quinta-feira, 8 de outubro de 2009



08 de outubro de 2009 | N° 16118
L. F. VERISSIMO


O horror dos detalhes

Na peça Henrique V, de Shakespeare, há uma cena que diverge do tom de celebração do resto. Boa parte da peça é sobre a famosa batalha de Agincourt, em que um exército inglês liderado por Henrique V derrota um exército francês cinco vezes maior, no dia de São Crispim, e Shakespeare dá ao rei várias falas exaltando o feito dos poucos afortunados como ele – “we few, we happy few” –, cuja coragem e caráter asseguraram a vitória. A peça é um elogio às virtudes peculiares da nobreza inglesa incorporada em Henrique – o que torna mais curiosa a cena destoante.

Tão destoante, que foi sendo cortada ou atenuada através dos anos e não aparece nas duas versões para o cinema, feitas por Laurence Olivier em 1944 e Kenneth Branagh em 1989. É uma cena de atrocidade. O rei ordena o massacre de prisioneiros franceses, que são degolados.

A chacina não apenas desmente todas as belas palavras de Henrique sobre o caráter do seu bando de irmãos, como contraria o código de honra que norteava o comportamento de cavaleiros cristãos nas guerras medievais (mas só contra outros cristãos, como prova o que aprontaram contra os árabes nas Cruzadas).

Talvez Shakespeare, colocando um massacre nada honrado no meio da sua peça mais ufanista, estivesse sendo matreiramente irônico com seus conterrâneos. Ou apenas quisesse lembrar que na celebração de grandes vitórias militares, a exaltação esquece o sangue e as belas palavras costumam esconder o horror dos detalhes.

A fala de Henrique ordenando o massacre é um lacônico “Que cada soldado mate seus prisioneiros. Passe a palavra adiante”. Sem preâmbulo, sem explicação, sem qualquer elaboração. A terrível singeleza da frase até justifica o fato de a cena ter sido frequentemente omitida, já que parece tão inconsequente – a não ser para os degolados, claro.

O próprio Henrique não menciona mais o incidente, banido, até Shakespeare resgatá-lo cem anos depois, da sua biografia.

Que não seria muito longa. Ele se casaria com a filha do rei francês e seria nomeado herdeiro do trono da França, mas morreria pouco depois, aos 35 anos de idade. O que conquistara com tanto sangue foi recuperado pela França, sob a liderança de Joana D’Arc.

Que vingou a derrota humilhante em Agincourt e cuja vitória é celebrada até hoje como a manifestação de um certo espírito peculiarmente francês, esquecidos todos os detalhes sangrentos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


VINICIUS TORRES FREIRE

A grande inflação de camelos

Austrália dá a largada da alta de juros no G20, indústria emergente cresce e mercado surta com ideia de inflação

NESTE ANO , a notícia mais notável, para não dizer comovente, a respeito da Austrália foi a ameaça de um grande massacre de camelos. Parece haver uma grande inflação do ruminante no interior australiano. Um estimado milhão de camelos come a escassa vegetação do país, e assim disputa recursos com os rebanhos. Cogitou-se, portanto, um massacre organizado desse animal tão simpático, importado pelos australianos no século 19.

Essa era a notícia mais notável até ontem, quando o Banco Central da Austrália elevou a taxa básica de juros do país, contra os prognósticos de 95% dos ditos analistas de mercado. A Austrália foi a economia desenvolvida que menos sofreu com a crise. Como havia cortado os juros para o menor nível em 49 anos, para 3%, o BC deles decidiu que a taxa estava excepcionalmente abaixo do "nível de equilíbrio".

A Austrália tinha, antes da crise, uma das taxas mais altas no mundo rico (7,25%), disputando a liderança com a Nova Zelândia, um dos motivos pelos quais se especulava bastante com a sua moeda. As exportações australianas também dependem muito de recursos naturais, como ferro. Pode-se perguntar, "e daí a Austrália"?

Juros, câmbio e as exportações australianos têm certa semelhança com o do Brasil (desistimos de importar camelos, apesar de uma tentativa no Ceará). Nós e os australianos também dependemos muito do consumo chinês. Mas, mais importante, os juros australianos motivaram ontem muita especulação, baseada num surto de inflacionite.

Para os surtados, a Austrália elevar os juros foi um "sinal" de que a economia mundial entrou nos trilhos, que acabou o risco de deflação, que de uma vez por todas "commodities" é um mercado para se estar e especular.

Mais: que o diferencial de juros entre EUA e resto do mundo aumentará, que é bom vender dólar e comprar ativos de países vendedores de commodities. Também influenciou o surto a notícia de que um índice calculado pelo HSBC apontou que a atividade industrial dos emergentes no terceiro trimestre de 2009 foi a maior desde o segundo trimestre de 2008.

No resumo da ópera, aumentou o desejo de comprar ativos de risco, como ações, e embarcar no trem da "recuperação global", antes que tudo fique caro. Ativos que funcionam como proteção contra a inflação e contra a queda do dólar inflaram: petróleo, ouro, platina, prata, cobre etc. subiram.

O dólar afundou mais, empurrado ainda por uma notícia de que países petrolíferos estariam a combinar o banimento do dólar como moeda das transações de petróleo. Real e outras "commodity currencies" subiram: dólares australianos e canadenses e o real, por exemplo. O dólar só não caiu ante a libra esterlina (entre as moedas relevantes), que tropeça como a economia britânica.

Ressalte-se a palavra "surto". O "fundo do poço" mal chegou para EUA e Europa. Não se sabe o que será do consumo depois que passar o efeito maior dos incentivos fiscais.

Não se sabe qual será o resultado das empresas daqui para o começo de 2010 (muito resultado foi inflado por corte pontual de custo ou por ajuda estatal mesmo). Logo, pouco se sabe sobre a "recuperação global". Mas continua o surto dos mercados, dopados por dinheiro barato.

vinit@uol.com.br

MARCELO COELHO

Inocências de classe média

Tudo o que se diz a respeito de direitos humanos dos presos caiu em descrédito para a maioria da população

UMA DAS ironias da Rio-2016 é que nosso filme promocional em Copenhague foi feito pelo cineasta Fernando Meirelles. Trata-se de um talento e tanto, e seu trabalho deve ter contribuído para a decisão do Comitê Olímpico.

Sou do tempo em que as salas de projeção, de vez em quando, trocavam os rolos dos filmes. Felizmente, com as técnicas digitais, isso deixou de acontecer. Porque fico imaginando se, por equívoco, tivessem projetado cenas do premiado "Cidade de Deus", do mesmo Meirelles, em vez de uma produção simpática à Cidade Maravilhosa.

Mas não quero ser espírito de porco (pelo menos não completamente). Os tempos são outros. A euforia em torno da Olimpíada já leva algumas pessoas a acreditarem que até o problema das favelas estará resolvido em 2016.

É mais um capítulo do fenômeno que comentei na semana passada. Hasteamento de bandeira nas escolas, pré-sal, Brasil no G-20, Olimpíada no Rio: em meio a tantas manifestações de entusiasmo, gostei de ter assistido ao filme "Salve Geral", de Sérgio Rezende. O tema, antes que me acusem de bairrismo, são os ataques do PCC em São Paulo, em 2006.

Como em outros filmes brasileiros do gênero ("Tropa de Elite" e o próprio "Cidade de Deus"), houve quem visse em "Salve Geral" muita espetacularização da violência, quando não alguma velada apologia do crime organizado.

Minha tendência é sempre discordar desse tipo de críticas. Qualquer tentativa cinematográfica de retratar essa realidade está obrigada a dar um mínimo de razões, de motivos, para que os personagens façam o que fazem. E, diga-se de passagem, "Salve Geral" é bem menos violento do que seus congêneres.

Claro que alguns chefões do "Partido", como eles dizem, entoam um discurso a favor da paz e dos direitos humanos, reclamando, com toda a razão, de um sistema prisional que, em boa medida, se assemelha aos campos de concentração nazistas. Mas nenhum espectador, vendo a cara daqueles facínoras, há de tomar esse discurso pelo valor de face. O que incomoda é justamente isso.

Tudo o que se diz a respeito de direitos humanos dos presos caiu em descrédito para a vasta maioria da população brasileira. A fraseologia, deixada ao deus-dará, terminou sendo objeto de apropriação por parte do crime organizado; e seu valor real não é nem maior nem menor do que quando utilizada por muitas autoridades constituídas.

Não, o problema de "Salve Geral" não é fazer a apologia do PCC; talvez seja, na verdade, o de fazer uma apologia da classe média. Andréa Beltrão é uma professora de piano cuja situação financeira vai de mal a pior. Seu filho, um bocado bestalhão, termina preso e se envolve com o PCC. Aos poucos, a mãe entra em contato com uma advogada (Denise Weinberg) que centraliza em seu escritório rebeliões de presos, tráfico de drogas nas prisões, sentenças compradas na Justiça.

É esta personagem, chamada de Ruiva, o verdadeiro eixo da narração do filme. O problema de "Salve Geral" é que, por razões compreensíveis, Sergio Rezende quis conquistar a empatia do espectador, criando uma professora de classe média para facilitar nossa identificação emocional com a trama.

O filme seria melhor se não procurasse criar nenhuma identificação. Pois a situação da mãe-protagonista acaba girando em falso.

Tem de ser passiva diante dos acontecimentos, para que aceitemos o pressuposto de sua inocência, de sua neutralidade ética. Só que, com isso, torna-se uma personagem sensata demais para as encrencas em que se mete.

Uma mãe verdadeiramente enlouquecida e descompensada seria mais convincente, mas poderia perder a simpatia da plateia.

Mas a realidade mostrada pelo filme é de tal ordem que não é possível ao espectador identificar-se com ninguém. Tanto que a melhor personagem, a mais interessante, a mais dotada de autonomia, é a antipática e perigosa advogada vivida por Denise Weinberg. Mas talvez eu esteja completamente errado nessa crítica.

A protagonista meio apatetada do filme não está ali para despertar nossa empatia: está precisamente no lugar incômodo, quase inexistente, que corresponde à classe média na vida real.

Vê a conflagração e o crime à sua volta e não tem certeza de nada. Não é que deixe de agir: age passivamente, a exemplo de qualquer um de nós, esperando que tudo possa se acertar um dia. Talvez em 2016, por que não?

coelhofsp@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Rio 2016! Tamo em ponto de bala!

Já temos ouro em assalto triplo, 1.500 m com bolsa de turista e revezamento de celular roubado

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! É que em Santo André tem um urologista chamado Reinaldo Sacco. Isso não é vocação, é predestinação!

Eu tenho uma teoria, há pessoas que nascem predestinadas. Como o ginecologista paraibano O.B. Tavares. E a diretora do presídio de Piracicaba, Elisa Mettefogo! Rebelião? Chama a Elisa Mettefogo! E a psicóloga gaúcha Renata Kulpa! Perfeito. "Ai, doutora, comi uma picanha e tá me dando uma Kulpa."

E o Rio 2016? Diz que no dia da vitória tinha 150 mil cariocas na praia. Normal. Cento e cinquenta mil na praia é dia normal. Isso não é notícia! E aí liguei prum amigo carioca: "E aí, preparados pra Olimpíada?". "Sim, tamo em ponto de bala." Rarará!

E o Brasil já tá com três ouros garantidos: assalto triplo, corrida de 1.500 m com bolsa de turista e revezamento de celular roubado. E o Galvão vai ganhar ouro em berro, grito e ganido. Grito de Tarzan querendo comer a Chita! E o Lula é ouro em assalto orçamental!

E chega a Honduras a missão da OEA para um acordo: a gente só entrega o Zelaya se eles perdoarem a conta da luz, água, telefone, faxineira. Despesas da pensão. Da Embaixada da Mãe Joana. E nunca mais pagar IPTU da embaixada!

E dizem que o Rio é desorganizado. Não é. Corre na internet as placas das ruas, em português e inglês: Morro do Alemão: German Mountain. Encantado: Nice to Meet You. Botafogo: Set Fire. Benfica: Nice Stay.

Olaria: Hello, Smile! Hey Dude, You Lost It. Perdeu, playboy! Rarará! Olimpíada em São Paulo nunca ia dar certo. Os atletas iam ficar engarrafados. Um ficava nadando até o outro chegar! E sabe como vai ser a abertura? 12h20: estouro de fogos pra avisar que chegou a droga.

16h30: juramento, os dirigentes vão jurar que nenhuma obra foi superfaturada. É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber um exemplo irado de antitucanês.

É que em Suassuna, no Ceará, na frente do cemitério, na porta da casa do coveiro tem a placa: "Fornecemos marmita". Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula.

O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enfronhada": companheira feia (pleonasmo) que botaram uma fronha na cara. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br


07 de outubro de 2009 | N° 16117
MARTHA MEDEIROS


O direito ao sumiço, parte 2

Em janeiro de 2008 publiquei uma crônica chamada “O direito ao sumiço”, onde eu falava sobre pessoas que viajam, mas são incentivadas a mandar notícias a todo instante, seja por e-mail, MSN, Skype ou o que for. Uma ansiedade que não havia antes: quando alguém embarcava pra longe, no máximo enviava uma carta, ou um cartão-postal, telefonava de vez em quando, mas ainda conseguia se sentir livre e sozinho, distante de todos e mais próximo de si mesmo.

Hoje, com toda a parafernália tecnológica à disposição, você não consegue desaparecer: é facilmente acessado, esteja no continente que estiver. Vantagem para quem ficou e sente saudade, mas o viajante que não se desconecta perde uma rara oportunidade de levar a cabo a frase que tantas vezes é dita quando estamos sobrecarregados: “Que vontade de dar uma sumida”.

Isso me veio à mente quando li as notícias sobre esse estranho caso da France Telecom. No espaço de um ano e meio, 24 funcionários da empresa se suicidaram, sem contar os 13 que tentaram se matar e não obtiveram sucesso – acho que sucesso não é a palavra mais adequada pra situação, mas enfim.

Eu não conheço os pormenores do assunto, mas me chamou a atenção o fato de a morte desses funcionários estar vinculada às condições de trabalho: todos se sentiam demasiadamente pressionados. Até aí, não vejo justificativa pra dar fim à vida, a pressão faz parte do meio corporativo em qualquer lugar do planeta, mas há um ponto que merece ponderação: a avalanche de mensagens que lotavam seus computadores e blackberry foi relacionada ao profundo estresse que os acometia.

Faz sentido. Algumas pessoas não conseguem mais distinguir o que é vida pessoal e o que é vida profissional. Estão permanentemente conectadas com os outros, a ponto de perder a conexão consigo próprias.

O blackberry, por exemplo (eu sei que ele já está obsoleto, mas eu também estou, conformem-se), me parece infernal: sei de gente que acorda de madrugada para checar e-mails, numa atitude totalmente compulsiva e insana. As pessoas se sentem agoniadas quando ficam fora de alcance.

É como se o isolamento, o silêncio e a privacidade expatriassem a criatura, a impedissem de estar em meio aos acontecimentos. É uma inversão total de percepção: só nos sentimos vivos quando acionados pelos que estão de fora. Parece até que dentro de nós não acontece nada, não há nenhuma novidade a descobrir.

Óbvio que deve haver outros motivos para a onda de suicídios dos funcionários da France Telecom, mas esse vício de ficar conectado 24 horas, seja por mania ou por exigência profissional, merece uma reflexão.

Não podemos perder nosso direito ao sumiço, de dar aquela escapada saudável, que pode acontecer tanto numa viagem como aqui, no dia a dia, bastando pra isso não acessar a internet, desligar o celular e curtir a tão necessária companhia de si mesmo.

Do contrário, vão pipocar mais casos de gente que surta e acaba saltando da ponte como única alternativa de dar uma sumida.

Uma excelente quarta-feira para todos nós. Aproveite o dia.


07 de outubro de 2009 | N° 16117
JOSÉ PEDRO GOULART


Let the sunshine in

Este é um pequeno depoimento de viagem. O sol está intenso aqui em Nova York, agora, enquanto escrevo. Depois de uma semana aqui, meus pés doem, mas há recompensas. Foram dias de caminhadas e noites musicais que começaram de frente, com o trompete do Roy Hargrove e terminaram de costas, com a bunda da Lady GaGa.

Trata-se de um lugar vagabundo, ordinário: sem janelas, enclausurado. É tudo o que se pode afirmar sobre o The Jazz Gallery. Ficamos no frio uns 40 minutos, eu e a Ana Maria, do lado de fora, à espera de que abrissem as portas. Subimos e opa! Primeira fila.

O clube ordinário parecia servir ao propósito de causar contraste. Hargrove, dois Grammy, parceiro de caras com Herbie Hancock, Wynton Marsalis, entrou em transe – posso afirmar, eu estava a um metro dele. E os músicos o acompanhavam na viagem. Meu testemunho só vai até aqui. O êxtase me desprendeu.

Do lixo (chique) para o luxo (brega): Hair na Broadway. O espetáculo símbolo de uma geração agora se transformou nisso: um espetáculo símbolo de uma geração. Não a dos jovens atores que estavam no palco, cantando, tirando a roupa, propagando o amor livre sem saber direito o que isso significou.

Mas a dos pais deles. De maneira que o Hair, antes uma peça de contestação, hoje é só um espetáculo colorido, com aquelas musiquinhas, e uma simulação infantil de uso de drogas e da disposição ao sexo.

Mas espere! Há uma luz que vem do fim do túnel do meu passado afetivo; no final, cantando Let the Sunshine in, o elenco incentiva que o público suba no palco. (Em viagens, uma parte importante do nosso senso de ridículo é neutralizada.) De modo que foi assim, cantando, pulando, que estreei na Broadway.

Congratulations, ouvi no dia seguinte de desconhecidos. Será? Não, não era para mim, saiu o resultado: “Rio 2016”, todos brasileiros recebiam cumprimentos. À noite, desse mesmo dia, um espetáculo inesquecível no Lincoln Center, Dave Brubeck e João Carlos Martins. Brubeck, 89, foi ovacionado por mais de 10 minutos; depois João Carlos Martins regeu, emocionado, uma emocionante versão do Hino Nacional Brasileiro.

Última noite: Lou Reed, Laurie Anderson, Bono Vox, Courtney Love, Scarlet Johanson e outros tantos cruzaram o palco do Carnegie Hall com a mesma profusão dos pedestres na Quinta Avenida. Era um show beneficente de amigos, essas coisas.

E ainda apareceu a Lady GaGa. Eu nem sabia quem era direito, mas ela entrou “de maiô”, sentou ao piano, abriu a boca e a voz da criatura preencheu o teatro. Depois, levantou-se, deu as costas (uau!) e saiu. Bem, lá fora o sol continua forte. Let sunshine in.


07 de outubro de 2009 | N° 16117
PAULO SANT’ANA


Uma ajuda cristã

Quando morreu pelas balas assassinas na Rua Ramiro Barcelos, há quase um ano, o médico Marco Antônio Becker, que era ex-presidente do Cremers, tinha sido encarregado por um pedido meu: que salvasse a vida da menina Franciele Cunha Brandão, residente à Rua Fernando Abott, 715, POA.

Por ser oftalmologista, procurei-o para salvar o último olho da menina, que desde a nascença possuía glaucoma nas duas vistas e já perdera um olho pela doença, restando-lhe apenas o outro.

Becker deparara com o problema de que não há médico nem equipamento para salvar o olho dessa menina em Porto Alegre, é quase certo que um destacado oftalmologista de Goiânia, que também atende em Brasília, muito conhecido no meio médico, pode tratar da doença que está levando a menina fatalmente à cegueira. Fatal e lentamente.

Becker foi assassinado, até hoje não se descobriu nem quem o matou nem quem mandou matá-lo, e uma outra vida está se perdendo: a da menina caolha que está ficando cega.

Becker conhecia o médico de Goiânia que parece ser a derradeira salvação. Não é Dr. Joaquim Xavier, amigo de Becker, que por minhas instâncias também se interessou à época pela questão dramática?

Ocorre que a menina está ficando cega aos poucos e ninguém mais tomou providências. Ao SUS parece que não adianta apelar: os brasileiros ficam cegos, ficam aleijados, ficam mudos, ficam surdos, ficam mutilados, e o SUS a tudo assiste olimpicamente.

Vem a calhar o advérbio “olimpicamente”. Enquanto vão realizar uma Olimpíada que custa centenas de bilhões de reais, o SUS assiste olimpicamente aos brasileiros morrerem nas filas de cirurgias e consultas que ele erigiu.

Pois bem, num gesto de desespero e impotência, mas baseado numa humilde esperança, apelo ao Cremers, ao Sindicato Médico, à Amrigs, para que unam esforços para salvar essa menina da cegueira, acho que ainda dá tempo.

Se ainda assim não atenderam a meu apelo, consulto as entidades empresariais, os empresários individualmente, se poderiam pagar uma quantia que posso chamar de pequena para levar essa menina a Goiânia e talvez operá-la, salvando seu olho e salvando a mocinha da cegueira.

Se ainda assim não for atendido, por maçante e desconfortável, meu apelo, conclamo o Rotary e o Lyons a estenderem suas mãos a essa pequena sofredora, cujos pais assistem cruentamente à visão da filha indo embora aos poucos.

O que estava a meu alcance fazer, estou fazendo nesta coluna.

Deus não mandou ninguém fazer, mandou tentar. E eu estou tentando fazer e torcendo para que me acorde a partir de hoje cedo com a notícia de que alguém providenciou em socorro à menina.

A governadora Yeda Crusius bem que podia, por intermédio talvez do SUS ou de outra entidade pública ligada à Saúde, intentar um amparo a essa menina. Eu ficaria imensamente grato se todos os que citei, ou melhor, que algum entre os nomes citados estendesse a mão à menina e a ajudasse a ter fé e esperança na cura, com as bênçãos do Senhor e da Virgem Santíssima.

Por sinal, o secretário da Saúde estadual, Dr. Osmar Terra, se esse caso for parar em sua mesa, tenho a certeza de que será resolvido por sua proverbial sensibilidade humana e social.

Obrigado a todos. Deus lhes pague!


07 de outubro de 2009 | N° 16117
DAVID COIMBRA


O rei que não gostava de dançarinas

Tenho dois elevados motivos para escrever agora sobre o rei Ludwig II, além do de narrar sua singular história. Poderia discorrer sobre o avô dele, Ludwig I, e talvez até devesse. Era um pândego, o velho Ludwig. Apaixonou-se pela fogosa dançarina espanhola Lola Montez, e por ela perdeu sua fortuna e seu reino. Um homem que é arruinado por uma mulher merece respeito – trata-se de um homem movido por valores sólidos.

Ludwig II, como o avô, tornou-se rei da Baviera, abençoado estado da Alemanha que inventou a Oktoberfest e a cerveja Paulaner. Mas, ao contrário do avô, não era um apreciador de dançarinas, nem de bailarinas, nem de quaisquer fêmeas da espécie.

O jovem Ludwig gostava era de rapagões espadaúdos. Um deles em especial, certo escudeiro com quem manteve relacionamento bastante amistoso por mais de duas décadas. Quando esse escudeiro se casou (com uma mulher), o rei confessou a amigos que o casamento estava-lhe sendo mais doloroso do que a Guerra Franco-Prussiana.

Mas ninguém recebeu tanto amor do rei quanto um homem mais velho: o compositor Richard Wagner. Ludwig protegeu Wagner, quitou-lhe as contas, deu-lhe uma casa onde morar, inaugurou um teatro para representar as óperas de sua autoria e escrevia-lhe cartas abrasadoras, como se estivesse se correspondendo com uma amante. Tipo:

“Inquebrantável é o laço que nos une. Firme, sagrado, eterno e profundamente encantador o amor que por ti arde na minha alma”.

O rei era homossexual, óbvio. Porém, é provável que não tenha perdido a virgindade durante seus parcos 41 anos de vida. Chegou a anunciar o casamento com uma linda priminha, mas desistiu pouco antes da cerimônia, alegando que preferia se afogar num lago dos Alpes a partilhar o leito com uma mulher.

Ludwig sublimou sua repressão sexual de uma forma que só um rei pode fazer: construindo castelos. Consumiu todos os marcos do tesouro real erguendo castelos em meio às nuvens do alto das montanhas da Baviera.

São construções de questionável gosto arquitetônico, mas de inegável imaginação infantil, o que é um mérito, afinal, toda imaginação é infantil. Hoje, mais de 120 anos depois da morte de Ludwig, seus castelos encantam o mundo. Um deles tornou-se célebre ao servir de modelo para a Disney criar o castelo da bruxa arqui-inimiga da Cinderela.

Construir castelos nababescos não foi o suficiente para aplacar as angústias do rei. Aos poucos ele foi se isolando do mundo. Dormia durante o dia e acordava à meia-noite para cavalgar pelos campos reais.

Abraçava ternamente certa coluna de certo castelo, conversava com determinada árvore de determinada floresta, ouvia vozes. Lideranças alemãs cogitaram de declará-lo impedido de governar, mas teriam que passar a coroa para seu irmão mais novo, Otto, e Otto vinha se comportando de maneira ainda mais estranha do que Ludwig nos últimos dias: vez em quando, o príncipe Otto latia para as visitas.

A solução foi transferir o governo para um tio de Ludwig que era mais velho, não falava com árvores e não latia nem rosnava. Um psiquiatra diagnosticou que o rei estava perturbado e Ludwig foi aprisionado em seu próprio castelo.

Um dia, ele e o psiquiatra passeavam pelos jardins e não mais retornaram. Depois de horas de buscas, os corpos de ambos foram encontrados num lago das imediações. Ludwig morreu afogado; o psiquiatra tinha marcas de ter sido agredido. Ninguém jamais descobriu o que aconteceu. Ludwig foi um mistério até na hora da morte.

Eis o resumo da vida de Ludwig II. Fi-lo por dois motivos, como já disse. O primeiro é pelo imeil que recebi de uma leitora, e que reproduzo abaixo:

“Sou sua leitora, ou leitorinha, como costuma definir. Leio o blog, livros, adoro as historias da Jô. Hoje, dia 3 de outubro, assisti ao Café TVCOM. Me encantei com a história que tu tentaste contar sobre o rei Ludwig II, da Baviera.

Peço, humildemente, que faças uma crônica sobre esse rei, pois achei interessante demais a história dele. Usando da psicologia benéfica, argumento que já morei no IAPI e foram os anos mais felizes da minha vida. Se não adiantar, confesso que estou partindo para uma jornada de radioterapia e quimioterapia, após a retirada de um nódulo na mama esquerda. Chantagem emocional maior que essa acho que não há.

Silvia Kuchta”

Sou sensível a chantagens emocionais, como se vê. Mas o segundo motivo pode ser comportado nas páginas esportivas. É que, como se percebe pela história de Ludwig, o problema não é o país ter dinheiro; o problema é como o gasta.

Na Baviera de Ludwig não havia corrupção, mas o rei dissipava os fundos do tesouro em castelos de sonho.

Antes que sejam dissipados em ginásios, estádios, metrôs, avenidas, estacionamentos e segurança pública. Sou a favor da realização da Olimpíada no Rio.

terça-feira, 6 de outubro de 2009


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Bolsistas do Prouni estudarão em Salamanca

Cerca de 40 alunos do Prouni (Programa Universidade para Todos) irão estudar na Universidade de Salamanca, na Espanha. O acordo entre o MEC e a universidade deve valer já para o ano que vem.

A princípio, o governo brasileiro deve dar a eles uma bolsa mensal para que consigam se sustentar no país. Esse valor ainda não foi definido.
Também falta decidir a forma de seleção dos alunos e questões como a duração dos estudos no exterior.

O acordo seria assinado nesta semana, mas a data foi adiada porque, devido à fraude no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o ministro Fernando Haddad não pôde viajar à Espanha.

Uma das iniciativas de maior visibilidade do governo Lula, o Prouni paga o total ou 50% da mensalidade em cursos de graduação oferecidos por instituições particulares para alunos carentes. Para participar, os estudantes devem ter renda familiar mensal de, no máximo, três salários mínimos.

Pós-graduação

A Universidade de Salamanca também deverá inaugurar entre 2010 e 2011 uma pós-graduação em estudos brasileiros. Segundo o diretor do Centro de Estudos Brasileiros da instituição, Gómez Dacal, uma parte dele seria feita no Brasil e outra, na Espanha.

Uma gostosa terça-feira hoje ainda que com chuva outra vez e, para quem está de folga hoje uma ótima folga.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Vamos enforcar 2015!

Tá tudo pronto: Vanusa pro Hino Nacional e Marcelo D2 acendendo a pira olímpica!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Frase da semana: Copa 2014 e Rio 2016. OBA! Vamos enforcar 2015. Essa é nova campanha nacional: Vamos Enforcar 2015!. E o meu PGN (Partido da Genitália Nacional) vai lançar a campanha Rio 2016!

Vamos pegar uma gringa! Argentina não vale. E adivinha quem vai cantar o Hino Nacional na Olimpíada? A Vanusa. E quem vai acender a pira olímpica? Marcelo D2! Tá tudo pronto: Vanusa pro hino e Marcelo D2 acendendo a pira! Ou então o Lula mesmo. Acende a tocha no BAFO!

Aliás, e o Lula, hein? Esse tá com tudo! Como diz o outro: "O Lula nasceu com o LU pra LUA!". Rarará! E como o chargista Marco Aurélio revela: "Só falta ele trazer a eleição do papa pra Aparecida!".

E uma vidente jogou os búzios e chegou à conclusão de que depois do Rio 2016 vem o Eunãosabiadenada 2017, CPI 2018, Pizza 2019 e Fora Sarney 2020.

E diz que CPI é tão útil ao país quanto a buzina em avião. E diz que vai ser assim: Rio 2016 tiros por minuto. Rarará. A gente não vai deixar de sacanear o Rio, né! E eu quero participar da Olimpíada no Rio.

Quero ouro em sandália Havaianas e bicicleta ergométrica! O PUM ASSASSINO! O FIOFÓ BOMBA! Manchete do "Le Figaro": "Supositório-bomba é a nova arma do Al Qaeda!".

Então eu vou botar um ovo bomba. Já temos o homem-bomba, a mulher-bomba (aquela que você tem em casa), bicicleta-bomba, vaca-bomba e traveca-bomba. Traveca-bomba é aquela que você pega na rua pensando que é mulher e na hora H ela mostra A BOMBA! E já temos a companheira-bomba: Heloísa Helena.

E diz que lá no Iraque tem autoescola pra motorista de carro-bomba! Melhor, ainda tem carro pra explodir no Iraque? É mole? É mole, mas sobe. Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Conceição dos Ouros tem um inferninho chamado Belisca a Égua. Esse parece Dias Gomes. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Tripulante": companheiro que na Olimpíada vai dar um salto triplo! Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

MARCOS NOBRE

Lula vai de Ciro

A ESTRATÉGIA parecia boa.

Lula usou sua enorme popularidade para antecipar a disputa presidencial em mais de dois anos e impor uma candidata e uma estratégia em que a eleição seria um plebiscito sobre seu governo.

Não deu certo. Essa estratégia só teria chance de funcionar em um confronto direto e único. E esse cenário já não existe: Ciro veio para ficar. Ainda assim, Lula continua insistindo na mesma estratégia.

Quer agora selar o quanto antes o apoio do PMDB. E tenta neutralizar Ciro.

No final, Lula pagou e vai continuar a pagar um preço extorsivo pelo apoio do PMDB. Conseguirá essa aliança. E a candidatura Dilma será abandonada pelo PMDB assim que começar a patinar.

A lógica tradicional do sistema político se impôs. Conforme o calendário de Brasília, só um ano antes da eleição o quadro sucessório começa a ficar um pouco mais claro. A fidelidade partidária virou piada: nem precisou do disfarce de uma reforma política. Como poças depois da chuva, aparecem as legendas-estacionamento, com políticos esperando o desfecho para aderir à candidatura vencedora.

Enquanto o PT conseguiu apenas filiações simbólicas -como as do empresário Ivo Rosset e do ministro Celso Amorim-, o PSB atuou como se já estivesse fazendo coalizões de governo. Ignorou os desdobramentos da Operação Castelo de Areia da PF, que envolveu seu mais novo filiado, Paulo Skaf.

Não tomou conhecimento das críticas generalizadas à atuação do ex-secretário da Educação Gabriel Chalita.

Esse contraste fica ainda mais dramático quando se vê que Lula perde a cada dia o poder de influenciar as sucessões estaduais. Com a consolidação da candidatura de Ciro, os palanques estaduais vão se pulverizar. A lógica do cada um por si vai acabar se impondo.

Até seis meses atrás, Dilma teve chances de conseguir que Ciro fosse candidato a vice em sua chapa.

Hoje, pode no máximo pretender ser vice de Ciro. Porque Ciro reconheceu o óbvio: que o candidato da oposição é favorito. E Ciro é o autêntico anti-Serra. Tem muito mais legitimidade que Dilma para fazer o confronto no campo do governo FHC, que é para onde pretende levar Serra.

Ninguém tem a mais remota ideia de onde estava Dilma durante o governo FHC. Ciro esteve na posição chave de ministro da Fazenda no final do governo Itamar.

E foi crítico do governo FHC durante oito anos. Dado seu estilo, sua defesa do governo Lula no confronto com o governo FHC terá ares de confronto histórico. E, no final, não vai restar a Lula outra opção que não a de aderir à candidatura de seu ex-ministro.

nobre.a2@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Caça ao vice

BRASÍLIA - O verbo da escolha do vice é "agregar". Mulheres costumam escolher vices homens, vices mulheres são benvindas, candidatos jovens procuram vices mais velhos, velhos optam por novos, pobres escolhem ricos, e vice-versa.

Se o candidato é forte no Nordeste, busca um vice do Sul. Se é no Sul, inverte a direção. Se é de um partido pequeno, corre atrás de um vice que possa trazer minutos na TV e palanques nos Estados.

Nessa fase de pré-candidatos e de pré-alianças, Dilma parece ter se fixado em Michel Temer, que "agrega" o PMDB. É o partido mais disputado, porque nunca tem candidato, mas tem uma penca de vices na vitrine, ramificação nacional, as maiores bancadas no Congresso e o maior tempo de TV.

E Temer tem algo mais: é de São Paulo, onde ficam Serra, favorito nas pesquisas, e Orestes Quércia, líder do PMDB pró-tucanos. Pode garantir a aliança formal com o PMDB nacional, rachar de vez o PMDB paulista e cutucar os tucanos na sua principal base.

No caso de Serra, o DEM lhe ofereceria os vices Kátia Abreu, José Roberto Arruda e Rodrigo Maia, mas sabe que todos lucram mais com uma "chapa puro sangue", com Aécio Neves na vice. Um tem São Paulo, o outro tem Minas. Juntos poderiam equilibrar a força de Lula no Norte/Nordeste e no Rio, ainda mais com a Olimpíada. Depende de Aécio, que se faz de difícil.

Com Ciro, tudo é uma incógnita, até a candidatura. Pode ser ao governo de São Paulo, pode ser a presidente -acertado com Lula ou contra Dilma. O ideal seria Ciro presidente, Carlos Luppi na vice, puxando o PDT. Mas Luppi é volúvel. Está entre Dilma, Ciro e Marina.

Marina agrega valor à sua chapa ao levar empresários para o PV e sinaliza que seu vice pode ser o ambientalista Guilherme Leal, da Natura, que reforça o que ela já tem de forte: boa imagem, boa causa. Mas sem palanques e sem tempo na TV.
É bonito, mas pouco para ganhar.

elianec@uol.com.br

segunda-feira, 5 de outubro de 2009



05 de outubro de 2009 | N° 16115
KLEDIR RAMIL


Síndrome de Otto

Se você é daqueles que entra no carro, gira a chave e acha que uma força sobrenatural move o veículo, lamento informar-lhe, não existe mágica. O giro da chave aciona um motorzinho elétrico que dá partida ao motorzão, uma máquina extremamente complexa e sofisticada, mas que ainda utiliza o mesmo velho princípio, desde que foi inventada, há mais de um século.

Vou tentar explicar. O coração do seu automóvel chama-se motor à combustão interna. Esse mastodonte é um bicho que aspira ar e gasolina, joga essa mistura dentro de um cilindro e comprime com um pistão.

A mistura, em alta pressão, recebe uma faísca que provoca uma explosão, forçando o pistão a um movimento no sentido contrário. O princípio básico é esse. Apaixonados por mecânica, como eu, conseguem até ver poesia no sincronismo dessa coreografia de válvulas, pistões e virabrequim.

O motor de combustão interna foi inventado pelo alemão Nikolaus Otto, em mil oitocentos e lá vai pedrada. É uma máquina obsoleta. Se alimenta de petróleo, polui a atmosfera e, pasmem, chega a gastar 80% da energia que produz, só para consumo interno. Isso mesmo, o atrito é tão grande, gera tanto calor, que sobra pouca energia pra prestar algum serviço, como movimentar um carro, por exemplo. Ao contrário do motor elétrico, que tem um aproveitamento muitas vezes melhor.

Ou seja, o motor do Otto é uma máquina que gasta quase tudo o que produz só para conseguir se manter funcionando. São os mesmos sintomas de uma patologia que se observa na máquina administrativa de certos governos e também na vida de muita gente.

Será que estamos vivendo só pra pagar as contas, pra conseguir chegar até o fim do mês? Não sobra nada? Será que a gente trabalha só pra sobreviver, pra conseguir se manter em pé? Se é assim, em que momento a gente vive? John Lennon dizia que “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos para o futuro”.

Quando a gente se dá conta, já foi, passou. Mario Quintana escreveu: “A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê, passaram-se 50 anos!”.

Onde foi que se gastou tanta energia? Com que finalidade? Acho que vou repensar o modelo. Vou tentar evoluir para um sistema de vida inspirado no motor elétrico.

Uma gostosa segunda-feira e uma linda semana para você especialmente minha amiga


05 de outubro de 2009 | N° 16115
PAULO SANT’ANA


Gracias a la vida

Morreu Mercedes Sosa, a ave cantora das Américas.

Quando morre assim um pássaro canoro que encantou um continente, há que se registrar a importância dos cantores na vida social das pessoas, ainda mais uma Mercedes Sosa tão marcada pela sua posição política contrária às ditaduras nas Américas.

Ela tinha um jeito índio de humildade que transmitia ao público a imagem de que não era uma artista frívola, em busca apenas de sucesso e de dinheiro.

Raramente esboçava um sorriso, o que lhe garantia a fleuma de tristeza pelo destino dos povos americanos empobrecidos ou tiranizados.

Morreu uma grande cantora e uma extraordinária política.

Ainda bem que a tecnologia nos permite, como aconteceu com os Beatles e Élvis Presley, revivê-la todos os dias, em todas as casas, através de seus discos.

Sempre é conveniente relembrar a letra da canção que celebrizou Mercedes Sosa, Gracias a la Vida, de autoria de Violeta Parra:

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida

Causam grande repercussão favorável as duas colunas que escrevi contra a Olimpíada no Rio de Janeiro, sob o argumento de que falta dinheiro ao atendimento de saúde nacional, com as mortes dos brasileiros se empilhando, enquanto tomamos a decisão de realizar um evento que custará 10 vezes mais do que a verba que solucionaria o caos em algumas áreas vitais da Saúde.

Meu telefone celular não parou de tocar por tanta solidariedade. Minha caixa de e-mails está lotada de pessoas inconformadas com a Olimpíada.

São as pessoas que não baixam as suas cervizes como ovelhinhas concordantes com atos de governo que ferem a suscetibilidade nacional.

Ainda bem que grande parte dos brasileiros protesta contra a violência determinista dos governos.


05 de outubro de 2009 | N° 16115
L. F. VERISSIMO


A revanche das luas

No seu livro Longitude Dava Sobel narra a competição havida no século 18 para a criação de um método confiável de medir a longitude. A questão era tão importante para a navegação em alto-mar, e, portanto, para a marinha de guerra e o comércio marítimo da Inglaterra, que o parlamento britânico estabeleceu um grande prêmio em dinheiro para quem encontrasse a solução.

Toda a pesquisa nesse sentido foi feita por astrônomos, que buscavam na relação das luas da Terra e de Júpiter com o Sol e com certas estrelas guias as coordenadas que definiriam a longitude, e alguns dos seus métodos tiveram sucesso.

Mas quem, afinal, encontrou a solução definitiva foi um relojoeiro chamado John Harrison, inventor de um mecanismo que, mantendo o horário do porto de partida para ser comparado ao horário de bordo, dava a localização da embarcação, com oscilações mínimas devidas ao movimento do mar ou às variações de temperatura. Com a vantagem adicional de continuar funcionando quando o mau tempo encobria as luas, as estrelas e as coordenadas celestes.

Apesar de hoje ser considerado um dos grandes cientistas do seu tempo, Harrison foi boicotado pelos seus pares e sacaneado pela Royal Society, cujos membros, na sua grande maioria, preferiam a astronomia à relojoaria. E, no fim, nem lhe deram o prêmio.

O que houve durante a grande competição, portanto, foi uma briga entre o céu e a terra. Entre a engrenagem dos astros e seus divinizadores e um engenho humano que dispensava a ajuda vinda de cima. Durante anos – embora, claro, a medição pelos astros continuasse sendo usada na navegação – diferentes versões da invenção de Harrison fixaram a longitude e asseguraram a precisão do posicionamento dos barcos no mar.

Aí inventaram o GPS, que, se não me falha o Google, quer dizer Sistema Global de Posicionamento em inglês, e mostra a quem quiser saber exatamente onde está na superfície do planeta, seja na terra ou no mar. Desde que inventaram o controle remoto – ou antes, com a pasta de dente listada – eu sou um embasbacado pela engenhosidade humanas, mas acho que até hoje nada me embasbacou mais do que o GPS.

Que não apenas nos mostra, como nos diz onde estamos a qualquer momento – na língua que escolhermos! O GPS só é possível pela existência de satélites em órbitas estacionárias sobre nossas cabeças. E os satélites nada mais são do que pequenas luas artificiais.

É o contra-ataque do céu na velha competição. A revanche das luas.

domingo, 4 de outubro de 2009


DANUZA LEÃO

A dura vida de um turista

Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram

UMA DAS COISAS mais difíceis deste mundo é ser turista. Existem pessoas que têm essa vocação; acordam cedo para aproveitar o dia e já saem do hotel com um livrinho onde está marcado tudo o que não podem deixar de ver, o restaurante onde devem almoçar e, em casos mais graves, o que devem comer. Enquanto os homens se interessam pela história e os costumes do país, as mulheres compram.

Seja lá o que for, elas compram, e se for para não comprar, preferem não viajar. Você daria a volta ao mundo, em primeiríssima classe, se não pudesse comprar nem um alfinete? Eu, não.

Quando o casal volta ao hotel -e os quartos geralmente são pequenos-, é aquele caos, e os maridos reclamam; aliás, não conheço nenhum que não diga "Essa tralha não vai caber na mala, e ainda por cima vou ter que pagar uma fortuna de excesso de bagagem por todas as bobagens que você comprou". Que mulher nunca ouviu esse texto?

O dia de um turista é duro: se é verão, chegam suados, mortos, e na Europa, a não ser em grandes hotéis, não existe ar-condicionado; e ainda vão ter que sair para jantar. Mas talvez no inverno seja pior: eles chegam exaustos, com dor na coluna por ter passado o dia com o peso do suéter, do casaco, do cachecol e das botas -fora os pacotes.

Uma delícia chegar e tirar tudo, sobretudo as botas, mas daí a pouco vai ser preciso se vestir de novo, pois tem o jantar. Numa viagem clássica, visitando três ou quatro países, são umas 35 igrejas e uns 84 museus. E como dizer aos amigos que deixou de ir a algum?

Seria bom se os casais estivessem sempre de acordo, mas não é o que costuma acontecer, sobretudo em viagens. Na vida de todo dia, em casa, é tudo mais fácil. Ele chega, o jantar está pronto, as crianças ligam a televisão, se quiserem vão ao cinema, se não quiserem deixam para amanhã, e tem sempre um assunto do escritório, o último escândalo da política, uma fofoca doméstica, tem a novela, ela pode ter uma dor de cabeça, ele querer dormir cedo, e assim vai indo a vida.

Mas numa viagem, não. São só os dois, cara a cara, se enfrentando 24 horas por dia, tomando resoluções, cada um vendo o outro como ele realmente é -porque na lua-de-mel ninguém vê-, e avaliando se é feliz ou não, se ainda está valendo aquele casamento ou se já acabou.

Isso acontece em todos os momentos do dia, e quando a mulher se irrita porque o marido leva muito tempo tomando banho, e ele se exaspera porque ela não consegue se decidir pelo suéter rosa ou o marinho -e ainda pergunta a opinião dele-, é que as coisas não vão muito bem. Mas sejamos pacientes: também não vão tão mal assim, e uma viagem não é eterna.

No dia de ir embora, ela toma um tranquilizante e sai desatinada para comprar duas sacolas onde caibam as tais tralhas totalmente inúteis que comprou -e até lembra que da primeira vez em que foi à Bahia trouxe um berimbau, na mão-, e pensa que isso faz parte da viagem, de qualquer viagem.

Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram. Até aí tudo bem, só que tem a hora de mostrar as fotos; nessa hora, só alguém tendo um mal súbito.

danuza.leao@uol.com.br


Professora faz curso de capacitação para aumentar renda

Sandra Lee, de Salvador, afirma que o único objetivo dos estudos é acrescentar as gratificações ao salário de R$ 2.400

Sentindo-se "desvalorizada e cansada", ela dá 60 horas semanais de aulas de inglês em escolas públicas da periferia da capital baiana

MATHEUS MAGENTA - DA AGÊNCIA FOLHA, EM SALVADOR

Durante 60 horas semanais, Sandra Lee, 29, dá aulas de inglês para mais de 800 alunos em três escolas da rede pública básica, na periferia de Salvador.

Sentindo-se "desvalorizada e cansada", ela admite que faz cursos de capacitação "muito mais para somar gratificações ao salário de R$ 2.400" do que para melhorar a qualidade pedagógica de suas aulas. "Se lançassem um turno de ensino de madrugada, eu seria a primeira a me apresentar", brinca.

Ela afirma que se sente desvalorizada por causa do maior salário de outras profissões com o mesmo nível de formação. Diz, no entanto, que não "tem saída". "É isso que eu gosto e sei fazer", afirma.

Sandra lembra que o trabalho não se resume às 60 horas em salas de aula. "Eu corrijo provas e trabalhos até de madrugada, abdico de meu sono durante a semana para ter horas livres no final de semana. Eu preciso ter vida fora daqui."

Professora da rede municipal há cinco anos e da rede estadual há três, Lee não sabe precisar quanto recebeu de aumento desde que começou a dar aulas. "Foi tão pouco que eu precisaria pegar meus contracheques e uma calculadora", afirma.

Segundo o sindicato dos professores da Bahia, os reajustes acompanharam a inflação.

Em junho, os professores municipais de Salvador ficaram em greve por 21 dias letivos, deixando mais de 180 mil estudantes sem aula. A reivindicação era de um aumento de 9,01%. Conseguiram 5,5%.

Segundo o sindicato da categoria, há uma defasagem de 1.500 professores no município -hoje, há cerca de 6.000.

CLÓVIS ROSSI

"Down there" e primeira classe

ESTOCOLMO - Um dia de 1997 aportei em Amsterdã para cobrir uma cúpula da União Europeia. Peguei a credencial, pendurei no peito e fui tentar entender o mapa das tendas instaladas em um parque público da cidade, que seriam o QG do encontro.

Aproxima-se um jornalista holandês, vê "Brazilie" escrito na credencial, abre o olhão e diz: "You came all the way from down there just to this?". Tradução livre: "Você veio lá do fundão do mundo para isto?". Interpretação mais livre ainda: "O que um bugre está fazendo no meio dos brancos?".

Nos 12 anos seguintes, o "Brasil" no meu peito, nas credenciais de cúpulas, passou a ser cada vez menos "down there", em Hokkaido, no Japão, e Áquila, na Itália, em Londres como em Pittsburgh.

Sou, portanto, testemunha viva da história da transformação do Brasil de "down there" para "primeira classe", como disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva após "o Rio derrotar Obama", segundo a manchete de ontem do "Financial Times".

Mas, olho, nada de perder a perspectiva: os que fizeram a viagem são poucos, pouquíssimos políticos, um bom número de diplomatas e funcionários públicos graduados, um número crescente, mas ainda pequeno de empresários. É uma vanguarda que, se olhar para trás, verá que a grande massa ainda come poeira "down there".

PS - A partir de amanhã, o titular deste espaço passa a ser Fernando de Barros e Silva, que já o ocupava às segundas-feiras e editava o caderno Brasil. Mas não se entusiasme muito porque eu continuarei aparecendo por aqui aos domingos e quintas-feiras, além de inaugurar uma coluna, aos sábados, no caderno Mundo, o meu habitat predileto desde criancinha (literalmente).

Não por acaso, chama-se "Janela para o Mundo" a coluna eletrônica que assino na Folha Online nos demais dias da semana.

crossi@uol.com.br

sábado, 3 de outubro de 2009



04 de outubro de 2009
N° 16114 - MARTHA MEDEIROS


Amigo de si mesmo

Em seu recém-lançado livro Quem Pensas Tu que Eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima.

Mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? Os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como Se o Cigarro de García Márquez Falasse, Somos Todos Estranhos ou A Crueldade é Humana.

Mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. Ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo”.

Como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. Acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

Para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. A primeira aliada da camaradagem é a humildade. Jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível.

Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.

Ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. Como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? Já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”.

É uma frase genial. O bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. Só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso.

Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto “ser amigo de si mesmo”.

Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”.

Sem essa. O mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. Salve-se dos seus traumas de infância.

Quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. Só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

Um lindo domingo especialmente para você.


04 de outubro de 2009
N° 16114 - VERISSIMO


Abraão e Isaque

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaque, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera.

E edificou Abraão ali um altar e amarrou a Isaque e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho. Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus Abraão, Abraão, não estenda tua mão sobre Isaque e não lhe faça mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.

E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera a voz de Deus.

Muitos anos depois:

– Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

– Você era um menino...

– Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios d’água...

– Você era um menino...

– Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

– Era a voz do anjo, me falando dos céus.

– Não ouvi a voz do anjo. Ouvi trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

– Meu filho...

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites, e acordo tremendo.

– Você era um menino.

– Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos, chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena. Um pai imolando um filho!

– Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

– Um horror.

– Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

– Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

– Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

– Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

– Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu meus olhos cheios d’água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

– Mas o fio do cutelo encostou na minha garganta.

– Eu não o matei!

– Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

– Meu filho...

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

– O que eu sei?

– Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

– Ele estava me testando.

– Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

– Você era apenas um menino...

– Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos. E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

– Era o anjo do Senhor falando comigo.

– Eram trovões.

– Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

– Mais razão para temê-lo tenho eu, meu pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

– Na origem de todos os povos tem uma cerimônia de sangue.

– Então na origem de todos os povos tem uma abominação.

– Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

– Por todos os tempos, pai.