quinta-feira, 19 de março de 2026

A Fábula da Canção que Encontra

Conta-se que, em uma aldeia coberta de neve, onde o inverno parecia não ter pressa de ir embora, vivia um jovem que não gostava de música. Dizia que tudo era barulho.

Que violinos choravam sem motivo, que flautas eram finas demais, e que os velhos cantos da aldeia não passavam de ecos sem sentido.

Os mais antigos apenas sorriam. Sabiam que há coisas que o tempo ensina melhor que qualquer palavra. Numa noite especialmente fria, o jovem se perdeu na floresta.
A neve caiu mais forte, o vento apagou os caminhos, e o silêncio tornou-se pesado como um manto.

Foi então que ele ouviu. No começo, pensou ser apenas o vento. Mas havia algo diferente - uma melodia antiga, quase esquecida, como se a própria floresta respirasse em forma de som. Seguiu aquele canto.

E quanto mais caminhava, mais percebia: não era a música que havia mudado…
era ele que, pela primeira vez, estava realmente escutando. A melodia não pedia entendimento. Pedia presença.

E, naquela noite, tremendo de frio e de verdade, o jovem chorou. Não de tristeza, mas de reconhecimento. Quando encontrou o caminho de volta  à aldeia, alguém perguntou: - Como encontraste o caminho? Ele respondeu, em voz baixa: - Não… foi a canção que me encontrou.

Desde então, nunca mais chamou música de ruído. Porque aprendeu que há sons que só se revelam quando o coração deixa de querer entender e começa, enfim, a sentir. 





Nenhum comentário: