sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Notícia da edição impressa de 05/08/2016. Alterada em 04/08 às 17h39min

Antônio Chimango faz cem anos

Antônio Chimango - Poemeto Campestre, de Amaro Juvenal

Antônio Chimango - Poemeto Campestre, de Amaro Juvenal 


DIVULGAÇÃO/JC
Antônio Chimango - Poemeto Campestre, de Amaro Juvenal (Editora Belas Letras, 238 páginas, com apoio do Ministério da Cultura e Banrisul), no ano de seu primeiro centenário de vida, ganhou uma nova, bela e diferenciada edição encadernada, editada e apresentada pelo professor e escritor Luís Augusto Fischer.
Um dos maiores clássicos da literatura gaúcha, escrito pelo político, escritor, jornalista e médico Ramiro Barcellos, com o uso do pseudônimo Amaro Juvenal, cruza seu primeiro século com muitas edições, muitos estudos e obras a respeito e com adaptação musical por Martin Coplas. O poemeto também foi adaptado para apresentação pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e apresentado, em forma de opereta, no Theatro São Pedro, com música de Arthur Barbosa e libreto de Alpheu Godinho.
Considerada a poesia mais conhecida e popular do Rio Grande do Sul, em vista de seu conteúdo político e histórico impactante, de sua forma literária primorosa, da importância de seu autor, dos fatos e personagens históricos que a envolvem, Antônio Chimango, nesta edição anotada, seguida de ensaios clássicos de Raymundo Faoro, de Augusto Meyer e novas abordagens por Fausto J.L. Domingues, José Francisco Botelho e Michel Thierry Le Grand, mostrará aos leitores que já conhecem a obra e aos que conhecerão, fotos e ilustrações de outras edições e detalhado histórico do poemeto.
Elaborado entre 1910 e 1915, em razão de uma briga política contra seu primo Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961), então presidente do estado e ali retratado como Antonio Chimango, o poemeto tomou tamanho, rumo e imortalidade que, por certo, Ramiro Barcellos nunca imaginou. Fosse apenas um forte panfleto político, talvez a história fosse outra. A questão é que a complexa personalidade de Barcellos dialogou com a literatura, a política, a história, e deu excelência literária ao poema, que fica ainda mais valorizado com essa cuidadosa edição do professor Fischer, elaborada com base em extensas pesquisas e com o apoio de especialistas em obras deste porte.
Juntamente com esta edição histórica, foi lançado Antônio Chimango - Poemas, crônicas, discursos e polêmicas de Ramiro Barcellos - Volume 2 (Belas Letras, Banrisul e Ministério da Cultura, 262 páginas) que reúne, pela primeira vez em livro, os textos de exuberante verve satírica de Barcellos, com estudos de Sérgio da Costa Franco, Gunter Axt e Luís Augusto Fischer. Os textos permitem, sem dúvida, ver o brilho da personalidade multifacetada de Ramiro Barcellos e conhecer um quadro altamente significativo da história, da política, da gestão pública e da economia de nosso País cem anos atrás.
Estão de parabéns o Ministério da Cultura, o Banrisul, o professor Fischer e os demais colaboradores da obra.

05 de agosto de 2016 | N° 18600 
NÍLSON SOUZA

VOO OLÍMPICO


O Brasil vai voar no 14-Bis pelo Rio de Janeiro nesta sexta-feira, na fantasia imaginada pelos criativos diretores da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Pelo menos é o que dizem as notícias sobre a festa, embora algumas bizarrices antecipadas como spoiler já tenham sido desmentidas pelos organizadores – notadamente o polêmico assalto à Garota do Ipanema, interpretada por Gisele Bündchen. Teremos também, segundo os espiões do ensaio, as caravelas de Cabral navegando pelo gramado do Maracanã, música de vários gêneros e, óbvio ululante e brasileiro, escolas de samba.

O que mais me aguça a curiosidade neste espetáculo esportivo-carnavalesco é o voo do avião de Santos-Dumont. Acabei de ler O homem com asas, do holandês Arthur Japin, que conta de forma romanceada a vida e a morte daquele que talvez tenha sido o maior herói de nosso país em todos os tempos. É uma disputa difícil entre Santos-Dumont e Tiradentes, com certo prejuízo para o primeiro por ter colocado a corda voluntariamente no próprio pescoço enquanto o outro pereceu como mártir. Mas, em votação popular promovida há alguns anos por um canal de televisão, o médium Chico Xavier deixou os conterrâneos mineiros para trás.

O livro relata as aventuras do brasileiro que conquistou os céus de Paris e a admiração dos seus contemporâneos, pela sua persistência e coragem para dominar os ventos e os contratempos. O inventor tropeçou incontáveis vezes, desabando das alturas com seus balões e projetos de aviões, até alcançar o sucesso em voos controlados em torno da Torre Eiffel. Mas o homem que fazia tricô e lançou a moda do chapéu panamá amassado acabou tendo um final trágico, consumido pelo remorso de ter inventado um instrumento de morte, como concluiu depois de ver o avião utilizado em guerras e revoluções.

Agora, a tecnologia e os truques cinematográficos planejados pelos diretores da festa nos prometem uma viagem no 14-Bis pelos cartões-postais da Cidade Maravilhosa. Já comprei a minha passagem para o sofá da sala. Não dá para perder esse voo.

Depois, a gente desce e começa a torcer pelos nossos atletas – ou, pelo menos, para que o desfile da Garota do Ipanema não nos traga maiores constrangimentos.



05 de agosto de 2016 | N° 18600
DAVID COIMBRA | David Coimbra

DIA 2 – O RIO É BEAUTIFUL

Vi uma moça com o celular na mão, filmando a paisagem da Barra. Ela vestia uma calça folgada bem colorida, quase uma saia, e uma camisa verde, e nos seus ombros estava pendurada uma mochila preta. Ela era morena e levava o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Sorria, enquanto fazia o celular girar devagar, e repetia:

– Beautiful! Beautiful!

Pensei: e alguns brasileiros fizeram de tudo para apagar a tocha.

CHEGA DE CHATOS APAGADORES DE TOCHA

Isso de querer apagar a tocha é bem coisa nossa. Que mania de ver o lado ruim da vida.

Ah, a Olimpíada vai gastar demais, ah, devíamos despender essa energia em áreas mais importantes... Tudo bem, mas essas considerações deviam ter sido feitas ANTES, quando o Brasil se candidatou para sediar os jogos. Agora, a obrigação do país e dos seus habitantes é fazer o melhor evento possível e receber bem os estrangeiros.

NÃO QUER? DIGA ANTES!

No ano passado, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos escolheu Boston para ser candidata a sede da Olimpíada de 2024. Tinha lógica: a cidade tem ótima infraestrutura e seus habitantes amam os esportes. Há clubes poderosos para cada um dos quatro jogos preferidos dos americanos: o Red Sox no Beisebol, o Patriots no futebol americano, o Celtics no basquete e o Bruins no hóquei no gelo.

Mas, em pesquisas de opinião, a população começou a manifestar contrariedade. Alguns organizaram um movimento, o “No Boston Olympics”, que foi crescendo a cada semana. O prefeito da cidade e o governador de Massachusetts argumentaram que o evento seria bancado 100% pela iniciativa privada, mas os líderes do movimento provaram que os orçamentos de todas as Olimpíadas foram estourados, e quem pagou o excesso foi a comunidade que sediou os Jogos.

Foi tamanha a rejeição da ideia entre a população, que o Comitê cedeu: a candidata dos Estados Unidos será Los Angeles.

É assim que tem de ser: quer reclamar, reclame na hora certa. Depois, não fique esculhambando, querendo apagar a tocha, resmungando. Comporte-se e ajude.

PARAGUAIO, COM MUITO ORGULHO

Em 1999, a Copa América foi no Paraguai. Houve todo tipo de problemas: caía a energia no meio dos jogos e o estádio ficava no escuro, as filas eram enormes para tudo o que se quisesse fazer, os voluntários se confundiam e não davam informações corretas.

Bem. Antes de uma partida da Seleção, nós estávamos em um grupo de jornalistas brasileiros e alguns começaram a reclamar.

– Só podia ser coisa do Paraguai – grunhia um.

– Bem Paraguai mesmo – rosnava outro.

Um policial paraguaio que estava por perto entesou. Com voz grave, disse que o Paraguai estava fazendo de tudo para nos receber bem, que o povo estava feliz de nos ter como visitantes e que, se algumas coisas não davam certo, não era por falta de empenho.

Admirei a galhardia do policial. E até passei a ver o Paraguai com um olhar mais positivo. Porque, se você não pode fazer o melhor, pelo menos tem de ter vontade de fazer o melhor.

LUAN TEM DE FICAR

A entrada de Luan melhorou a Seleção Brasileira. Ele conseguiu fazer a ligação do meio-campo com o ataque, municiou Neymar e os “Gabis” e fez a jogada do lance mais perigoso.

Tem de ser titular.

ZIKA, O ASTRO

Ontem, fui pegar o meu kit de imprensa. Dentro da mochila usual, o tubo laranja de repelente de insetos que está sendo distribuído a todos os jornalistas e atletas.

Borrifei os braços criteriosamente, segundo as instruções. Vade retro, zika!

E, de fato, por enquanto, já que não poderemos ver os olhos fúcsia de Isinbaeva, já que Phelps ainda não bateu seus pés número 48 na água azul da piscina, já que as travas das sapatilhas de Bolt ainda não feriram o chão azul das pistas, o zika é o astro do Rio. Os estrangeiros, vira e mexe, falam do zika. Mas é só por enquanto. Hoje à noite, tudo vai mudar.


05 de agosto de 2016 | N° 18600 
CLAUDIA LAITANO

1984

Minha festa de 18 anos resumiu-se a um grupo de amigos amontoados num quarto com pouca luz e muita fumaça. O fato de que os meus pais estavam assistindo televisão na sala ao lado não impediu que alguns convidados se engajassem no consumo ostensivo de substâncias ainda hoje ilegais no país. A bebida da noite era uma mistura potencialmente mortífera de vodca com Minuano limão – e a arte de golpear o copo para ver o composto fervilhar parecia cada vez mais engraçada (e complexa) à medida que a noite avançava.

Estirada na rede, lugar de honra do quarto e da festa, me ocorreu que aquela estava sendo a melhor comemoração de aniversário da minha vida até então. Estava no primeiro semestre da faculdade de Psicologia da UFRGS, e a festa refletia a mudança de ambiente e companhias. Meus convidados não eram mais apenas os amigos de infância e os colegas de colégio mais próximos, mas uma pequena fauna variada e ainda não de todo familiar. Na universidade, muita gente que eu conheci já tinha um estilo de vida “adulto” (ou pelo menos assim me parecia). 

Moravam sozinhos, militavam em organizações políticas, tinham empregos de verdade e liam livros dos quais eu nunca tinha ouvido falar – o que me deixava ao mesmo tempo intimidada e curiosa. Não era ainda uma reunião “adulta” – considerando-se que nos aniversários de gente grande da minha família os convidados sentavam-se em cadeiras, comiam salgadinhos feitos em casa e definitivamente não consumiam substâncias proibidas –, mas já era bem diferente das festinhas de colégio de um ano antes.

Dois episódios me levaram de volta ao ano das Diretas Já, do filme Amadeus, da novela Vereda Tropical, dos últimos meses antes de eu começar a trabalhar: a publicação de um livro sobre o filme Verdes anos, lançado naquele emblemático 1984 (título, aliás, de um romance sobre um futuro distópico que já era velho quando eu nasci), e o aniversário de 18 anos da minha filha – ela também começando a faculdade e dando os primeiros passos no que se convencionou chamar de vida adulta.

Examinando os meus 18 e os dela em busca do que nos aproxima e nos afasta, como geração, me dei conta, entre outras coisas, de que aquela turma variada e cheia de opiniões sobre filmes e livros desconhecidos desempenhou um papel fundamental na minha vida. Cada um deles era uma janela aberta para algo que eu ainda não sabia sobre política, história, cinema, literatura. E, quanto mais diferentes e estranhos, mais eu aprendia sobre as pessoas, sobre o mundo e sobre mim mesma.

Para quem já nasceu conectado, a informação é uma commodity. Se alguém vier lhe contar sobre algo novo, o Google dará conta da novidade em segundos – do cinema tailandês aos ditadores da África Central. Em 1984, a informação era um metal raro e precioso que algumas pessoas, raras e preciosas, compartilhavam moderadamente.Era uma sorte tremenda topar com elas. Ainda é.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016



04 de agosto de 2016 | N° 18599
ARTIGOS - MÁRIO HENRIQUE OSANAI*

PÓDIO VAZIO E MEDALHAS SEM DONO

Sediando a Olimpíada, o Brasil assume, nestes dias, o protagonismo do cenário esportivo mundial. Fora isso, os fatos e eventos que pautam o noticiário nacional permanecem lamentáveis. A grande liderança segue com a corrupção, em cifras ainda incalculáveis, envolvendo e corroendo toda a estrutura do país. Na esteira, intimamente vinculados entre si e à deterioração causada por corruptos e corruptores, seguem a doença, a violência, a insegurança, a crise econômica e a desesperança.

O caos na saúde, já crônico e em franca expansão, supera, em dramaticidade e em número de vítimas, as barbáries de guerras e terrorismo.

Não é admissível que, sob uma aparente cegueira coletiva, se continue a negligenciar socorro a doentes, idosos, crianças e demais vulneráveis. São vidas preciosas, mergulhadas em abandono e indiferença. Para um contingente gigantesco, as consequências indesejadas são irreversíveis. De sofrimento, sequelas, perdas e morte.

Acenos e discursos inflamados são dispensáveis. Praticamente todos já se mostraram inócuos e vazios. É preciso agir, com brevidade e eficácia.

O exemplo da Operação Lava-Jato se aplica à saúde, que merece uma força-tarefa que elucide complexos e influentes esquemas que exaurem recursos necessários e limitados. Com agilidade e integração, mobilizando todas as instituições oficiais com poder e competência nesse segmento, esse movimento catalisaria resultados em benefício de toda a sociedade, minimizando vieses, apurando responsabilidades e apresentando soluções.

O conhecimento técnico e a gestão inteligente podem impulsionar avanços significativos, se aliados à vontade política e com fiscalização rigorosa.

Em tempos de esforços olímpicos, não resta dúvida de que a modalidade Saúde ainda precisa atingir seu melhor desempenho. Para isso, depende do incentivo de uma torcida coesa, das ações de uma equipe determinada e da liderança de técnicos corajosos e inovadores.

*Médico


04 de agosto de 2016 | N° 18599 
L.F. VERISSIMO

Idiotas

“Idiota” já foi um elogio. No seu sentido original grego, significava uma pessoa privada (não, não uma pessoa vaso sanitário, você sabe o que eu quero dizer). Alguém que tinha seus próprios valores e seus próprios caprichos (daí “idiossincrasia”), independentemente dos valores públicos e das convenções sociais. Com o tempo, passou-se a enfatizar o contraste entre o privado, o fechado em si, e o público, e “idiota” passou a ser o que não participava da vida comunitária, por alguma deficiência ou por escolha. Como não participava da vida comunitária, era ignorante. Vem daí o sentido de infenso à política e o sentido moderno de simples, burro ou desligado. 

Mas, durante muito tempo, na Grécia antiga, “idiota” era o que, não se interessando por política, desdenhava da política. O oposto de cidadão. Na primeira vez que se xingou alguém de “idiota”, foi para criticar sua omissão, pois, para os gregos, era na participação política que o homem exercia sua cidadania, assumia sua liberdade e se distinguia dos servos e dos bichos – e das mulheres, diga-se de passagem.

Corta para o Brasil de hoje – ou, pensando bem, para qualquer país do mundo atual. Idiota, lhe dirá qualquer eleitor desencantado, é quem se deixa levar pela política e pelos políticos. Houve um momento, na história recente da humanidade, em que “idiota” perdeu seu sentido de infenso à política e ganhou seu significado moderno de ludibriado pela política. Não dá para precisar quando isso aconteceu, no Brasil. 

O desencanto com políticos talvez tenha começado, ou pelo menos se agravado, com a renúncia de Jânio Quadros. As frustrações de hoje são apenas as mais recentes de uma sucessão de blefes que foram liquidando com nossas forças cívicas. Assim como a falta de calorias vai nos imbecilizando, a privação política vai nos idiotizando. Muita gente gostaria de resgatar o significado original da palavra para poder dizer que é idiota no bom sentido, no sentido de quem só se interessa pela administração do próprio umbigo.

“Blefe”, eis outra palavra de múltiplos sentidos. No pôquer, blefar significa dar a entender que se tem cartas na mão que realmente não se tem. Fora do pôquer, o “blefe” perde a sua, digamos assim, respeitabilidade. Geralmente é aplicado a pessoas que não são o que pareciam ser. A história política do Brasil tem sido a de um blefe depois de outro.


04 de agosto de 2016 | N° 18599
OLIMPIANGERS | Marcos Piangers

O Rio é do COI

Desembarcar no Rio de Janeiro é desembarcar no Brasil. O Brasil é essa nação cheia de sotaque, culturas diferentes, mil referências, mas para o gringo o Brasil é o Rio. Essa terra de samba, natureza, perigo. Uma cidade sem lei. Cada lei, aqui, não é uma lei, é uma sugestão. Não pode estacionar na calçada, mas, se precisar, manda ver. Não pode furar sinal, mas, se precisar, tá de boa. Não pode ambulante na praia, mas, se bater aquela fome, tá ok.

No Rio tudo pode: pode natureza, pode favela; pode praia, pode entulho; pode loja oficial dos produtos olímpicos, e pode camelô a cem metros dali. Que outro lugar do Brasil, talvez da América do Sul, para fazer uma Olimpíada?

Tem de ser no Rio. Com problemas estruturais, ecológicos, de mobilidade. Mas tem de ser no Rio. A representação do Brasil, para o bem e para o mal. Não dá para ser em outro lugar. Não existe outra cidade mais interessante. Para alguns, uma piada pronta. Para outros, a terra do Cristo, da bossa nova, do futebol. Desembarcar no Rio de Janeiro é meio que desembarcar no Brasil.

Ao chegar ao aeroporto Santos Dumont – aquele em que é possível ver na aterrissagem a beleza de Botafogo, Flamengo, e o bondinho do Pão de Açúcar para quem estiver do lado direito, na janela e longe a asa –, você tem três opções de transporte: um VLT (veículo leve sobre trilhos) que anda só 18 quilômetros até a rodoviária; táxis especiais amarelos, que cobram um pouco mais; ou o Uber, aplicativo de motoristas particulares, que acabou de inaugurar um quiosque no shopping Bossa Nova, anexo ao aeroporto.

No quiosque o cliente encontra wi-fi gratuito, água e bala oferecidos sem custo, espaço para sentar e esperar o carro, além de atendentes que podem tirar qualquer dúvida. Além disso, vários carros da empresa ficam parados ao lado do quiosque, agilizando a chamada. Acostumado a ser abordado com aquele ímpeto assustador toda vez que chegava ao Rio, a novidade é um alento.

No primeiro dia, eu precisava validar minha credencial. Me falaram de uma linha de metrô que levava até a Vila Olímpica, mas não permitiram minha entrada sem credencial validada. Me falaram de um shuttle especial para imprensa, mas ninguém soube me informar como funcionava. Para chegar até o ponto de validação da credencial, optei por um táxi. Cerca de uma hora e meia de viagem ao custo de R$ 90.

Mesmo que tivesse pegado a linha de metrô exclusiva, teria de fazer baldeação para um ônibus BRT e andar cerca de 500 metros até a Vila. Não há forma simples de se locomover pelo Rio durante os Jogos, a não ser que você esteja em um carro credenciado. Estes podem andar em faixa exclusiva, pintada de verde, que facilita o trânsito de atletas e comitivas. Ainda assim, a faixa aparece e some em vários pontos da cidade, deixando todos confusos.

Um colega jornalista que teve a oportunidade de usar carros credenciados conversou com o motorista, que deixou escapar: “um carro deste credenciado pode tudo. A gente não toma multa nenhuma, nem por estacionamento e nem por excesso de velocidade”. Quem manda no Rio nos próximos 20 dias é o COI.


04 de agosto de 2016 | N° 18599 
DAVID COIMBRA

Rio de Janeiro. Olimpíada 2016. Dia 1


A Mídia diz que é preciso chegar ao aeroporto duas horas antes de qualquer voo, mesmo que seja nacional, por causa das novas normas de segurança.

Segui o conselho da Mídia. Pulei da cama quando os passarinhos, as pessoas, os cachorros e os elefantes ainda dormiam, e toquei para o Salgado Filho.

Não era preciso. Meu embarque para o Rio foi tranquilo, e fiquei duas horas esperando. A Dilma tem razão. Não dá para confiar na Mídia.

Sorte que tinha boa companhia. Fiquei conversando com o Paulão, um dos luzidios integrantes da equipe da RBS nesta Olimpíada.

Paulão, você sabe, conquistou a medalha de ouro de vôlei com a grande seleção de 1992, em Barcelona. Ele ficou me contando histórias daquele título.

Paulão mede dois metros e um. A gente tem que conversar com ele com o queixo apontado para o céu. Perigo de torcicolo. Mas ele disse que os adversários do Brasil na final, os holandeses, eram mais altos ainda.

– Um dia, entrei no elevador com eles e me apavorei. Os caras eram enormes. Para não parecer intimidado, virei de costas e assim fiquei, até abrir a porta.

Outra: quando ele ia para Barcelona, no embarque de Porto Alegre para São Paulo, uma surpresa nada boa: o voo estava lotado. Overbooking. Paulão se desesperou. Se perdesse o voo, chegaria atrasado e a seleção viajaria sem ele.

– Eu preciso estar neste voo – ele gemia. – Preciso!

Então, um passageiro ergueu o braço:

– Eu troco de voo com ele. Pego o próximo.

Paulão foi. E voltou com a medalha de ouro.

Relembrando a história, lamentou não ter anotado o nome do bom samaritano que o ajudou naquele dia. Bem. Se você conhece o homem, ou se for o dito cujo, mande um e-mail para mim, que o coloco em contato com o Paulão. Depois de 24 anos, ele quer agradecer.

Assim como no Salgado Filho, tudo funcionou bem no Galeão. Os voluntários foram bastante prestativos e simpáticos. Mostrei no celular o voucher do hotel para onde queria ir e um deles exclamou em chiado carioquês:

– Maish eshte hotel é em Cabo Friiiu!

Cabo Frio? Olhei o voucher e, com mil biscoitos Globo!, era mesmo em Cabo Frio!

Deve ter havia algum engano, pensei. E houve mesmo, do rapaz da agência de turismo, que escreveu o endereço errado. Meu hotel é no Rio. Resolvido o pequeno impasse, tomei um shuttle, e o motorista rodou pela via exclusiva da chamada “família olímpica” na velocidade habitual dos motoristas de ônibus do Rio: 300 quilômetros por hora.

Como estava sentado bem na frente, a viagem foi com mais emoção. O motorista fazia as curvas reclamando: 

– Olha só esses carash vendendo coisash no meio da rua! Vou acabar passando por cima de um! Isso é o Rio, meu amigo! Isso é o Rio!

Nas pistas ao lado, apenas carros parados num engarrafamento de quilômetros de extensão.

– Isso aqui fica trancado o dia todo, meu amigo! – dizia motorista. – Isso é o Rio! Isso é o Rio!

Mas chegamos a salvo e estamos bem. Aquilo era o Rio e também o mar, o morro, as pernas de louça da moça que passa, o chope dourado, a alegria. Amanhã começa a função. E aposto que vai ser lindo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016


03 de agosto de 2016 | N° 18598 
MARTHA MEDEIROS

A arte do encontro


Exatamente uma semana atrás, assisti à estreia do programa de entrevistas A arte do encontro, do Canal Brasil (quartas, 21h30min), apresentado por um Tony Ramos também estreante na função. O primeiro convidado foi Antonio Fagundes, seu colega de dramaturgia. Antes mesmo que eles começassem a conversa, um de frente para o outro, apenas com uma estreita mesa separando-os, eu já estava cativada: eram dois homens que ali estavam. Não dois rapazotes, não dois deslumbrados. Eram dois homens vividos, seguros, confortáveis dentro do próprio corpo, dois amantes da poesia, da literatura, da arte, da vida. Dois homens calmos, dois homens sem afetação, dois homens sem necessidade de fazer marketing pessoal, sem disputarem nada entre si.

O povo anda com o parafuso solto, como se sabe. Ou se debocha de tudo, presunçosamente, ou parte-se para a agressão. Muita gente disposta a ferir, ofender, humilhar. Os papos, quase sempre, são rasos. A polarização política continua: se você não grita “Fora, Temer”, seus amigos de esquerda te chamam de golpista, e, se não grita “Fora, Dilma”, seus amigos de direita te chamam de comunista. E estamos resumidos. Então surgem dois homens tranquilos na tevê, numa noite no meio da semana, na hora do jantar, declamando poemas de Fernando Pessoa e fazendo uma leitura de Hamlet, assim, por nada, só pelo prazer de invocar palavras que emocionam.

Os dias correm ligeiros. Dezenas de mensagens entram pelo WhatsApp e nos sentimos isolados quando o aplicativo é bloqueado pela Justiça, sem lembrar que podemos telefonar como fazíamos dois anos atrás. Tudo passa rápido, há quem já me pergunte para onde irei no réveillon e ainda nem digeri o almoço. Quase nada permanece, o tempo voa, e então, finalmente, relaxo diante de dois homens sem pressa, que me ajudam a perceber como são sólidas as palavras ditas sem afobação.

Dois homens provocaram esse efeito em mim. Não foram duas mulheres empoderadas, foram dois homens. Num tempo em que os homens parecem ter se transformado em inimigos da sociedade, admito que me senti acolhida por aquelas vozes maduras, por uma virilidade nem um pouco ameaçadora, por um entrevistador que escuta e permite que o entrevistado fale, como deveria acontecer em nossas conversas privadas, duas pessoas que se olham sem aguardarem ansiosas a hora de dar o bote. Eram dois homens adultos que, sei lá por que – talvez porque estejamos na véspera de assistir a uma perseguição por vitórias – me fizeram lembrar que respeitar e admirar o outro não nos diminui em nada.

Não competir também é muito bom.


03 de agosto de 2016 | N° 18598
EDITORIAIS

A POLÍTICA DA AMEAÇA


A população gaúcha apoia as reivindicações e se solidariza com os servidores do Executivo, que vêm recebendo seus salários de forma parcelada, submetendo-se a constrangimentos e sacrifícios a cada mês. Até por isso, soam descabidas as ameaças que vêm sendo feitas por associações e sindicatos de servidores, especialmente aqueles que projetam o caos na segurança e disseminam o medo como se isso pudesse fazer surgir dinheiro do nada.

Assim como o funcionalismo estadual, que reclama dos valores percebidos, do pagamento parcelado e das condições muitas vezes precárias de trabalho, também a sociedade de maneira geral vem arcando com uma deterioração acelerada da qualidade dos serviços públicos. A questão torna-se ainda mais preocupante diante do fato de que, a partir deste ano, os contribuintes assumiram até mesmo uma parcela maior de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), sem que esse ônus tenha acenado, até agora, com qualquer perspectiva de melhora no cotidiano.

Por mais que corporações de servidores tenham o direito de se manifestar contra o que vêm enfrentando em consequência da crise nas finanças estaduais, não é justo impor ainda mais sacrifícios à população. E é isso o que já vem ocorrendo a partir de ameaças como a de “trabalho parcelado” e estratégias específicas da paralisação prevista para amanhã.

A sociedade gaúcha já paga um preço elevado demais pela inefi- ciência a que o setor público gaúcho foi levado nos últimos anos. Não tem por que ser colocada diante do risco da não prestação de serviços já bastante precários – o que, no caso das polícias Civil e Militar, só contribui para ampliar ainda mais a sensação de insegurança e a desfaçatez dos criminosos.

03 de agosto de 2016 | N° 18598 
DAVID COIMBRA

Lula poderia ter sido bom

Tenho cá nas minhas estantes seis volumes encadernados em couro da História do povo brasileiro, de Afonso Arinos e Jânio Quadros. É um livro curioso, porque os autores, como você sabe, foram personagens de um atribulado capítulo da história que escreveram: Jânio foi presidente da República, e Afonso Arinos, seu ministro das Relações Exteriores.

Eles escrevem sobre si próprios na terceira pessoa, como Edson falando de Pelé. A respeito de um dia crítico na vida de Jânio e do Brasil, o dia da sua renúncia, o livro conta o seguinte:

“Na manhã de 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros madrugava no palácio, em Brasília. Unânimes são os depoimentos dos seus auxiliares diretos quanto à serenidade de que se achava penetrado”.

É notável, porque dá ao leitor a impressão de que Jânio entrevistou seus assessores diretos acerca de si mesmo. – Como eu parecia estar me sentindo no dia em que renunciei? – Ah, estava todo penetrado de serenidade.

Quanto à renúncia propriamente dita, Jânio Quadros definiu-a como “expressão de uma coerência de tipo heroico, no sentido carlyliano”. E mais: “Jânio Quadros”, escreveu Jânio Quadros, “acreditou que os destinos nacionais, num dado momento, dependiam de sua coragem de sacrificar sua carreira pessoal”.

Que personagem da história do Brasil!

O ato de renúncia de Jânio, como fica claro no livro, foi personalíssimo. Foi produto exclusivo da sua vontade. O que é fascinante, por demonstrar como a História com agá maiúsculo depende das pessoas. Alguém toma uma única decisão e muda o destino de milhões.

Se Jânio não tivesse renunciado, como se desenvolveria a história moderna do Brasil? Haveria golpe militar? Não havendo golpe militar, haveria subprodutos do golpe, como José Dirceu? Não havendo José Dirceu, haveria Lula?

Se. Conjunção subordinativa condicional. Há quem diga que o “se” não pode ser considerado, na História. Mas pode, sim. Você aprende, ao refletir sobre o “se”.

“Se” Lula tivesse governado apenas por um mandato, seria um bom presidente para o Brasil. Até 2006 ele ainda não havia caído na tentação do populismo financeiro e, se não pudesse se reeleger, nem tentaria costurar a rede de dinheiro e influência que usou para tentar se perpetuar no poder.

Cinco anos seria um bom tempo de mandato. Cinco anos e nada mais, em nenhum cargo, em nenhuma eleição.

Poderia ser assim, se – e aí surge, de novo, o “se” – não fosse Fernando Henrique quem é. Ou quem foi.

Açulado pela volúpia do poder, Fernando Henrique vendeu a própria alma e comprou outras tantas para aprovar a reeleição. Conseguiu. Não previu que, em oito anos, um partido organizado estabelece conexões poderosas o suficiente para se manter no poder indefinidamente. O PT estava a caminho de se tornar o que foi o PRI, partido que dominou o México por mais de 70 anos. Não fosse o impeachment de Dilma, o PT permaneceria no poder por 16 anos – a ditadura Vargas, imagine, durou 15.

A reeleição não deu certo no Brasil. Com a inelegibilidade do presidente, teremos gestores menos demagogos e mais empreendedores no futuro. Bem: “se” aprendermos a lição.


03 de agosto de 2016 | N° 18598 
PEDRO GONZAGA

INVERNO PORTENHO

Enquanto escrevo, chove em Buenos Aires. Em breve, será hora de voltar ao Brasil. Anos atrás, fiz as pazes com Porto Alegre ao me dar conta de que era, entre nossas capitais, a mais próxima daqui.

Quando novo quis morar em Buenos Aires, uma daquelas coisas ansiadas à maneira juvenil, de forma mais fantasiosa do que prática, porque quem quer mesmo ousa e vem, como vieram o meu ex-aluno e sua namorada, ele para estudar Medicina, ela Psicologia, ainda que o plano dos dois, confrontado com a realidade, tenha precisado de ajustes. 

Se eu tivesse que eleger uma característica humana a ser salva para uma espécie principiante, seria, por certo, essa capacidade de nos reajustarmos ao mundo. Notem o quão desumanos se tornam aqueles que não o fazem, com seus planos a despeito dos fatos, os ditadores das vidas públicas e privadas.

Mas como eu dizia, nunca vim em definitivo, mas aqui estive e estou, revendo os lugares amados, os pontos de referência de quem sou, como diria Álvaro de Campos: as livrarias Eterna Cadencia e El Ateneo; as ruas secundárias de Palermo, com seu casario baixo e seus plátanos; as ricas ruas da Recoleta e seu desmesurado cemitério; a loja de sabonetes Sabater, na Gurruchaga; uma parrilla rústica em San Telmo; um show de jazz na Notorious, que fica na Callao e que sempre me traz à mente Balada para un loco, do Piazzolla, com a letra de Horacio Ferrer entoada por Amelita Baltar, no ves que va la luna rodando por Callao. 

E quando enfim chega o momento do retorno, quando se acabaram todas as pratas, carcomidas pela última crise econômica, levo comigo esta alegria que sobreviverá aos dias rotineiros, motor imaterial das próximas viagens, pois são nessas ocasiões que percebemos o renovar de nossos sentimentos, porque voltar a um lugar conhecido é como voltar a um grande livro, uma chance de ver como mudamos e como se expandiu o campo da beleza do que antes julgávamos conhecer.

E se isso acontece junto a amigos brasileiros e buenairenses, se isso acontece ao lado do amor que trago comigo, e se posso contar com a compreensão (melhor, compaixão) de quem me lê, termino bem essa crônica, enquanto chove em Buenos Aires.

terça-feira, 2 de agosto de 2016


02 de agosto de 2016 | N° 18597
POLÍTICA + | Rosane de Oliveira

NÃO ADIANTA ESPANCAR OS NÚMEROS: A CRISE É REAL

Seis meses consecutivos de atraso nos salários não foram suficientes para os servidores se convencerem de que a fonte secou. Uns se agarram a equações mirabolantes para não perder a esperança, outros negam a crise por desconhecimento da realidade e um terceiro grupo trata o problema de caixa como simples disputa política. Esquecem que o problema do Rio Grande do Sul é gastar mais do que arrecada há mais de três décadas e ter esgotado todas as fontes de financiamento do déficit.

Pode-se criticar o governador José Ivo Sartori pela lerdeza em adotar medidas que ajudem o Estado a sair da crise ou por deixar que a conta recaia exclusivamente sobre os servidores do Executivo, enquanto nos outros poderes o funcionalismo recebe em dia e ainda consegue reajuste. Daí a achar que atrasa salários por sadismo vai uma diferença monumental. Qual governante pode sentir prazer em ser fritado em praça pública por não pagar servidores em dia?

Na sexta-feira passada, o governo depositou apenas R$ 980 por matrícula. Desembolsou R$ 320 milhões. Ontem, os servidores da administração direta esperavam receber mais alguma migalha, mas não foram feitos novos depósitos. O pouco que havia em caixa foi reservado para pagar, hoje, a folha das fundações. São R$ 35 milhões para 5,2 mil servidores, que terão o salário integral creditado na conta.

Por que o governo não parcela os servidores das fundações, das autarquias e das estatais? Porque são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho e o atraso implicaria sanções que não estão previstas na legislação que regula a administração direta. Ontem, foram repassados mais R$ 8 milhões para quitar os salários dos empregados da Procergs.

Como o Estado não vive apenas para os servidores, há outros gastos que não podem ser pedalados indefinidamente. Repasses para a saúde, por exemplo. A Justiça bloqueia cerca de R$ 7 milhões por dia para pagamento de medicamentos e requisições de pequeno valor (RPVs). Com o pagamento de juros pela utilização dos depósitos judiciais – que o governo saca até o limite de 95% do saldo – são gastos R$ 5 milhões por dia. Até sexta-feira, serão gastos mais R$ 5 milhões com RPVs, R$ 4,5 milhões com FGTS e férias de celetistas e R$ 2 milhões com o vale-refeição das fundações.

ELEIÇÃO RACHA O PP
Que o PP estava dividido em relação a quem apoiar em Porto Alegre na eleição de outubro, ninguém duvidava. Na reunião do diretório, ontem à noite, essa divisão ficou expressa em números: 53 votaram pela aliança com Sebastião Melo (PMDB) e 53 pela coligação com Nelson Marchezan (PSDB). Embora todos estejam no governo, Melo é o candidato do prefeito José Fortunati. Marchezan vai fazer oposição à atual administração da Capital na campanha.

Como não havia sido definida uma regra para desempate, instalou-se a confusão. Por consenso, o diretório municipal definiu que haverá uma nova votação, amanhã, na convenção.

Embora o quórum seja o mesmo (101 votantes e 106 votos), o presidente do PP em Porto Alegre, Kevin Krieger, está convencido de que a próxima disputa não terá placar igual, mas, se houver novo empate, não há, até agora, um critério de decisão.

Se optar pela coligação com Marchezan, o partido escolherá, logo depois, o candidato a vice.

Se resolver por uma aliança com Melo, o PP ficará ao lado de outros 15 partidos que já fecharam com o PMDB e, dificilmente, terá oportunidade de indicar o vice. A tendência é o PDT escolher hoje, em reunião do diretório, o companheiro de chapa de Melo.

IMPASSE NO DETRAN
Fracassou a tentativa do governo de apaziguar os ânimos do Detran atendendo à reivindicação de melhores instalações para a aplicação dos exames teóricos a candidatos a motoristas.

O secretário Raffaele Di Cameli pretendia inaugurar ontem um espaço no térreo do Centro Administrativo, mas os servidores em greve não permitiram. As provas são aplicadas por contratados em caráter emergencial.

Di Cameli reafirma que o Detran não tem como conceder o reajuste salarial pretendido e avisa que será mantido o corte do ponto de quem está em greve.

PDT SE DIVIDE NA DISCUSSÃO SOBRE VICE
Não seria o PDT se as questões mais espinhosas se resolvessem sem briga.

Embora o candidato do PMDB a prefeito, Sebastião Melo, tenha congelado a discussão sobre a escolha do vice até a definição do PP e não esconda sua preferência por Vieira da Cunha, o PDT reuniu as zonais para discutir o assunto.

O presidente do partido, Pompeo de Mattos, foi vaiado ao defender a tese da bancada estadual, que indicou a deputada Juliana Brizola.

Presidentes das 10 zonais assinaram documento indicando o vereador Mauro Zacher.

No meio da discussão, Juliana foi acusada de não cumprir o estatuto do partido, ao se recusar a pagar o dízimo exigido dos detentores de mandato e dos funcionários que ocupam cargos em comissão em seus gabinetes.


02 de agosto de 2016 | N° 18597 
CARPINEJAR

Ciúme é bom

Ciúme nasceu para ser dito antes dos fatos, feito para despertar cautela e cuidado. Ciúme que não é preventivo já é infidelidade.

Quando alguém reclama de que o outro sente ciúme sem motivo, tem toda a razão: o ciúme é absolutamente sem motivo. Sua natureza é despretensiosa, aleatória, intuitiva.

Ciúme vem da tradição da fofoca, da escola da boataria.

Não entendo quem não fala nada quando está desconfiado: reprime o ímpeto educadamente, despreza sinais e gestos, pois não pretende cometer injustiça. Ora bolas, o ciúme é exatamente uma injustiça prévia para que a relação não termine na justiça do fórum.

Eu não tento aparentar ser melhor do que realmente sou. Declaro o ciúme de cara. Eu pergunto “onde vai” e “quem é” assim que surge a dúvida. Não fico plantando maduro para colher podre. Não prego cenas e birras, muxoxos e indiretas. Não pretendo iniciar investigação, mexer em celular e laptop e colher provas silenciosamente para incriminar de vez.

Exerço a confiança no sentido de me apresentar claro e direto, pontual e determinado. O risco do ciúme é deslizar para o ressentimento e o da insegurança é se agravar em paranoia.

Ciúme existe para garantir a inocência do outro, enquanto ainda é possível, jamais uma armadilha para confirmar a culpa.

Ciúme é alerta, advertência, assobio, chamado para dentro da intimidade.

Se a pessoa predileta por acaso pensava bobagem, lá vem a gente no encalço dissipar a fantasia e lembrar a importância da relação. Um pouco de culpa aperfeiçoa a saudade.

Ciúme tem o papel estratégico de atropelar fatos, distorcer, apressar, é um sentimento exagerado com medo de virar acontecimento.

Ciúme é para ser gritado, alardeado, festejado. Ele combate a indiferença, a maior causa de morte dos romances.

Deve ser dito sem nenhuma evidência. Não confunda ciúme com profecia. Prefiro errar a ser corno, prefiro me enganar a perceber que tinha mesmo razão.

Ciúme é para evitar o pior, não é para se conformar com o pior. Não adianta guardar o ciúme para depois. Depois é tarde demais.

Seja ciumento na hora certa, e com doçura e gentileza, para mostrar que se importa com quem ama. O problema do ciúme é e sempre foi a grosseria.


02 de agosto de 2016 | N° 18597
REDE SOCIAL | Júlia Alves

AGITO DE QUINTA

Para Fagner Damasceno e Fran Piovesan, a quinta-feira é um divisor de águas no calendário: é a noite que separa a rotina da promessa de um final de semana animado. Nesse espírito, a dupla recebeu uma turma de amigos no 300 Cosmo Dining Room na semana que passou. Os drinques preparados pelo mixólogo João Garcia fizeram sucesso, e a ideia é dar continuidade ao projeto.

ALOHA NO POTINHO
A comida havaiana tem como principal característica a forma como os ingredientes são apresentados. Cubos de peixe são agrupados em uma base de arroz ou salada – que pode ser complementada com molhos de ostra ou shoyu, por exemplo, e outros adicionais – para serem servidos em um bowl, o popular potinho. Depois de rodar o mundo, os amigos Sérgio Alvarengo, Lauro Cardon e Rafael Otto voltaram para casa com fome de empreender e criaram o Poke’s, o primeiro fast food havaiano do Brasil. Com capital de R$ 400 mil, no terceiro mês de operação o trio começou a ter retorno financeiro:

– Vimos que o poke havaiano virou uma forte tendência na Califórnia, em Sidney, Nova York e Londres e resolvemos apostar na ideia aqui também – conta Cardon.

Localizados no edifício Trend City Center, na Av. Ipiranga perto da Borges de Medeiros, os guris pensam grande: planejam expandir as operações com novas lojas em Porto Alegre já em 2017.

SOLTA O SOM
O DJ Lucas Borchardt, residente da Bagatelle Brasil que vive batendo ponto em baladas da Capital, acaba de lançar sua primeira música autoral. Batizado de Oscar, o som foi criado para a concorrida Festa Óscar, do goiano Oscar Martins.

PRAIA NO INVERNO
Sexta-feira tem início o festival Agosto Del Vino, evento que movimenta a Praia do Rosa com workshops, almoços e jantares atraindo renomados chefs e sommeliers. Destaque para a participação do enólogo francês François Hautekeur da LVMH – o maior grupo de luxo do mundo. Com sorte, é possível observar a visita das baleias francas que escolhem procriar por aqueles mares neste período.

NA PALMA DA MÃO
Criado por Giovanni Nervo, Leandro Nunes e Luisa Severo com investimento de R$ 500 mil, o aplicativo Benefit Now foi lançado no Hotel Ibis Styles, na Capital. Com descontos em 40 estabelecimentos de beleza em Porto Alegre, a novidade agenda serviços por meio de geolocalização dos smartphones:

– Cada profissional tem em média quatro cancelamentos por dia. Vamos transformar esse tempo ocioso em descontos para os nossos usuários – explica Luisa.

#drops
FRANCA SOZZANI é a nova figura da Vogue a virar filme. Com direção de Francesco Carrozzini, filho da italiana, Franca Chaos and creation estreia no 73º Festival de Cinema de Veneza e retrata o lado íntimo da editora-chefe.

A top Lea T é a primeira transexual a ter um papel na abertura de uma Olimpíada.

Dia 25 será realizado na Casa Fasano, em São Paulo, o Gala Pequeno Príncipe. Promessa de alta gastronomia e solidariedade.

Com saudade da Rita Lee? Siga ela no Instagram pelo @litaree_real e acompanhe pinturas coloridas de Fernanda Montenegro e John Lennon assinadas pela cantora.

02 de agosto de 2016 | N° 18597 
DAVID COIMBRA

O destino dos leões

Estávamos assim: a leoa má, a leoa que havia perdido um olho na luta contra a nossa família de leões, arrastava-se pela savana em direção aos filhotinhos da leoa boa, que havia saído para a caçada. Os dois pequenos quedavam-se indefesos, nem sequer mexiam as caudas, apenas observavam, paralisados, enquanto a morte se aproximava.

Do outro lado, já perto da manada de búfalos, a leoa-mãe de repente parou de avançar e esticou o pescoço. Farejou o ar. Olhou para trás, desconfiada. Mas não viu nada. Seguiu em frente.

A leoa má ganhou mais alguns metros. Os filhotes, de tão aterrorizados, não conseguiam nem miar. A leoa-mãe, como que alertada pelo instinto maternal, parou de novo e de novo olhou para trás. Mas de novo não havia nada para ver, e ela voltou a se concentrar na caçada.

– Aaaaaah! – gritei, encolhendo-me no sofá.

A leoa má encontrava-se agora a poucos passos, bastava um sprint de Usain Bolt e tudo estaria acabado. Era o fim. O fim!

Só que aí, feito a Sétima Cavalaria, surgiu a leoa boa, correndo e rosnando, levantando poeira do chão, pulando sobre a agressora e a submetendo. Aplaudi. Justiça, enfim. Justiça!

As coisas começaram a melhorar para a família. O filme da National Geographic, que, se você não sabe, eu assistia a tudo isso em um filme da National Geographic, pois o filme mostrou a leoa divertindo-se com seus filhotes, brincando, lambendo-os, cuidando deles, como deve cuidar uma boa mãe. Para arrematar, ela conseguiu caçar um búfalo, valendo-se da tática surpreendente de atacá-lo dentro do seu meio: a água.

Eu agora sorria diante da TV. Havia simpatizado com aquele leãozinho e o imaginei grande e forte, tanto quanto o pai, que morreu defendendo-o. Imaginei sua irmã garbosa, como a princesa que de fato era. E a mãe, já entrada em anos, orgulhosa de sua linhagem. Imaginei-os, os três, andando pela África e exercendo seu reinado, que leões devem sempre ser reis.

Fiquei tão tranquilo, que decidi ir à cozinha a fim de fritar um aipinzinho na manteiga e misturá-lo com a carne do churrasco do meio-dia, bem picadinha, porque, afinal, não são só os leões que sentem fome. Ao me erguer do sofá, vi que malditas hienas atacaram a mãe leoa para lhe roubar a carcaça do búfalo. Aquilo me causou certa apreensão, mas não muita, porque a leoa já havia se alimentado, o que significava que poderia produzir leite para dar aos filhotes. Ela abandonou a carcaça ao bando de hienas gargalhantes e se foi para encontrar seus dois gatinhos.

Também me fui para a cozinha.

Comecei a fritar o aipim, com o ouvido atento à TV. Já tinha preparado a carne e a despejara na panela, quando ouvi um som preocupante vindo da sala. Vindo da África, na verdade: era, inequivocamente, o ruído horrendo do estouro da manada de búfalos.

– Cristo! – gritei, sem largar a colher de pau. – Cristo!

Algo de muito ruim estava acontecendo. Desliguei o fogo e corri para a sala. A cena era a pior possível: o leãozinho de quem tanto gostava estava morto e a filhota a mãe encontrou arrastando as patas traseiras: o ataque dos búfalos quebrara-lhe a coluna. Paralisado, de pé, em frente à TV, o pano de prato na mão, vi a mãe tentando mover a filha, carregando-a pela boca e finalmente desistindo.

A leoazinha miava, impotente e cheia de dor. A mãe afastou-se alguns passos e sentou-se sobre as patas traseiras. Fechou os olhos e assim os manteve por algum tempo. A filha miou de novo. A mãe não olhou para trás. Ergueu-se. E caminhou, devagar e penosamente, para longe, sabendo que não havia mais como salvar sua leoazinha.

Eu, vendo aquilo, gemi. Pensei que o mundo, realmente, realmente, mas realmente é injusto. E voltei para a cozinha de cabeça baixa, murmurando comigo mesmo:

– Agora entendo as redes sociais.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016


01 de agosto de 2016 | N° 18596
ARTIGOS - CLÁUDIO BRITO*

SEPARATISMO, NÃO!

Mais uma vez, infelizmente, há quem queira separar do Brasil os Estados do Sul. Viceja um movimento nascido em Santa Catarina, com alguma difusão entre gaúchos e paranaenses. Pretendem fazer uma consulta pública em 2 de outubro, aproveitando as eleições municipais. Segundo anunciam, seria um “plebiscito informal”, para buscar apoio e instigar as pessoas à adoção das ideias vencidas desde 1845, quando em ímpia e injusta guerra houve quem quisesse virar as costas ao nosso país.

O Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina já assumiu posição contrária à realização da enquete, a partir de manifestação de seu presidente, o desembargador Cesar Augusto Ruiz Abreu. Submetida ao plenário, sua palavra foi acolhida por unanimidade, o que soa como proibição ao ato separatista em solo catarinense em dia de coleta de votos para prefeitos e vereadores. A questão ainda não teve exame pelos tribunais do Rio Grande e do Paraná. Espero que isso aconteça e seja idêntica a decisão.

O separatismo é claramente inconstitucional. Basta lermos o primeiro artigo de nossa Constituição: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos...”.

Desnecessário buscar o dicionário para saber que indissolúvel é aquilo que não se dissolve, não se desmancha nem se divide. Para fazer isso com nossa República, nem mesmo por emenda constitucional será possível. A matéria é cláusula pétrea. Sólida, imutável. Em paz, sob o manto da democracia e da legalidade, não se admite cogitar a separação. Chamar de plebiscito uma consulta popular com esse propósito também fere nossa Constituição, que prevê convocação pelos poderes Executivo ou Legislativo.

Nem chego a buscar respaldo na Lei de Segurança Nacional, que define como crime a incitação à separação. Sem dúvida que a enquete seria ato de instigação e propagação de uma campanha que afronta a ordem legal vigente. E ainda fica muito claro o crime eleitoral, pois, no dia do pleito, próximo do local de votação, haveria a abordagem aos eleitores, com transgressão às normas legais que vedam aglomeração de pessoas e punem a dita “boca de urna”, mesmo que seja outra a matéria tratada. Sou gauchesco e brasileiro, como ensinam os Fagundes e todos os alegretenses.

*Jornalista

01 de agosto de 2016 | N° 18596 
DAVID COIMBRA

Uma família de leões



Vi um filme sobre uma família de leões no canal da National Geographic. A National Geographic é das grandes obras da humanidade em todos os tempos, devia ser tombada pela ONU, ganhar o Prêmio Nobel, receber o título de sir da rainha.

Essa família de leões era peculiar, porque os leões, em geral, reinam pelas savanas da África em grandes bandos, alguns machos e muitas fêmeas. Esses, não. Esses eram apenas o leão, a leoa e três filhotinhos, mais parecidos com uma família humana, desde que não seja a do Mr. Catra.

Viviam tranquilas, as nossas feras amigas, os pais tão somente preocupados com a criação dos seus leõezinhos, até que, uma noite, ouviram um inquietante som vindo do Norte: rugidos de outros leões. Era uma alcateia que descia para o Sul, fugindo dos perigosos humanos que haviam se instalado em seu território.

Os rugidos se repetiram por várias noites, até que os forasteiros chegaram. Eram quatro leões e pelo menos 20 leoas. O pai da pequena família eriçou sua enorme juba negra e rosnou, pronto para defendê-la. Lutou com bravura, e a leoa serviu-lhe de escudeira, mas eram muitos os inimigos, não havia como vencer. Na confusão do combate, cada um foi para um lado, ambos bastante machucados. A leoa levou dias para se recuperar. Quando se sentiu melhor, achou os filhos e foi procurar o pai. Encontrou-o agonizante. Em pouco tempo, ele morreu.

Agora, a leoa teria de lidar sozinha com os invasores. Para fugir deles, viu-se obrigada a tomar uma decisão difícil: atravessar a nado um rio infestado de crocodilos, a fim de alcançar uma pequena ilha. Leões temem a água, mas ela foi. Tinha de ir. Precisava salvar seus pequenos. Na travessia, porém, um dos filhotes hesitou e foi arrastado para o fundo negro do rio por um crocodilo. A leoa ganiu de dor.

Restaram um leãozinho macho e uma fêmea. A essa altura, eu já estava angustiado. Será que a leoa conseguiria criar seus filhotes em segurança, enfim? Era só o que ela queria, puxa. Onde estava a justiça da natureza?

O filme mostrou, então, lindas cenas da leoa com os filhotes, eles brincando, mamando, ela acariciando-os amavelmente com as grandes patas. O leãozinho era menor do que a irmã, mas parecia mais amoroso e arteiro. Via-se que era um bichinho feliz. A leoazinha dava a impressão de ser mais responsável e mais faminta: estava sempre reivindicando as tetas da mãe.

Era esse o problema: leite. A mãe havia de ter leite, a fim de alimentá-los. Portanto, havia de sair à caça.

Eis que chegou à ilha uma manada de búfalos. Era uma boa e uma má notícia: os búfalos podiam fornecer alimento, mas também eram terrivelmente agressivos, com seus chifres curvos e pontiagudos. As cenas seguintes foram da aflita mãe leoa tentando caçar búfalos e se defendendo do contra-ataque deles. Ela tentou uma, duas, três vezes, e não conseguiu.

Oh, meu Deus, será que os filhotes vão morrer de fome?, apoquentava-me, do fundo do sofá.

Para complicar a situação, os ruídos das caçadas atraíram a atenção das leoas do outro lado da margem. Uma delas, a líder do bando, havia perdido um olho na luta com a família. E aí, como que esfaimada de vingança, ela convocou as outras para enfrentar os crocodilos e cruzar o rio.

A família estava de novo em perigo. Quando as leoas malvadas chegaram à ilha, a leoa-mãe estava se esgueirando para surpreender um búfalo. A leoa caolha percebeu que os dois filhotinhos ficaram desprotegidos e começou a caminhar em direção a eles, decidida a devorá-los.

“Não!”, gritei, em frente à TV. “Nããããão!”.

Mas a leoa caolha estava cada vez mais perto, cada vez mais perto...

Não era possível que ela iria comer os filhotinhos, não era possível que o mundo fosse tão cruel!

O que aconteceu? Saiba amanhã.

01 de agosto de 2016 | N° 18596 
CÍNTIA MOSCOVICH

DEBAIXO DA TERRA


Em Israel, cada pedra carrega uma história e detém narrativas que mesclam valores históricos, simbólicos e místicos. É justamente em torno disso, do real que se funde ao transcendente, que gira Céu subterrâneo, livro do médico e escritor Paulo Rosenbaum recém-lançado pela editora Perspectiva.

Protagonizado por Adam Mondale, um autor em crise que ganha uma bolsa para viajar a Israel e escrever um romance, a trama se escora nos mistérios que envolvem a gruta de Makhpelá, o Túmulo dos Patriarcas da tradição judaica – daí o “céu subterrâneo” do título –, local que Abraão teria comprado para sepultar Sara e onde estariam enterrados o próprio Abraão, Isaac, Rebeca, Jacó e Lia.

De posse de um velho negativo de máquina polaroide, com o aluguel de um apartamento feito pela Internet, Mondale chega a Jerusalém numa madrugada fria e chuvosa. Ao procurar o endereço, se descobre enganado – e essa é a primeira peripécia da história. A partir daí, o livro se desenvolve em três planos: a aventura em Israel, a construção do romance e o descobrimento pessoal do personagem – inclusive de um misticismo rechaçado mas inescapável. Com tons kafkianos e metalinguísticos, a trama se apresenta com a cronologia alterada, cabendo ao leitor organizar a sucessão dos fatos no tempo.

Dono de uma prosa envolvente, embasada num extenso conhecimento da matéria, Rosenbaum, que é também autor de A verdade lançada ao solo (2010), cria um clima labiríntico, no qual a tensão é alimentada por cortes precisos e informações que surgem em momentos cruciais da narrativa.

Ademais das virtudes inerentes, Céu subterrâneo tem ainda a chancela de uma das respeitadas casas editoriais do país, que completa 50 anos sob o comando de Jacó e Gita Ginsburg. Responsável pela coleção Debates, a Perspectiva publica uma vastíssima gama de assuntos, tendo participado diretamente na formação intelectual (e afetiva) de todos os brasileiros que se debruçam sobre as humanidades. O selo é certeza de edições de qualidade – como é, sem dúvida, o caso de Céu subterrâneo.


01 de agosto de 2016 | N° 18596 
L. F. VERISSIMO

O tomate


Cristóvão Colombo examinou o tomate que o indígena acabava de lhe dar e exclamou:

– Um pomo d’oro!

O tomate reluzindo ao sol da América recém-descoberta pareceu ao almirante uma maçã selvagem. Colombo perguntou ao indígena para que servia aquilo. – Saladas – respondeu o nativo. – Refogados. Molhos.

Colombo pensou na sua avó italiana, que cozinhava o espaguete que Marco Polo trouxera do Oriente, mas sempre reclamava de que faltava alguma coisa. Colombo descobrira, além da América, o que faltava na macarronada da nona. O índio quis saber o que Colombo lhe daria em troca do tomate e Colombo lhe deu uma miçanga.

Que outras novidades o índio tinha para oferecer? A batata. Colombo teve uma premonição de fritas, noisettes e rostis, botou a batata na algibeira e deu em troca um espelhinho.

O que mais? O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate, com importante repercussão na história do mundo, principalmente da Suíça e da Bahia. E Colombo trocou o cacau por outro espelhinho.

O que mais? Fumo. Em breve todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito se espalharia. Como um brinde, o índio incluiu no pacote a planta de coca, que daria um barato ainda maior.

O que mais? Milho. Aipim. Papagaios. E essa argola que você tem no nariz. É de ouro? Manda.

E Colombo ordenou a seus homens que recolhessem todas as argolas de ouro que encontrassem e, se fosse preciso, trouxessem os narizes junto. Em troca, ofereceu mais contas, que o índio recusou. Ofereceu mais miçangas. Moedinhas. Chaveiros. Vales-transporte. O índio recusou tudo. E como era impossível derrotar os invasores pelas armas, o índio amaldiçoou Colombo, e praguejou. Que a batata tornasse a sua raça obesa, o chocolate enchesse suas artérias de colesterol, o fumo lhe desse câncer, a cocaína o enlouquecesse e o ouro destruísse a sua alma.

E que o tomate se transformasse em ketchup.