sábado, 27 de abril de 2019



27 DE ABRIL DE 2019
DRAUZIO VARELLA

DEPRESSÃO PERINATAL

De 10% a 15% das mulheres que dão à luz caem numa tristeza que não tem fim, sem entender o que se passa nem identificar a causa de tanta infelicidade, num momento que julgavam trazer-lhes muita alegria
Conforme as estatísticas, 50% a 80% das puérperas apresentam crises de irritabilidade e disforia, que se iniciam dias depois do parto, mas regridem espontaneamente em duas ou três semanas. Esse estado é atribuído às alterações hormonais desencadeadas pela proximidade do parto, entre outros fatores.

No entanto, 10% a 15% das mulheres que dão à luz caem numa tristeza que não tem fim, sem entender o que se passa nem identificar a causa de tanta infelicidade, num momento que julgavam trazer-lhes muita alegria.

É uma das principais complicações do parto. Seus efeitos adversos são múltiplos: aumento do risco de prematuridade, crises de choro, apatia, sonolência ou insônia, anorexia ou compulsão alimentar, perda de libido, ansiedade, crises de pânico, desleixo nos cuidados com o recém-nascido, alterações emocionais que interferem com o relacionamento mãe-filho e causam desentendimentos familiares.

O impacto emocional da depressão materna pode prejudicar o desenvolvimento neuropsicomotor da criança, com consequências a médio e longo prazo. Nos casos extremos, existe risco de suicídio da mãe.

O United States Preventive Services Task Force (USPSTF) acaba de publicar as recomendações para que médicos clínicos e obstetras encaminhem para aconselhamento psicoterápico pacientes grávidas, ou no pós-parto, que apresentem risco aumentado para desenvolver depressão.

Diversos fatores clínicos e sociodemográficos estão associados ao aumento desse risco. Entre eles, violência doméstica, dificuldades financeiras, gravidez não planejada ou indesejada, falta de apoio familiar e social, histórico de sintomas depressivos ou episódios de depressão no passado.

O USPSTF considera que a fase perinatal é especialmente oportuna para intervenções preventivas, porque a mulher está motivada a adotar comportamentos que promovam bem-estar pessoal e do bebê. Recomenda que os profissionais procurem consultar o Antenatal Risk Questionnaire ou o Postpartum Depression Predictors Inventory, para ajudá-los a identificar outros fatores de risco.

Os médicos não devem esperar até que os sintomas se instalem para recomendar a intervenção. Estudos mostram que o aconselhamento precoce está associado a 39% de redução na probabilidade de surgir depressão no período perinatal. Os métodos mais estudados têm sido a terapia cognitivo-comportamental e a psicoterapia interpessoal.

Infelizmente, o número de mulheres que necessitam de cuidados psicoterápicos perinatais é muito maior do que a disponibilidade de acesso aos serviços do SUS em condições de atendê-las.

A identificação dos fatores de risco, dos primeiros sintomas e do histórico de quadros depressivos anteriores é fundamental para a prevenção da doença. Quanto mais precoce o acompanhamento psicoterápico através da terapia cognitivo-comportamental ou da psicoterapia interpessoal, melhores serão os resultados.

DRAUZIO VARELLA


27 DE ABRIL DE 2019
PAULO GLEICH

SAIR DE CASA ACONTECE CADA VEZ MAIS TARDE

Na minha adolescência, tudo o que eu queria era sair de casa. Não que a vida em família fosse tão penosa assim, mas ansiava pela liberdade que morar sozinho me traria: dormir a hora que quisesse, receber amigos e crushes a qualquer momento, decidir sobre minha alimentação. Isso também era manifestado pelos meus pais, que repetiam: quando tiveres 18 anos, poderás decidir o que fazer da vida.

Claro que aos 18 estava longe de ter toda a maturidade imaginada, mas, assim que foi possível, fiz minhas trouxinhas e me mandei. Aos poucos, fui equalizando os hábitos, descobrindo minha própria rotina, longe da casa dos pais. Virei noites fazendo trabalhos para a faculdade deixados para a última hora, perdi aulas por não ter conseguido abrir mão de uma festa imperdível, ajustei hábitos ao orçamento.

Os tempos mudaram, e as gerações atuais saem cada vez mais tarde de casa. Há um contexto econômico, diferente de 20 anos atrás, sempre apontado como fator determinante. Mas desconfio que não seja o único: com frequência, falta aos jovens o desejo de sair da casa dos pais. Estes, menos rigorosos e restritivos do que os de antanho, abrem espaço para liberdades pouco comuns nas gerações anteriores: podem levar namorados, fazer festas, ir e vir quando bem desejam - e tudo isso com comida e roupa lavada.

O que parece um cenário com o melhor de dois mundos pode ser, muitas vezes, uma espécie de prisão de luxo. Seduzidos pelas tolerantes benesses do lar parental, os filhos não veem sentido em passar perrengues - como juntar trocados para pagar a conta de luz ou comer miojo por uma semana - apenas para ter algo que, supostamente, têm em casa: a liberdade de ir e vir, de fazer o que desejam. Com esse véu de liberalidade, a alienação passa quase despercebida, mas com frequência está lá: há uma dependência que transcende a questão econômica, que diz da dificuldade de filhos e, sobretudo de pais, de se separarem.

Nesse contexto, uma saída comum na atualidade têm sido as experiências de intercâmbio ou de uma temporada no Exterior. Toleradas e até estimuladas pelos pais, ciosos de investir no futuro profissional dos filhos, acabam sendo aproveitadas por estes como uma espécie de estágio da vida adulta: aprender a lidar com colegas de apartamento, dar conta dos cuidados que uma casa requer, aventurar-se para além do restrito contexto conhecido por muitos jovens de classe média alta.

Há casos em que a saída de casa torna-se um desafio tão grande que só parece justificável, para o jovem e para os pais, quando envolve a mudança para outra cidade. Afinal, por que ele sairia de casa para morar na mesma cidade, em outra casa? É essa distância geográfica que, com frequência, dá lugar a uma elaboração do que se vivia e sentia, sem se dar conta, na proximidade. É ela também que permite perceber um estranhamento em relação aos hábitos familiares, abrindo espaço para perguntar-se sobre o próprio desejo.

Sair de casa é sempre um desafio, pois mesmo longe dela a levamos conosco, sem perceber. Começamos a entender o mundo e a vida a partir das relações familiares, e precisamos de alguma distância delas para criarmos nosso próprio estilo e lugar no mundo. Estes, é claro, sempre terão as marcas do que recebemos em casa. No entanto, requerem alguma separação, física - mas sobretudo psíquica - para que não sejam apenas uma repetição daquilo que se herdou dos laços de família.

Paulo Gleich escreve a cada 15 dias neste espaço. Na próxima semana, leia a coluna de Christian Dunker - PAULO GLEICH


27 DE ABRIL DE 2019
INFÂNCIA

POR QUE BRINCAR DE GUERRA

Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, o português Carlos Neto não foge a temas polêmicos relacionados ao desenvolvimento infantil. Em entrevista por e-mail, ele falou da importância das brincadeiras de luta, guerras e "brigas" entre crianças, ainda hoje vistas como nocivas por pais e especialistas.

INFLUÊNCIA DOS JOGOS NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS

"O processo de desenvolvimento humano ocorre entre duas dinâmicas opostas e complementares: a procura de proximidade (segurança) e a necessidade progressiva de distanciamento (autonomia). As crianças menores procuram afeto, e as mais velhas, independência. Esse é um fenômeno que acontece em quase todas as espécies animais. Trata-se de uma questão de sobrevivência e de aquisição de ferramentas muito úteis para se tornar adulto. Esse mecanismo adaptativo é ainda mais particular no ser humano por ter uma infância relativamente longa e necessitar assegurar a sua sobrevivência através de uma relação muito complexa entre mudanças que ocorrem no seu corpo e no seu ambiente. O desenvolvimento do jogo e da motricidade permite uma conquista progressiva de autonomia do homem através de referências biológicas e culturais.

BRINQUEDOS BÉLICOS E DESENVOLVIMENTO

"Se as famílias e as escolas não fornecerem brinquedos bélicos às crianças, elas terão a ocasião de encontrar objetos que imitarão esse tipo de brincadeira. Esses brinquedos bélicos naturais, artesanais ou industriais (como a maior parte de jogos de guerra eletrônicos), são fundamentais para o desenvolvimento motor, cognitivo e social. Elas brincam de guerra (faz-de-conta) de forma simbólica e adquirem várias competências muito importantes: noção de ataque, defesa, território, fuga, simulação, sobreviver, morrer.

A IMPORTÂNCIA DAS BRINCADEIRAS DE LUTA

"Elas são uma das mais fascinantes linguagens do corpo em uma perspectiva evolutiva. Os comportamentos de jogo de luta a brincar (play-fighting), jogo de perseguição e caça (play-chasing) e jogo de luta a sério (real-fighting) têm sido largamente estudados no comportamento animal e humano. Todas as crianças saudáveis têm necessidade de brincar de lutas ou de jogos de perseguição. São atividades ancestrais que devem fazer parte das culturas lúdicas na infância."

PAIS DEVEM PROIBIR OU NÃO?

"O contato físico através dessas brincadeiras e a consequente perseguição são comportamentos que não devem ser proibidos. Pelo contrário, devem ser implementados entre pais e filhos em casa, entre as crianças no recreio ou em jogo livre nos espaços exteriores. Reprimir esse tipo de brincadeira é um erro estratégico do ponto de vista educativo e terapêutico. No entanto, devemos ter atenção quando assistimos a lutas a sério de forma repetida em crianças (principalmente nos recreios escolares), porque isso pode denotar comportamentos de bullying."

LUTAS ESTIMULAM AGRESSIVIDADE?

"Essas formas de brincar são muito importantes durante a infância e uma estratégia decisiva em interiorizar e humanizar os impulsos agressivos que fazem parte da natureza humana. As nossas pesquisas vêm demonstrando que os jogos de luta e a utilização de brinquedos bélicos têm um estereótipo predominantemente masculino e não se verificou, nas crianças estudadas, alterações ou aumento de comportamentos antissociais ou agressivos entre pares. Devemos ainda lembrar que os brinquedos bélicos têm uma existência muito significativa em todos os estudos realizados em pesquisas etnográficas sobre jogos tradicionais na infância, em diversos continentes e culturas. Há muitos benefícios no desenvolvimento da criança na utilização destes objetos lúdicos, apesar da polêmica científica e pedagógica ainda existente sobre o papel nocivo dos brinquedos bélicos."

Gazeta do Povo - ADRIANO JUSTINO

27 DE ABRIL DE 2019
JJ CAMARGO

OS RAIVOSOS



Desfilam em todas as áreas e nunca dão certo - no trabalho, no amor, na vida. Abastecem-se de uma pretensa incompreensão para tentar dissimular a sua estrondosa mediocridade
Os raivosos sempre existiram, com variações percentuais, em função do contexto histórico, mas sempre tendo ao outro como alvo indispensável, porque, afinal, que sentido teria uma grande raiva sem um fiel depositário?

Em todas as áreas, com as vítimas correspondentes, desfilam os raivosos, cheios de uma convicção, que nunca admitirão precária, sobre estarem certos e apesar disso incompreendidos, e desta pretensa incompreensão se abastecem para tentar dissimular a sua estrondosa mediocridade. Uma parte significativa desse contingente é formado por aqueles que, não fazendo, não toleram que os outros façam.

Como o raivoso não sobreviveria tendo raiva sozinho, ele tende a buscar companhia, procurando parceiros que indispensavelmente tenham raiva das mesmas coisas, ideias ou pessoas, e essa necessidade de compartilhar faz com que os raivosos se agrupem, e assim nascem os grupelhos e as seitas, seguidas por muitos prosélitos.

Para que esse tipo de comunidade se mantenha e prospere, é indispensável que haja um líder, que será identificado como aquele que sinta tanta raiva que os outros passem a temê-lo mais do que respeitá-lo, e que se afirme como um modelo inalcançável na infinita capacidade de odiar.

Não há, nas atitudes e nos gestos, nenhum indício de generosidade, porque esse sentimento, que o raivoso pensa como um sinal de fraqueza, geraria gratidão, e definitivamente, não é possível odiar a quem retribua com reconhecimento. E então, para preservar a sua raiva intacta, ele assume a antipatia como doutrina, e é melhor que todos saibam logo com quem estão lidando. Claro que essa descoberta virá carregada de uma raiva danada por não ter pensado nisso antes.

O raivoso nunca dá certo. No trabalho. No amor. Na vida. Como ele odeia o que faz, e esse rancor é via expressa para a frustração, inconscientemente ele assume a gerência da mais eficiente usina de infelicidade: a incompetência. Como é inevitável que isso seja percebido pelos seus colegas, ele se sentirá abandonado, e isso dá uma raiva! E como ninguém consegue amar a um incompetente que, além de tudo, ainda ficou raivoso, o círculo da tristeza estará fechado.

Então aconteceu. Esse tipo, que sempre existiu, mas mantinha-se limitado ao círculo restrito da sua tacanhice, descobriu a metralhadora giratória das redes sociais, e aí começou o tempo do ódio ilimitado. As agressões são tão gratuitas que, se suspeita, o raivoso escolha suas vítimas aleatoriamente, e então fica na espreita que ao menos umazinha reaja, para que ele possa descarregar nela todo o ódio que sente de si mesmo, porque apesar da arrogância, quando apaga a luz, ele se sabe insignificante.

JJ CAMARGO



27 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA

É sempre agora

A Marcha talvez seja o romance menos conhecido de E.L. Doctorow. Ele é autor de pelo menos dois clássicos: Ragtime e Billy Bathgate. São livros tão bons, que lamento já tê-los lido. Se você não leu, sorte sua. Vá agora a uma livraria, compre os dois, vá para casa, abra um malbec e se delicie com um fim de semana perfeito.

Você não terá menos prazer ao ler A Marcha. É um belo romance. Conta a história da campanha na qual o general Sherman finalmente derrota o Exército Confederado na Guerra Civil Americana e, na prática, funda os Estados Unidos modernos.

A tática de Sherman para vencer a guerra despertou grande controvérsia e revolta. Porque seus exércitos não se limitaram a bater os inimigos no campo de batalha. Os soldados invadiam as cidades, pilhavam as casas e depois as incendiavam. As plantações eram destruídas, as fábricas eram postas abaixo, os trilhos dos trens eram arrancados, deitados ao fogo e depois entortados para que não pudessem mais ser aproveitados. Os homens de Sherman eram como gafanhotos: nada restava à sua passagem.

Mas, enquanto passavam de fazenda em fazenda, de cidade em cidade, os exércitos de Sherman iam libertando os escravos que faziam a grandeza do Sul. A descrição de Doctorow é impressionante: homens, mulheres e crianças que a vida toda tinham sido tratados como gado de repente se viam livres, donos do próprio destino. Porém, sem lugar para ir e sem ter como se sustentar, o que eles fariam? Doctorow conta esse drama.

Conta, também, os dramas de soldados dos dois lados. Um deles chama-se Albion Simms, vítima de uma explosão que faz um pino de aço penetrar em seu crânio. Apesar disso, Albion continua vivo e com todos os reflexos perfeitos. Seu cérebro, no entanto, começa a se esvaziar lentamente, como se estivesse se esvaindo pelo ferimento. Albion vai perdendo a memória. Primeiro, as mais remotas. Depois, as recentes.

O médico do regimento, Wrede Sartorius, vê no caso a possibilidade única de estudar o funcionamento do cérebro humano. Ele sabe que o soldado irá sofrer, mas o mantém amarrado a uma cadeira para poder observá-lo. Albion pede que ele desate as correias que o prendem para poder se matar, mas o médico não o atende. Desesperado, o soldado repete, às lágrimas:

- É sempre agora! É sempre agora!

Foi essa frase que me impactou. Porque, se formos pensar no futuro, o que aconteceu com o soldado não é diferente do que o que acontece com todos nós: para nós também é sempre agora. O futuro é um lugar que não existe. Você planeja chegar lá e nunca chega: é sempre agora.

A diferença é que o soldado não tem passado, e isso é insuportável.

Tudo o que você faz, faz olhando para trás. É com base na experiência que você toma atitudes pensando no futuro. Donde, a suprema relevância do passado.

O passado não é só uma coleção de fatos antigos, que não se repetirão. O passado é um patrimônio. É como se fosse uma caderneta de poupança, onde você guarda recursos para usar quando houver necessidade. Por isso, é importante saber construir o passado. É o que você está fazendo exatamente agora. É o que faz todos os dias.

Chegará um momento em que você abrirá a conta do passado a fim de procurar pessoas e experiências para ajudá-lo, para consolá-lo ou para alegrá-lo. Se você tiver armazenado dias ruins e relações ruins, o seu depósito será inútil. Mas, quando você termina o dia e pensa "esse foi um dia bom", significa que você depositou algo de positivo na sua conta. Mais tarde, essa poupança irá socorrê-lo.

Ter um bom passado de estoque é o que existe de mais seguro para um bom futuro. E o melhor: você pode usar sempre, não vai gastar nunca. Um punhado de dias bons vale mais do que um punhado de dólares, milhares de dias bons são uma fortuna. Quem sabe poupar tem.

DAVID COIMBRA

27 DE ABRIL DE 2019
MÁRIO CORSO

Por que não se produzem mais gênios?


A chamada da matéria era boa. Colocava a questão: com tanto acesso à informação, por que não se produzem mais gênios? Mas o artigo era fraco, considerações óbvias sobre como a internet é útil mas nos faz perder tempo.

Mas serviu para matutar uma outra resposta. Esta minha tese devo a um livro: As duas Culturas e uma Segunda Leitura, de C. P. Snow. Trata-se da transcrição de uma polêmica conferência em Cambridge de 1959.

Snow era um intelectual hoje raro, ao mesmo tempo físico e escritor. Portanto, estava dos dois lados do que ele chamou de "duas culturas". Referia-se a essa distinção tola que se faz sobre alguém ser de exatas ou de humanas. Como se houvesse naturalidade na oposição dessas duas formas de pensar. A palestra que originou o livro era uma reflexão sobre como essa divisão ganhava forma, ou seja, nem sempre foi assim, tornando- se uma tragédia para o conhecimento e um empobrecimento dos dois campos.

Segundo ele, criaram-se duas tribos rivais que pouco conversam e produzem mais atritos do que pontes. O mundo é um só. Nós, para facilitar o entendimento, o fatiamos com divisões arbitrárias. O equívoco é supor que as divisões acadêmicas sejam, por si só, uma verdade, e não a história das investigações que cercaram determinado objeto.

Voltando ao ponto, por que não temos novos Leonardos da Vinci? Uma das razões é essa tosca maneira de encarar o saber, que está no fundo da nossa maneira de pensar. Produzimos intelectuais amputados pela insistência na monomania temática.

Um exemplo, se uma criança mostrar aptidão para matemática, vamos enchê-la de mais matemática e esperar desempenhos brilhantes apenas nisso. Quando o ideal seria desafiá-la naquilo que ela ainda não tem. E nem digo da obviedade de acrescentar conteúdos de humanidades, acredito que ela deva praticar esporte, dançar, tocar um instrumento. Existe uma inteligência corporal motora e sensorial a ser desenvolvida, que tem reflexos na inteligência final do sujeito. O cérebro também é um só, e se nutre das várias experiências às quais foi submetido. A educação integrada o fará melhor matemático.

Não produzimos mais gênios porque treinamos sujeitos unidimensionais, fadados apenas a uma via do saber, como se fosse o melhor destino de sua aptidão, privando-o de unir os pontos desconexos da totalidade. Esse pensador monotemático não experimentará a humildade ao se defrontar com a dificuldade dos campos que não domina. Nesse caso, o dom recebido, ao invés de florescer numa personalidade complexa, pela hipertrofia, estreitará seu horizonte. Confundimos obsessões com genialidade.

Nossos heróis do Renascimento, como Leonardo, não faziam fronteiras, nem diferença de valor, entre a arte e a ciência. Exatamente por isso foram o que foram.

MÁRIO CORSO

sexta-feira, 26 de abril de 2019



Lançamentos 

Prezado Leitor (Evangraf, 120 páginas, avenidalivros@gmail.com), do consagrado e experiente jornalista e escritor porto-alegrense Sérgio Becker, mais de trinta anos de profissão e sete livros publicados, traz 10 artigos e 50 cartas publicadas em jornais, inclusive no Jornal do Comércio, falando de temas variados e defendendo, com a sabedoria de décadas de reportagem, a qualidade de vida de Porto Alegre. 

Adão e Eva, a primeira história de amor (Editora Zahar, 254 páginas, tradução de Maria Luiz X. de A. Borges), do jornalista e escritor norte-americano Bruce Feiler, colunista do The New York Times, apresenta uma visão diferente sobre Adão e Eva. Não seria uma história de pecado e, sim, uma história de amor romântico. 

A obra fala da história do próprio amor. O ocaso da Colombina - A breve história e poética da vida de Vivita Cartier (Editora São Miguel, 810 páginas) do jornalista e escritor Marcos Fernando Kirst, colunista do jornal Pioneiro, autor do premiado romance A sombra de Clara, traz a vida e a obra de Vivita (Porto Alegre, 1893-Criúva,Caxias, 1919), uma mulher e poeta adiante de seu tempo, que ajudou a recuperar e transformar o Carnaval da Capital.   

A propósito... 

Desde o nascimento até a morte, passamos por alegrias e dificuldades nas várias etapas da vida e o melhor é aproveitar, com equilíbrio, o melhor de cada momento, mesmo quando enfrentamos grandes problemas. Nas quedas as águas do rio ganham forças e a sabedoria diz que tem mola no fundo do poço. 

A hora mais escura é a que antecede o nascer do sol. Livros como Mindfulness e autocompaixão nos ajudam a sermos nossos melhores amigos e a pegar leve com nossas imperfeições, que aliás, são de todos nós, seres imperfeitos, anjos de uma asa só que precisam dos outros para voar e que são, na verdade, "trabalhos em andamento", até o apito final. Melhor dar uma mão a si mesmo do que se afundar sozinho. Tenha autocompaixão, se ame, se abrace e quando se encontrar consigo mesmo, aproveite para sair melhor do que quando chegou. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/04/680892-amor-e-coragem-na-amsterda-ocupada.html)

Jaime Cimenti 

Amor e coragem na Amsterdã ocupada

A garota do casaco azul (Rocco, 336 páginas, R$ 49,90, tradução de Rachel Agavino), da premiada jornalista e escritora Monica Hesse, do The Washington Post, narra em forma de suspense juvenil, uma pungente história sobre amor, coragem, sofrimento e resistência que tem como pano de fundo a cidade de Amsterdã no inverno de 1943, na Segunda Guerra Mundial, ocupada pelos nazistas. Monica Hesse, repórter que já cobriu casamentos reais, campanhas políticas e cerimônias do Oscar, recebeu o Prêmio Edgar Award de Melhor Suspense Juvenil por seu primeiro romance, American Fire, e por A garota do casaco azul, agora publicado no Brasil. Dois anos e meio depois de perder o namorado durante a invasão alemã à Holanda, Hanneke Bakker não é mais a mesma garota.

Trabalhando com contrabando para sustentar a família e resistir a seu modo a ocupação nazista, sem o conhecimento de seus pais. Sua aparência loura e seus olhos azuis facilitam o trabalho, mas não diminui sua raiva pelos nazistas e a tristeza pela perda do namorado. Ela recebe inúmeros pedidos estranhos de clientes, busca os produtos no mercado negro, mas nenhum deles tão amedrontador quanto o de encontrar uma garota judia que sumira de seu esconderijo sem explicação. 

Com poucas pistas por onde começar, além do fato de a garota usar um casaco azul, Hanneke acaba sendo arrastada para o centro da resistência holandesa. Para encontrar Mirjam Roodveldt, ela precisará colocar sua vida em risco, seus ideais à frente e deparar com a brutal realidade do nazismo.

Com base em meticulosa pesquisa histórica e com um enredo complexo, o romance traz a história ficcional de uma garota que inicialmente não queria se comprometer, mas que foi tomada pelo acontecimento misterioso e decide, motiva pela curiosidade, ir atrás. A menina judia que se escondia no quarto desapareceu sem deixar vestígios e motivou a pesquisa inicial de Hanneke, que acaba encontrando Ollie, o irmão mais velho de seu namorado assassinado. A mãe da menina desaparecida, a velha senhora Janssen, implorou a Hanneke implorou a Hanneke para que encontrasse a filha.   

Seja seu melhor amigo 

Em nossa cultura Ocidental muitas vezes acabamos por tratar melhor os outros do que a nós mesmos.

Muitas vezes sofremos com isso e sentimentos de autopiedade, raiva, vergonha e autojulgamentos duros e violentos acontecem. Sentimo-nos inadequados, perdedores, errados e não conseguimos, especialmente em momentos difíceis, ter a consciência de que não somos obrigados a ser maiores ou melhores do que os outros e que na vida não necessitamos atingir metas e padrões impossíveis. Como dizia o Tom Jobim, na vida temos as delicatessen e as groceries.

É preciso lidar com a dor e o prazer, a vida e a morte, o doce e o amargo. É preciso surfar no vale de lágrimas e chegar nas ilhas ou nos continentes felizes para seguir adiante. Amar os outros é essencial, fazer bem aos outros é ótima receita de felicidade, mas antes é preciso ser amigo de si mesmo, amar-se e aí os bons relacionamentos e energias fluem.

Manual de mindfulness e autocompaixão - Um guia para construir forças internas e prosperar na arte de ser seu melhor amigo (Artmed Editora, 190 páginas, R$ 70,00), da professora Ph.D. Kristin Neff e do psicoterapeuta e palestrante Christopher Germer, Ph.D, com tradução de Sandra Maria Mallmann da Rosa e revisão técnica de Simone Teresinha Aloise Campani, aborda com profundidade, objetividade o tema da autocompaixão. Os autores trabalham há muitos anos com a prática da terapia cognitivo-comportamental baseada em mindfulness e aceitação e publicaram várias obras a respeito, além de realizar palestras e cursos para dezenas de milhares de pessoas, através do programa de oito semanas Mindful Self-Compassion (MSC).

Os autores convidam os leitores a terem autocompaixão para lidarem com o estresse nas lutas internas dos pensamentos e nas dificuldades nos relacionamentos familiares, pessoais e profissionais. Ensinam os autores que para sermos autocompassivos é preciso estar consciente das experiências momento a momento de forma clara e equilibrada, usando todos os cinco sentidos. É preciso não exagerar em relação ao próprio sofrimento e evitar rompantes de narcisismo, raiva como defesa do ego e constantes comparações com os outros.

Não somos perfeitos e precisamos nos dar conta de que a autoestima, prima próxima da autocompaixão, funciona mais em horas de sucesso. Em momentos complicados da vida, a autocompaixão e a autobondade são importantes para ter senso de autovalorização e evitar que as emoções difíceis dominem. Não devemos ter medo de que a autocompaixão nos torne fracos e vulneráveis. Ela deve ser vista como uma força interna para nos dar coragem em momentos de dificuldades.

A autocrítica severa demais mina a autoconfiança e nos leva ao medo e ao fracasso. Os vinte e quatro capítulos da obra tratam de bondade, perdão, amor, resistência, emoções difíceis e vergonha, entre outros tópicos, relacionando-os com a autocompaixão. Depois de cada capítulo há exercícios, reflexões e dicas para a prática informal. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/04/680892-amor-e-coragem-na-amsterda-ocupada.html)


26 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA

Dane-se o mundo fashion

Ontem vesti o meu moletom do Mickey. Talvez você saiba qual é: aquele que o Potter e a Marcinha vetaram para aparições públicas. Comprei-o quando levei meu filho à Disney, uns cinco anos atrás. Uma noite, chovia e fazia um frio surpreendente para a Flórida e eu estava desprevenido, só de camiseta. Entrei em uma loja, vi o moletom tão bonito, azul-escuro, o Mickey sorrindo na frente, e o enfiei pela cabeça e paguei e saí assim, bem contente.

Mas o Potter e a Marcinha disseram que eu não podia fazer o Timeline com meu moletom, porque as câmeras do GaúchaZH transmitem o programa ao vivo e ficava feio eu, com o Mickey no peito, entrevistando o ministro do Supremo, Marco Aurélio Mello, que até destarte fala.

Contrariado, concordei. Afinal, um homem que fala destarte merece alguma cerimônia. Então, tenho evitado usar meu moletom do Mickey. Mas ontem precisava fazer coisas na rua e o clima estava ideal para um moletonzinho e aí disse para mim mesmo:

- Quer saber? Dane-se o mundo fashion!

E o vesti. E saí.

Como fiquei bastante tempo fora, parei duas vezes para tomar um cafezinho restaurador. Na primeira, comecei a folhear o jornal que se me oferecia da prateleira e esbarrei em uma curiosa notícia a respeito de um compatriota. Ele se chama Rangel e é dono do Oliveiras, famoso restaurante brasileiro da região. Há Oliveiras em várias cidadezinhas colonizadas por brasileiros no entorno de Boston. Esse, do Rangel, fica em Everett.

Ocorre que, neste ano, o Rangel decidiu embelezar a fachada do seu restaurante de uma forma original. Para isso, contratou um artista brasileiro por US$ 5 mil para que ele esculpisse a estátua de um touro da raça nelore em tamanho natural. Depois de pronta a estátua, que, por sinal, ficou bem realista, o Rangel pagou mais US$ 2 mil para instalá-la em frente ao restaurante. O problema é que a prefeitura de Everett não gostou da obra e determinou que Rangel a remova do lugar. 

A alegação oficial é que a estátua está fora das normas do município, mas Rangel diz que a razão é outra: os testículos do touro. Cidadãos pudicos de Everett teriam se escandalizado com aqueles testículos expostos, ainda que feitos de pedra, e reclamaram para a prefeitura. Rangel ficou desolado, mas pensou em uma forma de resolver o impasse: vai remover os testículos do touro. Quer dizer: aquele belo e imponente nelore branco será castrado e rebaixado a boi só porque uns americanos se ruborizam ao ver uma representação de testículos de bicho.

Rangel está pedindo que quem gosta do touro escreva à prefeitura de Everett pedindo que ele fique onde está. Saí do café resolvido a participar da campanha e pensando que as pessoas são intolerantes. Não toleram um moletom do Mickey, não toleram testículos de pedra. Até que, já no caminho de casa, entrei no segundo café, pedi um cappuccino e vi que uma menininha de uns dois anos de idade estava parada na minha frente, sorrindo. Ela era loirinha e tinha olhos azuis e apontava para mim. Ergui uma sobrancelha. E ela:

- O Mickey Mouse! - Yes! - concordei. - Você gosta dele?

- Gosto! - ela respondeu. - E gosto de você porque você está com ele!

Abri o maior sorriso do dia. Olhei em volta e vi que todos sorriam também. Achei que, naquele momento, como disse a menininha, as pessoas gostavam de mim porque eu estava com o Mickey Mouse. Pensei, em seguida, nas severas censuras que recebi do Potter e da Marcinha. E sussurrei para mim mesmo, enquanto pegava meu cappuccino: dane-se o mundo fashion!

DAVID COIMBRA


26 DE ABRIL DE 2019
#AGENTEVIVEJUNTO

RBS constrói filme de posicionamento com os gaúchos

EM PLATAFORMA NA internet, gaúchos escolherão as cenas do filme publicitário da campanha que irá ao ar no próximo mês
O Grupo RBS lança hoje o novo posicionamento de sua marca, reforçando e atualizando a vocação que norteia os seus mais de 60 anos de história: criar e manter a relação de proximidade e confiança com milhões de gaúchos. É a partir desta conexão diária com quem vive no Rio Grande do Sul que nasce a campanha A Gente Vive Junto, que colocará o público dos veículos do Grupo RBS na posição inédita de cocriador do filme institucional.

A primeira fase da iniciativa, que começa hoje, convida os gaúchos a produzir a peça que será veiculada na RBS TV e nas redes sociais da empresa na etapa seguinte do projeto. Para participar, acesse o portal agentevivejunto.com.br e escolha as cenas que geram mais identificação em cada verso da música Toda Forma de Amor, sucesso do cantor Lulu Santos que ganhou versão inédita do artista para embalar a campanha. As cenas mais escolhidas pelo público irão compor o vídeo final. São possíveis 59.719.680 combinações de filmes na plataforma.

- Este é um marco de um novo momento do Grupo RBS para todos os seus públicos e pontos de contato, resultado de um projeto de transformação que está em curso. Queremos posicionar a RBS para ser uma empresa cada vez mais humana, próxima e plural. Para isso, nada melhor do que lançar um projeto que será feito como a nossa história: com a participação direta de quem nos acompanha todos os dias - destaca o CEO da empresa, Claudio Toigo Filho.

VALORES QUE DIALOGAM COM A SOCIEDADE

A campanha A Gente Vive Junto é resultado de um trabalho construído de forma coletiva desde 2017, quando a empresa comemorou seis décadas de história testemunhando as grandes transformações sociais, econômicas e tecnológicas do Rio Grande do Sul, do Brasil e do mundo. A origem do novo posicionamento mira na essência do Grupo RBS para, além de reforçar a ligação com os gaúchos, projetar a marca daqui em diante.

Com esse objetivo, acionistas do Comitê Executivo e os times de Marketing e de Gestão de Pessoas definiram seis atributos pelos quais a RBS pretende ser percebida hoje e no futuro, sintonizada com valores da sociedade: proximidade, confiança, curiosidade, coragem, pluralidade e excelência.

CONEXÃO COM NOSSOS VALORES

Para dar sentido a esses princípios, ao longo de 2018, a empresa se dedicou ao projeto Conexões, que realizou 122 encontros e impactou 100% dos colaboradores. Em cada reunião, conduzida por líderes e comunicadores, os participantes foram provocados a discutir abertamente de que forma cada profissional se conecta com a RBS. A partir do conhecimento interno gerado nessa iniciativa, veio o passo seguinte: contar sobre tudo isso ao público.

- O conceito A Gente Vive Junto traduz e reforça o que queremos seguir construindo com os gaúchos: uma conexão a partir dos nossos valores. Todos os dias, contamos histórias de vida e debatemos os temas importantes para todos nós. Queremos seguir fazendo isso, lado a lado com quem nos acompanha. Para atingir esse objetivo, nada melhor do que dividir com o público esse momento tão importante para nós e possibilitar que ele seja protagonista da materialização do nosso posicionamento - afirma o diretor-executivo de Marketing do Grupo RBS, Marcelo Leite.

Criada pela agência Competence, a campanha será lançada com conteúdos editoriais em todos os veículos da RBS, anúncios em Zero Hora, Diário Gaúcho e Pioneiro, e também com ações digitais e spots nas rádios Gaúcha, Atlântida, 102, 92 e Farroupilha a partir de hoje.

Além do novo conceito A Gente Vive Junto, a RBS passa a contar com nova identidade visual, uma paleta de cores atualizada e imagens que representam a conexão da empresa com os gaúchos.


26 DE ABRIL DE 2019
EDUARDO BUENO

De militares e milicianos


Sexta-feira passada, nas páginas de ZH, um certo capitão, ops, um certo tenente-coronel Zucco - o mesmo que recentemente apoiou a medida do já defenestrado ministro da Educação propondo que os alunos da rede pública cantassem todos os dias o Hino Nacional e escreveu que os 20 anos de regime militar foram "marcados pelo respeito aos direitos humanos" -, pois, em artigo publicado em ZH, o dito militar, que também é deputado estadual, teceu loas e boas ao Exército nacional.

Dadas as declarações anteriores, jamais imaginei que vislumbraria sumo e suco nas palavras de Zucco. Devo confessar, porém - e sem necessidade de tortura (como aquela imposta durante os anos em que vivemos sob "uma democracia forte") -, que, dessa vez, concordei com quase tudo o que o nobre deputado militar escreveu. Como estudioso da história do Brasil, bem sei o quanto o país deve às Forças Armadas - em especial quando elas se atêm ao seu papel institucional e se mantêm em seu lugar: a caserna.

Assim, estava eu feliz com a concórdia - afinal, longe de mim a "cizânia", como disse ZH em editorial - quando, já no sábado, minha paz pascoal foi rompida por um vídeo postado pelo presidente da República (por meio de um de seus filhos, o 02). No dito filme, o guru-brucutu do presidente diz que as escolas militares não produziram nada "além de cabelo pintado e voz empostada". E que "nos últimos 35 anos os milicos" só deram "cagada" e entregaram "o país aos comunistas". Ou seja, o guru do presidente não gosta dos militares. Abalei-me. Estará havendo alguma dissidência interna? Talvez não, pois (embora o tenha postado) o presidente apagou o vídeo. E criticou seu guru - sem deixar, é claro, de elogiá-lo.

Mas quero dizer que estou do lado daqueles que defendem o Exército e sua "unicidade". E mais, acho que raras vezes o Brasil precisou tanto das Forças Armadas como agora, e para uma tarefa que urge e se impõe: investigar, combater e erradicar as milícias. De fato, nada pode conspurcar mais a imagem de nosso Exército do que a existência desses grupos que, não por acaso, são chamados de "paramilitares", e cujos integrantes, em boa parte, são egressos do próprio Exército ou da PM.

Julgo, no entanto, que tal tarefa deve passar ao largo de gente que, mesmo ligada ao Exército, fala (ou deixa falar) mal dele. E mais: longe de quem apoia, elogia, condecora, premia, emprega (e eventualmente habita no mesmo condomínio e tem parentes que namoram) milicianos. Como creio que não é esse o caso do tenente-coronel Zucco, folgaria se ele e outros do seu naipe assumissem tal investigação. E logo.

As milícias precisam ser investigadas e erradicadas. Aqueles que as apoiam, premiam e empregam, também. Mais cedo ou mais tarde, serão. Bem como também será o suculento caso dos laranjas do PSL, partido que o supracitado Zucco lidera no Sul. Mas essa outra investigação, creio eu, não deveria ficar a cargo dele.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 25 de abril de 2019



25 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA

A cunhadinha do Brasil

O país inteiro falava naquele tailleur xadrez. Ou, melhor, no conteúdo do tailleur xadrez. Ou, melhor ainda, no que não era coberto pelo tailleur xadrez. No caso, as duas pernas morenas e lisas e torneadas e fortes e provavelmente macias de se tocar de Thereza Collor, chamada na época, o remoto ano de 1992, de "a cunhadinha do Brasil".

Thereza era, na verdade, cunhada de Fernando Collor, o presidente da República, e mulher de Pedro, seu irmão. Dizem que foi por ciúme de Thereza que Pedro atacou Fernando, causando grande crise nacional e terminando em impeachment. Lembro-me da capa da revista Veja que detonou o irreversível processo de desgaste do presidente: Pedro lançando um olhar de fúria para a câmera, acima do título: "Pedro Collor conta tudo".

Que delícia para um jornalista poder fazer um título desses. Eu mesmo, anos antes, sentira tal prazer. Era o editor-chefe do Jornal da Manhã, em Criciúma. O ídolo da cidade era o meia-esquerda Rached, que havia sido o melhor jogador do campeonato de 1986, quando o Criciúma conquistou seu primeiro título estadual. Rached havia sido contratado do Grêmio, onde jogara com Renato, De León, Tarciso, aquela turma. Era um cara bonitão, alto, moreno, meio árabe, como indica o nome. As mulheres da cidade eram apaixonadas por Rached e corriam lendas de que ele se tornara o responsável pela separação de alguns casais ilustres da alta sociedade. 

No dia em que fiz a entrevista, Rached estava se despedindo de Criciúma - havia sido vendido para outro clube. Então, ele topou revelar pormenores, inclusive os sórdidos, de suas aventuras extracampo. Fui ao apartamento dele e o fotógrafo Ezequiel Passos o fotografou de calção branco, fazendo pose sedutora em cima do colchão do quarto, tendo ao fundo um espelho, onde se lia, escrito a batom: "Te amo". É claro que essa foi a foto da capa do jornal e é claro que rasguei a manchete: "Rached conta tudo!".

No dia seguinte, um sábado, fui para a praça central para ver o jornal sendo disputado nas bancas de revista. Foi lindo.

Gostaria de fazer outros títulos neste estilo. Tipo: "Marina Ruy Barbosa conta tudo!". Garanto que teria leitura. Garanto que você leria.

Pedro Collor contou tudo à Veja e derrubou o irmão da Presidência. Thereza, dentro daquele seu tailleur, virou celebridade, tornou-se até modelo fotográfica. E nós, cidadãos brasileiros, ouvíamos todo gênero de histórias da família presidencial: uns diziam que Fernando se repoltreara com a cunhada, outros que ele apenas havia "dado em cima" dela e uns poucos sustentavam que nem isso ocorrera e que Pedro era louco. 

A mãe dos dois irmãos, dona Leda, foi uma dos que disseram isso. Ela mandou uma carta a deputados alegando que Pedro tinha problemas mentais e o destituiu do comando dos jornais da família, em Alagoas. Os deputados não acreditaram nela, levaram a sério as denúncias e abriram o processo de impeachment. Duas semanas antes de Collor ser tirado da Presidência, Leda sofreu três paradas cardíacas, entrou em coma e nunca mais acordou. Morreria menos de três anos depois. Pedro morreu antes dela: em 1994, ele descobriu dois tumores do tamanho de limões no cérebro e não viveu mais do que um mês.

A família Collor era unida e forte até conquistar o poder. Aí, o poder destruiu a família, que acabou perdendo o poder. Um quarto de século se passou, e o Brasil assiste novamente, e estupefato, a mais uma Presidência que trata o governo como assunto de família. Meu Deus. Nós não aprendemos nunca.

DAVID COIMBRA

25 DE ABRIL DE 2019
OPINIÃO DA RBS

UM SÓLIDO COMPROMISSO COM O FUTURO

A reversão da obrigatoriedade de plebiscito para extinguir ou privatizar estatais corrige a insensatez de parlamentares constituintes que estabeleceram essa blindagem à modernização do Estado

Ao aprovar, em primeiro turno, o fim da exigência de plebiscito para a privatização de três estatais, por ampla e sólida maioria, a Assembleia Legislativa deu uma demonstração de maturidade e responsabilidade raras vezes vista na história recente do parlamento gaúcho. Desde sempre, a Assembleia tem sido a pedra angular dos projetos de modernização e recuperação do Estado. Se a maioria dos parlamentares não quiser, não há vontade política de governo seja de que tendência for capaz de levar adiante a urgente necessidade de reforma do aparelho estatal.

Para deputados que dependem do voto, reconheça-se, sempre foi mais fácil se abraçar a causas populistas - entendidas como aquelas que enxergam nos cofres estatais um poço sem fundo e sem dono, permanentemente disposto a conceder benesses e privilégios, revestidos pelo manto do "direito" e da "defesa do patrimônio público". A mudança de atitude verificada entre a maioria parlamentar na terça-feira passou a refletir agora a saturação do eleitorado com a constante procissão de demandas das corporações, que comandam um estamento já protegido pela estabilidade e aposentadoria integral. Enquanto isso, milhões de desempregados e subempregados sonham apenas em levar alguns trocados no fim do mês para casa e já se cansaram do discurso dos que querem conservar tudo como está.

A reversão da obrigatoriedade de plebiscito para extinguir ou privatizar estatais corrige finalmente a insensatez de parlamentares constituintes que estabeleceram essa blindagem à modernização do Estado, mas nem sequer cogitaram exigir plebiscito para a criação de estatais. Essa nova e salutar posição da expressiva maioria dos parlamentares merece aplausos e reconhecimento dos eleitores. Mesmo com atraso, a mudança de visão evidencia a prioridade do Parlamento à imensa maioria da população. São pessoas que não sobem em caminhão de som e nem têm tempo e capacidade de mobilização para lotar galerias ou fazer manifestações diante da Assembleia ou do Palácio, mas precisam urgentemente dos serviços públicos essenciais, como saúde, educação e segurança.

A opção de 40 deputados pela maioria silenciosa e pelo futuro é também a comprovação da habilidade do governador Eduardo Leite e de seus líderes em dialogar e alinhar sua diversificada base parlamentar em torno de objetivos comuns. O desafio agora é manter o norte das mudanças, sem ceder à gritaria e sem cair nas armadilhas de reagir desmesuradamente ao previsível descontentamento das corporações. Se o espírito que moveu a maioria da Assembleia rumo à transformação do Estado se mantiver na mesma direção renovadora, volta a ser possível sonhar com um Rio Grande do Sul disposto a deixar para trás a estagnação, os atrasos nos vencimentos dos servidores e a virtual paralisia dos investimentos públicos.



25 DE ABRIL DE 2019

+ ECONOMIA

DÓLAR ESPELHA DESÂNIMO

Tão esperada, a aprovação da proposta de reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, na noite de terça-feira, não tranquilizou investidores e especuladores. Ontem, dia seguinte à tumultuada sessão em que avançou a tramitação da PEC 06/2019, o dólar subiu para quase encostar em R$ 4. Às 14h10min, a moeda americana atingiu R$ 3,9935. No fechamento, houve ligeira desinflada, mas ainda no patamar mais elevado do ano, de R$ 3,9877. A maior cotação anterior havia sido registrada em 27 de março, a R$ 3,9545, dia seguinte ao não comparecimento do ministro Paulo Guedes à CCJ.

Parte da alta se deve, como sempre, ao estresse com o futuro da principal reforma do governo Bolsonaro e com persistentes sinais de que a economia brasileira marca passo - com risco de dar marcha à ré - neste início de 2019. O fechamento de 43.196 postos de trabalho com carteira assinada em março, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, quando analistas previam abertura de 80 mil, contribuiu para aprofundar a percepção de que existe risco de um recuo no Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre. Além disso, o Serasa apontou recorde histórico no número de brasileiros inadimplentes: 63 milhões. Havia expectativa de que o volume de contas atrasadas que freiam o consumo tivesse parado de aumentar.

Também houve preocupação com a pesquisa do Ibope para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) que mostrou baixa aprovação (35%) do presidente Jair Bolsonaro. Embora não tenha registrado queda na popularidade, mostra que a má avaliação não foi temporária. Um presidente enfraquecido, na análise do mercado financeiro, terá menos capacidade de sustentar o ambicioso projeto de reforma da Previdência. Outra parte decorreu de alta global do dólar frente a outras moedas depois de informações de crise no acordo entre governo e oposição para saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit.

NA SONDAGEM INDUSTRIAL DA FIERGS DE MARÇO, MAIS UM SINALDE ATENÇÃO: SURGIU UMAALTA INDESEJADANOS ESTOQUES DAS EMPRESAS. O NÍVEL FOI DE 54,5 PONTOS, ACIMA DO REGISTRADO EM MAIO DE 2018 (54,2), O DA FATÍDICA GREVE DOS CAMINHONEIROS.

MARTA SFREDO

25 DE ABRIL DE 2019
L.F. VERISSIMO

Guerra das estrelas


"Nosso futuro está escrito nas estrelas", disse Shakespeare, ou Brutus pela mão de Shakespeare. Também disse o contrário: que nosso destino vem, não do alto, mas das nossas entranhas, e quem somos nós para exigir que, além de ser Shakespeare, Shakespeare seja coerente? 

No Brasil de Bolsonaro, podemos escolher não só quem ou o que nos guiará, mas os detalhes da sua natureza. Para orientar-se e orientar a nação neste começo de governo, Bolsonaro escolheu as estrelas. Para assegurar-se de uma relação direta com as estrelas, escolheu, para começar, um astrólogo famoso. Se os astros falharem... não faltará um suprimento de estrelas saudosas de outra natureza, prontas para intervir.

O Paulo Guedes não usa estrelas nos ombros, nem - que se saiba - metafóricas, mas seus sonhos americanistas e seus delírios de mercado aberto, custe socialmente o que custar, devem fazer dele talvez o mais perigoso dos nossos guias. Comenta-se em Brasília que na volta dos Estados Unidos, onde ouviu a notícia de que a Petrobras não aumentaria o diesel, Guedes foi ao escritório de Bolsonaro, que trancou a porta. 

Durante duas horas, só se ouviu uma voz de dentro do escritório. Na saída, Bolsonaro suava e parecia trêmulo. Durante as duas horas, ele só ouvira reprimendas e ameaças do presidente. Acabara tendo de ouvir a pergunta humilhante: o senhor não sabe, seu Jair, no que nós nos metemos? Em que briga de cachorro grande?

A situação é essa. Estrelas graduadas, metidas com estrelas metafísicas, metidas com estrelas liberais, numa constelação em choque, ou várias constelações engalfinhadas num pega sideral, até que se definam. Quem vencerá? Não se sabe nem quem está na frente. Os militares têm as armas e o hábito, embora se digam regenerados e teimem em representar essa nova normalidade. O Olavo de Carvalho representa uma excentricidade de um só, o que não deixa de ser uma credencial política. Não sei se anda armado.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 24 de abril de 2019



24 DE ABRIL DE 2019
NÍLSON SOUZA

Educação domiciliar

Sou favorável ao ensino domiciliar - agora, já, sem a necessidade de medida provisória, aprovação do Congresso Nacional ou confirmação pelo Supremo Tribunal Federal. Mas não para substituir a escola: para ajudá-la.

Que os pais, em vez de transferir para a escola toda a responsabilidade pela educação de suas crianças e adolescentes, assumam o papel que lhes compete, especialmente no que se refere à atenção, ao acompanhamento e à imposição de limites. Que ensinem, em casa, principalmente pelo exemplo, o respeito aos professores e aos colegas, os princípios elementares de disciplina e os valores morais indispensáveis para a cidadania e a vida em sociedade. Que ofertem aos filhos parte do tempo que dispensam ao trabalho, às redes sociais e às diversões de adultos, proporcionando-lhes um ambiente alfabetizador e cultural, leituras, programas educativos e - o mais importante - compreensão, incentivo e apoio nas suas tarefas escolares.

Assim como todos podem aprender, todos podem ensinar. Esse tipo de ensino domiciliar a que me refiro pode ser exercido pelos tutores instruídos, que desconfiam da educação formal oferecida pela rede escolar, e também por famílias precárias, que delegam tudo aos professores. Uma vez, quando era repórter de uma revista de educação, perguntei a uma mestra como os pais podiam ajudar os filhos nas lições de casa, considerando que muitos não possuem formação suficiente nem conhecimento específico sobre as disciplinas ministradas.

- Mesa limpa! - ela me respondeu.

Como não entendi a resposta telegráfica, me explicou que os pais que oferecem um espaço adequado, horário determinado e olhar interessado para a criança fazer o seu tema já estão dando uma grande contribuição para o seu aprendizado, pois o desejável é que ela receba na escola as ferramentas e as instruções para trabalhar sozinha, para raciocinar, elaborar hipóteses e construir o próprio conhecimento. Se, além disso, puderem orientá-la nas dificuldades, sem fazer o trabalho por ela, melhor ainda.

Pais e mães também podem incluir no seu currículo de educação domiciliar exemplos e atitudes do dia a dia que ajudam a formar a personalidade dos jovens: harmonia e civilidade na vida familiar, valorização do trabalho e da persistência, gentileza no trânsito e nas relações sociais (jamais estacionar em fila dupla na frente da escola, por exemplo), apreço pela liberdade, pela honestidade e pela justiça, e, se possível, iniciativas de compaixão e solidariedade.

A escola instrui, aperfeiçoa, socializa, oferece conhecimento e preparação para a vida profissional, mas cabe à família formar o ser humano.

É em casa que a criança deve aprender a distinguir o certo do errado, a entender que sua vontade nem sempre deve prevalecer sobre a dos outros, a não ser agressiva, a respeitar pais, adultos e também outras crianças.

Educação domiciliar urgente! E escola sempre!

NÍLSON SOUZA


24 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA



O brasileiro brutal


Nunca bati no meu filho. Nunca lhe dei uma palmada, uma chinelada, um puxão de orelha. Se tivesse de fazer isso, ficaria arrasado depois. Eu é que sofreria com um arrependimento que voltaria sempre a me atormentar, ainda que se passassem anos.

Algumas vezes, não muitas, lhe impus castigos. Nada demais. O mais grave foi ficar um dia sem jogar no computador. Ainda assim, meu filho é obediente e me respeita. É um bom menino.

Não gosto de castigos físicos, mas também não censuro os pais que, vez por outra, dão um beliscão nos filhos. Eu, inclusive, apanhei bastante quando pequeno: de chinelo, de cinta e até de vara de marmelo. Minha mãe batia, e eu, de raiva, não chorava. Doía, mas me segurava. Aí ela é que ficava com raiva e batia ainda mais. Não adiantava - eu não chorava. Guri teimoso.

Há alguns anos, chamei a atenção do meu filho por algo que ele fez de errado. Não lembro o que foi, só sei que lhe passei uma descompostura. Minha mãe estava junto e protestou:

- Não xinga o menino!

Olhei espantado para ela: - Mãe! Tu batia em mim de cinta quando eu tinha a idade dele!

Ela: - Ah, era outra época?

De certa forma, ela tinha razão. O mundo vai mudando, a civilização vai se aperfeiçoando e vai compreendendo que certos atos, antes tolerados, na verdade são intoleráveis.

A ideia é essa: temos a esperança de estar em um processo evolutivo, de estar melhorando.

Há algo, porém, que é capaz de romper com tudo que é humano: a violência. Quando estão acuadas pela violência, as pessoas sentem medo. Quando sentem medo, as pessoas se transformam em feras.

Foi o que aconteceu no Brasil. Massacrado pela violência e pelo medo, o brasileiro entrou em um processo de involução. Foi se desumanizando e, aos poucos, aceitando o que deveria ser inaceitável.

A eleição de Bolsonaro só foi possível devido a esse mecanismo de brutalização. Não estou qualificando Bolsonaro ou seu eleitor, estou apenas fazendo uma constatação, que até é óbvia: há alguns anos, um homem com as ideias e o comportamento de Bolsonaro seria mais do que inviável como líder político, seria uma piada. Hoje, Bolsonaro é presidente da República e alguns o chamam de "mito".

No entanto, a eleição de Bolsonaro foi uma decorrência lisa e incontestável da democracia: era isso o que as pessoas queriam. Queriam um candidato brutal, que lhes suprisse a ânsia de brutalidade.

É sempre assim. Nos Estados Unidos dos anos 1970, Charles Bronson se consagrou com uma série que tinha um título brutal: Desejo de Matar. O protagonista sentia desejo de matar fora da lei, só isso. E os americanos da época, acossados pela violência urbana, entravam em êxtase vendo Bronson massacrar bandidos nas ruas de Nova York.

Hoje, é o brasileiro que sente vontade de matar. Ele anseia por alguém que reaja com violência à violência que o desespera. Por isso, ninguém se choca com homens que estão há mais de uma semana algemados em viaturas da polícia, em Porto Alegre, por falta de vagas nas cadeias. Em qualquer lugar civilizado, uma situação dessas seria um escândalo, seria intolerável. Mas nós toleramos. Porque estamos andando para trás. Estamos perdendo a compaixão. Estamos nos tornando menos civilizados. Uma tragédia, porque menos civilização é igual a menos humanidade.

DAVID COIMBRA


24 DE ABRIL DE 2019
POLÍTICA

Aumenta a tensão entre família Bolsonaro e o vice-presidente

CHEFE DO EXECUTIVO recusa-se a enquadrar filho, que atacou Mourão

As novas e mais incisivas críticas de Carlos Bolsonaro ao vice-presidente, Hamilton Mourão, reabriram a crise que o núcleo militar do governo via como ultrapassada na noite de segunda-feira. Ontem, o filho do presidente Jair Bolsonaro fez duas postagens em redes sociais com duros ataques ao vice.

Primeiro, pela participação de Mourão em evento nos Estados Unidos no qual o convite citava que os cem primeiros dias do governo brasileiro foram "marcados por paralisia política, em grande parte devido às crises sucessivas geradas pelo círculo próximo ao presidente, se não por ele próprio". Na mesma postagem, Carlos publicou que "esse jogo está muito claro". Horas depois, o filho de Bolsonaro voltou a alfinetar o vice na internet, mas por sua posição contra intervenção na Venezuela para pôr fim ao regime atual.

Generais, que atuam como bombeiros no episódio, apontam que a crise agravou-se após Bolsonaro recusar-se a incluir o filho, vereador pelo PSC fluminense, na leve reprimenda que fez ao escritor Olavo de Carvalho, guru da ala que se diz ideológica do bolsonarismo, pelo vídeo em que Mourão e militares são criticados.

A peça foi postada no YouTube de Bolsonaro no fim de semana e apagada no domingo. Carlos a compartilhou. Militares viram nos fatos um recado à movimentação de Mourão, que a família de Bolsonaro vê como interessado em derrubar o titular.

Segundo integrantes do governo, o presidente manteve inalterado o acesso de Carlos às suas redes sociais. Bolsonaro costuma ter primazia sobre sua conta no Twitter, mas o Facebook e o YouTube são canais em que o filho reina quase sozinho. Ontem, Bolsonaro afirmou por meio do porta-voz do governo que quer colocar "ponto final" na "pretensa discussão":

- O presidente gostaria de deixar claro quanto a seus filhos, em particular o Carlos, que ele sempre estará a seu lado - afirmou Otávio Rêgo Barros.

Ainda fez afago a Mourão dizendo que ele é o subcomandante do governo e que o vice tem dele "consideração e apreço".

- (Bolsonaro) evidencia que declarações individuais publicadas em mais diversas mídias são de exclusiva responsabilidade de quem as emite - declarou o porta-voz.

Muitos consideram que o presidente tem dívidas com o filho. Uma da campanha eleitoral do Rio em 2000. Ali, lançou Carlos, aos 17 anos, a vereador para barrar a ida de votos ao sobrenome Bolsonaro a sua ex-mulher, que buscava reeleição na Câmara. Além disso, o filho coordenou suas redes sociais em 2018.

Entenda o caso

Veja a relação entre Olavo, Bolsonaro e os militares

RELAÇÃO FAMILIAR

- Bolsonaro conheceu Olavo de Carvalho a partir de seus filhos, admiradores do escritor. Em março, durante viagem presidencial aos EUA, Bolsonaro, Eduardo e Olavo estiveram em jantar na residência oficial do embaixador do Brasil em Washington.

INDICAÇÕES PARA O GOVERNO

- Guru de Bolsonaro, Olavo foi responsável pela indicação de dois ministros: Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Vélez Rodríguez, demitido do MEC no início do mês e substituído pelo também olavista Abraham Weintraub.

CONFLITOS COM MILITARES

- Olavo tem feito críticas públicas à atuação dos militares no governo, o que inclui o vice, Hamilton Mourão, e já pediu a seus ex-alunos que deixem a gestão. A disputa entre olavistas e membros das Forças Armadas chegou a travar o MEC.

VÍDEO APAGADO

- No sábado, um vídeo em que Olavo criticava militares foi postado no canal oficial de Bolsonaro no YouTube, mas a publicação foi apagada domingo. Na segunda, Mourão disse que Olavo deveria se limitar à "função de astrólogo", e Bolsonaro afirmou que as críticas do escritor não contribuem com o governo.

IGOR GIELOW