sábado, 23 de junho de 2012



24 de junho de 2012 | N° 17110
Martha Medeiros

Duelos Verbais

Corri pra assistir a Deus da Carnificina, temendo que não ficasse muito tempo em cartaz. O filme, adaptação de uma peça de Yasmina Reza, é dirigido por Roman Polanski e traz no elenco Jodie Foster, Christoph Waltz, Kate Winslet e John C. Reily. Uma ficha técnica de respeito, mas mesmo fichas técnicas de respeito podem não resultar no esperado.

Pois Deus da Carnificina foi além do que eu esperava. É econômico em muitos sentidos (80 minutos de duração, cenário único e puro texto), mas em humanidade, é farto à beça.   A história: dois garotos de 11 anos brigam por bobagem num parque, e um deles acaba atingindo o outro fisicamente.

O filme mostra, do início ao fim, a visita que os pais do agressor fazem aos pais do menino agredido. Tudo muito cordial e civilizado, até que as máscaras da hipocrisia vão caindo uma a uma, e o barraco se instala. E que barraco, senhoras e senhores. Dois casais que nãose conhecem, fechados num apartamento.

Uma chatonilda politicamente correta, um viciado em trabalho que não desgruda do celular, uma mulher controlada que muda de personalidade após dois goles de uísque e um desencanado que gostaria de estar em qualquer outro lugar, menos ali – com qual deles você se identifica? Um pouco com todos, não há escapatória.

Assim que o filme termina, fica evidente: como somos patéticos, tanto na civilidade quando na baixaria, tanto sóbrios quanto alcoolizados. E contraditórios: julgamos mal uma pessoa por causa de uma única frase, e dali a minutos voltamos a simpatizar com ela por ter concordado com algo que dissemos.

Fazemos uma dramalhão por pequenas coisas, expomos carências infantis, perdemos a co postura, fazemos confissões intimas a estranhos – que meleca. Lá pelas tantas, um deles pergunta: porque as coisas  não podem ser mais simples? Ah, é tudo que se quer. Foco, objetividade, ir direto ao ponto. Mas quem consegue? Á medida que o filme avança, a situação torna-se tão sem controle que a plateia começa a rir, e é essa a reação que deveríamos ter dentro de nossa própria sala, não só na sala do cinema.

Rir do nosso delírio de evar a ferro e fogo situações banais, de nossa insistência em querer causar uma boa impressão, de nosso comportarmos como se estivéssemos num tribunal. Qual o propósito de tamanho desgaste, se as coisas solucionam-se quase sempre por si mesmas?

Na saída do filme acompanhei sem quere a conversa de um casal: ela havia amado o filme, o marido havia odiado. E instalou-se a discussão pelos corredores do shopping. Ela tentando convencê-lo da genialidade das cenas, ele se permitindo achar tudo uma aporrrinhação. Ela frustrada com a falta de concordância dele, ele cansado da ladainha dela, sem reparar que estavam. Ambos, dando continuidade ao roteiro.

Patéticos, nós todos. Cada um defendendo suas razões como se disso dependesse a nossa sobrevivência. Ninguém se conforma com sua solidão interna.

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