domingo, 27 de maio de 2012


CARLOS HEITOR CONY

"Res sacra reus"

RIO DE JANEIRO - Mais por penitência do que por curiosidade, assisti até o fim à sessão da comissão de inquérito que convocou o Cachoeira para dar informações sobre o atual e vergonhoso escândalo que continua em cartaz.

No meu entender, e no entender de muitos dos parlamentares da própria comissão, foi um espetáculo patético e inútil. Afinal, o réu já está preso e está sendo investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. A menos que adote o recurso da delação premiada, em nada poderá esclarecer a rede de corrupção que a cada dia parece maior e letal.

Duas observações aqui do cronista: em primeiro, o respeito devido à posição de Márcio Thomaz Bastos -muitos o criticam por aceitar a defesa de um criminoso de tamanho calado. Daí, talvez, ele tenha aconselhado o Cachoeira a ficar calado o tempo todo.

Em abril de 1964, quando começaram os processos e IPMs da turma que tomou o poder naquele ano, escrevi uma crônica no "Correio da Manhã" que foi traduzida e transcrita num importante jornal de Washington. O título foi exatamente o mesmo desta crônica: "Res sacra reus". O réu é coisa sagrada.

Isso vale para todos.

Inclusive no Tribunal de Nuremberg, que julgou e condenou a cúpula nazista, os maiores criminosos daquele período tiveram grandes advogados e nenhum deles foi privado do direito de ficar calado ou de se justificar, razão pela qual alguns escaparam da forca.

Uma CPI não tem poder de polícia. Serve para investigar e denunciar atos criminosos -que, no caso específico do Cachoeira, já estão sendo investigados.

A imprensa também atua neste sentido, mesmo sem poder de polícia.

Mas a corrupção em si está de tal forma instalada na sociedade que dificilmente será expurgada de nossa vida nacional.

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