sábado, 15 de setembro de 2007

Alguns amam assim



José Pedro Goulart
15/09/2007


Alguns amam assim

Início dos anos 80, lembro bem de uma noite em que fui ao cinema com duas amigas da faculdade. O filme se chamava Alguns Amam Assim e era sobre o movimento dos estudantes de maio de 68 na França.

A história girava em torno de uma ocupação violenta do campus de uma universidade parisiense. Havia os confrontos mas também havia muito (muito) sexo. Sexo a dois, a três, a dez. Enfim, a palavra suruba se aplicava nos seus dois conceitos, o de confusão e o outro.

Saímos, os três, excitados do cinema. Tínhamos uns vinte anos, a identificação com o filme foi tão natural quanto contrária da vida que de fato levávamos.

Éramos de uma geração sucedânea àquela que combateu o Estado, a ordem estabelecida - e se existiam vencedores não éramos nós os melhores exemplos. Foi então que me ocorreu um pensamento que me escapuliu pela boca quase sem querer: "Vamos a um motel?".

Devo ressaltar o quanto incomum foi o meu convite, ainda mais em se tratando de duas colegas como aquelas: não havia sequer um pequeno flerte entre nós. Elas toparam.

No quarto pedimos um vinho, no quarto começamos a rir da situação, no quarto houve, bem, tenho certeza que você quer saber o final dessa história. E o final se desdobrou e se sucedeu mais ou menos assim:

A chamada abertura militar teve prosseguimento na vida dos brasileiros. O movimento cultural, sufocado pela censura a que fora submetido por quase duas décadas, eclodiu em vários cidades do país. Teatro, música, cinema, liberdade, liberdade. O povo saiu às ruas exigindo eleições diretas. Mas não foi atendido.

E então veio o Tancredo, só que ele morreu sem sequer assumir. Entrou o Sarney e a hiperinflação. Os anos 80, que se iniciaram faiscantes, sucumbiram - a nova ordem democrática que se anunciava, que iria redimir a todos, dava sinal de esgotamento sem sequer ter se imposto.

O prato que seria servido no anos 90 era ainda mais frio: Collor, seus ministros dançarinos, seus capangas, a vulgaridade do poder permissivo. Mas se os representantes da elite nordestina fracassaram, o que dizer da elite paulista, liderada por FHC, que viria depois?

A arte também perdeu substância. Especula-se se a falta de um inimigo comum (a ditadura) é uma das causas - ou será que a falta de qualquer causa é a questão? O fato é que no último quarto da primeira década do novo milênio, o sexagenário Caetano Veloso é quem pinta os olhos para figurar na capa da Rolling Stone;

e que foi outro senhor, o Roberto Carlos, quem protagonizou a maior discussão do ano ao proibir sua biografia. E faz muito tempo que o Paulo Coelho é quem dita as regras nas letras nacionais. E no cinema, bem, quem assiste a filmes nacionais?

E seguimos entre aviões esborrachados, ministros agachados em trens ou uma senadora do PT comandando uma tropa de senadores que secretamente salvam-se entre si.

Diante disso é que não entendo como uma coisa tão insignificante quanto esse meu pensamento recorrente pode me afligir tanto; e o pensamento é o seguinte: por que diabos fui beber mais da metade daquele vinho horrível na minha única noite que tive de maio de 68?

jose.pedro@zerohora.com.br

Quando éramos trouxas



Cláudia Laitano
15/09/2007


Quando éramos trouxas

Um dos melhores filmes do ano está escondidinho dentro da invencível programação da mostra de cinema do Bourbon. Como a exibição de documentários brasileiros é ainda mais errática do que a dos filmes nacionais de ficção, não dá para dormir no ponto:

Santiago, de João Moreira Salles, passa ainda hoje, terça e quinta no Arteplex - e depois, sabe Deus quando.

Santiago é um personagem real tão fascinante quanto inverossímil, e boa parte do interesse do filme vem do gosto com que ouvimos esse homem de frases grandiosas e gestos histriônicos desfiar histórias fantásticas sob o comando da voz do diretor

não por acaso, seu antigo patrão, na altura das entrevistas ainda um jovem e desconhecido projeto de cineasta. Mordomo dos Moreira Salles durante mais de 40 anos,

apaixonado por boxe, ópera e arranjos florais, Santiago tocava Beethoven ao piano, rezava em latim e colecionava informações sobre famílias reais - ao mesmo tempo em que era um trabalhador doméstico convenientemente treinado para ser eficiente e invisível.

(Existirá ainda um mordomo como Santiago? É uma das coisas, a menos importante talvez, que nos perguntamos na saída do cinema.)

Quando o diretor o procura para produzir um documentário que originalmente contaria a história da família Moreira Salles, no início dos anos 90, Santiago já está aposentado e mora em um apartamento modesto - que o diretor faz questão de tornar ainda mais sufocante, filmando o entrevistado no desconforto de uma cozinha minúscula ou, mais incrível, sentado no banheiro.

João Moreira Salles não soube o que fazer com o material na época, e as entrevistas ficaram guardadas durante mais de 10 anos. Até ele voltar aos rolos de filme e perceber que tinha ali um documentário diferente daquele que tinha imaginado aos 30 e poucos anos.

E é aí que começa a genialidade de Santiago, que deixa de ser apenas um bom documentário sobre um bom personagem e passa a ser outra coisa - uma reflexão sobre o que é falso e o que é verdadeiro em um documentário, um ensaio sobre a passagem do tempo talvez. Mas tudo isso pode soar vago ou pretensioso demais.

Santiago é antes de mais nada o produto de uma profunda autocrítica. Um filme inteiro feito sobre uma sensação que todo mundo já teve, ou deveria ter de vez em quando. Aquela de olhar para trás, para um determinado período da vida, e pensar: "Como eu era trouxa".

O jovem diretor que comanda com ruidosa surdez as entrevistas do ex-empregado é mesmo muito tolo - arrogante, maneirista e aparentemente distraído para a qualidade humana do personagem que tinha em mãos.

Mas não é com um prazer sádico que assistimos ao documentário, mas com a constrangida consciência de que é preciso ter vivido algumas coisas e ter perdido outras tantas para perceber como a gente pode ser trouxa de vez em quando - por mais generosos e inteligentes e atentos ao que se passa que a gente se considere a maior parte do tempo.

Santiago nos lembra que deixar de perceber algumas coisas, entender outras de maneira completamente errada ou simplesmente perdermos uma grande chance para ficarmos em silêncio são erros que todos cometemos - até os brilhantes e sofisticados Moreira Salles.

O mordomo está morto, e a entrevista nunca será refeita. Mas a oportunidade de olhar para trás, corrigir a rota, admitir velhas tolices para, talvez, cometer novas, mas de outros tipos, curiosamente, sempre oferece algum consolo. E é a melhor notícia que a passagem do tempo pode nos trazer.

claudia.laitano@zerohora.com.br

Direito de ir e vir



Paulo Sant'ana
15/09/2007


Direito de ir e vir

Nem tudo está perdido. Sempre há espaço para fazer e haver justiça.

Foi o caso de ontem, quando um grupo cível do Tribunal de Justiça gaúcho isentou do pagamento de pedágio milhares de viamonenses que se deslocam do distrito de Águas Claras e várias localidades vizinhas no sentido da sede do município e vice-versa.

Numa luta anterior, os bravos moradores de Águas Claras e outras localidades viamonenses já tinham conseguido em batalha judicial o pagamento de apenas 50% da tarifa.

E agora, depois de muita mobilização, foram agraciados com a justa isenção da tarifa.

Não tem explicação que tenham de pagar pedágio motoristas que trafegam dentro do município onde está instalada uma cancela de pedágio.

É irracional, é violento, isso não pode continuar acontecendo em várias praças de pedágio gaúchas.

Tem de pagar pedágio, isso parece bem claro, quem utiliza grande percurso de uma estrada que liga diversos municípios, no mínimo dois.

Mas cobrar pedágio de quem mora em um distrito para se dirigir à sede do município ou a outro distrito é uma tropelia, felizmente derrubada ontem pela Justiça, numa decisão histórica, que deverá nortear outras decisões futuras no mesmo Tribunal.

Já a cancela onde é cobrado o pedágio dos viamonenses, na saída da sede do município de quem vai para o Litoral, foi colocada ali perversamente. Com a intenção de não permitir que os viamonenses do interior do município deixassem de pagar a tarifa.

Por que não foi colocada mais adiante? Visivelmente para pegar ratão. Em vez de cobrar de viajantes, a concessionária espertamente botou ali a cancela para cobrar tarifa dos viamonenses que trafegam dentro das próprias divisas de seu município, dos residentes, o que por si só encerra uma brutalidade:

quem vai de Águas Claras e localidades vizinhas até a sede do seu próprio município ou no sentido inverso, vai para comprar no comércio de Viamão,

vai para comparecer às repartições públicas de Viamão, desloca-se como se deslocam os porto-alegrenses dos arrabaldes para o Centro, cobrar-lhes pedágio é uma exploração ignominiosa.

O escore a favor dos motoristas viamonenses foi de 6 a 2 no 1º Grupo Cível. Além de considerar ser injusto cobrar pedágio de quem teoricamente não vai sair do município onde está a cancela,

a decisão judicial foi marcada por diversos desembargadores declarando ser ilegítimo, ilegal e inconstitucional cobrar pedágio em estrada que não tenha via alternativa.

Essa declaração, se prosperar e for levada adiante no Tribunal de Justiça gaúcho, vai anular cobranças de pedágios em várias praças gaúchas, onde os motoristas são obrigados a pagar tarifa de pedágio sem que lhes sejam oferecidas rotas de fuga.

Quem avisa, amigo é.

Proclamada a decisão histórica de ontem no Tribunal, os moradores de Viamão beneficiados pela lúcida e justa decisão cantaram em pleno pretório o Hino Rio-Grandense.

Foi o 14 de Setembro, data do 266º aniversário de Viamão, o precursor da liberdade de ir e vir dentro de Viamão.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

Chegada da Primavera

Chegada da Primavera
Cortina de flores




A última semana de um inverno rigoroso tem a marca de mais uma frente fria,
mas parques já estão com as cores da nova estação
(foto Daniel Marenco)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Socuerro! O Renanscimento do Renan!


JOSÉ SIMÃO

Socuerro! O Renanscimento do Renan!

Depois desse rebanho mágico, o Brasil virou uma RESpública Esculhambativa! Rarará

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da PIZZA Pronta!

Abra-te, Sésamo! Quarenta senadores absolveram o Renan Babá! Tudo no Brasil é 40: 40 mensaleiros, 40 senadores e "40 bandidos assaltam empresa de segurança". Deve ser o mesmo grupo. Os mesmos 40!

E eu vou ficar sem escrever coluna por três dias: luto oficial. Não luto mais! Nem o Bin Laden consegue derrubar o Renan!

E o Bessinha revela a última declaração do Renan Avacalheiros: "Diga às empreiteiras, aos laranjas, às vacas e às pererecas que EU FICO!".

É o Dia do Fico: se é para o bem do bolso e da infelicidade geral da nação, diga ao povo que FICO! Vamos soltar o Beira-Mar e o Marcola!

E no Brasil tudo cai: cai botão, cai dentadura, cai avião. Só não cai senador! E eu sou tão trouxa que ainda duvidava do resultado. Sou um otimista. Sendo que otimista é um pessimista mal-informado. Rarará!

E sabe o que o Renan falou depois do resultado? Me traga uma "Playboy" que eu preciso relaxar. Rarará!

E Pérolas Políticas mostra as chamadas da nova "Playboi": "Mônica Veloso abre o caixa dois e mostra tudo". "Saúde, cem receitas com laranjas." "Aprenda com o Renan como dar três CPIs sem tirar de dentro!" Aliás, se é uma coisa que ele não sai mesmo é de dentro.

E antes se falava dos políticos: "É tudo farinha do mesmo saco". Agora se diz: "É tudo esterco do mesmo pasto". É o Renanscimento!

Depois desse rebanho mágico do Renan, o Brasil virou uma RESpública. RESpública Esculhambativa do Brasil! Socuerro. Voy a mi matar. Pum! Pum! Pum! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Poções, na Bahia, tem um açougue chamado Casa de Carnes Renan Vaca Gorda! Esse não é açougueiro, é um profeta. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil. E atenção! Cartilha do Lula

Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. Por motivos óbvios! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

Fotos de Hoje

Visitantes observam uma das esculturas do artista plástico
britânico Antony Gormley na cidade de Berlim, na Alemanha



Bombeiros resgatam burro que caiu em um poço no Estado
de Minnesota, nos EUA; o animal sofreu ferimentos leves

Teoria do desapego



Teoria do desapego

Ei, você aí, pare de pensar tanto em dinheiro, em bens materiais e nas coleções de tudo. Está pensando que juntando coisas não vai morrer, ou, pior, que seu caixão será um contêiner repleto de moedas de ouro e outras inutilidades?

Entregue-se aí para a teoria e a prática oriental do desapego. Liberte-se dessa coisa possessiva, de querer pegar tudo e todos só para ti e só para ter. Faz o seguinte: se desapegue aí dos bens concretos, das casas da praia e da serra que pouco usa e dá tudo para mim.

Prometo que depois de um tempo também vou passar adiante essas propriedades que, na real, não são de ninguém, nem do mundo que um dia explode. Eí, você aí, agarrado na grana como carrapato em anca de vaca velha, me dá um dinheiro aí.

Agora, falando de coisas sérias, a melhor notícia é que a primavera chegou antes esse ano. Pelo menos isso, depois do longo e tenebroso inverno de 2007. Ainda bem que não tinha vendido meu elegantíssimo sobretudo preto modelo FHC para o brechó da João Pessoa.

Usei umas quantas vezes. Mudei de casa há poucos meses. Hoje de manhã abri a janela e observei melhor a figueira gigante do pátio do prédio. Por entre as flores do parasita que a enrosca feito um enorme colar lilás caminharam dois bem-te-vis. Um atrás do outro.

Não sei se eram só conhecidos, amigos, um casal macho e fêmea ou outro tipo de casal, se eram irmãos ou colegas de turma. Só sei que aproveitaram o dia de sol para voar por aí, pelos céus azuis de setembro e me recomendaram a fazer o mesmo. Me disseram para não encher a paciência dos leitores com renans, mensalões, macalões e outros bichos.

Achei melhor não contrariar os dois pássaros insetívoros dos campos, da família dos Tiranídeos, que, pelo visto, também circulam na metrópole e não estão nem aí para bens materiais e outras possessões terrenas.

Aí saí por aí, mandando o frio, as rinites, as chuvas, os ventos, os doentes e as mortes do inverno para aquele lugar.

Uma árvore do Parcão me saudou com uma chuvinha fina de folhinhas verdes, tipo confetes de um carnaval absolutamente ecológico. De repente, os bem-te-vis aparecerão de novo amanhã de manhã. (Jaime Cimenti)

Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana, especialmente, para você

Mais uma aventura de Montalbano


Jaime Cimenti

Mais uma aventura de Montalbano

O velho comissário de polícia Salvo Montalbano, criação já clássica do romancista, roteirista e diretor de cinema e televisão Andrea Camilleri, reflete sobre seu processo de envelhecimento, reavalia sua vida e anda instrospectivo.

Pensa na morte, mas ainda pula da cama de manhã e conserva sua rotina de investigador. Tem mais um assassinato brutal para decifrar.

Andrea Camilleri nasceu em Porto Empedocle, Agriento, Itália, em 1925. Trabalhou muitos anos como roteirista e diretor de cinema e televisão, produzindo os famosos seriados policiais do legendário comissário Maigret e do tenente Sheridan.

Sua estréia como romancisa deu-se em 1978, mas a consagração viria anos mais tarde, em 1990, quando publicou A forma da água, primeiro caso do comissário Salvo Montalbano.

Desde então recebeu alguns dos principais prêmios literários italianos e tornou-se sucesso de público e crítica em todos os países em que foi lançado, com mais de três milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

A lua de papel, romance policial lançado originalmente na Itália, em 2005, revela um Montalbano curtido pelos anos de vida e de experiências, às voltas com o assassinato de Angelo Pardo, encontrado morto em casa, nos arredores de Vigáta.

Quem foi Ângelo Pardo? Representante de laboratório farmacêutico? Irmão atencioso? Amante apaixonado? Todos os indícios apontam para um crime passional, quem sabe resultado de sua conturbada relação com duas mulheres de comportamentos completamente opostos.

Michela Pardo, a enigmática irmã de Angelo, que parece usar uma máscara sobre a personalidade obscura, nunca foi com a cara de Elena Sclafani, jovem amante do irmão e casada com um homem mais velho.

No decorrer das investigações Montalbano desconfia que o crime, em verdade, esteja ligado à trajetória profissional do ex-médico Angelo, envolvido no tráfico de remédios em um esquema que atinge o alto escalão da polícia local.

Catarella e Fazio, os assistentes de Montalbano, auxiliam o velho investigador a descobrir o mistério. Mais uma vez Camilleri demonstra que romance policial e literatura de primeira linha podem caminhar juntos. 221 páginas, tradução de Joana Angélica d´Ávila Melo, Editora Record, telefone 21-2585-2000.

LEMBRANÇAS DA NOSTALGIA


Juremir Machado da Silva

LEMBRANÇAS DA NOSTALGIA

Cada escritor tem os seus truques literários. São obsessões que ressurgem em cada livro com maior ou menor eficácia. O truque de Mario Vargas Llosa é o reencontro.

Sempre há dois personagens que acabam por se reencontrar, gerando uma atmosfera de nostalgia e de balanço existencial. É assim no seu romance de estréia, 'A cidade e os cachorros'. Também é assim no seu livro mais célebre, 'Conversa na catedral'.

O mesmo acontece em 'A festa do bode' e em 'Travessuras de menina má'. Nem todos os reencontros são centrais. Mas todos produzem a mesma melancolia suave e tão concreta. É difícil saber por que um escritor nos toca mais do que outros.

Eu sei que García Márquez é um monstro literário transbordante de imaginação. Mesmo assim, sou arrebatado pela simplicidade de Llosa.

Tenho um amigo que ama Paul Auster. É um fabuloso escritor, sofisticado e engenhoso. Apesar disso, eu prefiro a crueza irônica de Michel Houellebecq. O Brasil inteiro adora José Saramago. Eu faço parte do time dos admiradores do seu rival, o pessimista Lobo Antunes.

Talvez esse seja o aspecto principal. Gosto mais dos niilistas. Vargas Llosa, porém, não pode ser rotulado de pessimista. Não, ao menos, como homem, embora os seus livros deixem escapar certa tristeza ou ceticismo. Conheci um sujeito que, embora estivesse longe de ser depressivo, tirava dias para a nostalgia.

De repente, num sábado qualquer, até mesmo ensolarado, declarava quase solene: 'Que belo dia para ficar nostálgico'. Recolhia-se para o seu canto e escutava as músicas mais adequadas, de acordo com a sua sensibilidade, para mergulhar numa atmosfera melancólica.

Nem todas as canções que ouvia eram tristes ou especiais. O seu repertório ia de Cartola, 'As rosas não falam', até Sidney Magal, 'A cigana Sandra Rosa Madalena'.

Certamente não era a coincidência de ter 'rosa' nas duas músicas que o atraía. Era, evidentemente, algo mais simples: lembravam a sua juventude perdida. Não, não estou falando de nenhum boêmio da terceira idade. Meu amigo ouvia essas canções numa jukebox do Bom Fim por volta de 1985, aos 30 anos de idade. Casou.

Na primeira vez em que resolveu ter o seu dia de nostalgia ouvindo Cartola e Magal, a mulher ameaçou divorciar-se, menos por causa de Cartola. Era a cigana Sandra Rosa Madalena ou ela.

Parada duríssima. Ainda não existiam MP3 e todas essas possibilidades de voltar musicalmente ao passado, brega ou não, sem incomodar os outros. Meu amigo cedeu.

Na última vez que ouvi falar dele, por intermédio de outro amante das jukebox da Osvaldo Aranha, soube que ele morava em alguma cidade de Rondônia.

Não se assustem, pois não pretendo escrever um romance para contar um reencontro fictício entre nós dois. Já contei tudo. Nem Mario Vargas Llosa tiraria algo importante dessa circunstância.

É verdade, no entanto, que meu amigo tinha um ponto em comum com o protagonista de 'Travessuras de menina má', um sujeito que, ao contrário de todos os sul-americanos da sua época, só queria morar em Paris, sem qualquer ambição de ser pintor, músico, escritor ou qualquer outra coisa importante.

O sonho do meu amigo era morar em Lisboa. Por quê? Nunca explicou direito. Talvez achasse um bom lugar para um dia de nostalgia ouvindo Cartola e Sidney Magal numa jukebox de Alfama. Quem sabe?

O Brasil invisível



David Coimbra
14/09/2007


O Brasil invisível

Quando o último uivo saiu da última garganta a vaiar Lula, na abertura do Pan, comecei a cevar uma idéia.

A de que Lula é o mais importante presidente do Brasil desde Getúlio Vargas.

Naquela noite, a vaia serviu-me de luz. Escrevi a respeito - que quem repudiava o presidente era a classe média, branca, bem alimentada, assalariada, pagadora de impostos. Sei que era. Estava lá, e circulei por todo o Maracanã, e vi.

Escrevi também que a vaia era legítima. E é. Mas essa mesma classe média enfureceu-se com o que leu. Compreensível: quem vaia não aceita ressalvas. Quando se chega à vaia é porque o tempo das considerações já passou.

De fato, Lula não faz um bom governo para quem vive acima da dita linha de pobreza. Mas também é fato que Lula está demonstrando ao Brasil, na prática, o que o Brasil é.

Afinal, como um presidente que é humilhado publicamente por 60 mil pessoas, que é açoitado semanalmente pelas revistas de informação, que tem um governo sitiado por denúncias, que é responsável por uma crise aérea que redundou em morte de centenas, como esse presidente pode amealhar 60% de aprovação nas pesquisas de popularidade?

A resposta óbvia é que quem vaia Lula são, exatamente, os que sofrem com a crise aérea, com a carga de impostos, com a CPMF, com a corrupção. São os que lêem revistas e jornais. São, enfim, a minoria. Os 40% das pesquisas.

Os outros 60%, não. Aos outros 60%, pouco lhes interessam as mazelas do governo. Não faz diferença para eles. Nenhum governo jamais fez diferença para eles, até então. O que faz diferença são os parcos reais que eles recebem a cada mês dos programas de assistência, o Bolsa-Família, o Bolsa-Escola.

Aí está. Um projeto singelo, quase simplista, quase assistencialista, é também quase redentor para a maioria da população. Cento e setenta reais por família são o suficiente para fazer com que as pessoas... vivam.

Essa a importância de Lula. Pela primeira vez, em 50 anos, um presidente não fala em primeiro fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo. Pela primeira vez, desde que Getúlio meteu uma bala calibre 32 no coração, um presidente destina uma fatia do bolo para quem não tem nada a dar em troca, a não ser o voto.

Esses miseráveis que sobrevivem com o Bolsa- Família, eles nunca existiram para as estatísticas ou para os economistas. Eles são subprodutos do regime escravista mais tardio do Ocidente.

Eles sempre viveram apartados, primeiro nas senzalas, depois nas favelas e nas vilas, sem água, sem esgoto, sem certidão de nascimento.

Nunca ninguém sequer pensou neles, até agora. Eles estavam por aí, invisíveis aos milhões. Hoje, há duas formas de percebê-los. Pela violência urbana, ou pela popularidade de Lula.

O que Lula está fazendo não é o melhor que se poderia fazer por eles. Mas Lula, ao menos, está fazendo. Se a classe média e as chamadas elites compreenderem isso sem amargura e sem ressentimento, e se houver alguma reflexão desapaixonada a respeito, talvez o país consiga ir além do assistencialismo do governo.

Talvez se estabeleça um projeto sério de educação em regime integral, que iria alimentar o corpo e o espírito dessa gente. Que iria transformá-los de ex-escravos abandonados em cidadãos incluídos. Talvez. Mas, antes, há que se compreender a importância de Lula. Lula apresentou o Brasil miserável ao Brasil.

david.coimbra@zerohora.com.br

Solução é voto em branco



Paulo Sant'ana
14/09/2007


Solução é voto em branco

Leio, vejo e noto que é grande a indignação das pessoas que lêem jornais e vêem os noticiários de televisão sobre a absolvição de Renan Calheiros.

Quem não lê jornais nem vê noticiários e programas de televisão não mostra indignação, já está conformado com a sua pobreza e ignorância.

Mas é grande a indignação, dá para ver pelo caudal de e-mails que recebo e que os colegas jornalistas e as redações dos jornais também recebem.

É grande a indignação porque a culpa e a responsabilidade de Renan Calheiros na quebra do decoro eram maiores ainda.

Só há duas soluções para essa ressaca moral que vive o país e para a desilusão completa dessa grande parte dos eleitores com os políticos: o voto facultativo e o voto em branco.

O voto facultativo não vai ser alcançado. Os políticos fazem tudo isso que fizeram nos últimos anos, assombrando a nação com seus atos espúrios, porque têm uma garantia:

em seguida virão as eleições e o grande rebanho de eleitores se dirigirá às urnas e elegerá e reelegerá os políticos. Porque o voto é obrigatório e os meios de comunicação sempre pregam, em todas as eleições, que os eleitores não devem votar em branco.

Assim não tem solução.

A solução então, a única solução é votar em branco. Votar em massa em branco.

Se eu pregar todos os dias pela minha coluna e nos espaços de rádio e televisão que as pessoas votem em branco, duas coisas vão acontecer: haverá milhões de votos em branco e eu serei excluído do meio social.

Mas uma coluna hoje, outra daqui a seis meses, pregando o voto em branco, isso ainda o meio social me permite.

Então, grave bem o que estou escrevendo agora e hoje: os eleitores têm de votar em branco, só assim poderão mudar o país.

O leitor ou leitora provavelmente não avalia a eficácia que poderia ter o voto em branco.

Milhões e milhões de votos em branco nas urnas soariam como um terremoto sobre os políticos, eles ficariam acuados e tratariam de manusear melhor a coisa pública.

Assim como está, nunca nada será consertado. Os políticos fazem o que querem e o que bem entendem, 40 saboreiam o mensalão, exatamente 40 absolvem Calheiros contra todas as provas e nem dão satisfação para seus eleitores.

Mas, é claro, em seguida serão convocadas novas eleições e eles serão brindados com milhares de mandatos. Fica fácil, então, para os políticos prosseguir enganando os eleitores, os trouxas ficam indignados, mas logo em seguida vão votar novamente nos políticos.

Vote em branco e você deixará de ser otário dos políticos. Vote em branco e você será respeitado pelos políticos.

De que adianta mostrar indignação agora e quando vierem as eleições você vai lá e cai novamente como um patinho, ajudando a eleger os políticos?

Mostre indignação quando ela for eficaz, no dia da eleição. Fique indignado na hora de votar em branco.

Não vote, reaja, aí você vai ver que em duas ou três eleições mudam totalmente os valores morais na política.

Mas não se esqueça, vote em branco. Porque isso eu não vou poder escrever todos os dias. Eles me eliminam do meio social.

psantana.colunistas@zerohora.com.br

Pacto de paz no gre-nal

Futebol Gaúcho
Pacto de paz no gre-nal




Os gremistas Sandro Goiano e Tcheco e os colorados Fernandão e Elder Granja se unem em defesa de um clássico sem violência no domingo
(foto Ricardo Duarte)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Esta POA incrível



Luiz Pilla Vares
13/09/2007


Esta POA incrível

É bom parar um pouco para pensar esta incrível Porto Alegre. Abrir as páginas culturais dos jornais e ver o que está acontecendo. No último domingo, terminou o 10° Porto Alegre em Dança. A 6ª Bienal do Mercosul já está em pleno funcionamento no Margs, no Santander Cultural e no Cais do Porto.

Mais enxuta do que as anteriores, com obras de 67 artistas de 23 países, a Bienal torna-se uma ocasião toda especial para um encontro com a arte contemporânea e um questionamento sobre a estética. E diante de uma obra de arte, o espectador não pode esperar respostas.

A arte é uma imensa pergunta que gera sempre novas questões até o infinito. Isto constitui a beleza e o mistério que envolvem a criação estética. Paralelamente à do Mercosul, ocupando 40 espaços, acontece também a Bienal B, que, além de exposições, terá performances e seminários, chegando até a bares.

E, para rematar, no pavilhão da antiga tecelagem Renner, é realizado o Essa POA É Boa, reunindo nomes como Gustavo Nakle, Zorávia Bettiol e Maria Tomaselli.

Logo após a inauguração da Bienal, começou na última segunda outro acontecimento notável que já virou tradição na capital gaúcha e que entrou definitivamente no roteiro cultural do Brasil e da América Latina:

o Porto Alegre Em Cena, que entra em sua 14ª edição cada vez mais apurado e mais amplo, uma ocasião para entrarmos em contato com linguagens diferentes das artes cênicas, como a japonesa, a argentina, a francesa, em contraste com as múltiplas expressões do teatro brasileiro.

E vejam só: no ousado curso Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul, tivemos na terça da semana passada a palestra de um dos mais importantes intelectuais contemporâneos, o estadunidense Immanuel Wallerstein, crítico da globalização nos moldes neoliberais e da política imperial dos Estados Unidos.

Mas tem mais ainda: podem se preparar, porque vem aí mais uma Feira do Livro, a grande tradição literária de Porto Alegre desde os anos 1950, quando começou acanhada e provinciana até se transformar no megaevento de hoje em dia. Como sempre, deverá levar multidões ao Centro, à Praça da Alfândega e suas imediações.

Não é a minha praia, mas não se pode desconsiderar o Acampamento Farroupilha, uma autêntica súmula da cultura e dos costumes campeiros do Rio Grande do Sul. Não é incrível esta cidade? Por isso é que eu nunca mais saio daqui.

pillavar@portoweb.com.br

E se?



Luis Fernando Verissimo
13/09/2007


E se?

Não sei se é verdade, mas dizem que Adolf Hitler quase foi se tratar com Sigmund Freud. Seus pais teriam sido aconselhados a levá-lo para uma consulta com o doutor.

Presumivelmente decidiram que o que ele fazia com insetos era normal para a idade e que sua compulsão de dominar o bairro passaria. Os Hitler não procuraram o doutor e o resultado foi o que se viu.

O quase encontro toca na questão da importância do sujeito na História. Até que ponto decisões pessoais, personalidades e neuroses determinam o que acontece, ou líderes, heróis, hereges e tiranos são apenas instrumentos de uma lógica impessoal?

A História teria sido diferente sem Hitler, ou se Hitler tivesse se tratado com Freud - ou sido um sucesso como pintor?

O nazismo como uma anomalia patológica, coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte do pensamento cristão europeu de direita da sua cumplicidade ou é a idéia correta? A conclusão de que nossas vidas dependem da sanidade alheia horroriza, mas a idéia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora.

Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja para preservar o auto-respeito da espécie.

Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império austro-húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isto.

Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e o século que começava restauraria a idade das trevas.

O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza esse prenúncio, ou essa intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século dos desencontros.

Principalmente o de duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela ciência e a que o aprisionava pelo mito do Estado científico.

O materialismo histórico rejeita a idéia de sujeitos regendo a História e a noção de que as idéias justas vêm de um discernimento moral inato, ou religioso.

Os liberais nos dizem que o mercado não é moral nem imoral, é apenas inevitável. Assim, o relato de heróis providenciais contra bandidos doentes sobra para a literatura, ou para essa categoria de narrativa sentimental que é a História convencional.

Porque gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História e que seu objetivo é moral e justo. Ou que ela pelo menos tem uma cara e uma biografia.

A História feita por indivíduos tem o atrativo adicional da conjetura criativa, de infindáveis variações sobre o "se".

O que teria acontecido se Napoleão tivesse se contentado em ser instrutor de tiro, se os pais do Stalin nunca tivessem se encontrado? E se Jânio Quadros tivesse ficado?

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Paulo Sant'ana
13/09/2007


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A base governista votou íntegra pela absolvição do senador Renan Calheiros e salvou-o da cassação.

Renan Calheiros só teria sido cassado se alguns senadores da base governista votassem contra ele.

Como isso não aconteceu, Renan foi salvo da acusação de enviar todos os meses, durante anos, um mensalão para uma empreiteira.

Seria indevido mesmo cassar um senador porque ele, contrariando o fluxo histórico e tradicional, tinha enviado durante dezenas de meses, de seu bolso, um mensalão para uma empreiteira que constrói para o governo e depende do Senado para ver aprovadas as suas contas na relação com o poder público.

Seria ridículo cassar um senador porque ele mandava dinheiro para uma empreiteira para ela transferir mensalmente esse crédito para uma pensão alimentícia do senador.

Como um trator, a base governista votou maciçamente a favor de Calheiros. A base governista tem senadores espalhados por todos os Estados, só aqui no Rio Grande do Sul há dois dos três senadores que são da base governista.

Renan deve a toda a base governista a sua espetacular vitória.

Não há justificativa para o voto ser secreto, a representatividade pressupõe que os eleitores conheçam os votos de seus eleitos. Caso contrário, ficam impedidos de avaliá-los.

E o voto secreto permite uma anomalia gigantesca: a de que senadores declarem que vão votar de uma forma e na urna votam ao contrário.

Ou seja, ficam de bem com os eleitores e de bem com o poder.

A Folha de S. Paulo publicou anteontem uma enquete em que 41 senadores abriram o voto pela cassação de Renan Calheiros, 10 abriram o voto pela não-cassação e 29 não quiseram abrir seu voto.

Ou seja, folgadamente Renan Calheiros seria cassado se não houvesse hipocrisia. Ficou evidente que houve muitos senadores que disseram que iam cassar e absolveram.

Os 10 que prometeram absolver Calheiros, pela coragem de sua posição, certamente votaram pela absolvição.

Os 29 que não abriram seu voto, destes não se pode saber em que votaram, portanto não mentiram.

Mentiram, aproveitaram-se do voto secreto para ter lucro com os dois lados, seis dos 41 senadores que prometeram que iam votar pela cassação, só 35 cumpriram com sua palavra.

Os seis da moita. Espera-se que não continuem insistindo em sua malversação.

Nada muda com a absolvição de Renan Calheiros. Se ele fosse cassado, como se viu ontem, seria posto em seu lugar na presidência do Congresso um outro senador igual a Calheiros, em atuação, envolvimento e métodos.

Que vantagem ou desvantagem teria o país se Calheiros tivesse sido cassado? Nenhuma, tudo continuaria igual como afinal continuou.

Nada mudou. A política e o Senado continuam sendo os mesmos.

psantana.colunistas@zerohora.com.br
Absolvição de Calheiros desencadeia onda de indignação no país



Oculto dos eleitores, Senado livra seu presidente da cassação
Com o mandato garantido por 40 colegas que votaram a favor e por seis que se abstiveram, Calheiros deixa sessão conduzida sob sigilo e polêmica (foto Adriano Machado, AE)
Diplomacia
Conto de fadas de Lula e Marisa




Entre a rainha Sílvia e o rei Carl XVI Gustaf, o casal brasileiro teve uma recepção pomposa na Suécia, em visita oficial a países escandinavos
(foto Ricardo Stuckert, PR)

terça-feira, 5 de junho de 2007



Gisele Bündchen defende uso de camisinha e direito ao aborto

Publicidade da Folha Online

A modelo Gisele Bündchen diz ser a favor do uso de camisinha e defende a liberdade feminina, de acordo com entrevista hoje na Folha de S. Paulo (conteúdo exclusivo para assinantes).
Brendan McDermid/Reuters


Gisele Bündchen defende aborto, camisinha e critica governo Bush e Igreja Católica

Durante a entrevista, a top diz ser "a favor de a mulher fazer o que deseja com seu corpo", referindo-se ao aborto, e acrescenta que aos "quatro meses de gestação praticamente ainda não há vida".

Gisele também criticou algumas regras da Igreja Católica, como a proibição do uso de camisinha, alegando que quando as regras da igreja foram criadas, o comportamento da sociedade era diferente.

Na reportagem, a modelo dá ainda sua opinião sobre o governo dos Estados Unidos Gisele. Para ela, o governo do presidente George W. Bush é "péssimo".

A top está no Brasil para participar de desfile na Fashion Rio.


Liberato Vieira da Cunha

Dos tons e dos silêncios

Há tantos anos convivo com os objetos que me cercam que desconfio que há muito me conhecem - talvez melhor do que eu próprio.

Estas duas cadeiras de alto espaldar, que um antiquário definiu de manuelinas, acompanham minha família desde o anteontem do tempo. Houve uma vez em que um exército de cupins atacou o apartamento e os de todos os vizinhos.

As perdas foram consideráveis, naufragaram portas e janelas, mas as cadeiras resistiram incólumes a todas as investidas.

O console da entrada já pertenceu à capela de uma mansão falecida. Não faço idéia de a quantos batizados, casamentos, encomendações assistiu contrito. Do que estou certo é que acompanhou muitas vidas e muitas partidas e tem a alma meio mística dos que muito viram e muito experimentaram.

As telas são recentes, mas há algumas de passadas idades de que gostaria de aprender a história. Calam-se entretanto, pois sua maneira de contar deve ser lida em seus tons, em suas cores, em suas profundidades e contrastes - e muito especialmente em seus silêncios.

Venho de uma época em que as salas de jantar eram dotadas de cristaleiras. Meus pais e meus avós reuniram muitas peças, mas nenhuma é tão bela quanto esta taça azul em que se lê Bons Annos.

Quem seria o aniversariante? Comemorou numa festa na qual de repente seus olhos se fixaram sonhadores numa loira senhorita de tranças, que a partir daquele instante foi sua paixão calada?
Mas quem mais ciência tem de meus segredos é o grande espelho do fundo. Este me acompanhou desde guri, para este nada é indecifrável.

Fico imaginando suas dimensões e profundezas sucessivas, as imagens superpostas de minhas outras eras e de minhas outras existências. Nada sei ocultar a ele.

E dele não sei ocultar-me, pois ilumina cada labirinto interior de que me construo e componho.
liberato.vieira@zerohora.com.br

Uma ótima terça-feira a todos nós com muito frio por aqui neste finzinho de outono.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Publicado em 10 de agosto de 2005 - Versão impressa Elio Gaspari






O filme da pizza queimada
ELIO GASPARI

Márcio Thomaz Bastos é um fantástico criminalista. Seu objetivo é absolver o cliente. Tudo bem. André Cayatte (1909-1989) depois de ter feito carreira como advogado foi um fantástico diretor do cinema francês.

O ministro Thomaz Bastos defende o governo de Lula na melhor técnica da negativa da autoria. Não havia mensalão. A cueca do assessor do irmão de José Genoino tinha a ver com ¿recursos não contabilizados¿. As meninas da Geanne eram sobras de campanha.

E Cayatte? Ele dirigiu um filme chamado Dois são culpados (Le glaive et la balance, 1963). É a história de um seqüestro e assassinato de um garoto. Testemunhas oculares incriminam três homens que vestiam roupas idênticas (Anthony Perkins, Renato Salvatori e Jean-Claude Brialy). Não há espaço para dúvida: dois eram os culpados, mas um era inocente. Qual?

Lula e aquilo que resta do seu comissariado se fortificaram na tese da negativa da autoria. O mensalão é fantasia, alguns companheiros delinqüiram, mas é só. Delúbio, esse ingrato.
Para um jurado do filme de Cayatte, seria difícil acreditar que um sindicalista do PT de barba grisalha e cabelo colorido pudesse ser responsável por tantas traficâncias.

Se Delúbio foi aquilo que se gostaria que tenha sido, o companheiro se tornou caso único na História mundial. Noves fora um carro e uma terrinha para os pais, ninguém o acusa de ter amealhado muito mais que o preço do deslumbramento.

Então foi o José Dirceu. Examinam-se as malas e verifica-se que uma tomou o rumo do Rio Grande do Sul. Outra desceu em Pernambuco, muitas nunca saíram de São Paulo. Cadê a casa de Dirceu numa bonita praia de Alagoas, como a de PC Farias, ou as dos tucanos balneários em Porto de Galinhas e no litoral paulista?

Meia dúzia de comissários e sindicalistas refinados com charutos cubanos e garotas vindas de São Paulo são bodes magros para o esquema de poder praticado por Lula e seu PT. Faz dois anos que o melhor crítico dessa fraude é o professor César Benjamin, e no último domingo publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado O mito do paraíso perdido.

Nele, diz o seguinte: Lula sempre compartilhou da intimidade do grupo e foi o principal beneficiário de suas ações. Garante, porém, que nada sabia. Respeito quem acredita nisso, assim como respeito quem acredita em duendes.

Quem acredita em duendes (sem ganhar nada com isso) repele a associação. A diferença entre Lula e Eremildo, o Idiota, está no fato de que, por idiota, Eremildo nunca conseguiu apresentar um projeto de seu filho à Telemar.

Aliás, para consolo dos contribuintes (e da Telemar), Eremildo não tem filhos. Também é duvidoso que o PT emprestasse R$ 29 mil a um idiota mas, mesmo admitindo-se que isso tivesse acontecido, ele seria capaz de dizer, imediatamente, como saldou o compromisso.

A tese de negativa da autoria do doutor Márcio é perfeita para um tribunal de júri, mas resulta temerária para uma sociedade. Os advogados de defesa do filme de Cayatte sustentaram que o crime tinha sido cometido pelos outros dois acusados.

Cada um mostrou que seu cliente nada tinha a ver com a história. Os jurados se convenceram disso e entenderam que cada um deles poderia ser inocente. Donde, todos podiam ser inocentes. Absolveram os três.

Cayatte termina seu filme mostrando a trinca enquanto deixava o tribunal, protegida num camburão. A choldra estava na rua. Tacou fogo no carro e assou os três.

Pelo simbolismo e pela qualidade da obra, Lula e o doutor Márcio deveriam procurar uma cópia desse filme.