segunda-feira, 28 de julho de 2014


28 de julho de 2014 | N° 17873
ARTIGO - PAULO BROSSARD

MEXER EM ELETRICIDADE PODE DAR CHOQUE

Foi amplamente divulgado que 35 empresas do setor elétrico eram devedoras à União de R$ 3 bilhões, e chamava a atenção a circunstância de a revelação ter o abono do advogado geral da União, que, obviamente, é possuidor de informações que o comum dos mortais não possui. Com todas as letras, foi dito que a atualização de tarifa dar-se-ia em dezembro, ou seja, após as eleições, reconhecido que praticamente todos são consumidores de energia elétrica, desde o grande industrial até o operário mais modesto; a técnica foi denominada de “preços administrados”.

Ora, entra pelos olhos de um cego que o expediente apenas adia determinada medida de natureza inevitável, de modo que o adiamento agrava o problema, pois, na hora de trazê-lo à realidade, sua dimensão cresceu. É elementar que o poder pode muito, mas não pode tudo. O problema não será de R$ 3 bilhões, mas superior a R$ 7 bilhões, como foi divulgado. Não tenho elementos para pronunciar-me nem teria por que fazê-lo.

Não é segredo que o adiamento da revisão de tarifa em causa foi a maneira encontrada pelo governo, não porque fosse justa ou plausível, mas para não embaraçar a reeleição da presidente da República. E aí está uma das razões pelas quais é inconveniente a reeleição dos cargos executivos, aliás, vedada desde a Proclamação da República.

Merece ser lembrada a apregoada competência profissional da senhora presidente em matéria de energia elétrica, e agora, por ironia das coisas, lhe cai no colo o problema de dimensões nacionais que mais se agiganta quanto mais tempo decorre em resolvê-lo.

Se é exata a versão proclamada de ser a senhora presidente a suma doutora quanto aos segredos da energia elétrica, como e por que ter deixado de solucionar o problema, que não ocorre de inopino, para que ele viesse a infernizá-la exatamente quando é nada mais nada menos que a chefe de Estado e do governo, detentora da última palavra a respeito.

Se a situação das empresas devedoras não é lisonjeira, melhor não é a do governo, que deixou o caso chegar ao ponto a que chegou.

Ao final, quem vai pagar essa conta serão os consumidores. Diz a sabedoria popular que mexer em eletricidade sem entender pode dar choque...

Ao final, quem vai pagar essa conta serão os consumidores

*Jurista, ministro aposentado do STF



28 de julho de 2014 | N° 17873
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA

Todo mundo que jamais se formou na high school norte-americana ouviu a marcha Pomp and Circunstance, do compositor John Phillip Sousa. Os Estados Unidos, diferentemente da gente, são um país com uma tradição marcial forte, que começa quando eles derrotam a Inglaterra e não param mais de bater em todo mundo – até o Vietnã.

Os EUA são um país que se amarra em uma tradição, um ritual, uma formalidade cheia de simbolismos. Eles acreditam em oratória até hoje, e um presidente lá tem de ser, acima de tudo, um bom orador. Bem, há exceções.

A presidência é uma instituição americana. Eles adoram falar do presidente, olhar para o presidente, falar mal do presidente, num nível só comparável ao que os ingleses dedicam de atenção à monarquia, com a diferença de que a rainha reina e não governa, e o presidente manda e desmanda, ao menos até onde a oposição deixa.

A tradição política americana é longa e recheada de grandes líderes, como Lincoln, Jefferson, Roosevelts (o segundo, ao menos). Ela tem muitos presidentes esquecíveis, e isso eles fazem muito bem, ou alguém já ouviu falar em Chester A. Arthur? Pois é.

E, como não poderia deixar de ser, uma das grandes séries americanas dos tempos das caixas de DVD é The West Wing. Ali, o presidente Bartlet e sua equipe talentosa e dedicada decidem os destinos do mundo, enfrentando desafios variados e travelings para lá e para cá, por todos os muitos corredores da Casa Branca.

The West Wing usa a política real como tema ficcional de um jeito ao mesmo tempo informado e dinâmico. O ritmo é o dos travelings, os diálogos disparam para todo lado, e todo o mundo sabe o que tem de dizer, o tempo todo. Essa é a política na ficção, muito melhor e mais organizada do que ela é no mundo real, e por isso mesmo talvez faça tanta falta uma The Planalto Wing no nosso Brasil brasileiro.


Nós temos presidência e temos país. Não temos ainda, e isso é muita pena, uma ficção que se dê ao trabalho de achar um jeito de narrar a nós mesmos. Vai chegar, mas está demorando, e isso é mesmo uma pena.

28 de julho de 2014 | N° 17873
PAULO SANT’ANA

Amarga derrota

Justamente o setor do time gremista mais eficaz nas estatísticas falhou ontem rotundamente. A defesa errou na marcação dos dois últimos gols do Coritiba.

Justamente no dia em que Barcos fez dois gols, eu que tinha me esquecido de que tinha sido o autor desta coluna quem indicou Barcos para o Grêmio, justamente numa espécie de redenção de Barcos, aconteceu uma pane incrível na defesa do Grêmio nos dois derradeiros gols do Coritiba.

É muito azar, é muito sofrimento para a torcida, o Grêmio esteve às portas do paraíso no segundo gol de Barcos e desceu ao inferno nos dois últimos gols do Coritiba.

Vamos esperar que o Grêmio ganhe os próximos compromissos, inclusive o Gre-Nal.

É triste a gente contar com uma vitória e minutos depois topar com uma derrota acachapante.

Democraticamente, como é característica desta coluna, abro espaço hoje à resposta da secretária estadual de Saúde, Sandra Fagundes, às informações que publiquei no domingo sobre a redução no número de leitos hospitalares no Estado. Eis, na íntegra, a argumentação que a secretária me encaminhou ontem à tarde:

“Prezado Paulo Sant’Ana,

Não houve fechamento de leitos nos últimos três anos. Ao contrário, o comparativo da oferta para pacientes do SUS aponta um acréscimo de 1.021 leitos entre janeiro de 2011 e junho de 2014 (dados disponíveis no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde – CNES). A ampliação de leitos é resultado do projeto estratégico de governo, definido desde o início da atual gestão, denominado Mais Leitos.

O governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual de Saúde, tem trabalhado para assegurar as condições necessárias para que as instituições do setor possam realizar seu trabalho com tranquilidade e atender os gaúchos, ampliando os incentivos para sanear as finanças e qualificar o atendimento.

Enquanto outros Estados vivem a ameaça de fechamento de serviços importantes, como a Santa Casa de São Paulo, o Rio Grande do Sul projeta o futuro e garante investimentos para ampliação da assistência hospitalar. Os hospitais públicos e privados reconhecem no governo do Estado um parceiro no cofinaciamento da rede hospitalar do SUS, e hoje temos a melhor relação leitos/habitantes do país: 2,82 leitos por mil habitantes.

Neste sentido, o convênio com a Fundação Universitária de Cardiologia é resultado de um plano estratégico, cujo objetivo é suprir as demandas assistenciais da Região Metropolitana. Este plano começou a ser gestado em 2013 e resultou na formalização da parceria, anunciada recentemente e necessária para o repasse de recursos e a abertura do processo licitatório. A primeira parcela do financiamento estadual foi repassada em 21 de julho, e a expectativa da FUC é que a licitação esteja concluída nos próximos meses.

Independentemente do período eleitoral, o compromisso da secretária de Saúde e do governo estadual é continuar governando, sob pena de comprometer projetos que estão em andamento e o futuro da saúde nas próximas administrações, independentemente de qual seja o projeto escolhido pelos eleitores gaúchos.”


Assina a secretária estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, Sandra Fagundes.

28 de julho de 2014 | N° 17873
L. F. VERISSIMO

O encontro

Os peixinhos nadavam por entre as nossas pernas. Estávamos no mar em frente à casa do José Paulo e da Maria Lecticia Cavalcanti, Praia do Toquinho, Lagoa Azul, Pernambuco, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, Universo, com água pela cintura. Quem éramos nós? Millôr e Cora, Gravatá, Lucia, eu e peixinhos anônimos.

Zé Paulinho e Maria Lecticia tinham providenciado tudo para que o prazer dos seus hóspedes fosse completo: sol decididamente pernambucano, céu e mar de um azul irretocável, uma mesa flutuante com guarda-sol em cima coberta de coisinhas para comer e bebidinhas para beber.

A um sinal do Zé Paulinho vinham mais camarão, mais marisco, mais caipirinha, mais pássaros, menos pássaros, mais brisa, menos brisa – e de repente, descendo na nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado convocado pelos Cavalcanti para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna.

De calção de banho! Ele entrou no mar, e os peixinhos continuaram nadando entre as nossas pernas, sem nenhuma curiosidade intelectual. Eles só estavam ali para pegar os restos da mesa flutuante, alheios ao grande momento, como se um encontro de Millôr Fernandes e Ariano Suassuna com água pela cintura acontecesse todos os dias. Nós, ao contrário dos peixinhos, nos encharcávamos do momento.

Eu, chupando um picolé de mangaba – eu mencionei que também havia picolés de mangaba? –, finalmente descobria o sentido da palavra “embasbacado”. Depois do encontro no mar, um almoço magnífico –, não fosse comandado pela dona Maria Lecticia. E o dia mais que perfeito terminou com uma visita a um terreno próximo onde o Zé Paulinho criava bodes. Nosso anfitrião queria nos mostrar um animal que importara da África do Sul e que, de tão antipático e posudo, recebera do Suassuna o apelido de “Somebode”.

SHOW

Uma aula do Suassuna era um show, um show do Suassuna era uma aula. Além de produzir ele mesmo boa parte da cultura contemporânea da sua terra, Suassuna conhecia como ninguém a história (e as histórias), as artes e as tradições do Nordeste, esse outro mundo dentro do Brasil, e lutava para mantê-las vivas.


Tinha uma memória fantástica, poemas enormes decorados inteiros para qualquer ocasião, e era notável sua capacidade de, aparentemente, se perder em digressões quando falava sobre determinado assunto, a ponto de criar uma expectativa nervosa na plateia – será que ele volta para o assunto ou não volta? –, e retomar o que estava dizendo do ponto exato da digressão, para alívio geral. O Brasil perdeu um tesouro.

domingo, 27 de julho de 2014

ELIANE CANTANHÊDE

Salve-se quem puder

BRASÍLIA - A rejeição do tal "mercado" a Dilma e as reavaliações para baixo das chances de reeleição são a típica faca de dois gumes --ou o típico discurso que cabe em dois palanques, em sentidos opostos.

Assim como rebaixam toda hora as previsões de crescimento, que já rondam 1%, agências e consultorias rebaixam simultaneamente as perspectivas de vitória de Dilma.

Se essas duas tendências andam juntas --quanto mais o aumento do PIB cai, mais a crença na vitória de Dilma cai--, há um pêndulo que já virou piada socialmente, mas é levado a sério nas campanhas: Dilma cai nas pesquisas, as Bolsas sobem; Dilma sobe, as Bolsas caem.

Para a oposição, é, ou parece ser, um grande trunfo poder martelar nos palanques e nos programas de TV, com dados de pesquisas, agências e bancos, o quanto Dilma é rejeitada por "quem entende das coisas".

Mas, para o PT e a campanha da reeleição, é, e não apenas parece ser, uma imensa vantagem poder usar os mesmíssimos dados para cristalizar ainda mais o discurso, talvez a sensação, de que Dilma é rejeitada "pela elite", "pelos mercados", "pelos bancos" por sua alma "robinhoodiana", de tirar de ricos insaciáveis para dar aos pobres famintos.

Não é bom para Aécio Neves e para Eduardo Campos colar suas imagens, seus discursos e seus programas a essa "elite", símbolo da desigualdade ancestral brasileira. E é bom para Dilma mostrar-se como a mulher que lutou contra a ditadura e agora enfrenta os poderosos.

Entre a versão e os fatos (os bancos nunca lucraram tanto quanto na era Lula...) vai uma imensa distância. Mas sempre há um bom marketing para sobrepor versões a fatos.

O problema é que a rejeição de Dilma está longe de ser exclusiva do "mercado". Bate em 35% no país, 47% no Estado de São Paulo e em estonteantes 49% na capital paulista. E não é só dela --é dela e do PT.


Aliás, Lula vai passar incólume por essa imensa onda de rejeição?
ELIO GASPARI

Vexame, a banca não sabe contar

Procuradoria-Geral corrigiu o terrorismo dos doutores e de seus papagaios contra as vítimas dos confiscos

No final do ano passado, o Supremo Tribunal Federal esteve prestes a julgar o litígio dos poupadores das cadernetas de poupança que se sentiram lesados com a correção monetária de seus depósitos durante os planos econômicos fracassados do fim do século passado.

Com o apoio do Banco Central, a banca desencadeou uma operação de terrorismo político-financeiro, argumentando que se os depositantes prevalecessem, provocariam um desastre bíblico na economia nacional. Seriam R$ 150 bilhões, talvez R$ 180 bilhões, quem sabe, R$ 441 bilhões. Uma empresa de consultoria falou em R$ 600 bilhões.

Um manifesto assinado por Guido Mantega e cinco ex-ministros da Fazenda, inclusive aqueles que ajudaram a produzir a ruína da hiperinflação, foram na mesma linha.

Um dos advogados da banca chegou a mandar uma carta ao ministro Ricardo Lewandowski prevendo que uma decisão a favor dos poupadores "lançará o país numa coorte de horrores que, sem exagero, irão do desemprego em massa à fome da população mergulhada nos sortilégios de uma crise econômica que afetará toda a nação." Os ilustres causídicos da banca, que já haviam tentado tenebrosas tentativas no escurinho de dois recessos do STF, conseguiram adiar para este ano o julgamento do caso.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor sustentava que isso era um exagero e argumentava que esses mesmos bancos haviam provisionado apenas R$ 11 bilhões. Na conta do Credit Suisse o litígio custaria R$ 26,5 bilhões.

A Procuradoria-Geral da República informou que as contas catastrofistas estavam erradas. A cifra certa, para a PGR, está em R$ 21,9 bilhões. Em vez de aterrorizar o país com uma conta doida para não pagar coisa alguma, os bancos poderiam ter feito a conta certa, como fez o Credit Suisse. Afinal, eles a conheciam.

Ficará na história da banca brasileira o fato de terem inventado um apocalipse para ganhar um dinheirinho à custa da boa-fé do público e da sua capacidade de atemorizar os ministros do Supremo.

Tudo indica que o Supremo decide a questão ainda neste ano.

PAROLAGEM

Uma indicação de que os candidatos à Presidência da República dedicam-se a uma ilustre parolagem quando discutem a saúde pública:

Nenhum deles tratou em sua plataforma da questão do ressarcimento ao SUS quando sua rede atende clientes dos planos de saúde. Essa conta deveria ir para as operadoras e, no ano passado, a Agência Nacional de Saúde arrecadou apenas R$ 167 milhões. Melhorou, pois de 2001 a 2010 a Viúva só conseguiu receber de volta R$ 125 milhões.

A repórter Barbara Bretanha mostrou que, nos últimos cinco anos, os clientes de planos atendidos pelo SUS cresceram em 60%. Foram 320 mil internações. Entre os dez motivos mais comuns estão os partos.

Ganha uma viagem à Ucrânia quem for capaz de achar uma mulher que, tendo plano, pretendia parir no SUS.

O melhor negócio do mundo é vender um plano de saúde para quem a tem e remete o cliente ao SUS quando ele precisa. O segundo melhor negócio, para candidatos, é não chatear as operadoras em tempo de arrecadação.

NOTÍCIA DO BRASIL

Um passeador de cachorros num bairro do andar de cima de São Paulo cobra meio salário mínimo mensal ao dono do bicho por dois passeios diários, de meia hora cada um.

Passeando dez cachorros, fatura R$ 3.500 sem osso, que equivalem a R$ 4.500 brutos.

Como na Argentina essa profissão é regulamentada, daqui a pouco aparecerá um sábio querendo importar a ideia.

Quando isso acontecer, os cães pedirão que se crie a profissão de passeador de bípedes.

OFIDIÁRIO

A cada mau número da economia, o serpentário de Lula repete: "Ele sugeriu a Dilma a substituição de Guido Mantega".

Tudo bem, mas quem o colocou na Fazenda?

Padrão Abdalla para hospitais quebrados

A rede hospitalar brasileira deve ao médico Kalil Rocha Abdalla, provedor da Santa Casa de São Paulo, a criação de uma nova metodologia para a internação de dinheiro da Viúva em instituições médicas inadimplentes: junto com o dinheiro da Boa Senhora entram também auditores e o Ministério Público.

O doutor está no seu terceiro mandato, administra a Santa Casa há seis anos, teve dívidas perdoadas pelo governo, deve pelo menos R$ 50 milhões a fornecedores e, para receber socorro financeiro, fechou as portas do seu pronto-socorro. Logo este. Doentes que chegaram à Santa Casa no meio da madrugada bateram com a cara na porta. (Duas grávidas em trabalho de parto foram atendidas.)

A Casa de Abdalla é o maior hospital filantrópico do país e, na conta do governo paulista, a Casa de Abdalla deve R$ 400 milhões.

Há décadas, esta e outras Santas Casas infeccionam as noções de santidade e de filantropia. Atendem de graça, mas custam milhões à Viúva, cuja bolsa é abastecida pela generosidade tributária da patuleia. A Santa Casa do Rio já foi apanhada até em maracutaias com túmulos. Uma nada tem a ver com a outra e há instituições exemplares que levam esse nome. Elas surgiram na Colônia, quando eram a única iniciativa de saúde pública de Pindorama. Chamavam-se Santas Casas de Misericórdia.

Depois de fechar a porta do pronto-atendimento para abrir, com sucesso, a Bolsa da Viúva, o doutor Abdalla, presidente de uma instituição quebrada, deu uma entrevista investindo-se da soberba de um donatário medieval: "Falei, vou fechar"; "Ou me dá algum dinheiro, ou não. R$ 3 milhões é insuficiente"; "Estou aqui há seis anos"; "Fechei repentinamente porque chegou um dia e o fornecedor disse que não ia mais me fornecer material". Incomodado, despediu-se da repórter Thais Bilenky: "Você está perguntando para poder futricar. Você devia falar que eu sou bonito, tal. Você não fala. Você só vai descer o porrete".

Por mais perigoso que seja uma repórter descendo o porrete, é preferível isso a um serviço de pronto-atendimento fechado "repentinamente".

Deve-se ao doutor Abdalla o estímulo a um novo padrão de conduta do Estado. Se um hospital está em dificuldades financeiras, chama uma auditoria pública para examinar suas contas. Isso pode ser feito a qualquer momento, sem necessidade de ações repentinas numa administração que dura seis anos. De quebra, o gestor do hospital pode ganhar uma visita do Ministério Público, com direito a porrete.

A situação da Santa Casa só chegou ao ponto em que chegou porque alguém deixou de fazer o seu serviço, mas quem pagou a conta foram os doentes. Pagarão duas vezes: na primeira, não sendo socorridos; na segunda, pagando impostos para socorrer instituições quebradas.


Em tempo: o doutor veste-se bem, mas bonito não chega a ser.
RUTH DE AQUINO - 25/07/2014 20h29 - Atualizado em 25/07/2014 20h34

O eleitor bolado

Dilma, Aécio e Campos, podem começar a treinar o “Lepo Lepo” – com dancinha sensual e tudo o mais
 
O eleitor brasileiro está bolado. Não sabe mais em quem quer votar. É bem mais fácil encontrar quem diga “tudo menos Dilma” ou “tudo menos Aécio”. Nesta eleição das eleições, o grande campeão antecipado parece ser o voto da rejeição. A maior batalha do eleitor consciente é contra o oportunismo e as ilusões do marketing. Se o Brasil quiser mais tempo para debater os temas incluídos naquelas três letrinhas mágicas, IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o melhor candidato é o segundo turno.

Até agora, na ressaca da Copa e no recesso sem-vergonha do Congresso, o eleitor só sabe que todos os candidatos prometem mudar. E que a coerência morreu. A presidente petista Dilma Rousseff anuncia que terá comitê evangélico e esquece que um dia defendeu o direito das mulheres ao aborto. Promete subir em todos os palanques. Quer ressuscitar o perfil satírico da Dilma Bolada, criado por um publicitário no Facebook, com o dobro de seguidores do perfil oficial.

O candidato tucano Aécio Neves defende o programa Mais Médicos e qualquer outro projeto que o aproxime do povão. Eduardo Campos, do PSB, tem duas caras- metades que nunca deram liga: Marina e Alckmin. Todos os candidatos prometem transparência, eficiência e mudança.

Dilma, Aécio e Campos são contra “os ativistas”, uma denominação que generaliza e empobrece os protestos legítimos de 2013. Elisa de Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, não tem estofo para ser heroína nem vilã. Errática, aloprada, ela não representa quem lotou as ruas e acordou o PT de sua letargia e de seu distanciamento dos jovens. Ninguém me convencerá de que a Sininho é líder de nada. A moça jamais sonharia com tamanho status. “Mentora de toda a quadrilha”, segundo a polícia? Dizer que essa moça, Sininho, ameaça a democracia é levantar demais a bola dela. Ativistas arrependidos ajudaram a polícia a “montar o organograma do comando do grupo”? Menos, gente. Daqui a pouco, alguém falará em guerrilha.

À saída da penitenciária de Bangu, os amigos protegeram uma Sininho pululante de fotos. Como? Agrediram jornalistas e quebraram câmeras de repórteres fotográficos. Um enredo de quinta categoria do início ao fim. Há muitas outras maneiras menos espetaculosas e mais sensatas de impedir atentados à ordem urbana do que distribuir golpes de cassetete em moças de jeans. Ou algemar um bando de “ativistas”. Era tão claro que eles receberiam o benefício do habeas corpus. Criar jovens mártires é uma atitude tão contraproducente e ingênua quanto pedir asilo no consulado do Uruguai. Uma bobagem só, que não merece manchete.

O novo eleitor, bolado com a repressão, a recessão e a violência, lê então na imprensa que os candidatos estão empenhados em atrair o voto da juventude. Dilma é a mais empenhada porque é na rapaziada que ela enfrenta a maior rejeição. Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 45% dos jovens entre 16 e 24 anos dizem que não votariam em Dilma em hipótese alguma no primeiro turno. Segundo a mesma pesquisa, num eventual segundo turno, 46% dos eleitores de 16 a 24 anos votariam em Aécio, e 39% em Dilma.

Por que a estrela vermelha não cativa mais os jovens? Porque eles se sentem traídos por um partido que se dizia de esquerda, prometia lisura e ética e acabou aliado a José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor e companhia. Se os jovens querem mudar “tudo isso que está aí”, como votar na continuidade do único governo que conhecem e que há 12 anos se mantém no poder? Eles eram crianças, tinham entre 4 e 12 anos, quando Lula foi eleito pela primeira vez. Para tirar proveito dessa fraqueza de Dilma, Aécio tem o apoio de um poderoso porta-voz. José Júnior, fundador e coordenador do AfroReggae, líder de projetos de inclusão entre a moçada da periferia, conversará com os jovens em nome dele.

Mais que o jovem, o eleitor cortejado é o povão, que não quer só eletrodoméstico, mas comida, educação, saúde e emprego. O perfil do eleitor bolado está no maior hit da Copa, o “Lepo Lepo”. Atenção, candidatos, decorem:

Ah, eu já não sei o que fazer/
Duro, pé-rapado e com o salário atrasado/
Ah, eu não tenho mais pra onde correr/
Já fui despejado, o banco levou o meu carro/
Eu não tenho carro, não tenho teto/
E se ficar comigo é porque gosta/
Do meu rá rá rá rá rá rá rá o lepo lepo/
É tão gostoso quando eu rá rá rá rá rá rá rá o lepo lepo.


O cantor, Márcio Victor, diz que o “Lepo Lepo” é “a música do povo, é o que o povo quer ouvir”. Dilma, Aécio e Campos, comecem a treinar o “Lepo Lepo”, com o gestual sensual e tudo o mais. Se perguntarem em algum debate televisivo, o ritmo é o arrochanejo. Mistura de arrocha com sertanejo, pagode e axé. A cara do Brasil.

Com 80 anos e energia para os 100

O segredo dos octogenários que são independentes, produtivos – e felizes

CRISTIANE SEGATTO - 25/07/2014 21h39 - Atualizado em 25/07/2014 22h36

Para descobrir a idade de alguém, observe as mãos. Essa estratégia, quase sempre infalível, não funciona com Adib Jatene, de 85 anos, o mais célebre dos cirurgiões cardíacos brasileiros. Com poucas rugas e unhas muito bem aparadas, as mãos dele parecem 20 anos mais jovens. Comandadas por um cérebro admirável, elas executaram 40 mil operações. Há poucos meses, Jatene abandonou as salas de cirurgia. Tem consciência das limitações físicas impostas pelo tempo. Isso não significa a aposentadoria.

Sua agenda continua lotada. Todos os dias, atende pacientes no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo. Circula pelos corredores numa cadeira motorizada ou apoiado numa bengala. Há três meses, foi submetido a uma cirurgia de coluna. Um estreitamento na medula provocava-lhe dores terríveis. Está em recuperação. “Se fosse dar valor a isso, ficaria inutilizado”, diz. “Nunca me queixo.”

Sempre que pode, ele dá uma escapada até a oficina do Instituto Dante Pazzanese, hospital cardiológico que mantém um laboratório de equipamentos médicos. Jatene tem lugar cativo e seu nome está inscrito na bancada. É lá que se revela uma de suas vocações mais genuínas e pouco conhecidas: Jatene tem cabeça de engenheiro e espírito de Professor Pardal. Trabalha, com entusiasmo, na criação de uma versão barata da caríssima bomba implantável capaz de substituir, temporariamente, o coração de pacientes inscritos na fila de transplante.

Jatene é um caso que a ciência quer explicar. O que garante o alto desempenho intelectual e a produtividade na velhice? Por que alguns octogenários mantêm o domínio das capacidades mentais, a criatividade e o interesse pelo trabalho, enquanto tantos estão em casa ou sofrem de depressão ou de alguma forma de demência? Por que gente ativa como ele ultrapassa a expectativa de vida do brasileiro (71 para os homens; 78 para as mulheres) e continua com motivação e capacidade mental para completar um século?

O Projeto 80+, uma parceria do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP) com outras unidades da USP, investiga se há algo de especial nos genes e no cérebro dos octogenários saudáveis. Cento e trinta idosos doaram sangue e foram submetidos a exames de ressonância magnética e a outras avaliações físicas e de desempenho cognitivo. Jatene é um dos voluntários, assim como o economista Delfim Netto, a atriz Beatriz Segall, a bailarina Ruth Rachou, a professora Cleonice Berardinelli e o escritor Zuenir Ventura, entre outras personalidades.


sábado, 26 de julho de 2014


27 de julho de 2014 | N° 17872
MARTHA MEDEIROS

Uma blusa e uma amizade

Eu estava na cidade dela, não na minha, e sendo visita acatava as sugestões de tudo: onde almoçar, o que ver, o que fazer. Não que eu fosse uma estrangeira naquele lugar, pelo contrário, era uma das capitais em que mais estava quando não estava em Porto Alegre, seguia meus próprios rituais quando andava sozinha por suas alamedas, já tinha preferências sedimentadas, mas desta vez caminhava ao lado de uma amiga nova e nativa, e que, com um entusiasmo de anfitriã, apontava o que eu deveria enxergar com os olhos dela, não com os meus.

Foi então que passamos por uma loja de calçada, uma butique com uma atmosfera oriental, que ela apresentou como seu local preferido para comprar túnicas, pantalonas, roupas exóticas e coloridas. “É a tua cara, Martha, vamos entrar.” Entramos feito duas arqueólogas em busca de alguma raridade, até que ela garimpou uma blusa entre tantas, linda de fato. “Experimenta!” Obediente, fui para o provador e vesti a blusa que era três vezes o meu tamanho e custava três vezes mais do que meu orçamento permitia. “Vou levar”, anunciei.

Minha nova amiga ficou alegre e segura com a comprovação do quanto já me conhecia. “Tinha certeza de que você iria amar essa loja.” Aquela loja que ela julgava a minha cara, e que até era, ainda que “cara” fosse palavra incompatível com meus sonhos de consumo.

Isso foi quando? Uns seis anos atrás, talvez sete, talvez oito.

Depois disso, ficamos mais e mais amigas, mas nunca usei a blusa. Inúmeras vezes a coloquei, tirei, coloquei de novo, tentei combinar com calça, com saia, experimentei por cima do biquíni, até pensei em usar para dormir, aí lembrei do preço, não, para dormir não. Recolocava no armário e a deixava pendurada no cabide, aguardando a oportunidade que toda mulher acredita que virá, mas que para aquela blusa não veio.

Esta semana, arrumando gavetas, separando peças para doação, peguei a blusa e pensei: “Chegou tua hora”. Não era a primeira vez que me preparava para dar adeus a ela, mas relutava feito um amor que a gente sabe que não serve, mas que se ilude que um dia, por milagre, se transformará no nosso número. Só que as coisas não mudam apenas porque queremos que mudem. A linda blusa morou em minha casa por um tempo demasiado devido a minha fé e romantismo, mas havia chegado o momento de seguir o seu destino.


Dobrei-a com carinho e a coloquei numa sacola junto a camisetas gastas e a jaquetas puídas. Misturei a blusa virgem junto a peças veteranas, ela que também já não aparentava ser muito nova, ainda que sem uso. E lá se foi ela, intocada, sem meu cheiro. A blusa que comprei apenas para vestir uma amizade ainda nua.

27 de julho de 2014 | N° 17872
ANTONIO PRATA

Íntimos desconhecidos

Finalmente, transpostos junho e julho, esses meses vagabundos em que a vida foi marcada, driblada e vencida pela Copa, consegui terminar de ler a biografia do Rubem Braga, que eu havia começado em maio. Ontem, às duas e tanto da manhã, com os olhos ardendo e um aperto no peito, virei a última página.

Ao apagar o abajur, pensei que a angústia fosse causada pela morte do “velho Braga”, descrita de forma sóbria e delicada por Marco Antonio de Carvalho: descobrindo um câncer em estágio avançado, o cronista, que sempre viu mais beleza nas pescarias do que nas epopeias, optou por não se tratar; preparou a partida, distribuiu os livros e os quadros, se despediu dos amigos, deitou e não se levantou mais.

Hoje, porém, acordei com a sensação de que não era exatamente a morte do escritor a parte mal digerida da biografia. A azia existencial me perseguiu ao longo do dia e só no meio da tarde, quando terminei um e-mail com uma exclamação (o que pode ser menos bragueano do que uma exclamação?), entendi o que me incomodava – algo que eu já vislumbrava desde que passei a conviver mais de perto com os humores, afetos e idiossincrasias do meu íntimo desconhecido: o Rubem Braga não ia gostar de mim.

É duro constatar um negócio desses, depois de duas décadas de convívio intenso. É como descobrir que a sua mulher está te traindo. Não, é pior: a mulher que trai o marido pode amá-lo – ou, pelo menos, já o ter amado, um dia. Rubem Braga nunca me amaria. Ele era quieto, eu, falastrão. Ele não sorria pra todo mundo, eu pareço um candidato a vereador. Ele era um velho lobo do mar, eu cresci patinando no gelo, no Shopping Morumbi.

Nesses 20 anos de relação, já me imaginei várias vezes voltando ao passado e sendo apresentado ao cronista, por um amigo em comum. Já me projetei na famosa cobertura da Barão da Torre, em Ipanema, batendo papo no jardim. Não me vejo falando sobre passarinhos ou ventos alísios – nasci em São Paulo, cresci em São Paulo, minha relação mais próxima com a natureza foram dois gatos e uma tartaruga de aquário –, mas quem sabe conversássemos sobre a infância, que é sempre interiorana, e descobríssemos insuspeitos paralelos entre o Itaim Bibi e Cachoeiro do Itapemirim? Eu lhe mostraria um ou outro texto, ele me ofereceria uma cachaça, comeríamos jabuticabas.

Todas essas fantasias desapareceram, agora que li o livro. Não sou o tipo de pessoa com quem Braga se daria bem. Me vejo saindo de sua cobertura e o ouço comentar com nosso amigo que me achou frívolo, meio bobo, talvez. Pede – seco, mas não rude – que não me leve mais ali.
  

Saímos andando por Ipanema, eu e esse amigo sem rosto, que me consola. Para minha sorte, esse amigo é muito bem relacionado e avista, no fundo de um bar, uma mesa improvável, mas não impossível: João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna. Nos sentamos. Os dois falam pelos cotovelos e riem muito, como eu. Em meia hora, somos amigos de infância. Eles me acham o máximo, me convidam para uma moqueca em Itaparica, um vatapá no Recife e uma saideira no Antonio’s, onde nos aguardam Millôr Fernandes e Vinicius de Moraes. Saio trôpego pela calçada, às duas e tanto da manhã, com os olhos ardendo e o peito transbordante.

27 de julho de 2014 | N° 17872
PAULO FAGUNDES VISENTINI

O BRICS e seus mitos

A sexta cúpula do agrupamento BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, foneticamente “tijolos”, do inglês bricks), realizada este ano em Fortaleza, atraiu a atenção com propostas inovadoras, acompanhadas de ufanismo, críticas ou ceticismo. Desde que o acrônimo foi criado em 2001 por Jim O’Neill, da consultoria Goldman Sachs de Nova Iorque, o exercício de simulação sobre o rápido crescimento das grandes economias emergentes se tornou uma publicidade gratuita para os referidos países.

Mas a sigla somente foi assumida por China, Rússia, Brasil e Índia em 2009, como resposta à crise financeira de 2008-2009, iniciada nos Estados Unidos e que atingiu a Zona do Euro. Logo o acrônimo passou a ser definido em torno de mitos, de fora para dentro: o BRICS é 1) o bloco econômico dos emergentes, novo centro da economia mundial; 2) uma aliança de regimes autoritários ou esquerdistas contra as democracias do Atlântico Norte; 3) um grupo dominado pela China para obter o domínio mundial.

Para outros, o BRICS: 1) não é sólido porque seus membros são muito diferentes; 2) tem tido desempenho declinante pela taxa de crescimento menor; 3) propõe instituições (Banco de Desenvolvimento e Fundo de Reserva) para competir com o FMI e o Banco Mundial; 4) não é representativo dos emergentes porque deixa de fora outros países importantes.

São mitos que necessitam ser esclarecidos. Os integrantes dos BRICS têm sólidas relações econômicas com os Estados Unidos e Europa e muitos interesses em comum, e não buscam qualquer ruptura profunda com o atual sistema internacional. Trata-se de uma coalizão ad hoc (para uma tarefa específica) que busca responder aos riscos da crise financeira e econômica mundial e nunca pretendeu ser um bloco econômico.

Os membros têm, como emergentes, uma posição semelhante na estrutura de poder político e econômico. Inclusive, houve uma mudança de posição, pois hoje são eles que lutam contra o protecionismo comercial (que começa a ser praticado pelos euro-americanos) e defendem as negociações multilaterais. Não foi apenas seu crescimento que reduziu o ritmo, mas o da economia mundial como um todo, e eles ainda estão muito à frente dos EUA e da Europa (menos endividados e com mais reservas). E continuam puxando a economia internacional, particularmente a China.

Por fim, a China, espertamente, não deseja qualquer posição de liderança, mas atuar em conjunto com aliados visando reformas no sistema financeiro e comercial (sempre postergadas) para manter o crescimento e evitar um colapso mundial. Da mesma forma, atua em conjunto na ONU para afastar o perigo de que conflitos localizados se transformem em guerras maiores.

Certamente, quando o fantasma da instabilidade econômica e política for afastado, as diferenças e rivalidades entre eles voltarão a se manifestar, e o grupo perderá sua razão de ser. Como todo tijolo, pode se esfarelar.

27 de julho de 2014 | N° 17872
 FABRÍCIO CARPINEJAR

Bem que você poderia me amar

Você pode amar para esquecer quem foi um dia.

Você pode amar para lembrar quem foi um dia.

Você pode amar para recuperar a infância.

Você pode amar para repetir a adolescência.

Você pode amar para combater a velhice.

Você pode amar de olhos abertos, enxergando as falhas.

Você pode amar de olhos fechados, relevando os foras.

Você pode amar para se endividar.

Você pode amar para criar patrimônio.

Você pode amar para encontrar equilíbrio.

Você pode amar para se aproximar do abismo.

Você pode amar para ganhar lucidez.

Você pode amar para enlouquecer.

Você pode amar para adoecer de ciúme.

Você pode amar para ter segurança.

Você pode amar pessimista, falando mal aos seus amigos.

Você pode amar com esperança, silenciando os atritos.

Você pode amar magoado.

Você pode amar leve e desembaraçado.

Você pode amar para romper o padrão de antigos amores e aceitar que estava errado.

Você pode amar para imitar outros amores e se convencer de que estava certo.

Você pode amar fraquejando e acreditando nas próprias mentiras.

Você pode amar dizendo unicamente a verdade e suportando as crises da franqueza.

Você pode amar para confirmar expectativas.

Você pode amar para contrariar sua idealização.

Você pode amar para converter bandidos em santos.

Você pode amar para fazer santos pecarem.

Você pode amar à primeira vista.

Você pode amar por repescagem.

Você pode amar desconfiando e questionando as evidências.

Você pode amar por clarividência.

Você pode amar para ser triste e se deprimir de canções e livros.

Você pode amar para alegrar as estantes e os ouvidos.

Você pode amar para concordar com o terapeuta.

Você pode amar para se opor ao terapeuta.

Você pode amar para fugir da família.

Você pode amar para unir a família.

Você pode amar superficialmente, escondendo o que pensa.

Você pode amar profundamente, sem segredos e âncora para se fixar nas palavras.

Você pode amar pelo sexo.

Você pode amar pelo romance.

Você pode amar pela exposição.

Você pode amar pela solidão a dois.

Você pode amar os intermináveis problemas e brigas.

Você pode amar a paz que vem com o fim da noite.

Você pode amar compreendendo e rindo dos defeitos.

Você pode amar julgando e condenando as diferenças.

Você pode amar cuidando das roupas, da comida, da casa.

Você pode amar com a arruaça das ruas e da boemia.


Mas amor mesmo é quando você está contando seus dias, com toda a concentração dos números, e alguém chega para lhe atrapalhar de eternidade. E você esquece onde estava, a soma da sua vida, e só pensa em ficar para sempre do jeito que for. Ainda que seja por um dia.

27 de julho de 2014 | N° 17872
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

Você sofre de ansiedade de banheiro?

Estava no supermercado, no corredor dos itens para banho e limpeza, e vi aquela mensagem. Era um texto escrito num pacote de rolos de papel higiênico. O título capturou a minha atenção, como devem fazer os bons títulos. Numa tradução livre, perguntava-me assim:

“Você tem ansiedade de banheiro?” Hein?

Li a linha abaixo. Nova pergunta:

“Você está se sentindo como se jamais fosse encontrar o papel higiênico perfeito?”

Olhei para dentro de mim mesmo. Para minh’alma. Fiz um questionamento silencioso. Estaria eu em busca do papel higiênico perfeito? Nunca havia pensando nisso nesses termos, mas, sim, concordei: eu queria o papel higiênico perfeito. Agora, querendo-o, achava que poderia encontrá-lo ou, como dizia o texto, sentia-me como se ele não existisse? Refleti mais um pouco, parado ali, diante da estante, e balancei a cabeça: era verdade, sentia-me como se nunca pudesse encontrar tamanha perfeição.

Fui em frente. Havia uma descrição do tão almejado papel higiênico perfeito:

“Um que deslize do rolo com graça e estilo”.

Eu queria isso? Graça e estilo em meu papel higiênico? Sim. Sim! Definitivamente sim. Parecia maravilhoso.

Prossegui.

“Relaxe”, tranquilizava-me o redator. “Sua busca acabou”. Por quê? Porque aquele papel higiênico que tinha em mãos, chamado de “Super Soft”, possuía o poder de fazer as minhas ansiedades derreterem. Era isso que ele fazia: derretia ansiedades.

“O Super Soft faz jus ao nome que leva e é uma garantia de, com seu uso, trazer um sorriso para o seu rosto”, prometia-me a embalagem, encerrando com uma espécie de repto: “Não leve em conta o que dizemos. Leve esse rolo miraculoso para casa e experimente!”

Oh, Super Soft!

Levei-o para casa. Ele me traz, diariamente, um sorriso com seu uso.

Ah, o poder dos publicitários americanos.

ANSIEDADE ÉTNICA

Você tinha de ver os negrões americanos dançando. Aliás, aqui nos Estados Unidos você não pode nunca chamar um negro de negro. É afroamericano MESMO. Chamar um negro de negro pode dar processo e tudo mais.

Mas, francamente, chamar um negro de afroamericano é que me soa preconceituoso, por causa da falta de naturalidade da coisa. Como é que vou descrever Pelé como “um afroamericano forte, de 1m73cm de altura, que chuta bem com ambas as pernas”? Qual é o problema com “Pelé é um negro forte, de 1m73cm de altura, que chuta bem com ambas as pernas?” Onde está a ofensa?

Mas, está certo, se algum negro brasileiro me disser para chamá-lo de afroamericano, chamo. Respeito suscetibilidades. Aqui, pelo menos, tem de ser assim. Então:

Você tinha de ver os afroamericanos dançando. Vi, no Quincy Market, uma manhã dessas. É mais do que dança, é malabarismo. Um show criteriosamente ensaiado em que nada dá errado. Os caras se contorcem no chão como serpentes com coceira, saltam como cabritos monteses, parece que os ossos deles são feitos de geleca. E depois passam o chapéu para recolher os dólares da assistência. Dólares, dólares. Tudo está bem, tudo está certo na América, se você tem dólares.

ANSIEDADE CLIMÁTICA

Neste momento em que escrevo faz 90 graus Fahrenheit. Como é converter isso para Celsius, que é muito mais civilizado? Ninguém sabe ao certo. Há várias maneiras de calcular. Uma delas:

Pegue a temperatura Fahrenheit. No caso, 90.

Subtraia 32. Resultado: 58.

Divida por 9. Resultado: 6,4.

Multiplique por 5. Resultado: 32.

Aí está: 32 graus Celsius.

É quase isso. Na verdade, 90ºF dá 32,22222222222222222222222222222ºC.


Uma droga. Nunca sei que temperatura está fazendo. Essa incerteza pode perturbar um homem, pode acabar com ele. Sim, senhor.

27 de julho de 2014 | N° 17872
PAULO SANT’ANA

Fim ao logro

O Sindicato Médico do RS (Simers) divulgou recentemente, numa emissora de rádio, um comunicado em que disse: “Em 20 anos, foram fechados 11 mil leitos pelo SUS, mais de 3 mil somente na Capital. A consequência é a superlotação das emergências. Os gestores da Saúde prometem novas vagas. Precisamos de mais investimentos e menos demagogia”.

É grave o que o Simers denuncia: foram fechados 11 mil leitos, 3 mil deles somente na Capital.

Por isso o pandemônio nas emergências e nos hospitais gratuitos.

Agora vejam o que denuncia outra entidade médica, o Cremers, também em comunicado que fez pela imprensa: “Estamos nos aproximando de outra eleição. E, como sempre, os políticos passam a destacar a Saúde em seus discursos. Mas o Cremers informa: a três meses da eleição, o governo do Estado anuncia a criação de mil leitos na Capital e na Região Metropolitana. A licitação, porém, sequer foi aberta. É a Saúde mais uma vez sendo usada para fins eleitorais”.

Como se nota pelas manifestações das entidades médicas, a demagogia e o mau uso dos serviços de Saúde gratuitos são apanágio dos gestores públicos da Saúde.

Em suma, o governo é o culpado. O governo mente, ilude, falsifica dados para ludibriar a opinião pública. É necessária a publicação da opinião das entidades médicas para desmascará-lo.

Mas para onde foi essa verba bilionária se extinguiram esses milhares de leitos e privaram milhões de pessoas dos serviços médicos do SUS? Ninguém sabe, ninguém viu. Isso é muito sério, talvez esse dinheiro bilionário tenha sido desviado para a construção de estádios para a realização da Copa do Mundo recentemente.

É uma vergonha, é um descalabro, é um desgoverno.


Os eleitores precisam ver quem os está enganando. E votar contra os que os enganam.

27 de julho de 2014 | N° 17872
L. F. VERISSIMO

Ao ponto

Li que nos Estados Unidos está havendo uma controvérsia sobre um ponto. Em diferentes versões de um determinado documento, o ponto aparece ou não aparece. Seria uma questão menor se o documento não fosse a Declaração de Independência assinada pelos fundadores da República Americana em 1776. E se a ausência ou presença do tal ponto não alterasse o sentido de uma frase, a que fala da “verdade autoevidente” que todos os homens são criados iguais, com direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

E mais: se o sentido da frase com ou sem ponto não influísse o debate moderno sobre direitos individuais contra o direito do Estado de intervir para assegurar a felicidade coletiva. Não sei bem onde entra o tal ponto, mas, simplificando, se ele existe dá razão à direita, se não existe dá razão à esquerda – ou vice-versa. A versão original da Declaração não ajuda. Apesar de estar exposta numa redoma à prova de contágio humano, está tão apagada pelo tempo que não se vê mais a pontuação.

Há dias, lembrei aqui a frase do Mao Tsé-Tung quando lhe teriam perguntado quais eram os efeitos da Revolução Francesa na história do mundo: “É cedo para saber”, teria dito Mao. O cineasta Giba Assis Brasil me corrigiu. A frase não é do Mao, é do Chu En-Lai. E foi dita em resposta a uma pergunta mal traduzida, ou devido a um erro do próprio Chu, que era a eminência intelectual da Revolução Chinesa e uma das figuras mais fascinantes do século 20, mas não estava livre de fazer confusão.

A pergunta, feita a Chu durante a histórica visita de Nixon à China em 1971, era sobre a Revolução Francesa de 1968, a dos estudantes, não a de 1789. O erro nunca foi corrigido porque a frase era ótima, um delicioso exemplo de paciência oriental e pensamento a longo prazo que explicava o sucesso dos comunistas na China. O episódio sugere que daria para reescrever a história do mundo baseando-se apenas em traduções malfeitas nos grandes encontros políticos. No terrível poder, até de causar guerras, dos maus intérpretes.

Confusão maior do que as de pontos errantes e traduções mal-entendidas é a de termos que mudam radicalmente de significado de língua para língua. O exemplo mais evidente é o da denominação “liberal”, que nos Estados Unidos quer dizer uma coisa e em português e outras línguas quer dizer o seu oposto.


Um liberal americano é de esquerda, e nada lhe agradaria mais do que saber que uma reinterpretação da Declaração de Independência reforça sua posição coletivista e intervencionista. Um liberal brasileiro, ou francês, é de direita, defensor do mercado livre, de um empreendedorismo sem limites e de uma agenda conservadora. Por isso, ao ouvir falar que alguém é liberal, é sempre bom perguntar “Em que língua?”.