sábado, 3 de outubro de 2009



04 de outubro de 2009
N° 16114 - PAULO SANT’ANA


A Olimpíada do abismo

O Brasil se prepara para gastar mais de R$ 200 bilhões na Olimpíada, quando com 10% desse dinheiro poderia salvar todos os que morrem de doenças não atendidas pelo SUS, apodrecem e morrem nas filas de consultas e cirurgias do SUS.

O Brasil, em 2016, vai arremessar o peso, vai saltar no hipismo das varas, vai emaranhar-se no tatame do judô com seus adversários, vai esgrimir, vai flechar, vai saltar em distância, vai nadar, vai jogar futebol, basquete e vôlei, vai saltar com vara o Brasil, vai saltar em altura, vai dar um salto triplo no rumo do... abismo.

O velho Eugênio Steffen, dono de um armazém de secos e molhados em São Leopoldo no século passado, costumava dizer a todos os que iam encontrá-lo: “Tudo o que se pode pagar com dinheiro é barato, seja que preço for”.

O velho Steffen tinha razão. O que ele queria dizer na sua sabedoria de comerciante é que só tem valor na vida o que não custa dinheiro.

Ele afetava com isso que só o amor, a solidariedade, o carinho, a ajuda moral ao próximo, só estas coisas tinham grande significado. O resto era tudo barato.

Era nos armazéns de secos e molhados e nas barbearias do século passado que transitava mais translúcida a verdade.

Não tenho dúvida, como devo ter dito isso no aniversário de 70 anos do Reginaldo Pujol, que só depois dos 70 anos nós, homens, podemos ser felizes.

É impossível ser feliz na juventude e na maturidade, só se tem a oportunidade de ser feliz na velhice.

Dou um exemplo: como poderia ser eu feliz na juventude e na maturidade se o apartamento que comprei para viver com minha família, quando eu tinha 38 anos, levei para pagar as prestações 25 anos?

Pagar essas 300 prestações da minha sagrada casa própria me custou 25 anos sem dormir, com medo de que pudesse vir a não poder pagar e perder a minha casa própria e ser assim jogado na vala incerta e espúria do aluguel.

É humano que obriguem uma pessoa a ficar pagando prestações de seu primeiro e único apartamento durante 25 anos? Isso é uma selvagem desumanidade.

Sendo assim, como pode ser feliz quem é jovem, ou homem ou mulher maduros? Depois da casa própria, tem outro pesadelo: a casa da praia. E por aí vai a sucessão de aflições.

E não é só isso. Quem não é velho não pode ser feliz também porque não está próximo da morte, por mais paradoxal que isso possa parecer.

O velho tem condições de ser feliz porque a morte para ele não é imponderável, é um fato próximo e sólido e concreto.

Já o jovem não é feliz porque ele lida confuso com a incerteza da morte, portanto do seu futuro. Já o velho pode ser tranquilo e feliz porque, tendo certeza da morte, não tem mais de preocupar-se em pensar no futuro.


04 de outubro de 2009
N° 16114 - MOACYR SCLIAR


A vida nos hotéis

Viajar não é apenas conhecer novos lugares, conhecer novas pessoas. Viajar significa mudar, ainda que transitoriamente, o estilo de vida. De repente, já não estamos mais em nossas casas, no cenário que nos é familiar.

De repente estamos num lugar que, pretendendo ser como as nossas casas, ou até melhor que as nossas casas, acaba nos dando uma sensação de estranhamento. Estou falando, claro, no hotel.

A vida nos hotéis é uma vida provisória. Mas tem suas regras, sua cultura, como descobrimos tão logo nos apresentamos na portaria. Vamos preencher uma ficha, vamos ser informados de algumas coisas: o lugar e o horário do café da manhã, a disponibilidade ou não de internet e de fitness center (é, o nome é em inglês). É uma rotina que parece familiar, que se esforça por ser familiar e que, no entanto, envolve surpresas.

Da primeira vez que fomos à Europa, Judith e eu, fomos à estação ferroviária de Florença, onde havíamos chegado para passar uns dias, e, por força de um orçamento muito limitado, pedimos um hotel barato.

Sem uma palavra, a moça passou-nos um endereço. Fomos até lá, e era realmente um hotel precário, com quartos pequenos e sem banheiro. Mas estávamos cansados e tudo o que queríamos era um lugar onde pudéssemos dormir um pouco antes de entrar no fantástico universo da arte florentina.

Café da manhã não havia; saímos e, quando voltamos, no fim da tarde, constatamos que o quarto não tinha sido arrumado. Mais que isso, nos corredores transitavam pessoas estranhas, mulheres com grotesca maquiagem, homens de olhar lúbrico. Era, como vocês já devem ter concluído, uma casa de encontros. Mas ali ficamos, o inocente casal, para irritação dos pecadores, que viam em nós uma presença acusadora.

Nos hotéis mais modestos, sobretudo na Europa, o hóspede paga (ou pagava, ao menos naquela época) por tudo. Moedas são, ou eram, necessárias para fazer o elevador funcionar, para ligar a calefação e até para obter água no chuveiro. Por um tempo limitado: às vezes, ensaboados, tínhamos de correr em busca de uma moeda porque a água subitamente era cortada.

Os hotéis brasileiros são mais generosos. Fornecem café da manhã, por exemplo, e aí, conforme o número de estrelas, a variedade pode ser grande. Mas, na minha experiência, o grande diferencial é a omelete. Mais do que as estrelas clássicas, a omelete, junto com o tamanho da cama e os preços do frigobar, classifica os estabelecimentos. Mas mesmo um hotel bom pode reservar surpresas desagradáveis.

Não se pode, por exemplo, escolher os vizinhos. Se o cara tem insônia e resolver ver tevê até de madrugada com o volume no máximo, azar o nosso. Ah, sim, e existem também os ocupantes do piso superior. Entre estes, aqueles que nos deixa mais intrigados (e mais nos incomoda) é o cara que mexe com os móveis.

Num prédio de apartamentos a gente ainda entende; mas num hotel? Por que um morador provisório precisa consertar o lay-out do quarto? Mas tem gente que faz isso, e aí é cadeira sendo arrastada de um lado para outro, mesa sendo arrastada, cama sendo arrastada (e, quem sabe, um corpo sendo arrastado).

O sonho dos hotéis é fazer o visitante se sentir em casa. Mas isso ainda é uma possibilidade muito remota.

Isabela Boscov - divulgação - GLÓRIA FEITA DE SANGUE

Tarantino na idade da razão



Em Bastardos Inglórios, uma unidade voluntária de soldados judeus espalha o pânico entre os nazistas na França ocupada. É uma fantasia típica de Quentin Tarantino - mas, da escrita soberba à escolha dos atores excelentes, denota o avanço notável do diretor rumo à maturidade pessoal e artística

Eli Roth, como "O Urso Judeu", e Brad Pitt, como Aldo "O Apache" Raine, dois dos bastardos inglórios: sotaque caipira e nazistas escalpelados para desestabilizar a França sob domínio alemão

Em 1941, diante de uma pequena casa de fazenda, em algum lugar montanhoso da França, o sol brilha, os sinos das vacas são ouvidos ao longe e o pai corta lenha, enquanto a filha pendura a roupa no varal. Pelo lado do lençol que se levanta com o vento, porém, ela vê um grupo de soldados vindo pela estrada, e imediatamente esse quadro tão pitoresco de rusticidade ganha um caráter diverso.

Em vez da paz rural, o que se percebe agora é o isolamento da casa e quanto o pai e suas três filhas estão indefesos ali. Ajuda muito que a trilha escolhida para a cena seja um trecho original de Ennio Morricone para os faroestes-espaguete de Sergio Leone, capaz de anunciar como nenhuma outra coisa jamais composta para o cinema a solidão e o perigo.

Mas os enquadramentos exímios e o tempo impecável em que transcorre essa sequência de abertura de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, Estados Unidos/Alemanha, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, são obra e graça de Quentin Tarantino - tanto eles como a destreza com que o fazendeiro francês e o tenente-coronel alemão Hans Landa, que acabou de chegar com seus soldados, vão descrever círculos um em torno do outro, num enfrentamento que tem como objeto o paradeiro de uma família judia, e em que as armas serão um copo de leite, dois cachimbos, as três meninas e o domínio de ambos os personagens do inglês e do francês.

Na maneira como Tarantino retrai e prolonga o tempo previsto para chegar ao desfecho, essa abertura é eletrizante. E ilustra também a distância que o diretor vem percorrendo rumo à maturidade, em um caminho já indicado na segunda parte de Kill Bill.

Tarantino é capaz, agora, de imaginar não só um jogo entre dois personagens, mas um porquê para ele que vá além de suas contingências narrativas. Consegue ouvir a beleza de um diálogo travado, não meramente disparado. E aprendeu a apreciar a utilidade emocional da pausa e dos pequenos milagres que os bons atores podem proporcionar.

O pouco conhecido Denis Menochet, que interpreta o fazendeiro, é excelente, e com cada pequeno gesto acumula mais algum dado sobre a vida e o passado de seu personagem, ainda que nem uma palavra se diga sobre eles. E o ainda menos conhecido Christoph Waltz, que faz o nazista, é espetacular: um ator de precisão absoluta, que rouba o filme com a anuên-cia do diretor - e dos outros atores, igualmente galvanizados por sua performance.

O tenente-coronel Hans Landa, assim, será ainda mais essencial para o filme do que os próprios bastardos inglórios - uma unidade especial de soldados judeus voluntários, que penetram na França ocupada para assassinar nazistas com selvageria e dessa forma espalhar o pânico.

Liderados pelo tenente Aldo "O Apache" Raine (Brad Pitt), um matuto do Tennessee com um sotaque caipira mais espesso que melaço e o hábito de escalpelar suas vítimas, os bastardos são uma criação típica de Tarantino (que, claro, não deixou de ser ele mesmo): um grupo de homens que se comunicam por meio de frases de efeito - bom efeito, aliás - e se dedicam à violência com prazer, sem pesar nem drama de consciência.

Quando eles estão em cena, o filme adquire continuidade com os outros do diretor em tema, estilo e volume bruto de sangue. Quando não, Bastardos Inglórios assinala uma espécie de ruptura.

Em um processo análogo ao do canadense David Cronenberg, que depois de explorar a fundo as possibilidades da escatologia se renovou com o classicismo de Marcas da Violência e Senhores do Crime,

Tarantino estuda aqui as propriedades desestabilizadoras da elegância. Cada ato do filme agrupa um determinado número de personagens em um cenário delimitado - uma taverna, um cinema, uma mesa de restaurante. Todos tratam de alguém dissimulando e correndo grande risco; mas os duelos são travados por meio de insinuações.

Assim, a estrela de cinema e agente dupla Bridget von Hammersmark (a alemã Diane Kruger, que depois de quase afundar com Troia hoje só faz brilhar) tem de colocar aliados e alemães em volta de uma rodada de bebidas sem que ninguém se traia, e de forma a que aquilo que tem de ser descoberto o seja.

A judia disfarçada Shosanna (Mélanie Laurent), por sua vez, tem de repudiar as atenções insistentes de um herói de guerra nazista (Daniel Brühl) sem antagonizá-lo - e ambas, em momentos diversos, terão de sobreviver aos ataques de cordialidade, efusão e malevolência do tenente-coronel Landa. Tão fabulosa é a escrita dessas cenas que a mera menção a um copo de leite causa uma vertigem de medo.

Bastardos Inglórios, contudo, não é um filme sobre a II Guerra. Não é nem mesmo uma história fantasiosa passada na II Guerra, já que trata de dois complôs paralelos para pulverizar, literalmente, o alto-comando nazista.

É um filme passado em todos os outros filmes já feitos sobre o tema, com vários elementos dos noir dos anos 30 e dos faroestes de John Ford e Sergio Leo-ne acrescidos à sua encenação.

É um filme que pertence só à história do cinema, não à outra, a mais ampla. Mas, como no segundo Kill Bill, Tarantino mostra que descobriu a existência de outro mundo para além desse território imaginário - e que entendeu que, quanto mais se alimentar dele, mais verossímil e envolvente será sua fantasia.

Lya Luft

Contraponto: deixar desabrochar

"Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar"

Na coluna passada escrevi sobre educação e autoridade, dois temas complicados nos nossos dias de bagunça generalizada. Hoje falo sobre seu contraponto, o que me ensinou um velho mestre sábio sobre educação: "Família e escola fazem muito, se não estorvam. Deixem as crianças e os jovens desabrochar".

Na primeira vez em que escutei a frase fiquei um pouco chocada. Se já naquele tempo, eu ainda universitária, questionávamos a frouxa autoridade em casa e na escola, que deixava a meninada perdidona e sem limites, como entender aquela afirmação de quem entendia mais do que a maioria de nós sobre ensino, educação e o resto?

O tempo e a experiência foram mostrando um pouco do mistério: é preciso juntar tudo isso, bater no liquidificador da experiência, tentativa e erro, alegria e desespero de quem lida com esses assuntos na prática e na teoria, e ver no que dá.

Pois para lidar com gente não há garantia nem receitas, por mais que sejam vendidas ou espalhadas gratuitamente por aí em abundância: como conseguir parceiro, como segurar seu homem, como enlouquecer sua amante, como ficar rico sem esforço, como ter sucesso, como ser feliz em dez lições a preços módicos.

A questão é como dosar autoridade e liberdade, para que crianças e jovens cresçam. Ou melhor: para que a gente também continue crescendo, pois sou dos que acreditam que viver não é deteriorar-se, mas se expandir.

E quando o corpo parece encolher, murchar, envelhecer – é bom usar as palavras certas, pois às vezes os eufemismos soam ofensivos – a alma tem de continuar crescendo. Alma, psique, mente, não importa o conceito científico, moral, espiritual, que lhe queiram dar.

Mas volto ao desabrochar de crianças e adolescentes: se alguém tem perto de si um desses belos, estimulantes, atordoantes exemplares humanos, comece a observar: encante-se, assuste-se, trate de se descabelar e maravilhar. E vai lentamente entender a frase do velho mestre, quando dizia que família e escola não devem estorvar.

É preciso olhar, tentar entender um pouco, e respeitar. Amparando quando for preciso, botando limites para que as capacidades, talentos e dificuldades do outro não transbordem tornando-se prejudiciais; estimulando sem interferir gravemente, e admirando-se de como, igual a uma planta ou pássaro, um peixe no mais remoto fundo de oceano, a criança observa, pensa, e precisa se desenvolver.

O susto de quem tem a responsabilidade de cuidar (porque, repito interminavelmente, quem ama cuida) não é pequeno.

Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar. Mais que isso, pensar.

Falar assim é fácil, escrever mais ainda, dirão. É verdade. Mas se formos menos desligados e mais atentos, mais firmes mas menos rígidos, mais amorosos e mais exigentes neste universo contraditório que todos somos, e mais respeitosos, veremos milagres. E atenção: dizendo "respeitosos" não digo "encolhidos, humildes, suportando todas as más-criações e maluquices", mas sendo ativamente tranquilos.

Claro que para isso precisamos ser, se pais, razoavelmente estruturados emocionalmente, pois se formos destrambelhados demais poderemos perturbar as crianças. Professores, temos de ser bem pagos, com excelentes escolas – ou vamos mendigar a esmola de condições mínimas para trabalhar.

Embora os personagens de minhas ficções sejam neuróticos e sofridos, minhas crônicas nem sempre sejam otimistas, acredito que a gente sempre pode repensar a vida e todas as coisas que nela causam tamanho susto e tanto prazer, para sentir que afinal vale a pena.

Educar e ensinar não deveria ser razão de tanto conflito, com tão melancólicos resultados como os que muitas vezes se veem por aí. Deveria ser motivo de interesse, adrenalina boa, entusiasmo – ainda que passando por muitos fracassos e frustrações – porque, afinal, somos todos apenas humanos tentando entender o mundo de Deus e as humanas trapalhadas.

Danilo Venticinque

O melhor lugar para reclamar da vida

Com mensagens curtas e anônimas, sites de desabafo fazem sucesso e inspiram até seriado de TV

Reclamar da vida em redes sociais é uma tática infalível para ser ignorado, perder seguidores ou receber respostas atravessadas. No Twitter, esse tipo de desabafo é tão mal visto que ganhou até uma palavra-chave (hashtag) – o infame #mimimi, normalmente precedido de um comentário sarcástico sobre as reclamações do usuário.

O resultado é que, para não se exporem ao julgamento dos implacáveis amigos virtuais, internautas recorrem a esconderijos onde dividem queixas, confusões e até vitórias insignificantes do dia-a-dia: os sites anônimos de desabafo.

Nos Estados Unidos, o exemplo mais recente desse fenômeno é o site Texts from last night (“mensagens da noite passada”), que recebe os visitantes com a seguinte frase: “Lembra aquela mensagem que você não deveria ter mandado ontem à noite? Nós lembramos”. Com esse slogan, um design quase precário e colaborações constantes de usuários, a página se tornou uma das maiores sensações da internet em 2009.

A ideia é simples: reunir desabafos ou mensagens embaraçosas de internautas anônimos, identificados apenas pelo código de região de seus celulares. O serviço, lançado em fevereiro, logo atingiu uma média diária de 4 milhões de acessos. Sociólogos chegaram a chamá-lo de “um documento vivo sobre o cotidiano dos jovens em 2009”. A popularidade chamou a atenção do canal de televisão Fox, que recentemente assinou um contrato para produzir um seriado sobre os depoimentos.

A história de sucesso é semelhante à do primeiro grande site do gênero: o F my life (“F... minha vida”), criado em 2008 por uma dupla de franceses. As histórias enviadas por usuários deram origem a um livro, que chegou no início do ano às livrarias da França e dos Estados Unidos. O serviço inspirou outros sites com o mesmo formato, como o My life is average (“minha vida é mediana”), para internautas com vidas sem graça, e o It made my day (algo como “ganhei o dia”), para comemorar pequenas conquistas do cotidiano.

No Brasil, o posto é ocupado pelo sugestivo Vida de merda, que recebe atualizações diárias e é integrado a outras redes sociais, como Twitter e Facebook. Nada mais conveniente para quem quer reclamar da vida anonimamente, sem se arriscar a perder amigos virtuais. Sem saber quem é o autor da história, eles podem rir sem culpa dos infortúnios alheios – o que, por si só, já seria motivo para outra reclamação.

A seguir, confira alguns dos melhores depoimentos (publicáveis) enviados para os sites:

Alguns desabafos de internautas:

Vida de merda

"Hoje, depois de terminar com o idiota do meu namorado por ele ficar atirando com arma de paintball no meu cachorro, ELE me chamou de infantil. Minha mãe concordou."

"Hoje minha namorada pegou minhas senhas do Gmail e MSN ‘só para olhar’. Peguei as dela também. Ela roubou minhas senhas, mudou as dela e, quando fui pedir satisfação, ela disse: 'vou ficar com seu Orkut, Gmail e MSN por 2 meses só para averiguar, depois devolvo. Os emails importantes te encaminho para o Yahoo’."

"Hoje fui até meu apartamento para ver se o gesseiro havia feito o serviço direito. Chegando lá, a parede que ele havia subido estava completamente fora de esquadro, ou seja, torta. Quando reclamei, ele retrucou dizendo que meu apartamento é que estava torto. "
Texts from last night

"Acho que o meu eu bêbado está dizendo alguma coisa para o meu eu de ressaca... Só preciso decifrar o código"

"Às vezes me sinto tão sozinho que programo o despertador do celular para tocar a cada 5 minutos e imagino que estão me mandando mensagens."
F my life

"Hoje minha namorada terminou comigo dizendo que queria alguém mais parecido com o Edward. Eu perguntei quem era Edward e ela me mostrou um exemplar de Crepúsculo. Ela estava falando de um vampiro fictício."

"Hoje recebi meu passaporte pelo correio. Eles erraram minha data de nascimento. Peguei a certidão de nascimento que eu tinha enviado junto com os formulários e descobri que meus pais comemoram meu aniversário no dia errado há 16 anos."

"Hoje meu noivo terminou comigo por uma mensagem no MySpace. Nós estávamos no mesmo apartamento."
My life is average

"Hoje, no jantar, minha mãe perguntou quantos filhos minha irmã queria ter. Ela respondeu: 'Eu quero 22, cada um com um pai diferente para eu ganhar mais com a pensão’. Minha irmã está proibida de sair de casa para sempre."

"Hoje fui tomar uma ducha e, no meio do banho, senti uma coisa estranha embaixo dos meus pés. Olhei para baixo e vi que ainda estava de meias."
It made my day

"Hoje vi um pombo defecando em outro pombo. Justiça."

"Minha esposa me deu um relógio horrível de aniversário de casamento porque não gostava do que eu costumava usar. Ela insistiu para eu usar o novo e hoje, quando eu finalmente concordei, fui assaltado. Levaram só o relógio."


Sim, nós podemos Ruth de Aquino

RUTH DE AQUINO

O Rio amanheceu cantando. Toda a cidade amanheceu em flor. E os namorados vêm pra rua em bando porque a primavera é a estação do amor. Rio, das noites estreladas e praias azuis. Rio, das manhãs prateadas, das morenas queimadas, ao brilho do sol. Rio, és cidade-desejo, tens a ardência de um beijo em cada arrebol! A composição é de Braguinha (João de Barro) e foi gravada por Carmen Miranda, em 1934. Faz 75 anos. Na sexta-feira, o Rio amanheceu assim.

Só é preciso traduzir “arrebol”: alvorada ou crepúsculo avermelhado. De resto, a letra de Braguinha é atual. Continua sendo verdade. Uma verdade parcial, vista de cima, mas absoluta: não há no mundo natureza mais fotogênica num centro urbano do que a carioca. O Rio sempre foi um destino de sonho. Porque é bonita demais, que me perdoem as feias. É uma cidade exibida que convida ao namoro e ao voyeurismo.

Brasileiros de todos os sotaques se emocionaram ao ver na televisão as imagens do Rio de Janeiro em Copenhague, Dinamarca. Foi um exercício de sedução para sediar as Olimpíadas de 2016.

Esse amor pela cidade em que nascemos e crescemos é diretamente proporcional a nossa indignação com os sucessivos governos que vinham destruindo criminosamente o Rio e sua vocação para a alegria, o turismo e o prazer. Vocação que resiste a todos os ex-prefeitos omissos, a todas as ex-picuinhas com presidentes. Senão, como explicar que uma pesquisa com 10 mil pessoas em 20 países, feita pela revista Forbes, tenha acabado de eleger o Rio como “a cidade mais feliz do mundo”?

Na fria Copenhague, um dos pontos mais altos da apresentação foi o discurso do presidente Lula. Não vou repisar a paixão, porque isso Lula tem de sobra. E todos os passionais às vezes pisam na bola. Lula foi profissional.

Treinado como um atleta para subir ao pódio e ganhar o ouro. Sua emoção estava na dose certa da sinceridade e propriedade dos argumentos, sem cacoetes de improviso. Não apelou para gracinhas dúbias. Não mencionou o Corinthians. Não recorreu a olhares, gestos e bocas. Não tropeçou, não cometeu gafes, e falou de multiculturalismo.

Brasileiros de todos os sotaques se emocionaram com a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016

“Com muito orgulho, represento aqui as esperanças e os sonhos de mais de 190 milhões de brasileiros. Somos um povo apaixonado pelo esporte. Olhando para os cinco aros olímpicos, vejo neles o meu país. Não só somos um povo misturado, mas um povo que gosta muito de ser misturado”, disse.

Foi o Lula no auge do charme e carisma, com um toque de sobriedade que lhe caiu muito bem, uma sobriedade escassa na América do Sul. Lula não foi frio e formal como o presidente americano Barack Obama – que ficou cinco horas na Dinamarca e se mandou sem ouvir a votação. Nem apelou para sua infância, como fez Michelle, a primeira-dama, numa fala mais triste e particular do que a ocasião pedia. Lula não personalizou.

Falou em nome do Brasil, da América do Sul e desafiou o Comitê Olímpico Internacional a ousar. A apostar no diferente. A acreditar na transformação de uma cidade pelo esporte. Lula foi “o cara”: “Chegou nossa hora. Entre as dez economias do mundo, somos o único país que nunca recebeu os Jogos. Essa decisão abrirá uma nova fronteira”.

Sei que os céticos enxergam os interesses políticos por trás. E que os pessimistas chegaram a torcer contra a candidatura do Rio. Foram poucos. A adesão do povo brasileiro foi impressionante: 85% queriam muito.

Claro que vamos cobrar o cumprimento de promessas. O não desvio de dinheiro público. Estamos cansados de testemunhar falcatruas. Chega de projetos megalomaníacos que enchem os bolsos de políticos e são inúteis para a população.

Não queremos pouco. Queremos uma transformação radical como a de Barcelona. O Rio pode enfim dar uma virada se houver planejamento e responsabilidade. No transporte, na segurança, na urbanização de algumas favelas e na remoção de outras, no meio ambiente, na infraestrutura, na saúde, no respeito à infância, na educação e cidadania. Esperamos que um dia o choque de ordem se torne redundante. Sim, nós podemos.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
NILSON SOUZA


O profeta Gentileza

Já estava com meu texto pronto para esta crônica semanal quando li no blog da colega Rosane Tremea (Recortes de Viagem, em zerohora.com) um relato tão bonito e sensível, que pedi sua permissão para reproduzi-lo para os leitores de nossa edição impressa e para quem me acompanha pela internet. Sob o título “Gentileza na cidade”, ela contou como foi o seu sábado em Porto Alegre – e iluminou a semana dos seus leitores. Espero que os meus também façam bom proveito da mensagem:

Pode ser o espírito desarmado do sábado de folga e de sol. Ou pode ser simplesmente nossa desatenção diante do que é simples. E bonito. E importante. No sábado de folga e de sol, o Profeta Gentileza parecia ter baixado na cidade.

Sorria a ascensorista da Casa de Cultura Mario Quintana. Sorria a gerente do restaurante que lamentava não haver lugar para quem não havia feito reserva. Sorria a garçonete que sugeria mudar a sobremesa, por que aquela demorava muito, e hoje todos têm pressa.

Sorria a moça detrás do balcão da loja de R$ 1,99, que vendia flores de plástico como se fossem orquídeas raras. E tinha o cabelo bonito, mechado e bem cuidado. E maquiagem leve e de bom gosto. E, por trás do balcão, sentava numa cadeira de rodas, as mãos retorcidas por uma doença que não ousamos perguntar qual era. E a gentileza não diminuiu após nosso olhar de surpresa, não de piedade.

O sábado não parecia prenunciar o domingo de vento e chuva e destruição. O sábado era de sol, de primavera. O sábado era de gentileza em todo lugar. Por que o mundo não é cor-de-rosa, todos sabemos, mas pode ser bem melhor.

Na igreja, no sábado de sol, a gentileza com a curiosidade das passantes que queriam saber o porquê de todas aquelas flores, e frutas, e símbolos, todos diferentes.

Era o Festival das Flores, uma tradição surgida no século 19 nas igrejas anglicanas da Inglaterra e da Escócia, celebrando nas áreas rurais o início da primavera.

Uma tradição seguida hoje nas igrejas anglicanas do mundo todo, incluindo as de Porto Alegre, como na Catedral da Santíssima Trindade, na Rua da Praia. A explicação toda veio com paciência e gentileza. E rendeu, como sempre, fotos.

E pra encerrar este post, escrito simplesmente num dia em que a gentileza estava no ar, e pra começar a semana, um trecho de um poema do profeta Gentileza:

“Esse dia lindo,

essa luz que está em cima de nós, a nossa vida,

ou seja, vem do mundo, é de graça,

é Deus nosso Pai que dá.”

Boa semana.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Bagre, 70 anos

Era uma manhã de sol, aquele 3 de outubro de 1939, lembro como se fosse hoje e olhem que eu só ia fazer cinco anos exatos um mês e um dia depois. Morávamos em Uruguaiana, num chalé de madeira com pátio de esquina na frente da casa de seu Amado Carreiro e dona Ubaldina, gente rica para o nosso padrão da época.

Naquele dia, depois do café da manhã (café preto com farinha de mandioca e uma bolacha tipo vovó sentada), a nossa irmã Irlê levou os dois irmãozinhos (eu e o João, um ano mais moço) para a casa da tia Chininha, “porque a mãe ia ganhar nenê”. A dona Mocita já tinha oito filhos. O Darci, o mais velho, um adolescente bonito e atleta do futebol, do salto com vara e grande nadador.

A Ziláh era uma indiazinha séria e compenetrada. A Irlê era irrequieta, sempre arrumando um jeito de ganhar dinheiro: até as laranjas do pátio ela vendeu para comprar uns tênis para o João, guri que na hierarquia da casa era o “seu filho” (eu era “filho da Ziláh”, a irmã que me cuidava). O irmãozinho que ia nascer seria “filho da Flora”, a irmã que vinha a seguir, uma guria magra e alta, de pernas finas e cabelo que parecia uma ramada.

Depois vinha o Aldo, indiozinho sério e já muito responsável, de duro cabelo ouriçado. Depois, a Elida, loirinha, frágil e protegida da mãe. Aí, sim, vinha a dupla inseparável, eu e o João, eu meio pretusco e o João Batista um alemãozinho melado de olhos verdes. (Depois do Bagre ainda nasceria o Julio César, vulgo Bilico, vulgo Gozador).

Então a Léla (apelido da Irlê) nos levou para a casa da tia Chininha e nos entregou aos cuidados da prima Luci. A Luci nos deu pão com mel, coisa que não conhecíamos. Esganados, nos atracamos na iguaria e lambuzamos as mãos e a cara, e a Luci disse com graça: “Quem nunca come mel quando come se enlambuza...” No meio da manhã passou um avião grande, que era uma novidade, e eu disse ao João: “Olha aí o avião que trouxe o nosso irmãozinho!”.

Todos os partos da dona Mocita foram em casa, com uma parteira. No fim do dia a Uga (uma negra aça que era empregada doméstica da dona Mocita) veio nos buscar para conhecermos o novo membro da família. A dona Mocita achava que seria o seu último filho e escolheu o nome Euclides para homenagear o marido.

Mas aí, uma coisa engraçada: quando ela engravidou para ter o João ela queria uma guriazinha. Fez todo o enxoval bordado com o nome de Ivonir. Veio um guri e o flamante enxoval ficou intocado. Quando engravidou de novo, arrumou tudo, pensando: “Agora, sim, vem uma guriazinha bonitinha!”. E nasceu o Bagre!

Ele ainda não tinha o apelido, que só ganharia em São Borja, uns quatro anos mais tarde, porque chorava muito com a grande boca aberta, apelido dado pelo João que era o seu algoz e a sua vítima predileta. Assim veio ao mundo Euclides Fagundes Filho, um dos maiores orgulhos da família, o mais completo artista de todos nós, pai de filhos maravilhosos. Feliz aniversário, Bagre!


03 de outubro de 2009 | N° 16113
PAULO SANT’ANA


Ave, Olimpíada!

Só festeja Olimpíada em 2016 no Rio de Janeiro quem nunca visitou as enfermarias do Hospital Conceição, como eu visitei, onde não existe à noite cirurgião cardíaco, mas existem pacientes cardíacos à espera, todas as noites, de cirurgiões cardíacos. Ou melhor, pacientes à espera da morte.

Só comemora com estrépito a escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016 quem nunca visitou recentemente o atual ou ex-hospital penitenciário do Presídio Central, onde vegetavam ou ainda vegetam 95% dos pacientes de aids, doença que eles adquiriram dentro dos muros da prisão.

Só exulta com a Olimpíada no Brasil quem não conhece as ruas mais trágicas da pobreza no território de Porto Alegre, onde começam a se prostituir as meninas com 12 anos de idade.

E nessas mesmas ruas começam o seu aprendizado de ladroagem ou de tráfico de entorpecentes os meninos-mula, com 11 anos de idade.

Quem não sabe que sua cidade é palco dessa atrocidade genocida e social saúda com efusão de contentamento a Olimpíada no Rio de Janeiro, onde dizem que o Brasil gastará R$ 25 bilhões, mas, como se sabe, gastará 10 vezes mais.

Só podem saudar a Olimpíada no Rio de Janeiro os que desconhecem ou fingem desconhecer as filas de cirurgias e consultas do SUS, onde a cada dia morrem cem pessoas por falta de atendimento, umas querendo apenas uma cirurgia que lhes faça transitar novamente o sangue pelas veias, outras implorando simples cirurgias que lhes salvem os braços ou as pernas de lesões adquiridas há dois anos, outras querendo salvar suas bexigas, seus fígados, seus rins, seus olhos, seus ouvidos, miseravelmente sem atendimento, vão morrendo destas e de outras doenças em que se transformaram aquelas.

Todos os dias, morrem nas filas dos SUS dezenas de gaúchos sem atendimento de saúde, são milhares em um mês, são dezenas de milhares em um ano.

Quem não sabe disso ou finge desconhecer isso saúda a Olimpíada! Oh, bendita Olimpíada, que vem para salvar os Lázaros do SUS.

Os gladiadores se dirigiam em fila e marcha, antes dos combates na arena do Coliseu, onde 90% deles morreriam, e faziam por um deles, o porta-voz, a saudação ao imperador: “Ave, César, os que vão morrer te saúdam”.

Faço-me porta-voz do povo brasileiro e grito e proclamo: “Ave, Olimpíada, os brasileiros que vão morrer nas margens do SUS te saúdam”.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
CLÁUDIA LAITANO


Crime e castigo

Em uma noite do verão de 1969, um bando de malucos liderado por Charles Manson – que se considerava a reencarnação de Cristo e achava que os Beatles falavam com ele através de suas músicas – invadiu a casa do cineasta Roman Polanski, em Los Angeles, matando a mulher dele, grávida de oito meses, e mais quatro amigos do casal.

O grupo de cinco pessoas foi sentenciado à morte em 1971, mas com a mudança nas leis penais da Califórnia, em 1972, a pena foi alterada para prisão perpétua. Manson, hoje com 75 anos, fez várias tentativas para conseguir a liberdade condicional – a última, negada novamente, foi em 2007. Susan Atkins, uma das jovens que participou do massacre, morreu na prisão na semana passada, aos 61 anos, depois de ter 17 pedidos de liberdade condicional negados.

Essa não foi a primeira tragédia na vida de Polanski. O diretor, judeu franco-polonês, tinha seis anos quando estourou a II Guerra. Separado dos pais, o menino passou boa parte da infância vagando pela Europa. A mãe foi morta pelos nazistas.

O pai conseguiu sobreviver, mas só o reencontrou após o fim da guerra. Parte dessa dolorosa experiência é retratada no filme O Pianista, um dos mais tocantes de sua carreira, que narra a história real de um músico judeu que, contra todas as circunstâncias, conseguiu permanecer vivo enquanto o mundo literalmente desabava ao seu redor.

O Pianista filia-se à linhagem de filmes que cumprem a inestimável função de impedir que o Holocausto seja esquecido, ou minimizado, pela posteridade. É uma história que nunca deixará de ser contada, mesmo quando não houver mais vítimas como Polanski para lembrá-la ou criminosos de guerra para serem punidos.

O tempo, definitivamente, não fecha todas as feridas, não dissolve todos os males, não apaga todos os erros. Eles continuam ali, à espera de justiça, lembremos deles ou não – e Polanski, mais do que ninguém, sabe disso.

Preso esta semana na Suíça por um estupro cometido nos Estados Unidos há 32 anos, o diretor cometeu um erro e vai ter que responder por ele. Como, idealmente, deveria acontecer com todas as pessoas que erram – famosas ou não.

A versão da vítima, que tinha 13 anos na época, não deixa dúvidas: o sexo não foi consensual, envolveu violência e drogas. É compreensível que ela tenha preferido retirar a queixa – aos 45 anos, mãe de três filhos, não tem interesse em mexer mais uma vez nesta ferida, e está no direito dela. O que não dá para entender é por que tantos cineastas famosos, atores e até o ministro da Cultura da França foram tão rápidos em comprar a versão de inocência de Polanski, exigindo a sua libertação imediata.

Um dos muitos amigos de Polanski, o escritor Robert Harris, escreveu um artigo no Times perguntando qual o sentido de prendê-lo agora, passado tanto tempo. É verdade que as circunstâncias da prisão são estranhas e que o moralismo americano sempre desperta desconfiança, mas se eu tivesse que responder a essa pergunta diria que se esse raro caso de punição tardia tiver algum sentido pedagógico e servir para provocar alguma reflexão a respeito da diferença entre sexo consentido e violência ou sobre a responsabilidade de um adulto que faz sexo com uma criança, diria que a prisão de Polanski faz todo o sentido.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009



A tolerância entre os povos, segundo David Raskin

O doutor David Raskin nasceu em Erechim em 1929, filho de imigrantes vindos da Rússia. Depois da infância em Erechim e Santa Maria, cursou medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especializou-se em oftalmologia. Clinicou em Videira e em Criciúma, em Santa Catarina e, há mais de cinquenta anos, trabalha em Porto Alegre.

Ao longo dos anos, leitor infatigável, dedicou-se, como autodidata, ao estudo das três grandes religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Sempre gostou de estudar as origens, semelhanças e diferenças das religiões e, há poucos dias, lançou o livro Três Deuses e uma Trindade, detalhada investigação dos fatos históricos das três grandes crenças.

Num mundo tão repleto de fanatismos, incompreensões e antagonismos, quase sempre causados pela falta de informações, a obra do Dr. David vem em ótimo momento.

O autor não nega sua filiação ao judaísmo, mas evita qualquer proselitismo a favor de uma ou outra religião. Com linguagem acessível e abordagem direta, o autor, acima de tudo, depois de estudar temas polêmicos como o julgamento de Jesus e a Delação Premiada de Judas, analisa, de forma comparativa, os fatos omitidos ou mal interpretados em textos sagrados e propõe: o importante não é ser crente ou ateu, mas ser tolerante e acolhedor com todas as pessoas, independentemente da orientação pessoal.

Raskin fala de Deus e Fé, dos profetas do Islã, das fases de vida de Jesus, do Holocausto e dos livros sagrados: a Torá, os Evangelhos e o Corão. Ressaltando os princípios humanistas presentes nas três grandes religiões, o autor contribui para o diálogo e a tolerância entre os povos, algo fundamental para os dias de hoje, quando o egoísmo, a vaidade e o fanatismo parecem ter atingido proporções nunca vistas.

O volume tem apresentações de David Coimbra e Ali Kamel. Nas páginas finais, um útil glossário e belas imagens religiosas, além de relação da bibliografia consultada e posfácio.

Em síntese, além de nos trazer esclarecimentos e visões históricas sobre temas tão relevantes, o autor nos convida a pensar e agir em relação a diferenças e semelhanças que, ao fim e ao cabo, devem servir para buscarmos a convivência fraterna e tolerante e a paz e não para sentirmo-nos superiores aos nossos semelhantes.

Três Deus e uma Trindade tem 186 páginas e foi publicado pela AGE, telefone 51-3061-9385.

Uma linda sexta-feira e um gostoso fim de semana, com sol espera-se, lá fora e dentro de nossos coraçãozinhos.

Jaime Cimenti

Pai, filho, amor e tragédia

O romance Como Deus Manda, do escritor italiano Niccolò Ammaniti, foi o vencedor do Prêmio Strega 2007, o mais importante e disputado da literatura italiana. Tal fato justificaria, por si só, a tradução e a leitura da densa e alentada narrativa de mais de quatrocentas páginas.

Ammaniti, nascido em Roma, em 1966, é autor dos romances Branche, Ti Prendo Via e Não tenho medo, além da antologia de contos Fango. Seus livros já foram publicados em 44 países.

Em Como Deus Manda a história gira em torno de um pai e seu filho, que, desde o abandono da mãe, vivem juntos e, por meio de um amor inigualável que se nutre de violência, radicalismos e alcoolismo, vão levando a vida adiante do jeito que dá. Até onde pode ir o amor entre pai e filho?

O que se consegue suportar em favor desse amor? Rino e Cristiano Zena, pai e filho, moram em Varrano, pequena cidade da Itália e vivem em estado de penúria. O ambiente é uma bagunça, tal qual suas vidas. Rino, tatuado, adorador do nazismo, é um operário desempregado e Cristiano é um menino recluso que frequenta uma escola onde ninguém lhe dá a mínima.

Além dos dois, o grupo que compõe a narrativa é completado por dois amigos de Rino: Danilo Aprea, um melancólico operário que perdeu a filha em um acidente e foi largado pela mulher e Corrado Rumitz, o Quatro Queijos, que ficou sequelado depois de um acidente com fios de alta tensão.

Pretendendo dar uma virada na vida, os quatro decidem arrombar um caixa eletrônico, mas, na noite escolhida para o golpe, ocorre a maior tempestade dos últimos anos. Rios transbordam e a lama parece sepultar toda a esperança. As trevas tomam conta.

Mas a verdadeira mudança vai acontecer quando entra em cena uma menina loira que, ao voltar bêbada e drogada da casa da melhor amiga, acaba transformando o destino de todos.

Tragédia profunda e humor desenfreado se mesclam na narrativa movimentada, que utiliza linguagem direta, nua e crua e na qual não faltam fantasmas e remorsos, bem como escuridão, muita tensão, sonhos e brutalidade.

Sem dúvida, uma fábula apocalíptica bem atual que tem muita força e sedução, mostrando por que Niccolò Ammaniti, que atualmente vive em Roma, é destaque na cena da moderna literatura italiana. 436 páginas, tradução de Karina Janinni, Bertrand Brasil, telefone 21-2585-2070.


02 de outubro de 2009 | N° 16112
PAULO SANT’ANA


Carta do réu absolvido

Recebi por interposta pessoa, Ane Lanius, uma carta do ex-deputado Antônio Dexheimer, que há 20 anos foi absolvido da acusação de ter assassinado o deputado e jornalista José Antônio Daudt:

“Prezado Paulo. Sou leitor assíduo de tua coluna, a exemplo de todos os assinantes de ZH.

A discordância de pontos de vista não é suficiente para acalentar uma inimizade, sentimento menor de almas em conflito.

Reconheço a inteligência e o brilho da tua coluna, na riqueza do vocabulário, na precisão das frases, no conteúdo vigoroso e convincente das tuas afirmações. Ressalvo, no entanto, que até as mentes brilhantes se equivocam.

Encontrei meu nome perdido na tua coluna, estabelecendo um paralelo com o caso Becker. São inegáveis as semelhanças. Uma diferença, no entanto, deve ser ressaltada: independentemente da investigação policial, o suspeito no caso Daudt foi acusado, indiciado, pronunciado e condenado pela imprensa investigativa, na madrugada de sua morte, nos corredores lúgubres do Pronto Socorro. A Justiça soberana do RS desfez o equívoco em memorável julgamento.

No caso Becker, a imprensa investigativa se mantém à margem, silenciosa, preservando a assertiva de eminente jurista: ‘Quando a imprensa entra pela janela de um caso policial, a justiça sai pela porta’.

Um crime já foi cometido. Becker atacado também covardemente, a exemplo de Daudt. Que não se cometa outro, acusando um inocente.

Retorno à tua coluna do dia 26/09, no relato de um fato, ausente de minha lembrança. Na minha memória jamais estive acompanhado pelo Dr. Lia Pires na tua presença. Não seria sensato. As imaginações férteis divagam e fazem, de versões, fatos. Cacoetes do jornalismo.

Há 20 anos meu nome transita na tua coluna, como responsável pelo assassinato de Daudt. Estás equivocado e perpetuas uma injustiça. Fato deplorável aos olhos de Deus. Não fui o responsável pelo desditoso acontecimento.

O verdadeiro culpado permanece impune, acobertado pelo manto protetor de um falso culpado, criação inconsequente de um jornalismo dito investigativo. Contraponho à insistência acusatória o pronunciamento definitivo da Justiça, declarando por esmagadora maioria o veredicto de inocente.

Vinte anos se passaram e o caso está definitivamente prescrito. Talvez agora, distanciado do fato, com os espíritos desarmados, uma nova investigação, principalmente no viés de seus pseudoamigos e inimigos, possa tirar das sombras e da penumbra o risonho e feliz verdadeiro culpado.

Sinto o interesse de teu órgão de comunicação de revolver das cinzas o caso prescrito. Aceito o desafio.

O Lasier Martins é o mediador do Conversas Cruzadas. O Amadeu pode participar. Vamos rememorar juntos o ‘caso Daudt’. Você e eu. Vamos debater o assunto de peito aberto e coração desarmado. Vamos discutir a imprensa investigativa, as preferências sexuais, a polícia, o governo de então, o Ministério Público. A Justiça.

Enfim, todos os meandros deste enigma que paira sob nossas consciências, e talvez consigas com teu talento pessoal, com tua argúcia de policial a confissão de um crime que não cometi.

Com admiração e desarmado, um abraço do (ass.) Antônio Dexheimer”.

Agora escreve o colunista: então, Dr. Dexheimer, o senhor não se lembra da audiência em que foi inquirida a surda-muda que disse ter visto o senhor matar Daudt e o reconheceu no auditório como o matador, lançando sobre o seu rosto o dedo acusador?

Pois eu estava ao lado de seu defensor Lia Pires e o senhor estava a três metros de mim, na minha frente. Como o senhor não se lembra? Que vezo o senhor tem de negar!

Outra coisa, Dr. Dexheimer, não me recuso a debater com o senhor o crime. Mas agora acho inútil, porque o senhor estaria em situação ainda mais confortável: o delito já prescreveu. Mas saúdo o fato de que em sua carta acima publicada o senhor se declare desta vez desarmado.


02 de outubro de 2009 | N° 16112
DAVID COIMBRA


Viver em Picada Café

Deve ser bom viver em Picada Café. Ganhei uma garrafa de suco de uva de Picada Café quando lá estive, sexta passada, participando da Feira do Livro da cidade. No sábado, servi três dedos do suco para o meu filhinho Bernardo numa caneca de plástico, ele sorveu um gole e vi seus olhos negros coruscando, e ele abriu uma boca azul, e disse:

– Quelo mais, papai!

Em dois dias, o Bernardo secou a garrafa. Suco feito em casa, uvas amassadas pelas mãos calosas das avós, que delícia. Em Picada Café você caminha pela calçada e sente o cheiro do pão quente que está sendo tirado dos fornos das cozinhas. Em Picada Café as mulheres preparam elas mesmas o schmier que os filhos corados passam no pão que elas tiraram do forno.

O motorista que a prefeitura de Picada Café designou para me acompanhar, o Noll, contou que acorda todos os dias às cinco e meia da manhã, e aí, antes que o sol se levante atrás do Morro Reuter, prepara uma substanciosa batida de mamão, ou de abacate, ou de maçã, ou de qualquer outra fruta que ele colhe do pomar de seu próprio quintal, e bebe a batida com gosto, e sai para o trabalho revigorado.

Na volta para Porto Alegre, Lizandra, a esposa do Noll, foi junto no banco detrás, ela, uma garrafa térmica de dois litros cheia de água quente e uma cuia de chimarrão, todo o equipamento para o marido manter-se alerta na estrada durante a noite. A certa altura, Lizandra perguntou:

– Tu já foste assaltado em Porto Alegre?

Quando respondi que não, ela se surpreendeu. Ou seja: a violência urbana é uma lenda em Picada Café, algo vagamente assustador que ocorre em regiões remotas do planeta. E, de fato, a gente de Picada Café tem a naturalidade dos espíritos desarmados. Das pessoas que não sentem medo das outras pessoas.

Uma das picadenses (é isso?) que me emocionou com essa naturalidade foi Priscila, menina de uns 14 anos de idade, os cabelos negros, o rosto moreno luzindo de purpurina, o sorriso sem fim. Apresentou-me uma pilha de livros para autografar, disse que adora ler. Fiz as dedicatórias com carinho especial, sobretudo depois que ela fez certa confissão acerca do programa da Rádio Atlântida do qual participo:

– Sabe por que eu gosto mais de ouvir o Pretinho Básico do que todas as outras pessoas?

– Não faço ideia – sorri.

– Porque o meu pai se separou da minha mãe e está morando em Porto Alegre. Aí, nós combinamos de sempre ouvir o programa. Assim, todos os dias, sei que eu e ele estamos fazendo a mesma coisa. E sinto menos saudade.

Não cheguei a me surpreender, mas um pouco, só um pouco, fiquei decepcionado. Porque a história de Priscila mais uma vez confirmou que em parte alguma, nem em um lugar em que o ritmo da vida é o das avós que extraem com as próprias mãos o sumo das uvas que darão de beber aos netos, em nenhuma parte, enfim, o ser humano está a salvo da discórdia e da desarmonia. Que, afinal, são a razão de todo o mal.

Pena que o pai da menina Priscila não vive em Picada Café. Deve ser bom viver em Picada Café.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


NINA HORTA

Por que sentimos saudade?

A pensão não é como o hotel que anula a casa. É a casa continuada, sedutora por ter mudado de lugar

DONIZETE GALVÃO , amigo poeta, me dá a ideia de escrever sobre a comida das pensões familiares. Diz ele que existem ainda muitas na Mooca e já comecei um plano de visitá-las. Puxei também pela veia memorialista, que é aquela de que os leitores mais participam.

E parei para me perguntar: por que gostam? Homens e mulheres correm ao baú das memórias e soltam suas lembranças. Há casos, como o do mangarito, que precisei abandonar e unir os leitores entre si, num tipo de Orkut do mangarito.

Qual a explicação do amor pelo passado? Imagino.

Primeiro, é uma coluna de comida, lugar privilegiado -a casa, o real, o virado para dentro, circunscrito.

Somos nós por dentro, e é a partir desse núcleo já formado e seguro, debaixo de um teto, que nos ligamos a outros espaços abertos, alternativos, que vão compor nossas vidas.

Um dos primeiros espaços alternativos são as férias. Pela estrada de Santos. O carro fervendo. Às vezes em hotel, às vezes em pensão ou casas alugadas. A pensão não é como o hotel que anula a casa. É a casa continuada, extremamente sedutora por ter mudado de lugar.

Em Santos, eram geralmente casas velhas, bonitas, com entrada de areia e pedriscos, palmeiras e plantas de raízes grossas, levando a um terraço que acessava a casa pelos dois lados.

Muitas portas, de madeira grossa com várias demãos de tinta a óleo.

E não era um gerente que administrava aqueles quartos de pé direito alto, aquele cheiro de curry indiano que tomava as tardes com seu perfume. (Até hoje não sei de onde vinha, talvez de umas palmeiras pequenas, comuns.

Às vezes, numa esquina qualquer, sou invadida por aquele cheiro que logo se liga à maresia, à areia.)

Nas vísceras da pensão corriam mundos que não conhecíamos.

Eram tantos segredos novos sobre os quais nem falávamos, só sentíamos, por falta de linguagem disponível, vidas enterradas, violências, amores, tudo embrulhado num cheiro fugaz de mofo de praia. Casal em lua de mel nos boxes de chuveiro do quintal, ele fogoso de desejo, ela impedindo qualquer avanço, aos soluços. A filha da dona da pensão, descolada, afinal era a casa dela, o mar e a areia seu quintal.

Comandava um jogo de facas afiadas emprestadas da cozinha que deveríamos espetar de longe na areia úmida. Eu me esqueci das regras. Se me lembrasse, acho que seria uma mulher totalmente feliz, morando em Santos e jogando o jogo da faca. E o marinheiro da Marinha Mercante que morava no chalé dos fundos quando estava em terra, um espécime muito masculino, grande e forte com bigodes de pirata e uma aura de contrabando e pecado.

Cheirava a tabaco e respondia a contragosto, como que receoso de estar ali conversando conosco, as perguntas sobre o mar.

A mesa do buffet não chegava a impressionar, baixela gasta, a luta por uma finura perdida nos pequenos trincados da louça. As horríveis travessas de bife acebolado, o purê floreando à volta, a surpresa de um chucrute, o agrado de um peixe assado, a revelação de uma alcachofra à judia, a tradição de um pudim de claras. E de sobremesa maior os lentos passeios até a ponte pênsil.

Embaixo dela, vendiam uma bananada retangular, acabada de fazer, fininha, com açúcar cristal por cima. Os cachos de bananinha ouro mais doces, os baiacus pescados inchando a barriga.

Tudo brilhava de um brilho novo, visto sob a perspectiva das crianças que tentavam entender os mundos diferentes de suas realidades caseiras. E é dessa época, e não das comidas, que temos saudade.

Os meninos começavam a mapear o mundo, o lugar, a história, os acontecimentos e nós, meninas, mapeávamos a subjetividade, ligadas no corpo e no desejo, no labirinto do humano, real e fantasia agarrados, recheando um doce de mil folhas.

ninahorta@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! O ZZZZZZelaya só dorme!

Sabe por que Honduras tá em estado de sítio? Porque o Zelaya tem cara de chacareiro!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Avisa pra Inglória Perez que "Caminho das Índias" ainda não terminou: "Empresário indiano detido com dois travestis em Copacabana".

Na esquina da avenida Atlântica com a REPÚBLICA DO PERU! Rarará!

O Raj foi pegar traveca na República do Peru! E esse Zelaya, que só dorme? Devia se chamar ZZZZZZZelaya! E o Lula vai lançar mais um programa social de ajuda ao Zelaya: Bolsa Golpe Família.

E o site Éramos Seis revela como o Lula vai resolver esse impasse internacional: vai vender a embaixada brasileira pro Chávez. E com inquilino dentro! Rarará! Família brasileira muda e vende tudo. Excelente localização, perto dos

Estados Unidos. E com inquilino dentro.Tratar com o Lula!

E ontem eu falei que a doutora Havanir tá procurando marido pela televisão. Qual o problema de casar com a doutora Havanir? Não tem gente que vai ao Playcenter e paga pra levar susto? Rarará!

E o Serra, o Vampiro Anêmico? O porteiro do IML! Já tá com a campanha pronta. Olha só: aterroriza os eleitores, assusta a oposição e estremece os fumantes, Serra 2010! Rarará! E sabe por que Honduras tá em estado de sítio?

Porque o Zelaya tem cara de chacareiro! E agora estão indo mais seis deputados brasileiros. Aí, em vez de biscoito, eles vão comer pizza!

E mais outra piada pronta; diretores de escolas estaduais farão protesto no Dia do Professor. Vão ficar pelados! Nu Coletivo. Pelados no coletivo ou nu coletivo?! Peladões com a régua balançando! E sabe como se chama o presidente do sindicato, o organizador?

LUIZ PINTO!! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Fortaleza tem uma loja de lingerie chamada ASSUNTOS INTERNOS! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enxadrista": companheiro que pega na enxadra. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E quem fica parado é poste!

simao@uol.com.br

KENNETH MAXWELL

Agente secreto

OS ROMANCES de Arthur Ransome me entusiasmavam quando eu era jovem. Costumava lê-los avidamente, repetidas vezes. Eu adorava suas histórias, repletas de acampamentos ao ar livre, escaladas e aventuras marinhas, e nas quais, até onde me lembro, não apareciam adultos.

No começo dos anos 50, o escritor, com seu espesso bigode, paletó de tweed, chapéu de feltro e onipresente cachimbo, me parecia um gentil e perene guardião dos meus sonhos de infância.

Ou era essa a impressão que ele causava. Arthur Ransome nasceu em Leeds, em 1884. Seu pai, professor na universidade local, morreu quando o menino tinha 13 anos.

O jovem Arthur passou boa parte de sua juventude em Coniston Water, no Lake District, e posteriormente se mudou para "Norfolk Broads", uma área de vias aquáticas interconectadas no leste da Inglaterra.

Cinco de seus romances têm o Lake District como cenário, e dois se passavam em Norfolk. Todos esses títulos continuam em catálogo.

Mas o escritor, morto em 1967, tinha uma outra história. Ele também era espião, e possivelmente agente duplo. Após vencer o célebre processo por difamação que lorde Alfred Douglas abriu contra ele em 1913 devido ao seu livro sobre Oscar Wilde, e de um desastroso primeiro casamento, ele escapou para a Rússia.

Como correspondente do "Daily News", de Londres, e depois do "Manchester Guardian", ele testemunhou a queda do Império Russo e os esforços de Kerensky para sustentar um governo democrático. Ransome estava fora do país quando os bolcheviques tomaram o poder, em outubro de 1917, mas retornou logo em seguida para registrar os primeiros anos do regime bolchevista.

Ransome era muito amigo de Karl Radek, o chefe da seção de propaganda bolchevista, e se tornou um admirador ardoroso de Lênin, cujo retorno à Rússia via Estação Finlândia ele testemunhou.

O escritor era amante de Evgenia Shelepina, a secretária pessoal de Trótski, e apoiava a causa bolchevista, transportando dinheiro para a Suécia e para a Estônia em nome do regime e colaborando com a Cheka, organização que antecedeu a KGB. Também era o "Agente S76" do MI6, o serviço de inteligência externa britânico.

A história dos anos que ele passou na Rússia é contada por Roland Chambers em "The Last Englishman: the Double Life of Arthur Ransome". Após voltar a Londres com Evgenia, em 1924, as autoridades britânicas não conseguiam decidir se Ransome era herói ou traidor.

Mas, depois do início dos anos 30, ele se tornou mais conhecido não por seu passado, e sim como um escritor muito amado, que cativou diversas gerações de crianças britânicas -entre as quais eu.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Well, quinta-feira de garoa e chuva fina nesta Porto e que por isso não está nada alegre. Enfim que possamos mesmo assim, termos um bom dia

CLÓVIS ROSSI

De trogloditas e radicais

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando diz, como o fez em recente entrevista, que não haverá "trogloditas" na disputa presidencial de 2010. É claro que o conceito de "troglodita" varia de pessoa para pessoa. Há muita gente preconceituosa que acha o próprio Lula um troglodita incorrigível.

Do meu ponto de vista, o último troglodita que se apresentou a uma eleição presidencial foi Fernando Collor de Mello, em 1989. De lá para cá, pode ter havido candidatos rotulados de radicais, mas eu não confundo uma coisa e outra. Acho até que radicais são necessários, se a palavra for tomada pelo que significa e não pelo peso político que a ela passou a se atribuir.

Ir à raiz das questões (ser radical portanto) não só é necessário como é saudável, mais ainda em um país como o Brasil que prefere contornar o toco em vez de atacá-lo.
Ou, na melhor das hipóteses, encara os problemas devagar demais, o que tende a perpetuá-los e eventualmente agravá-los. Tome-se o caso da educação.

Nos dois governos mais recentes, avançou-se claramente tanto em matéria de universalização como em aperfeiçoamento dos processos de avaliação, passando ainda por maiores possibilidades de acesso dos mais pobres à universidade.

Basta? Não, diria um radical. O problema da qualidade continua proporcionando ao Brasil vexame internacional atrás de vexame internacional, sempre que o país participa de provas globais.

É difícil resolver o problema ou avançar ainda que seja um pouco?

Claro que é. Mas é para isso que servem os radicais. Ou para pôr na agenda da próxima campanha eleitoral a necessidade de uma revolução (outra palavra radical) na educação ou, no mínimo, para forçar os não radicais, que são os que têm mais chances eleitorais, a serem um pouquinho menos mansos.

crossi@uol.com.br


01 de outubro de 2009 | N° 16111
LETICIA WIERZCHOWSKI


“Os dias de verão vastos como um reino”

Fui recentemente a Portugal, e uma das minhas metas era trazer na mala a bibliografia poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Eu conhecia pouco da sua obra, mas adorava-a muito.

Aliás, soa estranho que essa genial poeta (cujos poemas nem precisam ser traduzidos para o nosso mercado) tenha apenas uma única antologia publicada no Brasil: Poemas Escolhidos, Companhia das Letras, 2004 (ano, aliás, em que Sophia faleceu).

Se Sophia ainda é pouco conhecida dos brasileiros, seu filho, o escritor Miguel de Souza Tavares, já atravessou o Atlântico e começa também a fazer sucesso por aqui – ele, que em Portugal é um sucesso absoluto de vendas.

Voltando à poesia de Sophia de Mello Breyner, minha admiração guarda boa companhia: há alguns anos, Maria Bethânia fez um disco inteiro baseado nos seus poemas – as duas são amantes do mar, e a obra de ambas percorre praias desertas, águas verdes e segredos marinhos.

Qual não foi o meu espanto ao chegar em Lisboa e encontrar os poemas de Sophia espalhados por muitos recantos da cidade. Numa das paredes da antiquíssima igreja da Glória, lá estava a poesia de Sophia a louvar o mar.

Em muros, esquinas, murais de azulejos, até mesmo no Oceanário de Lisboa, onde ela é uma espécie de madrinha: os lisboetas adotaram os poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen para cantar as belezas portuguesas, seu horizonte azul, as águas do Tejo, as praias douradas do Porto – ela, que cresceu lá, e cuja poesia sempre esteve impregnada de deuses e segredos sussurrados, de praias desertas e mitológicas figuras gregas.

Foi assim que me afeiçoei ainda mais a Lisboa, que zela com orgulho pela poesia de Fernando Pessoa, mas que encontrou espaço para fazer também dos versos de Sophia de Mello Breyner uma louvação aos encantos portugueses.

No entanto, embora os versos de Sophia estejam espalhados por ruas e catedrais, foi-me bastante dificultosa a tarefa de comprar a sua bibliografia.

Incrivelmente, seus livros estavam longe das livrarias lisboetas, e tivemos, meu marido e eu, que bater muita perna até reunir o nosso precioso tesouro – o qual, ao final da viagem, trouxemos para casa cheios de contentamento.

Da poesia de Sophia, eu amealhei o título desta pequena crônica que agora escrevo, olhando com muita saudade os dias que lá ficaram entre as ladeiras de Lisboa e o pacífico Tejo. Vastos como um reino, foram esses nossos dias no final do verão português. Ai, que vontade de voltar...


01 de outubro de 2009 | N° 16111
PAULO SANT’ANA


Fogem 330 presos por mês

Soou como um escândalo uma informação divulgada ontem: por mês, fogem 330 presos do regime semiaberto no RS.

Não entendi por que as pessoas se alarmaram.

E, divulgada a informação, desatou-se um forte delírio de bestialógicos incontíveis.

Logo os neófitos principiantes de política carcerária desataram a pronunciar absurdas tolices.

Fizeram a conta e viram que são 3.900 os presos que fogem por ano do regime semiaberto, uma quantia colossal, quase o mesmo número de presos hospedados no Presídio Central.

E não sabem os neófitos principiantes de teoria prisional que se estes 3.900 presos não fugissem do regime semiaberto o Estado não teria onde pô-los.

E é exatamente para isso que o Estado criou o regime semiaberto, isto é, para que fujam. Para desová-los nas ruas. E assim o Estado vê diminuídas as suas despesas exatamente em 3.900 presos condenados.

Se fosse mantê-los presos, o Estado não teria verba para pagar os excessos salariais dos príncipes do funcionalismo nem as migalhas destinadas aos plebeus do funcionalismo pela Lei Britto.

O coice na razão mais cruento que foi dado ontem pelos neófitos principiantes das teorias carcerárias foi o que ouvi no rádio: “É preciso fechar o semiaberto”. Ora, fechar o semiaberto ou o regime aberto implica enxugar gelo, pentear macacos, catar piolhos com luvas de boxe e quejandos.

Como dizem burrices no microfone! Ora, “fechar o semiaberto”, como se fosse fechar uma porta entreaberta, só que uma porta entreaberta institucional.

O semiaberto foi criado para permitir um número cem vezes maior de fugas lá do que no regime fechado, mas sem estardalhaço, na surdina. Entenderam agora os leitores o tamanho da sacanagem do sistema?

Fogem às catadupas os presos do semiaberto para que os governos oxigenem seus orçamentos com essa espúria forma de jogar lixo debaixo do tapete.

Isto é uma deslavada sem-vergonhice.

Outra coisa que nunca entendi é por que chamam esse regime de semiaberto.

Como podem denominá-lo assim hipocritamente se a finalidade desse regime é tornar fácil a fuga dos condenados? Ou melhor, a finalidade central deste regime é aliviar o caixa dos governos, preso depois de fugir deixa de ser despesa para o Tesouro. Ele, depois de fugir, passa a dar despesas para a sociedade, que gasta os tubos com segurança privada para se proteger dele.

Aberto ou semiaberto, tudo é a mesma coisa, não é questão de conteúdo, é questão de nomenclatura.

Muitos presos transformam o semiaberto no maior achado de suas vidas. Chama-se semiaberto para que os presos fujam antes de três dias depois de terem sido mandados para lá.

Ou o preso foge, ou então se revela um estratego mais genial ainda: fica dormindo à noite no semiaberto, isto é, assaltando na rua durante o dia, quando as autoridades pensam que ele está trabalhando, fugindo dias depois de lá à noite, depois de forrar o poncho com o produto dos assaltos, quando as autoridades pensavam que ele estava dormindo.

Genial.

E tudo acontece porque o Estado está falido. Se o Estado não consegue controlar o regime de concessão de carteiras de motoristas, que engendrou uma corrupção alarmante, como vai controlar no semiaberto se há presos dormindo ou presos fugindo? Longe do Estado tal cálculo e tal meticulosidade.

Não tem pessoa mais azarada do que eu: na sociedade gaúcha há duas entidades falidas: O Grêmio e o Estado.

Como sou gremista e sou gaúcho, sofro, peno, me aflijo em dobro, os meus dois entes primais estão falidos.

Não tenho recursos para garantir à sociedade agentes penitenciários eficientes nem jogadores ótimos para o Grêmio.

Eu que me... rale!