segunda-feira, 8 de março de 2021


08 DE MARÇO DE 2021
LITERATURA 

Nas palavras delas 

Mulheres que leem mulheres. Neste 8 de março, escritoras indicam livros de outras autoras - de ficção a antologia, as obras levam a reflexões sociais e provocam inquietações sobre temas como o luto e o custo pago pelos sonhos 

Cíntia Moscovich 

Escritora porto-alegrense, jornalista e mestre em Teoria Literária 

Indico "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector, publicado pela Rocco. É um clássico, último livro escrito pela autora antes de morrer, precocemente, de câncer. É, como ela mesma diz, um livro escrito em estado de urgência. Como estamos todos nós. 

A Hora da Estrela 

De Clarice Lispector 

Editora Rocco, 88 páginas 

Winnie Bueno 

Criadora da Winnieteca, projeto que combate o racismo com a doação de livros 

Recomendo "Olhos D?água", de Conceição Evaristo, pois é um livro que expressa múltiplas subjetividades de mulheres a partir de uma escrita potente que mobiliza vivências femininas para além do padrão. Uma forma de falar de nós onde podemos nos sentir e nos ver. 

Olhos D?água 

De Conceição Evaristo 

Editora Pallas, 116 páginas 

Ana dos Santos 

Poeta e professora de Literatura, é mestranda em Estudos Literários 

Indico a leitura do livro de contos de Conceição Evaristo, "Insubmissas Lágrimas de Mulheres". São histórias contadas por mulheres negras que a narradora compõe com a sua própria "escrevivência". É uma leitura que humaniza estas mulheres escrita com maestria por uma das mais importantes escritoras da contemporaneidade. 

Insubmissas lágrimas de mulheres 

De Conceição Evaristo 

Editora Malê, 140 páginas 

Lilian Rocha 

Poeta porto-alegrense, membro da coordenação do Sarau Sopapo Poético 

Indico o livro "Visite o Decorado", da escritora Taiasmin Ohnmacht, que foi publicado pela Editora Figura de Linguagem. É uma novela com um desfecho surpreendente e que busca uma reflexão muito atual: o quanto desejamos estar seguros e o quanto amamos a nossa liberdade? Os nossos sonhos não precisam ter um custo tão alto. 

Visite o Decorado 

De Taiasmin Ohnmacht 

Editora Figura de Linguagem, 65 páginas 

Lya Luft 

Natural de Santa Cruz do Sul, é uma das mais prestigiadas escritoras brasileiras 

Indico "Mulheres Que Correm Com os Lobos", de Clarissa Pinkola Estes ou "Paula", de Isabel Allende. Os dois falam de certa força, uma aura, um segredo qualquer que nos torna especiais, frágeis e fortes anjos e bruxas. 

Mulheres Que Correm Com os Lobos 

De Clarissa Pinkola Estes 

Editora Rocco, 576 páginas 

Paula 

De Isabel Allende 

Editora Bertrand Brasil, 378 páginas 

Marília Floôr Kosby 

Poeta gaúcha finalista do Prêmio Jabuti por seu livro "Mugido" 

O livro "Pensamento Feminista Brasileiro: Formação e Contexto", organizado pela professora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda (2019), é uma leitura imprescindível para quem quer conhecer formação e consolidação de teorias feministas no Brasil. 

Pensamento Feminista Brasileiro: Formação e contexto 

Organizado por Heloísa Buarque de Hollanda 

Editora Bazar do Tempo, 400 páginas 

Diana Corso 

Escritora e psicanalista, nasceu no Uruguai, mas vive no Brasil 

Em fevereiro vi o homem que amo lutar contra e vencer a covid-19. Tomada do pânico de ficar viúva, fui assistida por duas escritoras que narram seus lutos e ficaram, elas próprias, habitando o vazio: Joan Didion, com "O Ano do Pensamento Mágico", e Rosa Montero, com "A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver". 

O ano do pensamento mágico 

De Joan Didion 

Editora HarperCollins, 240 páginas 

A ridícula ideia de nunca mais te ver 

De Rosa Montero 

Editora Todavia, 208 páginas 

Martha Medeiros 

Uma das principais cronistas do Estado, com mais de 25 anos de carreira 

Indico "De Quem é Esta História", de Rebecca Solnit. "Estamos construindo algo imenso juntos" é a frase de abertura do excelente livro de ensaios desta historiadora californiana, colunista do The Guardian,que escreve com clareza e argúcia sobre os principais temas em debate no mundo contemporâneo. 

De Quem é Esta História 

De Rebecca Solnit 

Companhia das Letras, 216 páginas 

Leticia Wierzchowski 

Escritora gaúcha, autora de "A Casa das Sete Mulheres" 

Estou mergulhada no livro "Pra Amanhecer Ontem", da Ana Mariano. Indico porque é a história de quatro irmãs lutando para encontrarem seu espaço na vida num período muito duro do país, a ditadura. Embora sejam de uma família rica, os intrincados nós que as limitam são os mesmos de todas as mulheres. 

Pra Amanhecer Ontem 

De Ana Mariano 

Editora L&PM, 336 páginas 

Viviane Juguero 

Autora de "Lacatumba", dramaturga, mestre e doutora em Artes Cênicas 

Da dramaturga Dione Carlos, destaco o texto teatral "Ialodês", publicado na antologia "Dramaturgia Negra" (FUNARTE, 2018), além dos livros "Dramaturgias do Front" (Editora Primata, 2017) e "Black Brecht: e se Brecht Fosse Negro?" (Glacê Edições, 2020).

 Dramaturgia Negra 

FUNARTE, 480 páginas 

Maria Carpi 

Defensora pública aposentada, poeta, autora de "O que Resta Está por Vir" 

Recomendo "A Metáfora do Coração". De Maria Zambrano, une a razão à poesia, denominada como a razão poética. Mais do que nunca a razão não basta. Precisamos exercer a ética do cuidado que só a poesia oferece.

A Metáfora do Coração 

De Maria Zambrano 

Editora Assirio & Alvim, 153 páginas


08 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

O time ruim do Grêmio perdeu ao natural

Bem. Não é para me exibir, mas eu já sabia que isso ia acontecer. Já tinha dito, já tinha escrito. Agora, a verdade é que não era preciso ser nenhum Nostradamus para ver a ruindade do time do Grêmio diante de um time bem arrumadinho (no máximo isso, bem arrumadinho) do Palmeiras. Era óbvio que o Grêmio ia perder, e perdeu com a naturalidade das equipes inferiores.

Renato até tentou fazer algo diferente: escalou o jovem Vanderson na lateral direita e passou Victor Ferraz para o pântano sombrio da reserva. Nisso, acertou. Vanderson é melhor do que Ferraz, e foi um dos destaques da final. Outra mudança foi Thaciano no lugar do sonolento Jean Pyerre, se bem que Thaciano não jogou NO LUGAR do sonolento Jean Pyerre; jogou no de Alisson, pela direita, enquanto Alisson foi para o meio-campo (no lugar do sonolento Jean Pyerre).

Thaciano até que exerceu um trabalho razoável, uma espécie de Ramiro sem inspiração. E Alisson, no meio, foi igual ao Alisson no flanco: muita correria, pouco proveito.

Atrás, a zaga saiu-se bem. Mas Paulo Victor tomou dois gols de bolas defensáveis. No primeiro, como sói acontecer, ele espalmou para dentro. No segundo, a bola passou por baixo de seu corpo. Isso também era previsível. A escalação de Paulo Victor na final, depois de mais de um ano na reserva motivada pelo fiasco do zero a cinco no Maracanã, é o quarto segredo de Fátima. Ou: de Renato.

Na frente, Diego Souza jogou como se tivesse 35 anos de idade. E Pepê jogou como se tivesse sido vendido para outro clube e pouco ligasse para o que acontecesse com o Grêmio.

Mesmo assim, o Grêmio fez um bom enfrentamento no primeiro tempo. O jogo foi igual, tudo poderia ter acontecido. Só que nada aconteceu. No segundo tempo, com Maicon cansado, com o goleiro falhando e com Renato demorando a fazer substituições, o Palmeiras se impôs sem dificuldades, como se disputasse um amistoso. O Grêmio não parecia nem muito interessado em tentar virar o placar - não conseguiria, é claro, mas podia ter fingido que queria.

O que restou para o Grêmio depois de mais esse fracasso? Bem pouco. Vanderson deve ser efetivado como titular da lateral direita. Na esquerda, há Diogo Barbosa. No miolo da zaga, Kannemann. No meio-campo, só Matheus Henrique. No ataque, talvez (talvez!) Ferreirinha. Conte: são cinco jogadores com estatura de titulares. Ou seja: seriam necessárias pelo menos seis contratações que dessem certo. Como a direção do Grêmio tradicionalmente não sabe contratar... Reze, torcedor gremista! Reze!

Mas o pior é que tudo indica que Renato vai continuar insistindo no futebol de toque de bola que há três anos redunda em goleadas sofridas e finais perdidas. O Grêmio, que outrora punha medo nos adversários por ser forte, aguerrido e bravo, perdeu suas virtudes, tornou-se um time mole, sem alma, com Grapette correndo nas veias, em lugar de sangue.

Será um ano duro, torcedor. Reze. Reze!

DAVID COIMBRA

08 DE MARÇO DE 2021
ARTIGOS

PANDEMIA E MULHERES: ROTINA ALTERADA E DESIGUALDADES

Neste ano, o Dia Internacional da Mulher não é motivo de muita celebração. Segundo a ONU Mulheres, em face da pandemia de covid-19, o efetivo progresso contra a pobreza entre mulheres ocorrido nas últimas décadas deve ser revertido.

A pandemia impacta a economia e atinge homens e mulheres, piorando a situação de emprego e trabalho, notadamente entre pessoas com baixa qualificação e escolaridade. No entanto, atinge com mais força as mulheres em idade reprodutiva, pobres e negras.

As mulheres são as maiores responsáveis pelas tarefas de cuidado. Suas rotinas foram modificadas em função da pandemia e da falta de políticas coordenadas para combater o vírus e proteger as pessoas em termos sanitários, sociais e econômicos. Segundo a pesquisa "Sem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia", realizada por Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista, entre as mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos ou pessoas com deficiência, 72% afirmam que a necessidade de monitoramento e companhia cresceu durante a pandemia.

Com relação aos salários, as mulheres recebem menos do que os homens; mulheres negras recebem menos do que as brancas. Na pandemia, muitas também não conseguiram manter a mesma renda: na pesquisa citada, 40% afirmaram que a pandemia e o isolamento social puseram em risco o sustento da casa.

Além disso, mulheres comumente sofrem com violência doméstica ou algum tipo de assédio. Conforme o Instituto Maria da Penha, a cada dois segundos, uma mulher sofre violência física ou verbal no Brasil. Em razão do isolamento social e da maior precariedade salarial, os números de violência aumentaram durante a pandemia.

Precisamos ter cada vez mais consciência das problemáticas que envolvem questões de gênero. É preciso melhorar o acesso à saúde, à educação e a trabalhos dignos, e expandir programas sociais. Ainda há um longo caminho a percorrer. Políticas públicas com recorte de gênero, raça e classe são imprescindíveis para a diminuição de desigualdades. Precisamos ter cada vez mais consciência das problemáticas que envolvem questões de gênero


08 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A SUPERAÇÃO DO DILEMA

Toda colaboração possível para acelerar a aquisição de vacinas contra a covid-19 é bem-vinda e essencial para o país começar a virar o capítulo trágico da pandemia. Diante dos movimentos dúbios do governo federal e da lentidão do próprio Ministério da Saúde para fechar contratos, deve ser recebida com alívio a aprovação pelo Congresso da possibilidade de Estados e municípios também comprarem imunizantes. O novo pico de mortes e hospitalizações, após a sensação, no final do ano passado, de que o pior parecia ter passado, comprova que apenas quando todos os brasileiros elegíveis receberem as suas doses será possível deter a marcha de mortes e dar início a uma recuperação consistente da economia, com a volta segura ao trabalho.

Neste momento, Estados e municípios, de forma isolada ou em consórcios, tentam acelerar tratativas com laboratórios para assegurar novas remessas para o país. Por mais que não exista certeza de quando poderiam acontecer as entregas, não é possível mais deixar para depois as negociações e tampouco confiar no Planalto, que segue demonstrando uma incrível inabilidade em garantir as quantidades de que o país com o segundo maior número de vítimas fatais precisa. Esta pressão, por outro lado, também parece ter feito o governo federal acordar da letargia, como mostrou o anúncio do ministro Eduardo Pazuello, na semana passada, de que estaria próximo de assinar com a Pfizer e com a Janssen. Uma boa sinalização, mas apenas promessa, por enquanto.

Da mesma forma, é positivo que a iniciativa privada também entre nesta corrida de interesse nacional. Afinal, se algo próximo da normalidade não for restabelecido, a economia e as empresas continuarão sofrendo com reflexos no mercado de trabalho e nas contas públicas. É preciso ressaltar que as aquisições pelas companhias, em um primeiro momento, serão doadas ao SUS para uso no Programa Nacional de Imunizações (PNI). Apenas após a vacinação dos grupos prioritários pela rede pública, a iniciativa privada poderá adquirir mais imunizantes e, mesmo assim, metade deve ser outra vez repassada ao SUS. Uma saída sensata para conciliar o dever de não criar privilégios com o ato de acelerar a compra das vacinas.

Economistas começam a projetar que, com o recrudescimento da economia, o PIB brasileiro do primeiro trimestre deve ser negativo, dificultando ainda mais a recuperação da atividade em 2021, após a retração de 4,1% no ano passado. Sem saúde não há economia, sentenciou na semana passada o ministro Paulo Guedes, fazendo coro à certeza de que apenas a vacinação em massa permitirá o retorno pleno de todos os setores a um ritmo mais forte e contínuo. Caso contrário, o país seguirá meses e trimestres a fio mantendo o prejudicial e desgastante abre e fecha, de acordo com o repique da pandemia e da contabilidade macabra de mortes. Um eventual dilema entre saúde e economia está superado. Já existe a solução, comprovada em outros países mais ágeis e coesos. Com exceção de um número ínfimo de excêntricos, para usar uma palavra leve, há consenso de que apenas a vacinação maciça e rápida da população será capaz de resgatar o país do fundo do poço. Agora, a ordem é mobilizar e pressionar. 

OPINIÃO DA RBS

08 DE MARÇO DE 2021
CLÁUDIA LAITANO

Luto 

Por doenças não relacionadas à pandemia, perdi três amigos próximos de juventude em um período muito curto de tempo. Quem passou por perdas desse tipo sabe que a morte do amigo de juventude provoca luto e nostalgia ao mesmo tempo. Quando perdemos um amigo, ficamos um pouco mais velhos, um pouco mais tristes, um pouco mais sozinhos.

Pensando nos meus amigos e em tudo o que tinham pela frente - filhos para terminar de criar, lugares e pessoas para conhecer, projetos a realizar - não consigo deixar de imaginar uma realidade paralela em que volto no tempo para alertá-los a respeito de perigos na pista ainda muito remotos quando se tem 20 e poucos anos. Aviso que é preciso parar de fumar imediatamente, que fazer check-up todos os anos é mais importante do que parece, que maneirar na vida boêmia é uma boa ideia a partir de certa idade.

Imagino os conselhos, mas também o olhar de incredulidade que meus jovens amigos me devolvem. Não adianta dizer que venho do futuro e na verdade tenho idade para ser mãe deles. Na minha fantasia, eles sempre acabam escolhendo continuar levando a mesma vida que levaram - por menos razoável que pareça para a bem-intencionada viajante do tempo. A possibilidade de uma vida vivida de trás para frente, contemplando todos os perigos do futuro a cada decisão ou escolha, provavelmente soe mais como castigo do que como salvação, mesmo no meu devaneio.

Talvez seja uma reação comum, quando alguém morre, nos entregarmos à fantasia de que teria sido possível salvar essa pessoa do seu destino. E se eu tivesse notado que ele estava doente? E se tivesse insistido para levá-lo ao médico um ano antes? É quase como se tivéssemos que expiar a culpa de continuarmos vivos inventando culpas que, na verdade, não existem.

No caso do luto cívico que o Brasil está vivendo neste momento, ao contrário, existem culpados e muitas mortes poderiam, sim, ter sido evitadas com uma gestão apenas decente da pandemia. Não podemos voltar no tempo e corrigir os erros do passado, mas os mais de 260 mil mortos que não pesam na consciência do presidente da República exigem de nós, os que continuamos vivos, a justiça póstuma e o tributo de um voto melhor no futuro.

CLÁUDIA LAITANO

08 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Eduardo Leite, o novo Marchezan

Eduardo Leite deve estar com saudade de Nelson Marchezan. Não porque houvesse entre ambos sintonia pessoal e política, mas porque o ex-prefeito da Capital cumpria um papel que, agora, foi transferido para o governador: o papel de Geni.

Quem conhece a letra de Chico Buarque entende exatamente o que quero dizer. Enquanto Marchezan governava Porto Alegre, se transformou em alvo das pedras e dos xingamentos de um aguerrido e representativo grupo que, legitimamente, não concorda com as restrições à circulação de pessoas e à atividade comercial. Não de todos que criticam as medidas restritivas, mas, principalmente, dos setores mais ideológicos e articulados nas redes sociais.

Diferentemente de Sebastião Melo, que se elegeu prometendo "não fechar a cidade", Marchezan comprou brigas importantes para implementar e tentar manter um plano que previa lojas trancadas boa parte do tempo e o maior número possível de pessoas em casa, pelo menos até que a contaminação fosse reduzida.

Mesmo que tenhamos evoluído na compreensão de que economia e saúde caminham juntas, ainda não descobrimos como, na prática, fazer funcionar. Enquanto outros países já começam a reabrir, por aqui, discutimos se devemos fechar. É dedo em riste pra cá, chute nas canelas para lá. O vírus ama a nossa desagregação. Me chamem de Poliana, mas fico aqui imaginando se toda essa energia - governos, empresários, entidades, imprensa, trabalhadores, cidadãos - fosse usada para remar para um mesmo lado, mesmo que não fosse o lado ideal, mas que pelo menos nos afastasse do caos. Depois, quando incêndio estivesse apagado, a gente faria o acerto de contas sobre quem tem razão, que sabia antes, que avisou. Tem países que conseguiram, apesar das naturais e saudáveis divisões internas.

Por aqui, quando Marchezan saiu, a indignação e fúria, compreensíveis diante das avassaladoras dificuldades desses tempos, ficaram órfãs de um alvo. Foi só trocar as fotos dos memes e o nome estampado nas acusações, com as tradicionais derivações debochadas, que começam em "Dudu Milk" e terminam nas escaldantes chamas do inferno. Sai Marchezan, entra Leite. Com a mesma contundência. Uma baita solução caseira. Já que o vírus, o problema real, não leva desaforo para casa - leva para a UTI, desde que haja leitos. E Brasília fica longe demais do sul do mundo.

Do bem

A Gramado Parks doou um ventilador mecânico para o Hospital Arcanjo de São Miguel, em Gramado. "Somos um dos maiores empregadores da região e por isso nos sentimos na responsabilidade de colaborar com o atendimento da população local em um momento tão difícil", declarou Christian Dunnwald, sócio-diretor da holding, que emprega 1,5 mil pessoas em empreendimentos como o Snowland.

Os auditores-fiscais de Porto Alegre arrecadaram R$ 15.630,00 na sua campanha de solidariedade em fevereiro. O valor foi convertido em cestas de higiene e alimentação para entidades da Capital.

Exposição

Obras de artistas gaúchas estão viajando o mundo por meio de uma parceria entre a Gravura Galeria de Arte e a Arte Global By Malvicino Palermo. Indicadas pela Gravura, as telas participam de exposições no Instagram de galerias em Los Angeles (EUA), Culiacán (México), Ilhas Canárias (Espanha) e Nidge (Turquia), de forma virtual. A abertura dos eventos começa nesta segunda-feira, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. A programação terá pinturas de Dirce Fett, Magna Sperb, Graça Craidy (foto 1) e Milena Julianno (foto 2).

Eleição

A Unimed Federação/RS reconduziu Nilson Luiz May para mais um mandato de três anos como presidente. Jorge Antônio Martines e Flávio da Costa Vieira são os vices.

O cara

Multicampeão mundial e paraolímpico, o gaúcho Ricardinho, melhor jogador do mundo de futebol para cegos, teve seu contrato de patrocínio renovado pela Cabify, em plena crise e em plena pandemia.

TULIO MILMAN

sábado, 6 de março de 2021


06 DE MARÇO DE 2021
LYA LUFT

Vacina, tragédia, esperança ainda

Finalmente, depois de meses, fui levada para fazer a vacina de prevenção à covid.

Foi decisão imediata, não comentei com ninguém nem de casa, e saberia das exclamações do pessoal de fora: "Como, vais te arriscar?". "Olha que na Noruega alguém tomou a vacina e caiu morto na mesma hora". E por aí afora. Comentei com um amigo: quando isso se torna muito invasivo, ou chato, a gente pensa em Mozart, uma passagem sublime do Requiem, e não discute. Faço esse tipo de coisa muitas vezes, quando algum noticioso está repetitivo ou sinistro demais.

Então, fui levada para vacinar, no edifício Santa Marta, aqui no centro da cidade. Pouquíssima fila, duas pessoas na minha frente, cadeiras para sentar, no mesmo saguão vários moradores de rua ou despossuídos esperando serem atendidos em outras salas. Na saleta da vacina, limpeza absoluta, organização, desinfecção, duas simpaticíssimas enfermeiras. Tudo como devia ser, até a foto que minha editora tinha pedido, feita pelo taxista nosso amigo, que me levou, saiu direitinho.

Pessoal de casa, feliz da vida. Outros já perguntam o que senti, o que sinto hoje. O mesmo que sinto cada vez que, anualmente, faço minha vacina contra gripe: nada na hora, nada hoje, um dia depois. Só mais tranquilidade. Se vacinamos contra tuberculose, paralisia infantil, varíola e não sei quantas mais, por que essa briga, esse fanatismo contra a vacina, essa disputa entre CoronaVac, Oxford e outras tantas, como se todos fôssemos especialistas? Acredito na ciência, e no meu médico pessoal, e pronto.

Também acredito, assustada, em um talvez meio inconsciente suicídio geral por medo, suicídio por teimosia, por desinformação, assim como nas minhas séries criminais em que se fala em suicide by cop. Em vez de se matar, provocar o tiro de um policial. (Sim, eu vejo minha série de Chicagos... nem só de cinema cult se vive.) Suicide by ignorance?

Estou garantida? Claro que não. Foi um primeiro passo, continuam os cuidados, que não vão parar tão cedo aliás, para todos nós, em três meses segunda dose, e então um pouquinho mais de liberdade, e esperança. Por que nos fazemos de paranoides vítimas de tudo e todos? Preferimos a tragédia atual, milhares de mortos a cada dia, só neste país tão mal organizado, tantas mortes evitáveis, tanto sofrimento inútil, em favor de alguma ideologia mal entendida, mais mal elaborada, ou simplesmente por seguir opiniões que nem entendemos bem? Medos que não revelamos?

Algo está muito errado. Sobretudo com o governo federal e o Ministério da Saúde, tão omissos. Cada um de nós deve procurar, por si, o necessário apoio. Seria mais simples, lúcido e saudável se cuidar muito por pior que seja, e se vacinar, para depois não vivermos tragédias evitáveis (expressão bem útil neste momento).

Alguém me escreveu que ando pessimista. Não totalmente, não virei uma pessoa sombria, mas digamos que sou, como dizia o querido Suassuna, uma pessimista esperançosa. Ainda tenho esperança de que autoridades endureçam, façam todas as restrições possíveis, troquem política por humanidade e compaixão, assumam a responsabilidade trágica que é a deles, a de todos nós, neste momento.

Enquanto isso, nosso coração vai sendo rasgado aos pedacinhos, a cada pessoa amada que se vai.

LYA LUFT

06 DE MARÇO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Uma bandeira destruída

Não sou de me ufanar, mas é difícil segurar a emoção quando vejo um atleta receber uma medalha olímpica enquanto nosso hino toca e a bandeira do país é hasteada. Nesses momentos, sou tomada de um orgulho raro, já que são poucas as vitórias do Brasil e muitas as suas derrotas. Uma delas foi quando permitimos que um bando de alucinados tomassem a nossa bandeira como símbolo de sua ignorância e desse governo que de patriota não tem nada.

Arredondando, foram 57 milhões de pessoas que votaram neste homem que aí está. É muita gente, e entre elas estão os que votaram por identificação e com os quais não há o que conversar, é um voto autoexplicativo que tende a se repetir.

No entanto, há milhões de homens e mulheres corretos, sensatos, de boa índole, que não desejaram votar nele, mas que entraram na onda de blindar a esquerda a qualquer custo, preferindo apostar em terra arrasada. Não são homofóbicos, nem racistas, nem fascistas, nem milicianos, nem fanáticos religiosos. São boas pessoas que, embalados pelo endeusamento do Moro (pois é) e por medo do socialismo (!), deram seu voto a uma criatura que torceram para que fosse apenas um bravateiro, enquanto tapavam o nariz.

Dois anos de nariz tapado deu em asfixia, não só metafórica. Os que tentaram evitar o cheiro de podre que viria do Planalto contribuíram para que hoje contabilizemos uma quantidade trágica de vítimas do coronavírus, esgotando os profissionais de saúde e a capacidade de atendimento dos hospitais. Não quiseram enxergar o que era nítido, transparente, perceptível. Não houve enganação: ele nunca fingiu que era outra coisa que não um homem sem responsabilidade social, sem ideias, sem projeto, sem visão de mundo, sem cultura, sem compaixão, sem educação, sem inteligência, sem humor, sem amigos. Todos pressentiram o perigo, mas taparam o nariz, fecharam os olhos e cá estamos.

Nossa bandeira foi desonrada por quem não tem compromisso com o país. Nossa bandeira virou símbolo de desrespeito à nação, uma contradição que só mesmo amalucados conseguem promover. O presidente não usa máscara, despreza a vacina, dá péssimos exemplos e ergue a bandeira como se amasse os brasileiros. Só uma curriola fanática ainda diz amém. 

Esses estão abduzidos, mas se você foi um dos que votou tapando o nariz dois anos atrás, tem o dever cívico de ajudar o Brasil a respirar melhor e a recuperar o orgulho pátrio. É hora de construirmos uma transição para longe de quem transformou nossa bandeira num trapo sujo. Em qualquer governo, de qualquer país, coisas dão certo e dão errado, mas o que está acontecendo conosco não se enquadra em certo e errado. É uma monstruosidade que temos, juntos, a obrigação de reparar.

MARTHA MEDEIROS

06 DE MARÇO DE 2021
LAUDIA TAJES

Força

Enquanto 2021 vai se mostrando um não vale a pena ver de novo de coisas que a gente, infelizmente, já viu, o calendário não para e é 8 de março novamente. Um Dia da Mulher sem aquela rosa vermelha meio murcha na saída do supermercado, ou o décimo gancho de pendurar bolsa na mesa recebido de presente na empresa.

Pensando na força que as mulheres em geral têm demonstrado nesse buraco em que o negacionismo de quem devia enfrentar a pandemia nos jogou, compartilho aqui na coluna um post da psicanalista e professora universitária Luciane Slomka. É o relato do encontro dela com uma amiga que não via há algum tempo, a Kamile.

As palavras da Luciane dão conta do que os profissionais da saúde estão passando. E da inconformidade deles com a falta de colaboração da sociedade para diminuir o caos desse momento, o pior desde que tudo começou. Para as mulheres, nesse dia sem comemoração, minha admiração e felicidade por ser da mesma turma de vocês.

"A Kamile é fisioterapeuta da emergencia do Hospital Moinhos de Vento. Foi la´ que trabalhei com ela nos meus anos de psicologa hospitalar, e a Kamile nao tinha o mesmo olhar de agora. Hoje a encontrei no supermercado e conversei minutos suficientes para querer abraca´-la e chorar junto. Ela disse que tirou uma foto de si mesma hoje pela manha~, ao sair do plantao, para ver a propria feição exausta.

A Kamile me falou do desespero de pacientes jovens se agarrando na roupa dela, pedindo desesperadamente para que não os deixasse morrer. Adultos jovens internando filhos adolescentes, com piora grave do estado geral. Uma mulher jovem com mais de 80% do pulmao comprometido, pedindo para viver porque precisava ver o aniversario da filha.

Os profissionais estao exaustos, deprimidos, revoltados com uma populac¸a~o que nao compreende o que estamos vivendo enquanto sociedade. A Kamile perdeu sete quilos, tem muita dificuldade para dormir, assim como a grande maioria dos colegas.

Olha nos olhos da Kamile e diz para ela que tu ta´ cansado de ficar em casa. Olha nos olhos dela e diz que foi so´ uma viagem curta com poucos amigos para um lugar ?vazio?. Olha nos olhos dela e diz que foi so´ ?uma voltinha para espairecer?, olha nos olhos dela, ouve a voz cansada dela, como eu ouvi, e ve^ se tu ainda na~o vai conseguir entender a gravidade do que estamos vivendo.

Ela me contou que ja´ esta´ começando a fazer escolhas entre quem vive e quem morre. Na~o adianta ter convenio, não adianta ter grana, não tem mais lugar, não tem mais equipe! Se tu te acha imune ao risco, ao menos em respeito a esses profissionais, fica em casa e agradece ter oxigenio para respirar.

Me desculpem a postagem dura, mas eu queria que todo mundo pudesse ter visto o olhar da Kamile, ouvido os relatos dela e sentido um pouco do que a vida dela e de todos os meus bravos ex-colegas de HMV, e certamente de todos os outros hospitais dessa cidade, estao passando. Eu pedi a ela autorizacão para fazer esse post, e ela pediu que eu usasse meu espaço para falar. Porque nem isso mais ela tem energia de fazer.

Fica em casa, usa máscara e cuida dos teus."

CLAUDIA TAJES

06 DE MARÇO DE 2021
LEANDRO KARNAL

O NOVO DÓLAR

NÃO DÓI MUDAR UMA EFÍGIE EM UMA NOTA. ESPECIALMENTE PORQUE ELAS ESTAMPARAM VALORES DE ÉPOCA. E NOSSOS TEMPOS PODEM E DEVEM SER MAIS PLURAIS.

Alguns devem pensar que o dinheiro dos EUA emergiu pronto da explosão do Big Bang. Todavia, os próximos anos devem testemunhar uma mudança no rosto da moeda estadunidense.

O dólar deve seu nome a uma corruptela do thaler, uma das primeiras moedas de prata de grande tamanho cunhadas na Boêmia do século 16. O thaler passou a ser sinônimo de moeda valiosa e ultrapassou as fronteiras do vale em que foi criado originalmente. Era possível encontrá-las por todo o Velho Mundo e, em língua inglesa, ela virou o dollar, quase como uma gíria como "grana" ou "dindim" nos dias atuais. Era usada para expressar dinheiro.

A Inglaterra já usava libras quando isso ocorreu. Por lei, entretanto, a velha Albion não permitia que sua própria moeda saísse das ilhas britânicas, nem mesmo para suas colônias. Por isso, no século 18, era muito difícil encontrar libras e shillings circulando. A moeda que surgia de forma mais comum nas colônias britânicas do Novo Mundo era... mexicana! Ah, a ironia da História!

O México, também desde o século 16, tinha sua própria casa da moeda e cunhava os valiosos "reales de a ocho", um peso de prata que equivalia a oito unidades de menor valor, chamada real. Esse spanish dollar, como era chamado nas 13 colônias, a "grana espanhola", era uma das poucas moedas circulantes por ali. No início do século 18, a crise da falta de moeda estimulou o jovem Benjamin Franklin a escrever um manifesto que reclamava como a situação impedia a economia local de se desenvolver. Além disso, ele passou a imprimir dinheiro, na forma de vales em papel. A Coroa proibiu essa prática também. O ressentimento dessa medida estava entre os fatores listados para a guerra de independência pouco tempo depois.

Guerras custam dinheiro, e isso a colônia não tinha, já vimos. Solução: imprimir dinheiro. O "continental" (nome dado em homenagem ao Congresso Continental que declarara a independência), em sua intenção inicial, se baseava no valor de um "dólar espanhol". As cédulas vinham com o valor estabelecido em um pequeno texto que dizia algo como: este pedaço de papel vale um, 10 ou 20 dólares. Os mais velhos entre nós, leitores, se lembrarão da URV, a unidade que estabelecia quanto valia o real nos tempos que antecederam a implementação de nossa moeda, nos longínquos anos 1990, quando achávamos que vivíamos uma crise.

Imprimiu-se tanto dólar de papel para sustentar o esforço de guerra que eles se desvalorizaram muito rápido. No fim do conflito, já corria o ditado: "Isso vale tão pouco quanto um continental". As cédulas foram abandonadas e, em 1792, estipulou-se a criação efetiva do dólar americano. Nome alemão e referências espanholas, a moeda estadunidense deveria ser feita apenas e tão somente em metal, não mais em papel. Foi uma das primeiras do mundo a se basear em um sistema centesimal, facilitando a compreensão de suas frações (lembram-se do real de oito?). As efígies das primeiras moedas recém-nascidas eram alegorias da liberdade, da vitória e outros valores. Jamais pessoas.

Por quase um século, os americanos tiveram apenas moedas e não mais cédulas circulando. Precisaram de outro conflito para voltar a imprimir dinheiro: a Guerra da Secessão (1861-1865), que rachou o país em dois, Sul e Norte, em torno de várias questões. Tanto um lado quanto o outro, precisando desesperadamente de recursos, voltaram a imprimir dinheiro. O do Norte, criado pelo secretário de Finanças de Lincoln, Salmon P. Chase, era verde e, na sua nota de um dólar, trazia a efígie nada modesta de... Chase! Como na guerra anterior, rapidamente a cédula se desvalorizou e, ao fim do conflito, valia um terço do seu valor de face. Isso porque a cédula verde era uma promessa, um bônus de guerra, que poderia ser resgatado quando os canhões silenciassem.

Pior ocorreu com a moeda sulista, os "dixies", que se desvalorizaram muito mais e, ao fim das batalhas, se tornaram pedaços de papel colorido com o fim do país e a reintegração ao norte.

A decisão de quem deve ou não estampar a cédula de dólar é atribuição do secretário de Tesouro. Critério é que a pessoa deve ser alguém cujo valor de face (literalmente) seja conhecido da história americana como personagem confiável. Por isso, há ex-presidentes e personalidades como Benjamin Franklin. Mas muita gente já entrou e saiu dessa galeria. Ela não é nem nunca foi fixa: só não podem mostrar pessoas vivas.

Daí o anúncio em 2016 de que, em 2020, as notas de US$ 20 deixariam de estampar o presidente Andrew Jackson, um controverso governante que era escravista, por uma notória abolicionista, Harriet Tubman. A primeira mulher negra (moedas de US$ 1 mostram, desde 2000, Sacagewa; ainda no século 19, por curto período, a primeira-dama Martha Washington estampou a nota de um "dólar de prata") em uma moeda norte-americana. Jackson não reclamaria: ele era um feroz opositor das cédulas e de bancos poderosos!

A administração Trump anunciou que o custo seria alto e que postergaria a decisão por, no mínimo, 10 anos. Biden, decidido a desfazer a herança do antecessor, anunciou que iniciaria a substituição.

Viram? Não dói mudar uma efígie em uma nota. Especialmente porque elas estampam valores de época. E nossos tempos podem e devem ser mais plurais. A esperança é associada ao verde, cor tradicional dos dólares. É preciso ter ambos, dólares e esperança.

LEANDRO KARNAL

06 DE MARÇO DE 2021
JULIA DANTAS

COMO CONTINUAR?

Dentre todas as coisas incompreensíveis a respeito da guerra, há uma que sempre voltava à minha cabeça: como as pessoas faziam para ir vivendo suas vidas ao longo de anos e anos de conflito e conseguiam continuar trabalhando, casando, tendo filhos, se mudando de cidade, escrevendo livros, inventando coisas, frequentando bailes, indo à escola?

Me parecia inacreditável que as pessoas conseguissem existir num território sob a ameaça constante de um bombardeio, por exemplo. Como elas faziam para sair de casa e comprar comida sabendo que a qualquer momento suas vidas podiam estar em risco? Também me perguntava, ao ler sobre a ditadura, como as pessoas aguentavam viver sob um regime autoritário, ou como as pessoas aguentavam viver com profunda instabilidade, ou num país com fome e desemprego, com mais dúvidas que certezas. Bom, eu ainda não sei a resposta, mas hoje entendo.

De alguma forma, nossa mente encontra um modo de seguir operando e fabricando o tecido delicado da vida enquanto a ameaça paira ao nosso redor. Ou - devo dizer - isso acontece pelo menos na mente das pessoas que têm a mesma sorte que eu de até agora não terem perdido pessoas próximas para a covid.

Os seres humanos são contraditórios por natureza, e isso pode funcionar a nosso favor. Na véspera da vigência da bandeira preta no Estado, encerrei meu doutorado numa defesa via Zoom que reuniu amigos e familiares num encontro bonito, de aprendizado e abertura para o futuro. Esse rito de passagem foi um momento fora desse tempo: a vida aconteceu ali, naquela manhã de sexta-feira, e fiquei feliz. Quatro dias depois, li a notícia sobre a necessidade de alugar um contêiner refrigerado para armazenar cadáveres e me enchi de angústia e medo. Esses sentimentos opostos encontram espaço para conviver, e a tristeza pela onipresença da morte não anula a alegria das pequenas coisas da vida que ainda podem existir. Talvez seja assim que se sobrevive a um país em frangalhos.

"A Alemanha declarou guerra à Rússia - à tarde, natação", Kafka escreveu em seu diário quando a Primeira Guerra Mundial começou. Parece insensível, mas mostra como os pequenos eventos muitas vezes continuam se desenrolando a despeito dos grandes eventos. Falei dos meus pequenos acontecimentos, mas este texto é para dizer que espero que os profissionais da saúde também estejam conseguindo viver as suas alegrias pessoais. Tenho lido os depoimentos de exaustão. "Quando nós vemos um paciente se despedir do seu familiar ao telefone, todos nós morremos um pouquinho", disse Fabiano Nagel do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, e eu morri um pouquinho também.

As equipes médicas já estão precisando fazer escolhas a respeito de quem vive e quem morre nos hospitais. Não existe literatura nem imaginação suficientes que possam dar a medida desse sofrimento. Eu apenas torço para que, em meio a esse trauma coletivo, os médicos, os enfermeiros, os maqueiros, os faxineiros e todos os outros funcionários que um hospital tem consigam encontrar, na parte íntima da vida, coisas boas às quais se agarrar e continuar aguentando.

JULIA DANTAS

06 DE MARÇO DE 2021
COM A PALAVRA

SOB UMA PAZ ARMADA N A PRISÃO, FACÇÕES SE FORTALECEM NA RUA

Marcelli Cipriani

Pesquisadora na área de Sociologia, 30 anos

Foi premiada com dissertação de mestrado sobre a guerra das facções do crime organizado em Porto Alegre

O macabro cenário de cabeças cortadas e corpos desmembrados que abalou a capital gaúcha em anos recentes virou tema laureado na academia. A cientista social Marcelli Cipriani conquistou o prêmio de melhor dissertação de mestrado em sua área pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) em 2020 com o trabalho Os Coletivos Criminais de Porto Alegre Entre a "Paz" na Prisão e a Guerra na Rua. O tema é a guerra de facções estabelecida na cidade entre 2016 e 2018. Marcelli, que é bacharel em Direito e mestre em Ciências Sociais pela PUCRS e bacharel em Ciências Sociais e doutoranda em Sociologia pela UFRGS, comprovou que a batalha nos bairros não chegou à prisão, onde uma espécie de pacto de não agressão permitiu que as autoridades controlassem a panela de pressão das facções em convivência. Está longe de ser um trabalho teórico. Para realizá-lo, a pesquisadora porto-alegrense aproximou-se de "soldados" de facções, policiais, carcereiros e integrantes do Judiciário. Nesta entrevista, ela conta algumas de suas descobertas.

COMO FOI A LOGÍSTICA DA PESQUISA, INCLUINDO AS ENTREVISTAS COM INTEGRANTES DAS FACÇÕES?

Fiz a pesquisa empírica em duas etapas. A primeira teve como foco a Cadeia Pública de Porto Alegre (Presídio Central). Lá, entrevistei os presos conhecidos como prefeitos, que são os responsáveis pela manutenção do espaço e que fazem uma "ponte" entre o dentro e o fora das galerias, conduzindo demandas coletivas à administração e repassando solicitações e avisos aos demais custodiados. Além dos presos, entrevistei policiais trabalhando no Central, funcionários do estabelecimento e integrantes do Judiciário ocupados com a Execução Penal, como membros do Ministério Público, da Defensoria Pública e da Vara de Execuções Criminais. Ainda pude conversar com presos de galerias consideradas menos "problemáticas" em eventos ocorridos no presídio. Foi a partir desse punhado de depoimentos que deparei com o processo de "pacificação" da prisão, que se mantém apesar da coexistência - no mesmo estabelecimento, ainda que em diferentes galerias - de grupos rivais. 

Na mesma época, comecei a escutar de outros interlocutores sobre os eventos que se desenrolavam nas periferias da Capital e que relatavam um cenário distinto, de conflitos cada vez mais frequentes e extremos. Foi na segunda etapa da pesquisa que tentei entender o que estava ocorrendo, e, para isso, entrevistei adolescentes cumprindo medida socioeducativa em meios fechado e aberto, moradores de áreas de confronto e traficantes. De forma complementar, analisei um apanhado de vídeos e músicas divulgados pelos integrantes de grupos, que circulavam por distintas plataformas produzindo uma continuidade virtual dos conflitos, promessas de vingança e provocações. Na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul (Fase), no Central e nos Centros de Referência em Assistência Social (Creas) em que fiz pesquisa, conversei com os responsáveis de cada instituição para definir quem seriam os entrevistados. Na rua, entrevistei especialmente moradores. Quanto aos envolvidos no crime, o grosso das entrevistas foi feito nessas instituições.

OS CHEFES DE GALERIAS DO PRESÍDIO LHE RECEBERAM BEM? ONDE FEZ AS ENTREVISTAS, NUM PARLATÓRIO?

Me receberam muitíssimo bem, de forma educada e respeitosa. Sempre deixei claro que eu era uma socióloga e não uma agente do Estado. Ou seja, que meu papel não era de julgá-los nem de ter acesso a informações que pudessem comprometê-los ou me comprometer. Eu não queria saber nomes ou detalhes logísticos, nem acessar dados privilegiados sobre a dinâmica dos grupos - que, quando divulgadas, pudessem vir a ser prejudiciais a algum deles. Meu interesse era conhecer as histórias das pessoas que entrevistei, entrar em contato com suas perspectivas e entender seus pontos de vista, a partir de suas próprias leituras. Fiz as entrevistas em uma sala de atendimento. Pude ficar sozinha com os presos, embora eles estivessem algemados.

ANTES DESSE TRABALHO, VOCÊ JÁ TINHA INGRESSADO NA CADEIA PÚBLICA DE PORTO ALEGRE? O QUE LHE PARECEU O LOCAL?

Não. A primeira vez que acessei o Central foi em decorrência da pesquisa, período no qual fiz dezenas de visitas, tanto para fazer entrevistas quanto para acompanhar inaugurações, eventos, e mesmo ajudar a organizar uma festa de Dia das Crianças e outra de Páscoa. Não cheguei nem perto das galerias consideradas "problemáticas". Só pude transitar pela área administrativa, por alguns pátios e por galerias tomadas como "tranquilas", como G, E e H. O ambiente é insustentável e congrega uma série de afrontas aos direitos e à dignidade dos presos. Esse cenário é amenizado em um ou outro espaço onde não há superlotação, mas a precariedade e a falta de investimento estatal se refletem em todo o prédio. É por isso que trato da "paz" entre aspas, porque não se trata da ausência de violações no ambiente prisional - que nunca deixaram de ocorrer, embora tenham mudado de figura -, mas da redução de instabilidades, das mortes cometidas por presos e do trato violento por parte da polícia, que eram corriqueiros entre a década de 1980 e a primeira metade dos anos 2000.

O QUE PREDOMINAVA QUANDO VOCÊ INICIOU A PESQUISA, ACERTO DE CONTAS INTERNO NAS FACÇÕES OU GUERRA ENTRE ELAS?

Os confrontos que ocorreram entre 2016 e 2018 foram repetidamente nomeados pelos interlocutores como uma consequência da "guerra das facções". Ainda que esse seja um termo frequentemente usado no senso comum para descrever episódios de violência entre grupos criminais, o período trouxe particularidades que o diferenciava de outros momentos no crime. A principal característica da guerra foi a amplitude do engajamento, porque não se tratou de um conflito territorialmente localizado, embora os ataques tenham privilegiado algumas áreas de Porto Alegre. 

A guerra produziu um afunilamento das relações no mundo do crime, que ficaram praticamente polarizadas entre o embolamento dos Bala na Cara e o dos Antibala, aqui entendidos como frentes de aliança constituídas por vários grupos, que formam uma rede de apoios recíprocos e convergem para inimigos comuns, marcando quem são seus aliados e seus "contras". Apesar de ambos serem entendidos como embolamentos, o primeiro corresponde a uma facção muito mais expressiva - os Bala na Cara - em torno da qual gravitam grupos aliados, enquanto os Antibala são uma composição entre agrupamentos, conquanto também haja diferenciações entre eles. Foi a declaração de existência do embolamento Antibala que marcou o início da guerra - e, segundo seus integrantes, a criação foi motivada pelo acúmulo de ofensivas dos Bala na Cara, um grupo que eles tomavam como opressor e cujas práticas, em sua interpretação, não estariam "pelo certo". 

Assim, embora interesses instrumentais e estratégicos estivessem presentes - em especial, refrear os avanços dos Bala na Cara e se proteger de seu expansionismo -, o estopim da guerra envolveu uma distinção discursiva no plano da "ética do crime", forçando uma tomada de posição de todos os agrupamentos, que tinham de decidir de qual lado estavam. Como decorrência, novos conflitos surgiram, porque grupos que inicialmente não se enxergavam como rivais passaram a se entender dessa forma por estarem associados a embolamentos opostos. Em paralelo, rivalidades pontuais que já existiam foram redimensionadas, pois seu caráter local ia sendo incorporado a essas grandes frentes de grupos, com adesões e simpatizantes espraiados por todo o município. Com isso, o número de inimigos potenciais de cada coletivo se tornou muito mais expressivo e pulverizado, dado que o binário "aliado e contra" mudou de figura: passou da escala dos grupos para a dos embolamentos.

QUAL O FATOR DE MAIOR IMPORTÂNCIA PARA A PACIFICAÇÃO E A REDUÇÃO DE HOMICÍDIOS DESDE 2016?

Em geral, oscilações nos índices de homicídio dependem de vários fatores. Enfatizando apenas as dinâmicas das facções, ou seja, sem considerar o papel das instituições de controle do crime, compreender o aumento da violência letal durante a guerra ajuda no entendimento da redução posterior. Afora os sequestros seguidos de morte, uma das principais táticas usadas no período foi a dos "atentados". Grosso modo, são ataques feitos em grupo, direcionados a vilas rivais, em que os indivíduos passam atirando com a intenção de "tocar o terror nos contras" e não de "tomar a boca". Ou seja, os homicídios cometidos nos atentados não se tratavam de um meio para atingir um fim imediato; eram um tipo de performance, uma forma de provocar o inimigo. Cada uma dessas incursões gerava represálias, que serviam não só para vingar os assassinados, mas também para reparar a "moral" do embolamento lesada com a afronta. 

Tornando-se uma tática contínua para afirmação do poder, os atentados levaram a um ciclo de violência recíproca entre Bala na Cara e Antibala, instigando reações não só de uma ou outra boca, mas de toda a frente de aliados. Como a vingança era devolvida nos mesmos termos - com disparos a esmo, em bocas ou vilas rivais -, não necessariamente atingia os responsáveis pelo atentado que a motivou, envolvendo cada vez mais pessoas, bem como suas redes afetivas, nesse confronto cíclico. Assim, no momento em que uma vingança era concretizada, equilibrando os termos, também inseria outros atores na relação, o que produzia uma nova demanda por vingança. A popularização dessa tática de "tocar o terror" foi um elemento central para a escalada de homicídios vista entre 2016 e 2017 em Porto Alegre. 

Porém, ao final desse período, algumas coisas já haviam mudado, contribuindo para que os grupos cessassem os ataques e os índices começassem a baixar. No início de 2018, o V7 - principal grupo na articulação dos Antibala - já tinha conquistado duas galerias no Central, elevando seu status no crime. Apesar desse salto qualitativo, que foi um saldo da guerra, o estado permanente de conflito não era interessante para ninguém no âmbito dos negócios. Um "crime pacificado", como costumam defender os Manos, não só possibilita a preservação da vida dos envolvidos como maximiza os rendimentos, já que a guerra contribui para afastar os consumidores da boca, estremecer a presença das facções nas comunidades e intensificar as operações policiais. Diante de uma guerra cuja principal dimensão, a partir de certo momento, não estava rendendo ganhos territoriais para ninguém, o custo se tornou muito alto. Essa racionalidade foi incorporada pelos grupos e colaborou para um cessar fogo em 2018 - que, porém, sempre pode vir a ser abalado por tentativas de retomada de território, pretensões expansionistas, novas alianças e rivalidades, dentre outras razões.

NO INTERIOR, NÃO VIGORAM MUITOS ACORDOS. FACÇÕES QUE COLABORAM COM OS MANOS TÊM DISPUTAS COM OS BALA NA CARA. POR QUE, SE EM PORTO ALEGRE FUNCIONAM ALGUNS ACERTOS TERRITORIAIS?

O grau de estruturação do crime não é o mesmo. Na Capital, a reorganização das facções em torno de embolamentos passou a conceder dimensões muito mais expressivas para qualquer tipo de conflito. Por meio do apoio, um mecanismo que pressupõe a reciprocidade de favores e serviços entre aqueles que estão embolados, bocas invadidas podem recorrer a uma vasta rede de aliados para pedir auxílio na defesa de seus territórios, o que envolve o empréstimo de armas e a agregação de indivíduos. 

Assim, confrontos pontuais podem facilmente escalar para disputas generalizadas, o que aumenta o grau de imprevisibilidade dos ataques. Ademais, em Porto Alegre, alcançou-se uma espécie de estado de saturação, o que torna a conquista de novos territórios mais delicada, especialmente considerando-se a tendência ao controle, pelos embolamentos, de vilas inteiras ou de grandes trechos de vilas, que se tornam áreas fortemente protegidas. Não me ocupei com o processo de interiorização dos agrupamentos, mas os dados que colhi sugerem que esses foram fatores que contribuíram para a transferência de interesses dos grupos para outros municípios, onde a expansão territorial é mais viável. 

O método utilizado parece ser semelhante ao da constituição de embolamentos, já que grupos maiores - como Bala na Cara e Manos, que em Porto Alegre não se atacam - se vinculam, por meio do apoio, a agrupamentos nativos de bairros interioranos, que se tornam os principais protagonistas nos enfrentamentos que lá ocorrem. Assim, os grupos grandes disponibilizam armamento, partilham expertise e eventualmente enviam pessoal para o Interior, em troca da aliança dos grupos menores, de sua fidelidade na compra de drogas e do engajamento nos conflitos locais. Com isso, as duas principais facções da Capital operam como investidoras dessas disputas -recebendo, em retorno, a ampliação de sua esfera de compradores e assegurando a presença em novas áreas. Ao mesmo tempo, preservam o núcleo duro de cada embolamento, pois seguem mantendo o acordo de paz em Porto Alegre, em que o enfrentamento direto traria poucos benefícios.

SEU TRABALHO MOSTRA QUE EXISTIA UM ACORDO DE NÃO AGRESSÃO DENTRO DOS PRESÍDIOS, PELO MENOS NOS MAIORES. POR QUE AS FACÇÕES NÃO REPRODUZIAM ISSO FORA DA CADEIA?

O principal objetivo da administração prisional é manter a prisão funcionando sem o surgimento de problemas, especialmente aqueles que têm alto custo político, como motins, rebeliões e homicídios. Esse é um grande desafio para a polícia diante de questões como a falta de efetivo, a superlotação, o pouco investimento no preso e no sistema e as dificuldades para o contato com os custodiados, já que as celas do Central não têm grades e a polícia não entra rotineiramente nas galerias, por onde circulam centenas de presos. Na prática, trata-se de uma situação inviável, que a polícia não tem como realmente resolver, no máximo gerir. Então, para que a gestão seja possível sob essas condições, eventualmente percebeu-se que era preciso incorporar os presos nas engrenagens, contando com a sua contribuição para organizar as relações nas galerias, repassar solicitações de atendimentos, efetuar tarefas do dia a dia e mesmo reduzir a precariedade de vida dos presos. Assim, as facções organizam certas situações, evitam conflitos, oferecem complementos à alimentação e material de higiene, fazem melhorias estruturais no prédio e até bancam a contratação de serviços, como dedetização do ambiente e compra de itens de limpeza. Assim, a facção assegura condições um pouco melhores para os presos, garante a "paz" e se consolida diante da população encarcerada, solidificando os laços de lealdade e gratidão. 

De outro lado, garantindo a ausência de violências e de turbulências entre custodiados e mantendo o diálogo com a administração, os integrantes das facções podem gerir suas galerias, autorizar ou vetar a entrada de novos moradores - o que é uma forma de a polícia evitar conflitos internos pela incompatibilidade entre presos - e criar suas próprias regras de convivência. Com isso, porém, a galeria torna-se um nicho de relações negociais e para a construção de alianças, agregando traficantes de lugares variados e viabilizando trocas comerciais. 

Ainda, possibilita a projeção de territorialidades para o lado de fora, já que as alianças firmadas na prisão serão refletidas na geopolítica dos bairros, em novos arranjos de compra e venda de drogas e de armamentos, nos favores e serviços recíprocos entre agrupamentos etc. Portanto, sob uma "paz armada" na prisão - que certamente é melhor para todos, presos e policiais -, os grupos aproveitam para se fortalecer na rua, onde o eixo de seu antagonismo não é mais com a polícia, mas com os "contras". Nesse sentido, pode-se dizer que a "pacificação" prisional permite a convergência entre os interesses das facções e as necessidades funcionais da administração, já que esse tipo de reprodução do sistema em "ordem" gera, ao mesmo tempo, o empoderamento dos grupos do lado de fora e a viabilidade cotidiana da prisão. Entretanto, esse equilíbrio entre polos opostos não necessariamente se reproduz na rua, onde a configuração entre guerra e paz é outra - e, no caso de Porto Alegre, tem como foco os acordos ou conflitos entre as facções e não entre facções e polícia.

OS PREFEITOS DAS GALERIAS RIVAIS FALAVAM ENTRE SI? CHEGAVAM A SE ENCONTRAR?

Em geral, ficam bem separados, há toda uma logística para uso do pátio e dos corredores para evitar problemas. Mas, em alguns momentos-chave, eles foram chamados para reuniões coletivas com a administração prisional ou o Judiciário. É compreensível, já que, se uma galeria brigar com a outra, o Batalhão de Choque vai entrar - "A polícia vai ter que medir força com a gente, o que não é bom para ninguém", disse um entrevistado -, a luz e a água serão imediatamente cortadas, os presos perderão o direito à visita. Como falou outro: "Todo mundo, a segurança, os presos e as prefeituras das galerias que se atacarem vão ter algum prejuízo. 

E dificilmente vai ter um retorno. Pra que fazer?". E outro: "A gente se tolera porque todo mundo sai ganhando. Então a gente decidiu viver melhor assim, se respeitar, se tolerar. Até os inimigos têm que se aturar. Tem cara que é inimigo de morte na rua, mas que aqui só se olha... Se intimida". A regra, enfim, colou: "Aqui, nós, líderes de galerias, nos damos bem. Na rua não vai ser da mesma forma, mas aqui a coisa é assim". 

HUMBERTO TREZZI

06 DE MARÇO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

TRANSMISSÃO DA COVID DEVE PERSISTIR POR ANOS

O futuro a Deus pertence, dizia minha avó. Em relação ao futuro do atual coronavírus, no entanto, os modelos matemáticos permitem fazer algumas previsões.

A revista Nature, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, perguntou para cem pesquisadores nas áreas de epidemiologia, infectologia, virologia e imunologia se o coronavírus que se dissemina pelos quatro cantos será erradicado.

Responderam que o vírus continuará a circular em bolsões espalhados pelo mundo 89% dos cientistas entrevistados. Segundo eles, o Sars-CoV-2 se tornará endêmico, isto é, sua transmissão persistirá por anos ou décadas em várias regiões do globo.

Quando a pergunta foi se ele será eliminado pelo menos em alguns países, apenas 40% julgaram que isso seja provável.

A dificuldade de erradicação, entretanto, não significa que o número de mortes e a necessidade de isolamento continuarão na escala atual. O futuro dependerá de dois fatores cruciais. Um é a duração da imunidade adquirida por infecção natural e pela vacinação. Outro são as características das variantes que emergirão.

Os quatro coronavírus anteriores, causadores de resfriados comuns, e o vírus da gripe (influenza) também são endêmicos, mas convivem com a humanidade sem lockdowns e medidas restritivas ao convívio, embora a gripe cause no mundo pelo menos 650 mil mortes anuais.

Certamente, haverá países que chegarão à imunidade coletiva por meio da vacinação da quase totalidade de seus habitantes.

Ainda assim, sobrarão pessoas suscetíveis que correrão risco de adoecer, pela reintrodução do vírus trazido por viajantes oriundos de áreas em que a aderência às medidas de prevenção e os índices de vacinação sejam baixos.

É provável que em países como o nosso, daqui a dois ou três anos, passe a existir algum grau de imunidade induzida pela doença ou pelas vacinas, capaz de nos proteger contra casos como os que agora superlotam as UTIs.

Quando esses níveis de proteção forem alcançados, o primeiro encontro com o Sars-CoV-2 se dará na infância, fase em que os sintomas da covid são brandos, semelhantes aos dos resfriados comuns.

Essa possibilidade faz sentido. Quatro dos outros coronavírus causam resfriados em seres humanos há centenas de anos; dois dos quais respondem por 15% das infecções respiratórias. A maioria das crianças infectadas por eles antes dos seis anos de idade desenvolve imunidade temporária, que não evita novos resfriados, mas assegura proteção contra quadros mais graves na vida adulta.

Não é possível prever se a imunidade contra o Sars-CoV-2 seguirá os mesmos passos. Os estudos mostram que os níveis de anticorpos neutralizantes produzidos contra ele começam a cair depois de seis a oito meses da doença, mas permanecem células de memória capazes de respostas imunológicas mais rápidas se houver nova infecção. Apesar de ocorrerem reinfecções pela mesma ou por variantes novas, esses casos são relativamente raros.

Ao contrário da situação atual de pandemia, mantida pelo grande número de indivíduos suscetíveis, a fase de endemia será atingida quando o número de novas infecções se mantiver relativamente estável no decorrer de anos, embora possam acontecer surtos esporádicos.

A gripe espanhola de 1918 levou 50 milhões à morte. Desde então, praticamente todas as epidemias de influenza A que se disseminaram pelo mundo foram causadas por variantes descendentes daquela de 1918. Um vírus se torna sazonal, isto é, passa a atacar em determinadas épocas do ano, quando a maior parte da população está imune a ele -por contato prévio ou vacinação.

É difícil prever quando um país como o Brasil, sem disponibilidade de vacinas em número suficiente e com tanta dificuldade em conseguir que a população use máscara e evite aglomerações, atingirá a sonhada imunidade coletiva. Quanto tempo levaremos? Um ano ou dois? Os piores dias ainda estão por vir?

DRAUZIO VARELLA