sábado, 28 de setembro de 2019


28 DE SETEMBRO DE 2019
VARIANDO

Os segredos de Ibirubá


Voltou o assunto dos supostos túneis nazistas de Ibirubá. Como podem perder tempo com essa dúvida? É claro que eles existem. E digo mais, muitas outras cidades têm seus túneis de segredos, basta procurar.

Abaixo da terra estão os que já se foram e os mistérios. Tudo o que não deve ser mexido está guardado a sete palmos. Pegue uma pá e vá lá cutucar. Mas cuidado com o susto, esse é o perigo da missão.

Essas buscas embaralham história com mito. Pessoalmente escolho o segundo. Ele é mais mágico, mais rico, e diz mais de nós do que a realidade.

O fato é que procurar nazistas no solo gaúcho é caçada certeira. Temos uma grande imigração alemã e é bom lembrar que tardamos para escolher o lado. Enquanto a guerra se iniciava, não se sabia para onde iríamos. O que conhecemos hoje sobre o delírio nazifascista não era claro então. Não soava como a civilização versus barbárie, que hoje parece óbvio, era a escolha de um lado. Para muitos imigrantes, seguir a Alemanha era um destino tanto possível quanto desejável. Poucos deram-se conta de que Hitler destruiria o que eles mais amavam: a fecundidade da cultura alemã.

Antes da guerra, a Alemanha era um império de ideias, uma fonte criativa, um modo singular de pensar. Ali nasceu a Bauhaus, a escola de design que levou a estética à produção industrial. Foi o palco da chegada do expressionismo, com seus traços exagerados para nos esfregar a verdade no rosto. A Alemanha possuía uma tradição filosófica extraordinária e uma literatura riquíssima. Cientistas em todas as áreas e, para meu gosto, a mais rigorosa escola psiquiátrica. Um parque tecnológico florescente e a melhor indústria química do mundo da época.

Veio a guerra e foi-se tudo pelo ralo. A Alemanha pode hoje ser uma potência econômica, mas ainda não retornou a ser o polo cultural ímpar que já foi. Imaginem para nossos conterrâneos germanodescendentes o que foi assistir a essa derrota. Uma mistura amarga de estar no lado errado com ser duplamente derrotado, tanto de fato, quanto moralmente.

A Segunda Guerra desconcerta por ser daqueles momentos em que a razão manca e abre passo para os salvadores da pátria com sua lábia prenha de maldade. Quando o fel é transformado em política e o ressentimento ganha palco. Quando a pauta não é a proposição, mas a guerra contra tudo e todos e a aniquilação do adversário. Quando descobrimos, à custa de sangue, que o ódio corta dos dois lados, envenenando e matando também quem o produz.

O subsolo gaúcho esconde lembranças desses tempos duros. Da época em que alguns flertaram com esse inimigo que odiou tanto, que se esvaziou de sua humanidade. Os cacos desse pesadelo seguem cortando, pois nunca perdem o gume. Talvez não retornem agora por acaso, e sim por outros ovos de serpentes que estão a chocar.

MÁRIO CORSO

28 DE SETEMBRO DE 2019
ARTIGOS

O EMPREENDEDORISMO NA ESCOLA

As diretrizes curriculares nacionais para o novo Ensino Médio apresentam o empreendedorismo como um dos eixos de trabalho pelo qual as instituições de ensino poderão optar. Encontramos muitas definições sobre o conceito de empreender e uma delas destaca que "empreender é decidir realizar (tarefa difícil e trabalhosa); tentar; travessia arriscada". Esse conceito básico encontra consonância com o perfil do jovem contemporâneo que busca, cada vez mais, sentido para estar na escola.

Apresentar o empreendedorismo como um eixo curricular abre a possibilidade de que haja o desenvolvimento do estudante para atuar neste mundo em constantes transformações, pois permite a expansão de sua formação em diferentes competências e habilidades, entre as quais destaco a criatividade, a autogestão, a tolerância à frustração, a persistência e a resiliência. Desse modo, a criatividade deve ser desenvolvida e exercitada, sendo a escola um dos espaços abertos para que o jovem vivencie essa experiência.

A autogestão é uma das competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e refere-se ao controle de impulsos e gerenciamento de metas pessoais. No momento em que falamos em empreender, estamos resgatando um princípio fundamental da educação, que implica a reflexão sobre a realidade, tendo em vista que, para "realizar tarefas difíceis", é necessário conhecer o ambiente e projetar soluções para os problemas enfrentados.

A persistência, em tal sentido, é uma habilidade importante no momento em que, por meio dela, temos clareza de aonde queremos chegar. Além disso, essa competência se conecta à necessidade de desenvolvermos pessoas resilientes, que tenham capacidade de lidar com situações adversas, superando obstáculos e reagindo positivamente a eles. Muitas, enfim, são as possibilidades de abordagem do eixo empreendedorismo nas escolas.

Certamente, após vivenciarem experiências significativas na educação básica relacionadas ao tema, esses jovens poderão impulsionar de maneira mais segura seus projetos de vida, destacando-se independentemente da área em que desejarem atuar.

MARÍCIA FERRI


28 DE SETEMBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O RISCO DO DESCRÉDITO

É previsível o misto de indignação e perplexidade causado em parte da sociedade por dois fatos recentes que tendem a acentuar a descrença no senso de justiça que impera no Brasil. Embora próximos no tempo, o avanço no STF de tese que pode revogar condenações de réus da Lava-Jato e a revelação do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot de que se preparou para matar o ministro Gilmar Mendes precisam ser relativizados, contextualizados e, principalmente, separados.

Embora questionável, o encaminhamento, por enquanto majoritário no STF, da tese de que réus devem ter a palavra depois dos delatores não guarda um absurdo jurídico. Ao contrário, se a Constituição diz claramente que todos têm direito à ampla defesa, deve-se estranhar que até hoje tenha se admitido acusações de delatores como palavra final. 

No entanto, antes que as portas das celas de Curitiba sejam escancaradas, gerando na prática a sensação de que a Lava-Jato e o combate à corrupção sofreram um golpe de morte, o Supremo deve sopesar sua decisão. Uma primeira consideração é que a decisão deveria valer daqui para a frente e retroagir apenas para julgamentos nos quais fosse evidenciado que delatores tivessem apresentado fatos ou versões distintas das anteriores, reparando, assim, a possibilidade de injustiças - tanto a condenação sem ampla defesa quanto a revogação da sentença sem justificativa concreta.

Já o caso do ex-procurador Rodrigo Janot deve ser remetido mais à instância da psiquiatria do que à jurídica. Louve-se a coragem do ex-procurador-geral de narrar em detalhes como planejou matar um ministro do STF e depois tirar a própria vida. Mas é quase impensável que alguém com tal grau de perturbação mental tenha se mantido por quatro anos à frente de um organismo com poder de mudar a história do país, como, aliás, Janot o fez, quando sua obsessão por denunciar o ex-presidente Michel Temer jogou por terra a reforma da Previdência e tantas outras ações que atrapalharam a retomada do desenvolvimento e influenciaram a eleição de 2018.

O descrédito é o primeiro passo para a desmoralização, que, no seu grau máximo, leva à implosão das instituições e de tudo o que elas representam. Nos últimos anos, o Brasil viu um pouco de tudo. O Judiciário e o Ministério Público foram guindados ao panteão de heróis nacionais e agora se veem atacados em razão de episódios isolados de arrogância, abusos e decisões pessoalizadas de uns poucos de seus membros. Já a Lava-Jato viveu o céu da consagração e agora enfrenta o purgatório da contestação, sobretudo depois de reveladas combinações entre procuradores e juiz. 

O fundamental, porém, é que, como instituições basilares da democracia, tanto Judiciário quanto MP devem ser encarados como a última linha de defesa da sociedade e, para sua própria credibilidade, apoiados sempre que se mostrarem dispostos a corrigir eventuais problemas e exageros. Nunca é demais lembrar que, cada vez que houver uma injustiça, depois deles não haverá mais ninguém a quem recorrer.


28 DE SETEMBRO DE 2019
DUAS VISÕES

Fazer do limão uma limonada

Médico, secretário de Saúde de Porto Alegre | pablo.sturmer@portoalegre.rs.gov.br


A decisão de extinguir o Instituto Municipal de Estratégia de Saúde da Família (Imesf) não é da prefeitura de Porto Alegre, muito menos deste governo. Foi o Supremo Tribunal Federal (STF) que considerou inconstitucional a lei que criou o Imesf, após ação judicial iniciada em 2011 por 17 sindicatos e associações. Desde que assumimos a gestão, em 2017, fizemos todos os esforços jurídicos que tínhamos ao alcance para evitar essa situação. Qualquer recurso hoje seria meramente protelatório, prolongando a situação irregular do Imesf. Não ficamos parados esperando a sentença.

Criamos um plano de trabalho que pudesse ser colocado em prática rapidamente e não deixasse a população desassistida. Nesse plano será possível expandir o número de equipes de saúde da família (ESF), ofertar serviços públicos de qualidade e transformar Porto Alegre em referência para o Brasil na atenção primária à saúde. Faremos isso em duas etapas. A primeira vai garantir os melhores profissionais da área para atuação nos locais que hoje contam com trabalhadores do Imesf. Depois, chamaremos organizações filantrópicas para o gerenciamento e operação de unidades com equipes de saúde da família. Os porto-alegrenses contarão ainda em 2020 com novas clínicas da família, quatro novas unidades com atendimento até as 22h, reforma e adequação das estruturas já existentes e a qualificação na gestão dos postos de saúde.

Credibilidade para isso o governo liderado pelo prefeito Nelson Marchezan tem de sobra. Em dois anos e meio, revolucionamos a saúde mental em Porto Alegre, abrimos mais de 330 leitos em hospitais, criamos a primeira clínica da família na Restinga, estendemos os horários de quatro postos até as 22h, renovamos a frota da Samu e aumentamos a oferta de medicamentos e exames. Também investimos em tecnologia e implementamos a telemedicina. O resultado é redução de 40% na fila de espera por uma consulta médica!

Fizemos tudo isso implementando o modelo de contratos para serviços públicos não estatais, entregando o que mais importa para as pessoas - eficiência, qualidade e resolutividade. Entendemos a angústia dos servidores e da população neste período de transição, mas é preciso que todos tenham responsabilidade profissional e espírito público. Como disse o prefeito Marchezan, "vamos fazer deste limão uma limonada". Em breve, tudo estará resolvido e o melhor: com um serviço de saúde ainda mais qualificado aos porto-alegrenses.

PABLO DE LANNOY STÜRMER

28 DE SETEMBRO DE 2019
COM PEDIDO DE URGÊNCIA

Leite quer mudar 480 pontos do Código Ambiental


O governo do Estado apresentou, na sexta-feira, a proposta de um novo Código de Meio Ambiente para o Rio Grande do Sul, prevendo a alteração de, ao menos, 480 pontos da legislação atualmente em vigor. O projeto muda, retira e inclui itens que tratam sobre licenciamento ambiental, áreas de proteção permanente, unidades de conservação, fiscalização, aplicação de multas e revisão de taxas, entre outros pontos.

No lançamento da proposição, no Palácio Piratini, o governador Eduardo Leite confirmou que enviará o texto à Assembleia Legislativa em regime de urgência, ou seja, com prazo máximo de 30 dias para discussão e votação. O trâmite também elimina a necessidade de análise nas comissões de mérito, como a de Saúde e a de Meio Ambiente - Leite argumenta que mudanças no código ambiental já foram debatidas em subcomissão parlamentar da Casa em 2016.

O governo avalia que o projeto irá aumentar o "equilíbrio entre a proteção ambiental e o desenvolvimento socioeconômico".

Um dos itens polêmicos do projeto diz respeito à implementação do autolicenciamento ambiental. O formato, já utilizado em Santa Catarina, na Bahia e no Ceará, permite que o empresário, para algumas atividades produtivas, emita a licença ambiental pela internet a partir do envio de documentos e da autodeclaração de informações.

- Em até 48 horas é possível fazer o check list (dos documentos pela internet) e aí a licença estaria expedida - projetou o secretário do Meio Ambiente Artur Lemos.

Se aprovado o código, o governo planeja aplicar o autolicenciamento para cerca de 20 atividades produtivas - como armazenamento de pescados, produção de erva-mate e silvicultura. Caberá ao Conselho Estadual de Meio Ambiente definir os setores incluídos.

O Piratini batizou o novo modelo de Licença Ambiental por Compromisso, e rejeita a classificação de autolicenciamento.

- Não é autolicenciamento, como propagam muitos por aí. A própria imprensa tem, de forma equivocada, bebido de fontes que se equivocam ao abordar esse tema. A Licença Ambiental por Compromisso não é simples autodeclaração. As atividades que serão pertinentes e colocadas para essa ferramenta serão decididas pelo órgão ambiental que tem participação da sociedade civil, que é o Conselho Estadual de Meio Ambiente - declarou Leite.

Neste ano, o Estado fiscalizou 3 mil empreendimentos na área ambiental e autuou 25% deles.

Reação

O Ministério Público Ambiental informou que já pediu ao governo que o texto tramite sem urgência na Assembleia, argumentando que o tema merece ser amplamente debatido pela sociedade. Sob a tutela de Daniel Martini, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente, um grupo de trabalho de promotores foi constituído para analisar a proposta de Leite.

GABRIEL JACOBSEN

28 DE SETEMBRO DE 2019
CARTA DO EDITOR


Um jornalismo que constrói

Utilizando-se de fontes confiáveis e dados públicos, repórteres são exímios farejadores de malfeitos dos inquilinos do poder. Nossos radares são treinados para valorizar fatos que saiam da rotina e que, de alguma forma, prejudiquem a população - o que faz todo o sentido em um país habituado à corrupção de agentes públicos e privados, à incompetência de governantes e ao descaso na prestação de serviços essenciais.

Mas quanto tempo, recurso e energia depositamos na busca de soluções para os problemas complexos que apontamos e que fazem parte do dia a dia das comunidades? É uma das perguntas que, com cada vez mais frequência, fazemos na Redação Integrada.

Peço licença para contar um bastidor que ajuda a contextualizar esta discussão. Na terça-feira passada, demos visibilidade em GaúchaZH (e, na edição de quarta-feira, em Zero Hora) para os transtornos causados pelas obras de fresagem e recomposição da BR-386. Os reparos na rodovia resultaram em 10 quilômetros de congestionamento e horas de dissabores a usuários da via.

Evidente que tamanho incômodo em uma das mais importantes rodovias do Estado é notícia.

A matéria estava adequada. Mas, diante do infortúnio, o que fazer? Qual a solução emergencial? Não havíamos mobilizado nenhum de nossas dezenas de repórteres para buscar essas respostas.

Em e-mail enviado para editores da Redação, a diretora de Jornalismo Jornais e Rádios, Marta Gleich, provocou:

- Vivemos criticando buracos nas rodovias e a ineficiência na gestão de estradas concedidas. Daí, são feitas obras e a gente critica. Mostramos o projeto de recuperação das estradas, como ficará, o que o motorista terá em breve? Pensamos em infográficos? Não.

O desafio para vencer o cacoete de valorizar o problema e subestimar as soluções, em um país com tantas mazelas como o Brasil, é manter a capacidade de indignação e o tom crítico. Jornalismo construtivo não é adesão a governos.

- O jornalista não pode usar lentes de Pollyanna achando que o mundo virou cor-de-rosa - ponderou Marta em sua mensagem para líderes da Redação.

Na quinta-feira (em GaúchaZH) e na sexta-feira (em ZH), avançamos no tema com a matéria "Como reduzir a tranqueira na BR-386". Encerro esta carta sublinhando cinco de 15 itens destacados pela Marta e que norteiam a nossa linha editorial:

Tente inverter ou pelo menos equilibrar melhor os espaços destinados à descrição do problema versus o espaço destinado ao debate das soluções.

Busque, em lados opostos, elementos em comum. Não destaque só as divergências, ampliando o conflito e a polarização. Construa pontes, não trabalhe para queimá-las.

Baseie-se em dados e fatos e menos em opiniões das fontes.

Use um tom ponderado, não se deixando influenciar por declarações escandalosas ou absurdas.

Paute-se pelo aprofundamento de fatos importantes para a sociedade, e não só pelo trivial, pelo acontecimento do último dia ou da última hora.

CARLOS ETCHICHURY

28 DE SETEMBRO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Infantaria vermelha


"Não há, decerto, nada mais covarde e inescrupuloso do que empurrar crianças para a linha de frente do campo de batalha, seja esta física, política, cultural ou religiosa", escreveu Flávio Gordon. Infelizmente, o uso de crianças como "escudo humano" ou "ponta de lança" vem de longa data.

A infantaria, não custa lembrar, contava com seus soldados, os infantes, desde a antiguidade. Esparta tomava as crianças dos pais para treiná-las militarmente. As crianças-soldado pululam nas guerras civis africanas. Terroristas islâmicos exploram crianças como bombas ou escudos. O ditador comunista chinês Mao lançou sua "revolução cultural" com crianças, que denunciavam seus próprios pais como "traidores". E por aí vai.

Foi no Ocidente capitalista que a infância passou a ser mais valorizada. Antes, por sobrevivência, quando não estavam servindo em guerras, trabalhavam duro no campo ou em fábricas. Com o advento do capitalismo, as crianças nem trabalhar mais precisavam, e já podiam se dedicar exclusivamente aos estudos e ao lazer.

Mas esse luxo, especialmente em países ricos capitalistas, produziu um efeito perverso: muitas ficaram mimadas e ingratas. E, como crianças são mais fáceis de enganar, alguns adultos pérfidos viram aí uma oportunidade para explorá-las em suas causas políticas.

A esquerda quer crianças tocando em homens nus em nome da arte, aprendendo que podem se sentir meninas no corpo de meninos ou vice-versa aos três aninhos, investe em sua sexualização precoce, rejeita valores tradicionais e cristãos, e ainda as utiliza para marchas pelo desarmamento ou bandeiras radicais ambientalistas.

Mas se você ousa criticá-las como fantoches dessa esquerda, então os "progressistas" se enchem de falso moralismo. É uma tática sórdida. Como disse Rich Lowry, da National Review, as crianças "são peões poderosos". As pessoas que dizem "o mundo deve prestar atenção nessa garota de 16 anos" serão as mesmas que vão dizer a quem ousar contrariar: "Como você se atreve a criticar uma garota de 16 anos?".

É lamentável que, na falta de bons argumentos, a esquerda apele para emoções por meio de marionetes infantis. Essa "infantaria vermelha" é a prova da falência intelectual - e moral - do esquerdismo.

RODRIGO CONSTANTINO

sexta-feira, 27 de setembro de 2019


27 DE SETEMBRO DE 2019
REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Planalto intervém para manter texto

Movimentos da oposição, de corporações e do mercado contra trechos da reforma da Previdência ligaram o alerta no Palácio do Planalto. Com o adiamento em uma semana da votação do primeiro turno no Senado, aumentaram as pressões para desidratar o texto. Em resposta, o governo prepara tropa de choque para manter a projeção de economia de R$ 876 bilhões em 10 anos.

O maior temor é que, se os principais cortes forem efetivados, a expectativa da equipe econômica seria reduzida em quase 20%. Segundo o jornal O Globo, se as regras atuais de abono salarial e aposentadoria especial forem mantidas, a poupança seria encolhida em R$ 134 bilhões. Outros R$ 19 bilhões ficariam pelo caminho se a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido for mantida em 15% (a proposta é de 20%).

O ponto central é neutralizar qualquer possível alteração, em especial as que suavizem regras para concessão e cálculo de benefícios, que trariam impacto maior. Nos próximos dias, será intensificada a articulação com parlamentares. Integrantes do Ministério da Economia farão plantão no Senado para subsidiar aliados.

O chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, destaca a atuação do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) - ele colocou o cargo à disposição após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal:

- Vamos aprovar a reforma sequinha (sem mudanças). Estamos conversando com os líderes que nos apoiam e Fernando Bezerra tem feito um trabalho muito bom.

Líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE) diz que a oposição - formada por PT, Pros, PDT, Cidadania, Rede e PSB, com 21 senadores - ainda vai discutir a viabilidade de mudanças pontuais:

- Neste momento, queremos garantir o abono a quem ganha até dois salários mínimos e manter os direitos da aposentadoria especial.

Para Randolfe Rodrigues (Rede- AP), líder da oposição no Senado, será difícil emplacar as alterações:

- Temos ambiente para buscar apoio em alguns setores, como em parte do MDB. Mas há uma ala de senadores que não tem identidade ideológica, que se aproxima do bolsonarismo dependendo de quantas emendas serão liberadas.

De fora do Senado, há lobby de setores do mercado e de corporações. A Federação Brasileira de Bancos, por exemplo, tem visitado senadores pleiteando a retirada do aumento da CSLL. O trunfo da entidade é sustentar que a ampliação do índice não foi proposta pelo governo, mas pelo relator da reforma na Câmara, Samuel Moreira (PSDB-SP), para reduzir o impacto da desidratação do texto.

Trechos que podem mudar

ABONO SALARIAL

A reforma pretende limitar o pagamento de abono a quem recebe até R$ 1.364,43 mensais. O objetivo da oposição é manter as regras atuais, que concedem o benefício ao trabalhador que ganha até dois salário mínimos por mês, inscrito no PIS ou Pasep há mais de cinco anos.

APOSENTADORIA ESPECIAL

Concedida ao empregado exposto a agentes químicos ou que exerce atividades prejudiciais à saúde, sem exigência de idade, com pagamento de 100% do salário de contribuição. Críticos da reforma querem evitar que o cálculo seja equiparado aos demais trabalhadores.

CÁLCULO DA APOSENTADORIA

A oposição quer manter a regra atual, que considera 80% dos maiores salários para calcular o valor da aposentadoria. A reforma prevê considerar 100% das contribuições, o que levaria à concessão de benefícios menores.

PENSÃO POR MORTE

A reforma limita o valor do benefício a 60% do que recebia o falecido, mais 10% por dependente, o que abre caminho para pagamentos inferiores ao salário mínimo. A oposição quer manter o piso das pensões em um salário mínimo.

FUNCIONALISMO

Servidores atuam junto a senadores para que o pedágio de 100% no tempo restante até a aposentadoria – para quem foi nomeado depois de 2003 – seja retirada da reforma.

SEGURANÇA PÚBLICA 

Apesar de serem contempladas com regras mais brandas na PEC paralela – que não tem previsão para ser votada –, categorias tentam incluir na PEC principal melhores condições. 

BANCOS

A Federação Brasileira de Bancos pressiona senadores a retirar da reforma o aumento de 15% para 20% da CSLL.

mateus.ferraz@gruporbs.com.br


27 DE SETEMBRO DE 2019
INDICA

Aventura à toda vela

Começo do século 18. O Rio de Janeiro, ainda não elevado a capital do território colonial, tem 10 mil habitantes e uma economia baseada em exportação, mas é o entreposto pelo qual circula a riqueza retirada dos confins do Brasil. Quando essa informação chega aos ouvidos do corsário francês Jean-François Duclerc, ele organiza uma expedição ao Brasil para se apropriar do ouro dos inimigos portugueses. Comandando uma poderosa frota de seis navios com mais de mil homens, ele empreende uma invasão tomando como posto avançado a Ilha Grande, o que coloca os piratas franceses em rota de colisão com o mais improvável grupo de resistentes: três crianças nascidas brasileiras.

São esses os traços básicos de Piratas à Vista, obra que casa aventura infantojuvenil e romance histórico escrita pelo autor gaúcho Samir Machado de Machado. Conduzido como um romance clássico de aventura, o livro reconstroi em tom de ficção um episódio real - a invasão de Duclerc realmente aconteceu, em agosto de 1710 - pelo ponto de vista de três adolescentes alunos do Colégio dos Jesuítas, os irmãos André e Leonor e seu amigo Jorge. Enquanto o casal de irmãos é filho de portugueses imigrados, Jorge é filho de uma mulher negra já na terceira geração de libertos com um dono de engenho. 

Os jovens são envolvidos no quadro maior da invasão quando André, Leonor e seus pais vão visitar os pais de Jorge, na Ilha Grande, justamente a primeira localidade tomada pelos invasores. Como são as únicas a falar francês, Leonor e Diva, mãe de Jorge, são capturadas pelos invasores, que querem informações sobre a topografia do Rio, especialmente a localização da Casa da Moeda. Cabe a André, Jorge e ao pai deste tentar um resgate.

Fruto de uma pesquisa claramente intensa, Piratas à Vista abraça seu caráter de aventura juvenil com gosto. A prosa segura e precisa convive com personagens que bebem nos clichês dos romances clássicos - um vilão entre o ridículo e o perigoso, outro com um olho de ouro, um ou outro diálogo de afetação artificial usado de modo humorístico. Um livro que prova que não é preciso mergulhar em águas estrangeiras para se aventurar com piratas.

Piratas à vista

De Samir Machado de Machado

Ilustrações de Rafael Coutinho. FTD, 192 páginas, R$ 50

Anne Frank no olhar das crianças

Os horrores do nazismo e do Holocausto ganharam dimensão ainda maior graças ao relato de uma menina judia, vítima de uma cruel perseguição étnica, religiosa e ideológica que não poupou sequer as crianças. O Diário de Anne Frank, escrito entre 1942 e 1944 enquanto a jovem se escondia com a família em um refúgio na Holanda, é um marco na literatura infantojuvenil e vez ou outra surge um adulto que o lê pela primeira vez.

Um complemento às páginas do famoso diário pode ser encontrado em Tudo Sobre Anne, lançado pelo selo infantil Companhia das Letrinhas. Criado pelo museu Casa de Anne Frank, situado em Amsterdã, o livro traz fotos de Anne e de sua família antes de viverem escondidos e, posteriormente, mandados aos campos de concentração. As páginas são entrecortadas por informações didáticas sobre a Segunda Guerra e, detalhe que diferencia a publicação, questionamentos sobre a condição de Anne e sobre o nazismo feitas pelas crianças que visitaram o museu, além de boas ilustrações sobre o refúgio em que Ana viveu.

"Para onde fugir?", "Quem denunciou Anne Frank?", "Ela estava com medo no esconderijo?", "O que é um campo de concentração?", "O que é um holocausto?". São perguntas que o livro endereça ao leitor, talvez já acostumado com a vilania do nazismo retratado em filmes. E o leva a redimensionar a tragédia, pelo olhar inocente de uma criança.

Tudo sobre Anne

Menno Metselaar e Piet van Ledden,

Ilustrações de Huck Scarry.

Tradução de Yaemi Natumi e Karolien van Eck. Companhia das Letrinhas, 40 páginas, R$ 46.

Prateleira | O Baú dos contos de fada

De Maristela Scheuer Deves

Quinto livro da jornalista Maristela Scheuer Deves, e o quarto de sua produção dedicado a jovens leitores. Na trama, a menina Leninha decide que vai descobrir a fonte da qual seu avô retira as ideias para modificar as histórias que conta para distrair os netos, já que ele sempre acrescenta novos episódios às tramas conhecidas. Editora Lorigraf, 80 páginas, R$ 35. Lançamento e sessão de autógrafos amanhã, às 15h, na Livraria Bamboletras (Shopping Nova Olaria, Rua Gal. Lima e Silva, 776), em Porto Alegre.

João de A a Z

De João Carlos Martins

O pianista e maestro João Carlos Martins revê sua trajetória pessoal e profissional neste livro. Em linguagem simples, os capítulos seguem ordem alfabética, como verbetes - Bach, Disciplina e Talento são alguns deles. Às vezes o texto quase descamba para um estilo próximo à literatura de autoajuda, com frases motivacionais, porém, a obra tem o mérito de falar de arte e de música de concerto de modo acessível as um público amplo. Sextante, 208 páginas, R$ 39,90 (físico) ou R$ 24,99 (e-book).

Fantina

De F. C. Duarte Badaró

Com o subtítulo Cenas da Escravidão, este romance sobre o cotidiano da sociedade escravista brasileira do século 19 foi publicado em 1881 pelo advogado e político mineiro Francisco Coelho Duarte Badaró (1860-1921). Na trama, um malandro boa-vida casa-se com uma viúva bem estabelecida e assume a posse de uma fazenda. Ao tornar-se "senhor" inicia um assédio implacável à jovem escravizada Fantina. Esta edição tem um posfácio de autoria do historiador Sidney Chaloub. A edição é da Chão, criada este ano para pôr em circulação textos antigos pouco conhecidos. Chão, 192 páginas, R$ 49.

Chernobyl o1:23:40

De Andrew Leatherbarrow

O fotógrafo e designer escocês Andrew Leatherbarrow se dedica desde o início da década a pesquisar o maior desastre nuclear da história, em Chernobyl, ocorrido à 1h23min de 26 de abril de 1986. Do horário vem o subtítulo deste livro que não apenas narra o acidente mas a história da energia nuclear e acidentes anteriores. É uma grande reportagem completa e abrangente sobre o desastre. O autor serviu como consultor do produtor Craig Mazin na recente série da HBO Chernobyl. Tradução Denise Bottmann, L&PM, 264 páginas, R$ 49,90.

INDICA


27 DE SETEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

A surpresa de Verissimo

O Verissimo, ontem, completou 83 anos de idade. Em comemoração, Zero Hora fez com ele uma breve entrevista e republicou sua primeiríssima crônica, que saiu na edição de 19 de abril de 1969.

Há algo curioso nessa coluna inaugural. É que o Verissimo começa se apresentando: "Pues, vamos nós. Luis com 'esse' Fernando dos Verissimo de Portugal e Cruz Alta". Ou seja: já na abertura, ele ensina como se escreve o seu nome - "Luis com 'esse'". Mas, no alto da página, o jornal grafa Luiz, com zê.

O que significa isso, além da desatenção do revisor? Provavelmente nada. Mas, na entrevista que ele concedeu, está engastado um trecho que me interessou em especial. É quando Verissimo diz que se surpreendeu com a volta dos militares ao poder. Porque, sim, a eleição de Bolsonaro representa a volta dos militares ao poder, ainda que tenha sido através do voto.

Existe, de fato, alguma razão para a surpresa. Afinal, havia 30 anos que os militares estavam recolhidos à caserna e parecia que eles não tinham interesse em voltar. Ao contrário, davam a impressão de estar fartos da política. No entanto, durante todo esse tempo, um sentimento ancestral permaneceu em estado de latência na alma da população. Trata-se de uma ideia surgida nas lonjuras do século 19: a de que os militares são o único remédio contra a corrupção dos políticos.

O parto da República brasileira foi feito por meio do fórceps de ditaduras militares. Deodoro e Floriano, os dois primeiros presidentes, eram generais avessos às sutilezas democráticas, tanto que, na época, os políticos civis eram apelidados, com evidente desprezo, de "casacas". Floriano era tão duro, tão autoritário, que o chamavam de "Marechal de Ferro". Isso, ao invés de repulsa, causava admiração, a ponto de os apoiadores de Floriano, os "florianistas", pedirem para que ele continuasse como ditador, depois de encerrado o seu mandato.

Floriano não continuou no cargo. Os civis assumiram, mas a insatisfação com a forma como o país era governado continuou. E foi aumentando a cada novo presidente que entrava no Palácio do Catete.

Então, chegamos aos episódios que estou narrando desde o começo da semana: as revoltas do tenentismo. Houve a marcha insana dos 18 do Forte, houve a Revolução Esquecida e, como consequência, houve a Coluna Prestes. Todos esses movimentos são liderados pelos tenentes descontentes (rimou!) com um regime que, na prática, existia para atender às demandas da oligarquia do café.

Foram os tenentes os principais agentes da dissolvência da Velha República, foram eles que carregaram Getúlio Vargas ao poder, na Revolução de 30. Mais: os tenentes insistiram para que Vargas assumisse em definitivo como ditador, durante o governo provisório. Vargas, ladino que era, não dizia que sim nem que não - dissimulação era a sua especialidade. Claro que ele pretendia instaurar uma ditadura, o regime da moda naquele tempo, só que sem os tenentes para dar palpite, o que acabou conseguindo mais tarde, em 1937.

Todos os golpes ou tentativas de golpe no Brasil, até 1964, todos, todos, até a Intentona Comunista, têm a participação dos tenentes. Aí eles não são mais tenentes, óbvio. São generais. Pouco importa: o espírito do tenentismo está lá, torcendo o nariz para a manha dos casacas, ansiando pela rígida integridade militar.

Bolsonaro não tem a sofisticação, o currículo, nem o preparo intelectual dos tenentes, mas ele foi o único militar a declarar suas ambições políticas depois da redemocratização. Fosse há 25 anos, fosse há 15, fosse há 10, seu discurso grosseiro seria considerado piada. Ninguém o levaria a sério. Mas as crises do Executivo e do Legislativo fizeram com que as pessoas enveredassem pela mesma via do florianismo e do tenentismo: de olhar o Exército como um bálsamo moralizante, como a instituição de salvação nacional. Verissimo tem razão de se surpreender, porque se trata de uma solução antiga e que não deu certo antes. Mas, bem, desde a infância o Brasil aprendeu a ser assim.

DAVID COIMBRA

quinta-feira, 26 de setembro de 2019



26 DE SETEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Quando o presidente mandou bombardear São Paulo

Há algo pior do que uma pessoa má: uma pessoa má com medo. Porque o medo, primeiro, faz recuar - a pessoa tenta se proteger. Acuada, ela não suporta a pressão daquele sentimento que a oprime e passa para a etapa seguinte: o ataque. Mas ela é má e, sendo má, será mais do que agressiva; será cruel.

Assim era o presidente Arthur Bernardes: um homem mau que sentia medo. Tinha razões para temer. Os 18 do Forte tentaram derrubá-lo em 1922, em 1923 explodiu a revolução no Rio Grande do Sul e, em 1924, deu-se uma tragédia que o Brasil esqueceu, tanto que é chamada, precisamente, de A Revolução Esquecida. Você pode achar que tudo o que estou contando é irrelevante hoje, mas é o contrário: tem muito a ver com o que acontece hoje, e explicarei por quê.

Bem.

Em 5 de julho de 1924, dia em que se completavam dois anos da marcha suicida dos 18 do Forte, uma revolta muito mais séria eclodiu em São Paulo. A coincidência não se deu por acaso. Os líderes das duas rebeliões eram jovens tenentes representantes da nova classe média brasileira.

Esse ponto é importante: a nova classe média. Naquela época, como agora, a classe média estava descontente com a maneira como o Brasil era governado. Há cem anos, o problema era o revezamento das oligarquias "café com leite" no poder. No caso, mais café do que leite. Os produtores de café eram os donos do país, escolhiam os presidentes e usavam os recursos dos impostos em proveito próprio.

Mas o Brasil já não era mais aquele país tosco dos tempos do império. Havia gente que pensava, e que não pertencia a essa oligarquia, vide a Semana de Arte Moderna de 22. Foi dessa classe, que se sentia espoliada e não representada, que saíram os tenentes.

Hoje não é tão diferente, só é mais sofisticado, há mais atores. A classe média olha para cima e vê banqueiros e empreiteiros beneficiados com financiamentos amigos; olha para baixo e vê a horda do que Marx chamou de lumpesinato assaltando, roubando e matando; olha para os lados e vê funcionários públicos com estabilidade no emprego. Como nos anos 20 do século 20, a classe média sustenta o resto do país e não aguenta mais, só que dela não saíram tenentes, e sim procuradores, juízes e policiais.

Em 1924, os paulistas tiveram mais sucesso do que os cariocas de 1922. Eles tomaram o palácio do governo e colocaram o presidente da província para correr. O mesmo foi feito em cidades do interior, onde revoltosos ocuparam as prefeituras. Assustado, Arthur Bernardes reagiu de imediato: mandou que as Forças Armadas atacassem a cidade sem piedade. Os paulistas arrancaram os paralelepípedos dos leitos das ruas para levantar trincheiras e se armaram com o arsenal do que, na época, era uma espécie de Polícia Militar, mas Bernardes não se intimidou. Tropas federais invadiram as ruas de São Paulo atirando, apoiadas por tanques de guerra, e os bairros foram bombardeados por aviões. Antes de Londres, antes de Dresden, a cidade aberta de São Paulo sofreu bombardeio aéreo, com a diferença de que quem atacava falava a mesma língua de quem era atacado. As bombas mataram mais de 500 pessoas, feriram quase 6 mil e outras 300 mil fugiram da cidade. Grande parte do parque industrial de São Paulo foi destruída. Nada menos do que 2 mil prédios foram postos abaixo.

Depois de três semanas, os rebelados fugiram. Alguns foram presos e levados para o campo de concentração do Oiapoque. Outros se infiltraram pelo interior do país e marcharam ao encontro de outro grupo tenentista que havia se rebelado no Rio Grande do Sul. A junção dessas duas tropas formaria a Coluna Prestes.

Estou apressando a história, há muito para contar. Amanhã, mostrarei como tudo aquilo se reflete no que ocorre hoje. Mas, antes, pense: no Brasil, houve uma guerra civil em que o governo mandou bombardear a maior cidade do país. Você consegue imaginar uma atrocidade dessas? Nós já fizemos coisas terríveis e permitimos que coisas terríveis fossem feitas conosco. Mas não lembramos delas e, assim, corremos o risco de vê-las acontecendo outra vez.

DAVID COIMBRA


26 DE SETEMBRO DE 2019
L.F.VERISSIMO

Re Piketty

Saiu outro livro do Thomas Piketty, o economista francês cujo livro anterior, O Capital no Século 21, causou enjoos na direita e euforia na esquerda porque destruía a tese de que era só deixar o capitalismo solto que com o tempo ele resolveria tudo, da desigualdade social ao bicho-do-pé. O título do novo livro é Capitalismo e Ideologia e ele consegue ser maior em número de páginas do que o anterior. Apesar do alvoroço que causou, O Capital no Século 21 não fez maiores estragos no pensamento econômico da época porque, segundo os cínicos, ninguém conseguia carregar, que dirá ler, um volume daquele tamanho. Ler na cama, arriscando um aprofundamento do esterno, então, nem pensar.

Mesmo assim, O Capital no Século 21 vendeu mais de 2 milhões de exemplares e foi considerado o mais bem-sucedido livro sobre economia publicado no mundo depois da Teoria Geral do John Maynard Keynes. Com uma diferença: o livro de Keynes foi lançado no fim da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo se organizava para evitar a repetição de tragédias como a guerra e o clima geral de otimismo permitia pensar na economia como uma entidade racionalizável, seguindo a teoria de Keynes. 

Já Piketty lança seus livros num mundo radicalizado pelo predomínio do capital financeiro e uma desigualdade social explosiva que parece irreversível, imune a qualquer tipo de racionalização. Outra diferença entre Keynes e Piketty é o estilo, não das teses, mas da sua apresentação. Keynes era um intelectual de gostos finos, Piketty recorre à cultura pop e a personagens da ficção popular (Jane Austin, Dickens, Balzac) para tornar a leitura dos seus tijolos mais agradável.

O novo Piketty foi publicado, por enquanto, só na França. Sairá em inglês em março. Sua mensagem é a mesma do outro livro: o capitalismo, do jeito que vai, caminha para um desastre. Como evitar o desastre? Taxar mais os mais ricos. Mudar as leis de sucessão que só favorecem fortunas herdadas. Etc. Piketty não é comunista. Se declara um social-democrata no modelo europeu, só disposto a levar o social e o democrático um pouco mais longe. Um bom exemplo.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 25 de setembro de 2019



25 DE SETEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Discurso de Bolsonaro foi importante

Bolsonaro fez um discurso importante na ONU. Preste atenção ao adjetivo que empreguei: "importante". Não disse que gostei do que ele falou, nem que não gostei. Isso direi em seguida. Por enquanto, repito e destaco: foi importante. Tanto que preciso interromper a sequência de crônicas que vinha escrevendo desde segunda-feira. Agora, devo me ater ao que Bolsonaro falou da tribuna, em Nova York

Em primeiro lugar, ele surpreendeu porque falou BEM - ainda me ocupo da forma, não do conteúdo. O discurso de Bolsonaro teve coerência e força suficientes para capturar 100% da atenção de quem o ouvia. Ele conseguiu até corrigir grande parte de seus defeitos de dicção, escandindo as sílabas das palavras de pronúncia mais complexa, como "compromisso intransigente".

Usei, no parágrafo acima, a palavra "força". Ela resume o conteúdo da fala de Bolsonaro. Ele foi contundente do princípio ao fim. Começou alarmante, com um tom de enfrentamento ideológico juvenil. Ali estava toda a lenga-lenga que alimenta as redes sociais: Venezuela, socialismo, médicos cubanos, governos do PT. Era como se o presidente do Brasil estivesse em meio à discussão de um grupo de WhatsApp.

Mas, na sequência, Bolsonaro entrou no assunto que hoje mobiliza o planeta: a questão da Amazônia. Aí, ele foi bem. Trouxe dados sobre o tamanho das reservas indígenas e de aproveitamento de terras para a agricultura, garantiu que o governo trabalha em favor da preservação e se posicionou com firmeza contra qualquer ameaça de intervenção estrangeira no Brasil. Como ilustração e apoio, trouxe uma índia, que filmava a sessão com um celular, e uma carta assinada por lideranças indígenas que ele leu da tribuna. Bolsonaro cresceu nesse momento, estava se comportando com a grandeza de um chefe de Estado, até dar espaço para seus ressentimentos e sentenciar:

- Acabou o monopólio do senhor Raoni!

O que é que o cacique Raoni estava fazendo no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU? Eis algo que só Bolsonaro pode responder, porque foi ele que o colocou lá.

Outro personagem citado nominalmente foi Sérgio Moro, também com certo exagero, porque Bolsonaro o elevou quase que à condição de único responsável pelo combate à corrupção no país. A partir desse ponto, houve inesperados trechos de bom senso, amparados em fatos como a diminuição de 20% no número de homicídios no Brasil. Mas, ao chegar perto do encerramento, o delírio ideológico retornou com vigor. Lá estava, outra vez, a peroração cansativa das redes sociais e da campanha eleitoral:

- A ideologia invadiu nossos lares para investir contra a célula-mater de qualquer sociedade saudável: a família. Tentam ainda destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica.

Não precisava.

Sei que, neste momento, todos os que gostam de Bolsonaro estão elogiando o discurso e todos os que não gostam estão criticando. Os dois lados estão certos: há o que elogiar e o que criticar. De qualquer forma, Bolsonaro atingiu seu objetivo: o que falou foi ouvido e será debatido por bastante tempo. Certamente não lhe renderá novas alianças, porque ele não deu espaços à negociação. Mas, pelo menos, Bolsonaro deixou bem exposto e definido o que pensa e no que acredita. E quem realmente ele é.

DAVID COIMBRA


25 DE SETEMBRO DE 2019
NÍLSON SOUZA

Que Deus te elimine!

Do jeito que os grandes líderes do planeta utilizam as redes sociais para tudo, o corretor ortográfico ainda vai provocar uma catástrofe mundial. Na planície, esse intrometido recurso digital tem feito estragos. Quando não provoca risos, provoca mal-entendidos e desconfianças que nem sempre se desfazem com a correção da correção - isso quando essa tentativa de consertar não resulta em dano ainda mais grave.

Outro dia eu conversava amistosamente com uma amiga, fiz uma observação inocente sobre um tema de interesse comum e ela me devolveu:

- Chato!

Apressei-me em reler o que havia escrito. Não havia nada errado. Quando já me preparava para teclar um pedido de explicação, ela se antecipou:

- Claro*! Eu quis escrever "claro". Maldito corretor.

Entendi perfeitamente, pois também já caí nessa armadilha. Às vezes nem é o algoritmo que apronta. São os nossos dedos e a nossa urgência em enviar a mensagem antes da necessária revisão. No caso deste diálogo que pesquei numa página de curiosidades da internet, nem dá para saber se o responsável pela gafe foi o corretor ou a pressa. O rapaz pergunta à moça:

- Vem aqui em casa amanhã?

Ela responde:

- Nem vai dar. Amanhã vou estar no cio.

Rápido no gatilho, o jovem digita:

- Melhor ainda!

- No Rio*. No Rio de Janeiro. Idiota!

E dê-lhe asteriscos. O corretor ortográfico, que de vez em quando se intromete também na sintaxe, valorizou o asterisco no teclado. Mesmo digitadores cuidadosos passam dificuldade para vencer as resistências do sabichão, que muitas vezes simplesmente se recusa a aceitar frases menos convencionais. Li outro dia a queixa de um professor de português que tentou escrever "a falta que fazem as aulas...". O corretor tratou de botar no plural o que lhe parecia ser o sujeito da oração: "a(s) falta(s)".

Errrrou! - como diria o Faustão.

Aliás, gente famosa também se atrapalha. A modelo Ana Hickmann foi legendar uma foto do filho no Instagram e saiu o seguinte por conta da intervenção não solicitada do corretor:

- A mamãe está comunista saudade.

Era para ser, evidentemente, "com muita" saudade. Nestes tempos paranoicos de ideologização desenfreada, a gaúcha correu sérios riscos.

Há também os equívocos recorrentes, na maioria das vezes resultantes de mensagens bem-intencionadas, como o clássico "Que Deus te elimine!".

- Ilumine*. Ilumine*.

Que Deus elimine os mal-entendidos antes que o pior ocorra. Há poucos dias, Donald Trump tuitou uma letra a mais numa postagem e chamou o príncipe Charles de "príncipe das baleias", Whales, em vez do termo correto para Wales, região do sudoeste da Inglaterra. Como se trata de um aliado incondicional, o norte-americano nem precisou se corrigir. Imaginem, porém, se ele comete uma dessas com Putin, com o baixinho da Coreia do Norte ou com o aiatolá iraniano. Nem mil asteriscos evitariam um conflito.

Governantes poderosos deveriam ser impedidos de usar smartphones.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 24 de setembro de 2019


24 DE SETEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

A marcha da morte e a marcha do amor


Esta crônica você não pode, de jeito nenhum, mostrar para o meu filho. Fica entre nós, não posso dar mau exemplo. É que o que vou contar aconteceu quando eu estava mais ou menos com a idade dele - ele tem 12 anos e eu tinha, no máximo, 14.

Eu estudava no Costinha, no Parque Minuano, e morava no IAPI. Meio longe. Precisava acordar cedo, caminhar pela Plínio até a Assis Brasil e lá tomar um Sarandi invariavelmente lotado. Dureza.

Bom. Nessa manhã, saí de casa com a minha pasta debaixo do braço e, ao botar os guides na calçada, sabe qual foi a primeira pessoa que vi?

Aquela loirinha.

Sândi, o nome dela. Morava no mesmo prédio que o Amilton Cavalo e olhava para a gente com uns olhos azuis da cor do mar do Siriú em 15 de fevereiro. Ela tinha boas pernas, aquela Sândi, e ondulava dentro de uma sainha plissada de colegial, poucos metros à minha frente. "Gol do Brasil", pensei, avançando decidido como a Divisão Panzer sobre a Floresta das Ardenas.

Em um minuto, havia emparelhado com ela. Em um minuto e 10 segundos, havia disparado a minha famosa cantada infalível. Em um minuto e 30 segundos, ela ria e ria, e o riso de uma mulher, mesmo menina, é o que lhe amolenta o coração.

Então, lá fui eu, desempenhando, até chegar à parada do ônibus. Só que ela iria continuar, seguiria a pé para a escola. Perguntei onde era e ela respondeu:

- Perto da Estrada do Forte.

Não fazia ideia de que lugar era aquele, mas, puxa, era uma estrada e sediava um forte, não parecia algo muito urbano. Se fosse com ela até lá, chegaria atrasado, não poderia entrar na aula. Minha mãe, se descobrisse, ficaria furiosa. Seria uma irresponsabilidade terrível.

Sendo assim, tomei a atitude que devia tomar: continuei caminhando ao lado dela e matei a aula.

Foi legal. Aquele passeio foi o começo do meu namorinho com Sândi e, além disso, a manhã de vagabundagem foi muito divertida. Me senti? livre.

Desde aquela época, a Estrada do Forte, depois promovida a avenida, se fixou na minha mente como o marco de uma ousadia infantojuvenil. E, durante décadas, eu jurava que o tal forte homenageado era o de Copacabana. Mas, não. Descobri, não faz muito, que houve um forte naquele local, erguido pelo General Neto durante a Revolução Farroupilha, e servia PARA SITIAR PORTO ALEGRE. Não é estranho que uma cidade festeje quem o atacou?

Claro que é, mas o que quero revelar é que, por volta daqueles dias, a minha professora de História no Costinha entrou, exatamente, no capítulo dos 18 do Forte de Copacabana. Para mim, era um sinal do Senhor. Estava tudo conectado, a marcha dos 18 do Forte era como a minha marcha ao lado de Sândi.

Eu é que estava desconectado, óbvio, mas aquilo serviu para que me interessasse pela história dos 18 do Forte, e essa é uma história espantosa.

Os militares do Forte de Copacabana e outros, de outros quartéis do Rio, queriam derrubar o governo Arthur Bernardes. Para tanto, planejaram um golpe em julho de 1922. Só que o golpe deu errado e só restaram 30 oficiais no Forte, cercados de MILHARES de soldados leais ao governo.

Depois de dias de impasse, eles fizeram como eu: decidiram pelo que as mães deles não recomendariam. Saíram em marcha suicida pela Avenida Atlântica, dispostos a só parar no Palácio do Catete. No caminho, vários militares desertaram e um civil se juntou a eles. Continuaram em frente cerca de 18 revoltosos, não mais do que 20. E eles avançaram pelo menos 16 quadras, de peito aberto, trocando tiros com MAIS DE MIL inimigos por inacreditáveis DUAS HORAS.

Morreram quase todos. Sobraram Siqueira Campos, que virou estátua e nome da rua onde a marcha foi interrompida, e Eduardo Gomes, que virou o doce brigadeiro. Por que tanto heroísmo desatinado? Para derrubar o facínora Arthur Bernardes. De quem seguirei falando. Tem a ver com os dias de hoje, acredite, confie e espere.

DAVID COIMBRA



24 DE SETEMBRO DE 2019
ARTIGOS

LIBERDADE ECONÔMICA: A NOVA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

O Brasil conquistou uma importante vitória com a entrada em vigor da Medida Provisória da Liberdade Econômica, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 20 de setembro, data em que nós, gaúchos, relembramos a Revolução Farroupilha. A nova legislação diminui a burocracia para atividades econômicas e facilita a abertura de empresas. O estímulo ao empreendedorismo, aliado a reformas estruturais na máquina pública, é uma das propostas do governo para aumentar a oferta de emprego e a renda da população.

Por si só, as regras estabelecidas já representam um formidável avanço na maneira com que o Estado se relaciona com o indivíduo - em benefício deste. Entretanto, o Rio Grande do Sul pode ampliar os benefícios da lei federal se aprovar tanto na esfera estadual quanto nas municipais medidas com os mesmos princípios.

Neste caso, após 174 anos do término da conflagração farrapa, motivada também pelos altos tributos cobrados pelo governo central sobre o charque e o sal, estaríamos finalmente conquistando no Estado um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico e, quem sabe, à redução de impostos no futuro.

O caminho para avançar já está desenhado. Na Assembleia Legislativa, tramita o projeto de Lei 231/19, de minha autoria, que aplica nos órgãos estaduais os conceitos de presunção de boa-fé do indivíduo e de ingerência mínima e excepcional do Estado sobre as atividades empresariais. Além disso, criamos no parlamento gaúcho uma subcomissão mista para incentivar o desenvolvimento de regramentos similares pelas prefeituras, de acordo com a realidade local. Assim, será possível replicar em diversos municípios o positivo exemplo de Esteio.

A cidade gaúcha foi a primeira no Brasil a desburocratizar diversos processos para quem deseja abrir uma empresa. A partir de então, o número de aberturas de novos negócios aumentou 30% em apenas um mês de vigência da lei - uma façanha que serve de exemplo a toda terra.

Façamos, portanto, da liberdade econômica a nossa Revolução Farroupilha contemporânea. Conceder autonomia para o gaúcho criar riqueza é a solução para que o Rio Grande do Sul reencontre o caminho do crescimento.

RODRIGO LORENZONI

24 DE SETEMBRO DE 2019

CARPINEJAR

Professor


Um professor sempre será melhor do que o Google.

Porque o professor não dá uma informação, conta histórias.

Porque o professor funciona mesmo sem wi-fi, mesmo sem luz, mesmo no temporal.

Porque o professor não facilita a busca, exercita a memória.

Porque o professor não cria dependência, mas possibilita amizades.

Porque o professor pode mudar o destino de um assunto, voltar atrás, recomeçar de novo, dependendo das necessidades da turma.

Porque o professor não realiza só o que você deseja, vai além com detalhes e comparações.

Porque o professor lê a sua alma quando levanta o dedo para a pergunta, não apenas recebe uma dúvida.

Porque o professor também se importa com aquilo que não entendeu mais do que aquilo que quis perguntar.

Porque o professor escolhe falar do que ama. Você não está apenas tendo uma aula sobre um conteúdo, e sim testemunhando uma história de amor.

Porque o professor não coloca o seu salário acima da vocação, não coloca as circunstâncias acima dos indivíduos.

Porque o professor não julga, é todo feito para compreender, e enxerga a nota como um retrato provisório de sua curiosidade. Aposta na recuperação milagrosa quando nem mais a família tem esperança.

Porque o professor não pratica nenhuma competição, não patenteia as suas frases, não sonega o que viveu, repassa tudo o que assimilou na carreira.

Porque o professor vislumbra o que você pode vir a ser, não se fixa em sua idade.

Porque o professor já foi aluno e entende que a atenção é resultado da confiança.

Porque, quando dá as costas, o professor continua enxergando com os ouvidos.

Porque o professor não tem pressa, já que cada um tem o seu ritmo.

Porque o professor não é onipotente. Faz humor quando erra. Você aprende a ser humano como ele.

Porque o professor fica feliz quando alguém demonstra saber mais do que ele.

Porque o professor realiza trabalhos em grupo para os alunos se admirarem pelo conhecimento.

Porque o professor cede o seu espaço para apresentações, torcendo para que um aluno goste de ser professor no futuro.

Porque o professor sofre com elegância. Nunca saberá quando está triste. Ele inspira a seguir adiante ainda que sem ânimo, a não parar a rotina devido a algum descontentamento.

Porque o professor é o próprio livro falado, encadernado de expectativas de que vá até o fim.

Porque o professor repassa a lista de chamada para você se pertencer dia após dia.

Porque o professor diferencia a ignorância da burrice. Ignorância é falta de vontade, burrice termina com o esforço.

Porque o professor corrige as suas provas com comentários, personalizando as falhas e os acertos.

Porque o professor acredita em você. O Google acredita apenas em algoritmos.

CARPINEJAR

segunda-feira, 23 de setembro de 2019


23 DE SETEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA
O nosso presidente negro

Já houve campo de concentração no Brasil. Tivemos, nós também, o nosso Auschwitz. Chamava-se Clevelândia, em bizarra homenagem ao presidente americano Grover Cleveland. Ficava no meio da selva inóspita, nas lonjuras do Oiapoque, lá onde o Brasil começa. Ou termina, dependendo do ponto de vista. A maioria dos homens que foram presos nesse lugar terrível, apelidado de "Inferno Verde", morreu ante os maus-tratos, as torturas, as doenças.

Nem faz tanto tempo assim que essa infâmia aconteceu, foi nos anos 20. Conto a história para mostrar que o que se deu naquela época tem a ver com o que hoje se dá.

Quem concebeu esse campo de concentração foi o presidente Arthur Bernardes, que virou nome de muita rua e avenida pelo Brasil, mas que, na verdade, foi um homem cruel, autoritário e até sanguinário. Se você der uma googlada e pesquisar as fotos de Bernardes, verá um tipo de rosto fino, cabelo puxado severamente para trás e jamais sorridente. Sei porque ele não sorria: porque estava sempre atormentado por seus medos e ressentimentos.

Bernardes foi escolhido presidente em um daqueles processos fraudulentos das eleições na Velha República. Na verdade, se formos considerar eleições de massa mesmo, com real participação popular, o Brasil só foi ter uma em 1945. Repare como nossa democracia é renga: o maior período de normalidade política da nossa história, com eleições limpas e sem que um presidente deixasse o cargo por impeachment, golpe, renúncia ou suicídio, foram os 20 anos transcorridos entre Fernando Henrique e o primeiro mandato de Dilma. E, no meio disso, ainda houve uma mudança de regras, com a permissão de reeleição em 1996.

Aliás, sou contra a reeleição.

Mas isso não interessa agora, interessa é recuar até 1922, quando Arthur Bernardes foi "eleito" presidente. O candidato de oposição era Nilo Peçanha, que, de fato, era o oposto de Bernardes. Tenho a maior simpatia por Nilo Peçanha, que havia sido presidente 12 anos antes. Ninguém fala, mas sabe o que ele era?

Era negro.

Garanto que, quando sua professora ensinou sobre o governo Nilo Peçanha não contou que ele era negro. Mas era. Ou, se você preferir, mulato. A propósito, não vá atrás dessa história de que "mulato" é pejorativo por vir de "mula". Etimologistas sérios já esclareceram que mulato vem do árabe "mullawad", que é o filho de um muçulmano com um cônjuge não muçulmano.

Nilo Peçanha, portanto, era mestiço, pardo, mulato. Assumiu a Presidência quando Afonso Pena morreu, em 1909, um mês antes da realização do primeiro Gre-Nal, e governou por menos de um ano e meio. Nesse curto período, porém, incentivou a abertura de escolas técnicas, que foram importantíssimas para que os pobres tivessem acesso à educação, e criou o famoso Serviço de Proteção ao Índio, comandado por um dos mais extraordinários personagens da história do Brasil, o marechal Cândido de Rondon. Esse homem, Rondon, foi um herói. Um verdadeiro herói. Ele?

Mas estou tergiversando. Queria falar de Arthur Bernardes, aquele sacripanta, e não paro de abrir abas na história. Deixe-me, então, acabar de falar de Nilo Peçanha. Sabe qual foi o lema que Nilo Peçanha lançou em meio ao seu governo? Você não vai acreditar: "Paz e amor".

Que tal? Tivemos um presidente negro cem anos antes de Obama e de alma pacifista 60 anos antes dos hippies. Uma espécie de Bob Dylan caboclo. Peninha, exijo agora um vídeo alentado sobre o bravo Nilo Peçanha! E outro sobre o biltre Bernardes. De quem continuarei falando amanhã.

DAVID COIMBRA