quinta-feira, 3 de agosto de 2017


Temer quer reconquistar mercado, acelerar reformas e manter PSDB

Adriano Machado - 13.jul.17/Reuters
Presidente Temer durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília
Presidente Temer durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília

Ao barrar a denúncia de corrupção passiva feita contra ele, o presidente Michel Temer pretende reconquistar o apoio do mercado financeiro, fortalecer sua base de apoio para acelerar reformas e manter o PSDB ao seu lado.

Temer se reunirá na semana que vem com líderes governistas no Congresso para montar um cronograma de votação e discutir que mudanças na reforma da Previdência são possíveis de ser aprovadas no curto prazo.

A estratégia é enviar até o final de agosto o texto da reforma tributária, que tem menos resistência na Câmara e no Senado, e, na sequência, em setembro, colocar em votação a previdenciária. A meta é finalizá-las em outubro.

O peemedebista está estruturando ainda uma agenda de encontros com empresários e investidores para vender a imagem de que ainda tem força política para cumprir a promessa de realizar as reformas. O presidente quer aproveitar o que o Planalto chama de "onda positiva" com a derrota da denúncia da Procuradoria-Geral da República.

O entorno do peemedebista reconhece, no entanto, que o otimismo pode arrefecer com o impacto de uma nova acusação do procurador-geral, Rodrigo Janot, até o fim de agosto por obstrução de Justiça –sem falar na possibilidade de que duas delações em negociação, de Lúcio Funaro e Eduardo Cunham, possam atingir o presidente.

A estratégia, por ora, é usar o clima político favorável, apesar dos fatores que podem prejudicar a agenda do governo.
Pedro Ladeira/Folhapress
Câmara dos deputados durante votação que barrou denúncia de corrupção feita contra Michel Temer
Câmara dos deputados durante votação que barrou denúncia de corrupção feita contra Michel Temer
Temer assistiu à votação da Câmara no gabinete presidencial acompanhado dos ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral).

Ao longo do dia, recebeu 21 deputados governistas e oposicionistas e avaliou demandas apresentadas de última hora por parlamentares indecisos.
Escalado para fazer as negociações em plenário, o ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), que se licenciou temporariamente para reassumir o mandato na Câmara, manteve contato frequente com Temer.

Além de focar num calendário de votações, Temer cobrará fidelidade dos partidos governistas, além de discutir possíveis retaliações a deputados infiéis, exonerando indicados deles em cargos de segundo e terceiro escalões.

As trocas serão baseadas no placar da denúncia e feitas pela postura individual de cada parlamentar, não pelo posicionamento partidário. Os primeiros que devem ser chamados são do PSDB, PSB e PP.

O peemedebista quer manter, pelo menos por enquanto, a configuração atual de seu ministério, com a permanência de ministros do PSDB e PSB.
Em conversas reservadas, tem dito que a fidelidade dos ministros, que reassumiram mandatos parlamentares para votar contra a denúncia, será recompensada.

Com o remanejamento de cargos, o presidente tenta recompor a base aliada, que saiu da crise política menor. Pelos cálculos do Palácio do Planalto, o total de parlamentares governistas caiu de 411 para 370, o que coloca em risco a aprovação de medidas de interesse do governo.

Nos encontros na próxima semana, o presidente pretende ainda condicionar a continuidade do PSDB no governo ao apoio dele às reformas previdenciária e tributária, que devem se retomadas a partir do final deste mês.

Em esforço para reverter a baixa popularidade, que atingiu 5% segundo o Ibope, o presidente também quer retomar agenda de viagens pelo país para defender suas realizações à frente do Palácio do Planalto.


Nas palavras de um assessor presidencial, a ideia é vender a imagem de que Temer deixou de ser um "reformista" para se transformar no "presidente da travessia" e que entregará o país com taxas de crescimento a seu sucessor em 2018. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Governo autoriza abertura de 11 novos cursos de medicina no Sul e Sudeste

Às vésperas da votação de denúncia na Câmara dos Deputados por corrupção passiva, o presidente Michel Temer tentou emplacar uma pauta positiva e anunciou a abertura de 11 novos cursos de medicina no país.

O anúncio da abertura dos novos cursos representa o final de um processo que se arrasta desde 2014, quando foi lançado o edital para seleção de municípios que poderiam receber as vagas.
Pedro Ladeira - 22.jul.2016/Folhapress
BRASÍLIA, DF, 22.07.2016: RICARDO-BARROS - O ministro da Saúde Ricardo Barros tira selfie na recepção dos médicos brasileiros formados no exterior e cubanos que vão atuar no Programa Mais Médicos, no Auditório Pedro Calmon em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
O ministro da saúde, Ricardo Barros, recebe participantes do Mais Médicos no DF
O governo atribui a demora a ações judiciais e representação do TCU (Tribunal de Contas da União), que suspendeu o edital em agosto de 2015 alegando suspeita de irregularidades na seleção. A abertura das novas vagas, porém, já havia sido liberada pelo tribunal em julho do ano passado, em meio à pressão de políticos e prefeituras.

"Os principais objetivos foram referendados com o TCU. Por isso se alongou tanto, praticamente quatro anos, desde o início do primeiro edital até a definição final com relação aos municípios contemplados", disse o ministro da Educação, Mendonça Filho.

Ao todo, estão previstas 710 novas vagas, distribuídas em cidades do Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo [veja lista abaixo]. A previsão é que os cursos iniciem as atividades ainda neste ano.

Além dessas vagas, o edital lançado em 2014 previa ainda novos cursos em outros 25 municípios. Segundo o ministro da Educação, Mendonça Filho, essas outras vagas devem ser anunciadas "nas próximas semanas". O processo, porém, ainda depende de novas visitas às cidades e instituições selecionadas para ofertar as vagas, de acordo com o MEC.

MAIS MÉDICOS

A expansão dos cursos de medicina é uma das medidas do programa Mais Médicos, que visa atrair médicos ao interior do país.

O processo, no entanto, tem sido alvo de críticas de entidades médicas nos últimos anos, para quem a abertura "desenfreada" de novos cursos pode piorar a qualidade da formação médica.

Em uma tentativa de rebater as críticas, o ministro Mendonça Filho defendeu nesta terça-feira (1o) a expansão e disse que a formação médica não pode ser uma "dinâmica pensada na lógica do mercado".

"Temos grande tradição de formação médica nos grandes centros urbanos. Infelizmente boa parte do Brasil mais distante se ressente do acesso à saúde e do acesso à formação médica", disse.

Alvo de críticas recentes de entidades médicas após ter dito que as prefeituras "precisam parar de fingir que pagam ao médico, e o médico parar de fingir que trabalha", o ministro da Saúde, Ricardo Barros também participou do evento, mas evitou discursos. Protestos de entidades médicas que pedem sua saída do cargo estão programados para este mês.
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Confira os locais que tiveram autorizada a abertura dos cursos:
PR
Campo Mourão - Faculdade Integrado de Campo Mourão - 50 vagas
Pato Branco - Faculdade de Pato Branco - 50 vagas
RJ
Angra dos Reis - Universidade Estácio de Sá - 55 vagas
RS
São Leopoldo - Universidade do Vale dos Sinos - 65 vagas
Novo Hamburgo - Universidade Feevale - 60 vagas
SP
Araras - Faculdade São Leopoldo Mandic - 55 vagas
Guarulhos - Universidade Nove de Julho - 100 vagas
Mauá - Universidade Nove de Julho - 50 vagas
Osasco - Universidade Nove de Julho - 70 vagas
Rio Claro - Faculdade Claretiano - 55 vagas
São Bernardo do Campo - Universidade Nove de Julho - 100 vagas 

Investindo no passado

Raquel Cunha/Folhapres
Alunos do 6º ano experimental da escola municipal Doutor Antoine Margarinos Torres Filho, no morro do Borel (zona norte do Rio), jogam vôlei
Alunos da escola municipal no morro do Borel (zona norte do Rio), jogam vôlei
SÃO PAULO - Sou confiante em relação ao futuro da humanidade, mas acho cada vez mais difícil estender esse otimismo para o Brasil.

A crise econômica em que nos metemos, e da qual levaremos alguns anos para sair, coincide com a porção final de nosso bônus demográfico, o período em que a proporção de pessoas em idade de trabalhar é maior que a de dependentes (crianças e idosos). Se não aproveitarmos essa janela mais favorável para nos tornarmos um país rico, fazê-lo depois fica bem mais difícil. Nosso bônus vai mais ou menos até 2030. 

Como, devido à crise, o PIB "per capita" brasileiro registrado em 2013 só deverá ser retomado lá por 2023, desperdiçamos uma década. A essa altura, parece improvável que o Brasil consiga deixar de ser um país de renda média para entrar no clube dos ricos.

Se essas considerações já me punham num estado de ânimo derrotista, o quadro piorou substancialmente após ler na Folha reportagem de Ana Estela de Sousa Pinto e Gustavo Patu sobre a situação orçamentária de Estados brasileiros, a maioria dos quais já gasta mais com aposentados do que com educação. Das 27 unidades federativas, 16 comprometem maior fatia do orçamento com servidores inativos do que com a educação. Os campeões são RS, RJ, AL, MG e RN, onde os aposentados ficam com mais que o dobro do que é destinado aos estudantes.

Isso significa que nós estamos investindo no passado, não no futuro. Se existe alguma chance de o Brasil escapar à chamada armadilha da renda média, ela está em nos tornarmos uma usina de inovações relevantes. Riqueza é, em última análise, boas ideias. 


E é muito mais provável que soluções criativas surjam nas mentes de jovens bem educados do que da massa ignara ou de aposentados. É claro que o poder público não pode romper contratos e abandonar os inativos, mas precisamos pelo menos ter um sistema que mire nas prioridades certas. 


02 DE AGOSTO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Um amor do início ao fim

Nunca passei uma noite cheirando cocaína, mas imagino que o efeito seja parecido com o que senti ao sair do cinema depois de assistir ao filme Monsieur e Madame Aldeman: difícil ficar em silêncio ou não dançar pelo estacionamento do shopping, onde duas horas antes havia deixado meu carro me sentindo entediada e sem saber bem o que esperar dessa produção francesa. Aviso: espere tudo e prepare-se para receber muito mais.

O filme conta a história de Victor e Sarah, que se conheceram num bar decadente de Paris em 1971 e tiveram suas vidas interligadas até 2016. Faço a conta pra você: 45 anos de um amor irreversível e com todas ? eu disse TODAS ? as reviravoltas possíveis, imagináveis e inimagináveis. Um roteiro escrito por dois alucinados: o próprio casal protagonista, Nicolas Bedos e Doria Tillier.

Nunca tive dúvida sobre qual é a maior aventura da vida. Com todo o respeito a navegadores, montanhistas e motoqueiros: relacionamentos amorosos é que produzem as vertigens mais cambaleantes. Se forem amores variados, serão abalos sísmicos de diferentes graus. Se for um amor único e eterno, os dados estão lançados: ou será um tédio interminável ou uma viagem lisérgica. O casal do filme protagoniza um amor do segundo tipo. A poltrona do cinema deveria ter um cinto de segurança para a gente manter apertado durante o voo.

Não vou entregar detalhes, mas você pode imaginar o que acontece desde um flerte num bar entre uma garota aparentemente sem graça e um escritor bebum, passando por desencontros, encontros, apresentações à família, casamento, filhos, separações, terapias, reconciliações, traições, até os dois entrarem naquela zona acinzentada da terceira idade. A boa notícia é que não dei spoiler: falei do previsível. O imprevisível é que fascina do início ao fim.

Se não posso falar de cada cena para não tirar a graça, posso ao menos falar desse tipo de filme que nos captura com uma mão invisível e nos leva até um platô acima do julgamento moral. Ando detestando julgamentos morais como nunca antes. O filme é uma redenção nesse sentido. Tudo o que acontece é exagerado, mas nada é implausível. Reconheçamos: entre as nossas quatro paredes, não há circo, nem teatro, nem hospício que se compare. Você sabe, eu sei. Já vivemos cenas que, se contarmos, nos internam. Mas, se filmarmos, ganhamos o Oscar.

Só que ninguém está pensando em prêmio. Aliás, uma das frases do filme: ?O que acontece entre duas pessoas é muito mais importante do que qualquer fama ou glória?. É isso: a gente passa por vários perrengues na vida, e a recompensa é o perrengue em si, que torna nossa trajetória passível de ser recordada como algo que valeu a pena, e não apenas um acúmulo de dias repetitivos e enfadonhos. O que salva nossa biografia, no final das contas, é a loucura da nossa intimidade.


02 DE AGOSTO DE 2017
DAVID COIMBRA

A grande final ? Final

Lá estávamos nós, eu e o Diana, frente a frente, prontos para disputar a sensacional final do campeonato de botão. Valia taça, eu nunca havia conquistado uma taça, não podia deixar passar aquela oportunidade, até porque o jogo se daria no meu campo, no chão de parquê lá de casa.

O Diana matou aula para jogar a final. Ele estudava no Gonçalves Dias, uma boa escola pública. Naquele tempo, havia ótimas escolas públicas ? eu e todos os meus amigos só estudamos em escola pública.

A escola pública é a base de qualquer nação. Só se constrói um país de verdade com ensino fundamental e básico de qualidade, primeiro e segundo graus. Não é por acaso que a decadência da escola pública brasileira marcou a decadência do Brasil. Você aí quer ser presidente da República? Concentre-se em quatro pontos: escola pública, polícia, presídio e esgotos. O resto fica mais fácil.

Mas, como dizia, o Diana matou aula e fomos para a finalíssima. Acima de nós e do campo de jogo, a tacinha nos contemplava, do alto de um armário. Eu tinha de ganhar aquela taça!

Parti para o ataque. A melhor defesa é o ataque, dizia Telê Santana. E, como dizia Shakespeare, já reverenciado no começo deste relato, na guerra, o homem tem de se comportar como um tigre. E lá fui eu, todo dentes e garras, avançando com bravura de fera. Um a zero para mim. Dois a zero. Estava fácil. Olhei para a taça. A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa.

O Diana, enquanto isso, se defendia e narrava o jogo. Era um Pedro Ernesto Denardin infantojuvenil, falava o tempo inteiro, e claro que do ponto de vista dele, dizendo que suas jogadas eram geniais e debochando dos meus erros.

Aquilo foi me irritando. Não posso perder para esse cara, pensei. Não posso! Tentei me acalmar. Compreendi que, se deixasse a irritação tomar conta de mim, me desconcentraria e acabaria perdendo o jogo. Assim, decidi que seria sereno, seria ponderado, seria cauteloso e ganharia aquele jogo (e a tacinha!) com inteligência.

Que grande erro, jogar com inteligência...

Naquele exato instante, o Diana marcou um gol. O súbito revés, ocorrido justamente quando eu queria ser inteligente, me perturbou: será que estava fazendo o certo? Será que não devia voltar a atacar como um tigre?

O momento de dúvida arrancou-me um naco de naturalidade, a ficha não parecia firme na minha mão, o Diana continuava se gabando e debochando sem cessar e me irritando e, de repente, PÁ!, gol dele. Jogo empatado.

Olhei outra vez para a tacinha. Tomei fôlego. Vamos lá! Vamos lá! Tigre! E me atirei com volúpia ao jogo. Mas já tinha me desconcentrado, o Diana se aproveitou e fez o terceiro. Ah, não! Ah, não! A taça! Quero a taça! Resolvi arriscar um chute de longa distância com meu craque Lagreca:

? A gol!

Ele ajeitou o goleiro.

Bati de revesgueio, assestando a ficha no cantinho do Lagreca.

GOL! GOOOOOOOOOOOL!

A taça do mundo é nossa!

Mas ainda não era, ainda estava empatado e faltava pouco para o fim. Eu era o melhor. Eu tinha de vencer. Vamos lá, Lagreca! Vamos lá, meu craque! Faltando um segundo, talvez menos, não sei, ele, o Lagreca, tinha a oportunidade de fazer o quarto. Era um tiro frontal, em geral eu dava uma cavadinha com a ficha e o Lagreca metia por cima do goleiro. Mas resolvi que não permitiria chance de reação do inimigo. Chutei com força. A bolinha bateu no travessão e voltou rodando e rodando continuou por entre nossos botões de duas e três camadas e, quase desmaiando, entrou no meu gol.

Gol do Diana.

A taça era dele.

Nesta semana, falei com o Diana pelas redes. Ele contou que ainda tem a tacinha guardada em algum lugar, que ela está deteriorada, mas resiste. Decidi que vou desafiá-lo para outro jogo. E, desta vez, serei quem sou, não mudarei em meio à disputa. Um tigre não pode deixar de ser um tigre.

DAVID COIMBRA


02 DE AGOSTO DE 2017
FAMÍLIA

Um sonho multiplicado por quatro

ESPERANDO QUADRIGÊMEOS após optar por uma produção independente, administradora faz vaquinha para garantir enxoval

O sonho da maternidade de Luciane Carvalho está sendo finalmente realizado ? acrescido de um susto e multiplicado por quatro. Solteira, a administradora de empresas de 37 anos, moradora de Alvorada, resolveu encarar uma produção independente e se submeteu a uma inseminação artificial (com esperma de doador desconhecido obtido a partir de um banco de sêmen) no início deste ano. Além da óbvia alegria por atestar o sucesso do procedimento, os primeiros exames provocaram também um sobressalto: Luciane está grávida de quadrigêmeos.

Agora na 29ª semana de gestação, internada para repouso absoluto no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, Luciane torce para que Antonella, Valentina, Sofia e Nicolas consigam chegar à 34ª semana e digere uma dúvida: como acomodar quatro crianças em um espaço, uma rotina e um orçamento que previam apenas uma?

Enquanto coordena, por telefone, uma obra para ampliação de sua casa ? estão sendo construídos um quarto e um banheiro extras ?, a mãe vem divulgando sua história no blog Quatro Vidas na Minha Vida (4vidasnaminhavida.wixsite.com/quadrigemeos) e em perfis nas redes sociais em busca de colaborações. Já conseguiu dois carrinhos de gêmeos, quatro bebês-conforto, 8,5 mil unidades de fraldas (suficientes para quase um ano) e uma soma em dinheiro. Uma vaquinha online tem o objetivo de arrecadar R$ 40 mil para cobrir os gastos básicos dos 12 meses iniciais, que incluem, além das fraldas, lenços umedecidos, pomadas para assaduras e latas de leite.

? Sempre quis muito ter filho, sempre me imaginei com filho. Sempre tive um sentimento de muito amor dentro de mim e vontade de botar isso para fora. Mas, no meu salário, caberia um nenê. Apertando, dois. Nem no meu carro cabem quatro ? conta a gestante, proprietária de um Ka.

Depois de relacionamentos que não deram certo, Luciane começou a cogitar a maternidade mesmo sem a presença de um companheiro. Considerou também a adoção, mas a vontade de passar pela experiência da gestação a levou a optar antes pela reprodução assistida. A administradora ainda pretendia aguardar alguns anos, mas o adoecimento do pai, o aposentado João Luiz Carvalho, 68 anos, em setembro passado, foi determinante para uma antecipação dos planos.

O que você está esperando? ? questionou uma tia.

CHANCE AMPLIADA PARA GESTAÇÃO DE MÚLTIPLOS

Luciane teve o sêmen do doador introduzido em seu útero após receber uma medicação para estimulação da ovulação. Nessas condições, explica o ginecologista e obstetra Eduardo Pandolfi Passos, responsável pelo procedimento, existe o dobro de chance de ocorrer uma gestação de múltiplos em comparação com o método natural de concepção.

Por inseminação artificial (caso de Luciane) ou fertilização in vitro (a fertilização se dá fora do útero, em laboratório, e depois o embrião é introduzido na paciente), a chance de gravidez de gêmeos é de 5% a 6%; de trigêmeos, até 3%; quanto a quadrigêmeos, a estimativa é de que a ocorrência seja inferior a 2%. Segundo Passos, o objetivo nunca é gerar mais de dois bebês. Na fertilização in vitro, sabe-se exatamente quantos embriões serão transferidos, enquanto na inseminação artificial não há um controle tão preciso, uma vez que a fecundação se dá no corpo da mulher.

O organismo dela respondeu de uma forma maior à estimulação da ovulação ? explica o médico, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

REPOUSO ABSOLUTO PARA SUSTENTAR A GRAVIDEZ

Confirmada a gravidez, Luciane se submeteu à primeira ecografia. Ansiosa para saber se estava tudo bem com o filho, recebeu a notícia de que eram três. O quarto bebê apareceria só no segundo exame. Em choque, a administradora se isolou por dois dias. Não quis falar com ninguém, quase não dormiu.

? Senti pavor. Me assustei muito. Minha cabeça não parava. É uma produção independente, sempre fui responsável, e agora estou colocando quatro pessoas no mundo. Fiquei pensando em como dar conta ? recorda ela, usando uma gargantilha com pingentes dourados representando três meninas e um menino. ? Nunca pensei ?por que comigo??. Tenho fé, Deus é que sabe.

Em 19 de junho, com quase 23 semanas de gestação ? e a barriga já maior do que a de uma grávida de nove meses com um bebê só ?, Luciane saiu de uma consulta com a ginecologista e obstetra Karla Simon Brouwers direto para o hospital. Passou por uma cerclagem de resgate, cirurgia de fechamento do colo do útero, para que pudesse sustentar a gestação por mais tempo.

Desde então, a gestante permanece deitada. O ideal é que a gravidez avance até as 34 semanas, mas 32 já são consideradas um ótimo resultado para quadrigêmeos, segundo a médica. Nenês e mamãe passam muito bem.

A Luciane tem uma força incrível, de cabeça e de físico. É uma pessoa muito tranquila, isso ajuda muito. Ela não se desespera, estuda muito, lê muito ? diz Karla.

PENSAMENTO POSITIVO E APOIO DA FAMÍLIA

Após a cesárea, os irmãos, prematuros, serão transferidos para a UTI neonatal. Luciane espera amamentá-los, mas os bebês provavelmente precisarão de complemento. Já consegue se imaginar anos à frente: prevê a casa cheia de amigos dos filhos, depois os namorados e as namoradas.

Sou positiva. Não fico pensando nas dificuldades. O que eu conseguir de solução agora, ótimo. O que não conseguir, Deus vai me ajudando. Não adianta eu querer uma solução para tudo hoje ? afirma a gestante, que conta com grande apoio da família, especialmente da irmã, a fotógrafa Deise Carvalho Cansi, 40 anos.

Um temor que era marcante, o da solidão, já não existe mais:

Nunca mais vou estar sozinha.

larissa.roso@zerohora.com.br

O setor de transporte está falido?

Prefeito de Porto Alegre

Apresentada como forma de conter o aumento da passagem de ônibus, uma série de cortes em isenções proposta pelo Executivo inflamou discussões sobre o sistema de transporte. Caso sejam aprovadas na Câmara de Vereadores, as medidas podem reduzir em R$ 0,20 os custos para a tarifa de 2018. Mesmo assim, a passagem deve aumentar para, no mínimo, R$ 4,40, segundo o governo.

Em entrevista na noite de segunda-feira, o prefeito Nelson Marchezan prometeu anunciar melhorias no sistema de ônibus e disse que os cortes nas isenções são urgentes para manter o sistema.

Mas o transporte está longe de ser a única preocupação de Marchezan. Ontem, servidores protestaram contra as propostas do prefeito de tornar legal o parcelamento de salários e de extinguir a licença-prêmio (leia na página ao lado).

No fim de semana, o líder do governo, Clàudio Janta (SD), mostrou- se surpreso com o envio durante o recesso e criticou o pacote de medidas. O que aconteceu?

Quem tem de explicar isso é o próprio líder Janta, já que, na semana que antecedeu o recesso, ele orientou o secretário de Relações Institucionais a apresentar os projetos no recesso, pois boa parte dos vereadores tinha compromissos, e só poderia fazer reunião em agosto. Nessa reunião, estavam presentes o Gustavo Paim, secretário de Relações Institucionais, o vereador, até então líder do governo, Clàudio Janta, e o vice-líder, Moisés Barbosa (PSDB).

Quem foi ouvido na definição dos projetos enviados ao Legislativo?

Todos: a comunidade, reuniões de empresários com técnicos da EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), com técnicos de fora, conversamos com Trensurb, com os 40 maiores pontos de táxi, com as empresas de lotação, de ônibus. Pelo site, a gente ouviu as pessoas. Deixamos público, como nunca, o problema que temos: o setor de transporte está falido. Os taxistas, as lotações e as empresas de ônibus estão falidos. Há de se ter uma grande mudança, e a gente acredita que esses projetos são os necessários para fazer essa transição, de uma prestação de serviços que não é feita, que é um engodo.

Como assim?

Mais de 5 mil multas foram aplicadas nas empresas de ônibus só neste ano, por não prestação do serviço, pelo ônibus que deveria estar lá e não está. É três vezes mais do que no mesmo período do ano passado. Ou seja, a gente acha que tem a gratuidade de um serviço, mas o serviço não existe, entende? É um engodo. Refinamos os projetos para que representem o melhor que se pode fazer agora para, em médio prazo, ter um transporte público melhor.

Quando se candidataram a prestar o serviço, as empresas ?hoje falidas? não conheciam as regras?
O sistema está falido, não as empresas. O sistema como um todo está falido, e temos de reorganizá-lo. Não assumi o papel de resolver problemas financeiros das empresas e, sim, o problema do sistema de transporte de Porto Alegre. Que, sabemos, não é bom: é caro, não é confiável, não é confortável. A gente pretende entregar um serviço mais barato, mais seguro, mais confortável e mais confiável.
Segundo a EPTC, mesmo se aprovado o pacote, a tarifa subirá R$ 0,35 (vai a R$ 4,40).
Quem fez esse cálculo de R$ 4,40?

O Marcio Saueressig (responsável na EPTC pelo cálculo da tarifa).

O diretor-presidente da EPTC, Marcelo Soletti, intervém: na verdade, o cálculo do Marcio foi R$ 4,61, e, se tudo fosse aprovado, daria R$ 0,20 de desconto. São projeções de setembro em diante.
Marchezan retoma a resposta:

Não entendi, o Marcio fez um cálculo projetando o valor da tarifa? Acho que o Marcio se precipitou, porque, como ele pode avaliar a questão do reconhecimento facial e do combate a fraudes? Como pode antecipar se vai aumentar ou diminuir o número de passageiros? Não vi esse cálculo. Então, não tenho como explicar. A não ser que tu tenhas uma pergunta conceitual. Sobre o valor, não tenho como me manifestar.

O valor foi informado pela EPTC. O que a prefeitura prevê para melhorar o transporte se, em 2018, ele vai ficar mais caro e com a possibilidade de uma frota mais antiga?

Os decretos e projetos são para que a passagem não evolua nos valores que têm evoluído nos últimos anos. Isso é inegável, é matemática, né? Nesta semana, vamos publicar decretos que dão prazo para obrigações (das empresas) que já estavam na licitação: a implantação do reconhecimento facial na bilhetagem, a instalação de GPS e de equipamentos de filmagem. A gente acredita que, com isso, consiga avançar. De qualquer sorte, as mudanças estruturais não geram resultado imediato. 

Inicia-se uma mudança de médio e longo prazo. A questão do GPS é diretamente relacionada ao controle efetivo dos serviços contratados. Eu consigo monitorar quantos ônibus estão operando, se tem atraso, qual a velocidade média. E oferecer conforto e segurança: o cidadão saber que horas o ônibus vai passar mais próximo da casa dele. Fora o monitoramento do trânsito para que o transporte público coletivo tenha mais agilidade do que o individual.

Se as empresas estão quebradas, como vão fazer as melhorias?

A gente convenceu as empresas de coisas que, nas últimas décadas, ninguém convenceu e que parecia que não iam acontecer nunca, que é o (caso do) acesso online aos dados da bilhetagem eletrônica. Nosso cálculo, no ano que vem, vai ser mais transparente. A gente tem acesso à conta bancária das receitas da bilhetagem eletrônica, o que também parecia uma coisa que não ia acontecer. 

Convencemos as empresas de que o reconhecimento facial é positivo no combate a fraudes, e combater isso também melhora o faturamento. Que, (com) câmeras funcionando online, a gente consiga diminuir os assaltos e aumentar a utilização dos ônibus.

As mudanças vão exigir dinheiro. Como as empresas vão bancar isso?

O reconhecimento facial, ele se paga. É isso que estamos dizendo às empresas. A dificuldade é que algumas talvez não tenham crédito, né? Vão ter de buscar de outra forma, como em troca de recebíveis. A gente está conversando com as empresas para que façam um esforço. Embora a gente saiba que muitas têm dificuldade de pagar a folha. Essa é uma parte, né?

Em fevereiro a tarifa vai aumentar. Como a prefeitura vai barrar a queda de passageiros?

A gente está tomando medidas para que, ou futuramente o preço diminua, ou não aumente tanto. É matemática, é racional, isso não dá para alterar, entende? Quanto mais gratuidade, mais caro fica. Então, essas medidas são para evitar o superencarecimento ou o encarecimento da passagem.

terça-feira, 1 de agosto de 2017



01 DE AGOSTO DE 2017
CARPINEJAR

Estou no banho

Não posso dizer que não subi na vida. Já estou infinitamente melhor do que na minha infância. Quando pequeno, não tinha nem uma toalha própria para tomar banho. Dividia com o meu irmão mais novo.

O box não tinha divisória do resto do banheiro. Era eu, a água e o ralo. Um vestiário absolutamente pobre. Só havia a tampa da privada para proteger a roupa seca. O rodo ficava atrás da porta e sempre tinha que ser faxineiro ao final da chuveirada. Mal me lavava e já estava suado. O espaço se transformava num convés de barco em tempestade, absolutamente alagado.

Na adolescência, houve uma evolução dos hábitos. Recebemos uma cortina floreada para nos banhar mais em segredo. Porém, a paz não durou uma semana. Com o vento da janela, a cortina grudava no corpo e nos plastificava. Eu lutava mais com a cortina do que com a água. Não podia permanecer muito tempo debaixo da torrente. Cinco minutos de chuveiro elétrico e caía o interruptor de luz ? meu pai não arrumava de propósito, para economizar energia. Não adiantava gritar, que ninguém acudia.

Torrente nada. Vinha um fiozinho quente com acalentado custo. Rezava para não virar a torneira demais e perder a quentura. A torneira parecia um cofre, cuidando com cada giro. A torneira parecia um lápis: ao atingir a ponta, quebrava-se a perfeição em seguida por um movimento adicional. Jamais recuperava a temperança.

A cortina floreada, de tanto se contorcer, sem fixação nenhuma nos pés, acabava deixando tudo igualmente inundado e lá tinha que buscar o rodo de novo.

Nunca a gota fria na descida da ducha foi solucionada na minha puberdade. Ela vinha do nada para nos devolver a humildade. Não tem noção de como aquilo me afetou, o mesmo que se defender de um inimigo invisível, estapear uma mosca imaginária. Por pouco, não virei esquizofrênico.

No começo da faculdade, a família instalou finalmente um box de acrílico ? estávamos perto da civilização.

Mas a porta de correr emperrava com frequência, numa sanfona frouxa. Ensaboado, não contava com firmeza para colocá-la de volta nos trilhos. Um dia, saí do banho literalmente com a porta nas mãos.

Hoje, tenho um box de vidro e um chuveiro potente e constante que cobre todo o meu corpo. É a grande promoção da minha longa história, nada irá superá-la. Um luxo que os meus filhos não vão entender.

carpinejar@terra.com.br


01 DE AGOSTO DE 2017
EDUCAÇÃO

DEMISSÕES E CORTES NAS UNIVERSIDADES PRIVADAS

CRISE ECONÔMICA DO PAÍS é a justificativa para os ajustes que marcam o começo do segundo semestre

A volta às aulas em algumas instituições particulares de Ensino Superior do Rio Grande do Sul neste segundo semestre será marcada pelo ingresso menor de alunos (em relação ao primeiro semestre), pela contratação de menos créditos e, mais uma vez, também pela demissão de professores. Assim como no ano passado, quando restrições ao financiamento estudantil e o aumento da inadimplência levaram as universidades a frear investimentos e buscar a redução da folha de pagamentos, readequações têm se mostrado necessárias novamente.

Apesar de o número de alunos matriculados ter se mantido relativamente estável, os centros de ensino apontam que o cenário econômico desfavorável leva muitos a buscarem mensalidades menores ? seja cursando menos disciplinas ou indo atrás de financiamentos. A demissão de professores foi a opção de algumas universidades na tentativa de estancar os efeitos da inadimplência e do número menor do que o esperado de alunos matriculados  efeitos atribuídos à crise econômica. Em muitas, as rescisões ficaram em um patamar considerado dentro do padrão pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro/RS).

A iniciativa de fazer cortes é relativamente normal nas instituições de Ensino Superior, algo próximo de 5% de reajuste no quadro de professores fica até dentro do esperado. Mas de uns três anos para cá, as demissões começaram a ocorrer também neste período de meio do ano ? afirma Amarildo Cenci, diretor do Sinpro/RS.

Lamentamos muito, porque isso acaba desorganizando o sistema, desqualificando o serviço. As instituições, quando passam por uma situação assim, fazem um ajuste por cima, demitindo aqueles professores que têm os maiores salários, que tendem a ser os melhores profissionais ? completa Cenci.

Levantamento feito pela consultoria educacional Hoper indica um aumento de 172% nas matrículas de alunos com Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) no Rio Grande do Sul entre 2011 e 2015. Por outro lado, o mesmo estudo demonstra que o total de matrículas ? considerando também os alunos sem o financiamento do governo ? registrou aumento de apenas 3,77% no mesmo período.

Pode-se interpretar, a partir dos dados que, não fossem as alternativas de pagar a universidade, poderia haver queda significativa no total de estudantes matriculados nas universidades privadas do Estado. Os números do Censo da Educação Superior 2016 ainda não foram divulgados pelo governo.

EXPECTATIVAS FRUSTRADAS DE CRESCIMENTO DO PROUNI

Há universidades que veem como ?insustentável? manter seu quadro docente no mesmo patamar de anos de pujança, quando estava no auge a oferta de bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni) e de matrículas via Fies.

Em 2014, havia uma perspectiva de crescimento do Ensino Superior em razão da política governamental que ofereceu financiamento pelo Fies. Mas depois veio a notícia de que o Fies não tinha mais recursos. Desde 2015, o ensino privado está experimentando uma queda na efetivação de matrículas ? explica o presidente do Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung) e reitor da Universidade de Passo Fundo (UPF), José Carlos Carles de Souza.

guilherme.justino@zerohora.com.br


01 DE AGOSTO DE 2017
GESTÃO PÚBLICA

Marchezan propõe privatizar serviços de água e esgoto


MEDIDA INTEGRA PACOTE enviado à Câmara, que também prevê o fim da licença-prêmio

O prefeito Nelson Marchezan enviou à Câmara de Vereadores de Porto Alegre projeto de emenda à Lei Orgânica do Município que permitirá a privatização dos serviços de água e esgoto da cidade, hoje sob a responsabilidade do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae). 

Na justificativa, o tucano afirma que a prefeitura não tem capacidade de investimento para conseguir universalizar os serviços de tratamento e distribuição de água, bem como coleta e tratamento de esgoto?. Marchezan também cita que, apesar de décadas de investimentos em saneamento, o Guaíba ainda não conta com mínimas condições de balneabilidade.

Além disso, Marchezan apresentou projetos que eliminam benefícios (leia abaixo) e legalizam o parcelamento de salários ? que ocorre desde junho.

O diretor- geral do Sindicato dos Municipários (Simpa), Alberto Terres, critica as propostas, que, segundo ele, alteram as conquistas dos trabalhadores?.

Essa situação ocorre enquanto a Câmara está em recesso, o que demonstra a forma autoritária e antidemocrática do governo, que não dialoga com ninguém, nem com os municipários, nem com os vereadores. Estamos muito indignados.

Terres diz que os municipários já protocolaram na Câmara pedido de audiências para discutir os projetos e realizarão um ato em frente à prefeitura hoje, a partir das 16h, para protestar.

jessica.weber@zerohora.com.br


01 DE AGOSTO DE 2017

DAVID COIMBRA


A grande final II


Meu adversário na grande final do campeonato de botão era o Diana. Esse ?Diana?, óbvio, é apelido ? é que a cachorrinha dele se chamava Diana. Foi o Roys quem botou. O Roys era exímio inventor de apelidos. É do Roys a autoria do ?Barnabé?, do Jorge Barnabé ? por causa de um detetive de seriado, o Barnaby Jones, com quem o Jorge era parecido e, pensando bem, é ainda.


Foi o Roys, também, quem deu o apelido ao Zoreia, e não porque ele tivesse orelhas grandes. É que o Zoreia vivia usando uma camisa com o desenho do ratinho Topo Gigio, e o Topo Gigio, sim, tinha orelhas enormes.

Curioso: o Roys, o Zoreia e o Diana pegavam no gol, todos eles ágeis, elétricos e meio alucinados, goleiro tem de ser alucinado.

Naquele tempo, jogávamos futebol de salão, jogo para homem, não esse futsal com bola de praia que eles jogam agora. No futebol de salão, a bola era pesada e não se podia fazer gol de dentro da área. Marcava mais gol quem tivesse a pancada mais forte.

O Jairo tinha uma espingarda Winchester na canhota e, uma vez, na cancha da Amovi, ele mandou uma bola rasteira que saiu queimando o piso de cimento e areia, veio que veio levantando faísca. O Roys caiu para defender e caiu sentado, com as pernas abertas. A bola bateu-lhe em cheio no entrepernas, mais especificamente em seu pequeno e frágil saquinho escrotal. O Roys emitiu um urro primevo de dor que ecoou pelos prédios amarelos do IAPI, estremecendo até a Plínio Brasil Milano:

GNNNNNNNUUUULLLL!

E, de imediato, aconteceu algo horrendo: o saco do Roys começou a inchar e inchou e inchou tanto, que saiu para fora das aberturas do calção, ameaçador como a Bolha Assassina do filme aquele.

Foi uma visão medonha.

O Roys acabou se recuperando, claro, e ficou bom. Ele era forte, apesar de ser tão magrinho. Aliás, sua magreza rendeu também a ele um apelido: Languiça. Quem colocou foi o Edu Brittes, que hoje é advogado. O Roys, tão criativo nos apelidos, odiava aquele apelido que ganhou. Se a gente o chamasse de Languiça, ele pedia briga.

Mas o que eu dizia mesmo? Ah, sim, que foi o Roys quem primeiro chamou o Diana de Diana, meu adversário na espetacular final do campeonato de botão, aquela que valia taça, uma tacinha do tamanho de uma cuia de chimarrão, mas importantíssima para mim, que nunca havia ganho uma taça.

O Diana hoje é um respeitável professor e pai de família, mora em Santa Catarina e é muito benquisto pela comunidade. Como ele não gostava do apelido, não vou lhe citar o nome, só digo que era bom amigo e ainda é. Volta e meia nos comunicamos pelas redes.

Quem conhecesse o Diana na época não diria que ele se tornaria um homem tão reto. Como todo bom goleiro, ele tinha algo de folclórico. Foi o Diana quem fez aquela famosa aposta com o Carlos de que comeria grama o torcedor do time derrotado no Gauchão. O Diana, gremista devotado; o Carlos, colorado. Estávamos na primeira metade dos anos 1970, época do Inter de Valdomiro e Falcão. Lembro até hoje do Diana de quatro, pastando a grama alta e de aparência apetitosa que crescia na ponta-esquerda do Alim Pedro.

Num jogo entre Grêmio e Fluminense, no Olímpico, o Diana levou uma caixa de fósforos. Durante toda a partida, ele riscava um fósforo e o atirava, aceso, na orelha de um gordo sentado três degraus abaixo. O gordo se estapeava todo, gritava, levantava, olhava para trás, e o Diana nem se mexia, mantinha o olhar fixo no campo, não era com ele. Todo mundo em volta ria-se da cena. Assim foi até quase o final. Faltando uns 10 minutos para acabar o jogo, o Diana riscou o fósforo e o gordo se virou bem na hora. Flagrou-o com o palito na mão e gritou:

? Arrá! Vou te matar, desgranido!

E saiu correndo atrás do Diana, que zuniu no meio da multidão. Não o vi mais naquele dia.

Era esse, pois, o meu adversário na grande final. Da qual conto amanhã.

DAVID COIMBRA