segunda-feira, 28 de setembro de 2009


MOACYR SCLIAR

O amor é uma dor de cabeça

Quando, de carro, ele se aproximava do prédio em que Carmen morava, a cabeça começava a doer

O estresse psicológico e o esforço físico de manter uma relação extraconjugal podem dar origem à "cefaleia dos amantes", segundo o neurologista italiano Lorenzo Pinessi.

"Esse tipo de cefaleia afeta sobretudo os homens, com uma intensidade proporcional à excitação", explicou o médico, que é presidente da Sociedade Italiana para o Estudo da Cefaleia. "Neles, o estresse psicológico devido à relação extraconjugal desencadeia fortes cefaleias, que podem durar até três horas", declarou o pesquisador italiano. Equilíbrio Online

PAULO JÁ tinha 15 anos de casado e se considerava feliz no matrimônio quando Carmen veio trabalhar na empresa. Era uma morena de olhos verdes, linda, sensual -tão logo a viu, Paulo sentiu que encontrara a grande paixão de sua vida. Dois dias depois, convidou-a para almoçar, e naquela mesma noite foi ao apartamento em que a moça morava sozinha; ali tiveram uma relação extraordinariamente fogosa, algo como Paulo nunca tinha experimentado antes.
Tornaram-se amantes.

E isso foi também o início de uma série de tormentos para Paulo. Homem honesto, decente, nunca tinha traído a mulher, nunca tinha mentido para ela; agora, se via obrigado a inventar histórias: "Desculpe, querida, mas essa noite teremos mais uma daquelas chatas reuniões de trabalho", coisas assim. Se a mulher acreditava ou não, ele não sabia, mas o remorso era grande.

Pior, contudo, era a dor de cabeça. Homem sadio, Paulo raramente tinha qualquer problema físico. Agora, contudo, passara a sofrer de cefaleia, uma dor de cabeça fortíssima, tão forte que se viu obrigado a procurar um médico. O doutor pediu exames, que nada revelaram de anormal e apontaram para uma conclusão óbvia: aquilo era uma coisa emocional, resultado de estresse. Um estresse, disse o médico, cuja causa Paulo deveria descobrir e removê-la.

Ele sabia qual a causa do estresse: era a ligação extraconjugal que estava mantendo. Quando, de carro, se aproximava do prédio em que Carmen morava, a cabeça começava a doer. Sentia-se mal -e sentia-se mal por causa daquela paixão escondida, clandestina.

Precisava fazer alguma coisa. E sabia o que tinha de fazer: tinha de parar com a mentira. De modo que confessou à mulher o que estava acontecendo e pediu o divórcio. Ela chorou muito, mas, mulher admirável, reconheceu que ele tinha o direito de rever sua vida. A filha única, já adolescente, concordou e disse que continuaria amando os pais.

Paulo foi morar com Carmen. A dor de cabeça cessou. Mas, coisa estranha, a paixão também diminuiu. Agora, o sexo era uma coisa rotineira, mecânica, insípida.

Pior, ele descobria que a única coisa que o atraía em Carmen era isso, o sexo. Numa tarde de sábado, no supermercado, encontrou a ex-mulher. Cumprimentaram-se afavelmente, ele convidou-a para um café.

Enquanto conversavam ele a olhava, nostálgico -e apaixonado. Sim, apaixonado. Seria ela o grande amor de sua vida? De repente, voltou-lhe a dor de cabeça.

Mas, dessa vez, ele a recebeu com júbilo, com emoção. Não era uma simples cefaleia. Era a paixão. Que ele estava redescobrindo.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha.


Faculdades criticam financiamento oferecido pelo BNDES

Para instituições, requisitos exigidos pelo MEC tornam linha de crédito burocrática e complicada

LARISSA GUIMARÃES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


Universidades e faculdades já reclamam da linha de financiamento montada pelo governo para socorrer financeiramente e apoiar investimentos das instituições de ensino superior. A linha de crédito que será oferecida pelo BNDES foi considera "excessivamente burocrática" e "complicada".

As farpas do setor de ensino se dirigem ao Ministério da Educação, que definiu as requisitos necessários para o pedido de financiamento. As regras foram publicadas na última quinta-feira no "Diário Oficial da União", e o MEC começa a analisar os pedidos nesta semana.

"O MEC complicou muito as coisas. Do jeito que está, não atende", disse o presidente da ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior), Gabriel Mário Rodrigues.

Pelas regras estabelecidas pelo ministério, as universidades e faculdades precisam ter 70% de seus cursos com nota 3 (numa escala de 1 a 5). O conceito da instituição tem de ser igual ou maior a 3, e 60% dos cursos devem ser reconhecidos pelo MEC.

As exigências também incluem a adesão da instituição de ensino a dois programas federais: o Prouni (bolsas em faculdades) e também aos Fies (financiamento estudantil).

No universo de cerca de 2.200 universidades e faculdades no país, cerca de 1.500 estão no Prouni e aproximadamente 1.300 no Fies. As universidades e faculdades interessadas no financiamento do BNDES também precisam entregar ao MEC um "plano de providências acadêmicas", para demonstrar como a qualidade se ensino poderá ser elevada.

"O ministério só deveria exigir que as instituições apresentassem nota 3 e participassem do Prouni", avaliou o presidente da ABMES.

Ele também reclama que a oferta da linha de financiamento demorou -o setor pressionava por uma linha específica de crédito desde fevereiro.

A secretária de Educação Superior do MEC, Maria Paula Dallari Bucci, afirma que os requisitos para pedir crédito pela linha do BNDES são uma questão de "coerência".

"Faz parte da cultura de qualidade que estamos querendo consolidar", rebateu. "Não faz sentido fomentar a expansão se patamares mínimos não forem atingidos", completou. Procurado pela reportagem, o BNDES afirmou por sua assessoria que não se pronunciaria.


28 de setembro de 2009 | N° 16108
RELACIONAMENTO


Todos os dias com meu filho

Em 2001, o jornalista e escritor Carlos Dias Lopes se viu frente a uma nova e incômoda situação, mas muito comum e semelhante à vivida por milhares de pais. O fim de seu casamento e a consequência mais delicada da separação: a privação da convivência diária com seu filho, Caio.

Em meio aos embates jurídicos do divórcio e à luta para manter viva a relação com a criança, Lopes criou uma associação, em Brasília, para discutir o tema e orientar outros pais, e, há um mês, lançou o livro Pais que Querem ser Pais.

A interrupção brusca na convivência com o filho funcionou como uma engrenagem para que o jornalista de 45 anos e mais cinco pais criassem a Associação pela Participação de Pais e Mães Separados na Vida dos Filhos, a ParticiPais, que hoje conta com mais de 300 voluntários.

Segundo ele, a relação pai e filho está mudando ao longo dos anos, e a noção de que o homem seja apenas o provedor, aquele que paga a pensão, é cada vez mais discutida.

– Queremos ficar mais tempo perto dos filhos. Hoje, os homens, quando se separam, estão muito mais interessados em continuar participando da vida da criança e já discutem isso na hora da separação. Isso denota um novo perfil do pai.

Uma das recentes conquistas em benefício da convivência entre pais e filhos é a lei da guarda compartilhada, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em junho de 2008. Desde então, há amparo legal para que os pais lutem na Justiça por maior participação na vida dos filhos e não mais se contentem com as visitas quinzenais. Lopes lembra que a lei foi recebida com euforia, mas sugere cautela:

– Nenhum juiz vai conceder a guarda compartilhada se o pai e a mãe já não chegarem lá com essa intenção. Então, acaba dependendo do acordo prévio.

Ex-desembargadora, Maria Berenice Dias, fundadora e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Família, faz uma leitura mais otimista, ao considerar que, se em todos os casos houvesse acordo entre o casal, a lei não seria necessária:

– A lei vem de maneira clara, priorizando a guarda compartilhada independentemente de se há ou não consenso. Ela quer atender ao interesse da criança, não apenas ao dos pais.

Mais do que estender o período de visitação à criança, a guarda compartilhada prevê que ambos os pais participem efetivamente da rotina do filho, na escolha da escola, dos médicos, dos esportes, enfim.

– Está comprovado que é indispensável para a criança a convivência com ambos os pais, e a guarda compartilhada assegura isso – avalia.

Maria Berenice observa que a demanda de ações movidas por pais para rever a guarda dos filhos tem aumentado bastante, mais um sinal de que o perfil do pai está mudando, como considerou Lopes.

Hoje, o escritor desfruta de boa relação com sua ex-mulher e, apesar de ela ter a guarda unilateral de Caio, hoje com 10 anos, tem liberdade para negociar as visitas ao filho, sem se prender a um calendário predeterminado ou ao tempo estabelecido pela Justiça. Assim, conquistou o que muitos pais ainda buscam: mais tempo ao lado do filho.

Well, mesmo com chuva, que teimosamente insiste em chover, que tenhamos todos uma gostosa segunda-feira e uma excelente semana.


28 de setembro de 2009 | N° 16108
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


A morte

Não é tema apaixonante para segunda-feira. Mas é verdadeiro, e mais verdadeiro é para quem progride na idade: amigos, colegas, pessoas notórias e não só, conhecidos de bom-dia e de chapéu, vizinhos – a esses todos, a morte passou de “uma absoluta impossibilidade a uma trágica realidade”. Se verazes as palavras de Goethe, a morte é algo impossível de acontecer – exceto para os outros.

Seres dotados de razão, temos capacidade de prever. Via de regra, entretanto, são poucos os que conseguem admitir a certeza do futuro inevitável. Uma vez perguntaram a Sartre se pensava na morte. A resposta do filósofo foi: “Enquanto eu existir, a morte não existe; depois que eu morrer, não terei consciência disso”. É pensamento coerente com o existencialismo, mas não é consolo.

O que mais impressiona, contudo, não é o desconforto ante a morte, mas o despreparo geral para o acontecimento. Um homem pode fazer seguro de vida, pode fazer testamento, pode comprar um jazigo perpétuo para si, pode adquirir antecipadamente sua própria incineração, mas quem vai ser incinerado e enterrado é um outro, talvez seu clone, alguém com o mesmo nome, idade, sexo e profissão.

Penetrando em terrenos metafísicos: quem sabe será apenas a alma a morrer? Sim, porque nessas horas o que interessa é o corpo. Desde que preservemos o corpo, a alma que vá para o quinto dos infernos. Afinal, a alma eu não vejo, e o corpo está aqui e agora, palpável, sangue correndo nas veias.

No fundo, somos todos um pouco de Dorian Gray, de Fausto, de Michael Jackson, um pouco desses famosos escapistas. O caso de Michael Jackson, aliás, com sua interminável e festiva morte, é um exemplo do modo atual de encarar o caso. Se as fantasias de sobrevivência eterna assumem o estilo de sua época, nossa época é a do espetáculo. E quanto mais caro, melhor.

O que sobra para os que não têm milhões de dólares?

Para ficarmos apenas no domínio material, podemos imaginar esta vida como um almoço entre amigos. As comidas são apetitosas; os vinhos, generosos; a conversa é boa e inteligente, mas há um momento em que basta.

Estamos cansados: colocamos nosso guardanapo sobre a mesa, depomos nosso cálice. Foi um belo almoço. Chega o momento da despedida. Agradece-se por tudo. Tudo está bem, tudo está certo. Nada a lamentar.

O veículo que nos espera pode não ser a sóbria, negra e mítica barca, mas terá muito de semelhante. E para repetir Paulo, o Apóstolo: “Morte, onde está tua vitória?”.


28 de setembro de 2009 | N° 16108
PAULO SANT’ANA


O cego e a motosserra

Eu uma vez já escrevi aqui sobre o cego Justimiano. Mas não abordei um aspecto que me parece interessante na cegueira.

O cego Justimiano foi um personagem da minha infância, ele morava oito ou nove casas além da minha, na Chácara das Bananeiras, no Partenon.

O cego Justimiano vivia sempre de pijama, nunca botava outro tipo de roupa, sempre de pijama listrado, não precisava de outra roupa, porque nunca saía de casa.

Quem alcançava as coisas para ele era dona Malvina, sua mulher havia 40 anos.

Mas o que me intrigava no cotidiano dele é que era um alcoólatra.

Bebia o cego Justimiano, mas só podia beber depois das seis da tarde. Era essa uma norma rígida que traçara dona Malvina: Justimiano só podia beber depois das seis da tarde.

Lembro-me que depois do meio-dia, de meia em meia hora, Justimiano perguntava as horas para Malvina. Cada um deles tinha mais de 60 anos.

Justimiano não cabia em si de ansioso, torcia para que chegassem as seis da tarde.

Quando batiam seis da tarde, Justimiano, o único cego da vizinhança, entrava em euforia.

Dona Malvina enchia de cachaça um vidro de Biotônico Fontoura e dava para Justimiano, que ia tomando aos goles poupados a aguardente pura. Afinal, sua quota máxima era de dois vidros.

Era uma forma de o cego Justimiano aliviar-se das pesadas cruzes da sua cegueira.

Quando entrava no segundo e último vidro de cachaça, o cego Justimiano ia para o quintal, cambaleando em cima dos seus tamancos.

Ficava debaixo de uma bergamoteira e ali cantava todo tipo de música, embora gostasse mais de trovar.

Era assim a rotina cansativa da vida do cego Justimiano e de sua mulher, dona Malvina.

Os dias se arrastavam lentos, esparramando-se sobre a vida do casal e da sua amassante e perpétua desgraça.

Eu conto este fato para exaltar a natureza humana, capaz de suportar as mais pesadas cargas de infelicidade sem o desespero radical, como, por exemplo, recorrer ao suicídio.

Noto que é tão espantosa a capacidade humana de resistir à aflição quanto o é a de ser cruel.

Baseio-me no fato narrado aqui neste jornal na semana passada, quando o ex-deputado do Acre Hildebrando Pascoal foi condenado a 18 anos de prisão por ter torturado até a morte um mecânico apelidado de Baiano, que se recusava a denunciar quem matara o irmão do ex-parlamentar.

O ex-deputado, com seus capangas, amarrou o pobre homem e depois, com a ajuda de uma motosserra, decepou seu pênis, serrou um braço e uma perna do torturado, furou os seus dois olhos e cravou a marteladas um prego na testa da vítima, terminando o massacre inédito e brutal ao desferir quatro tiros sobre o coitado.

Uma maldade insuperável.

Estranha capacidade de sofrer das criaturas humanas.

E mais estranha ainda a capacidade de ser cruel, como demonstra a tortura comandada pelo ex-deputado.

Consegue caber incrivelmente no coração do homem todo o sofrimento imposto pelo destino.

E do cérebro do homem nasce todo e qualquer plano de maldade executada contra o próximo, por mais gigantesca que seja.


28 de setembro de 2009 | N° 1610
L. F. VERISSIMO


Perigo de gol

Acho que está na hora de se desagravar a expressão “em cima do muro”. Ficar em cima do muro significa não ter opinião, não querer se comprometer, tentar agradar a todo o mundo – enfim, ser uma plasta assumida. Mas o topo do muro também pode ser o lugar ideal para se estar, numa controvérsia.

Em cima do muro você e seus argumentos estão sobre uma base sólida (o muro), você pode examinar os dois lados da questão de uma posição privilegiada e ver mais longe do que qualquer um – e ainda ficar a salvo em caso de briga. Ou seja: também existe “em cima do muro” no bom sentido.

Por exemplo: Cuba. Há anos a esquerda brasileira é obrigada a preservar sua admiração pela pequena ilha que se transformou de bordel dos Estados Unidos numa imperfeita mas válida experiência de equalização social, com ênfase em educação e saúde públicas (e de independência, nas barbas dos seus antigos donos), de fatos inegáveis da ilha como a repressão à dissidência, a falta de pluralismo político e o culto à personalidade de um infindável Fidel.

E fica fazendo repetidas variações em torno da velha máxima de que fins nobres justificam meios sujos. De cima do muro, pode-se admirar o admirável e lamentar o lamentável sem ter que recorrer a máximas. Em cima do muro não há julgamentos absolutos.

A direita brasileira está num dilema parecido com relação a Honduras. Não pode, sem o risco de ser chamada de hipócrita, dizer que o golpe não foi golpe, foi apenas um soluço nas formalidades democráticas. Mas o desrespeito às formalidades democráticas condena qualquer regime, para a direita. Pelo menos da sua boca para fora. Teria sido uma ação preventiva em defesa da democracia ameaçada?

Quando um juiz de futebol apita uma falta que ninguém viu dentro da área, diz-se que apitou “perigo de gol”, para evitar problemas. Em Honduras inauguraram uma nova expressão para o léxico político das Américas: perigo de venezuelização.

Zelaya estaria se preparando para ser o Chávez de Honduras e as instituições se autogolpearam para impedi-lo. Uma espécie de suicídio profilático. Contra uma assombração também vale qualquer meio.

E, depois das políticas de segurança nacional dos tempos da Guerra Fria, o conservadorismo latino-americano encontra um novo pretexto para se mobilizar.

Subamos todos no muro. Em cima do muro não é preciso muita ginástica intelectual para explicar tantas contradições – mesmo porque não há muito espaço. E, olha: até o clima é melhor.

domingo, 27 de setembro de 2009


DANUZA LEÃO

Com que sonha Eike Batista?

Sonha em ser o homem mais rico do mundo, e certamente o será. Agora, a pergunta que não quer calar: e depois?

É CURIOSO observar a vida das pessoas, e quando elas se tornam públicas, temos o direito de falar alguma coisa sobre elas -sem entrar em intimidades demais, claro.
A primeira vez que ouvi falar de Eike Batista foi há muitos anos; faltavam oito ou dez dias para ele se casar com uma bela moça das mais tradicionais famílias cariocas -convites expedidos, presentes recebidos-, quando ele conheceu Luma de Oliveira.

A paixão foi fulminante, o casamento desfeito, os presentes devolvidos. Convenhamos: é preciso muita coragem e muita determinação para desmanchar um casamento dias antes de ele acontecer. Algum tempo depois ele se casou com Luma, tiveram dois filhos e viveram uma vida tranquila: não iam a festas, jantares, eram um casal dos mais pacatos.

Pacatos, até que se começasse a ouvir o som dos tamborins.

Quando se conheceram, Luma já tinha sido rainha da bateria de mais de uma escola, e depois do casamento estabelecido, os filhos nascidos, ela continuou a fazer o que mais gostava: ser madrinha da bateria, e nunca houve nenhuma igual a ela.

Quando Luma despontava, a avenida se levantava, e isso não é maneira de dizer. Ninguém conseguia ficar sentado vendo aquela moça linda, com o sorriso mais lindo, sambando melhor do que qualquer sambista de morro. Um verdadeiro espetáculo.

Enquanto Luma desfilava, nunca se soube do seu marido, Eike; se ele estava em casa vendo pela televisão, se estava viajando, se estava dormindo.

A verdade é que nunca houve comportamento mais discreto do que o seu, e sua (pelo menos aparente) falta de ciúmes, de deixar a mulher desfilar praticamente nua na avenida foi, durante um tempo, o assunto da cidade. O tempo passou, o casal se separou, e começou a surgir o personagem Eike Batista.

Não vou falar de suas empresas de mineração, da TVX, que acumula 300 toneladas de ouro (os negócios de Eike têm sempre a letra X, sinal de multiplicação), dos negócios que só os homens de negócios compreendem, mas da diversificação dos novos empreendimentos do empresário.

Eike decidiu abrir na Lagoa o restaurante Mr. Lam, e trouxe o cozinheiro do melhor restaurante chinês de Nova York. Foi um acontecimento, e o Rio de Janeiro durante um tempo só falou nisso.

Não contente, ele decidiu entrar no território do turismo e mandou adaptar um grande barco para fazer passeios na baía de Guanabara. Pensa que terminou? Não; Eike comprou o Hotel Glória, um ícone da cidade, tanto quanto o Copacabana Palace, com a vantagem de se situar a cinco minutos do aeroporto Santos Dumont. O hotel está fechado, e é um mistério o que vai acontecer com ele.

Recentemente, Renata Almeida Magalhães, mulher de Cacá Diegues, escreveu um artigo em "O Globo" ressentida com o pouco apoio que recebeu da Finep para terminar o filme do qual é produtora; faltavam R$ 500 mil, que ela não conseguiu obter. Tocado pelo artigo,

Eike ligou para ela -não sei nem se se conheciam- e mandou um cheque de R$ 1 milhão.

Rodrigo Santoro também teve uma bela ajuda do empresário para fazer seu filme, sem esquecer que Eike tomou a si a responsabilidade de limpar a lagoa Rodrigo de Freitas e assegurou que em dois anos poderemos todos estar nadando nas suas águas, que estarão cristalinas; ah, e agora quer comprar os 30% do Bradesco na Vale.

Eike Batista sonha em ser o homem mais rico do mundo, e certamente o será. Agora, a pergunta que não quer calar: e depois, Eike Batista?

danuza.leao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

O pré-sal e a pressa eleitoral

Em vez de impor ao país decisões precipitadas, não seria mais sensato aprofundar discussões sobre o pré-sal?


EU, COMO os demais brasileiros, alegrei-me com a descoberta dos campos de petróleo e gás no pré-sal, que poderão triplicar as atuais reservas do país. Maravilha!
O azar, porém, é que isso veio ocorrer logo no governoLula, que, imediatamente, tratou de tirar vantagem política da descoberta.

De saída, atribuiu-a a si, uma vez que, conforme dá a entender, foi ele quem criou a Petrobras e descobriu o Brasil. Dizem que quem o descobriu foi Pedro Álvares Cabral, mas isso é mais uma invencionice dos brancos de olhos azuis.

Por ter criado a Petrobras e descoberto os campos do pré-sal, Lula quer usá-los como trunfos na campanha pela eleição de Dilma e, sem perder tempo, logo tomou providências, ou seja, enviou ao Congresso projetos de lei para fazer crer que a exploração do pré-sal começa amanhã.

Embora esses projetos tenham sido discutidos durante mais de um ano no âmbito do Executivo, impôs ao Congresso apreciá-los em urgência urgentíssima, o que implica terem a Câmara e o Senado apenas 45 dias, cada um, para discuti-los e votá-los.

Mas por que essa pressa toda se se trata de um assunto de enorme complexidade e se o início da exploração daquelas reservas não se dará, segundo os entendidos, antes de 20 anos? A resposta é simples: as eleições para a Presidência da República serão em 2010 e Lula quer se valer de mais essa carta para tentar ganhar o jogo.

Ele já se apropriou da descoberta das jazidas do pré-sal, conseguida graças à larga experiência da Petrobras -que existe há mais de meio século- e à colaboração das empresas privadas a ela associadas. Sem perda de tempo, também já repartiu a riqueza futura com todos os Estados da União, em mais uma cartada eleitoral.

Isso está num dos projetos enviados ao Congresso, suscitando uma guerra entre os Estados onde se localizam as jazidas e os demais. Feito isso, tirou o corpo fora e os deixou brigando. Como sempre, ele não tem nada a ver com o problema.

O governador de Pernambuco, que nunca pensou em dividir os lucros da indústria da cana com o meu pobre Maranhão ou com o Piauí, já pôs as presas à mostra: "Quem disse que o povo do Rio de Janeiro é melhor que o pernambucano?!". E tudo por causa de uma grana que só vai existir de fato daqui a duas décadas; se existir, pelo menos na proporção que se alardeia.

Se digo isso é porque tenho ouvido e lido ponderações acerca do pré-sal que deveriam ser levadas em conta por Lula e sua turma. Uma delas suscita a seguinte questão: terá o petróleo a mesma importância daqui a 20 anos?

Em vez de meter os pés pelas mãos atabalhoadamente para impor ao país decisões precipitadas, não seria mais sensato aprofundar as discussões dos problemas implicados na exploração do pré-sal?

Nem pensar! A isso o nosso midiático presidente responderá que se trata de uma manobra de seus adversários para derrotá-lo em 2010. Sucede que nem todo mundo que discorda de seu açodamento pertence à oposição.

Há, no país, técnicos competentes, estudiosos das questões nacionais, que deveriam ser ouvidos pelo governo.
Uma das ponderações que fazem aqueles especialistas decorre do atualíssimo problema do aquecimento global e do uso de energias alternativas não poluentes.

Não foi o presidente Lula mesmo quem, faz pouco, andava pelo mundo alardeando as virtudes do nosso etanol? Não era ele quem o indicava como o substituto do petróleo, altamente poluente? Quer dizer que, da noite para o dia, o Brasil deixou de ser a pátria do etanol para se tornar a pátria do CO2?

Lula afirmou que a descoberta do pré-sal é um cheque em branco e um novo grito de independência para o Brasil, sem levar em conta que, no mundo inteiro, avança a criação de novas fontes de energia limpa, como a solar e a eólica, sem falar em motores elétricos, já utilizados em automóveis. Em Nova York, trafegam carros movidos, alternadamente, a gasolina e eletricidade, possibilitando grande redução do combustível poluente.

Outra notícia significativa é a utilização de usinas movidas a luz solar, como a que se constrói no deserto de Gobi, na China, com capacidade para atender a 3 milhões de pessoas. A energia eólica é utilizada em larga escala por países europeus. O Brasil tem todas as condições para valer-se desses recursos naturais, limpos.

Daí a pergunta: não seria mais sensato investir também nesses outros tipos de energia do futuro em vez de jogar tudo no petróleo, cujo futuro é duvidoso?

Claro. Mas para fazê-lo precisamos ter à frente do governo um estadista, alguém que pense mais no país do que em si mesmo.

sábado, 26 de setembro de 2009



27 de setembro de 2009 | N° 16107
MARTHA MEDEIROS


O deus das pequenas coisas

"Me sinto uma fracassada”.

Não é uma frase fácil de se ouvir de alguém. Soa até mesmo incompreensível quando se trata de uma mulher linda, rica, que mora numa casa deslumbrante, passa uma parte do ano no Brasil e a outra em Nova York, é casada com um homem igualmente lindo e apaixonado por ela, tem dois filhos que são uns doces, é uma profissional bem-sucedida e já deu a volta ao mundo uma meia-dúzia de vezes. O que é que falta? “Um projeto de vida”, responde ela.

Existe uma insaciedade preocupante nessa mulher e em diversas outras mulheres e homens que conquistaram o que, a priori, todos desejam, e que ainda assim não conseguem preencher o seu vazio. Um projeto de vida, o que vem a ser? No caso de quem tem tudo, pode ser escrever um livro, adotar uma criança, engajar-se numa causa social, abrir um negócio próprio, enfim, algo grandioso quando já se tem tudo de grande: amor, saúde, dinheiro e realização profissional.

Mas creio que esse projeto de vida que falta a tantas pessoas consiste justamente no que é considerado pequeno e, por ser pequeno, novo para quem não está acostumado a se deslumbrar com o que se convencionou chamar de “menor”.

Onde é que se encontra o sublime? Perto. Ao regar as plantas do jardim. Ao escolher os objetos da casa conforme a lembrança de um momento especial que cada um deles traz consigo. Lendo um livro. Dando uma caminhada junto ao mar, numa praça, num campo aberto, onde houver natureza.

Selecionando uma foto para colocar no porta-retrato. Escolhendo um vestido para sair e almoçar com uma amiga. Acendendo uma vela ou um incenso. Saboreando um beijo. Encantando-se com o que é belo. Reverenciando o sol da manhã depois de uma noite de chuva. Aceitando que a valorização do banal é a única atitude que nos salva da frustração.

Quando já não sentimos prazer com certas trivialidades, quando passamos a ter gente demais fazendo as tarefas cotidianas por nós, quando trocamos o “ser feliz” pelo “parecer feliz”, nossas necessidades tornam-se absurdas e nada que viermos a conquistar vai ser suficiente, pois teremos perdido a noção do que a palavra suficiente significa.

Sei que tudo isso parece fácil e que não é. Algumas pessoas não conseguem desenvolver essa satisfação interna que faz com que nos sintamos vitoriosos simplesmente por estarmos em paz com a vida, mesmo possuindo problemas, mesmo tendo questões sérias a resolver no dia a dia.

É inevitável que se pense que a saída está na religião, mas dedicar-se a uma doutrina, seja qual for, pode ser apenas fuga e desenvolver a alienação. Mais do que rezar para um deus profético e soberano, acredito que o que nos sustenta passa sim, por uma espiritualidade, porém menos dogmática.

É o cultivo de um espírito de gratidão, sem penitências, culpas, pecados e outras tranqueiras. Gratidão por estarmos aqui e por termos uma alma capaz de detectar o sublime no essencial, fazendo com que todo o supérfluo, que não é errado desejar e obter, torne-se apenas uma consequência agradável desse nosso olhar íntimo e amoroso a tudo o que nos cerca.

Um lindo domingo para você


27 de setembro de 2009 | N° 16107
DAVID COIMBRA


No tempo da pantalona

Eu tinha uma pantalona cor-de-rosa. A boca de sino da pantalona era do tamanho de uma tampa de panela de pressão, arrastava no parquê, cobria o Bamba branco. Cara, aquele Bamba branco era tric. Meu primeiro Bamba. Até então só usava Conga, e uma vez ganhei um par de Ki-Chutes. Nunca vou esquecer da sensação de abrir a caixa e olhar aquela lindeza. Pretinho, com travas de borracha, cadarço comprido, de amarrar em volta do tênis, igual aos argentinos.

Nossa, eu corria muito mais de Ki-Chute, corria que nem o Cyborg, o Homem de Seis Milhões de Dólares (baratinho, hoje). Mas era o Bamba que combinava com a pantalona rosa, sim, senhor. A camisa também fazia sucesso. Amarelona, com umas golas marrons que desciam a curva dos ombros. Evidentemente, tinha de ter três botões abertos ao peito. Uma elegância. As gurias olhavam e miavam:

– Djoia...

Lembrei dos velhos tempos da pantalona cor-de-rosa quando o Jones Lopes da Silva me veio com essa foto, dias atrás. O Jones está escrevendo um livro sobre a vida do Escurinho. No Último Minuto será o título. Estou ansioso para ler. Porque o trabalho do Jones, vejo todos os dias, é minucioso, é dedicado, é trabalho de artesão.

Esta é uma das fotos que ilustrarão o livro. Foi clicada na loja de roupas que o volante Tovar inaugurou creio que em 1974. Veja que preciosidade. Os seis rapagões vestidos com esmero, todos dentro de vistosas pantalonas, são jogadores daquela década. Os seguintes, da esquerda para a direita:

O tipo de terninho branco e pose de pistoleiro é o ponta-esquerda pernambucano Lula. Apelido bem de pernambucano, esse. Tratava-se de um temperamental, como a maioria dos canhotos. Enfurecia-se facilmente, como se nota pelo olhar grave que lança ao fotógrafo.

Brigava no vestiário, xingava o treinador, discutia com os colegas por qualquer tiro de meta mal cobrado. Mas, no jogo, apanhava a bola na esquerda e partia a drible rumo à área, rojando os adversários na grama, investindo gol adentro em velocidade, um ponta agressivo que não podia ficar um minuto sem vigilância. Hoje não existem mais pontas. Pena.

Ao lado de Lula, também de pantalona branca e também sério, Bolívar, o único jogador do Grêmio do grupo. É o pai do Bolívar que joga hoje no Inter. Bolívar Pai começou na ponta-esquerda, foi recuado para a lateral e acabou na quarta-zaga, sendo inclusive convocado para a Seleção.

Uma vez, Maurinho, um ponta do Caxias, tentou driblá-lo. Bolívar desferiu-lhe um golpe de bico de chuteira que lhe extraiu um contrafilé da coxa. Maurinho saiu de campo guinchando. Muitos queriam driblar Bolívar, alguns tentavam, poucos conseguiam, nenhum saía ileso.

Um pouco à frente, todo sorrisos, bigodes e cabelos, está o Cláudio Duarte. Chamavam-no “Bonitão”, porque, bem, naquele tempo de pantalonas e golas asa-delta, achavam-no bonito. Cláudio ainda é um homem de sorriso fácil, mas não gosta mais de usar bigode e não pode mais usar cabelo.

O de cabelo black-power é Jair, o Príncipe Jajá, que não dizia que o nome dele era Jair, dizia que era Jérrr, em carioquês.

O último de pé é Dom Elias Figueroa. Além de zagueiro de cotovelos de aço, tratava-se de um arrebatador de mulheres, o que se percebe pelos trajes calculados com critério. Olhe bem: se ninguém ali é casual, Figueroa é o menos casual.

E sentado debaixo de uma redoma de cabelos pretos, dentadura reluzente, blusa listrada, está o personagem do Jones. Escurinho. Preste atenção nos saltos plataforma que ele usa. Uma beleza. Nunca tive a experiência de subir em cima de saltos como estes.

Para completar a cena, bem à direita, já saindo da foto, uma velha máquina de escrever repousa sobre a mesa. Onde estará aquela máquina? Onde estarão hoje todos os bilhões de máquinas de escrever já produzidos pela humanidade? Alguém aí me diga.

Enfim, o que importa é que, naquele tempo, um ponta era um ponta, um lateral era um lateral. Ninguém era ala, jogador de quem não se exige a capacidade de marcar que tinha um lateral, e de quem não se espera a agressividade de atacar como tinha um ponta.

Um ala, que não é bem bem ponta, nem bem lateral, não é nada. Como as máquinas de escrever e as pantalonas, os pontas se foram. Mas, como o computador pessoal e o jeans, os alas não são a solução.


27 de setembro de 2009 | N° 16107
MOACYR SCLIAR


A foto no jornal

Como parte da renovação gráfica do Donna, as fotos dos colunistas agora aparecem em suas respectivas páginas. Ao menos no meu caso não é exatamente uma medida de natureza estética, mas cumpre-se assim uma função muito adequada à época em que nós vivemos.

É uma época que nem sempre brada, como as entusiastas plateias dos antigos espetáculos teatrais, algo como “O autor! O autor!”, mas que, de qualquer modo, quer saber quem escreveu aquele texto, que aparência tem essa pessoa. Curiosidade? Em parte sim, mas não só isso.

É também a ideia de que o texto e o autor se completam, que não se pode conhecer (ou avaliar) um, sem conhecer (ou avaliar) o outro. Autores anônimos, como aqueles que escreveram o Antigo Testamento, são uma impossibilidade. Até mesmo o pseudônimo, que foi usado por exemplo, por Machado de Assis na sua atividade jornalística, desapareceu.

No começo do século 20, fez enorme sucesso um escritor que se assinava B. Traven e que ninguém, mas ninguém mesmo, sabia quem era. B. Traven não dava entrevistas, não dava palestras, não ia a sessões de autógrafos, e nem mesmo falava com seus editores; quem o representava era um agente literário muito discreto.

Isso não impedia que fizesse enorme sucesso; um de seus livros, O Tesouro de Sierra Madre, foi levado às telas com o lendário Humphrey Bogart e foi um êxito.

Por fim descobriu-se que B. Traven era um marinheiro alemão chamado Ret Marut que, por causa de sua militância esquerdista, havia se refugiado no México. Agora: que diferença fez essa revelação? Nenhuma. O pseudônimo era perfeitamente aceitável.

Não mais. Autor tem de estar ao lado de seu livro, tem de dizer quem é, de onde veio, o que pretende. Isto, entre parênteses, corresponde a uma curiosidade compreensível. Transparência é uma palavra da moda, e ainda que às vezes a ânsia de desvendar segredos chegue ao voyeurismo do Big Brother, é, ao fim e ao cabo, uma manifestação do desejo de igualdade – uma coisa democrática, se vocês quiserem.

Que pode, no entanto, ter consequências inesperadas. Esses dias eu estava caminhando por meu bairro quando vi, jogada na calçada, uma página da Zero Hora. Não chega a ser uma coisa inesperada – bem que podíamos manter nossa cidade mais limpa –, mas o que me chamou a atenção foi o fato de que era a página do Donna com minha coluna e minha foto.

Será que alguém irritado tinha me arremessado pela janela? Não sei. Só sei que eu estava ali, no chão, meio mergulhado numa poça d’água. Quando voltei da caminhada a situação era ainda pior. Milhares, talvez milhões de pessoas tinham pisado naquela página de jornal. Àquela altura eu era, rigorosamente, um farrapo, um resíduo de autor.

Tudo bem. Textos não são eternos, o papel não dura para sempre, e o texto com a foto, que muitos considerariam uma massagem do ego, apresenta esses riscos. Talvez tenha sido por isso que os autores da Bíblia não se identificaram, nem posaram para fotos. Eles optaram pelo humilde conforto do anonimato. E foram recompensados por isso.

Agradeço as mensagens de Simone L. Berti, Dra. Mirna Brilman, Gia Faccin, Benhur Oliveira Bravo, Flavio da Rosa, Getulio Azambuja, Gustavo Schlottfeldt, Leda Bruxel, Alberto Oliveira. Como digo sempre: a melhor recompensa de quem escreve é ter leitores cultos e inteligentes.

Multimídia

* Será que alguém irritado havia me jogado pela janela? Não sei. Só sei que eu estava ali, no chão, meio mergulhado numa poça d’água


27 de setembro de 2009 | N° 16107
PAULO SANT’ANA


Impossível recomeçar

O avião navega tranquilamente em céu de brigadeiro. De repente, lá no alto, a milhares de metros de altitude, o avião explode.

Algumas teorias aeronáuticas afirmam que a explosão de muitos aviões sem causa aparente se dá por um fenômeno que a ciência aviatória designa por fadiga dos metais.

Também no amor, como na aviação, remanesce esse fenômeno. De repente, a frágil plantinha do amor explode ou não levanta mais do chão, deixa de crescer, murcha, cai por terra.

A fadiga dos metais se dá no amor por força do fastio entre o casal. O avião do amor explode ou não mais decola porque não resistiu mais à inanição provocada pela rotina dos movimentos, pela ausência de planos de voo, pela satisfação definitiva dos desejos.

E nem pensar em reconstruir um amor em cima dos seus próprios escombros, era aí que eu queria chegar.

Já experimentou o leitor ou leitora, depois de determinado tempo, dois, três ou quatro anos, uma reconciliação de um grande amor?

Pois nem cogite remotamente dessa experiência. Ela lhe será trágica.

Uma vez me encontrei com uma mulher que tinha sido minha grande amada. E nosso reencontro tinha o objetivo velado da reconciliação.

Não há mais rotundo fracasso que esse. A gente fica olhando um para o outro, na mesa de um bar, numa biblioteca, numa praça, em qualquer lugar. A outra pessoa vai minguando, minguando na frente da gente, até que parece desaparecer: é impossível reerguer um amor que outrora foi sólido e inderrubável.

A gente perde o jeito de sorrir que tinha, como disse o Quintana. A gente perde o ânimo e a firmeza que tinha, morre o sonho, morre a utopia, nascem todos os fantasmas e todos os aliados da irrecuperável separação.

Assim como não se pode unir peça por peça do avião explodido, não se pode reconstruir um amor antes findo, definitivamente sepultado.

Chega a ser repulsiva a imagem daquela mulher ou daquele homem que está na nossa frente, o vazio e a distância que separam um casal que cogitou da reconciliação viram um imenso abismo intransponível.

Nunca queira, prezado leitor, estimada leitora, refazer um caso de amor depois de algum tempo: falecer-lhe-ão todas as forças, lhe desaparecerão todas as energias, só restará a impotência aliada à mais completa desilusão.

É muito fácil e prosaico um amor nascer. E é muito difícil, quase impossível, um amor renascer.

Porque o amor é como a mistura desses componentes químicos que, uma vez plasmada, a ela só resta a sobrevivência durante um tempo ou a morte. Jamais o renascimento de sua composição.

Eu diria até que o amor se resume só ao seu nascimento. Porque é quando nasce que o amor começa a morrer, assim como a vida de qualquer ser.

Não há nada mais amassante e dilacerante, portanto, que um casal que decida recomeçar. Porque mal sabe que sua reconciliação se chocará logo ali adiante contra os rochedos duros e rudes da impossibilidade do reflorescer dos elementos e da fadiga dos metais.

Como é triste a tentativa de recomeçar um grande amor. Primeiro porque, fosse – e não é – possível recomeçar, esse amor jamais chegaria a ser o mesmo. E, como não haverá recomeço, pela segunda nostálgica e frustrante vez é declarado extinto o grande amor.

E não há nada mais trágico do que a extinção do amor.

JOSÉ SIMÃO

Leve uma quentinha para o Zelaya!

Vamos lançar a campanha democrática latino-americana. E abaixo os golpistas!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Eu ainda estou com o fuso horário do Egito. E qual é o fuso horário do Egito? Cinco mil anos! Rarará!

E esse é o Ano do Bigode no Brasil. No horóscopo chinês não tem o ano do rato, o ano do dragão? No Brasil é o ANO DO BIGODE: Sarney, Mercadante, Belchior e Zelaya.

O Zelaya é o Ratinho! O Zelaya devia ser reempossado como presidente da Festa do Peão de Boiadeiro! Diz que o Zelaya devia ter se refugiado na casa do chapéu! Rarará! E o chargista Dalcio revela o que o Lula disse no jantar da ONU: "Ban Ki-moon, posso fazer uma quentinha pro Zelaya?".

Vamos lançar a campanha democrática latino-americana: LEVE UMA QUENTINHA PRO ZELAYA! Rarará! E abaixo os golpistas! E sabe o que a dona Marisa (a nossa Hello Kitty) falou pro Lula sobre o caso Zelaya? "Mais um fio de bigode na sua camisa?!" Rarará! E agora o Lula tá no G20. G8 é pra rico. Ricos só são oito! G20 é pra pobre.

Pobre que gosta de andar em penca! Terceiro Mundo! O G20 parece o terminal da TAM em Paris, só terceiro mundo. Rarará! No G8 servem canapé, e no G20, coxinha! E o G20 tá sendo chamado de GEME 20. Todo mundo gemendo: estou sem dinheiro, estou sem dinheiro!

E o governo golpista de Honduras exige que o Brasil defina o status do Zelaya. Só sei de quatro status: on-line, off-line, ausente e volto logo! O KASSAB ANDOU DE ÔNIBUS! Qual dos dois é o pior? Rarará! O Kaxab dentro de um ônibus é um ET!

E diz que ele perguntou pra um passageiro: "O que o senhor faria pra melhorar o transporte em São Paulo?". "Faria o ônibus sumir com o senhor dentro!" Rarará! "Transformava o seu Ford blindado num ônibus caindo aos pedaços".

Dia Mundial sem Carro. Esta semana teve até Dia Mundial sem Carro. Aí, roubaram o carro do meu vizinho justo no Dia Mundial sem Carro. Virou Dia Mundial sem o Meu Carro! O ladrão devia ser ecológico. Bicicleteiro! Bicicleteiro até transa com a bicicleta. Transar com bicicleta é PEDALFILIA! E a gente devia estender essa ideia: Dia Mundial sem o Lula. Dia Mundial sem o Galvão Urubueno.

Dia Mundial sem a Sonia Abrão! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!". E atenção! O Orélio do

Lula! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Sabe qual foi o discurso do Lula na OEA? Ele subiu e disse: "OEAIU!" O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

Um lindo sábado e um gostoso domingo para você

CLÓVIS ROSSI

Imperdoáveis incoerências

PITTSBURGH - Se o governo Luiz Inácio Lula da Silva pretende ser realmente um ator de peso na cena global, vai ter que definir-se mais claramente em relação a determinados temas e abandonar a parte "amor" do slogan "Lulinha, paz e amor".
Paz, tudo bem. Amor, reserva-se apenas para quem o merece.

Vejamos o caso do Irã. Tudo bem que Lula tenha cobrado, em privado, a negação do Holocausto, esse crime que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, comete com inquietante frequência. Mas o que adianta se, depois, em público, diz aos jornalistas que negar o Holocausto "é problema dele"?

Passemos agora a Marco Aurélio Garcia, o assessor diplomático de Lula, que reclama que, na falta de uma "atitude enérgica" em relação ao golpe em Honduras, o mau exemplo vai se disseminar pela América Latina.

Bom, nesse caso todo o mundo fica autorizado a imaginar que o mau exemplo de negar o Holocausto vai se disseminar pelo mundo muçulmano. Não obstante, o governo Lula, em vez de uma "atitude enérgica", convida Ahmadinejad para visitar o Brasil e se dispõe a ir ao Irã, como a natural contrapartida.

Claro que não é o caso de romper relações com Teerã, até porque há poucos santos no mundo real para que as relações de Estado sejam apenas com eles.

Mas tampouco é o caso de lavar as mãos, o que vale também para o problema nuclear. Marco Aurélio justificou a aceitação pelo Brasil da explicação iraniana de que seu programa é exclusivamente para fins pacíficos, alegando que o Brasil não é a Agência Internacional de Energia Atômica, xerife nesse âmbito.

Não é mesmo, mas acabou passando por bobo quando se revelam instalações nucleares antes ocultas, o que levou o presidente Nicolas Sarkozy -aliado estratégico do Brasil- a dizer que "já estamos em uma séria crise de confiança".

crossi@uol.com.br

Claudio de Moura Castro

A arte de governar

"A história classifica como estadistas aqueles que perceberam as reais necessidades do país, assumiram o risco da impopularidade no curto prazo, mas souberam vender suas ideias com sucesso"

Nas democracias, o governo cumpre os desígnios dos cidadãos. O povo diz o que quer, o governante executa. Parece uma receita infalível. Mas será? Em cidade relativamente próspera de Minas Gerais, uma pesquisa de opinião mostrou que três quartos dos jovens reclamavam da falta de diversões.

Apesar de os esgotos serem jogados in natura nos córregos, nem mesmo entre os adultos houve reclamações quanto à falta de tratamento de efluentes. Sabidamente, esse é o investimento que mais faz cair a mortalidade infantil. O que deve fazer o prefeito? Esgotos que salvam vidas ou espetáculos de música sertaneja que trazem votos?

Um livro recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Understanding Quality of Life, mostra abundantes estatísticas sobre o que os latino-americanos mais valorizam. Nelas fica claro o conflito entre o que as pessoas querem e o que é necessário para garantir um futuro promissor para o país. Pesquemos alguns temas do livro. As pessoas querem medicina de alta tecnologia e atendimento hospitalar. Contudo, a saúde pública preventiva é mais barata e evita as doenças.

Verificou-se também que o estado de saúde das pessoas pouco se associa com as suas percepções de saúde. No Brasil, pobres e ricos estão igualmente satisfeitos com os serviços de saúde. Mas sabemos serem piores para os pobres. Nos países mais ricos da América Latina, há mais contentamento com a situação da saúde.

No entanto, quando o país cresce, baixa essa satisfação. Não dá para entender. No Brasil, 65% dos entrevistados estão satisfeitos com a educação. Somente os mais educados percebem como ela é ruim. De fato, sabemos ser péssima a sua qualidade: último lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2001. Ainda pior, entre 1980 e 2000, em um grupo de 35 países, o Brasil foi o que mais recuou de posição.

Ilustração Atômica Studio

Na área econômica, as percepções também estão desalinhadas com a realidade. Mais renda se associa a mais satisfação. Até aqui, vamos bem. Mas o crescimento econômico traz desagrados. Entre outras coisas, requer mudança de políticas, reformas e outros sustos, mais temidos do que a pobreza.

Apesar de o desenvolvimento econômico acabar beneficiando os pobres, são eles que mais resistem às mudanças. Ademais, têm uma opinião mais ingênua acerca da competência do governo. Nessa área, entra em cena um mecanismo maldito. As aspirações crescem mais rápido do que a renda.

Em suma, os governados indicam aos governantes algumas prioridades incompatíveis com o progresso. Pensam no curto prazo e são consumistas impenitentes. Dizem que querem sistemas de saúde mais caros (e mais ineficientes). Querem conforto nas escolas e desdenham mais aprendizado. Não querem as reformas econômicas imprescindíveis para crescer.

A reação mais imediata diante dessa miopia nas preferências é perguntar se não seria a melhor receita um governo autoritário, do tipo "déspota esclarecido". Contudo, como Churchill nos advertiu, a democracia é um péssimo sistema de governo, com a agravante de que não há outro melhor.

A experiência com déspotas de todos os sabores não mostra um bom registro histórico. Quando acertam aqui, acolá cometem um erro mais estrondoso. Não é por aí. Temos de insistir nos acertos capengas que nos oferece um sistema democrático e na tentativa de esclarecer a opinião pública.

Os governantes se equilibram em um terreno resvaladiço. Se tentam oferecer o que trará mais progresso e desenvolvimento, sem ouvir o povo, arriscam-se a perder sua popularidade e, com ela, seu poder de implementar reformas. Podem acabar execrados e sem reformas (veja-se Jimmy Carter). Governos populistas fecham as portas para o futuro se jogam confete ao povaréu ou alimentam seus anseios imediatistas.

Os exemplos latino-americanos estão nos jornais. Em contraste, governantes bem-sucedidos não perdem a ressonância com a sociedade, mas negociam também uma agenda de futuro.

A história classifica como estadistas aqueles que perceberam as reais necessidades do país, assumiram o risco da impopularidade no curto prazo, mas souberam vender suas ideias com sucesso. Na teoria, a receita é simples: visão, coragem e liderança.

A pílula pode ser amarga. Churchill jogou pesado quando ofereceu aos ingleses apenas "sangue, suor e lágrimas". Mas ganhou. Pena que não adianta colocar um anúncio classificado do tipo "Precisa-se de um estadista".

Claudio de Moura Castro é economista - claudio&moura&castro@cmcastro.com.br

Livros

Como sair dos vales e permanecer nos picos

É o que pretende ensinar o novo livro do autor de Quem Mexeu no Meu Queijo?. Na autoajuda corporativa, não existe tempo ruim – nem relevos inacessíveis

Marcelo Marthe

Montagem sobre foto divulgação e ilustração Negreiros


Em 1985, o americano Spencer Johnson se sentia no fundo de um vale de lágrimas. "Eu me perguntava: pode haver algum significado para um período ruim?", diz Johnson (que prefere não revelar os problemas que o afligiam).

A provação ajudou-o a amadurecer um projeto que, treze anos mais tarde, o transformaria num dos mais bem-sucedidos gurus empresariais do mundo: o livro Quem Mexeu no Meu Queijo?. Com essa parábola sobre dois ratos e dois homenzinhos que disputam um naco de queijo num labirinto, lançada em 1998, Johnson encontrou uma forma acessível de falar sobre os desafios de se adequar às mudanças.

Dos Estados Unidos à China, o livro vendeu mais de 24 milhões de exemplares (no Brasil, 1,2 milhão). Johnson também credita às dificuldades do passado a ideia que agora, enfim, inspira a sua primeira empreitada original desde a história do Queijo. Picos e Vales (tradução de Alexandre Rosas; Best Seller; 126 páginas; 24,90 reais) pretende ensinar o leitor a tirar o melhor dos momentos ruins.

Ele diz que levou 25 anos destilando os conceitos do livro – e calhou de lançá-lo justamente num momento em que o mundo mal começa a sair do "vale" da crise financeira internacional. O autor (e médico) americano é um dos expoentes de uma categoria que desconhece a palavra crise – a autoajuda voltada ao mundo corporativo cresceu e se diversificou nos últimos dez anos. E segue lucrando com a atual turbulência econômica.

"Passar por provações é o que impulsiona o ser humano a crescer", disse Johnson a VEJA (veja entrevista abaixo). Os cataclismos econômicos fazem com que muita gente busque subsídios para lidar com a nova realidade. Significativamente, um dos maiores sucessos da autoajuda de todos os tempos, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, do americano Dale Carnegie, tornou-se popular nos tempos da Grande Depressão, nos anos 30.

Na Inglaterra e nos Estados Unidos, a livraria virtual Amazon registrou aumento na procura por títulos dessa área nos últimos meses. No Japão, um dos países mais seriamente afetados pela crise, Picos e Vales chegou ao topo do ranking de mais vendidos do site nessa área menos de 24 horas depois de seu lançamento. Em breve, o brasileiro Roberto Shinyashiki também pretende tirar sua casquinha da crise.

O tema de seu novo trabalho, A Coragem de Confiar, é o medo – inclusive das tempestades na economia. Só se detecta uma certa ressaca numa vertente desse mercado. No fim de 2007, livros sobre como investir e ganhar dinheiro na bolsa estavam em alta. A crise afugentou os leitores.

O brasileiro Gustavo Cerbasi, autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (há 163 semanas na lista de mais vendidos de VEJA), parece ser a proverbial exceção que confirma a regra. "Minhas vendagens caíram, mas nem tanto. É que, ao contrário de muitos autores que pregam o enriquecimento a qualquer custo, sempre defendi a cautela nos investimentos", diz ele.

A autoajuda, empresarial ou de qualquer natureza, é um campo em que se encontra muita conversa mole. Mas seria um erro descartar esses livros em bloco. Um bom livro do gênero traduz conceitos complexos para uma linguagem acessível, ainda que às vezes simplória.

Picos e Vales, por exemplo, recicla um conceito lançado nos anos 40 pelo economista austríaco Joseph Schumpeter: a "destruição criativa", tese segundo a qual o capitalismo evolui por meio de uma sucessão de crises. "Esses livros cumprem um papel importante, ao despertar as pessoas para os problemas e lhes mostrar caminhos para superá-los", diz o professor Claudio Felisoni de Angelo, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

A autoajuda empresarial se vale de vários formatos para tanto. Há os autores que investem numa linguagem mais técnica, com recurso ao jargão empresarial. É o caso de Cerbasi e dos americanos Stephen Covey e Robert Kiyosaki.

Outros ficam na fronteira entre a autoajuda empresarial e um discurso motivacional genérico – muitas vezes com um pé no esotérico. Aí se incluem Roberto Shinyashiki e o indiano Deepak Chopra (que já viveram dias melhores nas listas de mais vendidos).

Em Quem Mexeu no Meu Queijo?, que rendeu filhotes cuja venda total alcançou 800 000 exemplares no Brasil, Johnson injetou leveza na fórmula desses manuais, ao valer-se de uma parábola para passar sua mensagem.

E faz o mesmo em Picos e Vales: um jovem insatisfeito (que mora num vale, claro) certo dia sobe a uma montanha, onde um velho o ensina a lidar com os altos e baixos da vida. A lição: qualquer um, mediante uma mudança de atitude, pode tornar seus vales pessoais mais breves e prolongar sua estada nos picos.

O texto é curto e impresso em tipos grandes – o que permite que se leia da primeira à última página em pouco mais de uma hora. O também americano James Hunter usa uma historinha semelhante em O Monge e o Executivo. No livro, ele narra a história de um empresário que larga tudo para viver num mosteiro beneditino – e lá descobre as vantagens de ser chefe generoso (ou um "líder servidor").

Hunter é, aliás, um caso curioso. No mercado internacional, O Monge vendeu 900 000 cópias – contra 2,1 milhões por aqui.

Enquanto ensina as pessoas a sair de seus vales, Johnson vive feliz no que se poderia chamar de seu pico pessoal – uma casa numa praia do Havaí. Ele se mudou para lá nos anos 80, em busca de sossego para refletir e escrever livros. Aos 70 anos, afirma que a chave de seu sucesso é não ter pressa de amadurecer suas teorias baseadas nas próprias vivências.

"Faço questão de viver na prática tudo o que escrevo antes de publicar minhas obras. Dou 100% de garantia de que funciona", afirma. Autoconfiança é artigo de primeira necessidade entre os autores de autoajuda.




Montagem sobre fotos Eleanor Bentall/Latinstock, John Parra/Wireimage/Getty Images, Scott Wintrow/Getty Images, Raul Junior, divulgação, Claudio Rossi e ilustrações Negreiros

Saúde para dar. E vender, claro

Spencer Johnson está lançando seu primeiro livro com conceitos inéditos desde o best-seller Quem Mexeu no Meu Queijo?, de 1998. Nesta entrevista, ele fala (pouco, é um homem de pouquíssimas palavras) sobre Picos e Vales.

Autores de sua área costumam ser muito prolíficos. O senhor, ao contrário, leva muitos anos para escrever um livro. Por quê?

Produzo devagar porque gosto de viver aquilo que escrevo, para ter certeza de que funciona. Fico muito feliz que mais de 50 milhões de pessoas em 42 línguas tenham encontrado em meus livros uma ferramenta para melhorar sua vida. Sou médico, e todas as histórias que escrevo têm a intenção de fazer as pessoas ficarem mais saudáveis, tanto emocional quanto fisicamente.

A crise tem impulsionado as vendas de Picos e Vales?

Sim. No Japão, já no dia do lançamento, Picos e Vales atingiu o primeiro lugar no ranking de livros de negócios na Amazon. E o Japão é um dos países mais afetados pela crise. Os japoneses, como todos nós do Ocidente, estão procurando por algo prático, que eles possam usar de imediato – e que funcione.

E qual é sua lição específica sobre tempos de crise?

Profissionais têm de respeitar a série de altos e baixos que rege qualquer negócio. Durante tempos bons, devemos nos preparar para períodos de baixa que inevitavelmente virão, cedo ou tarde.

E quem ler o livro saberá o que fazer durante a tormenta, para voltar à bonança o mais rapidamente possível.

Fontes: editoras Best Seller, Campus/Elsevier, Gente, Sextante e Thomas Nelson Brasil


E nem é Páscoa ainda...

Começou como uma extravagância de desfile. Aí a Madonna resolveu usar. Agora as orelhas de coelho viraram a nova tendência entre celebridades
Fernanda Colavitti

Até muito pouco tempo atrás, usar orelhas pontudas no topo da cabeça era um recurso aceitável apenas se você se chamasse Pernalonga ou Roger Rabitt ou se estivesse a caminho de um baile de Carnaval. Mas aí a Madonna experimentou o acessório.

E pronto: já virou tendência fashion. O inusitado enfeite foi criado pelo estilista Marc Jacobs, da Louis Vuitton, provavelmente inspirado pelas coelhinhas da Playboy (sim, nelas também é perdoável, até porque o restante do vestuário chama mais a atenção). Jacobs usou-o pela primeira vez em um desfile da grife no começo do ano, em Paris.

Como a maioria das excentricidades apresentadas na passarela, dificilmente teria saído de lá – se não fosse por Madonna. Em maio, a cantora usou o adorno turquesa na cabeça, combinando com um vestido curto e botas na altura da coxa (todo o figurino da Louis Vuitton, da qual é garota-propaganda).

Foi na festa Costume Institute Gala, em Nova York, o evento mais badalado do mundo da moda.

A partir daí, variações da orelha passaram a fazer a cabeça de várias celebridades de Hollywood. As performáticas cantoras Lady Gaga e Lily Allen não se contentaram em apenas aderir à moda. Arrumaram um jeito de deixar as orelhas ainda mais esquisitas, com um véu acoplado à tiara, cobrindo-lhes o rosto.

As descoladas gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen, atrizes, empresárias e estilistas americanas consideradas formadoras de opinião no mundo da moda, não iriam ficar de fora. Apareceram em um evento no Japão, no começo de setembro, com um par de orelhas cada uma. Mais criativa que a irmã, Mary optou pelas de Mickey Mouse.

Para Madonna, faz sentido. Ela é paga para isso e ainda reforçou sua imagem de influenciadora de outras celebridades. E para as imitadoras? Elas precisam mesmo usar coisas esquisitas para conseguir divulgação?

“A necessidade maior não é nem aparecer, é ousar, usar o que não foi usado”, diz o consultor de imagem Yan Acioli, responsável pelo visual da apresentadora Sabrina Sato. “É uma estratégia para as celebridades e para o mercado de moda.”

A estilista Emanuela Carvalho, responsável pela produção da atriz Carolina Dieckman, diz que não se trata de rendição do bom gosto à necessidade de aparecer. Ainda que um visual diferente seja um recurso para chamar a atenção, diz Emanuela, para alguns ele é quase natural.

“Pessoas como Madonna, Amy Winehouse, Lily Allen são fonte de inspiração e ditam moda. A excentricidade faz parte de sua personalidade.”

Com tantas artistas levantando as orelhas de coelho, qual é a chance de o acessório ganhar as ruas? “Eu até veria isso na noite paulistana, em baladas alternativas”, diz a consultora de moda Lilian Pacce.

“Mas a pessoa tem de ter um espírito e um visual mais lúdico e, evidentemente, querer aparecer.” Também tem de estar disposta a – mesmo com orelhas tão grandes – não ouvir o que os outros vão dizer.

COELHINHAS



As orelhas surgiram num desfile da Louis Vuitton (acima.). Madonna (centro) usou o acessório em maio. De lá para cá, foi copiada (em sentido horário) pelas cantoras Lady Gaga e Lily Allen e pelas gêmeas Olsen.


26 de setembro de 2009
N° 16106 - NILSON SOUZA


O hino obrigatório

Gosto do nosso hino. É verdade que a letra é meio rebuscada, com algumas frases escritas em ordem inversa e muitas palavras que a maioria dos brasileiros jamais vai compreender o que significam. Lábaro? Parece o começo de uma labareda. Garrida?

Deve ser um drible do Garrincha. Impávido? Conheci um italiano com este nome pretensioso. Mas, se tem Mássimo, por que não pode ter Impávido? Penhor, plácidas, fúlgidas, florão... A lista é grande. Daria um Dicionário de Termos Estrambóticos, se a gente soubesse direito o que significa estrambótico.

Também não me entusiasmo muito com alguns ufanismos, mas, pelo menos, não é uma letra guerreira, agressiva, com apelos belicistas. Tem lá uma ou outra bravatinha, diz que um filho desta pátria amada, idolatrada, não foge à luta, nem teme a própria morte.

Vá lá que seja assim. Na hora de cantar, com o peito inflado de orgulho, a gente pensa isso mesmo. Também não vejo mal em acharmos nosso país gigante pela própria natureza, belo, forte, colosso, com um futuro cheio de grandeza. Todos temos direito a esse sonho intenso.

Descontados os preciosismos, a letra é bonita, faz sentido, descreve muitas das virtudes que nosso país realmente tem e algumas aspirações que um dia haveremos mesmo de alcançar. A música é belíssima.

Já foi reconhecida como uma das mais bonitas melodias entre hinos de todo o mundo, embora alguns críticos mais intransigentes insistam em que se trata de plágio da sonata de um compositor italiano da época. Pode até ser, mas ficou uma melodia agradável, repleta de sonoridade.

É um prazer ouvir nosso hino. E, se é um prazer, não deveria ser uma obrigação. Em vez de fazer uma lei para torná-lo obrigatório nas escolas, nossas autoridades deveriam estimular professores e alunos a ouvir, trabalhar e cantar o Hino Nacional.

Quem sabe um concurso com prêmios para a melhor interpretação da banda ou do coral da escola? Quem sabe um Soletrando, do Luciano Huck, só com palavras extraídas do hino?

Ou, ainda, análises sintáticas, redações a partir de frases escritas por Joaquim Osório Duque Estrada, seleção de proparoxítonas, interpretação de texto? Tem tanta coisa para fazer em torno do hino sem desmerecê-lo nem deturpá-lo.

Há muitas maneiras de plantá-lo no coração e na mente das crianças. Basta convidá-las para uma audiência sob o sol da liberdade, de preferência ao som do mar e à luz do céu profundo, e cobri-las de amor e de esperança. Como uma mãe gentil.


26 de setembro de 2009
N° 16106 - PAULO SANT’ANA


A descoberta

Continua repercutindo o anúncio de Lojas Colombo colocado pela Agência Escala em cima da página destinada à minha coluna esta semana aqui em ZH.

O Alfredo Fedrizzi, diretor da Escala, me mandou extensa correspondência de agradecimento por ter eu taxado de talentosíssima a iniciativa da sua agência.

Por sinal, o jornalismo tem estreita familiaridade com a publicidade, tanto que os cursos correspondentes convivem umbilicalmente na mesma universidade.

Se eu não tivesse sido jornalista, teria me tornado publicitário. Com o Luis Fernando Verissimo, que por sinal aniversaria hoje, deu-se isso. Durante longos anos desempenhou ambas as profissões, claro que com grande sucesso.

O Ruy Ostermann também aniversaria hoje. Abraços aos dois.

Seguidamente me entrevero com publicitários. O João Satt, diretor da Competence, é meu grande amigo, está inclusive bolando com o Mottin, da Panvel, uma campanha minha em três veículos de comunicação sobre remédios mais baratos.

Mas, então, voltando ao anúncio que cobriu a penúltima e a antepenúltima página de ZH na quarta-feira passada, Lojas Colombo, a marca do anúncio, tem sido também muito cumprimentada pelo evento.

Lojas Colombo está com o sorriso nas orelhas. E o Moisés Mendes, ex e futuro interino desta coluna, fez a grande piada sobre o assunto:

– Foi com certeza, depois da América, a maior descoberta da Colombo.

Almocei anteontem com um destacado advogado crimininalista de nosso meio.

Ele se queixou amargamente de que um réu que defendeu em processo criminal não pagou até hoje seus honorários.

Acrescentou-me que é muito comum que os réus caloteiem seus advogados defensores.

“Basta”, disse ele, “que o réu esteja ou passe a ser solto para que nunca mais pague seu advogado. A única maneira de advogado receber seus honorários de réu criminal é enquanto ele estiver preso.

Aí, Sant’Ana, com o réu no fundo da cadeia, surge dinheiro não se sabe de onde vindo, por todos os lados, para pagar o advogado. Mas, com réu solto, duvido que algum advogado seja pago por seu trabalho. A não ser que cobre adiantado, mas isso é raro.”

Interessante é que mesmo tendo sido caloteado violentamente por seu réu, o advogado tenha insistido em me afirmar que o acusado era inocente.

Por sinal, os advogados criminalistas têm a mania de achar que sempre seus constituintes são inocentes.

Uma vez, eu estava na sala do júri em que era julgado o então deputado estadual Antônio Dexheimer, acusado de ter sido o matador do também deputado José Antônio Daudt, por sinal o réu foi absolvido do crime por falta de provas, um caso de muita publicidade.

E eu na frente do réu e de seu defensor: Oswaldo de Lia Pires. Disse eu então uma frase de impacto para o doutor Lia Pires:

– O senhor nunca defendeu um réu inocente.

E Lia Pires respondeu-me imediatamente, apontando para Dexheimer: “Um exemplo disso é este homem, que é inocente”.

Dias depois, Dexheimer foi declarado realmente inocente.

E Lia Pires veio me tocar flauta. E eu disse a ele que eu não lhe afirmara que todos os seus réus eram inocentados, eu asseverara que todos os seus réus não eram inocentes.


26 de setembro de 2009
N° 16106 - CLÁUDIA LAITANO


Por que os homens amam o Zé Mayer

José Mayer é o cara – dos caras. O ator tornou-se um dos tópicos mais populares da internet na semana passada, quando estreou a nova novela das oito, não (apenas) por seu sucesso com as mulheres, mas principalmente por causa dos homens.

Recapitulando: a nova brincadeira no Twitter (site de relacionamento que permite que os usuários troquem microtextos de, no máximo, 140 caracteres) consiste em inventar situações em que o estereótipo de garanhão das novelas entra em ação, postadas sob o tópico “zemayerfacts”, algo como “fatos sobre Zé Mayer”.

Tipo: “Zé Mayer foi o responsável pela política do filho único na China após passar férias por lá” ou “Don Juan se deitou com 1.000 mulheres, e foi o Zé Mayer que passou o telefone delas pra ele”, e a minha preferida: “A primeira Helena que o Zé Mayer pegou foi a de Troia”.

José Mayer não estaria interpretando galãs há tanto tempo se não fizesse sucesso com as mulheres (e as novelas da Globo não estariam no ar há mais de 40 anos se não fossem extremamente sensíveis às oscilações de gosto do público feminino), mas o ator só se transformou em fenômeno pop e internético, dando vazão às mais delirantes fantasias de virilidade, porque os homens, por algum motivo, gostam de gostar dele – ou, mais ainda, gostam de imaginar que ele encarna “o que toda mulher quer”.

Um tipo que não é exatamente bonito ou jovem, nem especialmente inteligente ou sensível, e que ainda assim alcança 100% de eficiência em suas abordagens ao sexo oposto – um sujeito comum, só que com um pouquinho mais de sorte.

Em um de seus desempenhos mais emblemáticos, e que provavelmente deu origem à atual fama de garanhão infalível, o Pedro da novela Laços de Família (2000), José Mayer encarnava um capataz que, além de pegar metade do elenco feminino, era grosso, arrogante e só dizia palavras gentis para os cavalos – ou seja, um típico machão à moda antiga, daqueles que não limpam os pés no capacho e não têm medo de levar xingão da mulher quando jogam a toalha molhada na cama.

Quanto mais ele tratava mal as mulheres, mais elas gostavam: na pele de Pedro, José Mayer era o vingador de todos os homens oprimidos por esposas e namoradas que exigem gentilezas, atenção e bons modos à mesa.

Esse herói tosco e pegador ainda tem seu apelo, tanto na fantasia dos homens quanto na das mulheres, mas a consagração de José Mayer como o grande galã televisivo de sua geração talvez tenha menos a ver com o estereótipo que se aderiu a ele do que com a dificuldade da TV (e do cinema) para produzir em série essa curiosa e inquestionável persona masculina chamada galã (uma palavra que sequer comporta gênero feminino).

Enquanto as candidatas a Regina Duarte se contam aos montes, os candidatos a Tarcisio Meira surgem e desaparecem sem que o posto seja ocupado.

Os homens dizem que não sabem o que as mulheres querem, e muitas vezes nem elas sabem. Uma coisa o sucesso do José Mayer comprova: não é apenas um rostinho bonito.