terça-feira, 23 de fevereiro de 2010



23 de fevereiro de 2010 | N° 16255
MOACYR SCLIAR


Lição preciosa

Talvez Preciosa (Precious) não ganhe o Oscar de melhor filme. Afinal de contas é uma produção relativamente modesta (10 milhões de dólares, o que para Hollywood é nada), concorrendo com filmes espetaculares (ou espetaculosos) como é o caso de Avatar. Mas, se não ganhar, será uma pena.

Porque esse é um dos filmes mais importantes dos últimos tempos. E é, sob vários aspectos, um filme inusitado. Nasceu modesto, baseado em Push, de 1996, o único romance da poeta e artista performática (o que quer que isto seja) Ramona Lofton, que usa o pseudônimo Sapphire e que, por desinteresse das editoras americanas, teve de publicá-lo às suas custas. De início, a obra não teve repercussão alguma, mas uma hábil agente literária conseguiu transformá-lo em sucesso.

O filme também é de um iniciante, Lee Daniels, que também lutou com dificuldades e que também teve apoio, desta vez da apresentadora Oprah Winfrey, que, aliás, é mencionada nos diálogos.

O elenco igualmente surpreende. A personagem principal, Precious, é vivida por Gabourey Sidibe, filha de americana e de africano, estudante universitária sem qualquer experiência profissional como atriz. Monique Imes, ou Mo’nique, que faz o papel da mãe de Precious, também é mais conhecida como apresentadora. E para completar temos dois cantores no elenco, Maria Carey como uma assistente social, e Lenny Kravitz como enfermeiro.

Preciosa conta a história de uma adolescente negra e obesa, que vive no Harlem com sua tirânica e brutal mãe. Violentada pelo pai, ela engravida duas vezes (a primeira filha apresenta retardo mental) e torna-se HIV positiva – tudo isso em meio a uma sucessão de cenas violentas, mostradas em toda sua crueza.

“Para que tanto horror?”, chegou a perguntar o Independent, de Londres, e esta é realmente a grande questão. Mas o horror tem, sim, razão de ser.

Serve para mostrar que a problemática dos negros nos Estados Unidos está longe de ser resolvida; os problemas é que mudaram. A jovem já não passa fome, mas agora apresenta uma obesidade monstruosa (na vida real pesa 160 quilos), porque não falta dinheiro para a comida – ela e a mãe recebem ajuda do governo – mas, como acontece nesses casos, recorrem a alimentos baratos, altamente calóricos.

A adolescente já não é, como nos tempos da escravatura, violentada pelo patrão branco, e sim pelo próprio pai. Ou seja, parece que só mudaram as moscas; a matéria fecal continua a mesma. Situações assim levaram ao desespero intelectuais como Walter Benjamin, para quem progresso não existe, a trajetória humana traduzindo-se em um deprimente rastro de ruínas (verdade que Benjamin viveu sob o stalinismo e o nazismo).

O filme não esconde estes aspectos deprimentes; mostra, ao contrário, que a luta para melhorar a vida das pessoas, sobretudo aquelas marginalizadas, é uma coisa cotidiana, demandando persistência e uma crença que em alguns momentos pode parecer ingênua demais. Lá pelas tantas Precious diz à professora que sua vida está afundando num mar de problemas.

Resposta da mestra: “Escrever pode ser o barco que vai levar você para o outro lado.” Não é bem assim, claro, mas não há dúvida de que a educação é uma das poucas coisas, a única, talvez, capaz de mudar de forma consistente a situação de pobreza e de desigualdade. Lição preciosa.

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