sábado, 27 de janeiro de 2018


Condenado nos EUA, Larry Nassar não é o único abusador na ginástica

Paul Sancya/Associated Press
Dr. Larry Nassar appears in court for a plea hearing in Lansing, Mich., Wednesday, Nov. 22, 2017. Nasser, a sports doctor accused of molesting girls while working for USA Gymnastics and Michigan State University, pleaded guilty to multiple charges of sexual assault and will face at least 25 years in prison. (AP Photo/Paul Sancya) ORG XMIT: MIPS101
O médico Larry Nassar foi condenado por ter abusado de ginastas nos Estados Unidos
Mais de 150 mulheres depuseram contra o médico Larry Nassar, condenado nesta semana por abuso sexual. É o maior escândalo na história do esporte. Um terror que durou cerca de 20 anos. Durante todo esse tempo, meninas foram molestadas sem que nada acontecesse, sem que ninguém fosse capaz de parar esse criminoso.

Não estamos falando de um ou mesmo de dez casos, mas de dezenas de agressões sexuais cometidas debaixo do nariz dos dirigentes da Federação Americana de Ginástica (USA Gymnastics) e da Universidade Estadual de Michigan, por duas décadas. Como isso aconteceu? É impossível que nenhuma entre essas centenas de meninas jamais tenha contado, reclamado, insinuado, que havia algo de errado no comportamento do médico, festejado por cuidar de campeãs olímpicas.

O que fica cada vez mais claro agora é que muitas delas, várias já adultas e fora do esporte, tiveram suas denúncias caladas e acobertadas. Quem são as pessoas coniventes com o sofrimento e os traumas pelos quais essas atletas foram expostas?

Técnicos, dirigentes, diretores de universidade, autoridades olímpicas, os próprios pais. Há mais culpados nessa história do que apenas o médico condenado. São responsáveis e cúmplices todas as pessoas que ignoraram, não deram ouvidos, ocultaram histórias, ameaçaram atletas com o ostracismo.

Mas o caso de Nassar parece ser apenas o primeiro, talvez pela reputação e importância do especialista, em um mar de muita lama. Quando as denúncias contra ele começaram a aparecer no ano passado, o jornal americano "IndiStar" pediu à Justiça que liberasse um processo com 5.600 páginas que detalha como a Federação Americana lidou com as alegações de abuso contra vários técnicos nas últimas décadas. Durante nove meses a organização tentou barrar a divulgação das informações. Perdeu dois recursos.

Há reclamações contra 54 treinadores. Você leu bem: 54 técnicos. Alguns foram banidos do esporte, outros suspensos, alguns denunciados e condenados. Contra esses últimos há registros de abusos mesmo quando estavam em condicional. No total, são 360 casos em que os ginastas acusam seus técnicos de "má conduta sexual".

Mas por que só agora esses casos estão sendo revelados? Sobre a Federação Americana cai a acusação de encobrir todas essas histórias com receio de perder apoio da comunidade, doações e patrocínios milionários, de um dos esportes olímpicos mais festejados e vencedores nos Estados Unidos.

Há quem se pergunte por que muitas meninas aguentaram caladas, incluindo Simone Biles, a maior estrela da Rio-2016. "Não há outro esporte em que isso pudesse ter acontecido além da ginástica", disse ao jornal inglês "The Guardian" Joan Ryan, autora de "Little Girls in Pretty Boxes", sobre as cobranças físicas e psicológicas que o esporte submete meninas e jovens mulheres. "Estas meninas são moldadas quando ainda são incrivelmente novas para negar suas próprias experiências. Seu joelho dói? Você é preguiçosa. Está com fome? Não, você está gorda e gulosa. Elas são treinadas para duvidar de seus próprios sentimentos, por estas razões isso pode ter acontecido com mais de 150 delas."

Larry Nassar vai passar o resto da vida na cadeia. Não deveria ser o único. 

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