.

nobre.a2@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Caça ao vice

BRASÍLIA - O verbo da escolha do vice é "agregar". Mulheres costumam escolher vices homens, vices mulheres são benvindas, candidatos jovens procuram vices mais velhos, velhos optam por novos, pobres escolhem ricos, e vice-versa.

Se o candidato é forte no Nordeste, busca um vice do Sul. Se é no Sul, inverte a direção. Se é de um partido pequeno, corre atrás de um vice que possa trazer minutos na TV e palanques nos Estados.

Nessa fase de pré-candidatos e de pré-alianças, Dilma parece ter se fixado em Michel Temer, que "agrega" o PMDB. É o partido mais disputado, porque nunca tem candidato, mas tem uma penca de vices na vitrine, ramificação nacional, as maiores bancadas no Congresso e o maior tempo de TV.

E Temer tem algo mais: é de São Paulo, onde ficam Serra, favorito nas pesquisas, e Orestes Quércia, líder do PMDB pró-tucanos. Pode garantir a aliança formal com o PMDB nacional, rachar de vez o PMDB paulista e cutucar os tucanos na sua principal base.

No caso de Serra, o DEM lhe ofereceria os vices Kátia Abreu, José Roberto Arruda e Rodrigo Maia, mas sabe que todos lucram mais com uma "chapa puro sangue", com Aécio Neves na vice. Um tem São Paulo, o outro tem Minas. Juntos poderiam equilibrar a força de Lula no Norte/Nordeste e no Rio, ainda mais com a Olimpíada. Depende de Aécio, que se faz de difícil.

Com Ciro, tudo é uma incógnita, até a candidatura. Pode ser ao governo de São Paulo, pode ser a presidente -acertado com Lula ou contra Dilma. O ideal seria Ciro presidente, Carlos Luppi na vice, puxando o PDT. Mas Luppi é volúvel. Está entre Dilma, Ciro e Marina.

Marina agrega valor à sua chapa ao levar empresários para o PV e sinaliza que seu vice pode ser o ambientalista Guilherme Leal, da Natura, que reforça o que ela já tem de forte: boa imagem, boa causa. Mas sem palanques e sem tempo na TV.
É bonito, mas pouco para ganhar.

elianec@uol.com.br

segunda-feira, 5 de outubro de 2009



05 de outubro de 2009 | N° 16115
KLEDIR RAMIL


Síndrome de Otto

Se você é daqueles que entra no carro, gira a chave e acha que uma força sobrenatural move o veículo, lamento informar-lhe, não existe mágica. O giro da chave aciona um motorzinho elétrico que dá partida ao motorzão, uma máquina extremamente complexa e sofisticada, mas que ainda utiliza o mesmo velho princípio, desde que foi inventada, há mais de um século.

Vou tentar explicar. O coração do seu automóvel chama-se motor à combustão interna. Esse mastodonte é um bicho que aspira ar e gasolina, joga essa mistura dentro de um cilindro e comprime com um pistão.

A mistura, em alta pressão, recebe uma faísca que provoca uma explosão, forçando o pistão a um movimento no sentido contrário. O princípio básico é esse. Apaixonados por mecânica, como eu, conseguem até ver poesia no sincronismo dessa coreografia de válvulas, pistões e virabrequim.

O motor de combustão interna foi inventado pelo alemão Nikolaus Otto, em mil oitocentos e lá vai pedrada. É uma máquina obsoleta. Se alimenta de petróleo, polui a atmosfera e, pasmem, chega a gastar 80% da energia que produz, só para consumo interno. Isso mesmo, o atrito é tão grande, gera tanto calor, que sobra pouca energia pra prestar algum serviço, como movimentar um carro, por exemplo. Ao contrário do motor elétrico, que tem um aproveitamento muitas vezes melhor.

Ou seja, o motor do Otto é uma máquina que gasta quase tudo o que produz só para conseguir se manter funcionando. São os mesmos sintomas de uma patologia que se observa na máquina administrativa de certos governos e também na vida de muita gente.

Será que estamos vivendo só pra pagar as contas, pra conseguir chegar até o fim do mês? Não sobra nada? Será que a gente trabalha só pra sobreviver, pra conseguir se manter em pé? Se é assim, em que momento a gente vive? John Lennon dizia que “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos para o futuro”.

Quando a gente se dá conta, já foi, passou. Mario Quintana escreveu: “A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê, passaram-se 50 anos!”.

Onde foi que se gastou tanta energia? Com que finalidade? Acho que vou repensar o modelo. Vou tentar evoluir para um sistema de vida inspirado no motor elétrico.

Uma gostosa segunda-feira e uma linda semana para você especialmente minha amiga