segunda-feira, 27 de outubro de 2008



27 de outubro de 2008
N° 15771 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Uma rosa é uma rosa

Aqui na minha rua tem um vendedor de um artigo que não é cotado em nenhuma Bolsa e portanto está absolvido da atual desordem geral do mundo. Ele não negocia ações, derivativos ou o controle de bancos e companhias a perigo.

“Bem barata a dúzia da rosa!” – grita ele, equilibrando buquês entre braços e mãos.

Não creio que opere grandes transações. Esta é uma área da cidade povoada de pessoas apressadas e de repartições públicas nem tanto. As pessoas apressadas têm pouca paciência com a beleza da vida. As repartições públicas não são exatamente um lugar romântico.

Me bate às vezes a vontade de falar ao vendedor que seu produto é efêmero. Malherbe já escrevia que as rosas vivem o que vivem as rosas: uma breve manhã. Me assalta às vezes a tentação de servir-lhe um palpite: que deixe de negociar com rosas e se dedique ao ramo dos automóveis ou dos computadores.

Não aposto que me ouvisse, no entanto. Há gente apaixonada pelas rosas, que, segundo Cecília Meireles, deixam aroma até nos seus espinhos e ao longe o vento vai falando nelas.

Até Shakespeare estudou seus mistérios. Lê-se em Sonho de uma Noite de Verão que “goza de mais ventura a rosa cultivada / do que aquela que, fenecendo no ramo selvagem, / cresce, vive e morre em solitária beatitude”.

Não se debruçou menos sobre elas dona Gertrude Stein, para quem uma rosa é uma rosa é uma rosa. De qualquer forma aí estaria um belo slogan para o vendedor apregoar o seu delicado produto.

Não creio contudo que ele haja sido apresentado à amiga de Alice B. Toklas. É possível, porém, que haja lido Silesius, segundo quem “a rosa não tem por quê, / floresce porque floresce. Não se preocupa consigo. Não pergunta se é amada”.

Mas não é improvável que uma das pessoas apressadas que orbitam por esta rua se pergunte de repente se são amadas.

E, colocando sobre a mesa da repartição pública uma única rosa comprada ao vendedor, suspirem fundo e resolvam gostar de si mesmas.


27 de outubro de 2008
N° 15771 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


A Fera na Selva

Que o escritor anglo-americano Henry James (1843 – 1916) seja um tanto desconhecido entre o grande público brasileiro é fato perfeitamente explicável, visto que apenas agora começam a surgir novas traduções e reedições de alguns títulos já traduzidos.

Há uns mais notórios do que outros. A Fera na Selva (The Beast in the Jungle), por exemplo, de 1903, não desfruta do prestígio de Retrato de uma Senhora (The Portrait of a Lady);

no entanto, A Fera na Selva é um dos mais belos, expressivos e intrigantes livros do seu século. Atores do romance: John Marcher e May Bartram; ambos jovens, ele confia a ela um pressentimento: o de que ainda está por acontecer-lhe um fato extraordinário, um fato capaz de transformá-lo para sempre.

Será como o ataque de uma fera na selva, inesperada e brutal; a fera poderá devorá-lo – ou ser morta por ele. May, de sua parte, lamenta que ele seja perseguido por essa obsessão tão inútil como causadora de sofrimento.

Passam-se os meses, anos, eles atingem a meia-idade, e a cada vez que se reencontram, May pergunta a John se já ocorreu o ataque da fera; ele diz-lhe que ainda está à espera.

Ela começa visivelmente a perder o viço, entregando-se à melancolia e ao silêncio. Em certa ocasião, John pergunta se ela esconde algo, mas não vai muito além, por medo de alguma desagradável revelação que poderá perturbar aquela amizade.

Há um capítulo essencial na história, em que os dois têm uma longa conversa. Já estão velhos. É na casa de May. Ela se apresenta com o rosto macerado, mas o olhar ainda líquido, ainda belo.

O diálogo é uma obra-prima de construção de não-ditos. Todo ele é feito de avanços e recuos, nenhum dos dois quer dar o passo seguinte e, quando o fazem, nunca é o melhor passo. May insiste em que o ataque da fera já aconteceu, ele é que não se apercebeu disso.

“Você não está sabendo... nem agora?”, ela pergunta. “Mas o que aconteceu?”, ele diz, intrigado, repetindo a pergunta por três vezes. As palavras de May, ao acompanhá-lo até a saída, são crípticas e dolorosas: “O que teria de acontecer”.

A partir dali suas conversas tornam-se mais sombrias: “Então”, ele pergunta, referindo-se ao acontecimento extraordinário, “será que ele veio no meio da noite e simplesmente passou por mim?”; ela responde que o fato transcendental veio sim, no meio da noite, mas cumpriu o que teria de cumprir. Ele é que não soube disso.

Este resenhista nunca se considerou um spoiler, pois pensa que o bom livro merece ser lido inúmeras vezes. Neste caso, porém, decide calar acerca do capítulo final, e isso com a intenção de deixar que a surpresa venha a iluminar o rosto do leitor.

Sim, o leitor também será vítima da fera na selva, mas desta vez o ataque está preparado por Henry James.

domingo, 26 de outubro de 2008


JOSÉ SIMÃO

É hoje! Dia Nacional do Alívio!

Se você quiser a Marta, tecle carne moída. E se quiser o Kassab, use a tecla hambúrguer!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! E a crise? Definição da crise: vai ficar tudo como tá, só que mais caro! Essa crise é como um amigo meu: tomou Viagra, virou um uiscão, comeu porco e infartou. A Bolsa infartou!

E prestação? Você paga a primeira na loja e a segunda na Polícia Federal. E o dólar? Toda vez que o dólar sobe, Miami fica mais longe. Viajar ficou mais longe. Em vez de Paris, PARIScida do Norte. Ou PARISópolis.

E o Mantega: "Os bancos não estão quebrando". Só os correntistas. Dia de votar de novo? Kaxab x Marta. Seu Barriga x Marta Martox. Ops, a Bruxa do 71. Rarará. Que preguiça! Devia ser como no "Big Brother". Se você quiser eliminar a Marta, disque 0800XXX. Se você quiser eliminar o Kaxab, disque 0800XX.

E as diferenças entre São Paulo e Rio: em São Paulo, querem saber se é casado e tem filhos; no Rio, se fuma maconha! Moral de Sampa: melhor solteiro que casado com argentino. E moral do Rio: vou apertar, mas não vou acender agora.

E o Gabeira vai governar BASEADO em quê? E avisa pro Paes que não é FUMO, é fomos! Rarará! E eu quero saber mais da vida pessoal do Kassab: se a mão com que ele balança o pingolim é a mesma com que ele cumprimenta o eleitor! Ele levanta a tampa da privada?

É hoje que eu estouro pipoca. Naquele microondas eleitoral! Vou teclar pipoca. Se você quiser a Marta, tecle carne moída. E se quiser o Kassab, tecle hambúrguer. Ele parece uma almôndega suada! Antes de votar, eu quero saber da Marta: se ganhar, vai aumentar até taxa do colesterol? E Kassab: vai ficar inaugurando puxadinho dizendo que é hospital? E como vai resolver o problema do trânsito? Carro em São Paulo paga IPTU. Como bem imóvel.

E a melhor manchete da campanha: "Marta barrada no CEU!" Ninguém manda casar com argentino. Deus castiga. Melhor: sabe por que ela foi barrada no CEU? Porque são Pedro não reconheceu a cara atual dela. Rarará!

Se a Marta perder, ela vai animar festa infantil como a Vovó Donalda. E o Kassab vai dublar o Quico do "Chaves": criei xexenta e xeis XEUS! Rarará. E hoje acordei gritando: "Queremos terceiro turno!". Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! E atenção! Cartilha do Lula.

Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. Motivo: aperreio! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Acorda, Brasil! Que eu vou dormir!

simao@uol.com.br


DANUZA LEÃO

É hoje!

O eleitor está ficando mais esperto e mandando recado a quem acha que transferência de votos é uma barbada

POLÍTICA costuma ser uma coisa suja, todo mundo sabe. Mas a cada eleição, segundo os resultados, se tem uma idéia dos eleitores: se eles começam a perceber as manobras nojentas que são feitas por alguns candidatos, quais pensam sinceramente em fazer alguma coisa pelo país e por isso merecem ser eleitos, ou se continuam a votar nos mesmos de sempre, que acabam envolvidos nos mesmos escândalos de sempre.

Uma coisa interessante que se vai saber nesta eleição é até que ponto o voto de cabresto ainda existe. Não conheço as condições das prefeituras de pequenas cidades, mas estou acompanhando o que está acontecendo -de acordo com as pesquisas- nas grandes, e acho que o eleitor está ficando mais esperto e mandando um recado aos que achavam que a transferência de votos seria uma barbada; só nos grotões se elege poste.

Só quando forem abertas as urnas vamos ter certeza, mas é inimaginável o que está acontecendo em Belo Horizonte, e no Rio, onde o bispo Crivella já foi considerado praticamente eleito. E em São Paulo. Mesmo com Lula no palanque, Kassab está com toda a pinta de continuar como prefeito da capital.

Muitos eleitores, através do voto, parecem estar dizendo "eu voto em quem quero e em quem acho o melhor candidato". Convenhamos: já é um progresso. Aliás, um pequeno parêntese: no dia do comício do presidente Lula e de Marta, confundi a candidata com dona Marisa. Como elas estão parecidas!

No Rio, a disputa está dura. Gabeira e Paes estão tecnicamente empatados, mas no início da campanha, quem poderia imaginar que Gabeira chegaria ao segundo turno? Quem vencerá? Paes, com o seu desejo louco de ser prefeito, ou Gabeira, com sua serenidade? Qual será a escolha dos eleitores do Rio? Hoje é um dia de grandes emoções.

A avidez de Eduardo Paes me lembra muito Cesar Maia, no início de sua carreira política. Parece que não sabe que, ganhando ou perdendo, a vida e a luta continuam, e que mesmo sendo normal lutar pela vitória, há um limite para a ânsia de ganhar -sobretudo a qualquer preço.

Paes está sendo apoiado por um monte de partidos, a muitos dos quais já pertenceu; já antigos correligionários de Gabeira, como Vladimir Palmeira e Carlos Minc, o abandonaram -e se for eleito, ótimo, ele fica ainda mais livre para montar sua equipe.

Em compensação, teve o apoio da ex-ministra Marina Silva, que foi proibida pelo TRE de fazer campanha a seu favor; mas entre os prós e os contra, ficou no lucro. Resta saber se o eleitor vai escolher entre a ética e a inteireza, ou se vai preferir a mesma politicalha que manda na nossa cidade há anos.

O resultado da eleição no nosso pobre Rio de Janeiro vai ser um marco; vai mostrar se as coisas vão ficar como estão há tantos anos ou se vão mudar. É uma chance que não pode ser jogada fora.

Hoje é dia de festa, é dia de votar. Não desperdice seu voto; vote bem.

danuza.leao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Cidade suja, querida cidade

Por onde se anda, seja Leblon, Méier ou Barra, é lixo por todo canto; é de dar vergonha

A CIDADE DO Rio de Janeiro é uma das mais sujas do mundo. Não é só por causa do problema mal resolvido dos lixões, que infectam a vida de milhares de moradores, uma vez que há lixo por toda parte. A cidade é suja porque a prefeitura revela-se incapaz de cuidar dela mas também porque a população, de modo geral, nada faz para mantê-la limpa. Pelo contrário, sem trocadilho, está se lixando.

É de dar vergonha. Por onde se anda, seja no centro, seja em Copacabana, em Ipanema ou Leblon, seja na Tijuca, em Madureira, no Méier, na Barra, é lixo por todo canto. Termina o maço de cigarro, o cara simplesmente o joga no chão, embora haja uma lixeira ali adiante.

A lata de refrigerante, ele a atira pela janela do carro, sem falar no pessoal que leva seu cachorrinho para sujar as calçadas do bairro. Já foi pior: atualmente, muitos trazem uma folha de jornal para apanhar os dejetos do bicho, mas também há quem a leve só para fazer de conta...

Mais espantoso é o que acontece nas praias. Não faz muito tempo, decidi dar um passeio pelo calçadão no fim de uma tarde de domingo. Caminhei do Lido ao Leme, e a quantidade de lixo que havia ali era assustadora: garrafas de plástico, latas vazias de refrigerante e cerveja, caixas vazias de suco, cascas de coco espalhavam-se por areia, calçadão e ciclovia.

Nunca tinha visto coisa semelhante e, por isso mesmo, fiquei a me perguntar por que as pessoas faziam aquilo. A impressão era de que o faziam deliberadamente, para sujar a praia, pelo prazer de sujar.

Tenho uma amiga que viveu durante muitos anos na Alemanha, e ela me conta que, lá, se uma pessoa joga alguma coisa no chão, é multada, e se alguém a ver jogar, a adverte e a manda ajuntar o que atirara no chão. Ouvi isso, incrédulo, imaginando o que sucederia a alguém que, no Rio, se atrevesse a fazer semelhante advertência: seria, no mínimo, insultado ou até mesmo espancado pelo autor da sujeira.

É que o nosso modo de entender a coisa pública é diferente: público, aqui, significa que é de todo mundo e, portanto, todos têm o direito de fazer, no espaço urbano, tudo o que desejam, como, por exemplo, urinar na rua.
Há certas ruas, no Rio, de bairros residenciais como Copacabana ou Flamengo, especialmente as transversais às vias principais, que fedem a mijo.

Nelas costumam acampar grupos de mendigos ou vagabundos, que por ali mesmo fazem suas necessidades. Um nojo. Mas outro dia, aqui perto de casa, numa manhã de domingo, dei com um rapaz bem apessoado, de calças blujins, blusão e casquete na cabeça, urinando junto a uma banca de jornais, que estava fechada. Ele me viu, mas pouco se tocou, como se praticasse o ato mais natural do mundo.

Está errado, sem dúvida. Mas me perguntei: se o cara mora longe e sente necessidade premente de urinar, que pode fazer? Procurar um restaurante ou um boteco, dirá você.

E se não houver nenhum por perto, vai urinar nas calças? Não, claro, então o jeito é urinar na rua. E se for uma moça, que fará ela? Ao novo prefeito que chega, faço um apelo: mande instalar banheiros públicos por todo o Rio, como há muito se fez em toda grande cidade civilizada. Trata-se de medida higiênica e ecológica.

Por falar em ecologia -e já que estou pedindo providências ao novo prefeito-, passo a outro tipo de poluição: a sonora. Mas fico ainda no lixo, ou seja, nos caminhões de lixo, que atormentam os moradores e o trânsito dos bairros. Aqui, na minha rua, o caminhão de lixo passava uma vez por semana, agora passa cinco vezes por dia, não sei por que razão.

E o pior é o barulho que fazem, triturando o lixo, embaixo de nossas janelas. Tem mesmo que ser assim? Devemos suportar, além do fedor, a barulheira da trituração do lixo? Falo como leigo, mas nunca vi isso em nenhuma outra cidade. Será que não existem caminhões mais modernos, menos infernalmente barulhentos?
Tem alguma coisa errada aí.

E aqui também, sabe onde? Nas sirenes das ambulâncias, dos carros de bombeiros, dos carros de polícia. São infernais. Sei que há outros problemas mais graves e urgentes, mas desses todo mundo fala a toda hora; dos que aqui menciono, quase ninguém fala.

Por isso pergunto: há necessidade de sirenes que soem tão alto a ponto de atordoar os outros motoristas e estressarem os transeuntes? Claro que não. Basta que sejam ouvidas a alguns metros de distância, para que os outros veículos abram passagem.

As sirenas não têm que enlouquecer as pessoas. E já que não há nenhuma nos azucrinando aqui, prefeito, escute: silêncio e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

CLÓVIS ROSSI

Funcionário x financista

MADRI - Em um grande centro comercial de Seul, na Coréia do Sul, há uma espécie de museu da vida coreana. Uma das peças mostra um cidadão que é recebido com festa na aldeia, de volta da capital, onde fora admitido no serviço público.

Não, a festa não era por ter o cidadão conseguido uma "boquinha". Era apenas o orgulho de ser funcionário, de servir o público -coisa tão fora de moda nos tempos que correm, não é mesmo? Reencontro esse orgulho em uma entrevista de Martti Ahtisaari, o Prêmio Nobel da Paz.

"Não sou contra, em absoluto, que me chamem de diplomata, mas talvez devesse definir-me como um funcionário profissional, tanto em nível nacional como internacional", disse Ahtisaari a "El País".
É verdade que o Nobel da Paz é finlandês, pequeno país com, talvez, o melhor sistema educacional do planeta, o que ajuda a fazer de um funcionário um servidor público -e orgulhar-se disso.

Suspeito de que a grande reforma de que o mundo todo precise -e o Brasil talvez mais ainda- seja exatamente a devolução do serviço público ao serviço do público, com perdão do jogo de palavras.
O país seria melhor se Henrique Meirelles, em vez de ser escolhido "o financista do ano", fosse eleito "o funcionário público do ano".

Vale para o Brasil, vale para os EUA. Dias atrás, Paul Krugman, outro Nobel, este de Economia, escreveu o seguinte a respeito do funcionalismo norte-americano: "Em todo o Executivo, os profissionais peritos foram destituídos; talvez não sobre no Tesouro ninguém com a estatura e a trajetória necessárias para dizer a Paulson [Hank Paulson, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos] que o que ele fazia não tinha sentido".

Quantos sobraram, nos diferentes Executivos brasileiros, capazes de dizer o que é melhor aos ministros e/ou secretários da Segurança, Educação, Saúde etc?

crossi@uol.com.br

Um excelente domingo para todos nós

sábado, 25 de outubro de 2008



26 de outubro de 2008
N° 15770 - MARTHA MEDEIROS


Educação para o divórcio

Estou lendo O Quebra-Cabeça da Sexualidade, do professor espanhol José Antonio Marina. No livro, o autor diz que considera preocupante que os jovens estejam recebendo dos pais a experiência do fracasso amoroso.

Ao ver a quantidade de casais que se separam, a garotada vai perdendo a expectativa de ter, no futuro, uma relação saudável e sem conflito. Desencantam-se.

Creio que esteja acontecendo mesmo. Hoje o casamento já não é a ambição número 1 de muitos adolescentes, e um pouco disso se deve à descrença de que o matrimônio seja uma via para a felicidade. Se fosse, por que tanta gente se separaria?

O casamento tem sofrido tanta propaganda negativa que é preciso uma reação da sociedade: está na hora de passarmos a idéia, para nossos filhos, de que uma relação não traz apenas privações, tédio e brigas, mas traz também muita realização, estabilidade, parceria, intimidade, gratificações.

Casar é muito bom. Como fazê-los acreditar nisso, se as estatísticas apontam um crescimento incessante no número de divórcios?

Um profissional do assunto deu uma entrevista para Zero Hora alguns dias atrás (o nome dele, mil desculpas, não recordo) e disse que está na hora de educarmos os filhos desde cedo para que a idéia de separação seja acatada como algo que faz parte do casamento.

Ou seja, quando os pirralhinhos perguntarem: “Mamãe, você ficará casada com o papai para sempre?”, a resposta pode ser: “Enquanto a gente se amar, continuaremos juntos – senão vamos virar amigos, o que também é muito bom”.

Isso pode parecer chocante para quem jurou na frente do padre que iria ficar casado até o fim dos dias, mas há que se rever certas fórmulas – a começar por esse juramento que mais parece uma punição do que um ideal romântico.

Está na hora de um pouco de realismo: hoje vivemos bem mais do que antigamente, com mais saúde, mais informação e mais oportunidades.

Deve ser bastante confortável e satisfatório ficar casado com a mesma pessoa por 40 ou 50 anos, mas se a relação durar apenas 10 ou 15, é bom que a gurizada saiba: não é um fiasco. É normal.

A normalidade das coisas se adapta aos costumes. Vagarosamente, mas se adapta. Se continuarmos insistindo na idéia de que o verdadeiro amor não acaba, as crianças vão achar que o mundo adulto é habitado por incompetentes que não sabem procurar sua alma gêmea e que sofrem em demasia. Vão querer isso para elas? Fora de cogitação.

Pra evitar essa fuga em massa do casamento, a saída é, como sempre, a honestidade. Seguir educando para o “eterno” é uma incongruência.

Ninguém fica no mesmo emprego pra sempre, ninguém mora na mesma rua pra sempre, ninguém pode prometer uma estabilidade vitalícia em relação a nada, e se a maioria das mudanças é considerada uma evolução, um aperfeiçoamento, uma busca por novos horizontes, por que o casamento não pode ser visto dessa mesma forma descomplicada e sem stress?

A frustração sempre é gerada por expectativas que não se realizam. Se nossos filhos são criados com a idéia de que pai e mãe viverão juntos para sempre, uma separação sempre será mais traumática e eles também temerão “fracassar” quando chegar a vez deles.

Se, ao contrário, souberem desde cedo que adultos podem viver duas ou três relações estáveis durante uma vida, essa nova ética dos relacionamentos será absorvida de forma mais tranqüila e eles seguirão entusiasmados pelo amor, que é o que precisa ser mantido, em benefício da saúde emocional de todos nós.

Excelente domingo - Vote consciente - e uma semana iluminada para você.


26 de outubro de 2008
N° 15770 - VERISSIMO


Indo

O primeiro sinal foi quando uma senhora se levantou para me dar seu lugar, num ônibus.

Ué, pensei. (Não sei se foi “Ué”. Pode ter sido “Uai”, mas estranhei). O que provocara aquele gesto? O que levara a mulher a me oferecer seu lugar? Era a primeira vez que me acontecia aquilo.

Alguma coisa ela vira em mim que a convencera que eu não deveria ficar de pé. O que seria? Recusei a oferta. “Não, não. Eu estou bem. Obrigado.” Mas fiquei intrigado. De pé e intrigado.

A partir daí, passei a notar que as pessoas me tratavam de um modo diferente. Não era raro alguém estender a mão para me ajudar a descer de um carro, por exemplo. Por que aquela súbita mudança de comportamento das pessoas em relação a mim, já que eu continuava sendo o mesmo de sempre?

Em mim nada mudara. Bem, algumas coisas sim, mas detalhes, nada que justificasse o estranho procedimento dos outros. E o que quer que fosse que o provocara, o novo tratamento não era de repulsa. Pelo contrário, era de uma amabilidade inédita. Por quê?

Cheguei a desenvolver algumas teorias. As pessoas teriam ouvido algum boato a meu respeito. Uma herança recebida, um tesouro descoberto, um bilhete premiado, algo que tornaria eventualmente vantajoso me tratarem bem.

Mas isso não explicava a senhora do ônibus, uma desconhecida, sem qualquer expectativa de um dia ser recompensada pela sua gentileza.

Ou os repetidos gestos de deferência de outros desconhecidos - até de bilheteiros, nos cinemas, me perguntando, por alguma razão, se eu queria um ingresso com desconto. O fato é que todos agiam como se soubessem alguma coisa a meu respeito que eu mesmo desconhecia.

Talvez... Seria isso? Talvez, como naquelas fotos em que alguém ergue dois dedos atrás da sua cabeça e você fica com chifres sem saber, todos vissem sobre a minha cabeça algo que eu não via, um halo, um sinal, mostrando que eu era um iluminado ou um condenado.

De uma hora para outra eu me transformara misteriosamente num distinguido pelo alto ou pelo destino, objeto de reverência ou comiseração.

Ou, claro, de um grande mal-entendido. Era isso. Só podia ser isso. Eu não me tornara nem mais rico nem mais simpático. Me tornara especial aos olhos dos outros, e o que eu tomava como gentileza era apenas espanto. Ou pena.

Finalmente, na semana passada, tudo se esclareceu. Cheguei ao Rio, e o táxi que me levava do aeroporto para o hotel pifou na saída do Túnel Rebouças e parou na ensolarada Lagoa.

O motorista pediu ajuda a outro táxi pelo rádio e enfatizou a urgência da situação: “Estou aqui com um idoso embaixo do sol...”. Olhei em volta. Idoso? Onde estava o idoso? E então tive a revelação. O idoso era eu! Agora tudo fazia sentido. O estranho procedimento dos outros estava explicado.

Eu tinha me transformado num idoso e recebia o tratamento adequado. Virar idoso é o que acontece quando se vive um certo tempo, eu apenas não tinha me dado conta. Só faltava alguém dizer a palavra, sem a menor possibilidade de estar se referindo a outra pessoa.

Curiosa palavra. Idoso. O que acumulou idade. Também tem o sentido de quem se apega à idade. Ou que a esbanja (como gostoso ou dengoso). Se é que não significa alguém que está indo, alguém em processo de ida. Em contraste com os que ficam, os ficosos...

Preciso começar a agir como um idoso. Dizem que, entre eles, idosos não falam em quem chega à velhice como alguém que está à beira do túmulo. Dizem que está na zona do rebaixamento. Vou ter que aprender o jargão da categoria.


26 de outubro de 2008
N° 15770 - MOACYR SCLIAR


Os jovens e seus pais

Tempos atrás, escrevi aqui em ZH um texto (depois publicado no livro Um País Chamado Infância, Ed. Ática) intitulado Oração de um Pai.

Nele, um pai pedia a Deus ajuda para cumprir sua missão. Pois a professora Angelita Cruz (Colégio Liberato Salzano Vieira da Cunha), uma dessas criativas mestras que estão renovando o ensino da literatura, sugeriu a seus alunos que fizessem a Oração do Filho.

Mandou-me trechos desses trabalhos, que comovem pela sinceridade e mostram que, ao contrário do que se pensa, os jovens preocupam-se profundamente com seus pais e com a família, sobretudo no que se refere às difíceis relações pessoais.

“Me ajuda, Senhor, a fazer com que minha mãe e meu pai se entendam”; “Senhor, dá-me paciência para agüentar as brigas dos meus pais”; “Dá-me, Senhor, forças para agüentar o meu irmão”; “Dá-me forças, Senhor, para entender meu pai;

“Dá-me, Senhor, ajuda para que minha mãe pare de fumar”; “Dá-me, Senhor, ajuda para que minha avó e minha tia parem de brigar”. Às vezes, o pedido surpreende: “Dá-me, Senhor, paciência para agüentar o meu cachorro”.

Pergunta: além de falar com Deus, não seria o caso de as pessoas da família falarem entre si, de abrirem seus corações, de expressar seus sentimentos? Será que isso não melhoraria a situação familiar, nela incluído o insuportável cachorro? Talvez seja esta a mensagem mais importante oculta na oração dos filhos.

Cartas

Um dia ainda vou publicar uma coletânea das cartas e e-mails que recebo aqui em ZH, assinadas por pessoas inteligentes, cultas e sensíveis. Registro as mensagens de Roseli Gertum Becker, do Dr. Luiz E. Pellanda, da psicóloga Anna Claudia Moreira, do professor da UFRGS José Fernando Piva Lobato, de Luciana Sob, do fotógrafo Rafael Antunes do Canto, do desembargador Sérgio Gischkow Pereira, do Bento Porto, do farmacêutico Ricardo Bueno,

da Anna Pereira, do Dr. Mario Wagner, de Cleomar Oliveira Rodrigues, de Heloísa Schüler (que contesta as campanhas de vacinação), do Sérgio Alves Teixeira, do Wilson Santos, de Luzia Carvalho de Souza, de Benhur Oliveira Branco, de Leandro Pereira, de Raquel Kahan Martini, de Renato Freitag, de Arthur GolgoLucas.

A propósito de um texto que escrevi na Folha de S. Paulo, tendo como tema os políticos que recebem um único voto (o que, dependendo do caso, pode até ser demasiado), escreve-me o Dr. José Diogo Cyrillo: “Quando da eleição do presidente Artur Bernardes, conterrâneo nosso, residente em Santiago (à época do Boqueirão), teria votado em Bernardes e lascou telegrama, noticiando o seu voto.

Quando as urnas se abriram, havia um solitário voto para o eleito, na mencionada localidade. Reza a lenda que Bernardes, em sinal de reconhecimento, nomeou o solitário/solidário eleitor Coletor Federal.” Isto é o que se chama de voto útil, José Diogo.

Sobre matéria em que falei do radicalismo da esquerda no passado, conta o Valdo Barcelos, que foi militante de esquerda desde os 13 anos: “Chegamos ao ponto, certa vez, de discutir numa página central dupla de nosso jornal comunista se sexo era coisa da burguesia. Pode?”. Poder, pode, Valdo, mas a pergunta é se isso ajudou a esquerda. Pelo jeito, não.

A respeito da crônica que escrevi acerca do Dia do Professor, contando sobre uma senhora que escapou de ser roubada porque um dos assaltantes identificou-a como professora, Eli Alves da Silva, Augusto de Souza Alves, Marileia Battistello e a professora Carmen Salvi têm uma outra interpretação: acham que o assalto não ocorreu porque os delinqüentes sabem que os professores ganham pouco.

Certo, gente, mas como filho de professora, como professor, e como fã de professores, prefiro acreditar que isso foi também um ato de repeito ao magistério.

O Dr. Douglas de Morais Garcez, médico nefrologista, tem uma inusitada tese: quanto mais consoantes no sobrenome, maior a chance de câncer de pele.

Explicação: sobrenomes com muitas consoantes são característicos do norte da Europa, onde as pessoas têm pele mais clara – e, ao emigrar para o trópico, são mais sensíveis às radiações solares cancerígenas. Hipócrates gostaria dessa, Douglas.

Nomes que condicionam destinos. O Dr. Telmo Kiguel encontrou referência a um médico argentino especialista em circuncisão. Nome do doutor: Roberto Picovsky. *** Já o Elio Estery leu, na revista Exame, sobre um executivo argentino que, comandando a reestruturação da Telefônica no Brasil, já demitiu 40 diretores.

Nome: Luiz Malvido. Malvado, mal-visto ou ambos, Elio? *** E o Nilson Souza, grande editor aqui de ZH, grande cronista e grande pessoa, anotou o nome do Sub-diretor do Presídio Central de Porto Alegre:

Gelson Luiz Guarda. Bota vocação nesse sobrenome. *** Finalmente, temos esse economista americano, importante figura do Banco Mundial. Nome dele? David Dollar. Ao menos aqui no Brasil ele certamente está em alta.


26 de outubro de 2008
N° 15770 - PAULO SANT’ANA


A hora e vez do eleitor

Hoje é o dia das pessoas se sentirem importantes: é talvez o único dia em que os cidadãos decidem algo importante, vão escolher os seus governantes e, para isso, não dependem nem dos favores nem dos préstimos de outros governantes ou de quaisquer agentes públicos a quem devam reverência.

Não serão vigiados no ato de escolha, portanto não foram pressionados a votar em alguém. E nem precisarão dar satisfações a ninguém pelo seu sufrágio.

A isso se chama de voto livre.

E no Brasil é livre mesmo. Você vota em quem bem entende. Este é um momento em que o eleitor, embora muitas vezes inconsciente, no entanto intui quem no seu entender é o melhor candidato. E crava o nome dele ou dela na urna.

A eleição é também um ato de esperança. Vota-se na expectativa de que nossa escolha vá melhorar a vida da cidade.

E a eleição se constitui também num ato de responsabilidade: se der certo ou se der errado o voto que se depositou na urna, o fato é que chamamos para nós, quando votamos, a participação nos desígnios do que nos acontecerá nos próximos quatro anos.

Não ficamos ausentes da decisão sobre os nossos destinos: o instante da eleição é aquele em que manifestamos aquilo em que nós cremos. Mas também pode ser o momento em que manifestamos a nossa desaprovação.

Ouço muito de eleitores a seguinte frase: “Eles vão ver, na eleição eles nos pagam”.

Então, a eleição se constitui também num ajuste de contas.

Não existissem as eleições e os políticos é que não teriam que dar satisfações ao povo dos seus atos.

A eleição, portanto, é uma forma de o povo cobrar ação e exação dos políticos. Se estes últimos não se portarem bem, sabem que, de dois em dois anos, de quatro em quatro anos, terão seus procedimentos julgados na urna.

E os julgadores serão exatamente aqueles que foram alvos das ações governamentais e dos atos políticos dos que se submetem à votação.

Em todas as eleições, vejo nas seções eleitorais gestos comoventes. Pessoas idosas, com mais de 80 ou 90 anos, sem terem a obrigação de votar, que é exigida aos mais jovens, lá chegam com sacrifício para exercitar com prazer e vontade o seu voto.

Nas eleições, vejo pessoas cegas, aleijadas, inválidas, alguns em cadeira de rodas, outras sendo carregadas nos braços por não poderem se locomover, irem lá corajosamente depositar o seu sufrágio, sem qualquer punição se não o fossem.

Que bela lição de civismo, que impressionante exemplo espírito público!

E, ainda, as eleições entre nós são mais saudáveis e animadoras porque somos convictos de que elas não são fraudadas.

Uma Justiça eleitoral austera, com a ajuda magnífica dos cidadãos que são convocados a colher e apurar os votos, garante de que não será malbaratada a vontade popular.

Em quantas e quantas nações deste planeta são fraudadas as eleições e os votantes são encaminhados pelas urnas pelo tacão dos ditadores de plantão.

As nossas eleições, graças a Deus, são livres.

E nós podemos dizer intimamente para nós mesmos: “Hoje eles nos pagam”.

Ou então dizer melhor ainda: “Hoje vou finalmente lá votar em quem melhor fez para ganhar o meu voto”.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Ereções! Seu Barriga x Marta Botox!

E por que a Marta foi barrada no CEU? São Pedro não reconheceu a cara dela atual!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Finalmente uma boa notícia: Bolsa da Argentina opera em queda de 20%. Rarará! A crise tá pior que um amigo meu que tomou um Viagra, um uiscão, comeu porco e teve um infarto!

E a Ásia dá azia, o Boivespa foi pro brejo e o Mantega disse: "Os bancos não estão quebrando". Realmente, os bancos não estão quebrando, só os correntistas. Rarará!

E o Lula, que foi convidado pro G8? Teve um upgrade! Tem que botar pulseirinha de plástico? Que nem camarote VIP?

E o chargista Frank mostra o Lula respondendo ao convite: "Só não me marca reunião do G8 em dia do jogo do Timão"!.E eu não agüento mais esse segundo turno: Seu Barriga x Marta Botox!

E sabe por que a Marta foi barrada no CEU? Porque são Pedro não reconheceu a cara dela atual. "São Pedro, sou eu, a Marta." "Ah, eu pensei que fosse a drag Salette Campari!

Mas, mesmo assim, não entra porque casou com argentino. DEUS CASTIGA!" Rarará! A Martamorfose Ambulante! Domingo termina esse telecatch: Seu Barriga x Marta Botox!

Parece nome de traveca: Thalia Bombinha, Marcela Chave de Fenda e Marta Botox. E o seu Barriga tá inaugurando até placa de inauguração. Por isso que o PT quer a cassação dele.

Peraí, a Marta quer que ele seja casado ou cassado? Rarará! E você sabe a diferença entre pedágio e buraco? É que do pedágio dá pra desviar!

E será que vai continuar todo mundo comprando carro em 60 vezes? Um amigo meu vai comprar um carro em 60 meses: um mês ele compra a porta, no outro ele compra a bateria e no outro ele compra o volante. ETC!

E eu já disse que viajar ficou mais longe! Em vez de Paris, Pariscida do Norte. Mas um mineiro me disse que até Pariscida do Norte tá ficando longe; em vez de Paris, PARISópolis.

Rarará. É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Roma, atrás do Vaticano, tem o famoso Kubar. Mas, como é atrás do Vaticano, é chamado de Ku do papa.

Rarará! Acho que eu serei barrado no CÉU! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Diplomata": companheiro que conseguiu se formar.

Aí é deplomata, conseguiu um deploma. O lulês é mais fácil que o inglês! Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje, só amanhã. Que vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

O pêndulo tucano

BRASÍLIA - Merecem atenção duas frases meio soltas, às quais a imprensa nem deu muita bola.

De Geraldo Alckmin, apesar de desvincular 2008 de 2010: "O governador de São Paulo e o PSDB se fortalecem. Estão muito bem".

De Gilberto Kassab, jurando que, se eleito, vai cumprir os quatro anos de mandato: "Não votem em mim se eu sair [para se candidatar ao governo do Estado]".

Com o devido desconto de que políticos falam o que convém falar, e não exatamente o que sentem e o que pretendem fazer, as duas frases sinalizam que a entidade PSDB-DEM está botando suas cartas na mesa para 2010 em São Paulo:

Kassab quietinho na cadeira de prefeito, Alckmin para o governo (até por falta de outro/outros) e José Serra para presidente, livre para negociar com o PMDB.
A derrota desune, a vitória une.

Os tucanos paulistas engolem em seco velhas mágoas e tentam se acomodar diante da perspectiva de eleição de Kassab -pelo Datafolha, ele tem 54%. Só falta combinar com o "adversário" que vem de fora.

Aécio Neves saiu cabisbaixo do primeiro turno em Belo Horizonte, onde lançou com o PT a candidatura Márcio Lacerda (PSB) e levou um susto atrás do outro.

Primeiro, o estouro de Jô Moraes, mulher, paraibana e do PC do B. Depois, o do desimportante Leonardo Quintão, do PMDB, o azarão que chegou apenas dois pontos atrás de Lacerda, apesar de tudo e de todos.

Depois de um bom sacolejo na campanha, porém, Lacerda se recupera em todas as pesquisas e, segundo o Datafolha, tem cinco pontos a mais que Quintão (45% a 40%). Ao mudar de figura em Minas, a coisa muda de figura também no jogo tucano para 2010.

Serra foi a estrela do primeiro turno e é o grande personagem da eleição. Mas, se Lacerda dispara no final, os louros recairão naturalmente sobre Aécio. O que reequilibrará tendências -e ambições- dentro e fora do PSDB nacional.

elianec@uol.com.br

Jaime Cimenti

Galeano conta a História universal dos esquecidos

Existe a grande História, quase sempre oficial e quase sempre contada pelos vitoriosos. Existe a pequena História, que conta as coisas ditas pequenas dos "grandes" personagens da História.

Sim, tem também a História narrada pelos historiadores revisionistas e pelos que querem contar o que houve a partir de outras visões, documentos etc.

Em Espelhos - uma história quase universal, o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor do clássico As veias abertas da América Latina, não dando a mínima para as fronteiras que tentam separar os gêneros literários, apresenta pequenos textos que buscam registrar os esquecidos, os ignorados, os anônimos e os fatos que poderiam ficar injustamente enterrados.

Os desvalidos e os excluídos das histórias oficiais estão na obra de Galeano, que, em 360 páginas e quase 600 histórias, proporciona aos leitores uma viagem infinita através de todos os tempos, mapas e mundos.

Limites e fronteiras foram para o espaço nesta história universal que se inicia na velha África, onde a aventura humana começou, e termina nos albores de nosso século XXI, que, pelo visto, é tão violento e injusto quanto o finado século XX.

Galeano mescla passado, presente, futuro, poesia, ficção, histórias e a História de sociedades diversas e nos mostra as ligações entre tudo.

Relatos que vão da Grécia antiga a Roma, do Egito à Mesopotâmia, da Idade Média à Segunda Guerra Mundial e sobre os mortos do Iraque mostram, com olhar questionador, como os seres humanos têm explorado uns aos outros. Além disso, revelam as histórias ocultas das minorias.

Galeano mostra o que os humanos criaram e mataram, mostra os silêncios e os gritos do planeta e reflete que as pessoas sacrificaram e mutilaram o arco-íris terrestre. Poético, irônico, desafiador, mas sempre criativo e instigante, o escritor uruguaio nos oferece espelhos cheios de gente, de esquecidos que se lembram de nós.

São os invisíveis que nos vêem. Para Galeano, os mundos que o mundo esconde, os pensadores e os sentidores, os curiosos condenados a perguntar sempre, os rebeldes, os perdedores e os loucos têm sido e são o sal da terra.

Enfim, a escrita sensível e original de Eduardo Galeano abre janelas e possibilidades para que os leitores tentem responder às grandes questões de sempre: de onde viemos, quem somos e para onde vamos? Não é pouca coisa.

Espelhos - uma história quase universal foi lançado em março deste ano e já é grande sucesso internacional. Está em quinta edição na Espanha e ocupa, na Argentina, há meses, o ranking de livros mais vendidos do jornal La Nación.

A tradução competente é de Eric Nepomuceno. 376 páginas, R$ 42,00, L&PM Editores, telefone 3225-5777.

Ótima sexta-feira excelente fim de semana


24 de outubro de 2008
N° 15768 - JOSÉ PEDRO GOULART


Pedro e o lobo

Há uma obviedade por trás (sem segundas leituras, por favor) do debate trazido pelo Pedro Cardoso sobre nudez no cinema e na TV: sexo vende. (Como também a violência, há pouco houve demonstração disso com parte da mídia histérica diante de um seqüestro idiota, tirando dele o caldo que desse.)

O fato é que nudez dá ibope, e ibope é dinheiro, fama, poder. Todos buscam isso. Está no nosso DNA. O Pedro Cardoso acusou que os atores são constrangidos a se despirem em cenas onde a nudez não é necessária, mas ressalva que há casos em que isso é exigido. Só que o público é cada vez mais solícito em relação à exigência dos casos.

O público “quer” ver a galera se pelar. E o público manda na audiência, e a audiência manda em todo mundo. Em mim, em nós, no Pedro Cardoso e na bunda da Tiazinha.

Grande parte dos cineastas flerta com a platéia buscando em novelas o elenco dos seus filmes. Talento é uma exigência secundária (e isso é que é grave, não a origem dos elencos). A própria Globo, quando raramente exibe filmes nacionais, elege os que têm atores dela.

É um círculo: os que estão dentro aceitam as regras, e os de fora estão ansiosos para entrar. Diante disso, a nudez é um ingrediente a mais. Antes dela, vem a fama (nudez sem fama vale menos). E a fama pode começar no BBB, numa emissora de segunda, na novela vespertina.

No fundo sinto uma certa ingenuidade no discurso do Pedro Cardoso, mesmo que ele fale em certa parte da questão do mercado.

Pedro concedeu aos atores uma ressalva que muitos não merecem, a maioria participa do esquema sem se queixar e ainda lucra com isso, com capas de revistas, publicidade etc. Outros se queixam, mas se omitem em sair do esquema.

E quase todos, na ânsia de ter o foco sobre si, expõem sua vidas privadas sem comedimento – aliás, entre a Hustler e a Caras, fico com primeira e nem perco tempo pensando no assunto.

Dona Flor e seus Dois Maridos é o filme brasileiro de maior público: Sônia Braga peladona e muito azeite na chapa. Recentemente o explosivo Tropa de Elite transbordou espectadores. Sexo e violência. Binômio de audiência.

É o lobo, Pedro. O lobo quer ver tua gata peladinha. E se pudesse a comeria. E também se excita com violência, especialmente quando o sangue jorra.

É o lobo, Pedrão. E o lobo dá ibope e o lobo confere o ibope. Contra o lobo, a civilização. Essa briga não tem fim. O resto é manifesto.

(Em tempo: como Pedro Cardoso, “por honestida­de intelectual” preciso dizer que sou casado com uma atriz que recusou com pesar o papel principal de uma importante série em cartaz na TV por entender que o roteiro continha demasiadas e desnecessárias cenas de sexo e nudez.)


24 de outubro de 2008
N° 15768 - PAULO SANT’ANA


A crise sem rosto

O que mais me apavora nesta crise financeira que abala o mundo e parece que agora começa a balançar os alicerces brasileiros é a mais completa alienação sobre sua origem e perspectivas por parte de todos os governantes e analistas.

Ninguém diz nada com nada, os meios de comunicação convocam economistas e entendidos em mercado financeiro, nenhum deles demonstra qualquer segurança em suas análises, apenas tergiversam sobre as causas e tartamudeiam quando se trata de indicar os remédios.

De uma parte ouvi nossos líderes, o presidente da República, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central. Inicialmente passaram ao país a impressão de que os fundamentos econômicos e financeiros do Brasil eram sólidos e a crise não nos iria afetar de forma alguma.

Logo em seguida, pelas suas fisionomias se podia adivinhar que estavam assustados e que o Brasil passara a ser atingido ameaçadoramente pela crise, tomando algumas raras e veladas providências para preveni-la, no entanto não se mostrando claros sobre a extensão dos danos que esta presumidamente grande turbulência irá produzir sobre a vida brasileira.

A impressão que nossos governantes dão é de que guardam segredos que não querem transmitir à sociedade, não compartilhando deles nem com o Congresso Nacional.

A manchete de ontem de Zero Hora, que foi afinal de todos os jornais brasileiros, acabou terrificante sobre todos os espíritos lúcidos: “Banco do Brasil e Caixa Econômica ganham carta-branca para absorver bancos e empresas”.

Incrível manchete, que espalha a impressão de que nossos bancos privados estão ameaçados de quebra e que grandes empresas estão à beira da insolvência.

Mas será que a situação é tão grave assim?

Como é que podem os supermercados estarem tranqüilamente preparando seus estoques para abastecer os seus clientes de gêneros natalinos, como pode o comércio, a indústria, os serviços estarem funcionando com relativa normalidade, enquanto o governo anuncia que está se aprestando a socorrer financeiramente bancos e empresas?

Falta alguém – e só pode ser o governo – que explique à sociedade qual a verdadeira extensão dessa crise.

Nós precisamos saber qual vai ser a sorte, nos próximos meses, dos empregos, dos negócios, enfim, de toda a atividade econômica brasileira, diante da crise que não tem forma, que não tem desenho, que parece não ter materialidade mas que se abate com um espectro sinistro sobre o espírito de todos os cidadãos.

Está faltando transparência.

E nós brasileiros temos o direito de saber do que nos espera, até mesmo para que passemos a nos comportar de forma compatível com os cuidados que devemos tomar para enfrentar este fantasma horrendo que nos pintam, que se choca e contradiz violentamente com a realidade que estamos vivendo.

Socorro! Clamamos por informações e orientação!


24 de outubro de 2008
N° 15768 - DAVID COIMBRA


O doce sangue do outro

Brasileiro adora um velório. Lógico, velórios são importantes, psicologicamente falando. Pois a história da vida de um homem é a história das suas perdas e, sobretudo, de como ele lida com elas. No caso de uma morte, de resto uma perda bastante definitiva, o velório serve para que os vivos se acostumem com o (em geral) infausto ocorrido.

É por isso que as pessoas devem passar pelo caixão e olhar para o morto. Para que sua mente registre: ele não fala mais, não se mexe, não respira; ele está morto. E não é por outro motivo que o homem pré-histórico já realizava funerais. A sabedoria ancestral.

Faz-se essa liturgia quando da morte de um ente querido. Um amigo. Um familiar. Ou um personagem público muito admirado.

Vide os funerais de Aírton Senna, de Getúlio Vargas e de Tancredo Neves que mobilizaram o Brasil, ou o de Lady Di, que comoveu o planeta via satélite, ou o de Lincoln, que cruzou os Estados Unidos em cima do aço de trilhos de trem.

Certo. Mas como se explica 30 mil pessoas comparecerem ao sepultamento de uma desconhecida, como aquela menina que foi assassinada pelo namorado em São Paulo dias atrás? Aí a distorção nacional.

O brasileiro tornou-se um consumidor de tragédias. Nada a ver com o gosto pela crônica policial, pelo mistério, nada disso. Eu mesmo sou um entusiasta da Editoria de Polícia, onde muito trabalhei, e com deleite.

Porque, sempre digo, não existe nada mais humano do que um assassinato, e todo assassinato tem uma história interessante. Pode ser uma briga de bar – conte o dia em que a vítima acordou para morrer e que o assassino acordou para matar e, pronto, você tem uma bela página.

Mas o acompanhamento ansioso do enterro de uma vítima ou o consumo sôfrego de certas minúcias da tragédia, como se tem visto, isso foge do fascínio pelo mistério.

E a volúpia pela desgraça alheia é tamanha que até o jornal televisivo mais respeitado do país, o Jornal Nacional, entrega-se à tentação de explorá-la.

O que me decepciona, eu que sempre fui, e sou, admirador do Jornal Nacional. Há quem justifique que tal se dá devido à luta pela audiência medida minuto a minuto. Mas ainda acredito no jornalismo. Ainda creio que, a médio e longo prazo, o jornalismo sério tem mais audiência do que a apelação.

Enfim. A verdade é que os telejornais estão atendendo a um apelo do consumidor e o que me interessa aqui é saber por que o brasileiro se transformou nesse vampiro de controle remoto. Digo por quê: por causa do vazio.

O sujeito atravessa seus dias num emprego monótono e as noites no cárcere de um apartamento de dois quartos dividido com a mulher e os três filhos, ele não sai de casa com medo da violência e não tem dinheiro para viajar, nem ler ele lê porque ninguém o ensinou a gostar de livros, e o pior: ele vive em algum lugar selvagem e árido como São Paulo.

Quer dizer: a vida dele não tem sentido. Assim, quando esse triste brasileiro encontra motivo para uma emoção poderosa e inofensiva, ele, de alguma forma, se realiza.

Donde, 30 mil pessoas no enterro da menina desconhecida do subúrbio, uma multidão cevando suas próprias emoções rasteiras tirando fotos do caixão com seus celulares luminosos, chorando, escabelando-se, se desesperando.

Vivendo, finalmente. As tragédias de telejornal são a salvação espiritual do brasileiro medíocre.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008


CRISTINA FIBE
ENVIADA ESPECIAL A LOS ANGELES


pouco amor, muita porrada

"Quantum of Solace", novo longa do personagem James Bond, que estréia no próximo dia 7 com Daniel Craig como protagonista, investe mais em pancadaria e menos em romance

Bond (Daniel Craig) quer vingar a morte de sua amada, Vesper (Eva Green)



Um James Bond furioso sai de "Cassino Royale" (2006) para resolver suas pendências em "Quantum of Solace", o novo filme da série, que estréia no próximo dia 7 no Brasil.

Na primeira seqüência da história do espião no cinema (os outros 21 filmes têm roteiros independentes), ele quer vingar a morte de Vesper (Eva Green), a Bond girl por quem penduraria suas armas.

Para encontrar a organização culpada pelo fim do romance, um espião violento mata quem bloquear seu caminho. "Esse Bond derruba a porta e faz perguntas depois", resumiu o ator Daniel Craig, em entrevista a jornalistas, em Los Angeles, da qual a Folha participou.

"Quantum of Solace" é uma sucessão de cenas de pancadaria, tiros, golpes a faca, perseguição em carros, aviões e barcos. E pouco romance, porque "ele tinha sido traído no primeiro filme, tinha se apaixonado, teria sido contraditório para a história se ele tivesse pulado na cama com 11 mulheres", na visão de Craig.

O enigmático título foi escolhido pelo ator, que tenta explicar seu significado: "É de uma história do Ian Fleming [1908-1964] na qual ele [Bond] está em uma relação que atinge um ponto em que não há mais nada, não há volta, não há amor.

Ian Fleming diz que o "quantum of solace" se foi. É esse pequeno momento em que as luzes se apagam". Na tradução aproximada, o título significa mínimo de consolo.

"A idéia é que ele se apaixonou no fim do último filme, teve o coração partido e se sentiu traído. E esse filme não é sobre se vingar contra os maus, é sobre ele tentando encontrar sua paz. Ele precisa saber se Vesper o amava... E a organização inimiga se chama Quantum, então ficou tudo resolvido."

Acidentes

Para encontrar a "paz", o personagem resolve os conflitos no braço, com menos mulheres e menos instrumentos inventivos à sua disposição -os acessórios mais interessantes deste Bond são as roupas, desenhadas por Tom Ford.

"Talvez seja o filme mais violento da série, mas é uma fantasia, e continua sendo uma fantasia, claramente. Ele é um assassino, esse é seu trabalho", considera Craig.

O longa, com orçamento estimado em US$ 230 milhões (cerca de R$ 500 milhões), enfrentou uma série de acidentes nos sets de filmagem, espalhados por seis países.

O mais grave, uma batida de carro na Itália, levou à internação de um dublê, que ainda se recupera. Craig também se machucou e teve um corte em seu rosto. O ator admite que a pressão para que tanto investimento tenha valido a pena é grande.

"Cassino Royale", dirigido por Martin Campbell, faturou US$ 448 milhões (R$ 982 milhões) e ainda custou menos, US$ 140 milhões (R$ 307 milhões).

"Quantum of Solace", dirigido pelo alemão Marc Forster, além de ter menos sexo e mais ação, não tem a célebre cena em que o personagem diz "My Name is Bond. James Bond".

Craig não abandonará tão cedo o personagem. "Estou contratado para fazer mais dois, mas ficarei muito feliz se fizermos um terceiro. Sou supersticioso, então não quero ficar prevendo como vai ser."

A jornalista CRISTINA FIBE viajou a convite da distribuidora Sony

CLÓVIS ROSSI

Corre, mundo, corre

MADRI - Na segunda-feira, 13, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva puxou uma cadeira de ferro no jardim do "Cigarral de las Mercedes", o mais luxuoso salão de festas de Toledo, onde almoçara, pronto para uma entrevista coletiva.

Comecei perguntando se seu governo entraria na onda de estatizações de bancos então recém-inaugurada na Europa e nos Estados Unidos e fechei com uma provocação, ao lembrar que era isso, mais ou menos, o que o PT de antigamente defendia. Lula sorriu, mas não caiu na provocação.

Demorou um tempão até chegar à seguinte frase: "Depende, depende, depende se tiver um banco numa situação que avaliarmos que precisa".

Mas, antes, o governo estimularia outros bancos a comprar a carteira de quem estivesse em apuros e/ou atuaria via redesconto do Banco Central.

Bom, ontem, apenas nove dias depois da conversa em Toledo, o "depende" acabou. É mais uma demonstração de que a crise é de uma velocidade e de uma voracidade assustadoras.

Prova-o o fato de que, na mesma entrevista, Lula jurou que "tudo vai ser mantido", sendo o "tudo" as obras e investimentos programados pelo governo. Anteontem, acabou admitindo que nem "tudo" vai ser mantido.

A velocidade pede que Lula seja otimista, como deve ser, mas menos vezes por dia. Não desgastaria a sua palavra e o seu otimismo.

Título da coluna de Martin Wolf ontem reproduzida pela Folha: "Mundo desperta do sonho do descolamento". Wolf é o mais badalado colunista do mais badalado jornal financeiro do planeta, o "Financial Times".

JOSÉ SIMÃO

Dólar! Vou pra PARIScida do Norte!

E toda vez que o dólar sobe, Miami fica mais longe. Viajar ficou mais longe! Rarará

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Crise!

Ai Ai Street! Eu quero estabilidade emocional! Dólar sobe, dólar sobe, reduz, baixa, acelera, solta óleo e quebra! Chega de montanha-russa. Montanha-russa só em motel. E com espelho no teto!

E como disse uma perua amiga minha: "Antes eu só lia "Caras", agora tenho que ler o "Wall Street Journal'". E por enquanto é só o mercado que tá nervoso! Eu só quero ver quando o SUPERMERCADO acordar nervoso!

E toda vez que o dólar sobe, Miami fica mais longe. Viajar ficou mais longe. Em vez de Paris, Pariscida do Norte! Rarará!

E todo candidato que o Lula apóia perde. Por isso que o Obama fica gritando nos comícios: "Eu não tenho o apoio do Lula, eu não tenho o apoio do Lula".

E essa é velha mas não custa lembrar: avisa pro Lula não confundir Obama com OBRAHMA! Eu apóio Obrahma! E aí apareceu o Collin Powell apoiando o Obama. E a sobrancelha dele parece o logotipo da Nike. E eu acho que o Obama é filho do Bezerra da Silva!

E essa aqui: "Marta barrada no CEU"! Ninguém manda casar com argentino. É pecado mortal! É que ela foi visitar o CEU de Vila Formosa, e a prefeitura não liberou a entrada.

Eu acho que o Kassab falou: "Ela foi barrada no céu, mas tô liberando passe livre pro inferno". Bilhete Único pro inferno.

E o Kassab que inaugura puxadinho dizendo que é hospital? PUXADINHO DO KAXAB! Tamo frito e torrado! Marta e Kassab: dou um pelo outro e não quero troco!

E essa pesquisa: "41% dos padres admitem ter relações com mulheres". E os outros 59% fazem o quê? E diz que sogra é como onça: temos que preservar, mas ninguém quer ter em casa!

Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Londres tem um bar chamado KU BAR!

Acho que na Europa tem uma rede de Kus, tem em Londres, no aeroporto de Dublin, em tudo que é lugar! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Barroco": companheiro que mora em casa de barro na beira da barroca. O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br


FILANTROPIA COMPULSÓRIA

Governo parece porteiro: vive dando explicações. Dificilmente convence.

É o reino desencantado da enrolação oficial. No Rio Grande do Sul, quando morre um marido, funcionário estadual, a viúva é submetida a meses de pensão pela metade, obrigada a entrar na Justiça e, não raro, a ver parte do que lhe é de direito transformado em precatórios, aquela dívida que o governo sabe que deve, não nega, mas paga quando bem entende, se paga. Outro capítulo interessante é o dos concursos.

Os candidatos enfrentam a maratona e, mesmo aprovados, não são chamados ou, o que é mais bizarro, acabam contratados emergencialmente. Não bastasse isso, são levados a trabalhar alguns meses sem receber. Já começam feito viúvas, esperando em vão, chorando, sofrendo e correndo atrás.

Se resistirem a esse teste de sobrevivência na selva pública, podem ser efetivados, sem o piso federal, pois para o governo gaúcho piso não é salário inicial.

Aqui vai um exemplo disso: 'Prezado jornalista Juremir Machado da Silva: escrevo esta carta porque a minha situação é a mesma de outros profissionais e é um exemplo do absoluto descaso e desrespeito com que o governo estadual trata a educação pública. O que acontece comigo e outros professores com certeza merece adquirir publicidade.

Sou professor de História concursado. Fui aprovado em uma ótima posição. No entanto, a governadora Yeda Crusius não renovou o concurso e meses após chamou os concursados para contrato emergencial.

Por isso, encontro-me lecionando desde junho como contratado. Mas faço questão de frisar: fui aprovado, e muito bem aprovado, em concurso público de ampla concorrência.

Dou aulas de História no curso noturno desde junho e gosto muito do que faço. Apesar de enfrentar problemas como falta de infra-estrutura e segurança nas escolas, cansaço e desinteresse de alguns discentes (o que não pode ser generalizado, de forma alguma, tenho alunos excelentes), gosto do que faço e faço com prazer.

É esse prazer que me ajudou a chegar até aqui, e talvez seja nele que se baseia o governo estadual para continuar me negando minha justa remuneração. É aquela filosofia: professor não é um profissional, o que ele faz é caridade ou militância.

Mas não faço caridade nem militância. Sou um profissional sério e até agora o governo estadual, através da Secretaria da Educação, não me pagou um mísero tostão por cinco meses de trabalho correto e dedicado.

Ao telefonar para lá exigindo (nos últimos tempos, quase diariamente) esclarecimentos, me arrolam entraves burocráticos imensos e me tratam como se eu estivesse exigindo algo impossível.

Interessante observar que para me jogar em sala de aula para tentar tapar o déficit crônico no quadro docente do Estado (e por que será que existe déficit crônico no quadro docente do Estado?) toda pressa era pouca e os entraves burocráticos inexistiam.

Mais interessante ainda é notar que minha reivindicação nada tem de subversiva: quero apenas o pagamento (mínimo, não estou sequer entrando no mérito de quanto o Estado paga aos professores) por trabalho honesto.

Como costumo ensinar pros meus alunos, essa é uma característica básica do capitalismo diante de outros sistemas de produção... Se se tratasse da iniciativa privada, passado dia 10, dê-lhe processo trabalhista...

Já na Secretaria da Educação, ouço um ‘simpático’ ‘espere até o mês que vem’. Atenciosamente, Rodrigo de Azevedo Weimer, um professor que não deseja completar meio ano sem salário'.

juremir@correiodopovo.com.br