sexta-feira, 2 de outubro de 2009



02 de outubro de 2009 | N° 16112
DAVID COIMBRA


Viver em Picada Café

Deve ser bom viver em Picada Café. Ganhei uma garrafa de suco de uva de Picada Café quando lá estive, sexta passada, participando da Feira do Livro da cidade. No sábado, servi três dedos do suco para o meu filhinho Bernardo numa caneca de plástico, ele sorveu um gole e vi seus olhos negros coruscando, e ele abriu uma boca azul, e disse:

– Quelo mais, papai!

Em dois dias, o Bernardo secou a garrafa. Suco feito em casa, uvas amassadas pelas mãos calosas das avós, que delícia. Em Picada Café você caminha pela calçada e sente o cheiro do pão quente que está sendo tirado dos fornos das cozinhas. Em Picada Café as mulheres preparam elas mesmas o schmier que os filhos corados passam no pão que elas tiraram do forno.

O motorista que a prefeitura de Picada Café designou para me acompanhar, o Noll, contou que acorda todos os dias às cinco e meia da manhã, e aí, antes que o sol se levante atrás do Morro Reuter, prepara uma substanciosa batida de mamão, ou de abacate, ou de maçã, ou de qualquer outra fruta que ele colhe do pomar de seu próprio quintal, e bebe a batida com gosto, e sai para o trabalho revigorado.

Na volta para Porto Alegre, Lizandra, a esposa do Noll, foi junto no banco detrás, ela, uma garrafa térmica de dois litros cheia de água quente e uma cuia de chimarrão, todo o equipamento para o marido manter-se alerta na estrada durante a noite. A certa altura, Lizandra perguntou:

– Tu já foste assaltado em Porto Alegre?

Quando respondi que não, ela se surpreendeu. Ou seja: a violência urbana é uma lenda em Picada Café, algo vagamente assustador que ocorre em regiões remotas do planeta. E, de fato, a gente de Picada Café tem a naturalidade dos espíritos desarmados. Das pessoas que não sentem medo das outras pessoas.

Uma das picadenses (é isso?) que me emocionou com essa naturalidade foi Priscila, menina de uns 14 anos de idade, os cabelos negros, o rosto moreno luzindo de purpurina, o sorriso sem fim. Apresentou-me uma pilha de livros para autografar, disse que adora ler. Fiz as dedicatórias com carinho especial, sobretudo depois que ela fez certa confissão acerca do programa da Rádio Atlântida do qual participo:

– Sabe por que eu gosto mais de ouvir o Pretinho Básico do que todas as outras pessoas?

– Não faço ideia – sorri.

– Porque o meu pai se separou da minha mãe e está morando em Porto Alegre. Aí, nós combinamos de sempre ouvir o programa. Assim, todos os dias, sei que eu e ele estamos fazendo a mesma coisa. E sinto menos saudade.

Não cheguei a me surpreender, mas um pouco, só um pouco, fiquei decepcionado. Porque a história de Priscila mais uma vez confirmou que em parte alguma, nem em um lugar em que o ritmo da vida é o das avós que extraem com as próprias mãos o sumo das uvas que darão de beber aos netos, em nenhuma parte, enfim, o ser humano está a salvo da discórdia e da desarmonia. Que, afinal, são a razão de todo o mal.

Pena que o pai da menina Priscila não vive em Picada Café. Deve ser bom viver em Picada Café.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


NINA HORTA

Por que sentimos saudade?

A pensão não é como o hotel que anula a casa. É a casa continuada, sedutora por ter mudado de lugar

DONIZETE GALVÃO , amigo poeta, me dá a ideia de escrever sobre a comida das pensões familiares. Diz ele que existem ainda muitas na Mooca e já comecei um plano de visitá-las. Puxei também pela veia memorialista, que é aquela de que os leitores mais participam.

E parei para me perguntar: por que gostam? Homens e mulheres correm ao baú das memórias e soltam suas lembranças. Há casos, como o do mangarito, que precisei abandonar e unir os leitores entre si, num tipo de Orkut do mangarito.

Qual a explicação do amor pelo passado? Imagino.

Primeiro, é uma coluna de comida, lugar privilegiado -a casa, o real, o virado para dentro, circunscrito.

Somos nós por dentro, e é a partir desse núcleo já formado e seguro, debaixo de um teto, que nos ligamos a outros espaços abertos, alternativos, que vão compor nossas vidas.

Um dos primeiros espaços alternativos são as férias. Pela estrada de Santos. O carro fervendo. Às vezes em hotel, às vezes em pensão ou casas alugadas. A pensão não é como o hotel que anula a casa. É a casa continuada, extremamente sedutora por ter mudado de lugar.

Em Santos, eram geralmente casas velhas, bonitas, com entrada de areia e pedriscos, palmeiras e plantas de raízes grossas, levando a um terraço que acessava a casa pelos dois lados.

Muitas portas, de madeira grossa com várias demãos de tinta a óleo.

E não era um gerente que administrava aqueles quartos de pé direito alto, aquele cheiro de curry indiano que tomava as tardes com seu perfume. (Até hoje não sei de onde vinha, talvez de umas palmeiras pequenas, comuns.

Às vezes, numa esquina qualquer, sou invadida por aquele cheiro que logo se liga à maresia, à areia.)

Nas vísceras da pensão corriam mundos que não conhecíamos.

Eram tantos segredos novos sobre os quais nem falávamos, só sentíamos, por falta de linguagem disponível, vidas enterradas, violências, amores, tudo embrulhado num cheiro fugaz de mofo de praia. Casal em lua de mel nos boxes de chuveiro do quintal, ele fogoso de desejo, ela impedindo qualquer avanço, aos soluços. A filha da dona da pensão, descolada, afinal era a casa dela, o mar e a areia seu quintal.

Comandava um jogo de facas afiadas emprestadas da cozinha que deveríamos espetar de longe na areia úmida. Eu me esqueci das regras. Se me lembrasse, acho que seria uma mulher totalmente feliz, morando em Santos e jogando o jogo da faca. E o marinheiro da Marinha Mercante que morava no chalé dos fundos quando estava em terra, um espécime muito masculino, grande e forte com bigodes de pirata e uma aura de contrabando e pecado.

Cheirava a tabaco e respondia a contragosto, como que receoso de estar ali conversando conosco, as perguntas sobre o mar.

A mesa do buffet não chegava a impressionar, baixela gasta, a luta por uma finura perdida nos pequenos trincados da louça. As horríveis travessas de bife acebolado, o purê floreando à volta, a surpresa de um chucrute, o agrado de um peixe assado, a revelação de uma alcachofra à judia, a tradição de um pudim de claras. E de sobremesa maior os lentos passeios até a ponte pênsil.

Embaixo dela, vendiam uma bananada retangular, acabada de fazer, fininha, com açúcar cristal por cima. Os cachos de bananinha ouro mais doces, os baiacus pescados inchando a barriga.

Tudo brilhava de um brilho novo, visto sob a perspectiva das crianças que tentavam entender os mundos diferentes de suas realidades caseiras. E é dessa época, e não das comidas, que temos saudade.

Os meninos começavam a mapear o mundo, o lugar, a história, os acontecimentos e nós, meninas, mapeávamos a subjetividade, ligadas no corpo e no desejo, no labirinto do humano, real e fantasia agarrados, recheando um doce de mil folhas.

ninahorta@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! O ZZZZZZelaya só dorme!

Sabe por que Honduras tá em estado de sítio? Porque o Zelaya tem cara de chacareiro!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Avisa pra Inglória Perez que "Caminho das Índias" ainda não terminou: "Empresário indiano detido com dois travestis em Copacabana".

Na esquina da avenida Atlântica com a REPÚBLICA DO PERU! Rarará!

O Raj foi pegar traveca na República do Peru! E esse Zelaya, que só dorme? Devia se chamar ZZZZZZZelaya! E o Lula vai lançar mais um programa social de ajuda ao Zelaya: Bolsa Golpe Família.

E o site Éramos Seis revela como o Lula vai resolver esse impasse internacional: vai vender a embaixada brasileira pro Chávez. E com inquilino dentro! Rarará! Família brasileira muda e vende tudo. Excelente localização, perto dos

Estados Unidos. E com inquilino dentro.Tratar com o Lula!

E ontem eu falei que a doutora Havanir tá procurando marido pela televisão. Qual o problema de casar com a doutora Havanir? Não tem gente que vai ao Playcenter e paga pra levar susto? Rarará!

E o Serra, o Vampiro Anêmico? O porteiro do IML! Já tá com a campanha pronta. Olha só: aterroriza os eleitores, assusta a oposição e estremece os fumantes, Serra 2010! Rarará! E sabe por que Honduras tá em estado de sítio?

Porque o Zelaya tem cara de chacareiro! E agora estão indo mais seis deputados brasileiros. Aí, em vez de biscoito, eles vão comer pizza!

E mais outra piada pronta; diretores de escolas estaduais farão protesto no Dia do Professor. Vão ficar pelados! Nu Coletivo. Pelados no coletivo ou nu coletivo?! Peladões com a régua balançando! E sabe como se chama o presidente do sindicato, o organizador?

LUIZ PINTO!! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Fortaleza tem uma loja de lingerie chamada ASSUNTOS INTERNOS! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enxadrista": companheiro que pega na enxadra. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E quem fica parado é poste!

simao@uol.com.br

KENNETH MAXWELL

Agente secreto

OS ROMANCES de Arthur Ransome me entusiasmavam quando eu era jovem. Costumava lê-los avidamente, repetidas vezes. Eu adorava suas histórias, repletas de acampamentos ao ar livre, escaladas e aventuras marinhas, e nas quais, até onde me lembro, não apareciam adultos.

No começo dos anos 50, o escritor, com seu espesso bigode, paletó de tweed, chapéu de feltro e onipresente cachimbo, me parecia um gentil e perene guardião dos meus sonhos de infância.

Ou era essa a impressão que ele causava. Arthur Ransome nasceu em Leeds, em 1884. Seu pai, professor na universidade local, morreu quando o menino tinha 13 anos.

O jovem Arthur passou boa parte de sua juventude em Coniston Water, no Lake District, e posteriormente se mudou para "Norfolk Broads", uma área de vias aquáticas interconectadas no leste da Inglaterra.

Cinco de seus romances têm o Lake District como cenário, e dois se passavam em Norfolk. Todos esses títulos continuam em catálogo.

Mas o escritor, morto em 1967, tinha uma outra história. Ele também era espião, e possivelmente agente duplo. Após vencer o célebre processo por difamação que lorde Alfred Douglas abriu contra ele em 1913 devido ao seu livro sobre Oscar Wilde, e de um desastroso primeiro casamento, ele escapou para a Rússia.

Como correspondente do "Daily News", de Londres, e depois do "Manchester Guardian", ele testemunhou a queda do Império Russo e os esforços de Kerensky para sustentar um governo democrático. Ransome estava fora do país quando os bolcheviques tomaram o poder, em outubro de 1917, mas retornou logo em seguida para registrar os primeiros anos do regime bolchevista.

Ransome era muito amigo de Karl Radek, o chefe da seção de propaganda bolchevista, e se tornou um admirador ardoroso de Lênin, cujo retorno à Rússia via Estação Finlândia ele testemunhou.

O escritor era amante de Evgenia Shelepina, a secretária pessoal de Trótski, e apoiava a causa bolchevista, transportando dinheiro para a Suécia e para a Estônia em nome do regime e colaborando com a Cheka, organização que antecedeu a KGB. Também era o "Agente S76" do MI6, o serviço de inteligência externa britânico.

A história dos anos que ele passou na Rússia é contada por Roland Chambers em "The Last Englishman: the Double Life of Arthur Ransome". Após voltar a Londres com Evgenia, em 1924, as autoridades britânicas não conseguiam decidir se Ransome era herói ou traidor.

Mas, depois do início dos anos 30, ele se tornou mais conhecido não por seu passado, e sim como um escritor muito amado, que cativou diversas gerações de crianças britânicas -entre as quais eu.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Well, quinta-feira de garoa e chuva fina nesta Porto e que por isso não está nada alegre. Enfim que possamos mesmo assim, termos um bom dia

CLÓVIS ROSSI

De trogloditas e radicais

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando diz, como o fez em recente entrevista, que não haverá "trogloditas" na disputa presidencial de 2010. É claro que o conceito de "troglodita" varia de pessoa para pessoa. Há muita gente preconceituosa que acha o próprio Lula um troglodita incorrigível.

Do meu ponto de vista, o último troglodita que se apresentou a uma eleição presidencial foi Fernando Collor de Mello, em 1989. De lá para cá, pode ter havido candidatos rotulados de radicais, mas eu não confundo uma coisa e outra. Acho até que radicais são necessários, se a palavra for tomada pelo que significa e não pelo peso político que a ela passou a se atribuir.

Ir à raiz das questões (ser radical portanto) não só é necessário como é saudável, mais ainda em um país como o Brasil que prefere contornar o toco em vez de atacá-lo.
Ou, na melhor das hipóteses, encara os problemas devagar demais, o que tende a perpetuá-los e eventualmente agravá-los. Tome-se o caso da educação.

Nos dois governos mais recentes, avançou-se claramente tanto em matéria de universalização como em aperfeiçoamento dos processos de avaliação, passando ainda por maiores possibilidades de acesso dos mais pobres à universidade.

Basta? Não, diria um radical. O problema da qualidade continua proporcionando ao Brasil vexame internacional atrás de vexame internacional, sempre que o país participa de provas globais.

É difícil resolver o problema ou avançar ainda que seja um pouco?

Claro que é. Mas é para isso que servem os radicais. Ou para pôr na agenda da próxima campanha eleitoral a necessidade de uma revolução (outra palavra radical) na educação ou, no mínimo, para forçar os não radicais, que são os que têm mais chances eleitorais, a serem um pouquinho menos mansos.

crossi@uol.com.br


01 de outubro de 2009 | N° 16111
LETICIA WIERZCHOWSKI


“Os dias de verão vastos como um reino”

Fui recentemente a Portugal, e uma das minhas metas era trazer na mala a bibliografia poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Eu conhecia pouco da sua obra, mas adorava-a muito.

Aliás, soa estranho que essa genial poeta (cujos poemas nem precisam ser traduzidos para o nosso mercado) tenha apenas uma única antologia publicada no Brasil: Poemas Escolhidos, Companhia das Letras, 2004 (ano, aliás, em que Sophia faleceu).

Se Sophia ainda é pouco conhecida dos brasileiros, seu filho, o escritor Miguel de Souza Tavares, já atravessou o Atlântico e começa também a fazer sucesso por aqui – ele, que em Portugal é um sucesso absoluto de vendas.

Voltando à poesia de Sophia de Mello Breyner, minha admiração guarda boa companhia: há alguns anos, Maria Bethânia fez um disco inteiro baseado nos seus poemas – as duas são amantes do mar, e a obra de ambas percorre praias desertas, águas verdes e segredos marinhos.

Qual não foi o meu espanto ao chegar em Lisboa e encontrar os poemas de Sophia espalhados por muitos recantos da cidade. Numa das paredes da antiquíssima igreja da Glória, lá estava a poesia de Sophia a louvar o mar.

Em muros, esquinas, murais de azulejos, até mesmo no Oceanário de Lisboa, onde ela é uma espécie de madrinha: os lisboetas adotaram os poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen para cantar as belezas portuguesas, seu horizonte azul, as águas do Tejo, as praias douradas do Porto – ela, que cresceu lá, e cuja poesia sempre esteve impregnada de deuses e segredos sussurrados, de praias desertas e mitológicas figuras gregas.

Foi assim que me afeiçoei ainda mais a Lisboa, que zela com orgulho pela poesia de Fernando Pessoa, mas que encontrou espaço para fazer também dos versos de Sophia de Mello Breyner uma louvação aos encantos portugueses.

No entanto, embora os versos de Sophia estejam espalhados por ruas e catedrais, foi-me bastante dificultosa a tarefa de comprar a sua bibliografia.

Incrivelmente, seus livros estavam longe das livrarias lisboetas, e tivemos, meu marido e eu, que bater muita perna até reunir o nosso precioso tesouro – o qual, ao final da viagem, trouxemos para casa cheios de contentamento.

Da poesia de Sophia, eu amealhei o título desta pequena crônica que agora escrevo, olhando com muita saudade os dias que lá ficaram entre as ladeiras de Lisboa e o pacífico Tejo. Vastos como um reino, foram esses nossos dias no final do verão português. Ai, que vontade de voltar...


01 de outubro de 2009 | N° 16111
PAULO SANT’ANA


Fogem 330 presos por mês

Soou como um escândalo uma informação divulgada ontem: por mês, fogem 330 presos do regime semiaberto no RS.

Não entendi por que as pessoas se alarmaram.

E, divulgada a informação, desatou-se um forte delírio de bestialógicos incontíveis.

Logo os neófitos principiantes de política carcerária desataram a pronunciar absurdas tolices.

Fizeram a conta e viram que são 3.900 os presos que fogem por ano do regime semiaberto, uma quantia colossal, quase o mesmo número de presos hospedados no Presídio Central.

E não sabem os neófitos principiantes de teoria prisional que se estes 3.900 presos não fugissem do regime semiaberto o Estado não teria onde pô-los.

E é exatamente para isso que o Estado criou o regime semiaberto, isto é, para que fujam. Para desová-los nas ruas. E assim o Estado vê diminuídas as suas despesas exatamente em 3.900 presos condenados.

Se fosse mantê-los presos, o Estado não teria verba para pagar os excessos salariais dos príncipes do funcionalismo nem as migalhas destinadas aos plebeus do funcionalismo pela Lei Britto.

O coice na razão mais cruento que foi dado ontem pelos neófitos principiantes das teorias carcerárias foi o que ouvi no rádio: “É preciso fechar o semiaberto”. Ora, fechar o semiaberto ou o regime aberto implica enxugar gelo, pentear macacos, catar piolhos com luvas de boxe e quejandos.

Como dizem burrices no microfone! Ora, “fechar o semiaberto”, como se fosse fechar uma porta entreaberta, só que uma porta entreaberta institucional.

O semiaberto foi criado para permitir um número cem vezes maior de fugas lá do que no regime fechado, mas sem estardalhaço, na surdina. Entenderam agora os leitores o tamanho da sacanagem do sistema?

Fogem às catadupas os presos do semiaberto para que os governos oxigenem seus orçamentos com essa espúria forma de jogar lixo debaixo do tapete.

Isto é uma deslavada sem-vergonhice.

Outra coisa que nunca entendi é por que chamam esse regime de semiaberto.

Como podem denominá-lo assim hipocritamente se a finalidade desse regime é tornar fácil a fuga dos condenados? Ou melhor, a finalidade central deste regime é aliviar o caixa dos governos, preso depois de fugir deixa de ser despesa para o Tesouro. Ele, depois de fugir, passa a dar despesas para a sociedade, que gasta os tubos com segurança privada para se proteger dele.

Aberto ou semiaberto, tudo é a mesma coisa, não é questão de conteúdo, é questão de nomenclatura.

Muitos presos transformam o semiaberto no maior achado de suas vidas. Chama-se semiaberto para que os presos fujam antes de três dias depois de terem sido mandados para lá.

Ou o preso foge, ou então se revela um estratego mais genial ainda: fica dormindo à noite no semiaberto, isto é, assaltando na rua durante o dia, quando as autoridades pensam que ele está trabalhando, fugindo dias depois de lá à noite, depois de forrar o poncho com o produto dos assaltos, quando as autoridades pensavam que ele estava dormindo.

Genial.

E tudo acontece porque o Estado está falido. Se o Estado não consegue controlar o regime de concessão de carteiras de motoristas, que engendrou uma corrupção alarmante, como vai controlar no semiaberto se há presos dormindo ou presos fugindo? Longe do Estado tal cálculo e tal meticulosidade.

Não tem pessoa mais azarada do que eu: na sociedade gaúcha há duas entidades falidas: O Grêmio e o Estado.

Como sou gremista e sou gaúcho, sofro, peno, me aflijo em dobro, os meus dois entes primais estão falidos.

Não tenho recursos para garantir à sociedade agentes penitenciários eficientes nem jogadores ótimos para o Grêmio.

Eu que me... rale!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009


ANTONIO DELFIM NETTO

De mendicante a senhor

A AGRICULTURA (o chamado agronegócio) é um dos setores mais competitivos da economia brasileira. Foi graças ao seu superavit comercial que o Brasil livrou-se da armadilha externa em que se encontrava.

Ao longo dos últimos 15 anos a política agrícola tem sofrido altos e baixos, mas a tendência tem sido de melhoria continuada. Infelizmente, a segurança jurídica do setor tem sido frequentemente ameaçada.

Os problemas fundamentais da criação de um seguro de safra e de instrumentos que permitam a defesa dos preços nos mercados futuros (e, assim, dar estabilidade de "renda") têm sofrido alguns percalços.

Por outro lado, o problema da dívida, numa larga medida construído pelas "idas e vindas" do oportunismo governamental no uso político do setor, persiste e ainda não foi resolvido.

O progresso da agricultura é produto de gente trabalhadora extremamente sofrida, de uma classe empresarial que acreditou no governo e viu o "ajuste" (a partir do Plano Real) fazer-se sobre o seu patrimônio.

É produto também do suporte do maior instrumento de políticas públicas deste país, que é o Banco do Brasil, e dos investimentos acumulados desde o início dos anos 70 na Embrapa.

O agronegócio tem sido mais recentemente estressado:

1º) pela centralização das decisões da política ambiental;

2º) pelo estímulo que se dá às organizações não-governamentais (que recebem subsídios escondidos dos governos brasileiro e estrangeiros), que perturbam os mecanismos da própria reforma agrária; e

3º) pela construção de duvidosíssimos "índices de produtividade". Ninguém pode ser contra a política de preservar (e melhorar!) o meio ambiente, mas ninguém pode ignorar que é impossível uma política "centralizada" para um país de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e dominado por vários biomas.

Ninguém defende a extinção das ONGs, mas não se pode admitir que o "não-governamental" se sustente, direta ou indiretamente, de "governos" (nacional ou estrangeiros). Ninguém pode ser contra o estabelecimento de "índices mínimos de produtividade", mas não se pode ignorar a imprecisão do conceito e o risco de seu uso político.

A introdução do instituto da reeleição sem desincompatibilização, num país onde não existe controle social, está construindo um sistema onde todo o poder de eleger a Câmara e o Senado caminha para os grupos locais que controlam os prefeitos.

Um dia isso será entendido. Quando isso acontecer eles não irão a Brasília como mendicantes perante o Poder Executivo. Eles irão para promover reformas constitucionais para tomar-lhe o poder...

contatodelfimnetto@uol.com.br
O hino e os amigos

SÃO PAULO - Duas frases ditas anteontem definem à perfeição por que o debate público no Brasil é em geral indigente e por que o serviço público é em geral tão pobre.
Frase 1, do novo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, ao aludir à sua fidelidade canina a Luiz Inácio Lula da Silva: "Parecia jogo de futebol em que as torcidas [os lulistas] ficam se digladiando, mas, quando toca o hino, todo mundo canta uma música só".

É o que acontece, com raras exceções, no debate público: os lulo-petistas e a oposição não se comportam, com raras exceções, como animais pensantes, mas como rebanho. Os hoje governistas, antes oposicionistas, põem a mão no peito e cantam o hino lulo-petista, sem discutir se a execução é boa, ruim ou péssima, se a letra é a mais adequada ou não. Aplaudem sempre, incondicionalmente.

Já a oposição vaia sempre, como se estivesse tocando o hino da Argentina. Inteligência que é bom vira vaga-lume nesse comportamento de manada: pisca aqui e ali, mas logo se apaga.

Frase 2, do presidente Lula, ao rebater críticas à nomeação de apaniguados de partidos, "como se algum partido que ganhou a eleição empregasse todos os inimigos e deixasse os amigos de fora".

O segredo da boa governança, versão Lula, é não deixar os amigos de fora. Se os amigos são competentes ou não, se são corruptos ou não, se usam os cargos para proveito político ou pessoal, é indiferente.

Importante é não deixar os amigos ao sereno. Como todos os partidos procedem da mesma maneira, o serviço público deixa de ser público para se transformar em uma ação entre amigos. Como consequência inexorável, a prioridade é atender os amigos, não o público.

Se houve, em algum momento, a noção de coisa pública desapareceu do Brasil. Há apenas o hino e os amigos que cantam.

crossi@uol.com.br


30 de setembro de 2009 | N° 16110
MARTHA MEDEIROS


TV: consuma com moderação

Estou longe de ser uma patrulheira contra a TV. Assim como há muita bobagem e baixaria, há também muito programa bem-feito, informativo e divertido. Nesse aspecto, não temos do que nos queixar, nossa televisão é bastante diversificada se comparada ao resto do mundo. Se adicionarmos aí o privilégio daqueles que possuem canais por assinatura, já dá pra dizer que só morre de tédio quem quer.

Lembro de um ex-colega que dizia que era fanático por TV e que, quando não estava trabalhando, estava em casa grudado na telinha, que era como ele absorvia o mundo e enriquecia sua vida. Nunca mais ouvi falar dele, e não é de se estranhar.

Tevê não é cultura. Entretém, informa, diverte, mas a cultura está um degrau acima. Se eu estiver forçando a barra em dizer que não é cultura, troco a frase: TV não impacta, não eleva a imaginação, não corrompe fórmulas prontas, não arrisca, não provoca, não incomoda, não arrebata. Quem faz isso é a arte.

Foi o que pensei ao assistir ao espetáculo Quartett, montagem do dramaturgo americano Bob Wilson com a estupenda atriz Isabelle Huppert, que encerrou a programação do Porto Alegre em Cena semana passada. Envolvida pelo que estava vendo, pensava: diacho, como a TV tomou conta das nossas vidas.

Um dia antes, eu havia assistido no cinema a Os Normais 2, que é praticamente um episódio de TV. O filme baseado no meu livro Divã também traz uma estética, um elenco e uma linguagem de TV. Ambos são bons e cumpriram o que se esperava deles, e hoje o que se espera é bilheteria e risadas. Nada contra. Mas isso não pode ser tudo o que se espera de uma obra.

José Alvarenga, que dirigiu os dois filmes, é um profissional competente e odeia quando se fazem essas distinções, e por um lado concordo: se é filmado em película e passa no cinema, é cinema. Mas a TV está no cangote.

Assim como ela está no cangote de muito do que se faz em teatro hoje, muito do que se faz em literatura, muito do que se faz em música. A TV é um totem. Sacralizou sua linguagem. E tornou-se tão eficiente quanto uma anestesia geral.

Não só gosto, como respeito a TV. Sem ela, muita gente estaria à deriva, achando que o mundo não vai além da porta da vizinha. Mas a TV não pode ser nossa única ponte com o subjetivo, até porque ela não entende nada de subjetividade. A TV é recreação caseira, não desperta o deslumbre diante daquilo que a gente não explica, apenas sente. Ela não pode, sozinha, fazer nossa cabeça. Na nossa cabeça há espaço para muito mais.

Quartett poderia ser descrita como uma ópera contemporânea que homenageia a musicalidade das palavras, a expressão corporal, a luz, a poesia.

É um sonhar acordado, um convite a visitar outra dimensão do amor, da sedução, das relações humanas, essas coisas que a gente vive de forma tão objetiva e, por isso, tanto tropeça. Tivéssemos um olhar mais louco, mais criativo, mais sensorial, mais qualquer coisa que não lembre o comezinho cotidiano, a vida teria mais graça, estilo e mistério.

Quartett foi uma chapação legalizada. A TV é boa, mas não te chapa: consuma com moderação.

Bem quarta-feira. Dia Internacional do sofá. Ainda que fria, que tenhamos todos um bom dia, especialmente para vc ccr a quem aprendi admirar e amar.


30 de setembro de 2009 | N° 16110
DAVID COIMBRA


Perdido na floresta de pernas

Pernas de mulher são emocionantes. A loirinha Sândi tinha coxas grossas e desenhadas com o capricho com que desenha um Gilmar Fraga. Eu não conseguia não olhar para as coxas dela. Uma vez, estava sentado num banco de pedra lá no fundo da Coorigha, esperando a turma para jogar bola, e a Sândi apareceu, gingando dentro de uma minissaia de quatro dedos de altura. Veio na minha direção, os olhos azuis faiscando.

À primeira chicotada de olhar, notei que havia um vergão na parte de trás da coxa direita dela. Por pudor, tentei disfarçar, fazer de conta que não tinha visto. Só que ela mal chegou e já se virou assim de ladinho e miou:

– Viu que estou com um vergãozinho na coxa?

Pronunciava coxa assim: coxxxah. Isso me deixava nervoso. Uma coxa dita desse jeito é muito mais suculenta.

Eu ali, sentado no banco, gaguejei: – Ver-ver...gão? Não tinha visto...

– Ó aqui ó – ela se virou mais um pouquinho, ficou toda empinada bem ali, a palmo e meio do meu nariz.

Olhei para o risco róseo na carne branca e lisa. – Nc – comentei.

– Foi o fio da pandorga do meu irmão que passou aqui. Doeu na hora. Agora não mais. Agora está bom. Mas ficou altinho. Quer ver como ficou altinho?

Ergui a cabeça. Encarei-a, aflito. O que ela queria dizer com “quer ver como ficou altinho?” Propunha que olhasse mais de perto? Ou que... oh, Cristo, que tocasse na cicatriz?

Segunda alternativa. Ela sussurrou: – Passa a mão...

Com um milhão de pandorgas, pipas e papagaios, ela queria que eu passasse a mão no vergãozinho dela!

Aí estiquei o dedo indicador da mão direita, esse mesmo dedo que tecla botões de celular, aperta campainhas e faz o número um, esse que já indicou a professoras que eu queria ir ao banheiro e que já parou táxis e ônibus na rua e que já deflorou bolos de chocolate.

Pois estiquei esse dedo e o fiz voar, trêmulo, até aquela marquinha rosada, e esfreguei-o ali, e quase chorei de felicidade. Era a primeira vez que eu tocava numa coxa de mulher.

A segunda vez não foi numa coxa alva de loira. Foi numa coxa bronzeada, da cor de canela, da morena Alice. Nós dois estávamos no Fusca verde do pai dela, estacionado bem em frente à Tenda do Seu Zequinha, e a Alice vestia um short branco que, por Deus, faz parte da história da minha vida. Abracei-a pela cintura e, lentamente, ardilosamente, fui descendo a mão. Descendo, descendo, rumo às... coxas!

Hoje ninguém mais colocaria ponto de exclamação depois de coxas, sei bem disso, hoje qualquer adolescente espinhudo tem vasta experiência em coxas, mas naquele tempo as coxas de uma mulher eram um território que poucos guris podiam se gabar de conhecer com intimidade, faziam parte da nossa mitologia, eram um prêmio quase inatingível. Dizíamos, entre nós:

– Quando vou alisar uma coxa de mulher pela primeira vez?

Por isso, quando finalmente empalmei as coxas de Alice e as acariciei com sofreguidão, pensei: não acredito que isso está acontecendo comigo, não acredito! Obrigado, Deus. Obrigado!

Foi bem isso o que pensei e, ao sair do Fusca verde do pai da Alice, sentia-me tonto de emoção. Fui para casa, deitei-me ao comprido no sofá e, ainda experimentando as vertigens do prazer, disse para mim mesmo que a vida é boa, é boa, é boa.

Coxas de mulher são emocionantes.

Agora calcule a minha situação: certa tarde, estava entre essas quatro coxas, as dourado-escuras de Alice e as dourado-claras de Sândi, mais as bem fornidas de Josie, as compridas de Ariadne, as macias de Débora, todas as gurias vestiam short naquele entardecer de verão, e o mundo parecia tão belo, tudo parecia exatamente em seu lugar, aí o céu azul-Grêmio começou a ficar azul-Cruzeiro e logo se tornou preto-Botafogo e o ar se transformou em um ar pesado e vibrante.

Era a tempestade de verão que se aproximava.

Olhamos para o céu, eu e as minas, e eu ali, no meio daquela floresta de coxas, só eu de homem entre tantas belas, e sabe o que pensei? Vou confessar exatamente o que pensei. E-xa-ta-men-te: que vontade de jogar bola na chuva! Foi isso que pensei.

Então, como se tivessem ouvido os meus pensamentos, os guris chegaram correndo de algum lugar. Vinham em matilha, o Barnabé, o Plisnou, o Cavalo, o Anão, o Tosão, o Diana, o Zoreia, o Barril, o Languiça, o Mochila, o Apara Peido, o Fio, o Zé Índio, o Beto Zúqui, e outros mais, e alguém levava debaixo do braço a bola vermelha do Zé Fernandes, e eles gritavam:

– David! Vamos jogar na chuva lá no Alim Pedro, David! Vamos! Vamos!

Olhei para as pernas todas das gurias à minha volta. Umas estavam com as pernas cruzadas; outras paradas, com o peso do corpo apoiado numa única perna; uma tinha as mãos à cintura; uma se espreguiçava, adoro ver uma mulher se espreguiçando; e todas aquelas pernas reluziam como um cântico à glória da obra da Mãe Natureza. Mas os guris corriam para o Alim Pedro, e imaginei o jogo na chuva e no barro, a gente escorregando e caindo e rindo e levantando lama e água, e disse:

– Tiau, gurias! Enquanto corria para o Alim Pedro, ainda ouvi a Alice me chamando:

– Davim...Elas falavam Davim. Era legal. Mas jogar na chuva também era. Pode não ser o melhor para jogo valendo três pontos, mas que é divertido, isso é.


30 de setembro de 2009 | N° 16110
DIANA CORSO


Água com açúcar e sangue

Cada fenômeno editorial fala de seu tempo. Se um livro vende mais de 55 milhões de exemplares, provoca furor entre adolescentes e outros mais crescidos, convém investigar-lhe os segredos, certamente revelam algo nosso.

A série de romances da americana Stephenie Meyer, iniciada com Crepúsculo, estendida ao longo dos quatro gordos volumes já publicados, reencontra um ávido público leitor da mesma faixa etária que aclamou Harry Potter uma década atrás. Enquanto Rowling resgatou o valor da magia, o sucesso desta série nos revela overdoses de romantismo.

Trata-se da história de Bella, uma menina comum, pais separados, desajeitada e sonhadora, que chega a uma cidade do interior dos EUA para morar com seu pai. Novata, ela tem seu coração disputado por vários meninos e finalmente o entrega a Edward, um vampiro de 17 eternos anos, lindo e com superpoderes, que a salva constantemente de perigos.

Além disso, ele considera que seu sangue é o cheiro mais irresistível que ele sentiu nos últimos séculos, mas se detém, num erotismo contido. Afinal, ele pertence a uma família que não bebe sangue humano. Mas há os vampiros tradicionais e eles também consideram o cheiro de Bella apetitoso.

São centenas de páginas de paixão e exaltação das qualidades de Edward, que é tão poderoso quanto amante dedicado. Misture isso com desentendimentos, desencontros, lutas entre vampiros bons e maus e acrescente lobisomens. No centro dessas contendas, está sempre a irresistível Bella, como se Troia não fosse mais do que uma disputa por Helena.

Mais do que um romance para meninas, o que temos aqui é o protagonismo feminino, cada vez mais comum na literatura infanto-juvenil, e a força de ideais de sensibilidade que outrora eram restritos às mulheres.

Muitos meninos também leem essas histórias e sentem-se representados pelos poderosos vampiros e lobisomens, príncipes sobrenaturais. Por mais que falem na leviandade das novas gerações, expostas a muita sexualidade explícita, observamos surpresos que o romantismo voltou.

Meyer aponta para algo novo: a liberdade das mulheres, sua crescente influência nas ideias dominantes, estende seu poder para o discurso amoroso das novas gerações.

Sonhadores, meninos e meninas valorizam a necessidade de dar tempo e espaço à sedução, aos jogos de esconde-esconde, à tortuosa e conflitiva iniciação sexual. Com a carnalidade de açougue da “ficação” dos jovens, convivem sonhos que bem conviriam a Romeu e Julieta. Nem tudo é tão simples como parece.


30 de setembro de 2009 | N° 16110
PAULO SANT’ANA


O voo das borboletas

O meu tema hoje se refere a um aspecto da vida humana que me tem intrigado a sobejo: a liderança.

Seja a liderança de qualquer grupo ou em qualquer situação, seja a liderança de uma nação, de um Estado, de uma empresa, enfim, de qualquer conglomerado humano grande ou pequeno.

O líder é sempre uma pessoa atormentada. Quase sempre pela responsabilidade.

Ocorre-me agora, exatamente agora enquanto escrevo, que toda professora é uma líder, ela é quem conduz os alunos e a sala de aula.

Por sinal, no fim desta coluna estarei abordando a face mais característica de um líder, que é a condução dos seus liderados.

Do líder emanam as instruções para seu grupo, emanam as luzes para seu grupo, emanam o otimismo e a confiança, tudo emana do líder.

É prosaico dizer, mas um grupo sem líder é como um corpo sem cabeça.

Um grupo sem líder é como uma mulher sem pés e mãos bonitos, empaca tudo ali, e nem uma mulher assim, sem encantos nos pés e nas mãos, mesmo que seja bela, pode ser considerada bela.

Vejam o caso dos animais. Todas as espécies, em todos os grupos, têm líderes.

Por trás de qualquer manada de elefante, embora não se perceba, nas longas caminhadas da manada em busca de água ou de qualquer outro alimento, existe um líder. E, nas manadas de elefantes e nos bandos de leões, não raramente, os líderes são femininos.

Não faz estranhar que as fêmeas de algumas espécies animais sejam as líderes, porque na espécie humana, em última análise, as mulheres também são as líderes. Basta que se diga que se criou o termo dona de casa, que indica claramente quem manda na célula principal do agrupamento, que é a família, o domicílio.

Líder, portanto, é quem vai na frente, quem está na frente, quem conduz os outros.

O líder é uma pessoa diferenciada, há até casos raros em que o líder não é quem comanda, não é quem vai na frente e sim quem está por trás.

O líder tanto distribui as coordenadas quanto as recebe dos liderados, o líder costura, inflama, constrói, anima, mentaliza o que os outros confeccionam.

Dá para sintetizar numa só imagem o papel do líder: a de uma fileira indiana de pessoas que caminham no meio de uma floresta selvagem.

Lá vai a fila indiana de pessoas em busca de um objetivo.

E, na frente da fila indiana, de umas 30 pessoas, vai o líder, é lógico.

Ao líder, que vai na frente da fila na floresta, cabe desbastar o caminho com o facão. Vai avançando a trilha a golpes de facão que vão derrubando os galhos, os nós, os cipós. É estafante o trabalho do líder na abertura da trilha. Os outros todos vão apenas atrás, na cauda, no rastro da tarefa do líder.

Além de ter de desbastar os vegetais da trilha, o único que corre risco entre toda a fila indiana é o líder: é ele, por ir na frente, quem tem a posição temerária de receber as mordidas das serpentes. Mas é claro: por vir na frente, o líder é quem primeiro invade os ninhos das serpentes e por isso pode receber a dura punição das picadas venenosas das cobras.

Parece, portanto, que vida dura é a do líder. No entanto, apesar dessa dureza, ao líder é que cabe o esfuziante privilégio, o deleite inimitável, o prazer incomensurável de, por seguir na frente dos outros na trilha, sendo o primeiro que sacode os galhos da floresta, por isso conseguir ver, o primeiro e único a assistir ao alçar do voo das borboletas.

Quem já assistiu ao espetáculo extraordinário do alçar de voo das borboletas coloridas na floresta?

Assistir primeiro e unicamente a esse espetáculo é privilégio, compensação e recompensa do líder durante a caminhada.

terça-feira, 29 de setembro de 2009


JOSÉ SIMÃO

Uau! Leve desodorante pro Zelaya!

E uma amiga minha disse que não daria asilo ao Zelaya, mas daria asilo ao Zé Mayer!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

CVM multa Pinto Rôla! Por atentado ao pudor? Rarará! É verdade.

O cara que foi multado se chama Alexandre Pinto Rôla! Multado por atentado ao pudor?! Por abuso! E a última do Egito: entrei num hotel no Egito, e sabe aqueles saquinhos de chá que eles deixam em cima do frigobar? Sabe qual a marca do chá?

DILMAH! Perseguição! Dilma em saquinho! Mas é Dilma com H: Dilmah. Aliás, tá aí um bom slogan pra ela: "Pra 2010, Dilma com H!".

E eu já disse que não é o Zelaya que tá refugiado na embaixada brasileira. É o Ratinho. Mas um leitor me disse que não é nem o Zelaya nem o Ratinho, é o Professor

Girafales. Rarará! O Zelaya parece o Professor Girafales. Do seriado "Chaves". "Chaves" do SBT. E não Chávez da Chavezuela!

E o chargista Frank diz que essa crise em Honduras teve o seu lado positivo: o Lula aprendeu a falar Tegucigalpa! E uma amiga minha disse que não daria asilo ao Zelaya, mas daria asilo ao Zé Mayer!

E diz que até o Fluminense vai pedir asilo na embaixada brasileira! E já imaginou aquela penca sem poder tomar banho? Campanha Leve um Desodorante pro Zelaya!

Rarará! Leve uma quentinha pro Zelaya! E o chargista Marco Aurélio revela o que o Lula gritou pro Zelaya: "Seguuuuuu-ra, peeãããão!".

Aprovado! Gago paga meia! Deputado do Mato Grosso do Sul apresenta projeto: gago paga metade da conta telefônica. E foi aprovado.

Gago paga meia! Gago devia pagar meia em motel! Já imaginou gago gozando?! Totototô quaquaquase gogogozando, pepepéraí. Duas horas no mínimo! Telefonema pra Bahia devia pagar meia também. Aí eu liguei pra Bahia: "A Elenice tá?". "Táááááá siiiiiiim, meu fiiiiiilho. Eleeeeeeenice, miiiiiiiiinha filha, telefooooone!

Peraí que ela já veeeem!". Aí já foram cinco minutos! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Tocantins tem uma pousada chamada Pousada do Lico Garrucha de Ouro! Parece Dias Gomes! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Honduras": o contrário de ondas moles! Honduras, Ondas Médias e Ondas Moles. Rarará!

O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. E eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!


simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

A ponte ruiu

BRASÍLIA - O Brasil perdeu totalmente as condições de exercer uma de suas especialidades na solução da crise em Honduras: a capacidade de liderança e de mediação.

Ao meter os pés, as mãos e a embaixada em Tegucigalpa na defesa apaixonada de um dos lados, o do presidente deposto, Manuel Zelaya, o governo Lula se colocou num duelo com o presidente golpista, Roberto Micheletti -que, ao mesmo tempo, recusa sistematicamente a participação da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Chegou-se assim ao pior dos mundos: Micheletti radicaliza de um lado, Zelaya radicaliza de outro.

Um decreta estado de sítio, põe as tropas na rua, determina a invasão a uma TV e a uma rádio, insiste numa eleição ilegítima desde a origem. O outro usa a embaixada brasileira como "bunker" para instigar a desobediência civil no país. O que cheira a sangue.

Não há, à vista, nenhum escudo ou ponte entre esses dois malucos perigosos. O Brasil se inviabilizou. A OEA é rechaçada por Micheletti.

A ONU limitou-se à de defesa da "extraterritorialidade" e, portanto, da embaixada do Brasil. Os EUA, dúbios estavam, dúbios continuam. Chávez gosta de botar fogo, não de apagar incêndios.

Enfim, a situação é dramática, com o risco real, nada fictício, de que Micheletti continue se deslumbrando no papel de típico golpista bananeiro e acabe por invadir a embaixada brasileira. E que leve o país a uma guerra civil. Isso tudo é improvável, mas não impossível.

Marco Aurélio Garcia, assessor internacional de Lula, tem razão ao dizer que: 1) o Brasil não se meteu, mas sim foi metido nessa enrascada; 2) não havia alternativa se não acolher Zelaya na embaixada.

Mas o Brasil cometeu um grande erro: entrar na linha de frente contra Micheletti. Antes, hospedava um presidente deposto por um golpe militar. Agora, hospeda uma bomba pronta a explodir.

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Pede para sair, Zelaya

SÃO PAULO - Se eu fosse do governo brasileiro, chamaria o capitão Nascimento, o personagem desse excelente ator que é Wagner Moura em "Tropa de Elite", para dizer "pede para sair, Zelaya". É a única solução para acabar com o esculacho na missão em Tegucigalpa.

Tudo bem condenar o golpe contra Manuel Zelaya em Honduras. Tudo bem também com a concessão pela embaixada brasileira de abrigo, hospedagem ou como se queira chamar, ao presidente vítima de um golpe mal disfarçado em ato constitucional.

Mas é demais deixar que o hóspede vire dono da casa, como está demonstrado nos textos desse brilhante repórter chamado Fabiano Maisonnave.

Pior ainda é deixar que Zelaya faça, de território brasileiro, convocações para a resistência, o que não viola apenas as normas que caracterizam o asilo (pode não ser tecnicamente asilo o status de Zelaya, mas equivale a ele e o seu comportamento, por extensão, também tem que ser equivalente).

Viola acima de tudo a obrigação de qualquer líder político decente de proteger os seus. É covarde e indecente convocar manifestações refugiado na embaixada brasileira, sabendo que quem ouvir o chamado corre risco até de vida. Um líder político decente tampouco se cerca de ladrões -de celulares e até de toalhas-, como os que se "hospedaram" na embaixada.

Aliás, gente decente não constrange os anfitriões levando uma penca de "convidados" para a casa que lhe abriu as portas.

Zelaya continua sendo o presidente legítimo de Honduras, até porque não consta que a Constituição hondurenha -ou qualquer outra- inclua decência entre as qualidades para ser presidente.

Mas fica a cada dia mais claro que não há no drama hondurenho, agora transformado em ópera-bufa, um só personagem que pessoas decentes gostariam de convidar para o aniversário dos filhos.

crossi@uol.com.br


29 de setembro de 2009 | N° 16109AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Um suave milagre

Escrevo na antevéspera de outubro. É um domingo luminoso e frio, os termômetros marcam 14 graus e sopra um vento glacial, provindo das profundezas austrais. O dia é tão lindo, que me pergunto de onde exatamente me chega esta sensação de branda felicidade.

Talvez venha do céu translúcido que submerge o horizonte em resplendor, incendeia de flores as árvores, inspira aos pássaros canções de adeus ao inverno. Talvez venha da claridade vestida de azul, transparente em sua essência, inexplicável em sua própria existência.

Não sei. O que percebo é que a tranquila brandura que me possui, e que em razão não se contém, é algo de raro e de bonito. E então me aparece uma visão que quem sabe tudo esclareça.

A mais bela das mulheres cruza no meu horizonte. Porto Alegre tem dessas coisas. De repente você está imerso em uma manhã de domingo, em paz com suas tormentas interiores, pensa em céus, claridades e abismos, e aí ocorre um suave milagre.

A mais bela das mulheres não está envolta em pompa e circunstância. Não traja os vestidos das melhores grifes da moda.

Bem ao contrário, porta no corpo escultural uma blusa escura, que combina com o jeans índigo blue. É a simplicidade em pessoa. No rosto não exibe um traço de pintura. É uma anônima deusa expondo ao sol da manhã toda a sua glória num sorriso, na exatidão das formas, nos passos que são de dança.

Nenhum artista ousaria pintá-la. Em nenhuma tela cabe a perdição de seus gestos, o balé calmo de sua silhueta, a escultura de seus seios. Em nenhuma sinfonia se aprisionarão os sons silentes de sua formosura.

Ela seduz pelo simples ato de existir.

Jamais tornarei a vê-la. Ela transitará por minha vida como um instante de zênite. E, se algum dia recordar dela, pensarei apenas que eu encontrei em meu caminho a primavera.

Depois de tantos dias de chuva, uma terça-feira de sol finalmente.

Que tenhamos um ótimo dia e para quem está de folga hoje uma ótima folga. Aproveite


29 de setembro de 2009 | N° 16109
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Urbim e outros patronos

Este é um texto que talvez eu não devesse escrever, porque poderá ser lido ou como um excessivo autocentramento, ou como despeitosa desconsideração, ou ainda como uma futilidade. Mas vamos lá: o tema é a escolha do Patrono para a Feira do Livro de Porto Alegre.

Como sabem todos os que acompanham o noticiário cultural, foi eleito para este ano o grande, querido, gente boa e excelente escritor Carlos Urbim, que vai abrilhantar a festa como deve. (Segue daqui um abraço, Urbim.)

Quando a Feira completou seus primeiros 50 anos, publiquei uma história dela, 50 Anos de Feira do Livro – Vida Cultural em Porto Alegre, 1954-2004, pela L&PM, o que me habilitou a conhecer em detalhes muita coisa, incluindo o tema dos patronos. Para quem não sabe, começou a haver patrono em 1965 (o primeiro foi Alcides Maya, já então falecido), sendo a Feira de 1955.

E só 20 anos depois, em 1984, é que começaram a ser escolhidos para a honraria escritores vivos – o primeiro, por sinal, não foi um escritor, mas homem de livros, Maurício Rosenblatt. Foi apenas em 2004 que começou a atual sistemática de nomear patronáveis (eram 10 nas primeiras vezes, agora são cinco), tendo sido Donaldo Schüler o primeiro na modalidade.

Meu ponto é que, tendo também eu sido indicado entre os patronáveis neste ano (já estive nessa honrosa lista outras vezes), recebi os benefícios desse destaque, sendo cumprimentado por amigos e fornecedores, para alegria da família e celebração da vaidade. Mas também paguei o ônus de estar na lista: recebi o ódio nem sempre discreto dos inimigos e, pior que isso para mim, precisei ouvir muitos cumprimentos de consolo.

Assim que o Urbim apareceu nas manchetes com seu largo e cálido sorriso, alguns me saudavam com pena de mim, “Dessa vez não deu, mas da outra vai dar, professor”, “Que pena que não foi tu”, essas coisas. Me tratavam como um candidato à Assembleia Legislativa ou à Academia de Letras que houvesse visto naufragar sua candidatura.

A cada um deles eu começava a explicar: “Olha, não precisa ter pena não, eu estou feliz pelo Urbim, que é do ramo e merece; além do quê, eu não era propriamente candidato, não me propus ser patrono, fui convidado”.

E gostaria ainda de esclarecer que se trata de uma votação entre profissionais do ramo, vendedores e fazedores de livro, basicamente, não entre leitores e intelectuais – nada contra aqueles, é claro, e muito antes pelo contrário;

mas o caso é que quem acompanha essa história toda apenas de longe, o leitor comum de jornal ou o sujeito que vê a matéria nos telejornais, toma esse processo como o que ele não é, primeiro pressupondo candidaturas voluntárias, segundo imaginando uma eleição de mérito literário.

Termino o texto ainda sem saber bem se ele devia existir, mas com a sensação de que esse processo de escolha do patrono da Feira perdeu, para mim, o sentido de divulgação e homenagem que uma vez teve, para converter-se, junto à opinião pública, em algo que ele não é, não devia ser.


29 de setembro de 2009 | N° 16109
PAULO SANT’ANA


Por que gostam tanto de mim?

Digo-o sem nenhum pejo: às vezes, fico matutando sobre como as pessoas gostam tanto de mim.

O que fiz eu para que as pessoas gostem tanto de mim? Gostam de mim mais as pessoas aproximadas de mim, os que me veem todos os dias ou em média uma vez por semana, estes são apaixonados por mim.

Gosta tanto de mim o Moisés Mendes, que mergulhou na internet e gravou para mim dezenas de tangos clássicos, de domínio público, como Malena, interpretado magistralmente por Adriana Varela, Volver, Mano a Mano, La Cumparsita e Viejo Ciego, este cantado pelo imortal Roberto Goyeneche.

Deu-se à pachorra, o Moisés, de dar-me de presente esta coleção memorável de tangos, construída com sua paciência e bom gosto ao escolher as músicas e dar-mas de presente para que eu me delicie no toca-discos do meu carro.

É gostar de mim ou não é?

Vejam o caso de Loraine Chaves, a mulher de Kadão, o Ricardo Chaves, fotógrafo de ZH.

Pois a Loraine deu-se à pachorra de fazer um arroz de leite, com o arroz cozido não na água, mas no próprio leite, misturar não sei com que técnica a gemada no arroz de leite, e dar-me de presente a insuperável iguaria, dentro de uma grande vasilha.

Outras pessoas me dão arroz de leite de todos os tipos. Mandam-me doces de Pelotas, de Encruzilhada do Sul, aqui da Capital, doces e mais doces, empanturram-me de doces, principalmente de papo de anjo com calda. E eu, descuidadamente, relapsamente não devolvo suas vasilhas.

Por que gostam tanto de mim as pessoas, que algumas me telefonam e quando eu respondo alô elas imediatamente desligam, só estavam com saudade da minha voz?

Por que me amam tanto assim as pessoas, que se acercam de mim espertamente para só estar comigo e deliciarem-se com minha companhia?

Por que me amam tanto as pessoas, que quando ameaço que vou deixar esta sala em que escrevo, por aqui não me deixarem fumar, é uma correria entre o Clóvis Malta, o Olyr Zavaschi, o Nílson Souza e a Suzete Braun para que eu não os abandone. Não me deixam fumar, mas quando ameaço trocar de sala me fazem todas as outras vontades, comoventemente.

Por que me amam tanto as pessoas, que uma senhora se empenhou durante uma semana inteira em dar-me a imagem de uma santinha, a sagrada Virgem Maria, para que eu a depositasse no quarto do hospital, em busca da esperança da minha cura?

Por que me amam tanto a Rosane Marchetti e a Cristina Ranzolin, que vivem perguntando para mim e para os que me cercam quando, afinal, curado, eu voltarei para o lado delas no Jornal do Almoço?

Por que me amam? Que atração irresistível de afeto eu inspiro às pessoas?

Por que me amam tanto as pessoas, que as raríssimas que me odeiam ou me invejam não o fazem por me odiar ou me invejar, mas por me admirar, numa teia psicológica intrincada que afirma cada vez mais que inveja é sinônimo de admiração?

Por que me amam? Vale a pena viver quando se é por esta forma amado e admirado.

Pois eu quero dizer a todos os que me amam que aproveitem os últimos melhores momentos de minha vida e banqueteiem-se de mim, usufruam de mim todinho.

Ligeiro, que falta pouco!


29 de setembro de 2009 | N° 16109
MOACYR SCLIAR


Verdades & mentiras

Washington é a sede do mais poderoso governo do mundo. Mas é também uma cidade bonita, agradável, com um impressionante conjunto de museus de arte e de ciência, que ficam todos no mesmo lugar (o Mall) e são, em sua maioria, gratuitos.
Recentemente um novo, e sensacional, museu juntou-se ao grupo: é o News Museum, seguramente o melhor museu de jornalismo do mundo, onde passei mais de cinco horas (e não vi tudo).

Logo que cheguei, uma emoção: uma tela mostrava a primeira página de grandes jornais, naquele dia. E que jornal estava na tela, no momento? Isto mesmo, a Zero Hora. Senti um orgulho que vocês não podem imaginar. Só não fiz um comício ali para não dar escândalo.

Bons jornais não faltam nos Estados Unidos, e o Washington Post é um exemplo. Foi, lembrem, o jornal que denunciou o escândalo de Watergate, que levou à queda de Richard Nixon (isto é lembrado no museu).

Nos últimos dias, jornais e noticiários de tevê têm abordado dois assuntos: a reforma da assistência médica e, sobretudo, a notícia de que o Irã teria um segundo reator nuclear. O que vem se juntar à recente declaração de Ahmadinejad reiterando (com arrogante orgulho) a negação do Holocausto.

O presidente do Irã deveria visitar um outro famoso museu de Washington, o Museu do Holocausto, onde há uma impressionante documentação do genocídio judaico na II Guerra, e também das perseguições contra ciganos, minorias sexuais, deficientes e dissidentes políticos.

São centenas de fotos, de documentos, de filmes, de objetos que comprovam de forma sombria, dolorosa, crimes monstruosos. E a pergunta se impõe: se Ahmadinejad nega o Holocausto, o que o impede de negar planos de desenvolver um artefato nuclear?

Ele pode, claro, dizer o que lhe convém. O problema surge para aqueles que, à distância, apoiam-no, sobretudo por sua posição antiamericana. Ou seja, a esquerda.

Este termo, que no passado designava aqueles que lutavam por um mundo melhor, mais justo, um mundo sem divisões de classe, sem preconceitos, este termo tornou-se completamente impreciso, e hoje é usado até por políticos bizarros, quando não francamente perigosos. Não por outra razão, aquela posição de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” é muito duvidosa.

De repente, a esquerda começou a ter “amigos” que tornam a direita completamente desnecessária. Em termos de negação do Holocausto, o que diferencia Ahmadinejad de um neonazista?

A mentira é a mesma. A esquerda não deve, não pode mais preferir a “mentira progressista” à “verdade reacionária”. Foi isto que serviu de argumento para o estalinismo e para o Muro de Berlim (ao qual o News Museum dedica uma seção).

Museus nos ensinam preciosas lições, mas não precisamos deles para descobrir o caminho da verdade. Coerência, bom senso, honestidade intelectual resolvem este problema. E é bom que este problema seja resolvido antes que tragédias aconteçam.