segunda-feira, 12 de setembro de 2022


10 DE SETEMBRO DE 2022
COM A PALAVRA  - 
COM A PALAVRA

economista, 30 anos Formado pela UFSM e com passagem pelo instituto Mises Brasil, foi secretário de Acompanhamento Econômico, Advocacia da Concorrência e Competitividade do Ministério da Economia

Muitos secretários do Ministério da Economia têm formação liberal, como Geanluca Lorenzon, 30 anos, que acaba de deixar o cargo de secretário de Acompanhamento Econômico, Advocacia da Concorrência e Competitividade. Formado em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pós-graduado em Competitividade Global pela Georgetown University, de Washington (EUA), antes foi diretor de Desburocratização da Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital. Com passagem pelo instituto Mises Brasil, referência ao economista liberal da chamada "escola austríaca", Lorenzon foi um dos autores da Lei da Liberdade Econômica. Atuou ainda na formulação da reforma administrativa, que avançou até ser travada para não criar conflito com servidores federais. Nesta entrevista, ao ser indagado sobre o alcance e o limite dos liberais no governo, pontua que o ideário pode ser aplicado conforme "o apetite político de cada momento".

QUANDO ASSUMIU, O MINISTRO PAULO GUEDES BRINCOU QUE ESTAVA LEVANDO CHICAGO OLDS PARA O GOVERNO, MAS TAMBÉM TINHA UMA TURMA DE JOVENS LIBERAIS, DA QUAL VOCÊ FEZ PARTE. QUAL É O ALCANCE E QUAL É O LIMITE DE UM LIBERAL NO ATUAL GOVERNO?

Liberais de verdade em Brasília mudaram o jogo do que era possível no Brasil. Ainda que tenhamos sido poucos, conseguimos ver o alcance com as maiores reformas microeconômicas desde 1988, resultados fiscais muito melhores do que o esperado e um projeto de país de longo prazo com investimentos já contratados para a próxima década. Já o limite, como em toda democracia, é o apetite político de cada momento.

A ÁREA DE CONCORRÊNCIA E COMPETITIVIDADE É EXTREMAMENTE SENSÍVEL, PORQUE O MERCADO AINDA TEM MUITAS DISTORÇÕES. QUAL É O GRANDE DESAFIO DO BRASIL NESSE TEMA?

Liberalizar os setores onde as empresas já estabelecidas ganham com a regulação atual que fecha a concorrência. Brasil tem a maior carga regulatória do mundo e a penúltima em qualidade, conforme rankings internacionais. O resultado disso é que, em cada setor, somente grandes empresas conseguem arcar com os custos e restrições colocadas em leis e normas. Precisamos revogar essas normas, ao máximo possível, para permitir um verdadeiro mercado capitalista com novos competidores. Somente assim teremos bens e serviços acessíveis a maior parte da população, diminuindo a desigualdade e promovendo inclusão.

QUAIS NORMAS JÁ SAÍRAM DE CENÁRIO, COM PROJETOS COMO O REVOGAÇO E A LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA, E QUAIS SÃO AS QUE AINDA DEPENDEM DE UMA REVOGAÇÃO FUTURA?

Pela primeira vez, executamos algo previsto em lei desde 1995: que todos as normas abaixo de decreto, como portarias, instruções normativas, resolução - que realmente definem as questões econômicas - deveriam ser revisadas e consolidadas. Aliás, existem muitas leis de desburocratização que simplesmente não são implementadas, seria interessante se o Ministério Público também desse uma atenção a isso, especialmente em âmbito municipal, pois a burocracia dá margem para arbitrariedade e corrupção. Em nível federal, foram milhares de revogações até agora. Mas algumas são muito mais significativas que outras. Às vezes, revogar só um pequeno trecho de uma lei já causa um ganho enorme ao país. Por exemplo, com a Lei de Liberdade Econômica conseguimos extinguir 10,3 milhões de alvarás e licenças para estabelecimentos de baixo risco. Hoje você consegue consultar em seu cartão CNPJ se tem essa dispensa. Revogamos a limitação que impedia acessar serviços online como declaração de imposto de renda pré-preenchida, transferência de veículos, assinatura digital de contratos, entre outras que antes demandavam registros ou o caro certificado digital. Hoje tudo está cada vez mais fácil. Leva tempo, mas estamos pela primeira vez avançando com passos largos.

UM FATOR CRÍTICO NESSA ÁREA É A QUESTÃO DA COMPETIÇÃO GLOBAL, QUE FOI ABORDADA POR GUEDES EM SUA PASSAGEM PELO RIO GRANDE DO SUL. ELE INSISTIU QUE É PRECISO ABRIR A ECONOMIA SEM EXPOR EM EXCESSO A INDÚSTRIA NACIONAL. COMO ESSA ABERTURA DEVE SER GRADUADA?

Calibrando cada diminuição das tarifas de importação com redução do Custo Brasil. Esse é um trabalho de décadas, mas demos o passo inicial. Por exemplo, é o primeiro governo da história que transformou o Custo Brasil em um indicador de performance, sob o qual temos uma listagem do que deve ser feito e o exato valor que cada uma dessas ações reduz nesse custo. Assim, conseguimos ir acompanhando o avanço e calibrando a abertura comercial, ainda que tenhamos oposição da Argentina.

UM DOS TEMAS EM QUE VOCÊ TRABALHOU RECENTEMENTE TAMBÉM É SENSÍVEL, O DE REGULAÇÃO DE JOGOS. QUAL É O ALCANCE DESSA ETAPA, É APENAS PARA APOSTAS ESPORTIVAS OU INCLUI OS FAMOSOS JOGOS DE AZAR, COM LIBERAÇÃO DE CASSINOS?

Somente apostas esportivas virtuais. O Congresso definiu que esse mercado fosse regulado como um todo, e agora cabe ao governo executar essa diretiva.

DO PONTO DE VISTA LIBERAL, QUAL O SENTIDO DESSA REGULAÇÃO?

Do ponto de vista liberal, quase nenhum. Mas a diretiva veio do Congresso e deve ser cumprida rigorosamente.

COMO RESPONDE ÀS CRÍTICAS DE QUE JOGOS E APOSTAS PODEM SER UM RISCO PARA OS ORÇAMENTOS FAMILIARES?

Essa é uma preocupação válida que levamos muito a sério, especialmente o impacto sobre as famílias. Mas os dados sugerem algo curioso. Se regulações restritivas ajudassem as pessoas a tomar decisões melhores para si mesmas, o Brasil - com a maior carga regulatória do mundo - seria o paraíso da civilidade e do respeito.

AINDA HÁ CRÍTICAS PELA FORMA COMO VÁRIAS PLATAFORMAS DE APOSTAS ESPORTIVAS JÁ ATUAM NO BRASIL, SEM REGULAÇÃO, MAS POR UMA BRECHA DE LEGISLAÇÃO. ISSO FAZ PARTE DO PROCESSO OU HOUVE FALHA REGULATÓRIA?

O padrão mundial de ouro de regulação é aquela sempre baseada no que chamamos de uma falha real: primeiro você tem um problema, depois você o estuda e somente após você regula - ainda que o problema seja meramente o risco de algo ruim acontecer. Óbvio que sempre existem exceções, mas no geral os países desenvolvidos seguem isso como princípio. Acredito que estamos, como Brasil, seguindo o caminho certo nesse sentido em relação a esse setor. Historicamente foi sempre o contrário: primeiro regulávamos e engessávamos tudo, e depois tínhamos que voltar atrás porque matávamos setores inteiros ou criávamos burocracias sufocantes que serviam para criar oligopólios.

PARA NÃO FALAR EM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS, QUANTAS VEZES INICIATIVAS DE ALGUM TIPO DE CONTROLE DE PREÇOS PASSARAM POR SUAS MÃOS?

Graças a Deus, aprendemos nos anos 1980 que controle de preços não funciona. Mas heranças anticientíficas de governos anteriores, neste caso de FHC, persistem com controles de preço na área de medicamentos, do qual temos que por lei definir o preço máximo de cada substância. No mais, toda vez que essa discussão surge, normalmente vinda do Congresso ou Judiciário, rapidamente agimos para impedir um retrocesso do tamanho dos fiscais do Sarney.

EXISTE ALGUMA PERSPECTIVA DE MUDANÇA NO CONTROLE DE PREÇOS DE MEDICAMENTOS?

Existem estudos da indústria que sugerem que dezenas de medicamentos a que americanos e europeus têm acesso não são vendidos ao Brasil porque a maneira como tabelamos medicamentos é muito ruim. Estamos debruçados sobre uma proposta sobre isso, e talvez tenhamos novidades ainda neste ano. Estamos falando de medicações que salvam vidas.

QUAL SUA POSIÇÃO SOBRE A VENDA DE MEDICAMENTOS ISENTOS DE PRESCRIÇÃO (MIPS) EM SUPERMERCADOS?

Nosso parecer oficial é 100% a favor que os MIPs estejam mais acessíveis a toda população. Vender MIPs em supermercado inclusive é um dos 1.008 quesitos objetivos de boa qualidade regulatória da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Quando algo é tão consolidado a ponto de ser uma recomendação explícita nesse nível, é porque você sabe que as evidências estão muito bem fundamentadas. Além disso, em nossa breve experiência com a liberação no Brasil nos anos 1990, não foi vislumbrado nos dados o terrorismo que alguns fazem se as pessoas pudessem comprar aspirina no mercado da esquina. Venda de medicamentos online também é uma prática mundial que deve ser tendência e tem potencial enorme de redução de custos.

A PROPÓSITO, EM QUE FASE ESTÁ O PROCESSO DE ADESÃO DO BRASIL À OCDE? O QUE JÁ ESTÁ ENCAMINHADO E QUAIS OS MAIORES DESAFIOS?

Brasil é o país mais avançado quanto à implementação das recomendações da OCDE entre os países convidados a fazerem parte da organização. Nosso desafio agora é continuar a implementação das demais recomendações. Temos mais algumas dezenas pela frente.

QUAL SERIA A VANTAGEM DA ENTRADA DO BRASIL NA OCDE?

Gosto de comparar a OCDE com um selo do ISO, ABNT ou Inmetro. Você não é obrigado, na maioria das vezes, a ter essas credenciais em seu negócio, produto ou serviço. Mas ter o reconhecimento desses selos demonstra que você faz aquilo com qualidade e profissionalismo. Estar na OCDE é isso: um reconhecimento de que o país é sério, que trabalha com dados e não com ideologias.

VOCÊ TEM FORMAÇÃO LIBERAL, COM PASSAGEM INCLUSIVE PELO INSTITUTO MISES. QUAL É SUA VISÃO DO LIBERALISMO APLICADO EM PAÍSES COMO O BRASIL?

Quanto mais pobre um país, mais ele precisa do liberalismo, porque não pode se dar ao luxo de fazer intervenções custosas que deixam mais caro produzir e gerar emprego. É por isso que não podemos ficar copiando leis europeias para realidades brasileiras. Precisamos do liberalismo no Brasil hoje, mais do que nunca, para não termos a inflação argentina e a indústria venezuelana.

DENTRO DESSA IDEIA, COMO SE FAZ BENCHMARKING (REFERÊNCIA) PARA APLICAR IDEIAS LIBERAIS NO BRASIL?

O Brasil é uma economia intervencionista tão antimercado que praticamente tudo de liberal que propomos é algo muito básico e difundido em outros países. Isso torna o trabalho de buscar referências muito mais fácil. O oposto também funciona: é só estudar a Argentina e fazer exatamente o contrário (risos).

ALGUNS LIBERAIS ESTÃO ENGAJADOS, POR EXEMPLO, COM O DEBATE DE UMA RENDA MÍNIMA UNIVERSAL, INCLUSIVE POR PROJETAR UM FUTURO DE EMPREGO DECLINANTE PELA SUBSTITUIÇÃO DE MÃO DE OBRA HUMANA POR AUTOMAÇÃO. QUAL SUA POSIÇÃO SOBRE O TEMA?

Antes das teorias liberais de Milton Friedman, talvez o maior dos chicaguistas, as políticas sociais deveriam ser o Estado tendo fábricas e produzindo comida, por exemplo. Após sua revolucionária teoria econômica, entendeu-se que, se desejamos ajudar os mais necessitados, é muito melhor entregar valores diretamente a eles, em vez de o Estado tentar produzir e distribuir bens. 

Foi assim que surgiram os vales do governo FHC, que depois viraram Bolsa Família e agora são o Auxílio Brasil. Nosso lema é que cada real para política social é melhor investido nesse tipo de programa do que em qualquer outro tipo de política. Mas não acredito que isso deva ir ao ponto de substituir empregos. Estamos muito longe de a automação retirar empregos. Tendo trabalhado em consultoria de estratégia por alguns anos, lembro-me que os projetos que envolviam inteligência artificial eram os que mais geravam demanda por mão de obra, não menos.

MAS ESSA MÃO DE OBRA PRECISA, ESSENCIALMENTE, DE MAIS EDUCAÇÃO E MAIS TREINAMENTO. COMO É POSSÍVEL PREENCHER ESSA NECESSIDADE DO BRASIL ATUAL?

Precisamos, com urgência, redefinir a forma como gastamos em educação. O Brasil tem gasto com educação de Primeiro Mundo, mas quando vamos ver a realidade é um dos que menos investe no ensino básico, ou seja, nas crianças. Uma fatia muito grande de dinheiro público vai para universidades que, em todo o mundo, atende somente a uma fatia da população. Se redirecionarmos nossa atenção ao básico, e darmos um enfoque especial aos cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, conhecidos internacionalmente como Stem, conseguiremos mudar o rumo desse barco.

DE TODAS AS POSIÇÕES DO LIBERALISMO, QUAL A MAIS CARA A VOCÊ? E QUAL SERIA FUNDAMENTAL PARA O FUTURO DO BRASIL?

Como advogado, acredito que seja o controle do tamanho do Estado, especialmente para não virarmos uma Argentina já em 2023. De fato, precisamos amadurecer sobre o que significa tamanho do Estado. Quando, nas eleições, discutimos política econômica, só se fala de temas macro: responsabilidade fiscal, orçamento, emendas. Precisamos entender que outra grande parte da política econômica é o micro: normas que fazem o Custo Brasil ser tão destruidor. Tenho orgulho de trabalhar no primeiro governo que tratou esse problema de maneira séria, e pela primeira vez quantificou o Custo Brasil e traçou um processo com metas e projetos reais para a redução.

COMO VÊ AS RESTRIÇÕES FISCAIS DO BRASIL, DENTRO DESSA PERSPECTIVA? E COMO ENCARA, JÁ QUE MENCIONA ORÇAMENTO E EMENDAS, O ATUAL FORMATO DAS EMENDAS DE RELATOR?

As restrições são dadas pelo modelo de gastança que herdamos de três décadas de social-democracia. Mas aos poucos estamos conseguindo estabelecer técnicas como gatilhos, metas e melhores práticas que estão mudando a realidade fiscal do país muito mais rápido do que se esperava. Os números estão aí. Quanto às emendas de relator, o Brasil sempre teve ferramentas para tentar harmonizar políticas públicas do Executivo e do Legislativo. Durante muito tempo, isso foi internalizado por meio da indicação política de ministérios - algo que este governo rompeu. 

Com isso, estamos vivendo um processo diferente: temos um Congresso mais autônomo e independente, muito similar ao presidencialismo americano, e que tem pauta própria, pois - ao contrário do parlamentarismo - Congresso e governo não são formados pelo mesmo voto. Falando nos americanos, notamos que as emendas de relator lembram as chamadas omnibus bills: cada lei sai com, literalmente, milhares de páginas, contendo bondades para cada distrito do deputado ou senador que votou a favor de pacotão. Parece ser um efeito do presidencialismo. O Brasil não é o único nisso.

MARTA SFREDO

10 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

CERCO AO CRIME E À BARBÁRIE

A irrupção de uma nova onda de violência entre facções nos últimos dias na Capital e em outros municípios da Região Metropolitana exigia, de fato, uma ação contundente das forças de segurança do Estado. A barbárie tem de ser estancada. Apenas entre o último domingo e a sexta-feira, 15 pessoas foram assassinadas a tiros em diferentes ocorrências. Em um único ataque, na zona sul de Porto Alegre, foram três mortos e mais de 20 baleados. Uma decapitação também relembrou o período de maior brutalidade entre grupos criminosos, com auge há cerca de cinco anos.

Agiram rápido a Brigada Militar, ao aumentar o policiamento ostensivo nos pontos críticos, e a Polícia Civil, que na quinta-feira deflagrou a operação Senhores do Crime e cumpriu mais de 20 mandados de prisão contra lideranças de três facções envolvidas. É preciso lembrar que esse foi o segundo surto de hostilidades entre correntes concorrentes neste ano. Uma resposta célere era indispensável. Como disse o delegado Alencar Carraro, diretor de investigações do Departamento de Investigações do Narcotráfico (Denarc), é preciso trabalhar, com a colaboração do Judiciário, para que estes indivíduos possam ser direcionados ao sistema penitenciário federal, isolando-os e evitando que emitam ordens e recebam informações de seus comandados. Muitos, inclusive, já estão presos. É mais um sinal a reforçar a necessidade de cortar a comunicação com as ruas.

Diante do desafio de um combate eficaz às facções, foi um bom sinal a reunião realizada na quinta-feira entre o prefeito da Capital, Sebastião Melo, e sua equipe, com o governador Ranolfo Vieira Júnior e a cúpula da Segurança do Estado, para troca de informações e alinhamento de estratégias. Não é admissível cogitar que existam regiões fora do controle do poder público. Ondas de violência do gênero sempre podem transbordar, atingindo inocentes. Os conflitos aterrorizam os moradores das comunidades, pessoas honestas e trabalhadoras em sua esmagadora maioria, com reflexos nas próprias atividades essenciais prestadas à população, como o atendimento à saúde e o funcionamento de escolas. Estes cidadãos necessitam da presença do Estado, para que possam tocar suas vidas com tranquilidade.

Chama atenção a revelação de que, enquanto os conflitos transcorrem, as lideranças seguem conversando diariamente sobre o controle de territórios e negociam armas e drogas. Os contatos foram descobertos ao longo das investigações da Polícia Civil. Ou seja, os soldados do crime parecem agir com certa autonomia, não necessariamente guiados por uma cadeia de comando. Muitas vezes atribui-se a acordos entre facções períodos de arrefecimento na selvageria, uma vez que os conflitos atrapalhariam os negócios criminosos. Mesmo que isso ocorra, não é possível aceitar como uma solução. É preciso manter o cerco, com o uso dos instrumentos de inteligência, monitorando os movimentos e sufocando financeiramente as lideranças, prendendo-as e isolando-as, avançando no bloqueio de sinal de celular nos presídios, ao mesmo tempo que o policiamento ostensivo inibe ações criminosas nas ruas e protege a população.

OPINIÃO DA RBS


10 DE SETEMBRO DE 2022
EMPREENDEDORISMO NO RS

Audácia mesmo na pandemia

Na pandemia, Joel provou que faz o tipo audacioso de empreendedor. Quando todo o comércio fechou as portas, precisou pensar em estratégias para seguir vendendo sem colocar a saúde dos clientes e dos funcionários em risco.

Uma delas foi oferecer um tour virtual pela Davanti, possibilitando que os clientes, por videochamada, conferissem os modelos de óculos nas prateleiras. A outra foi o serviço de tirar medidas dentro da casa do cliente com o máximo de segurança possível: antes, o vendedor fazia um teste rápido para covid-19.

As vendas triplicaram e, com capital acumulado, Joel abriu a segunda loja em dezembro de 2020, também na região central de Ijuí. Menos de um ano depois, em outubro de 2021, abriu a terceira, onde montou um laboratório digital que garante a entrega dos óculos em uma hora. Joel admite que sentiu medo de investir em plena crise sanitária, ainda mais com o trauma pelo fracasso de 2015. Mas seguiu um ditado que mantém na ponta da língua:

- É mais fácil ultrapassar 10 carros em dia de sol do que num dia de chuva. Quando tá chovendo, todo mundo freia. Se tu acelera, quando vier o dia de sol, estará lá na frente. Na pandemia, quando todo mundo freou, eu disse: "É agora que eu vou acelerar, porque uma hora vai acabar essa crise aí".

Joel planeja, agora, ser referência no ramo de óptica, relojoaria e joias em Ijuí e, quando alcançar esse objetivo, vender o negócio para os funcionários e se aposentar aos 42 anos. A ideia é tirar o pé do acelerador e, aí sim, ver a vida passar.

- Quero viver. Mesmo não sendo de família rica, sempre fui organizado, juntei dinheiro, investi. Desde os 25 anos junto para a minha aposentadoria. Não acredito na ideia de ficar velho para aproveitar. Quero aproveitar agora, com minha filha, com a minha esposa. Não acho que preciso deixar riquezas para a minha filha. Eu não tive nada e mesmo assim fiz minha história. Ela vai fazer a parte dela, como eu fiz a minha.



10 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

Sonho de noite de verão O shopping do Banrisul

Na próxima segunda-feira, o Banrisul lança seu marketplace (shopping virtual). Depois da mudança de marca, é mais um passo do banco estadual gaúcho no caminho da atualização. E também, claro, na busca de rentabilização.

O banco não detalha, mas o espaço terá lojas variadas, não será apenas um agregador de aplicações, inclusive de terceiros, como outros bancos estão adotando - caso do Bradesco.

O shopping virtual faz parte das iniciativas anunciadas no ano passado no Banrisul Day, destinado a analistas do mercado de capitais. Nesse âmbito, a diretora de Produtos, Segmentos e Canais Digitais do Banrisul, Claíse Rauber, já havia antecipado que um marketplace seria uma forma de atender a base de clientes e também de aumentar o uso dos cartões da instituição e de outras formas de pagamento.

O inverno ainda nem terminou, mas as noites já são povoadas de sonhos com a volta do horário de verão, extinto em abril de 2019. O mesmo havia ocorrido no ano passado, quando o país temia um racionamento, mas nem assim o adiantamento de uma hora nos relógios foi retomado.

A esperança de dias mais longos retornou ancorada na retomada de bares e restaurantes. No entanto, no Ministério de Minas e Energia, domina a avaliação de que não há tempo suficiente para "estudar eventuais benefícios com a medida". Integrantes do governo já admitem, extraoficialmente, que a medida é inviável para este ano. 

Oficialmente, "ainda não há definição com relação às implicações e implementação da referida medida". Se houvesse mudança de horário, teria de ser comunicada com dois meses de antecedência para que as atividades impactadas pudessem se reorganizar. Um exemplo é o transporte aéreo, que tem de refazer escalas de voos e de pessoas. Bancos e outros segmentos mais automatizados também seriam afetados.

+ ECONOMIA


10 DE SETEMBRO DE 2022
 ECONOMIA

Expectativa sobre "reinado ambientalista" de Charles

A expressão "rainha da Inglaterra" se popularizou como sinônimo de alguém que tem cargo e não manda nada. Mas a chegada ao trono do rei Charles III cria expectativas sobre como vai se comportar esse militante ambientalista que não terá poder de decisão. Aos 73 anos, tem oportunidade histórica: nunca se falou tanto sobre a questão ambiental nos círculos do poder.

Mas, como disse Elizabeth II em um de seus raros comentários políticos, "é realmente irritante quando falam, mas não agem". Dias antes, em outubro de 2021, Charles havia dado uma entrevista à BBC dizendo que entendia a frustração de ativistas como a sueca Greta Thunberg, que acusa políticos de não agirem diante da emergência climática. Reforçou o temor de que os líderes mundiais "se limitassem a falar" na COP26, em Glasgow, ponderando:

- A dificuldade está em lidar com essa frustração de forma construtiva, não destrutiva.

A provável agenda mínima de Charles III será fazer do Palácio de Buckingham um edifício neutro em carbono, como já são todos seus demais imóveis. Pode ser pouco, mas exercerá enorme pressão sobre os defensores do ambiente mais no discurso do que na prática.

E se iniciativas de Charles como príncipe tinham atenção limitada, como a Terra Carta, lançada no início do ano passado, terão outra visibilidade como rei. O documento é ambicioso, inspirado na Magna Carta de 1215, que limitou o poder dos monarcas da Inglaterra. Seu objetivo é criar um plano de recuperação da natureza, das pessoas e do planeta com investimento privado de US$ 10 bilhões até 2023.

Desde 2007, Charles mantém uma organização não governamental (ONG) chamada The Prince?s Rainforests Project (Projeto do Príncipe para Florestas Tropicais). A ONG trabalha com governos, empresa e organizações em busca de soluções para o desmatamento, usando o mote que acabou de ecoar no Brasil no Dia da Amazônia: fazer com que árvores tenham mais valor vivas do que mortas. Agora, o chefe de Estado do quinto país mais rico do mundo quer salvar a Amazônia.

+ ECONOMIA

10 DE SETEMBRO DE 2022
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Presença em Londres

Na quinta-feira, tão logo surgiram as primeiras notícias de que a rainha Elizabeth II estava sob supervisão médica e os seus familiares haviam sido chamados com urgência ao castelo de Balmoral, na Escócia, prontamente as redações da RBS TV e Integrada (ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho) deram início a uma mobilização para deslocar da forma mais rápida possível um jornalista a Londres. Em grandes coberturas, ter um olhar próprio sobre o que está acontecendo proporciona um conteúdo diferenciado aos telespectadores, ouvintes e leitores.

Nenhuma das alternativas permitia que um profissional chegasse lá em poucas horas. Foi quando a gerente-executiva de Jornalismo da RBS TV, Ellen Appel, trouxe a informação de que o repórter Marco Matos estava em Paris, às vésperas de retornar ao Brasil após período de férias pela Europa. Ellen na mesma hora entrou contato com Marco sobre a possibilidade de viajar para a capital inglesa. Nessas horas, mesmo conscientes de que os desafios são grandes, jornalistas costumam vibrar, pois sabem que estão diante de fatos históricos. E não foi diferente com Marco.

Quando veio a notícia da morte de Elizabeth, Marco já estava se dirigindo à estação para embarcar no trem que o levaria à Inglaterra. Poucas horas depois, já em frente ao Palácio de Buckingham, o repórter entrava com boletins ao vivo na Gaúcha e mandava textos e vídeos para GZH.

- Não tive dúvidas sobre a importância de correr para Londres. Foram duas horas entre eu estar sentado na beira do Rio Sena até estar sentado no trem indo para Londres. É um momento histórico. A despedida de uma das maiores personalidades do mundo, talvez a mais emblemática do último século. Cobrir isso tudo para o Grupo RBS é um grande desafio e uma responsabilidade - conta Marco, que entrou em 2012 na empresa como estagiário em Caxias do Sul e hoje está à frente da previsão do tempo na RBS TV.

Os conteúdos sobre os funerais da rainha estão nas páginas 22 a 24.

A partir desta segunda-feira e até o dia 21, ZH publicará artigos de oito candidatos a governador do Rio Grande do Sul. Foram convidados a responder por que querem governar o Estado os postulantes de partidos com ao menos cinco representantes no Congresso. A ordem de publicação dos textos é alfabética, conforme o nome que será apresentado na urna eletrônica no dia da eleição.

DIONE KUHN

10 DE SETEMBRO DE 2022
J.R. GUZZO

J.R. GUZZO

7 de Setembro e as lamentações

Passado o 7 de Setembro, com as fotos, vídeos e relatos pessoais atestando que multidões foram às ruas em todo o Brasil, a esquerda nacional e o seu candidato à Presidência da República entraram num clima de funeral indignado. Só havia um resultado aceitável para eles: um fracasso indiscutível de público no comício eleitoral em favor de Jair Bolsonaro que se colou de Norte a Sul às comemorações dos 200 anos de Independência do Brasil. 

Deu o exato contrário. Como já tinha acontecido no ano passado, o 7 de Setembro e o apoio a Bolsonaro, transformados numa coisa só, reuniram centenas de milhares de cidadãos em praça pública num ato político - e o atestado mais evidente disso foi a intensidade da sinfonia de lamentações na oposição. Se tivesse ido pouca gente, estariam em festa. Como foi gente demais, ficaram revoltados e foram reclamar com o juiz.

O PT e a confederação de interesses que apoia a candidatura Lula tentaram, no começo, assustar a população com ameaças de que "os bolsonaristas" iriam provocar violências; seria inseguro sair à rua. Também poderia ser "contra a lei", advertiram outros. A um certo momento, contaram até com o serviço de meteorologia - iria chover e a manifestação seria um fracasso. 

Nada disso deu certo. As pessoas lotaram a rua e o seu recado era óbvio: nós viemos aqui para dizer que vamos votar em Bolsonaro nas eleições do dia 2 de outubro. Pode haver alguma dúvida quanto a isso? Não, não pode - só nas análises dos formadores de opinião, mas não na vida real. A comemoração dos 200 anos da Independência do Brasil foi um manifesto político.

Numa ofensiva possivelmente desesperada, do ponto de vista da racionalidade jurídica ou política, Lula e o PT querem agora acusar Bolsonaro de uma porção de "crimes" por sua participação no Dia da Independência. Não tem nexo. Ele é o presidente da República; tem, em primeiro lugar, a obrigação de comparecer. Do que estão reclamando, então?

Lula, diante do que aconteceu, não disse nada de útil - resumiu-se a estar ausente na festa em que se comemorou os 200 anos de Independência do Brasil e fazer, depois, um lamento. Não explicou por que não saiu à rua; ele que se diz o maior homem do povo que o Brasil já teve em toda a sua história. Centenas de milhares de cidadãos foram à praça pública apoiar o adversário de Lula nas eleições. Ninguém saiu para dizer que o apoia. É o saldo do dia 7 de Setembro.

J.R. GUZZO

sexta-feira, 9 de setembro de 2022


 A liberdade por F. A. Hayek
Jaime Cimenti
Os milênios vão passando e os seres humanos seguem debatendo as eternas e cruciais questões que envolvem estado, democracia, indivíduos, coletivo e liberdade. 'A Constituição da Liberdade' (Avis Rara - Faro Editorial, 480 páginas, R$ 94,90), obra publicada pelo grande professor, pensador e escritor austríaco F.A. Hayek, originalmente escrita em 1959, é considerado, por muitos, como um dos grandes clássicos da filosofia política do século XX.
F.A. Hayek recebeu o prêmio Nobel de Economia em 1974, escreveu mais de 15 livros, entre os quais "Direito, Legislação e Liberdade", que será publicado no Brasil pela Faro Editorial - que já publicou entre nós "Os erros fatais do socialismo", "O Renascimento do Liberalismo" e "A ordem econômica e a livre iniciativa".
'A Constituição da Liberdade' mostra a defesa dos princípios de uma sociedade livre, lançando um olhar cético sobre a criação de muitas leis em prol do elevado bem-estar social e examinando os desafios à liberdade colocados por um Estado em constante expansão - bem como seu efeito corrosivo na criação, preservação e utilização de conhecimento. Hayek contraria os que exigem que o poder público desempenhe um papel maior na sociedade e apresenta argumentos para a prudência. Para o autor, um sistema de livre mercado em uma política democrática representa a melhor chance para a existência contínua da liberdade.
Atingindo um equilíbrio entre ceticismo e esperança, os brilhantes insights de Hayek são mais oportunos e mais bem-vindos em nosso país, num momento em que as discussões sobre a necessidade de uma revisão da nossa constituição começam a acontecer.
Segundo o 'The New York Times', a obra é "um estudo reflexivo, muitas vezes mordaz, sobre a natureza de nossa sociedade ocidental e seu pensamento dominante por alguém que se opõe apaixonadamente à coerção de seres humanos pela vontade arbitrária de outros, que coloca a liberdade acima do bem-estar e acredita na prosperidade como resultado." 

Lançamentos

  • Ícaro Acorrentado (Editora Calypso, R$ 25,00) é o 23º livro da jornalista, poeta e escritora Susana Vernieri, que apresenta 24 pequenos textos (poemas, contos) que versam sobre a palavra e a falta desse mágico atributo humano, será lançado dia 29/09, às 17h, no Café do Avesso (Rua da República, 303, bairro Cidade Baixa).
  • Tudo que você sempre quis saber sobre os homens que amam cinema (Autografia, R$ 44,90; 218 páginas) de Axel B., economista, mestre em Planejamento Urbano e Regional e Doutor em Questões Ambientais traz sensíveis, belos e densos textos sobre filmes e homens e como entender os homens através de grandes filmes.
  • O apartamento de Paris (Editora Intrínseca, 336 páginas, R$ 47,00) da escritora Lucy Foley, é um suspense imprevisível ambientando num prédio chique de Paris. Ela escreveu os best-sellers A última festa e A lista de convidados. Um socialite, um bonzinho, um bêbado, uma angustiada e a concierge estão na lista que detém a chave para o mistério.

História da música em Porto Alegre por Arthur de Faria

Porto Alegre, como a gente sabe, é uma cidade cinemeira e cervejeira. Nossa cidade é um rico mosaico étnico e cultural e também é uma cidade marcada por uma importantíssima história musical. Ritmos açorianos, músicas de origem italiana e alemã, samba, mpb, jazz, rock, hip hop, nativismo e música erudita nunca faltaram na capital, onde nasceram, entre outros gigantes, Elis Regina, considerada por muitos a maior cantora brasileira; Lupicínio Rodrigues, um de nossos maiores compositores; e Radamés Gnattali, grande arranjador, compositor e pianista. Como disse Erico Verissimo, há umas sete ou oito décadas atrás, com orgulho, certa vez, "eu venho de uma cidade que tem uma orquestra sinfônica".
Porto Alegre - Uma Biografia Musical - Volume 1 (320 páginas, Arquipélago, R$ 79,90) do consagrado músico, arranjador, compositor, produtor e diretor cultural e escritor Arthur de Faria, por sua amplitude, rigor, consistência e profundidade, é obra que nasce clássica e referencial, cobrindo nossa história musical desde o início do povoamento até o final da Era do Rádio, no começo dos anos 1960, passando pelo folclore açoriano, pelos vários carnavais, pelas junções de rua, pelo surgimento dos primeiros espaços culturais e pela era do jazz. Após a era do rádio, a televisão e o videoteipe revolucionaram o mundo da música. O livro celebra, com muito amor, os 250 anos de Porto Alegre.
Depois de 32 anos de envolvimento do autor com os temas da obra, revirando os mais variados acervos e entrevistando personagens e pesquisadores em busca de relatos, textos, imagens e sons que o ajudassem a reconstruir nossa memória musical, Arthur nos oferece uma prosa solta e bem-humorada e mostra a formação da cidade de uma perspectiva musical, porém indissociável dos acontecimentos políticos e sociais que se entrelaçam na narrativa.
Arthur nos fala, de início, em nossas origens, quando viveram em Porto Alegre os povos Minuano, Charrua, Tapes e Guarani-Mbya. Logo após, conta a saga dos gaúchos que levaram o maxixe a Paris. No capítulo seguinte, o livro traz a utopia da Casa A Eléctrica, a segunda fábrica de discos do Brasil, que foi objeto de um importante livro do pesquisador e músico porto-alegrense Hardy Vedana.
Um capítulo inteiro do livro é dedicado, com justiça, a Octávio Dutra, astro-rei da cena musical da cidade nas primeiras décadas em várias atividades como professor, músico, compositor e até diretor de blocos de carnaval e estudantinas.
Nos demais capítulos, o autor trata desde a Belle Époque até a era do jazz, de Dante Santoro, de Paulo Coelho, Chiquinho do Acordeom, Edu da Gaita e da Era do Rádio, sempre com amparo em grandes pesquisas e através de linguagem afetiva e bem-humorada, que sintoniza bem com nossa rica e diversificada história musical.

A propósito...

Arthur de Faria, que já escreveu Um século de música no Rio Grande do Sul e Elis: uma biografia musical, está preparando novos livros sobre a vida musical de Lupicínio Rodrigues e Radamés Gnattali e pretende, também, escrever sobre rock e nativismo gaúchos, com foco em Porto Alegre. Enfim, a história da Capital gaúcha não pode prescindir da história da música e dos músicos na cidade. As várias épocas, músicos, palcos e plateias e as várias trilhas sonoras merecem o devido e competente registro e devemos agradecer e comemorar a paixão de Arthur de Faria por nossa música e saudar seu talento multimídia. No final do livro, agradecimentos às pessoas que ajudaram a financiar a obra e aos que prestaram depoimentos, bem como excelente bibliografia sobre o tema central da obra.. 
Jaime Cimenti


09 DE SETEMBRO DE 2022
CELSO LOUREIRO CHAVES

Philip Glass

Ouvir a Sinfônica de São Paulo tocar Floresta Villa-Lobos é uma felicidade. Setenta minutos ininterruptos de música, imaginados para um concerto no Carnegie Hall. Tudo em torno de Villa-Lobos, mas não só: Tom Jobim também comparece, assim como o decano da música brasileira de concerto, o catarinense Edino Krieger, e Almeida Prado, compositor que não está mais conosco. O registro do concerto vale a visita no YouTube.

Pois lá a folhas tantas, a Osesp mergulha em duas peças de Águas da Amazônia de Philip Glass. São só cinco minutos de música, retirados de uma composição que começou como música de balé, foi dada de presente para o grupo mineiro Uakti, circula como peça para percussão, mas também existe num arranjo para sinfônica. Nesta versão, bem que a música de Glass se aproxima de... Villa-Lobos.

É raríssimo uma orquestra brasileira tocar Philip Glass. Uma vez, quando observei isso para músicos de orquestra, os argumentos "do outro lado" (o lado de quem toca) vieram firmes e fortes. A música de Glass seria um tormento para os instrumentistas, por causa das inúmeras, quase infinitas, repetições. É um labirinto do qual, dependendo do nível de (des)atenção, não se sai mais.

Eu já tinha conversado com Glass sobre isso e ele observou que, se a atenção não for mesmo total, o tropeço é certo. Não lembro se a respeito de uma ópera ou do concerto para violino, ele contou a história de músicos em lágrimas, depois de fazer pouco da partitura achando que era fácil de tocar. É verdade: quando toquei as Metamorfoses de Glass num recital, o pânico parecia estar logo ali.

Mas isso foi antes. A técnica instrumental e o domínio da concentração de performance vão se ampliando com o tempo. As gravações da música de Stravinsky feitas nos 1920 são dolorosas na descoordenação - eram coisas quase impossíveis de tocar. Hoje já não. As orquestras teimaram em aprender, os regentes em reger. Isso foi com Stravinsky, lá atrás.

A mesma coisa talvez esteja acontecendo agora com Philip Glass. Música que já foi árida de tocar, agora começa a se transformar em feijão com arroz. Repetir a mesma coisa (aparentemente) durante horas é quase corriqueiro. Assim, as sinfonias de Glass continuam estreando uma após a outra e as óperas entraram no mainstream. Tudo indica que, agora, tocar Glass está começando a ser o novo normal. Os cinco minutos de Floresta Villa-Lobos que o digam.

CELSO LOUREIRO CHAVES

09 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O FIM DA ERA DE ELIZABETH II

O mundo se despede de uma das figuras mais marcantes das últimas décadas. A rainha Elizabeth II, a mais longeva monarca do Reino Unido, morreu ontem aos 96 anos, no Castelo de Balmoral, na Escócia, local que costumava frequentar nos meses de verão. Ao longo dos 70 anos de reinado, Elizabeth Alexandra Mary foi sobretudo um símbolo de estabilidade para a família real e seus súditos, mas também foi uma personalidade admirada ao redor do planeta pela postura de discrição, dignidade e decência.

Proclamada rainha aos 25 anos, em 1952, por uma casualidade desencadeada pela decisão do tio Edward VIII de abdicar ao trono para se casar com uma plebeia divorciada, Elizabeth II foi testemunha e protagonista de alguns dos mais dramáticos episódios dos séculos 20 e 21. Atuou nas Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial, viu já como monarca o processo de perda de influência do Império Britânico, a tensão da Guerra Fria, o esfacelamento da União Soviética e, mais recentemente, o Brexit e a pandemia da covid-19.

Apesar de não exercer função política ou administrativa pela característica da monarquia constitucional britânica, Elizabeth II foi, no transcorrer de perturbações geopolíticas, conflitos bélicos e crises internas, uma voz firme mas acalentadora a passar mensagens de união e de resiliência para a população. Como alicerce moral do Reino Unido moderno, deixa como legado a prova de que carisma e serenidade podem caminhar juntos na personalidade de uma liderança. Assim, conquistou profundo respeito e admiração, administrando com retidão inclusive os escândalos que envolveram a família real. Construiu a sua reputação pelo exemplo, preservando a instituição da monarquia.

Por coincidência, a última mensagem oficial da rainha foi direcionada aos brasileiros. Elizabeth II parabenizou o país pelo Bicentenário da Independência e lembrou recordar-se com carinho da visita que fez ao Brasil em 1968.

Com o falecimento, após sua saúde vir gradativamente se deteriorando nos últimos meses, a coroa britânica será assumida pelo filho mais velho da monarca, o príncipe Charles, 73 anos. Reinará como Charles III e chega ao trono em meio ao grave conflito entre Rússia e Ucrânia, que causa consequências duras na Europa, principalmente quanto ao fornecimento de energia e à inflação. Espera-se que o novo soberano e chefe de Estado tenha sabedoria e temperança para que, com suas atribuições, mesmo que de caráter mais simbólicos, ajude o Reino Unido e o mundo a perseverar na busca por dias melhores. 


09 DE SETEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

Nasce na Serra a primeira van 100% elétrica do Brasil

Na carona do crescimento do mercado de veículos elétricos no Brasil, a gaúcha Arrow Mobility desenvolve a primeira van 100% elétrica do país (as imagens ao lado ainda têm certo mistério porque o veículo só será lançado em novembro). A empresa foi criada em 2020, em Caxias do Sul, por três sócios com experiência no segmento, para prestar serviços. Mas viram surgir uma oportunidade.

- Precisávamos de um produto inovador, e como já prestávamos serviços para empresas de ônibus, decidimos investir em vans, que têm demanda crescente para entregas - conta Marcelo Simon, um dos fundadores.

A Arrow One usa o conceito "walk-in-van", ou seja, o motorista tem acesso ao compartimento de carga sem precisar sair do veículo, o que dá mais agilidade e segurança. Também é possível mudar a configuração de carga para transporte de passageiros. As primeiras cem unidades já foram encomendadas pela Localiza.

- A Localiza tem um setor próprio de aluguel de frotas independente do aluguel de carros, e serão pioneiros no mercado nacional em oferecer uma van elétrica - diz Simon.

A fábrica da Arrow tem pouco mais de 30 colaboradores. Na montagem, o objetivo é ter apenas peças nacionais. Como fica em Caxias, um polo metalmecânico, grande parte dos fornecedores são da Serra.

Além disso, a Arrow tem parceiros em Minas Gerais e São Paulo. Conforme Simon, no médio prazo a empresa deve continuar importando somente as baterias dos veículos.

- A bateria que a gente usa atualmente é desenvolvida por uma fabricante chinesa, a mesma que fornece para a Tesla, e hoje não há nada parecido sendo feito por aqui. No momento que tivermos uma bateria competitiva no Brasil, em qualidade e custo, poderemos também fazer essa substituição - reforça.

O principal alvo é o Brasil, onde busca acordos com empresas de varejo com alta demanda de entregas, ou transportadoras que prestem serviços a essas companhias, mas também há foco no Exterior. Pretende começar em 2023 seu plano de internacionalização, visando os principais mercados de veículos elétricos na América do Norte, Europa e Oceania.

MARTA SFREDO

09 DE SETEMBRO DE 2022
APÓS DECRETO PRESIDENCIAL

R$ 1,7 bi para o orçamento secreto

O governo federal liberou o pagamento de R$ 1,7 bilhão em emendas do orçamento secreto dois dias após o presidente Jair Bolsonaro assinar um decreto na véspera do feriado de 7 de Setembro destravando as verbas de interesse dos parlamentares. Bolsonaro adiou repasses da cultura e da ciência e tecnologia para abrir o espaço para as emendas.

As verbas estavam bloqueadas desde o início de agosto. De lá para cá, o presidente assinou duas medidas provisórias (MPs) prorrogando repasses que estava obrigado por lei a fazer ainda em 2022, relativos ao setor cultural e ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A manobra libera R$ 5,6 bilhões neste ano para o orçamento secreto.

Com o decreto assinado e publicado no dia 6 de setembro, em edição extra do Diário Oficial da União, os órgãos do governo ficaram livres para destravar as emendas que estavam bloqueadas. Essa é uma demanda do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e de outros líderes do centrão, grupo que, agora, pressiona o Executivo para liberar os pagamentos até a data das eleições.

Tecnicamente, o valor de R$ 1,7 bilhão diz respeito à verba desbloqueada nos ministérios carimbada com as emendas de relator, que alimentam o orçamento secreto. Com o desbloqueio, o governo está pronto para empenhar os recursos, ou seja, garantir o pagamento aos redutos eleitorais dos parlamentares. Na prática, os padrinhos das emendas poderão fazer propaganda com os recursos liberados. O governo usa os repasses em troca de apoio político no Congresso.

O Ministério do Desenvolvimento Regional, uma das pastas mais estratégicas para o orçamento secreto, aquela que usa o dinheiro para doar tratores e asfaltar ruas a pedido dos parlamentares, foi priorizada no desbloqueio, com R$ 1,1 bilhão liberado. O Ministério do Meio Ambiente, por outro lado, ficou atrás e só conseguiu R$ 8,5 milhões na manobra. As informações foram levantadas pela Consultoria de Orçamento da Câmara.

Disputa

O decreto de Bolsonaro provocou críticas no Congresso, especialmente da oposição. Ontem pela manhã, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, publicou texto em rede social para criticar a MP editada pelo governo federal.

"Decreto publicado na véspera do feriado dá liberdade ao governo pra bloquear e desbloquear verbas e libera R$ 5,6 bilhões em emendas do orçamento secreto. Bolsonaro usa a máquina pública sem dó pra tentar ganhar as eleições. Justiça eleitoral precisa agir", escreveu a petista.

Parlamentares querem votar um projeto para reverter a decisão do governo e ameaçam derrubar o decreto no Supremo Tribunal Federal (STF). As duas medidas provisórias assinadas por Bolsonaro que permitiram a manobra também estão no alvo.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), é pressionado a devolver as medidas, o que obrigaria o governo a pagar os recursos para o setor cultural e para o fundo de ciência e tecnologia. Em uma reunião na terça-feira, com um grupo de congressistas, Pacheco disse que deixaria para resolver o assunto depois do 7 de Setembro. Bolsonaro, porém, assinou o decreto antes.

Pacheco defendeu os repasses da cultura e da ciência e tecnologia, independentemente da decisão sobre as MPs. Na quarta-feira, ele afirmou que pediria ao governo para encontrar o espaço para bancar o socorro ao setor cultural. Nos bastidores, cresce a possibilidade de nova flexibilização no teto de gastos ainda neste ano para viabilizar pagamentos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022


08 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Saudade das roupas

Eu percebi tal verdade quando meu pai suspirou: - Que saudade de usar gorro, de usar luva, de usar poncho.

Na época, ele morava na praia de Guarapari (ES) e viera passar uma temporada com os filhos em Porto Alegre. No Espírito Santo, ele apenas andava de bermuda, regata e sandálias o ano inteiro. Vivia uma única estação.

O gaúcho tem o privilégio de ter saudade das suas roupas. Como há o armário de inverno e o de verão, ele não para de reestrear suas peças. Nem precisa comprar novas, porque esquece o que tem e é sempre surpreendido por algum item ainda intacto.

Já que são estocados durante um período de quatro meses, os pulôveres e as malhas duram mais do que o normal. Diferentemente de quem mora numa temperatura estável, o gaúcho se afasta de seus trajes. Existe um distanciamento que reforça o apego. Não os mantém no corpo sem largar, não testemunha a triste e irreversível decadência e o desgaste do material pelo tempo.

O gaúcho furta as próprias roupas de si mesmo e depois as devolve aos cabides, arrependido. As golas não perderão o elástico, as camisas não conhecerão o desbotamento de sucessivas lavagens.

De temporada a temporada, realiza fretes dentro da casa, numa mobilização coletiva de reposição do vestuário. Experimenta um frenesi de liquidação quando baixa os volumes das estantes de cima. A família se mostra ruidosa e incontrolável com as novidades velhas, rasgando os sacos dos produtos armazenados.

São reencontros emocionados de aeroporto e de rodoviária nas portas do guarda-roupa. A jaqueta de couro de que tanto gostamos desaparecerá por alguns meses, para reacender de repente a atração do primeiro olhar, como se fosse recém-comprada.

Ficaremos dias e dias alisando a sua superfície, agarrados a ela, grudados em seu cheiro de neblina, sem tirá-la dos ombros. Quando estivermos quase nos enjoando dela, será o momento de escondê-la novamente para o próximo frio. O relacionamento é salvo das brigas pelos ciclos alternados do nosso clima.

Não ocorre o tédio, a monotonia, a rotina dos trajes. Você não recorda quantas sungas e calções de banho tem até chegar o calor de dezembro. Só nós sabemos o que é achar o bendito troco nos bolsos internos dos casacos, a glória de reaver um dinheirinho confiscado pelo esquecimento. É o equivalente a um ressarcimento do FGTS.

No Nordeste e Norte do país, as pessoas se casam com as suas roupas e assim terminam se divorciando delas. O gaúcho não, é um eterno apaixonado: namora, e namora, e namora com os seus pertences pela existência afora.

CARPINEJAR

08 DE SETEMBRO DE 2022
CAPA

Viagem pela música de Porto Alegre

Arthur de Faria lança o primeiro volume de sua "biografia musical" da Capital, fruto de mais de três décadas de pesquisa

Porto Alegre teve a segunda gravadora com fábrica própria da América Latina nos anos 1910. Entre 1913 e 1924, a cidade era um polo musical. A Capital teve também quatro revistas que falavam dos artistas locais nos anos 1950. Em 1960, a Rádio Farroupilha teve mais de cem músicos contratados. Essas são apenas algumas das histórias contadas no livro Porto Alegre: Uma Biografia Musical - Vol. 1 (Arquipélago Editorial), lançamento do músico, jornalista e pesquisador Arthur de Faria. Na obra, o autor reconstitui a história da música na Capital, narrando a formação da cidade de uma perspectiva musical e provando que ambas se entrelaçam. O livro já está à venda e terá sessão de autógrafos no dia 14, às 18h, na PocketStore Livraria (Rua Félix da Cunha, 1.167).

- Tem muitas histórias incríveis, histórias individuais mesmo, a trajetória de algumas pessoas - relata o autor.

A obra é resultado de mais de três décadas de pesquisa, durante as quais Faria, 53 anos, vasculhou os mais variados acervos e entrevistou personagens e pesquisadores em busca de relatos, textos, imagens e sons para a reconstrução da memória. Parte do conteúdo foi escrita ainda em meados dos anos 1990, quando o jornalista trabalhava no suplemento ZH Zona Norte e produziu reportagens sobre Elis Regina e o rock do bairro IAPI.

Há alguns anos, percebendo que possuía material suficiente para publicar um livro, foi convencido por Tito Montenegro, editor e sócio da Arquipélago Editorial, a separar o conteúdo em tomos. Deste modo, esta obra inicia uma coleção de sete livros, composta ainda, nesta ordem, por títulos sobre Radamés Gnattali, Lupicínio Rodrigues, Elis Regina (já lançado), o segundo volume de Porto Alegre: Uma Biografia Musical, rock gaúcho e música regionalista. A sensação de finalmente publicar as obras, segundo Faria, é "muito boa".

- Tem frases que eu escrevi 25 anos atrás e que foram sobrevivendo a todas as revisões - destaca.

Apesar de o livro sobre a história da música na Capital ser o primeiro volume da série, foi o segundo a ser lançado - uma tática como a de Star Wars, com lançamentos fora da ordem, optando por alternar os livros com maior e menor viabilidade comercial. Foi assim que Elis: Uma Biografia Musical (Arquipélago, 2015), o quarto da série, foi escolhido como o lançamento inicial, por ser mais viável e ter uma demanda maior a nível nacional - e, atualmente, inclusive na Argentina, no Uruguai e em outros países.

Já Porto Alegre: Uma Biografia Musical, por ter um recorte muito específico, foi posto em espera. Sete anos se passaram e, agora, a obra finalmente foi publicada, após ser retida por alguns meses para coincidir com o aniversário de 250 anos de Porto Alegre, o qual busca homenagear. A edição do livro foi viabilizada por meio de uma campanha de financiamento coletivo que teve o apoio de mais de 300 pessoas dos mais distintos lugares, atingindo 106% da meta estipulada.

Formação

O termo "biografia", apesar de ser empregado para se referir à história da vida de uma pessoa, se amolda perfeitamente à maneira como o livro conta e contextualiza a história da vida da Capital. No primeiro volume, Faria aborda a história da música popular da cidade, desde o início do povoamento até a Era do Rádio, um período compreendido entre 1752 e meados de 1960. O livro passa ainda pelo folclore açoriano, pelos Carnavais, pelas junções de rua, pelo surgimento dos primeiros espaços culturais e pela era do jazz.

Os capítulos, portanto, intercalam a história da cidade com os personagens que marcaram os tempos. Alguns são pouco citados no livro, porque ganharão obras próprias, como Lupi e Radamés. O livro analisa ainda a rápida expansão populacional, a gradual redução da população escravizada e os recortes de raça e classe no acesso aos bens culturais e à visibilidade artística, evidenciando as diferenças para os artistas negros e brancos enquanto explicita o contexto histórico. Apresentada em prosa solta e bem-humorada, a perspectiva musical da formação da cidade é, conforme o autor, indissociável dos acontecimentos políticos e sociais.

- Tudo são relações econômicas, tudo está interligado. Não dá para pensar as coisas separadas do seu contexto - argumenta Faria, citando como exemplo o impacto da Segunda Guerra na música do RS, com o surgimento do 35 CTG como reação à americanização do mundo após os Aliados vencerem a guerra.

O primeiro volume também mostra "muita derrota", conforme o autor. Ele lembra que a cidade é a capital do Estado e está situada geograficamente entre duas cidades importantes, São Paulo e Buenos Aires, adquirindo características de ambas. No entanto, ainda é periférica em relação a outros centros. Assim, muitos tiveram seu momento de glória e depois foram abandonados ou esquecidos - sobretudo a geração que brilhou até a época do rádio.

- Os artistas daqui, os que não vão embora nas épocas de ir embora, acabam, muitos deles, murchando e morrendo, então é uma história por vezes muito triste - pondera.

Para o músico, o livro é um ponto de partida para muitas possibilidades, fornecendo material para outros livros, abrindo janelas na vida real e acadêmica para novas pesquisas e subprodutos.

 FERNANDA POLO


08 DE SETEMBRO DE 2022
ARTIGOS

POR UMA CULTURA DE FUTURO

Como será nosso futuro? Onde e como estaremos daqui a 30, 40 anos? Pode ser difícil pensar tão longe, sobretudo num momento em que existem tantas incertezas. Mas é um desafio necessário, especialmente se desejamos desfrutar de uma vida melhor lá na frente.

Falta-nos, contudo, essa cultura, como mostrou pesquisa do Datafolha e da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida: 53% das pessoas esperam parar de trabalhar aos 60 anos, mas apenas 28% acreditam que alcançarão essa meta. Além disso, 64% não têm ideia de quanto receberão ao se aposentar pelo INSS e apenas 7% pensam em sobreviver com o valor pago pela previdência privada.

Além disso, segundo o Relatório Global do Sistema Previdenciário, da Allianz, 90% dos brasileiros com mais de 25 anos não poupam dinheiro pensando na aposentadoria - na Nova Zelândia e nos Estados Unidos, por exemplo, esses números são de 30% e 40%.

Esses dados evidenciam como o planejamento ainda precisa ser estimulado. Apesar de fundamental, ainda há grande desconhecimento sobre a matéria previdenciária e sobre as alternativas para quem quer construir um projeto de vida para o pós-trabalho.

O Japão é um bom exemplo: suscetível a uma série de eventos naturais, é, também, um país com alto contingente de população idosa. Desde cedo, os jovens são estimulados a se prepararem, tanto para riscos como para a disciplina financeira, pensando a longo prazo.

Desde o começo do século 20, é popular no país o kakebo, um método simples e intuitivo para controlar as finanças, ajudando a planejar os recursos. É um primeiro passo para quem quer se organizar, permitindo avançar para algumas alternativas, como a previdência complementar, na qual é possível ter um recurso extra para ser usufruído ao se aposentar, somando-se ao que receberá pelo regime geral ou próprio.

Como mudar essa realidade no Brasil? O caminho passa por estimular, desde cedo, que as pessoas tenham essa cultura preventiva. Educação financeira, estímulo ao planejamento e estabilidade econômica são fundamentais para tornar essa cultura mais presente. Pensar no futuro é tarefa de agora. 

Diretora-presidente da RS-Prev - DANIELLE CRISTINE DA SILVA

08 DE SETEMBRO DE 2022
TÚLIO MILMAN

Bananas e independência

Um colaborador de um zoológico gaúcho me contou, faz alguns anos, uma história espetacular. Certo dia, houve uma fuga de macacos. Depois de observar várias vezes como o tratador desligava os mecanismos de segurança e abria o portãozinho da jaula, o líder do bando fez o mesmo. Esticou o braço peludo entre as grades, cortou a energia elétrica, abriu a porta e, aos gritos, conduziu o bando, eufórico, rumo à mata fechada. 

Só que, algumas horas depois, um a um, todos começaram, espontaneamente, a voltar. Foram chegando, devagarinho, e se acomodando nas imediações do cativeiro. Estavam com fome, mas não sabiam como se alimentar sem a ajuda de um ser humano. Assim, foram recolocados no recinto de onde escaparam, ao mesmo tempo que a chave que desligava os mecanismos de proteção foi mudada de lugar, para longe do alcance de qualquer símio que ousasse desafiar o sistema.

Liberdade, assim como independência, não são um fim, mas um processo constante. Não são um presente ou caem do céu da noite para o dia, embora as promessas sejam tentadoras e aparentemente fáceis de entregar. "Eu abro a jaula e pronto...". Só que não.

A Bíblia nos oferece uma baita reflexão sobre o sentido mais profundo desse caminho. Moisés perambula 40 anos com os hebreus pelo deserto depois do êxodo do Egito. Certamente, seria bem mais aplaudido naquele momento se tomasse a linha reta até a Terra Prometida. Afinal, o faraó havia sido derrotado e seu poderoso exército engolido pelo mar. Mas Moisés entendeu que a geração de escravos precisaria dar lugar a uma outra, que já nasceu livre, para que um modelo de sociedade saudável funcionasse. Foi demorado e difícil. Tanto, que o próprio Moisés não entrou na Terra Prometida. Mas conduziu seu povo até lá.

Também o conceito de independência, tão celebrado por nós nos últimos dias, se vê desafiado quando, no século 21, nossa produção industrial patina pela falta de minúsculos chips que vêm da China, e empresas sofrem com a escassez de insumos parados em portos e aeroportos de outros países durante a pandemia. Dependência, ou morte. Dependemos, sempre, uns dos outros. É isso que nos permite exercer nossa inegociável liberdade individual.

A estas alturas, você já deve saber sobre o que estou falando. Não é sobre desânimo ou descrença. Ao contrário. Mas quando assisto ao horário eleitoral ou leio as entrevistas dos candidatos, com suas soluções mágicas e imediatas, sempre penso em duas coisas. Deserto. E bananas.

TULIO MILMAN