sábado, 17 de setembro de 2022


17 DE SETEMBRO DE 2022
J.R.GUZZO

O caso dos "empresários golpistas"

De todas as agressões às leis brasileiras, à Constituição Federal e à estabilidade jurídica que o ministro Alexandre de Moraes faz praticamente todos os dias, provavelmente nenhuma pode se comparar à essa ofensiva policial contra "empresários golpistas" que se tornou o fetiche mais recente da nossa Suprema Corte de Justiça. Não existe até agora, depois de todo o colossal barulho levantado pela "investigação", um miligrama de qualquer coisa que se pareça com uma prova. 

Houve, como se sabe, a invasão de escritórios e de residências, bloqueios de contas, quebras de sigilo bancário e de comunicações, censura na internet e o resto do repertório repressivo de um STF que se transformou em delegacia de polícia. Mas a situação continua exatamente a mesma que era quando essa aberração começou - tudo o que os "investigados" fizeram foi falar de política entre si num grupo de WhatsApp. 

Desceram a lenha no STF, alguns disseram que gostariam de um golpe de Estado e todos falaram bem do presidente Bolsonaro; houve quem se manifestasse unicamente clicando as figurinhas que servem como comentário nesse tipo de conversa escrita pelo celular. É isso - um nada absoluto. Mas o inquérito continua a plena força, como se os envolvidos tivessem cometido crimes de lesa-pátria em série. Transformou-se, a essa altura, em perseguição política pura e simples.

A operação contra os empresários foi lançada com base numa notícia de jornal que chegou ao conhecimento de Moraes. Ele leu, achou que era um horror e por conta unicamente disso soltou a polícia em cima dos "suspeitos". Nunca se viu nada parecido na história da Justiça brasileira.

Os investigados, além disso, não poderiam legalmente estar tendo a sua conduta apreciada pelo STF; a lei diz, expressamente, que só pessoas com direito a foro especial podem ser julgadas no Supremo, e nenhum dos perseguidos tem esse tipo de foro. Naturalmente, todos os pedidos dos advogados das vítimas, solicitando o cumprimento das leis que garantem seus direitos, são recusados por Moraes - como ele recusa os pedidos do MP. 

Na demência mais agressiva da história toda, é o próprio Moraes, e ninguém mais, quem julga as decisões que ele mesmo toma. Não existe isso em nenhum país sério do mundo. O inquérito dos "empresários golpistas" nada mais é do que perseguição pessoal a um empresário em particular, que o STF e o ministro Moraes transformaram em seu inimigo - não gostam dele, nem do que diz, nem do que faz, nem do tamanho do seu negócio, nem das roupas que veste. O resto é encenação.

J.R. GUZZO

sexta-feira, 16 de setembro de 2022


Como ser um ditador
Jaime Cimenti
Como ser um ditador (Editora Intrínseca, 368 páginas, R$ 69,00 e R$ 46,90 E-book, tradução de Paula Diniz), do professor Frank Dikötter, catedrático de humanidades na Universidade de Hong Kong, membro sênior do Hoover Institution e autor de People's Trilogy, livros que documentam o impacto do comunismo na vida dos chineses, é considerado um autor referencial sobre a história da China.
Neste Como ser um ditador Frank Dikötter trata, com base em muitas pesquisas e com muita profundidade e originalidade, sobre o culto à personalidade no século XX, um tema que segue essencial para nossos dias, quando se discute democracia, liberdade, direitos humanos e cidadania.
O autor examina com detalhes a trajetória de oito tiranos (Mussolini, Hitler, Stalin, Mao Tsé-tung, Kim Il-sung, Duvalier, Ceausescu e Mengistu) e explica como regimes totalitários se consolidam às custas da adoração da figura do ditador.
Stalin se declarava ateu antes mesmo da revolução; Papa Doc Duvalier praticava vodu, religião dominante do Haiti; Mussolini e Kim II Sung erguiam estátuas de si mesmo para simbolizar a perpetuação no poder; e Hitler preferia que monumentos deveriam ser construídos para louvar os líderes do passado.
Apesar das diferenças pontuais nos estilos, há muitos pontos de conexão entre os tiranos. Um deles é o uso sistemático da violência e da repressão contra quem lhes é contra. Na obra, o autor analisa a trajetória de cada ditador e mostra a máquina de propaganda que fomentou o culto em torno de suas personalidades.
Com desfiles cuidadosamente coreografados e uso deliberado de censura para manter o mistério ao seu redor, os tiranos trabalharam incansavelmente a própria imagem e encorajaram a população a glorificá-la, perpetuando uma forma de controle que, de certo modo, foram aprendendo uns com os outros e com a história. Hoje, com flagrantes retrocessos de democracias em todo o mundo, estaríamos presenciando o renascimento destas técnicas entre alguns líderes mundiais? Putin, Viktor Orbán e Xi Jinping estariam bebendo na mesma fonte?

Lançamentos
Albertina Belmonte (BesouroBox, 144 páginas, R$ 44,90) é a estreia em romance da escritora, tradutora e professora Andréa Barrios, filha de uruguaios e nascida em 1976 em Porto Alegre, traz Albertina adulta nos libertários anos setenta, mas reprimida pela família tradicional. Ela buscou mais que só liberdade, como verão os leitores.
A Guerrilha Brancaleone (Editora Sulina, 152 páginas, R$ 44,90), de Cláudio Weyne Gutierrez, bancário aposentado, militante político e escritor, traz textos que mostram a possibilidade da construção de um projeto de convivência coletiva em épocas da ditadura, onde, apesar de tudo, havia esperanças de mundo e pessoas melhores.
Do Ciao ao Bah (Farol 3 Editores, 154 páginas) é a estréia literária da fisioterapeuta porto-alegrense Liliana Santagada. São dezenas de crônicas sobre a história dos imigrantes italianos da família Santagada em nosso Estado. Prefácio de Roberto Bortot, cônsul-geral da Itália no Brasil, no RS.

Padre Chagas, pós-pandemia

A Rua Padre Chagas, que é como se fosse 600 metros de Rua da Praia antiga e elegante, é o coração pulsante do Moinhos de Vento, embora, na minha opinião, não seja a rua mais charmosa do bairro. Óbvio que ela tem muito charme, mas outras ruas como a Luciana de Abreu, a Dinarte Ribeiro, a Santo Inácio ou a Barão de Santo Ângelo (especialmente a última parte, a chamada “Barão da Moda”) são mais charmosas. Verdade que quase todo o Moinhos, um dos boulevards mais históricos e importantes da cidade, tem charme e, graças a Deus, conserva passado, presente e futuro para a alegria de todos os porto-alegrenses, rio-grandenses, brasileiros e estrangeiros.
A Rua Padre Chagas tem aproximados 110 anos e o padre de seu nome foi Francisco das Chagas Martins Ávila e Sousa, que nasceu no Rio de Janeiro em 1788 e morreu em Piratini em 1865. Ele era descendente de casais Del Rey que povoaram Rio Pardo. Padre Chagas,
durante a Revolução Farroupilha, criou uma cisma na Igreja Católica no Rio Grande do Sul, negando obediência ao Bispo do Rio de Janeiro, que o nomeara Vigário Apostólico. Padre Chagas foi eleito deputado para a 1ª. Legistatura da Assembleia Legislativa do RS em 1835 e em 1842, como deputado mais votado, presidiu a sessão inaugural da Assembleia. O que é o estudo!
A Padre Chagas era quase que só residencial até algumas décadas atrás. Hojem tem residências, escritórios, consultórios, armazéns, bares, sorveterias, lojas e restaurantes e segue se reinventando. A Padre Chagas vive!
Caminhando pela Padre, pelo Parcão e outras ruas do bairro, atualmente, as pessoas ficam felizes vendo as novas construções, a vida em movimento e as pessoas respirando novos ares depois da tenebrosa pandemia. Como em outras cidades e países, há um certo clima de euforia, que lembra um pouco os “anos loucos” da década de 1920, que se seguiram à terrível Gripe Espanhola, que terminou em dezembro de 1920, depois de matar, no mínimo 50 milhões de pessoas.
Há algumas (muitas) placas de aluga-se na Padre, especialmente na primeira quadra e em outras ruas do Moinhos. Algumas operações fecharam, algumas abriram e a vida segue em ondas como as águas da Hidráulica Moinhos de Vento, onde, aliás, os prédios e os jardins de inspiração francesa seguem encantando os visitantes, que fazem festas, piqueniques e caminham , conversam, silenciam ou namoram naquela Paris-Versailles sem passaporte. Bem que o DMAE podia restaurar o revestimendo do Torreão e, quem sabe, permitir a visitação, até lá em cima, cobrando ingresso. Um pequeno quiosque com água, café e alguns alimentos poderia ser instalado nos jardins e, quem sabe, poderia haver mais banheiros. O local merece atenção e o DMAE poderia obter recursos com isso. Não parece muito complicado e a população da cidade ia ficar muito feliz.
Pois é, com o perdão do trocadilho, águas passadas, presentes e futuras movem o Moinhos, bairro que é de todos e que é nosso Leblon, Jardins (SP) e nosso Parcão-Central Park.

A propósito
Sempre é bom lembrar que o Moinhos é patrimônio de rio-grandenses, brasileiros e estrangeiros e que todos devem zelar por ele. Iniciativa privada e órgãos públicos devem somar esforços, junto com a população, para que o bairro siga vivo, saudável e elegante. Há quem reclame, com razão, de alguns aspectos do bairro, como segurança e limpeza, o que é normal. É preciso melhorar mais e mais o Moinhos, pois todos sairão ganhando com isso. Enfim, os anos passam, as modas e os points passam, mas o Moinhos segue firme e forte, mostrando que passado, presente e futuro estão juntos não apenas na memória da gente e em filmes, peças teatrais e séries. Viva o Moinhos, o bairro que não é moderno, é eterno.

16 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

O mágico pé de feijão

Minha mãe sempre me convidava para separar o feijão com ela. Dos filhos, era o parceiro habitual nessa tarefa noturna. Quando chegava da aula do contraturno, no entardecer, pendurava a mochila no gancho atrás da porta, vestia o avental de ajudante e me debruçava para catar feijão na mesa de canto da cozinha, aquela que jamais mudava de estampa: sempre vestida com a toalha plástica floreada.

Naquele tempo, comprávamos o produto a granel no armazém, a olho, servindo-nos com concha nos sacos de estopa. Não vinha limpinho e ensacado como o de hoje. Exigia de nossa parte uma seleção rigorosa. Não foram poucas as vezes em que espantamos insetos escondidos nas cascas negras.

No alguidar com água, repousávamos os grãos sadios, bonitos, inteiros, brilhantes, conferindo à elite das pedras o privilégio de boiar por dezesseis horas. No outro canto, fazíamos um montinho com os grãos pisados, quebrados, danificados, destinados ao descarte.

Eu sofria com a peneira porque eu me sentia o feijão "feinho". Não desejava que ele morresse ou que fosse banido do convívio doméstico. Até escondia um punhado no bolso, fantasiando uma embaixada para refugiados políticos.

A mãe captava o que eu sentia, a minha identificação emocional, a minha projeção de sentimentos, e não falava nada. Ela não me constrangia com perguntas difíceis sobre bullying na escola, não forçava confissões, não buscava a delação premiada de colegas que me incomodavam. Não tocava na ferida, no assunto, no meu medo. Fazia diferente, dava uma solução. Apanhava os feijões defeituosos e dizia:

- Esses têm uma missão especial. Não vão para a panela, mas para o quintal. Vão gerar outros feijões. Me ajuda a plantar?

Os grãos feiosinhos não eram jogados fora, mas cultivados na horta. Revezávamos a pazinha para depositar as sementes em feixes laterais. Depois de meses, elas se transformavam em plantas verdes, viçosas, com cálices nas folhas para guardar as lágrimas do céu.

Da mesma forma, eu nunca fui posto de lado pela família. Germinei com toda a paciência de que precisava para entender e sarar as minhas dores. O silêncio da cumplicidade cicatrizou qualquer fantasma da exclusão.

São os pequenos e discretos gestos aqueles que mais nos inspiram. Feliz do filho que, ao regressar da escola, reconhece um professor em seus pais.

CARPINEJAR

16 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

PARA A LEI IMPERAR

O barbarismo do novo episódio de guerra entre facções que eclodiu nas últimas semanas, com a Capital como epicentro, não poderia ficar sem respostas contundentes. Era imperioso deflagrar ações em várias frentes para conter a onda de violência e mostrar aos criminosos que as forças de segurança estão atentas e prontas para reagir, sem hesitação. Uma das estratégias já utilizadas em outros períodos de surto de selvageria voltou a ser empregada ontem, com a transferência de 13 homens ligados a quatro gangues para prisões federais em Mato Grosso do Sul, Rondônia e Rio Grande do Norte.

A Operação Império da Lei, em sua quarta fase, afasta delinquentes de alta periculosidade do Estado, dificultando que se comuniquem, emitam orientações de dentro das cadeias ou recebam informações das ruas. É uma medida correta e necessária. Desde a primeira vez que se usou este subterfúgio, há dois anos, 47 criminosos foram removidos do Rio Grande do Sul. O aparato de mais de 300 agentes envolvidos, ligados a 12 órgãos estaduais e federais, mostra que, em pouco tempo, foi possível organizar com êxito uma ação complexa, que exige mobilização e articulação entre diferentes instituições.

Esta foi a segunda conflagração em 2022. Nesta, em 32 diferentes ocorrências, em poucos dias, os conflitos entre facções por território deixaram 29 mortos e 42 feridos. As vítimas fatais não foram apenas integrantes das quadrilhas organizadas. Inocentes morreram nas trocas de tiros. Moradores das comunidades mais atingidas pelos conflitos foram aterrorizados. 

Era forçoso agir rápido, especialmente após o recrudescimento das disputas e assassinatos nos primeiros dias de setembro. A reação veio em forma de reforço do policiamento pela Brigada Militar, troca de comandos nos batalhões da corporação na Capital, esforços para identificar os líderes por trás da barbárie e detenções. Na terça-feira, a Polícia Civil gaúcha informou ter feito 25 prisões, desde o mês passado, de suspeitos de participação na sequência de ataques e revides entre os grupos de Porto Alegre e Região Metropolitana.

O governo gaúcho informou ainda ontem que está levando adiante o projeto de ter uma prisão com regime disciplinar diferenciado (RDD). Seriam 76 vagas, na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). É uma forma de segregar lideranças criminosas em celas individuais e reforçar o isolamento. Uma iniciativa bem-vinda, portanto, mas que também vai depender da concordância do Judiciário. Espera-se que seja possível chegar a esse entendimento, sob o devido amparo legal. Também é indispensável avançar na instalação de bloqueadores de celular em penitenciárias gaúchas para cortar a comunicação dos delinquentes e evitar que presos sigam aplicando golpes virtuais mesmo encarcerados.

Uma política de segurança eficaz, com resultado no longo prazo, deve ser transversal, passando por emprego, educação, projetos sociais e de ressocialização e inclusão pelo esporte, entre outras iniciativas. Mas, neste momento, para de fato imperar a lei, atitudes com impacto imediato são inevitáveis como complemento de policiamento em regiões críticas, investimentos em inteligência e qualificação do sistema penitenciário. A alta dos homicídios em agosto no Estado soou o alerta. A sociedade gaúcha, obviamente incluindo-se a população de áreas mais vulneráveis, quer e merece paz e tranquilidade para tocar a vida, sem ser acossada cotidianamente pela sensação de insegurança.


Rússia e China, uma "tempestade em formação"

Xi Jinping chamou Vladimir Putin de "velho amigo", ao que o russo respondeu, elogiando a "posição equilibrada" da China na questão da Ucrânia.

Cada um com seu próprio teto de vidro, os líderes que representam as maiores ameaças aos Estados Unidos e à ordem internacional liberal, erigida pelos americanos após a Segunda Guerra Mundial, reuniram-se ontem, no Uzbequistão, durante a Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, que agrupa, além de China e Rússia, outros países da Ásia Central.

Foi o primeiro encontro entre Putin e Xi desde o início da guerra na Ucrânia - e a primeira vez que o chinês saiu de seu país desde o início da pandemia da covid-19.

Os olhos do mundo estavam voltados para esse aperto de mãos porque, você deve lembrar, na última vez em que se encontraram, na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim, ambos prometeram uma "parceria sem limites".

Dias depois, em 24 de fevereiro, a Rússia invadiu a Ucrânia, e a reconstrução do mundo pós-pandemia ficaria ainda mais difícil com o conflito em andamento, que elevou os preços dos alimentos e gerou uma crise energética que ameaça, literal­mente, congelar a Europa no inverno que se aproxima.

Putin só tem a China a quem recorrer nesse momento mais delicado da guerra - quando suas tropas batem em retirada de algumas cidades, entre elas Kharkiv, e a liderança do regime começa a ser questionada internamente.

Desde o início do conflito, a China se tornou a grande compradora de commodities russas, diante das sanções ocidentais. O país também se absteve de votar a moção de condenação contra a Rússia na ONU porque tem seus interesses domésticos: sabe-se que um dia (a questão não é se, mas quando e como) fará com Taiwan o mesmo que a Rússia fez com a Ucrânia. Além disso, deseja manter atores externos afastados de seus assuntos internos, como Hong Kong, Xingjian e o Tibete.

Mas é claro que a China está desconfortável com o tamanho do estrago que a guerra provocou na economia global. Xi equilibra-se como pode: a fragilidade russa, quase dependente neste momento de Pequim, não é de todo ruim para seu poder emergente. Ao mesmo tempo, não interessa à China uma Europa, cliente de seus produtos, em maus lençóis. E muito menos passar a ideia às potências ocidentais de que irá prestar ajuda militar a Moscou, o que elevaria o risco de conflito direto com os Estados Unidos.

A China tem seus próprios interesses: sua economia, a segunda maior do mundo, deve ultrapassar a dos Estados Unidos na próxima década, e, hoje, o eixo de poder global desloca-se para o Oriente.

O país busca parcerias com vizinhos - ao que a ação russa na Ucrânia é vista como ameaça também aos interesses dessas pequenas nações.

Xi e Putin, entretanto, falam no mesmo tom em relação à ideia de que o Ocidente está decadente. E uma aliança entre os dois faz mover placas tectônicas da geopolítica. No encontro de ontem, Xi disse que a China trabalha com a Rússia, ao que Putin afirmou que seu país apoia a China em relação a Taiwan.

Apesar de tudo isso, o aperto de mãos entre Putin e Xi, ontem, é suficiente para que se possa prever turbulências no horizonte, ou, nas palavras do primeiro-ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong, "uma tempestade se formando".

RODRIGO LOPES 

16 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

Com bênção do Protetor

Com a conclusão das obras da estátua do Cristo Protetor em Encantado no radar, empreendimentos começam a se instalar na região para aproveitar o crescimento do turismo. O mais recente é o Boulevard Encantado, complexo que unirá hotel, restaurantes, centro comercial, áreas de lazer, centro de eventos e até um espaço com ambiente de metaverso.

E é para logo: a previsão é de que as obras comecem no próximo dia 26, com conclusão projetada para novembro de 2023. O investimento será de cerca de R$ 50 milhões, e há expectativa de geração de 400 empregos diretos e indiretos.

- Encantado é uma cidade linda, com paisagem que arrebata. Ao construir o Cristo Protetor, nossa cidade recebeu a atenção de todos. Vimos a necessidade de criar um projeto capaz de atender quem chega e, ao mesmo tempo, se integrar à paisagem local - destaca Fábio Vitória, CEO do Boulevard Encantado.

Localizado a cerca de dois quilômetros do Cristo Protetor, o complexo tem área total de 16 mil metros quadrados. O Grupo Laghetto administrará um novo hotel da rede no local, com 90 apartamentos. O centro comercial receberá ainda restaurantes, áreas de lazer, 21 lojas e mirantes com vista panorâmica para o Cristo Protetor, a lagoa Garibaldi e o Vale do Taquari.

- O empreendimento está centrado em três pilares: hotel, metaverso e centro comercial. A partir desse conceito, nosso desafio foi criar um projeto capaz de se integrar ao relevo e à paisagem local. Um dos detalhes é o mirante com vista para o Cristo, que também será espaço para eventos sociais e empresariais - afirma Fabrício de Medeiros, gestor operacional do Boulevard Encantado.

O Multiverso Experience foi projetado exclusivamente para o local e será administrado pela empresa Multiverso, que já atua no Cais do Porto, em Porto Alegre, e no Shopping Iguatemi, em Florianópolis. Para gerar menor impacto ambiental, o Boulevard Encantado terá estação de tratamento de efluentes, energia solar e uso de água da chuva.

Só no sapatinho

Nascida há quatro anos, a marca de sapatos infantis Petit Cheval triplicou de tamanho. Em 2021, o faturamento foi 220% acima do ano anterior. A empresa atua sem estoque: os pais dos "clientes" escolhem o modelo no site e, cinco dias depois, fica pronto. A pandemia impulsionou a venda online para 30 mil pares desde 2018, todos produzidos com matéria-prima e mão de obra locais.

MARTA SFREDO

16 DE SETEMBRO DE 2022
EDUARDO BUENO

Grêmio, 119

Foi uma espécie de Santa Ceia - só que com 32 convivas em vez de 12, e nenhum Judas, é claro. O jantar deu-se em frente ao paraíso - a Praça Paraíso, no coração de Porto Alegre. A hóstia era uma bola - a primeira a rolar na capital dos gaúchos. E a eucaristia consistiu em transformar o que antes fora vermelho em azul - sangue azul. Mas o que nasceu naquela noite de 15 de setembro de 1903, nunca foi um clube "de alemães ricos". Os 32 apóstolos reunidos no Salão Grau, em frente à então Praça Paraíso (hoje Praça XV), eram pequenos comerciantes, alguns alemães, outros luso-brasileiros. Eles fundaram um grêmio, um grêmio de futebol, em Porto Alegre. Chamaram-no Grêmio de Futebol Porto-Alegrense.

"Grêmio", explica o dicionário, quer dizer "lugar onde se encontra abrigo e repouso", "reunião de pessoas com interesses comuns" ou "seio", "peito", "regaço". Os rapazes que se reuniram ali para fundar o primeiro time da cidade chamavam-se Joaquim, José, Pedro. Seus sobrenomes eram Ribeiro, Dias, Chaves e Barcelos. Outros eram Koch, Bohrer e Haeffner. Naquela noite, seu sangue se tornou azul, mas eles jamais foram da "elite". A elite curtia remo, ciclismo e corridas de cavalo. E o futebol nascia para ser popular - graças ao Grêmio, aliás.

A narrativa de que o Grêmio era um clube exclusivista, dos "alemães da elite", começou a ser forjada em 1909, quando uns arrivistas que chegaram tarde até para as migalhas do jantar-fundador decidiram criar seu próprio clube. O drama cristalizou-se quando, mal saídos das fraldas, desafiaram o Grêmio para um confronto - e levaram 10 x 0. Passaram então a dizer que até a ata de fundação do Grêmio fora redigida em alemão e outras falácias mais. Como foi preciso adaptar a realidade à ficção, o ponta Moreira passou a ser chamado de "von Moreirosky". Mas os nomes Mostardeiro, Brochado e Xiru não foram mudados.

Como todos os times de futebol do Brasil, o Grêmio não aceitava negros. Demorou mais do que outros a fazê-lo pois se manteve no amadorismo até fins da década de 1930 e passou por um período sombrio nos anos 1940. Mas além de ser o time do coração do mais notável homem preto da história do Rio Grande, Lupicínio Rodrigues, o Grêmio de Tarciso, Juarez, Alcindo e Roger não foi contra a Liga da Canela Preta, como outras agremiações que andam por aí. O Grêmio teve a primeira torcida gay do Brasil e uma das primeiras só de mulheres. Leo Gerchmann já contou essa história e ontem lançou novo livro sobre o tema. Só que a IVI segue aí - e dizem que até aqui. Mas a era das fake news se encaminha para o fim.

O Grêmio, dono da maior torcida fora do eixo Rio-São Paulo, é do povo e é de todos. Parabéns, Imortal Tricolor, teus 119 anos de glórias cantam o Rio Grande com amor.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 15 de setembro de 2022


Storytelling x Storydoing

João Satt
David Aaker, guru mundial de branding, provoca: "Como dar vida ao propósito do seu negócio (marca) nesse momento pós-pandêmico?".
Simon Sineck definiu a importância do propósito em seu antológico vídeo "Why, What and How"; contudo, milhares de estrategistas não conseguiram entender como aplicar o conceito nos seus produtos, serviços e negócios. No fundo, é uma questão de pertinência.
Nem sempre um sentimento puro, belo, combina com o que você faz. O uso indevido de "causas", como inclusão racial, respeito às pessoas especiais, direitos transgêneros, ecologia, práticas de E.S.G etc., representam um risco se não houver a contrapartida da empresa.
No final do dia, perdem mais as empresas, com seus "comerciais e relatórios lavados de propósito", do que as pessoas.
A dúvida está em como atrair pessoas, considerando que preço e prazo não geram margem, tampouco fidelidade. O faturamento no ano de 2022, para a maioria das empresas, será menor do que em 2021.
Isso significa para um CEO exigente uma culpa e autocobrança permanente. Pensar diferente, ousar fazer o que os outros não fizeram ainda é a melhor receita.
As marcas que fazem histórias e são histórias (storydoing) estão se tornando mais importantes do que as marcas que apenas dizem coisas (storytelling).
O conteúdo entregue pela marca é mais relevante do que suas associações superficiais.
Se o storytelling da marca procura explicar uma característica melhor ou um benefício, o storydoing é mais potente pela experiência vivida.
Para entrar de verdade na vida das pessoas, o melhor caminho é fazer com que vivam a causa. Vulcabras e Natura vêm identificando com muito talento "vazios emocionais coletivos" extremamente potentes — um deles, sem dúvida, é o orgulho da nossa própria brasilidade.
E mais do que apenas dizer, estão sincronizando — novos produtos, ativação de canais, e promovendo ações que materializam esse sentimento junto a multiplicadores de opinião. É uma questão de ethos, muito mais do que apenas uma campanha.
Algumas dicas para dar início à construção de um movimento que acelere o desejo em prol de sua marca:
1. Foque em formular "causas apaixonantes". Ganhe a atenção das pessoas por aquilo que representa significado: pertencimento, reconhecimento, conforto, colaboração, cuidado, conveniência; enfim, a única coisa que consegue desmanchar a razão são os sentimentos.
2. Traumas são bons atalhos. Tocar nos pontos certos desperta importantes gatilhos emocionais. Todo trauma é um eterno presente. Existem oportunidades de ouro nessa direção.
a) Quem foi maltratado pela vida, jamais esquece.
b) Quem votou em um determinado candidato acreditando na sua promessa não cumprida, também jamais esquece.
3. Potencialize os mensageiros
Tudo está conectado. O que tem de mais moderno são as redes neurais estratégicas.
Energize as pessoas, todas: equipe de vendas, balconistas, influenciadores, intermediários, whatever... para chegar forte no consumidor final.
Marcas relevantes, daqui para frente, serão as que ativarem sistematicamente o seu propósito, tanto interna quanto externamente, por meio de ações que exijam fazer em vez de apenas contar.

15 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

O quase Ciro

Ciro Gomes (PDT) não emplaca como terceira via porque vai para a sua quarta eleição. É uma rodovia de ideias um tanto frequentada. Todos já o conhecem. Ouviram falar de seu plano de governo de renda mínima ou de anistia do SPC.

Não surge como novidade, e parece que será ultrapassado ao final da campanha pela Simone Tebet (MDB), que traz frescor aos debates e que já se vê empatada tecnicamente com ele, de acordo com as mais recentes pesquisas eleitorais.

Não que não esteja preparado para ser presidente, não que não seja sério, não que não tenha histórico legislativo e executivo (deputado estadual e federal, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda e da Integração Nacional). A questão é que ele se tornou folclórico. E tudo o que é folclórico vira inofensivo.

Cristalizou-se como um permanente quase, um coadjuvante, não ultrapassando um dígito nas enquetes. Ocupa um papel específico e restrito de incendiário nas acareações televisivas, com a missão de falar mal de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva. Tornou-se a pimenta no prato, jamais o prato.

Esperam-se já os seus rompantes e exageros. Esperam-se já os seus insultos e cálculos matemáticos. Espera-se que ele não ganhe as eleições. Aliás, ele sempre perde a corrida por antecipação, devido ao controvertido voto útil. Na hora H, entre os extremos, o povo se decide por quem é o "menos pior" para garantir ou evitar o segundo turno.

Ciro Gomes está há 24 anos buscando o Planalto, sem se habilitar a nenhum outro cargo eletivo desde 2011 (mais do que um longuíssimo mandato como senador). Seu intento eterno vem formalizando uma nova carreira: a de candidato a presidente. Uma figura assim costuma ser sustentada na entressafra pelas contribuições partidárias obrigatórias, o que não deve ser o caso de Ciro.

Na disputa de 2022, ele abandonou o bom senso da ex-ministra Marina Silva, que parou em sua terceira tentativa (2010/2014/2018), para incorporar a teimosia grandiloquente de Lula. Com a diferença de que o petista ganhou em sua quarta vez, em 2002, o que dificilmente acontecerá ao pedetista neste ano.

Eu votei em Leonel Brizola em 1989. Naquela época, por muito pouco - uma diferença de 0,6% -, ele não foi para o segundo turno. Eu sempre imaginei que o único governador eleito em dois Estados diferentes de toda a história do Brasil, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, se estivesse vivo hoje, subiria a rampa e colocaria a faixa verde-amarela no peito.

No entanto, ao reparar no quanto Ciro herdou a lábia irresistível do líder trabalhista, não permitindo que ninguém o interrompa, entrando em intermináveis solilóquios sobre teorias conspiratórias, constato, por tabela, que Brizola nunca chegaria à Presidência. Por mais que insistisse.

CARPINEJAR

15 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A DURA REALIDADE DA INSEGURANÇA ALIMENTAR

São alarmantes os resultados do estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Penssan) divulgado ontem sobre o quadro da fome no país. O levantamento constatou a existência de cerca de 125 milhões de pessoas com algum nível de incerteza quanto ao que terão para comer. Desde dúvidas quanto ao acesso à comida em algum momento à frente até a privação severa, caso de cidadãos que relataram passar um dia inteiro sem nada para ingerir.

De cada 10 famílias brasileiras, três sofrem com alguma das três variantes de insegurança alimentar: leve, moderada ou grave. Refletindo as desigualdades regionais do país, o trabalho mostra um panorama mais preocupante no Nordeste e no Norte. O Rio Grande do Sul, porém, apresenta números que requerem atenção, especialmente em relação a pessoas submetidas ao mais alto grau de falta de comida.

Conforme o estudo, 14,1% dos gaúchos passam por insegurança alimentar grave. É um percentual inferior à média nacional (15,5%), mas há 10 unidades da federação com taxa inferior. Isso significa que existe um substantivo número de rio-grandenses que, sem renda suficiente, passam fome.

Incluindo-se os três níveis, 47% dos habitantes do Estado padecem com algum risco em relação à nutrição. É a terceira menor porcentagem do país, o que não deixa de ser alentador diante da situação nacional, mas mesmo assim é uma realidade inaceitável, que requer ações para atacar o problema.

O estudo da Penssan detectou ainda que a perspectiva é ainda mais amarga nos domicílios brasileiros com crianças de até 10 anos de idade. Trata-se de um agravante, porque meninos e meninas com fome, comprovadamente, aprendem menos mesmo que frequentem a escola. Passou da hora de a sociedade não apenas se revoltar com os números, mas se engajar para cobrar soluções.

É inegável que o país, com crescimento médio do PIB pífio nos últimos anos, retrocedeu na inclusão social. A pandemia ainda afetou o emprego, a renda e elevou o custo de vida. O endividamento das famílias aumentou, o que também ampliou o número de famintos. O Brasil, que desde meados da década passada não figurava no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), voltou a integrar a lista neste ano. Em junho, em fase anterior do mesmo estudo, a Penssan divulgou que 33 milhões de brasileiros sofriam com algum grau de insegurança alimentar. Cerca de três décadas atrás, quando a população nacional era 27% menor, a quantidade era de 32 milhões, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Programas como o Auxílio Brasil e campanhas de arrecadação de mantimentos - como a que nasceu pelas mãos da Assembleia gaúcha - são meritórios e ajudam, mas não são o suficiente. Junto a iniciativas de transferência de renda mais bem calibradas, é preciso reestruturar redes de proteção, como as relacionadas à merenda escolar. É indispensável ainda que o país reencontre a estabilidade para assegurar um crescimento mais duradouro da economia, que possa ser apropriado também pelas camadas sociais baixas. Assim, mais pessoas, no Estado e no país, terão acesso à alimentação de qualidade na frequência necessária para uma vida digna. Não é crível que uma das maiores potências agrícolas do mundo tenha dezenas de milhões de habitantes nesta situação. 


15 DE SETEMBRO DE 2022
TULIO MILMAN

Olará, oleri

A Maya tem 11 meses, mas já odeia política. Tive certeza quando, durante a semana, um caminhão de som passou aqui na frente durante o soninho da tarde. Se ainda fosse Alecrim Dourado ou Galinha Pintadinha... não era. Os alto-falantes despejavam, volume máximo, uma música cheia de rimas ruins e promessas absurdas. Aí ela, que ainda não sabe falar, acordou e chorou, a plenos pulmõezinhos. Tentei explicar que os titios que fazem isso se dizem defensores da democracia e das liberdades individuais e, por isso, querem o voto dos adultos. "Olará, olerê, para fazer mais por você", cantei. Mais choro. É setembro.

Agauchei: "Olará, oleri, para fazer mais por ti". Fracasso duplo. Voltei à racionalidade. Argumentei para a minha filhinha que o dinheiro financiador dessa balbúrdia sonora vem do imposto do leite em pó, da fralda e da pomada contra assaduras que o papai e a mamãe compram pra ela. Me arrependi. Tá certo que pai e mãe sempre têm culpa, mas, nesse caso, não é uma escolha. "Orio, orio, orio, o imposto é compulsório", cantei com a melodia o mais suave possível. 

"Em, em, em, o fundo eleitoral também", completei. A zoeira da rua não dava trégua e atropelava meus arroubos artístico-paternos. Entre uma lágrima e outra, Maya fez aquela carinha de "E a minha liberdade individual de estar no meu quartinho e não ser importunada?". Não desisti. A democracia precisa de cada um de nós. Enquanto o caminhão finalmente se afastava, falei sobre a importância do voto consciente. Ela, olhos bem abertos, me encarou, como quem suplica: "Não dá para falar sobre isso quando eu estiver acordada em vez de dormindo, inconsciente?".

Mario Quintana descreveu poeticamente a vida nos centros urbanos: "Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas". Faltou dizer: ... e, de dois em dois anos, com barulho, amparado pela Lei Eleitoral, que invade as nossas casas. Que a Maya não me ouça. Não quero que a minha filhinha pense que atento contra o Estado democrático de direito. 

Vá que algum ministro do STF ouça as nossas conversas e determine busca e apreensão da câmera e dos registros da babá eletrônica? Mas qual gênio do marketing político acha que ganhará algum voto desse jeito? Que país é esse? Um cidadão pode optar por não se vacinar, mas não pode fugir de uma agressão sonora paga com dinheiro público dentro do seu próprio banheiro. Boas notícias: cansada do meu blá-blá-blá, a Maya voltou a dormir. Rezemos para a festa da democracia nos dar uma folga nos próximos minutos.

TULIO MILMAN


15 DE SETEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Uma cidade mais colorida

Porto Alegre vai ficar mais verde e florida. Que bom. A prefeitura acaba de abrir licitação para contratar uma empresa que terá a incumbência de plantar e cuidar de 5.420 novas mudas de árvores na cidade - a última vez em que isso ocorreu foi em 2019.

Entre as espécies selecionadas, estão ipês (como na foto), quaresmeiras, camboatás e jerivás (veja a lista ao lado). A maior parte delas virá do Viveiro Municipal e as demais serão compradas no mercado. Cerca de 2,6 mil irão sombrear e embelezar ruas, avenidas e praças onde houve maior retirada de plantas nos últimos anos e locais com menor arborização (como a Zona Norte), algo fundamental para melhorar a qualidade da vida urbana. Também serão atendidos pedidos de moradores (via telefone 156) que queiram receber plantios em frente a suas casas - medida mais do que acertada.

As demais mudas serão destinadas a áreas de preservação permanente - em especial na Zona Sul, nas proximidades do Arroio do Salso - como forma de mitigar as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera.

- A intenção é estender esse processo por cinco anos, que é o período necessário para a consolidação da árvore jovem. O grande diferencial será a manutenção. Isso é o que vai garantir o sucesso - diz a coordenadora de Arborização Urbana da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, Verônica Riffel.

O contrato

A empresa contratada será responsável pela abertura de canteiros nas calçadas de acordo com o porte de cada árvore. Além disso, deverá cuidar das mudas, com irrigação, adubação, poda de condução (para que cresça de forma correta) e reposicionamento de tutor (estaca de madeira), entre outros serviços. O contrato é estimado em R$ 3,6 milhões, e as propostas serão abertas no dia 19. Ganha quem oferecer o menor preço.

JULIANA BUBLITZ

quarta-feira, 14 de setembro de 2022


14 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Sem frescura ou metida a besta?

Há dois tipos de pessoa na vida: sem frescura ou metida a besta. É tudo uma questão de linguagem. O jeito como falamos nos revela. Ou você é simples e direto, ou cheio de eufemismos bonitos, enfeitando a sua condição. No fundo, somos todos iguais - o que muda são as palavras.

Veja em qual perfil linguístico você se enquadra no momento:

Pessoa sem frescura tem dor de cabeça. Pessoa metida a besta sofre de enxaqueca.

Pessoa sem frescura tem dor de barriga. Pessoa metida a besta se encontra indisposta.

Pessoa sem frescura se cansa. Pessoa metida a besta se esgota.

Pessoa sem frescura brocha. Pessoa metida a besta experimenta disfunção erétil.

Pessoa sem frescura faz intervalo. Pessoa metida a besta procrastina.

Pessoa sem frescura fica louca. Pessoa metida a besta fica estressada.

Pessoa sem frescura explode. Pessoa metida a besta surta.

Pessoa sem frescura é barraqueira. Pessoa metida a besta tem gênio forte.

Pessoa sem frescura enche a cara. Pessoa metida a besta bebe socialmente.

Pessoa sem frescura paga as contas. Pessoa metida a besta investe.

Pessoa sem frescura desmarca. Pessoa metida a besta reagenda.

Pessoa sem frescura se apaixona. Pessoa metida a besta se apega.

Pessoa sem frescura termina a relação. Pessoa metida a besta tira férias sozinha.

Pessoa sem frescura se sente feliz. Pessoa metida a besta se sente realizada.

Pessoa sem frescura passeia no shopping. Pessoa metida a besta dá um pulo no shopping.

Pessoa sem frescura compra em açougue. Pessoa metida a besta frequenta butique de carne.

Pessoa sem frescura faz churrasco. Pessoa metida a besta faz parrillada.

Pessoa sem frescura devora. Pessoa metida a besta degusta.

Pessoa sem frescura come mocotó. Pessoa metida a besta come dobradinha.

Pessoa sem frescura toma banho. Pessoa metida a besta relaxa.

Pessoa sem frescura vai ao banheiro. Pessoa metida a besta vai ao toalete.

Pessoa sem frescura usa Bom Ar. Pessoa metida a besta usa aromatizante de ambiente.

Pessoa sem frescura chama os amigos para festa. Pessoa metida a besta convida os amigos para open house.

Pessoa sem frescura presenteia. Pessoa metida a besta oferece uma lembrança.

Pessoa sem frescura elogia o dia de sol. Pessoa metida a besta elogia o céu de brigadeiro.

Pessoa sem frescura é demitida. Pessoa metida a besta passa por reposicionamento de carreira.

CARPINEJAR

14 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

PILARES DA COMPETITIVIDADE

Traz boas notícias e alertas para os gaúchos o Ranking de Competitividade dos Estados, do Centro de Liderança Pública (CLP), elaborado em parceria com a Tendências Consultoria. Instrumentos do gênero são úteis para os gestores vislumbrarem as dimensões analisadas que são pontos fortes e as que precisam de guinadas. O cotejo com as demais unidades da federação, de forma complementar, permite observar o desempenho relativo em relação aos pares e é um incentivo a mais ao aperfeiçoamento e à correção de rumos.

É animador que o Rio Grande do Sul, após cair uma posição na última edição do levantamento, tenha agora subido três. O Estado agora está em sexto lugar no país. Foi um dos três que mais galgaram colocações na classificação geral, mas segue superado pelos vizinhos Santa Catarina (2º) e Paraná (3º). Obter avanços, de qualquer maneira, é sempre positivo.

Maior competitividade significa, neste caso, o poder público ter mais condições de ser um agente facilitador e indutor do desenvolvimento econômico e social. Representa a ampliação das chances de os empreendedores locais progredirem e ainda elevação da possibilidade de conquistar investimentos, muitas vezes ferrenhamente disputados por outros Estados. As métricas também são critérios de atratividade. A competitividade, ao fim, traduz-se em bem-estar e renda para a população, além de melhores e mais eficientes serviços públicos oferecidos aos cidadãos e às empresas.

Especialmente empolgante é o fato de o Rio Grande do Sul ter ficado outra vez em primeiro lugar no país no pilar inovação. É, sem dúvida, resultado da contínua atenção à área nos últimos anos, em um esforço conjunto entre Estado, universidades, entidades e capital privado. Neste item, os gaúchos se destacam em depósito de patentes, empreendimentos inovadores, bolsas de mestrado e pesquisa científica.

Foram conquistadas ainda boas colocações em sustentabilidade social (3º), eficiência da máquina pública (3º), segurança pública (5º) e sustentabilidade ambiental (6º). Parte desta melhora, avalia o CLP, é resultante das reformas conduzidas no Estado nos últimos anos, como a da previdência e a administrativa. É a prova de que perseguir transformações estruturantes dá resultados palpáveis e eleva a competitividade.

Em cinco das 10 bases temáticas dissecadas, no entanto, o Estado não tem colocações ideais, como é o caso da educação (9º), ou então está em patamares preocupantes, a exemplo da solidez fiscal (25º) e infraestrutura (21º). Na parte fiscal, pesam negativamente itens como gasto com pessoal, índice de liquidez e taxa de investimento. Na infraestrutura, segundo o CLP, atrapalham o desempenho pontos como custo do saneamento básico, da energia e qualidade das estradas, entre outros.

Deve-se celebrar as fortalezas do Rio Grande do Sul e dar o justo reconhecimento em relação aos avanços. Mas a competitividade é um processo contínuo em que os movimentos das demais unidades da federação também devem ser considerados. O ranking oferece, além da visão ampla dos pilares, um olhar pormenorizado dos itens que os compõem. Assim, é possível se debruçar sobre as grandes deficiências do Estado a partir de suas minúcias e, com um planejamento consistente seguido por uma execução determinada, partir para solucioná-las.


14 DE SETEMBRO DE 2022
ELEIÇÕES 2022

"As nossas universidades públicas têm de se autogerir"

HAMILTON MOURÃO Candidato a senador no RS pelo Republicanos

Atual vice-presidente do Brasil, o general da reserva do Exército Hamilton Mourão, 69 anos, quer trocar o governo pelo Congresso ao disputar vaga ao Senado no RS. Nascido em Porto Alegre e egresso do Colégio Militar da Capital, chegou ao posto de comandante militar do Sul antes de deixar a ativa, em fevereiro de 2018, quando assumiu a presidência do Clube Militar no Rio. No mesmo ano, se engajou na chapa de Jair Bolsonaro. Na campanha ao Senado, Mourão diz que pretende auxiliar o Executivo a recuperar o controle do orçamento.

Nos últimos anos, percebe-se aproximação crescente entre os militares e a política no Brasil. O senhor não vê nisso algum risco para as próprias Forças Armadas ou para a democracia?

Vejo essa aproximação de forma normal. Ao longo da história do Brasil, tivemos inúmeros militares que participaram de processos políticos, sejam eleitos deputados, senadores, sejam eleitos presidentes. Não vou me referir ao período de presidentes militares, mas tem o próprio Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca, Eurico Dutra, né? Então, não é novidade. Pode ter sido novidade, vamos colocar assim, se você olhar os últimos 40 anos. 

Agora, o que não pode acontecer é a política contaminar os quartéis. Ou seja, o pessoal da ativa ser contaminado pela política. Isso já repeti várias vezes: se a política entra pela porta da frente de um quartel, a disciplina e a hierarquia saem pela porta dos fundos. E vejo que os comandos tanto da Marinha, do Exército ou da Força Aérea têm sido muito enfáticos em manter essa distância.

A reforma tributária vem se arrastando há anos. O senhor a considera necessária?

É absolutamente necessária porque o nosso sistema tributário é complicado, caótico. As pessoas têm dificuldade de entender como pagar impostos que estão devendo, e é caro. Custa hoje R$ 80 bilhões para empresas, pessoas, para o governo manter esse sistema em pé. E tem evasão, sonegação de R$ 400 bilhões por ano, ou seja, é sistema falho porque tem cesta de impostos enorme e alíquotas elevadas. Temos de reorganizar o sistema em duas etapas. Numa primeira, enxugar a quantidade de imposto. 

Dois grandes projetos que estão tanto no Senado quanto na Câmara passam por um imposto de valor agregado. Nós mandamos projeto, do IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, cobrado no destino, que é outra discussão que tem sobre onde cobrar e como. Óbvio que tem de ter momento de transição, redistribuição daquilo que é destinado para União, Estados e municípios. O projeto do Bernard Appy (economista), por exemplo, prevê 10 anos para fazer uma transição organizada. E, após reorganizar o sistema, diminuir a alíquota de modo que a gente chegue a uma carga de impostos compatível com o país de renda média que é o nosso. Hoje, a nossa carga equivale a 33% do PIB e tem de cair para 25% ou 26%.

Ponto importante para o RS é o acordo do regime de recuperação fiscal. O senhor entende que foi adequado ou, como senador, ajudaria a buscar algum ajuste?

A primeira coisa que as pessoas comentam é o momento em que foi feito, em final de governo. E as pessoas, inclusive o meu candidato a governador, que é o Onyx, ele considera que isso deveria ser discutido a posteriori. Existem reclamações a respeito do que é efetivamente a dívida, que deveria ser renegociada. Então, teria de, talvez, ter uma auditoria independente em relação a isso. (...) Acho que pode ser submetido a uma reavaliação.

Nos últimos anos, vimos o fortalecimento do orçamento secreto e do pagamento de emendas Pix, que dificultam o acompanhamento do destino final do dinheiro. Como o senhor se posiciona sobre esses temas? Usaria recurso de emenda Pix?

Eu sou frontalmente contrário a essa questão do orçamento dito secreto, que na realidade é a emenda RP9, de relator. Parte dela é essa que tu citaste, em que o cara manda pra onde ele quiser sem ter projeto, sem estar vinculado a nada. Isso é um absurdo.

Esses instrumentos acabaram implementados sob governo do qual o senhor faz parte...

O governo que assumir a partir de 1º de janeiro terá de encarar isso. Então, mesmo o nosso governo, o presidente Bolsonaro sendo reeleito, conforme eu julgo que será, ele terá de tomar uma posição em relação a isso porque perdemos o controle sobre a execução orçamentária. Isso está errado. E ele vai contar com a minha posição favorável para a gente recuperar para o Executivo o controle da execução orçamentária.

A educação vem perdendo recursos. Em relação à contribuição do Congresso para destinar verbas públicas, deve ser priorizada?

A questão de recursos da educação é muito mais de gestão do que de quantidade. Se você for analisar, em relação ao PIB, não gastamos tão pouco assim na educação quando comparados com outros países. E estamos vivendo um momento de inversão da curva demográfica. Em 2005, em torno de 30 milhões de crianças e adolescentes ingressaram na rede pública. 

Em 2020, foram 22 milhões. Ou seja, estamos com menos gente ingressando na escola porque menos gente está nascendo. E continuamos com aquela mesma massa de recurso. Então, está na hora de você melhorar a execução desse recurso no município, no Estado e no governo federal. No Ensino Superior, as nossas universidades públicas têm de ser capazes de se autogerir, porque elas dependem em tudo do mecanismo estatal. Então, a universidade, se faz convênios para fazer projetos, esse recurso é colocado no Tesouro, não volta para a universidade, acho que essa é outra discussão.

Com custo de mensalidade?

Com cobrança de mensalidade de quem puder pagar. Vejo dessa forma. Meus filhos estudaram em universidade pública, e eu tinha condições de pagar. Óbvio que não vai se pagar a mesma coisa que você cobra numa universidade privada. Porque parcela dos custos não está inserida. Na universidade privada, o custo do professor está inserido. Estive agora na Espanha há pouco tempo, na universidade de Salamanca. É pública, com mensalidade baixa, acho que US$ 1,5 mil por ano (cerca de R$ 7,8 mil no câmbio de 13/9).

O governo federal propôs a redução de alíquotas de ICMS, o que levou a queixas de perda de arrecadação por parte dos Estados. Como o senhor se posicionaria como senador?

Esse assunto foi discutido dentro do Congresso, com a presença de todas as bancadas e foi aprovado por ampla maioria. Foi uma PEC, não é? Então foi aprovado por uma maioria específica. Vejo também que o Estado que se sinta prejudicado tem de provar que está prejudicado, não só gritar que está prejudicado. Vamos lembrar que, por ocasião da pandemia, o governo distribuiu US$ 60 bilhões para Estados e municípios sob o argumento da queda da arrecadação, e a arrecadação não caiu nesse nível. Então, a turma ficou com o dinheiro em caixa.

 MARCELO GONZATTO