sábado, 1 de maio de 2010



01 de maio de 2010 | N° 16322
CLÁUDIA LAITANO


Licença para amar

A cena é chocante, menos pelo que se vê, um adulto e uma criança de costas, do que pelo que se imagina. Pelo texto, ficamos sabendo que a mulher é a enfermeira americana Torry Ann Hansen e que o menino que aparece sendo conduzido por ela para dentro de um avião é o garoto russo Artyon, que ela havia adotado alguns meses antes.

Em um bilhete endereçado às autoridades locais russas, a enfermeira explica que temia por sua segurança e pela da família, já que, segundo ela, o menino era violento e desequilibrado e esses problemas haviam sido deliberadamente escondidos durante o processo de adoção.

No início de abril, Artyon voltou para a Rússia sozinho, com uma mochila nas costas e alguns brinquedos para se distrair durante a viagem. No aeroporto de Moscou, um homem contratado por US$ 100 o esperava para conduzi-lo de volta ao orfanato. A foto publicada nos jornais registra o momento da despedida – um adeus sem beijo ou abraço, mas nem por isso menos carregado de significado.

Artyon tem apenas sete anos, mas para a família que desistiu de adotá-lo seu destino já está traçado. Como o menino Damien do filme A Profecia, Artyon estaria condenado a fazer mal a todos que se aproximam dele.

Nada mais sensato do que livrar-se dessa maldição o mais rápido possível. Quem vê filmes de terror sabe bem o que crianças malignas podem fazer com suas famílias, adotivas ou não.

E Torry deve ser uma grande fã do gênero. Porque apenas em filmes de terror, e em algumas tragédias gregas, adultos abandonam crianças a sua própria sorte porque se sentem ameaçados por ela.

Felizmente, Torry Ann Hansen e a procuradora aposentada carioca Vera Lúcia Santana Gomes, que foi indiciada esta semana por maus-tratos contra a filha adotiva de dois anos, são exceções. Para conseguir a guarda provisória da menina que torturou durante quase dois meses, a procuradora enfrentou um longo processo.

Durante um ano, participou de reuniões com membros do Conselho Tutelar, passou por avaliação psicológica e por uma pesquisa social até, finalmente, obter a habilitação para adoção. Nada disso foi suficiente para detectar o monstro por trás da cabeleira loira tratada em bons salões de beleza do Rio.

Como os pais biológicos, pais adotivos podem ser vocacionados ou não, capazes de criar e amar os filhos incondicionalmente, mesmo quando eles frustram suas expectativas, ou não. Não existe “brevê” para a paternidade. No caso das crianças adotadas, a Justiça faz o que pode para criar filtros que evitem traumas como o do menino russo e o da menina carioca.

Mas as milhares de crianças que estão sendo criadas em orfanatos no Brasil esperam que a Justiça vele por elas também de outra forma: aplicando critérios razoáveis para selecionar famílias aptas a adotar.

Se parece óbvio que a capacidade de acolher amorosamente uma criança não tem nada a ver com religião, nacionalidade, cultura ou classe social, demorou mais do que o necessário para que a Justiça brasileira reconhecesse que impedir casais homossexuais de adotar era não apenas falta de bom senso, mas preconceito puro e simples – e dos mais tacanhos.

A decisão do Superior Tribunal de Justiça de autorizar um casal de mulheres homossexuais do Rio Grande do Sul a adotar duas crianças, além de abrir um precedente jurídico histórico para decisões judiciais semelhantes em todo o país, empurra o Brasil um pouquinho mais para dentro do século 21. Já não era sem tempo.

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