quinta-feira, 17 de maio de 2012



17 de maio de 2012 | N° 17072
L. F. VERISSIMO

Bonde reacionário

Participei, sim, da campanha que garantiu a posse do Jango depois da renúncia do Jânio. Como ouvinte. Fui para a frente do palácio do governo, como todo mundo, em Porto Alegre. Mais por curiosidade do que por qualquer ímpeto legalista.

Eu trabalhava na Editora Globo, só porque não tinha me formado em nada, não queria mais estudar e a família – por um preconceito inexplicável – não queria um vagabundo em casa. Naquele dia, o expediente acabou mais cedo. Motivo: guerra civil iminente.

Fui para a Praça da Matriz. A indignação com o que estavam preparando contra a posse do Jango, a Constituição e o Rio Grande do Sul era geral, mas não sei como nos comportaríamos se os tanques do III Exército realmente surgissem na praça para acabar com a resistência do Brizola, como estavam anunciando.

A disposição da maioria era a de formar uma barreira humana. Não passarão! Mas não era uma atitude apenas passional. Vários estrategistas militares espontâneos, com ideias sobre como agir, contribuíam com planos para a batalha possível.

Discutia-se como os tanques chegariam ao palácio. Alguém nos assegurou, com precisão científica, que nenhum tanque conhecido conseguiria subir uma ladeira com o grau de inclinação da Rua General Câmara, que vinha dar na praça. Eles teriam que pegar a Rua Duque por baixo, o que aumentaria as chances de uma ação de bloqueio em toda a extensão da rua estreita.

Ou poderiam subir pela Avenida Borges, dobrar na Riachuelo ou na Jerônimo Coelho... De qualquer jeito, não passariam. Mas havia a possibilidade de um ataque aéreo. Aviões estariam ou não estariam a caminho do Estado para reforçar o contingente da base aérea de Canoas e bombardear o Brizola.

Os ataques não vieram, mas a tensão permaneceu alta, aliviada por piadas nervosas. Naquele clima, qualquer bobagem virava um clássico. Ouvi que chegou alguém esbaforido – grande palavra, o clima era esbaforido – com a notícia:

– Voou bala na Praça da Alfândega!

– O quê?

– Parece que caiu um baleiro...

(Baleiro, crianças, era quem vendia balas na rua ou nos cinemas. Faziam parte do ritual de ir ao cinema na época as balas “café com leite” que colavam no dente. Mas acho que estou misturando as eras: as balas “café com leite” não foram contemporâneas da Legalidade. Ou foram?).

Havia mesas para a inscrição de voluntários na Rua da Praia, e dizem que, por um breve e alucinado instante, o Partido Comunista teve o maior quadro da sua história. Estudantes faziam comícios relâmpagos na rua e se revezavam, entrando em bondes para conscientizar seus ocupantes. O jornalista Marcão Faerman, que então era estudante, contava que se reuniam no fim do dia para comparar experiências e uma vez ouviu uma queixa: “Peguei um bonde Gasômetro reacionário...”.

O palácio não foi atacado, o III Exército aderiu à Legalidade, Jango tomou posse e três anos depois veio o golpe que o derrubou. O bonde reacionário tinha se atrasado um pouco na Rua Duque, mas acabou chegando a Brasília.

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