quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010


MELCHIADES FILHO

Janela indiscreta

BRASÍLIA - "É necessário radicalizar o debate público e fazer disso um método de ação política." A convocação, feita na virada do ano, não partiu de Franklin Martins, Paulo de Tarso Vannuchi ou outro ministro incendiário do governo Lula, mas de uma das vozes conservadoras mais populares dos EUA.

Âncora de rádio e TV, empresário de comunicações e guru do Partido Republicano, Glenn Beck é adepto da teoria da "Janela de Overton", elaborada na década passada por um cientista político de Michigan.

Cada assunto de interesse público, segundo essa teoria, tem um espectro de várias políticas possíveis. A "Janela" corresponde às opções que a opinião pública (ou o eleitorado) aceita num dado momento.

Não adianta o político pinçar uma ideia que esteja fora desse leque e, por exemplo, tentar transformá-la em lei. Fatalmente será derrotado.

Em vez disso, defende Joseph Overton, esse político tem que trabalhar para mudar o cenário, ampliando a "Janela" de propostas politicamente viáveis ou deslocando-a para o seu lado do espectro ideológico. Como? Martelando em público (e na imprensa) ideias cada vez mais radicais -suavizando, por contraste e com o tempo, o conteúdo que o eleitor médio descartava.

O Planalto não busca a imediata implementação das propostas "radicais" que tem lançado ou ajudado a divulgar -tribunal para jornalistas, punição a militares da ditadura, legalização do aborto, retirada de crucifixos das repartições públicas, partilha obrigatória dos lucros, combate à TV paga, jornada de trabalho de 40 horas etc. Lula sabe que são ideias hoje "inaceitáveis".

Esse barulho todo tem pouco a ver com esta Presidência -e muito com a próxima. É, de certo modo, a tentativa de alas do governo e do PT de deslocar para a esquerda a "Janela de Overton". Mantém-se tensionada a campanha eleitoral, que inercialmente tenderá a um continuísmo de centro, e prepara-se o enfrentamento político de 2011.

melchiades.filho@grupofolha.com.br

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