segunda-feira, 5 de outubro de 2009



05 de outubro de 2009 | N° 16115
PAULO SANT’ANA


Gracias a la vida

Morreu Mercedes Sosa, a ave cantora das Américas.

Quando morre assim um pássaro canoro que encantou um continente, há que se registrar a importância dos cantores na vida social das pessoas, ainda mais uma Mercedes Sosa tão marcada pela sua posição política contrária às ditaduras nas Américas.

Ela tinha um jeito índio de humildade que transmitia ao público a imagem de que não era uma artista frívola, em busca apenas de sucesso e de dinheiro.

Raramente esboçava um sorriso, o que lhe garantia a fleuma de tristeza pelo destino dos povos americanos empobrecidos ou tiranizados.

Morreu uma grande cantora e uma extraordinária política.

Ainda bem que a tecnologia nos permite, como aconteceu com os Beatles e Élvis Presley, revivê-la todos os dias, em todas as casas, através de seus discos.

Sempre é conveniente relembrar a letra da canção que celebrizou Mercedes Sosa, Gracias a la Vida, de autoria de Violeta Parra:

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida

Causam grande repercussão favorável as duas colunas que escrevi contra a Olimpíada no Rio de Janeiro, sob o argumento de que falta dinheiro ao atendimento de saúde nacional, com as mortes dos brasileiros se empilhando, enquanto tomamos a decisão de realizar um evento que custará 10 vezes mais do que a verba que solucionaria o caos em algumas áreas vitais da Saúde.

Meu telefone celular não parou de tocar por tanta solidariedade. Minha caixa de e-mails está lotada de pessoas inconformadas com a Olimpíada.

São as pessoas que não baixam as suas cervizes como ovelhinhas concordantes com atos de governo que ferem a suscetibilidade nacional.

Ainda bem que grande parte dos brasileiros protesta contra a violência determinista dos governos.


05 de outubro de 2009 | N° 16115
L. F. VERISSIMO


A revanche das luas

No seu livro Longitude Dava Sobel narra a competição havida no século 18 para a criação de um método confiável de medir a longitude. A questão era tão importante para a navegação em alto-mar, e, portanto, para a marinha de guerra e o comércio marítimo da Inglaterra, que o parlamento britânico estabeleceu um grande prêmio em dinheiro para quem encontrasse a solução.

Toda a pesquisa nesse sentido foi feita por astrônomos, que buscavam na relação das luas da Terra e de Júpiter com o Sol e com certas estrelas guias as coordenadas que definiriam a longitude, e alguns dos seus métodos tiveram sucesso.

Mas quem, afinal, encontrou a solução definitiva foi um relojoeiro chamado John Harrison, inventor de um mecanismo que, mantendo o horário do porto de partida para ser comparado ao horário de bordo, dava a localização da embarcação, com oscilações mínimas devidas ao movimento do mar ou às variações de temperatura. Com a vantagem adicional de continuar funcionando quando o mau tempo encobria as luas, as estrelas e as coordenadas celestes.

Apesar de hoje ser considerado um dos grandes cientistas do seu tempo, Harrison foi boicotado pelos seus pares e sacaneado pela Royal Society, cujos membros, na sua grande maioria, preferiam a astronomia à relojoaria. E, no fim, nem lhe deram o prêmio.

O que houve durante a grande competição, portanto, foi uma briga entre o céu e a terra. Entre a engrenagem dos astros e seus divinizadores e um engenho humano que dispensava a ajuda vinda de cima. Durante anos – embora, claro, a medição pelos astros continuasse sendo usada na navegação – diferentes versões da invenção de Harrison fixaram a longitude e asseguraram a precisão do posicionamento dos barcos no mar.

Aí inventaram o GPS, que, se não me falha o Google, quer dizer Sistema Global de Posicionamento em inglês, e mostra a quem quiser saber exatamente onde está na superfície do planeta, seja na terra ou no mar. Desde que inventaram o controle remoto – ou antes, com a pasta de dente listada – eu sou um embasbacado pela engenhosidade humanas, mas acho que até hoje nada me embasbacou mais do que o GPS.

Que não apenas nos mostra, como nos diz onde estamos a qualquer momento – na língua que escolhermos! O GPS só é possível pela existência de satélites em órbitas estacionárias sobre nossas cabeças. E os satélites nada mais são do que pequenas luas artificiais.

É o contra-ataque do céu na velha competição. A revanche das luas.

domingo, 4 de outubro de 2009


DANUZA LEÃO

A dura vida de um turista

Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram

UMA DAS COISAS mais difíceis deste mundo é ser turista. Existem pessoas que têm essa vocação; acordam cedo para aproveitar o dia e já saem do hotel com um livrinho onde está marcado tudo o que não podem deixar de ver, o restaurante onde devem almoçar e, em casos mais graves, o que devem comer. Enquanto os homens se interessam pela história e os costumes do país, as mulheres compram.

Seja lá o que for, elas compram, e se for para não comprar, preferem não viajar. Você daria a volta ao mundo, em primeiríssima classe, se não pudesse comprar nem um alfinete? Eu, não.

Quando o casal volta ao hotel -e os quartos geralmente são pequenos-, é aquele caos, e os maridos reclamam; aliás, não conheço nenhum que não diga "Essa tralha não vai caber na mala, e ainda por cima vou ter que pagar uma fortuna de excesso de bagagem por todas as bobagens que você comprou". Que mulher nunca ouviu esse texto?

O dia de um turista é duro: se é verão, chegam suados, mortos, e na Europa, a não ser em grandes hotéis, não existe ar-condicionado; e ainda vão ter que sair para jantar. Mas talvez no inverno seja pior: eles chegam exaustos, com dor na coluna por ter passado o dia com o peso do suéter, do casaco, do cachecol e das botas -fora os pacotes.

Uma delícia chegar e tirar tudo, sobretudo as botas, mas daí a pouco vai ser preciso se vestir de novo, pois tem o jantar. Numa viagem clássica, visitando três ou quatro países, são umas 35 igrejas e uns 84 museus. E como dizer aos amigos que deixou de ir a algum?

Seria bom se os casais estivessem sempre de acordo, mas não é o que costuma acontecer, sobretudo em viagens. Na vida de todo dia, em casa, é tudo mais fácil. Ele chega, o jantar está pronto, as crianças ligam a televisão, se quiserem vão ao cinema, se não quiserem deixam para amanhã, e tem sempre um assunto do escritório, o último escândalo da política, uma fofoca doméstica, tem a novela, ela pode ter uma dor de cabeça, ele querer dormir cedo, e assim vai indo a vida.

Mas numa viagem, não. São só os dois, cara a cara, se enfrentando 24 horas por dia, tomando resoluções, cada um vendo o outro como ele realmente é -porque na lua-de-mel ninguém vê-, e avaliando se é feliz ou não, se ainda está valendo aquele casamento ou se já acabou.

Isso acontece em todos os momentos do dia, e quando a mulher se irrita porque o marido leva muito tempo tomando banho, e ele se exaspera porque ela não consegue se decidir pelo suéter rosa ou o marinho -e ainda pergunta a opinião dele-, é que as coisas não vão muito bem. Mas sejamos pacientes: também não vão tão mal assim, e uma viagem não é eterna.

No dia de ir embora, ela toma um tranquilizante e sai desatinada para comprar duas sacolas onde caibam as tais tralhas totalmente inúteis que comprou -e até lembra que da primeira vez em que foi à Bahia trouxe um berimbau, na mão-, e pensa que isso faz parte da viagem, de qualquer viagem.

Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram. Até aí tudo bem, só que tem a hora de mostrar as fotos; nessa hora, só alguém tendo um mal súbito.

danuza.leao@uol.com.br


Professora faz curso de capacitação para aumentar renda

Sandra Lee, de Salvador, afirma que o único objetivo dos estudos é acrescentar as gratificações ao salário de R$ 2.400

Sentindo-se "desvalorizada e cansada", ela dá 60 horas semanais de aulas de inglês em escolas públicas da periferia da capital baiana

MATHEUS MAGENTA - DA AGÊNCIA FOLHA, EM SALVADOR

Durante 60 horas semanais, Sandra Lee, 29, dá aulas de inglês para mais de 800 alunos em três escolas da rede pública básica, na periferia de Salvador.

Sentindo-se "desvalorizada e cansada", ela admite que faz cursos de capacitação "muito mais para somar gratificações ao salário de R$ 2.400" do que para melhorar a qualidade pedagógica de suas aulas. "Se lançassem um turno de ensino de madrugada, eu seria a primeira a me apresentar", brinca.

Ela afirma que se sente desvalorizada por causa do maior salário de outras profissões com o mesmo nível de formação. Diz, no entanto, que não "tem saída". "É isso que eu gosto e sei fazer", afirma.

Sandra lembra que o trabalho não se resume às 60 horas em salas de aula. "Eu corrijo provas e trabalhos até de madrugada, abdico de meu sono durante a semana para ter horas livres no final de semana. Eu preciso ter vida fora daqui."

Professora da rede municipal há cinco anos e da rede estadual há três, Lee não sabe precisar quanto recebeu de aumento desde que começou a dar aulas. "Foi tão pouco que eu precisaria pegar meus contracheques e uma calculadora", afirma.

Segundo o sindicato dos professores da Bahia, os reajustes acompanharam a inflação.

Em junho, os professores municipais de Salvador ficaram em greve por 21 dias letivos, deixando mais de 180 mil estudantes sem aula. A reivindicação era de um aumento de 9,01%. Conseguiram 5,5%.

Segundo o sindicato da categoria, há uma defasagem de 1.500 professores no município -hoje, há cerca de 6.000.

CLÓVIS ROSSI

"Down there" e primeira classe

ESTOCOLMO - Um dia de 1997 aportei em Amsterdã para cobrir uma cúpula da União Europeia. Peguei a credencial, pendurei no peito e fui tentar entender o mapa das tendas instaladas em um parque público da cidade, que seriam o QG do encontro.

Aproxima-se um jornalista holandês, vê "Brazilie" escrito na credencial, abre o olhão e diz: "You came all the way from down there just to this?". Tradução livre: "Você veio lá do fundão do mundo para isto?". Interpretação mais livre ainda: "O que um bugre está fazendo no meio dos brancos?".

Nos 12 anos seguintes, o "Brasil" no meu peito, nas credenciais de cúpulas, passou a ser cada vez menos "down there", em Hokkaido, no Japão, e Áquila, na Itália, em Londres como em Pittsburgh.

Sou, portanto, testemunha viva da história da transformação do Brasil de "down there" para "primeira classe", como disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva após "o Rio derrotar Obama", segundo a manchete de ontem do "Financial Times".

Mas, olho, nada de perder a perspectiva: os que fizeram a viagem são poucos, pouquíssimos políticos, um bom número de diplomatas e funcionários públicos graduados, um número crescente, mas ainda pequeno de empresários. É uma vanguarda que, se olhar para trás, verá que a grande massa ainda come poeira "down there".

PS - A partir de amanhã, o titular deste espaço passa a ser Fernando de Barros e Silva, que já o ocupava às segundas-feiras e editava o caderno Brasil. Mas não se entusiasme muito porque eu continuarei aparecendo por aqui aos domingos e quintas-feiras, além de inaugurar uma coluna, aos sábados, no caderno Mundo, o meu habitat predileto desde criancinha (literalmente).

Não por acaso, chama-se "Janela para o Mundo" a coluna eletrônica que assino na Folha Online nos demais dias da semana.

crossi@uol.com.br

sábado, 3 de outubro de 2009



04 de outubro de 2009
N° 16114 - MARTHA MEDEIROS


Amigo de si mesmo

Em seu recém-lançado livro Quem Pensas Tu que Eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima.

Mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? Os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como Se o Cigarro de García Márquez Falasse, Somos Todos Estranhos ou A Crueldade é Humana.

Mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. Ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo”.

Como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. Acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

Para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. A primeira aliada da camaradagem é a humildade. Jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível.

Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.

Ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. Como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? Já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”.

É uma frase genial. O bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. Só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso.

Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto “ser amigo de si mesmo”.

Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”.

Sem essa. O mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. Salve-se dos seus traumas de infância.

Quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. Só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

Um lindo domingo especialmente para você.


04 de outubro de 2009
N° 16114 - VERISSIMO


Abraão e Isaque

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaque, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera.

E edificou Abraão ali um altar e amarrou a Isaque e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho. Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus Abraão, Abraão, não estenda tua mão sobre Isaque e não lhe faça mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.

E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera a voz de Deus.

Muitos anos depois:

– Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

– Você era um menino...

– Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios d’água...

– Você era um menino...

– Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

– Era a voz do anjo, me falando dos céus.

– Não ouvi a voz do anjo. Ouvi trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

– Meu filho...

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites, e acordo tremendo.

– Você era um menino.

– Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos, chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena. Um pai imolando um filho!

– Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

– Um horror.

– Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

– Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

– Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

– Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

– Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu meus olhos cheios d’água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

– Mas o fio do cutelo encostou na minha garganta.

– Eu não o matei!

– Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

– Meu filho...

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

– O que eu sei?

– Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

– Ele estava me testando.

– Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

– Você era apenas um menino...

– Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos. E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

– Era o anjo do Senhor falando comigo.

– Eram trovões.

– Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

– Mais razão para temê-lo tenho eu, meu pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

– Na origem de todos os povos tem uma cerimônia de sangue.

– Então na origem de todos os povos tem uma abominação.

– Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

– Por todos os tempos, pai.


04 de outubro de 2009
N° 16114 - PAULO SANT’ANA


A Olimpíada do abismo

O Brasil se prepara para gastar mais de R$ 200 bilhões na Olimpíada, quando com 10% desse dinheiro poderia salvar todos os que morrem de doenças não atendidas pelo SUS, apodrecem e morrem nas filas de consultas e cirurgias do SUS.

O Brasil, em 2016, vai arremessar o peso, vai saltar no hipismo das varas, vai emaranhar-se no tatame do judô com seus adversários, vai esgrimir, vai flechar, vai saltar em distância, vai nadar, vai jogar futebol, basquete e vôlei, vai saltar com vara o Brasil, vai saltar em altura, vai dar um salto triplo no rumo do... abismo.

O velho Eugênio Steffen, dono de um armazém de secos e molhados em São Leopoldo no século passado, costumava dizer a todos os que iam encontrá-lo: “Tudo o que se pode pagar com dinheiro é barato, seja que preço for”.

O velho Steffen tinha razão. O que ele queria dizer na sua sabedoria de comerciante é que só tem valor na vida o que não custa dinheiro.

Ele afetava com isso que só o amor, a solidariedade, o carinho, a ajuda moral ao próximo, só estas coisas tinham grande significado. O resto era tudo barato.

Era nos armazéns de secos e molhados e nas barbearias do século passado que transitava mais translúcida a verdade.

Não tenho dúvida, como devo ter dito isso no aniversário de 70 anos do Reginaldo Pujol, que só depois dos 70 anos nós, homens, podemos ser felizes.

É impossível ser feliz na juventude e na maturidade, só se tem a oportunidade de ser feliz na velhice.

Dou um exemplo: como poderia ser eu feliz na juventude e na maturidade se o apartamento que comprei para viver com minha família, quando eu tinha 38 anos, levei para pagar as prestações 25 anos?

Pagar essas 300 prestações da minha sagrada casa própria me custou 25 anos sem dormir, com medo de que pudesse vir a não poder pagar e perder a minha casa própria e ser assim jogado na vala incerta e espúria do aluguel.

É humano que obriguem uma pessoa a ficar pagando prestações de seu primeiro e único apartamento durante 25 anos? Isso é uma selvagem desumanidade.

Sendo assim, como pode ser feliz quem é jovem, ou homem ou mulher maduros? Depois da casa própria, tem outro pesadelo: a casa da praia. E por aí vai a sucessão de aflições.

E não é só isso. Quem não é velho não pode ser feliz também porque não está próximo da morte, por mais paradoxal que isso possa parecer.

O velho tem condições de ser feliz porque a morte para ele não é imponderável, é um fato próximo e sólido e concreto.

Já o jovem não é feliz porque ele lida confuso com a incerteza da morte, portanto do seu futuro. Já o velho pode ser tranquilo e feliz porque, tendo certeza da morte, não tem mais de preocupar-se em pensar no futuro.


04 de outubro de 2009
N° 16114 - MOACYR SCLIAR


A vida nos hotéis

Viajar não é apenas conhecer novos lugares, conhecer novas pessoas. Viajar significa mudar, ainda que transitoriamente, o estilo de vida. De repente, já não estamos mais em nossas casas, no cenário que nos é familiar.

De repente estamos num lugar que, pretendendo ser como as nossas casas, ou até melhor que as nossas casas, acaba nos dando uma sensação de estranhamento. Estou falando, claro, no hotel.

A vida nos hotéis é uma vida provisória. Mas tem suas regras, sua cultura, como descobrimos tão logo nos apresentamos na portaria. Vamos preencher uma ficha, vamos ser informados de algumas coisas: o lugar e o horário do café da manhã, a disponibilidade ou não de internet e de fitness center (é, o nome é em inglês). É uma rotina que parece familiar, que se esforça por ser familiar e que, no entanto, envolve surpresas.

Da primeira vez que fomos à Europa, Judith e eu, fomos à estação ferroviária de Florença, onde havíamos chegado para passar uns dias, e, por força de um orçamento muito limitado, pedimos um hotel barato.

Sem uma palavra, a moça passou-nos um endereço. Fomos até lá, e era realmente um hotel precário, com quartos pequenos e sem banheiro. Mas estávamos cansados e tudo o que queríamos era um lugar onde pudéssemos dormir um pouco antes de entrar no fantástico universo da arte florentina.

Café da manhã não havia; saímos e, quando voltamos, no fim da tarde, constatamos que o quarto não tinha sido arrumado. Mais que isso, nos corredores transitavam pessoas estranhas, mulheres com grotesca maquiagem, homens de olhar lúbrico. Era, como vocês já devem ter concluído, uma casa de encontros. Mas ali ficamos, o inocente casal, para irritação dos pecadores, que viam em nós uma presença acusadora.

Nos hotéis mais modestos, sobretudo na Europa, o hóspede paga (ou pagava, ao menos naquela época) por tudo. Moedas são, ou eram, necessárias para fazer o elevador funcionar, para ligar a calefação e até para obter água no chuveiro. Por um tempo limitado: às vezes, ensaboados, tínhamos de correr em busca de uma moeda porque a água subitamente era cortada.

Os hotéis brasileiros são mais generosos. Fornecem café da manhã, por exemplo, e aí, conforme o número de estrelas, a variedade pode ser grande. Mas, na minha experiência, o grande diferencial é a omelete. Mais do que as estrelas clássicas, a omelete, junto com o tamanho da cama e os preços do frigobar, classifica os estabelecimentos. Mas mesmo um hotel bom pode reservar surpresas desagradáveis.

Não se pode, por exemplo, escolher os vizinhos. Se o cara tem insônia e resolver ver tevê até de madrugada com o volume no máximo, azar o nosso. Ah, sim, e existem também os ocupantes do piso superior. Entre estes, aqueles que nos deixa mais intrigados (e mais nos incomoda) é o cara que mexe com os móveis.

Num prédio de apartamentos a gente ainda entende; mas num hotel? Por que um morador provisório precisa consertar o lay-out do quarto? Mas tem gente que faz isso, e aí é cadeira sendo arrastada de um lado para outro, mesa sendo arrastada, cama sendo arrastada (e, quem sabe, um corpo sendo arrastado).

O sonho dos hotéis é fazer o visitante se sentir em casa. Mas isso ainda é uma possibilidade muito remota.

Isabela Boscov - divulgação - GLÓRIA FEITA DE SANGUE

Tarantino na idade da razão



Em Bastardos Inglórios, uma unidade voluntária de soldados judeus espalha o pânico entre os nazistas na França ocupada. É uma fantasia típica de Quentin Tarantino - mas, da escrita soberba à escolha dos atores excelentes, denota o avanço notável do diretor rumo à maturidade pessoal e artística

Eli Roth, como "O Urso Judeu", e Brad Pitt, como Aldo "O Apache" Raine, dois dos bastardos inglórios: sotaque caipira e nazistas escalpelados para desestabilizar a França sob domínio alemão

Em 1941, diante de uma pequena casa de fazenda, em algum lugar montanhoso da França, o sol brilha, os sinos das vacas são ouvidos ao longe e o pai corta lenha, enquanto a filha pendura a roupa no varal. Pelo lado do lençol que se levanta com o vento, porém, ela vê um grupo de soldados vindo pela estrada, e imediatamente esse quadro tão pitoresco de rusticidade ganha um caráter diverso.

Em vez da paz rural, o que se percebe agora é o isolamento da casa e quanto o pai e suas três filhas estão indefesos ali. Ajuda muito que a trilha escolhida para a cena seja um trecho original de Ennio Morricone para os faroestes-espaguete de Sergio Leone, capaz de anunciar como nenhuma outra coisa jamais composta para o cinema a solidão e o perigo.

Mas os enquadramentos exímios e o tempo impecável em que transcorre essa sequência de abertura de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, Estados Unidos/Alemanha, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, são obra e graça de Quentin Tarantino - tanto eles como a destreza com que o fazendeiro francês e o tenente-coronel alemão Hans Landa, que acabou de chegar com seus soldados, vão descrever círculos um em torno do outro, num enfrentamento que tem como objeto o paradeiro de uma família judia, e em que as armas serão um copo de leite, dois cachimbos, as três meninas e o domínio de ambos os personagens do inglês e do francês.

Na maneira como Tarantino retrai e prolonga o tempo previsto para chegar ao desfecho, essa abertura é eletrizante. E ilustra também a distância que o diretor vem percorrendo rumo à maturidade, em um caminho já indicado na segunda parte de Kill Bill.

Tarantino é capaz, agora, de imaginar não só um jogo entre dois personagens, mas um porquê para ele que vá além de suas contingências narrativas. Consegue ouvir a beleza de um diálogo travado, não meramente disparado. E aprendeu a apreciar a utilidade emocional da pausa e dos pequenos milagres que os bons atores podem proporcionar.

O pouco conhecido Denis Menochet, que interpreta o fazendeiro, é excelente, e com cada pequeno gesto acumula mais algum dado sobre a vida e o passado de seu personagem, ainda que nem uma palavra se diga sobre eles. E o ainda menos conhecido Christoph Waltz, que faz o nazista, é espetacular: um ator de precisão absoluta, que rouba o filme com a anuên-cia do diretor - e dos outros atores, igualmente galvanizados por sua performance.

O tenente-coronel Hans Landa, assim, será ainda mais essencial para o filme do que os próprios bastardos inglórios - uma unidade especial de soldados judeus voluntários, que penetram na França ocupada para assassinar nazistas com selvageria e dessa forma espalhar o pânico.

Liderados pelo tenente Aldo "O Apache" Raine (Brad Pitt), um matuto do Tennessee com um sotaque caipira mais espesso que melaço e o hábito de escalpelar suas vítimas, os bastardos são uma criação típica de Tarantino (que, claro, não deixou de ser ele mesmo): um grupo de homens que se comunicam por meio de frases de efeito - bom efeito, aliás - e se dedicam à violência com prazer, sem pesar nem drama de consciência.

Quando eles estão em cena, o filme adquire continuidade com os outros do diretor em tema, estilo e volume bruto de sangue. Quando não, Bastardos Inglórios assinala uma espécie de ruptura.

Em um processo análogo ao do canadense David Cronenberg, que depois de explorar a fundo as possibilidades da escatologia se renovou com o classicismo de Marcas da Violência e Senhores do Crime,

Tarantino estuda aqui as propriedades desestabilizadoras da elegância. Cada ato do filme agrupa um determinado número de personagens em um cenário delimitado - uma taverna, um cinema, uma mesa de restaurante. Todos tratam de alguém dissimulando e correndo grande risco; mas os duelos são travados por meio de insinuações.

Assim, a estrela de cinema e agente dupla Bridget von Hammersmark (a alemã Diane Kruger, que depois de quase afundar com Troia hoje só faz brilhar) tem de colocar aliados e alemães em volta de uma rodada de bebidas sem que ninguém se traia, e de forma a que aquilo que tem de ser descoberto o seja.

A judia disfarçada Shosanna (Mélanie Laurent), por sua vez, tem de repudiar as atenções insistentes de um herói de guerra nazista (Daniel Brühl) sem antagonizá-lo - e ambas, em momentos diversos, terão de sobreviver aos ataques de cordialidade, efusão e malevolência do tenente-coronel Landa. Tão fabulosa é a escrita dessas cenas que a mera menção a um copo de leite causa uma vertigem de medo.

Bastardos Inglórios, contudo, não é um filme sobre a II Guerra. Não é nem mesmo uma história fantasiosa passada na II Guerra, já que trata de dois complôs paralelos para pulverizar, literalmente, o alto-comando nazista.

É um filme passado em todos os outros filmes já feitos sobre o tema, com vários elementos dos noir dos anos 30 e dos faroestes de John Ford e Sergio Leo-ne acrescidos à sua encenação.

É um filme que pertence só à história do cinema, não à outra, a mais ampla. Mas, como no segundo Kill Bill, Tarantino mostra que descobriu a existência de outro mundo para além desse território imaginário - e que entendeu que, quanto mais se alimentar dele, mais verossímil e envolvente será sua fantasia.

Lya Luft

Contraponto: deixar desabrochar

"Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar"

Na coluna passada escrevi sobre educação e autoridade, dois temas complicados nos nossos dias de bagunça generalizada. Hoje falo sobre seu contraponto, o que me ensinou um velho mestre sábio sobre educação: "Família e escola fazem muito, se não estorvam. Deixem as crianças e os jovens desabrochar".

Na primeira vez em que escutei a frase fiquei um pouco chocada. Se já naquele tempo, eu ainda universitária, questionávamos a frouxa autoridade em casa e na escola, que deixava a meninada perdidona e sem limites, como entender aquela afirmação de quem entendia mais do que a maioria de nós sobre ensino, educação e o resto?

O tempo e a experiência foram mostrando um pouco do mistério: é preciso juntar tudo isso, bater no liquidificador da experiência, tentativa e erro, alegria e desespero de quem lida com esses assuntos na prática e na teoria, e ver no que dá.

Pois para lidar com gente não há garantia nem receitas, por mais que sejam vendidas ou espalhadas gratuitamente por aí em abundância: como conseguir parceiro, como segurar seu homem, como enlouquecer sua amante, como ficar rico sem esforço, como ter sucesso, como ser feliz em dez lições a preços módicos.

A questão é como dosar autoridade e liberdade, para que crianças e jovens cresçam. Ou melhor: para que a gente também continue crescendo, pois sou dos que acreditam que viver não é deteriorar-se, mas se expandir.

E quando o corpo parece encolher, murchar, envelhecer – é bom usar as palavras certas, pois às vezes os eufemismos soam ofensivos – a alma tem de continuar crescendo. Alma, psique, mente, não importa o conceito científico, moral, espiritual, que lhe queiram dar.

Mas volto ao desabrochar de crianças e adolescentes: se alguém tem perto de si um desses belos, estimulantes, atordoantes exemplares humanos, comece a observar: encante-se, assuste-se, trate de se descabelar e maravilhar. E vai lentamente entender a frase do velho mestre, quando dizia que família e escola não devem estorvar.

É preciso olhar, tentar entender um pouco, e respeitar. Amparando quando for preciso, botando limites para que as capacidades, talentos e dificuldades do outro não transbordem tornando-se prejudiciais; estimulando sem interferir gravemente, e admirando-se de como, igual a uma planta ou pássaro, um peixe no mais remoto fundo de oceano, a criança observa, pensa, e precisa se desenvolver.

O susto de quem tem a responsabilidade de cuidar (porque, repito interminavelmente, quem ama cuida) não é pequeno.

Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar. Mais que isso, pensar.

Falar assim é fácil, escrever mais ainda, dirão. É verdade. Mas se formos menos desligados e mais atentos, mais firmes mas menos rígidos, mais amorosos e mais exigentes neste universo contraditório que todos somos, e mais respeitosos, veremos milagres. E atenção: dizendo "respeitosos" não digo "encolhidos, humildes, suportando todas as más-criações e maluquices", mas sendo ativamente tranquilos.

Claro que para isso precisamos ser, se pais, razoavelmente estruturados emocionalmente, pois se formos destrambelhados demais poderemos perturbar as crianças. Professores, temos de ser bem pagos, com excelentes escolas – ou vamos mendigar a esmola de condições mínimas para trabalhar.

Embora os personagens de minhas ficções sejam neuróticos e sofridos, minhas crônicas nem sempre sejam otimistas, acredito que a gente sempre pode repensar a vida e todas as coisas que nela causam tamanho susto e tanto prazer, para sentir que afinal vale a pena.

Educar e ensinar não deveria ser razão de tanto conflito, com tão melancólicos resultados como os que muitas vezes se veem por aí. Deveria ser motivo de interesse, adrenalina boa, entusiasmo – ainda que passando por muitos fracassos e frustrações – porque, afinal, somos todos apenas humanos tentando entender o mundo de Deus e as humanas trapalhadas.

Danilo Venticinque

O melhor lugar para reclamar da vida

Com mensagens curtas e anônimas, sites de desabafo fazem sucesso e inspiram até seriado de TV

Reclamar da vida em redes sociais é uma tática infalível para ser ignorado, perder seguidores ou receber respostas atravessadas. No Twitter, esse tipo de desabafo é tão mal visto que ganhou até uma palavra-chave (hashtag) – o infame #mimimi, normalmente precedido de um comentário sarcástico sobre as reclamações do usuário.

O resultado é que, para não se exporem ao julgamento dos implacáveis amigos virtuais, internautas recorrem a esconderijos onde dividem queixas, confusões e até vitórias insignificantes do dia-a-dia: os sites anônimos de desabafo.

Nos Estados Unidos, o exemplo mais recente desse fenômeno é o site Texts from last night (“mensagens da noite passada”), que recebe os visitantes com a seguinte frase: “Lembra aquela mensagem que você não deveria ter mandado ontem à noite? Nós lembramos”. Com esse slogan, um design quase precário e colaborações constantes de usuários, a página se tornou uma das maiores sensações da internet em 2009.

A ideia é simples: reunir desabafos ou mensagens embaraçosas de internautas anônimos, identificados apenas pelo código de região de seus celulares. O serviço, lançado em fevereiro, logo atingiu uma média diária de 4 milhões de acessos. Sociólogos chegaram a chamá-lo de “um documento vivo sobre o cotidiano dos jovens em 2009”. A popularidade chamou a atenção do canal de televisão Fox, que recentemente assinou um contrato para produzir um seriado sobre os depoimentos.

A história de sucesso é semelhante à do primeiro grande site do gênero: o F my life (“F... minha vida”), criado em 2008 por uma dupla de franceses. As histórias enviadas por usuários deram origem a um livro, que chegou no início do ano às livrarias da França e dos Estados Unidos. O serviço inspirou outros sites com o mesmo formato, como o My life is average (“minha vida é mediana”), para internautas com vidas sem graça, e o It made my day (algo como “ganhei o dia”), para comemorar pequenas conquistas do cotidiano.

No Brasil, o posto é ocupado pelo sugestivo Vida de merda, que recebe atualizações diárias e é integrado a outras redes sociais, como Twitter e Facebook. Nada mais conveniente para quem quer reclamar da vida anonimamente, sem se arriscar a perder amigos virtuais. Sem saber quem é o autor da história, eles podem rir sem culpa dos infortúnios alheios – o que, por si só, já seria motivo para outra reclamação.

A seguir, confira alguns dos melhores depoimentos (publicáveis) enviados para os sites:

Alguns desabafos de internautas:

Vida de merda

"Hoje, depois de terminar com o idiota do meu namorado por ele ficar atirando com arma de paintball no meu cachorro, ELE me chamou de infantil. Minha mãe concordou."

"Hoje minha namorada pegou minhas senhas do Gmail e MSN ‘só para olhar’. Peguei as dela também. Ela roubou minhas senhas, mudou as dela e, quando fui pedir satisfação, ela disse: 'vou ficar com seu Orkut, Gmail e MSN por 2 meses só para averiguar, depois devolvo. Os emails importantes te encaminho para o Yahoo’."

"Hoje fui até meu apartamento para ver se o gesseiro havia feito o serviço direito. Chegando lá, a parede que ele havia subido estava completamente fora de esquadro, ou seja, torta. Quando reclamei, ele retrucou dizendo que meu apartamento é que estava torto. "
Texts from last night

"Acho que o meu eu bêbado está dizendo alguma coisa para o meu eu de ressaca... Só preciso decifrar o código"

"Às vezes me sinto tão sozinho que programo o despertador do celular para tocar a cada 5 minutos e imagino que estão me mandando mensagens."
F my life

"Hoje minha namorada terminou comigo dizendo que queria alguém mais parecido com o Edward. Eu perguntei quem era Edward e ela me mostrou um exemplar de Crepúsculo. Ela estava falando de um vampiro fictício."

"Hoje recebi meu passaporte pelo correio. Eles erraram minha data de nascimento. Peguei a certidão de nascimento que eu tinha enviado junto com os formulários e descobri que meus pais comemoram meu aniversário no dia errado há 16 anos."

"Hoje meu noivo terminou comigo por uma mensagem no MySpace. Nós estávamos no mesmo apartamento."
My life is average

"Hoje, no jantar, minha mãe perguntou quantos filhos minha irmã queria ter. Ela respondeu: 'Eu quero 22, cada um com um pai diferente para eu ganhar mais com a pensão’. Minha irmã está proibida de sair de casa para sempre."

"Hoje fui tomar uma ducha e, no meio do banho, senti uma coisa estranha embaixo dos meus pés. Olhei para baixo e vi que ainda estava de meias."
It made my day

"Hoje vi um pombo defecando em outro pombo. Justiça."

"Minha esposa me deu um relógio horrível de aniversário de casamento porque não gostava do que eu costumava usar. Ela insistiu para eu usar o novo e hoje, quando eu finalmente concordei, fui assaltado. Levaram só o relógio."


Sim, nós podemos Ruth de Aquino

RUTH DE AQUINO

O Rio amanheceu cantando. Toda a cidade amanheceu em flor. E os namorados vêm pra rua em bando porque a primavera é a estação do amor. Rio, das noites estreladas e praias azuis. Rio, das manhãs prateadas, das morenas queimadas, ao brilho do sol. Rio, és cidade-desejo, tens a ardência de um beijo em cada arrebol! A composição é de Braguinha (João de Barro) e foi gravada por Carmen Miranda, em 1934. Faz 75 anos. Na sexta-feira, o Rio amanheceu assim.

Só é preciso traduzir “arrebol”: alvorada ou crepúsculo avermelhado. De resto, a letra de Braguinha é atual. Continua sendo verdade. Uma verdade parcial, vista de cima, mas absoluta: não há no mundo natureza mais fotogênica num centro urbano do que a carioca. O Rio sempre foi um destino de sonho. Porque é bonita demais, que me perdoem as feias. É uma cidade exibida que convida ao namoro e ao voyeurismo.

Brasileiros de todos os sotaques se emocionaram ao ver na televisão as imagens do Rio de Janeiro em Copenhague, Dinamarca. Foi um exercício de sedução para sediar as Olimpíadas de 2016.

Esse amor pela cidade em que nascemos e crescemos é diretamente proporcional a nossa indignação com os sucessivos governos que vinham destruindo criminosamente o Rio e sua vocação para a alegria, o turismo e o prazer. Vocação que resiste a todos os ex-prefeitos omissos, a todas as ex-picuinhas com presidentes. Senão, como explicar que uma pesquisa com 10 mil pessoas em 20 países, feita pela revista Forbes, tenha acabado de eleger o Rio como “a cidade mais feliz do mundo”?

Na fria Copenhague, um dos pontos mais altos da apresentação foi o discurso do presidente Lula. Não vou repisar a paixão, porque isso Lula tem de sobra. E todos os passionais às vezes pisam na bola. Lula foi profissional.

Treinado como um atleta para subir ao pódio e ganhar o ouro. Sua emoção estava na dose certa da sinceridade e propriedade dos argumentos, sem cacoetes de improviso. Não apelou para gracinhas dúbias. Não mencionou o Corinthians. Não recorreu a olhares, gestos e bocas. Não tropeçou, não cometeu gafes, e falou de multiculturalismo.

Brasileiros de todos os sotaques se emocionaram com a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016

“Com muito orgulho, represento aqui as esperanças e os sonhos de mais de 190 milhões de brasileiros. Somos um povo apaixonado pelo esporte. Olhando para os cinco aros olímpicos, vejo neles o meu país. Não só somos um povo misturado, mas um povo que gosta muito de ser misturado”, disse.

Foi o Lula no auge do charme e carisma, com um toque de sobriedade que lhe caiu muito bem, uma sobriedade escassa na América do Sul. Lula não foi frio e formal como o presidente americano Barack Obama – que ficou cinco horas na Dinamarca e se mandou sem ouvir a votação. Nem apelou para sua infância, como fez Michelle, a primeira-dama, numa fala mais triste e particular do que a ocasião pedia. Lula não personalizou.

Falou em nome do Brasil, da América do Sul e desafiou o Comitê Olímpico Internacional a ousar. A apostar no diferente. A acreditar na transformação de uma cidade pelo esporte. Lula foi “o cara”: “Chegou nossa hora. Entre as dez economias do mundo, somos o único país que nunca recebeu os Jogos. Essa decisão abrirá uma nova fronteira”.

Sei que os céticos enxergam os interesses políticos por trás. E que os pessimistas chegaram a torcer contra a candidatura do Rio. Foram poucos. A adesão do povo brasileiro foi impressionante: 85% queriam muito.

Claro que vamos cobrar o cumprimento de promessas. O não desvio de dinheiro público. Estamos cansados de testemunhar falcatruas. Chega de projetos megalomaníacos que enchem os bolsos de políticos e são inúteis para a população.

Não queremos pouco. Queremos uma transformação radical como a de Barcelona. O Rio pode enfim dar uma virada se houver planejamento e responsabilidade. No transporte, na segurança, na urbanização de algumas favelas e na remoção de outras, no meio ambiente, na infraestrutura, na saúde, no respeito à infância, na educação e cidadania. Esperamos que um dia o choque de ordem se torne redundante. Sim, nós podemos.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
NILSON SOUZA


O profeta Gentileza

Já estava com meu texto pronto para esta crônica semanal quando li no blog da colega Rosane Tremea (Recortes de Viagem, em zerohora.com) um relato tão bonito e sensível, que pedi sua permissão para reproduzi-lo para os leitores de nossa edição impressa e para quem me acompanha pela internet. Sob o título “Gentileza na cidade”, ela contou como foi o seu sábado em Porto Alegre – e iluminou a semana dos seus leitores. Espero que os meus também façam bom proveito da mensagem:

Pode ser o espírito desarmado do sábado de folga e de sol. Ou pode ser simplesmente nossa desatenção diante do que é simples. E bonito. E importante. No sábado de folga e de sol, o Profeta Gentileza parecia ter baixado na cidade.

Sorria a ascensorista da Casa de Cultura Mario Quintana. Sorria a gerente do restaurante que lamentava não haver lugar para quem não havia feito reserva. Sorria a garçonete que sugeria mudar a sobremesa, por que aquela demorava muito, e hoje todos têm pressa.

Sorria a moça detrás do balcão da loja de R$ 1,99, que vendia flores de plástico como se fossem orquídeas raras. E tinha o cabelo bonito, mechado e bem cuidado. E maquiagem leve e de bom gosto. E, por trás do balcão, sentava numa cadeira de rodas, as mãos retorcidas por uma doença que não ousamos perguntar qual era. E a gentileza não diminuiu após nosso olhar de surpresa, não de piedade.

O sábado não parecia prenunciar o domingo de vento e chuva e destruição. O sábado era de sol, de primavera. O sábado era de gentileza em todo lugar. Por que o mundo não é cor-de-rosa, todos sabemos, mas pode ser bem melhor.

Na igreja, no sábado de sol, a gentileza com a curiosidade das passantes que queriam saber o porquê de todas aquelas flores, e frutas, e símbolos, todos diferentes.

Era o Festival das Flores, uma tradição surgida no século 19 nas igrejas anglicanas da Inglaterra e da Escócia, celebrando nas áreas rurais o início da primavera.

Uma tradição seguida hoje nas igrejas anglicanas do mundo todo, incluindo as de Porto Alegre, como na Catedral da Santíssima Trindade, na Rua da Praia. A explicação toda veio com paciência e gentileza. E rendeu, como sempre, fotos.

E pra encerrar este post, escrito simplesmente num dia em que a gentileza estava no ar, e pra começar a semana, um trecho de um poema do profeta Gentileza:

“Esse dia lindo,

essa luz que está em cima de nós, a nossa vida,

ou seja, vem do mundo, é de graça,

é Deus nosso Pai que dá.”

Boa semana.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Bagre, 70 anos

Era uma manhã de sol, aquele 3 de outubro de 1939, lembro como se fosse hoje e olhem que eu só ia fazer cinco anos exatos um mês e um dia depois. Morávamos em Uruguaiana, num chalé de madeira com pátio de esquina na frente da casa de seu Amado Carreiro e dona Ubaldina, gente rica para o nosso padrão da época.

Naquele dia, depois do café da manhã (café preto com farinha de mandioca e uma bolacha tipo vovó sentada), a nossa irmã Irlê levou os dois irmãozinhos (eu e o João, um ano mais moço) para a casa da tia Chininha, “porque a mãe ia ganhar nenê”. A dona Mocita já tinha oito filhos. O Darci, o mais velho, um adolescente bonito e atleta do futebol, do salto com vara e grande nadador.

A Ziláh era uma indiazinha séria e compenetrada. A Irlê era irrequieta, sempre arrumando um jeito de ganhar dinheiro: até as laranjas do pátio ela vendeu para comprar uns tênis para o João, guri que na hierarquia da casa era o “seu filho” (eu era “filho da Ziláh”, a irmã que me cuidava). O irmãozinho que ia nascer seria “filho da Flora”, a irmã que vinha a seguir, uma guria magra e alta, de pernas finas e cabelo que parecia uma ramada.

Depois vinha o Aldo, indiozinho sério e já muito responsável, de duro cabelo ouriçado. Depois, a Elida, loirinha, frágil e protegida da mãe. Aí, sim, vinha a dupla inseparável, eu e o João, eu meio pretusco e o João Batista um alemãozinho melado de olhos verdes. (Depois do Bagre ainda nasceria o Julio César, vulgo Bilico, vulgo Gozador).

Então a Léla (apelido da Irlê) nos levou para a casa da tia Chininha e nos entregou aos cuidados da prima Luci. A Luci nos deu pão com mel, coisa que não conhecíamos. Esganados, nos atracamos na iguaria e lambuzamos as mãos e a cara, e a Luci disse com graça: “Quem nunca come mel quando come se enlambuza...” No meio da manhã passou um avião grande, que era uma novidade, e eu disse ao João: “Olha aí o avião que trouxe o nosso irmãozinho!”.

Todos os partos da dona Mocita foram em casa, com uma parteira. No fim do dia a Uga (uma negra aça que era empregada doméstica da dona Mocita) veio nos buscar para conhecermos o novo membro da família. A dona Mocita achava que seria o seu último filho e escolheu o nome Euclides para homenagear o marido.

Mas aí, uma coisa engraçada: quando ela engravidou para ter o João ela queria uma guriazinha. Fez todo o enxoval bordado com o nome de Ivonir. Veio um guri e o flamante enxoval ficou intocado. Quando engravidou de novo, arrumou tudo, pensando: “Agora, sim, vem uma guriazinha bonitinha!”. E nasceu o Bagre!

Ele ainda não tinha o apelido, que só ganharia em São Borja, uns quatro anos mais tarde, porque chorava muito com a grande boca aberta, apelido dado pelo João que era o seu algoz e a sua vítima predileta. Assim veio ao mundo Euclides Fagundes Filho, um dos maiores orgulhos da família, o mais completo artista de todos nós, pai de filhos maravilhosos. Feliz aniversário, Bagre!


03 de outubro de 2009 | N° 16113
PAULO SANT’ANA


Ave, Olimpíada!

Só festeja Olimpíada em 2016 no Rio de Janeiro quem nunca visitou as enfermarias do Hospital Conceição, como eu visitei, onde não existe à noite cirurgião cardíaco, mas existem pacientes cardíacos à espera, todas as noites, de cirurgiões cardíacos. Ou melhor, pacientes à espera da morte.

Só comemora com estrépito a escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016 quem nunca visitou recentemente o atual ou ex-hospital penitenciário do Presídio Central, onde vegetavam ou ainda vegetam 95% dos pacientes de aids, doença que eles adquiriram dentro dos muros da prisão.

Só exulta com a Olimpíada no Brasil quem não conhece as ruas mais trágicas da pobreza no território de Porto Alegre, onde começam a se prostituir as meninas com 12 anos de idade.

E nessas mesmas ruas começam o seu aprendizado de ladroagem ou de tráfico de entorpecentes os meninos-mula, com 11 anos de idade.

Quem não sabe que sua cidade é palco dessa atrocidade genocida e social saúda com efusão de contentamento a Olimpíada no Rio de Janeiro, onde dizem que o Brasil gastará R$ 25 bilhões, mas, como se sabe, gastará 10 vezes mais.

Só podem saudar a Olimpíada no Rio de Janeiro os que desconhecem ou fingem desconhecer as filas de cirurgias e consultas do SUS, onde a cada dia morrem cem pessoas por falta de atendimento, umas querendo apenas uma cirurgia que lhes faça transitar novamente o sangue pelas veias, outras implorando simples cirurgias que lhes salvem os braços ou as pernas de lesões adquiridas há dois anos, outras querendo salvar suas bexigas, seus fígados, seus rins, seus olhos, seus ouvidos, miseravelmente sem atendimento, vão morrendo destas e de outras doenças em que se transformaram aquelas.

Todos os dias, morrem nas filas dos SUS dezenas de gaúchos sem atendimento de saúde, são milhares em um mês, são dezenas de milhares em um ano.

Quem não sabe disso ou finge desconhecer isso saúda a Olimpíada! Oh, bendita Olimpíada, que vem para salvar os Lázaros do SUS.

Os gladiadores se dirigiam em fila e marcha, antes dos combates na arena do Coliseu, onde 90% deles morreriam, e faziam por um deles, o porta-voz, a saudação ao imperador: “Ave, César, os que vão morrer te saúdam”.

Faço-me porta-voz do povo brasileiro e grito e proclamo: “Ave, Olimpíada, os brasileiros que vão morrer nas margens do SUS te saúdam”.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
CLÁUDIA LAITANO


Crime e castigo

Em uma noite do verão de 1969, um bando de malucos liderado por Charles Manson – que se considerava a reencarnação de Cristo e achava que os Beatles falavam com ele através de suas músicas – invadiu a casa do cineasta Roman Polanski, em Los Angeles, matando a mulher dele, grávida de oito meses, e mais quatro amigos do casal.

O grupo de cinco pessoas foi sentenciado à morte em 1971, mas com a mudança nas leis penais da Califórnia, em 1972, a pena foi alterada para prisão perpétua. Manson, hoje com 75 anos, fez várias tentativas para conseguir a liberdade condicional – a última, negada novamente, foi em 2007. Susan Atkins, uma das jovens que participou do massacre, morreu na prisão na semana passada, aos 61 anos, depois de ter 17 pedidos de liberdade condicional negados.

Essa não foi a primeira tragédia na vida de Polanski. O diretor, judeu franco-polonês, tinha seis anos quando estourou a II Guerra. Separado dos pais, o menino passou boa parte da infância vagando pela Europa. A mãe foi morta pelos nazistas.

O pai conseguiu sobreviver, mas só o reencontrou após o fim da guerra. Parte dessa dolorosa experiência é retratada no filme O Pianista, um dos mais tocantes de sua carreira, que narra a história real de um músico judeu que, contra todas as circunstâncias, conseguiu permanecer vivo enquanto o mundo literalmente desabava ao seu redor.

O Pianista filia-se à linhagem de filmes que cumprem a inestimável função de impedir que o Holocausto seja esquecido, ou minimizado, pela posteridade. É uma história que nunca deixará de ser contada, mesmo quando não houver mais vítimas como Polanski para lembrá-la ou criminosos de guerra para serem punidos.

O tempo, definitivamente, não fecha todas as feridas, não dissolve todos os males, não apaga todos os erros. Eles continuam ali, à espera de justiça, lembremos deles ou não – e Polanski, mais do que ninguém, sabe disso.

Preso esta semana na Suíça por um estupro cometido nos Estados Unidos há 32 anos, o diretor cometeu um erro e vai ter que responder por ele. Como, idealmente, deveria acontecer com todas as pessoas que erram – famosas ou não.

A versão da vítima, que tinha 13 anos na época, não deixa dúvidas: o sexo não foi consensual, envolveu violência e drogas. É compreensível que ela tenha preferido retirar a queixa – aos 45 anos, mãe de três filhos, não tem interesse em mexer mais uma vez nesta ferida, e está no direito dela. O que não dá para entender é por que tantos cineastas famosos, atores e até o ministro da Cultura da França foram tão rápidos em comprar a versão de inocência de Polanski, exigindo a sua libertação imediata.

Um dos muitos amigos de Polanski, o escritor Robert Harris, escreveu um artigo no Times perguntando qual o sentido de prendê-lo agora, passado tanto tempo. É verdade que as circunstâncias da prisão são estranhas e que o moralismo americano sempre desperta desconfiança, mas se eu tivesse que responder a essa pergunta diria que se esse raro caso de punição tardia tiver algum sentido pedagógico e servir para provocar alguma reflexão a respeito da diferença entre sexo consentido e violência ou sobre a responsabilidade de um adulto que faz sexo com uma criança, diria que a prisão de Polanski faz todo o sentido.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009



A tolerância entre os povos, segundo David Raskin

O doutor David Raskin nasceu em Erechim em 1929, filho de imigrantes vindos da Rússia. Depois da infância em Erechim e Santa Maria, cursou medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especializou-se em oftalmologia. Clinicou em Videira e em Criciúma, em Santa Catarina e, há mais de cinquenta anos, trabalha em Porto Alegre.

Ao longo dos anos, leitor infatigável, dedicou-se, como autodidata, ao estudo das três grandes religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Sempre gostou de estudar as origens, semelhanças e diferenças das religiões e, há poucos dias, lançou o livro Três Deuses e uma Trindade, detalhada investigação dos fatos históricos das três grandes crenças.

Num mundo tão repleto de fanatismos, incompreensões e antagonismos, quase sempre causados pela falta de informações, a obra do Dr. David vem em ótimo momento.

O autor não nega sua filiação ao judaísmo, mas evita qualquer proselitismo a favor de uma ou outra religião. Com linguagem acessível e abordagem direta, o autor, acima de tudo, depois de estudar temas polêmicos como o julgamento de Jesus e a Delação Premiada de Judas, analisa, de forma comparativa, os fatos omitidos ou mal interpretados em textos sagrados e propõe: o importante não é ser crente ou ateu, mas ser tolerante e acolhedor com todas as pessoas, independentemente da orientação pessoal.

Raskin fala de Deus e Fé, dos profetas do Islã, das fases de vida de Jesus, do Holocausto e dos livros sagrados: a Torá, os Evangelhos e o Corão. Ressaltando os princípios humanistas presentes nas três grandes religiões, o autor contribui para o diálogo e a tolerância entre os povos, algo fundamental para os dias de hoje, quando o egoísmo, a vaidade e o fanatismo parecem ter atingido proporções nunca vistas.

O volume tem apresentações de David Coimbra e Ali Kamel. Nas páginas finais, um útil glossário e belas imagens religiosas, além de relação da bibliografia consultada e posfácio.

Em síntese, além de nos trazer esclarecimentos e visões históricas sobre temas tão relevantes, o autor nos convida a pensar e agir em relação a diferenças e semelhanças que, ao fim e ao cabo, devem servir para buscarmos a convivência fraterna e tolerante e a paz e não para sentirmo-nos superiores aos nossos semelhantes.

Três Deus e uma Trindade tem 186 páginas e foi publicado pela AGE, telefone 51-3061-9385.

Uma linda sexta-feira e um gostoso fim de semana, com sol espera-se, lá fora e dentro de nossos coraçãozinhos.

Jaime Cimenti

Pai, filho, amor e tragédia

O romance Como Deus Manda, do escritor italiano Niccolò Ammaniti, foi o vencedor do Prêmio Strega 2007, o mais importante e disputado da literatura italiana. Tal fato justificaria, por si só, a tradução e a leitura da densa e alentada narrativa de mais de quatrocentas páginas.

Ammaniti, nascido em Roma, em 1966, é autor dos romances Branche, Ti Prendo Via e Não tenho medo, além da antologia de contos Fango. Seus livros já foram publicados em 44 países.

Em Como Deus Manda a história gira em torno de um pai e seu filho, que, desde o abandono da mãe, vivem juntos e, por meio de um amor inigualável que se nutre de violência, radicalismos e alcoolismo, vão levando a vida adiante do jeito que dá. Até onde pode ir o amor entre pai e filho?

O que se consegue suportar em favor desse amor? Rino e Cristiano Zena, pai e filho, moram em Varrano, pequena cidade da Itália e vivem em estado de penúria. O ambiente é uma bagunça, tal qual suas vidas. Rino, tatuado, adorador do nazismo, é um operário desempregado e Cristiano é um menino recluso que frequenta uma escola onde ninguém lhe dá a mínima.

Além dos dois, o grupo que compõe a narrativa é completado por dois amigos de Rino: Danilo Aprea, um melancólico operário que perdeu a filha em um acidente e foi largado pela mulher e Corrado Rumitz, o Quatro Queijos, que ficou sequelado depois de um acidente com fios de alta tensão.

Pretendendo dar uma virada na vida, os quatro decidem arrombar um caixa eletrônico, mas, na noite escolhida para o golpe, ocorre a maior tempestade dos últimos anos. Rios transbordam e a lama parece sepultar toda a esperança. As trevas tomam conta.

Mas a verdadeira mudança vai acontecer quando entra em cena uma menina loira que, ao voltar bêbada e drogada da casa da melhor amiga, acaba transformando o destino de todos.

Tragédia profunda e humor desenfreado se mesclam na narrativa movimentada, que utiliza linguagem direta, nua e crua e na qual não faltam fantasmas e remorsos, bem como escuridão, muita tensão, sonhos e brutalidade.

Sem dúvida, uma fábula apocalíptica bem atual que tem muita força e sedução, mostrando por que Niccolò Ammaniti, que atualmente vive em Roma, é destaque na cena da moderna literatura italiana. 436 páginas, tradução de Karina Janinni, Bertrand Brasil, telefone 21-2585-2070.


02 de outubro de 2009 | N° 16112
PAULO SANT’ANA


Carta do réu absolvido

Recebi por interposta pessoa, Ane Lanius, uma carta do ex-deputado Antônio Dexheimer, que há 20 anos foi absolvido da acusação de ter assassinado o deputado e jornalista José Antônio Daudt:

“Prezado Paulo. Sou leitor assíduo de tua coluna, a exemplo de todos os assinantes de ZH.

A discordância de pontos de vista não é suficiente para acalentar uma inimizade, sentimento menor de almas em conflito.

Reconheço a inteligência e o brilho da tua coluna, na riqueza do vocabulário, na precisão das frases, no conteúdo vigoroso e convincente das tuas afirmações. Ressalvo, no entanto, que até as mentes brilhantes se equivocam.

Encontrei meu nome perdido na tua coluna, estabelecendo um paralelo com o caso Becker. São inegáveis as semelhanças. Uma diferença, no entanto, deve ser ressaltada: independentemente da investigação policial, o suspeito no caso Daudt foi acusado, indiciado, pronunciado e condenado pela imprensa investigativa, na madrugada de sua morte, nos corredores lúgubres do Pronto Socorro. A Justiça soberana do RS desfez o equívoco em memorável julgamento.

No caso Becker, a imprensa investigativa se mantém à margem, silenciosa, preservando a assertiva de eminente jurista: ‘Quando a imprensa entra pela janela de um caso policial, a justiça sai pela porta’.

Um crime já foi cometido. Becker atacado também covardemente, a exemplo de Daudt. Que não se cometa outro, acusando um inocente.

Retorno à tua coluna do dia 26/09, no relato de um fato, ausente de minha lembrança. Na minha memória jamais estive acompanhado pelo Dr. Lia Pires na tua presença. Não seria sensato. As imaginações férteis divagam e fazem, de versões, fatos. Cacoetes do jornalismo.

Há 20 anos meu nome transita na tua coluna, como responsável pelo assassinato de Daudt. Estás equivocado e perpetuas uma injustiça. Fato deplorável aos olhos de Deus. Não fui o responsável pelo desditoso acontecimento.

O verdadeiro culpado permanece impune, acobertado pelo manto protetor de um falso culpado, criação inconsequente de um jornalismo dito investigativo. Contraponho à insistência acusatória o pronunciamento definitivo da Justiça, declarando por esmagadora maioria o veredicto de inocente.

Vinte anos se passaram e o caso está definitivamente prescrito. Talvez agora, distanciado do fato, com os espíritos desarmados, uma nova investigação, principalmente no viés de seus pseudoamigos e inimigos, possa tirar das sombras e da penumbra o risonho e feliz verdadeiro culpado.

Sinto o interesse de teu órgão de comunicação de revolver das cinzas o caso prescrito. Aceito o desafio.

O Lasier Martins é o mediador do Conversas Cruzadas. O Amadeu pode participar. Vamos rememorar juntos o ‘caso Daudt’. Você e eu. Vamos debater o assunto de peito aberto e coração desarmado. Vamos discutir a imprensa investigativa, as preferências sexuais, a polícia, o governo de então, o Ministério Público. A Justiça.

Enfim, todos os meandros deste enigma que paira sob nossas consciências, e talvez consigas com teu talento pessoal, com tua argúcia de policial a confissão de um crime que não cometi.

Com admiração e desarmado, um abraço do (ass.) Antônio Dexheimer”.

Agora escreve o colunista: então, Dr. Dexheimer, o senhor não se lembra da audiência em que foi inquirida a surda-muda que disse ter visto o senhor matar Daudt e o reconheceu no auditório como o matador, lançando sobre o seu rosto o dedo acusador?

Pois eu estava ao lado de seu defensor Lia Pires e o senhor estava a três metros de mim, na minha frente. Como o senhor não se lembra? Que vezo o senhor tem de negar!

Outra coisa, Dr. Dexheimer, não me recuso a debater com o senhor o crime. Mas agora acho inútil, porque o senhor estaria em situação ainda mais confortável: o delito já prescreveu. Mas saúdo o fato de que em sua carta acima publicada o senhor se declare desta vez desarmado.