quinta-feira, 17 de outubro de 2019


17 DE OUTUBRO DE 2019
HUMBERTO TREZZI

Quem pode deixar a cadeia se houver novo entendimento legal


A votação hoje no Supremo Tribunal Federal (STF) mexe com corações e mentes de brasileiros. A tendência é de que a Corte decida que as penas comecem a ser executadas só quando um tribunal superior decidir o caso. É provável, inclusive, que a decisão seja mais drástica e postergue a prisão do condenado após a última instância, no STF.

A possibilidade de que todos os condenados em segunda instância teriam direito à liberdade causa arrepios em todos que torcem para que criminosos fiquem nas cadeias. Soa, para eles, como a libertação geral dos presidiários do Brasil.

É preciso salientar que não, não é isso que vai acontecer. Eventual mudança não vai atingir os presos provisórios, aqueles que cumprem prisão preventiva ou temporária. Em geral, essa prisão provisória é decretada para crimes muito graves: latrocínios, sequestros, homicídios qualificados. Toda essa gente não deve ser atingida pela nova decisão do STF, se ocorrer, porque ela vai beneficiar apenas condenados.

- Muitos dos 190 mil condenados em segunda instância também cumprem prisão preventiva. E esse tipo de prisão não muda na votação do STF - comenta Lúcio de Constantino, professor de Direito Processual Penal e com clientes réus da Lava-Jato.

O especialista admite que muitos presos de "colarinho branco", não violentos, poderão ser libertados. Seria o caso dos que não cumprem prisão preventiva, como Luiz Inácio Lula da Silva e José Dirceu.

Outros cumprem prisão preventiva há anos e nada indica que serão beneficiados. É o caso do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), que teve a preventiva decretada em 2016. Ou de Geddel Vieira Lima (MDB-BA), enclausurado sem condenação desde 2017.

HUMBERTO TREZZI

17 DE OUTUBRO DE 2019
CHAMOU ATENÇÃO

O novo pedágio da freeway


As máquinas já tomam conta do km 60 da BR-290, a freeway, em Gravataí, na Região Metropolitana. No local, será construída uma praça de pedágio que substituirá a atual, localizada no km 77 e que será demolida quando a nova começar a operar.

A aprovação do projeto da nova praça foi dada recentemente pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Os trabalhos começaram na última sexta-feira, quase quatro meses depois do previsto. Por ora, está ocorrendo a limpeza do terreno, a terraplenagem e a mobilização do canteiro de obras.

Em janeiro, quando divulgou o cronograma de obras, a CCR ViaSul, empresa responsável pela rodovia, estimava iniciar a construção em 15 de junho. Apesar de estar começando só agora, a concessionária informa que o prazo de entrega segue mantido - a inauguração está prevista para ocorrer em 15 de agosto do próximo ano.

A nova praça terá 24 cabines - 12 por sentido, sendo oito bidirecionais, três mistas (manual e automática) e uma automática em cada lado. A praça atual conta com 23 cabines manuais, das quais 13 são bidirecionais e quatro, automáticas.

A mudança de local é desejo antigo dos moradores de Gravataí e de Cachoeirinha. São ao menos 10 anos de espera. Motoristas de Alvorada e Viamão também serão beneficiados, pois não vão mais precisar pagar se quiserem ir a Porto Alegre passando pela RS-118 e, posteriormente, pela freeway.

Também para 15 de agosto está previsto o fim da cobrança em um único sentido na praça de pedágio de Santo Antônio da Patrulha. O pagamento ocorrerá em ambos os sentidos. O valor da tarifa será o mesmo praticado em Gravataí.

JOCIMAR FARINA

17 DE OUTUBRO DE 2019
ROSANE TREMEA

Primeiras letras


A memória é falha e o Google, neste caso, não ajuda. Paciência. Já contei tantas vezes, que talvez tenha também escrito: filha de professora, ainda que ela estivesse licenciada quando nasci, ao entrar na escola eu já estava alfabetizada. O que me deu vantagens iniciais em relação aos colegas também me trouxe dissabores: chorava, diante do caderno e do quadro verde, por ter de fazer exercícios que julgava primários demais para o meu conhecimento. 

Por conta disso, pulei o pré e, em alguns dias, estava no primeiro ano, o que amenizou meu desgosto inicial, mas não chegou a ser suficiente: passei a invejar meus colegas e suas exclamações de satisfação diante das descobertas ao juntarem as letrinhas e formarem as primeiras palavras num tempo em que a cartilha rezava "Olavo ajuda papai" e "Élida ajuda mamãe".

Então, durante um tempo, fantasiava: fingia não saber ler para experimentar o mesmo prazer que enxergava neles. Meu devaneio infantil não levava a lugar nenhum e em pouco tempo estávamos nivelados, meus companheiros e eu, mas lembro disso sempre que leio/ouço/vejo histórias de superação como as contadas em depoimentos reais ao final do primeiro episódio da série Segunda Chamada, sobre educação de jovens e adultos, ou a de uma senhora que não me sai da cabeça depois de ler seu feito numa reportagem, anos atrás - Tetê Brandolim, do interior de São Paulo, alfabetizou-se depois dos 80 anos e, com a premência do tempo e a criatividade despertada pelas letras, virou artista plástica com obras expostas inclusive no Exterior.

- Nunca abri mão do meu sonho de ser alfabetizada. A arte saiu do coração, só estava adormecida. Eu mudei e nasci para uma nova vida - dizia ela na reportagem.

Sem contar outras tantas trajetórias de crianças, jovens e adultos narradas nesta semana em que os professores costumam ser lembrados. Eu vejo em todas elas não só as possibilidades que a alfabetização traz, ainda que tardia. Todos os relatos contêm em si o desejo de "iniciar" a vida aos 50, 60, 70, 80, de concluir cursos e começar uma carreira, de recuperar anos de sacrifícios e de falta de oportunidades. Como se isso fosse pouco, o que enxergo também é aquele prazer da descoberta infantil, a leitura como marco para a entrada na vida de verdade, como libertação, como grito de independência.

Nunca é tarde, mas o sonho a perseguir é que seja sempre cedo para todos.

Ninguém deveria ser privado desse prazer.

ROSANE TREMEA - INTERINA

17 DE OUTUBRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

O maior erro da história do STF


Fala aqui um jornalista, defensor da absoluta liberdade de expressão. O Supremo Tribunal Federal jamais, jamais mesmo, deveria ter concordado com a transmissão das suas sessões ao vivo pela televisão. A hiperexposição dos já inflados egos dos ministros gerou uma distorção não apenas para a Justiça, mas para a democracia brasileira.

Em uma país radicalizado e que perdeu a capacidade de reconhecer a altimetria dos relevos, tudo se confunde com transparência. Exibir ao vivo as sessões do STF aumentou o agressividade dos debates, que deveriam ser frios e técnicos. A Justiça não deve desprezar os clamores da opinião pública, mas não pode cruzar a perigosa linha que separa o respeito à plateia e a submissão a ela - seja para acariciá-la ou para contrariá-la. Os objetos de um tribunal deveriam ser outros: a lei, a Justiça e a segurança jurídica de um país.

No modelo alemão, os debates são reservados, mas as decisões - e somente elas -amplamente divulgadas, com todos os detalhes que levam à compreensão dos princípios debatidos. A decisão final é coletiva, da Suprema Corte. Os nomes dos magistrados e seus caprichos ficam em décimo quinto plano. Aqui, faz-se uma endoscopia diária nos intestinos do tribunal mais importante do país. Isso não é transparência. Isso é circo e transforma ministros em celebridades, não pela consistência das suas decisões e por seus estilos sóbrios de vida, o que seria o correto.

A Suprema Corte é uma instituição tão importante, que não precisaria se exibir desse jeito. Cabe a ela a última palavra em todos os temas mais relevantes de uma nação. No Brasil, ela vem se apequenando a tal ponto que, perigosamente, já há quem defenda abertamente a sua extinção. E mais perigoso ainda: tem cada vez mais gente que concorda.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 16 de outubro de 2019


16 DE OUTUBRO DE 2019
FÁBIO PRIKLADNICKI

Harold Bloom e seus descontentes

Com sua prosa clara e sofisticada, Harold Bloom é o cicerone que qualquer um desejaria para entrar no universo da literatura - e inclusive referência para muitos que já estão lá há algum tempo. Diferente de críticos literários avessos à arena pública, Bloom, que morreu nesta segunda-feira, dedicou títulos à divulgação da literatura para os leitores não acadêmicos. Como e Por Que Ler é uma estimulante introdução a grandes romances, contos, poemas e peças teatrais. Tanto pela invejável erudição quanto pela disposição de se dirigir ao público amplo, ele se tornou talvez o mais famoso crítico literário da atualidade, quando fama e crítica literária jamais pareciam destinados a se encontrar.

Dentro da Academia, as coisas são mais complexas. Embora amplamente respeitado, Bloom é representante de um dos lados de um debate sobre o cânone, ao lado de interlocutores que divergem dele. Cânone, em resumo, é o conjunto de grandes obras que ficam para a posteridade e que são ensinadas nas escolas e nas universidades.

Especialmente desde os anos 1960, e com nova força nos anos 80, uma variedade de abordagens críticas começaram a questionar se esse conjunto de grandes obras não era masculino demais, europeu demais, branco demais. É um debate que continua até hoje, e não parece haver resolução à vista. Bloom desprezava esse questionamento do cânone.

Sendo isentão, devo dizer que os dois lados têm um pouco de razão. Bloom está certo ao entender que há características estéticas que posicionam alguns autores, como Shakespeare ou nosso Machado de Assis, em um nível superior ao de seus contemporâneos em matéria de linguagem. Mas o cânone é suficientemente amplo para abrigar autores e autoras que foram injustamente esquecidos ou propositalmente apagados da memória.

A literatura ficaria menos empolgante se não pudéssemos debater sobre os autores que representam a nação e o nosso tempo. Primeiro, porque, felizmente, novos escritores continuam surgindo. Mas também porque obras do passado podem ganhar renovada atualidade. Um caso evidente é o de Margaret Atwood, que sempre foi uma grande escritora, cuja obra foi recuperada para iluminar impasses do presente. Espero que as ideias de Bloom nunca nos abandonem, nem a de seus descontentes.

FÁBIO PRIKLADNICKI


16 DE OUTUBRO DE 2019
CURTO-CIRCUITO

Sem energia, parte da Ceasa tem lojas fechadas

Desde o último dia 9, o setor de serviços da Ceasa, no bairro Anchieta, na zona norte de Porto Alegre, está sem energia elétrica. Cerca de 20 estabelecimentos operam no local, conhecido como Centro de Utilidade Pública - representa 5% de todas lojas da central de abastecimento do Estado. Não há previsão para a volta da energia no local, mas a direção da Ceasa informou que, na noite de ontem, o fornecimento de luz em todo o complexo foi reestabelecido por meio de geradores contratados.

A queda da luz foi causada na quarta-feira passada por um gato que entrou em uma subestação de abastecimento, causando curto-circuito, que deixou todo o local desabastecido por 24 horas. O animal morreu.

Desde então, parte do comércio operava parcialmente com uso de geradores a óleo diesel. - Um caos. Desliguei balcões e contratei o gerador para diminuir o prejuízo. As pessoas entram, veem que falta coisa e vão embora - explica Guilherme Gehlen, 32 anos, dono do Super Agro.

No atacado Soul Alimentos, as perdas estimadas passam de R$ 100 mil, segundo o comerciante Carlos Marcon, 55 anos. - Quinta é o melhor dia de negócio, e passei o dia todo sem luz. Vendi 15% dos R$ 80 mil que comercializo em média - avalia, ao somar o custo de R$ 4 mil do aluguel e combustível do gerador.

Por hora, cada equipamento consome entre 20 e 25 litros de óleo diesel para fornecer a energia aos pontos. O aluguel diário varia de R$ 1,3 mil a R$ 1,7 mil.

As duas agências bancárias que atendem a Ceasa também estão fechadas desde o incidente, e funcionários foram realocados em outras unidades. Sem condições de bancar os custos do gerador, o restaurante Casa Nova segue às escuras. No dia em que a energia foi cortada, o dono diz ter perdido um freezer lotado com sorvetes, com prejuízo de R$ 1,2 mil. Ontem, os refrigeradores estavam desligados e de portas abertas.

- Não dá para usar a fritadeira elétrica e nem vender cerveja ou ligar os ventiladores - reclama Edson Mallmann, 50 anos. Günther Baingo, 61 anos, tinha, ontem pela manhã, duas, de oito câmaras frias, ligadas.

- Joguei muita carne fora - diz o proprietário de um negócio.

Explicações

O presidente da Ceasa, Ailton dos Santos Machado afirma que um cabo subterrâneo se rompeu após o curto-circuito. Toda a estrutura elétrica foi instalada há 46 anos, quando o espaço foi inaugurado. Para voltar a abastecer 100% das lojas, ele havia prometido a contratação de mais geradores (ligados ontem à noite), bancados pela administração, e disse que haverá compensações nas contas de luz.

O dirigente explica que não há previsão para retomada da energia elétrica, pois ainda aguarda laudo que vai apontar possíveis reparos. Segundo ele, foram investidos R$ 3 milhões nas estruturas, nos últimos dois anos, e um novo sistema aéreo está em fase de licitação, devendo levar ao menos 90 dias para ser instalado.

Diretor técnico-operacional da Ceasa, o engenheiro Paulo Regla justifica que há três anos houve testes nos cabos, que atestaram que o sistema poderia operar por um período, até a substituição:

- Com nova rede aérea, fica fácil identificar o problema. Hoje, fica tudo a três metros do chão, inviável.

TIAGO BOFF


16 DE OUTUBRO DE 2019
+ ECONOMIA

Faltam só 70 dias

É sempre a mesma história: quando a gente percebe, falta muito pouco para o Natal. A partir de hoje, serão exatos 70 dias de preparativos ou espera, mas tem Papai Noel circulando pela cidade e vitrines com árvores enfeitadas para a data. No shopping Iguatemi Porto Alegre, a praça principal já está fechada para a montagem da decoração, que neste ano terá investimento de R$ 2,5 milhões.

A expectativa, segundo a gerente de marketing do shopping, Andrea Quintana, é ter um aumento de fluxo de veículos de, pelo menos, 8% em relação ao mesmo período do ano passado. Até o final do ano, o shopping deve estrear 11 novas operações, entre as quais uma loja de 800 metros quadrados da Alô, Bebê, que abrirá 40 vagas de emprego. A rede vende de tip-top a carrinho para levar crianças.

Tênis vegano produzido para ajudar

Ao comprar um tênis da marca Somos Numa, de Novo Hamburgo, o cliente não só adquire um calçado 100% vegano - ou seja, que não usa matéria-prima de origem animal -, como contribui para uma causa social. Mas a empresa só produz o número de pares suficiente para garantir recursos para os projetos, além de sua margem de lucro, claro. Cada coleção lançada é batizada com o nome da iniciativa que terá ajuda. Parte do valor arrecadado com a coleção Amo Criança, por exemplo, será usado para o desenvolvimento de uma campanha de prevenção do câncer infantil. Segundo Laura Prodanov, design de moda e sócia da empresa, a marca já nasceu para auxiliar projetos sociais. Explica que as instituições são escolhidas por indicação. Desde a criação, a empresa produziu 520 pares de tênis, usando 32,5 quilos de tecido reciclado, 520 garrafas pet e 119 quilos de borracha reciclada.

MARTA SFREDO

16 DE OUTUBRO DE 2019
GOVERNO LEITE


Pacote muda 117 regras do funcionalismo

Após uma semana de reuniões e apresentação das propostas do pacote que altera carreiras do funcionalismo, o governador Eduardo Leite encaminhou a sindicalistas, deputados e chefes dos demais poderes um documento detalhando todas as mudanças projetadas.

O documento, enviado entre a noite de segunda-feira e a manhã de ontem, traz 117 regras que o governo pretende mudar por meio da aprovação de medidas que serão enviadas à Assembleia Legislativa nos próximos dias.

O material, intitulado Reforma Estrutural do Estado, anuncia mudanças na Constituição Estadual, no Estatuto dos Servidores Civis, no Estatuto dos Servidores Militares, no plano de carreira dos professores estaduais e em legislações que regem as aposentadorias do funcionalismo.

O documento traz a minuta, ou seja, os anteprojetos dos textos que serão enviadas ao Legislativo. Até o despacho das medidas, o governo diz que ainda poderá alterar parte das proposições, conforme sugestões dos sindicatos de servidores e dos chefes de demais poderes e órgãos (como Tribunal de Justiça e Assembleia Legislativa).

No texto do material, o governo destaca que, "entre janeiro e agosto de 2019, de todas as despesas liquidadas do Estado, mais de 82% foram destinadas para pagar salários e os encargos sobre a folha". Também lembra que o Rio Grande do Sul conta hoje com "48 meses de atraso e parcelamento de salários".

As propostas impactarão servidores de todos os poderes e órgãos estaduais. Entre as principais alterações, estão o fim do pagamento de avanços e vantagens por tempo de serviço - como o triênio - e da incorporação de funções gratificadas às aposentadorias. Os projetos também aumentarão as contribuições previdenciárias para ativos e inativos.

Manifestações

Liderados pelo Cpers-Sindicato e Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado, funcionários públicos protestaram ontem contra as mudanças previstas nas carreiras dos trabalhadores.

A mobilização - que teve apoio de outras categorias - iniciou­se no período da manhã, com manifestantes aglomerando- se na Praça da Matriz, em Porto Alegre. A partir da parte da tarde, a mobilização diminuiu e se encerrou por volta das 15h.

GABRIEL JACOBSEN E JULIANA BUBLITZ

16 DE OUTUBRO DE 2019
NÍLSON SOUZA

Não temos um Brasil B


Talvez eu esteja contaminado pelo tal climatismo alardeado pelos negacionistas de plantão no comando da República, mas não pude evitar o inconformismo ao ver a charge de Iotti na edição do último final de semana. O desenho vale por um libelo, no sentido de denúncia, acusação, incriminação. Em poucos traços, retrata bem o desconcertante dilema ambiental brasileiro: de um lado, animais desesperados e enlameados de óleo, fugindo do mar na direção da selva; de outro, bichos igualmente apavorados e chamuscados, fugindo da floresta em chamas na direção do mar.

A natureza agoniza e tem gente que só se preocupa em dar conotação política ao desastre predatório. Ora, importa, sim, saber quem derramou aquele petróleo que emporcalha as praias do Nordeste e extermina a vida marinha. Mas não apenas para saber se os criminosos são de esquerda ou direita, estrangeiros ou brasileiros. São criminosos e ponto. Precisam ser identificados, investigados e punidos com todos os rigores da lei. Da mesma maneira, devem ser autuados e responsabilizados os incendiários da Amazônia, sejam eles pecuaristas, madeireiros, índios, garimpeiros, ongueiros ou governantes omissos.

A proteção dos mares e das florestas não pode ser reduzida a uma bandeira ideológica. É um dever de cidadania. Mais do que isso: é um dever humanitário, um compromisso planetário. Não temos um planeta B, como diz a campanha ambientalista que ganha força em todos os continentes. Não temos, também, um Brasil B. O país é um só, é a casa de todos os brasileiros, até mesmo daqueles que só pensam em ganhar dinheiro para morar no Exterior, pois sempre sobrará por aqui um parente, um amigo, uma raiz. É, também, a casa dos estrangeiros que por aqui se aquerenciaram, muitos deles devido às más condições de vida em seus países de origem.

A verdade é que nossa casa está sendo ameaçada pelos cupins da ganância. Aqueles clarões de desmatamento na Amazônia, tanto quanto os incêndios florestais e os mananciais de água poluídos, não deixam dúvidas sobre isso. Brumadinho e Mariana são monumentos fúnebres da incúria com o meio ambiente na confrontação com os grandes interesses econômicos. Da mesma origem é o triste quadro de natureza morta representado pelas areias tingidas de óleo nas praias do Nordeste. O petróleo não sai sozinho das reservas subterrâneas.

E o que podemos fazer para interromper esse autoextermínio? Penso que o primeiro passo é abrir os olhos para a realidade, refletir sobre a charge do Iotti, acreditar nos cientistas que nos alertam diariamente sobre a degradação ambiental. Quando estivermos conscientes do estrago e fazendo a nossa parte para repará-lo, aí, sim, teremos mais legitimidade para cobrar providências efetivas das autoridades contra o massacre da serra elétrica e as explorações predatórias do solo brasileiro.

Talvez até consigamos escolher representantes realmente comprometidos com um país mais limpo, mais digno e mais confortável para todas as formas de vida que o habitam.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 15 de outubro de 2019


15 DE OUTUBRO DE 2019
CARPINEJAR

Um desembargador

Eu sempre admirei quem não tem vergonha de si e peita o medo. Colega da escola do meu irmão Rodrigo, dois anos mais velho do que eu, chegava na aula de tênis sem cadarço e era zoado pela turma.

Só no começo foi esculhambado, porque ele fez os outros engolirem o desaforo. Não correspondia a uma tendência da moda na década de 1980, porém à pura necessidade. Ele calçava 37 e usava um tênis 35. Era o que podia ter, recebido de doação. A saída criativa consistia em tirar os cadarços para o pé caber na sola.

O tênis parecia uma pantufa branca, explodindo. Não havia como se soltar, tampouco entendia como ele encontrava um jeito de enfiar os dedos por dentro do couro. Operava uma mágica da persuasão a cada amanhecer.

Vivia com bolhas e vergões pelo emprego indevido. Dava para ver na hora dos exames médicos. Mas não reclamava do desconforto, aceitava os grilhões do destino.

Estudávamos em escola pública, poucos desfrutavam de calçados bons e pouquíssimos ostentavam produtos de marca. Pelos pés, reconhecíamos as dificuldades familiares.

Eu testemunhei o bullying fracassado. Todos no recreio começaram a caçar o tênis apertado para pisar e brincar com a extravagância da penúria, a gritar e tirar casquinha da irreverência da pobreza.

Ele não se intimidou com o riso das garotas por perto e desagregou a roda em torno dele com as palavras mais honestas ouvidas no meu Ensino Fundamental:

- Claro que sou pobre, alguém ainda duvida? Não é nenhuma novidade, não tenho tênis mesmo. Por que vocês acham que estou na escola? Para estudar e ser alguém na vida.

Seu desabafo desconcertou a algazarra, desnutriu a raiva, emagreceu as caretas. Ninguém mais o importunou dali por diante. Desferiu um rasgo de profecia adulta no coração imprevisível das crianças. Quem sofria também de adversidades materiais sentiu empatia pela situação e o poupou das investidas e das piadas.

Foi o primeiro homem que eu vi fazer chover com a sinceridade. Sua saliva deu um banho de realidade nos estudantes.

Eu me lembrei dessa cena não por acaso. Estava realizando uma palestra para o Tribunal de Justiça e quem eu revejo?

Ele mesmo, de terno escuro, gravata e olhar confiante. Um desembargador.

Demorei a reconhecê-lo. Na verdade, nosso encontro se desenrolou ao rés do chão.

No elevador, observei um senhor de sapatos desamarrados, e chamei sua atenção:

- Cuidado para não cair!

Ele riu e gracejou: - Hoje eu tenho cadarços, fique tranquilo, não caio mais.

Para não perder o espírito resiliente entre nós, completei: - Por precaução, continue estudando.

CARPINEJAR

15 DE OUTUBRO DE 2019
IDEIAS PARA O FUTURO 60+

QUEM VIVE MAIS E POR QUÊ?

Quem vive mais? Por que se vive mais? Alguém que tivesse as respostas corretas certamente já teria recebido o Prêmio Nobel! Historicamente, todos querem viver mais e melhor e isto tem sido tema de muitas pesquisas. O que a ciência nos mostra hoje é que a nossa vida, a saúde e o envelhecimento dependem de fatores como estilo de vida (em torno de 50%), ambiente (20%), genética (20%) e tecnologia (10%). Por ambiente, devemos entender com quem nós vivemos, mais do que o local em si.

O nosso estilo de vida, que é basicamente estabelecido com quem nós vivemos (ambiente), é o que dita a maior parte da nossa saúde e do envelhecimento. A OMS, nas suas pesquisas, estabelece cinco pilares sobre os quais os estudos devem se pautar para que possamos aprender o que realmente impacta a saúde e a longevidade. São eles: nutrição, atividade física, repouso e lazer, atividade social e atividade espiritual.

Os dois primeiros determinantes (nutrição e atividade física) são considerados essenciais, pois realmente impactam diretamente nossa saúde e longevidade. Os três restantes (repouso, atividade social e espiritual) são chamados de "qualificadores", pois são os elementos que dão a qualidade de vida ao longo do tempo em que vivemos.

A observação das zonas de longevidade no mundo, as chamadas blue zones, atesta que esses fatores são importantes. É onde se tem dieta saudável e sóbria, sempre em conjunto com família e amigos. Atividade física, principalmente em grupos de conhecidos. Também tempo adequado de repouso e de lazer com família e amigos. É importante também sentir-se útil, tanto na família quanto na sociedade, e ter uma motivação interior para a vida, um sentido para a vida - os japoneses chamam essa motivação de "Ikigai" - que mantém a motivação para o dia a dia.

Enfim, não há nenhuma pílula mágica para um envelhecimento saudável ou longevidade feliz. Para se viver mais e melhor, o segredo é aprender com os longevos felizes do mundo: estilo de vida saudável em boa companhia e bastante vontade de viver sentindo que vale a pena viver.

Pesquisador do tema da longevidade, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS - EMILIO MORIGUCHI

15 DE OUTUBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

EDUCAÇÃO, DESIGUALDADE E DESENVOLVIMENTO


Os formuladores de políticas de desenvolvimento do Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, deveriam estudar a fundo o trabalho do trio premiado com o Nobel de Economia deste ano. Abhijit Banerjee e Esther Duflo, professores no Massachusetts Institute of Technology (MIT), e Michael Kremer, que leciona na Universidade de Harvard, foram os vencedores por seus experimentos que mostraram uma eficiente forma de combater a pobreza melhorando indicadores básicos relacionados à educação e à saúde de crianças no Quênia e na Índia.

Talvez a grande descoberta dos laureados pela Academia Real de Ciências da Suécia tenha sido a de que uma das estratégias mais eficazes para reduzir o abismo de renda na sociedade seja a de concentrar o reforço no ensino escolar nos alunos com o desempenho mais fraco em suas turmas. 

O foco no grupo com as notas mais baixas faz com que estes, a partir de uma atenção maior, tenham condições de melhorar a performance escolar, com reflexos positivos posteriores, ao longo da vida adulta. É inegável considerar promissor o resultado de uma proposta que, ao adaptar o ensino às necessidades das crianças, beneficiou 5 milhões de estudantes apenas na Índia. O esforço, é imperativo ressaltar, foi escudado por ações voltadas aos cuidados com a saúde dos colegiais.

O retrato atual do Brasil, com educação insuficiente e injustiça social, não difere tanto das realidades indiana e queniana. Por aqui, são cerca de 55 milhões de pessoas, um quarto da população, abaixo da linha da pobreza. Mais de 11 milhões de indivíduos nem sequer sabem ler ou escrever. Nos rankings globais de aprendizado, o país é ocupante contumaz das últimas posições. Se nada novo for implementado, as assimetrias tendem a se perpetuar.

O que o trabalho vencedor do Nobel comprova é que ajustes na política de educação podem ser a chave para diminuir a desigualdade e pavimentar o caminho do desenvolvimento. As barreiras sociais e econômicas e a crise no ensino público fazem com que não faltem, no Brasil, obstáculos a uma instrução satisfatória para os alunos mais carentes. 

É necessário quebrar o círculo vicioso hoje existente, em que fatores como renda familiar, cor da pele e o tipo de escola frequentada são determinantes na disputa por vagas em boas universidades e uma colocação digna no mercado de trabalho. Devolver qualidade à educação pública é a saída. Dar uma perspectiva de futuro para essas crianças é criar condições para o alvorecer de um país mais justo e próspero.


15 DE OUTUBRO DE 2019
PREMIAÇÃO INTERNACIONAL

Trabalho sobre pobreza vence Nobel de economia


O americano nascido na Índia Abhijit Banerjee, a franco-americana Esther Duflo e Michael Kremer, também dos Estados Unidos, são os vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2019 por seus trabalhos sobre a pobreza, anunciou ontem a Academia Real de Ciências da Suécia. O trio foi premiado "por sua abordagem experimental para aliviar a pobreza global", afirmou o júri.

- Premiados introduziram novo enfoque para obter respostas válidas sobre a melhor maneira de lutar contra a pobreza global - completou o secretário-geral da Academia, Göran Hansson.

Em meados da década de 1990, Michael Kremer, 54 anos, professor na Universidade de Harvard, "demonstrou a que ponto essa abordagem pode ser poderosa ao utilizar experiências de campo para testar diversas intervenções para melhorar os resultados escolares no oeste do Quênia", explicou a Academia.

Esther Duflo, 46 anos, é uma das economistas mais famosas do mundo e professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Conduziu pesquisas com Abhijit Banerjee, 58 anos, seu orientador de tese, sobre comunidades pobres da Índia e da África para medir o impacto real de micropolíticas suscetíveis de serem aplicadas em larga escala.

Cerimônia

Graças a eles, "mais de 5 milhões de crianças na Índia se beneficiaram de programas eficazes de apoio nas escolas" e "muitos países desbloquearam importantes subsídios à medicina preventiva", explicou a Academia.

Os vencedores dividirão US$ 920 mil e receberão medalha de ouro e diploma. A premiação será entregue em 10 de dezembro. Cerca de 700 milhões de pessoas ainda vivem em extrema pobreza, segundo o Banco Mundial.


15 DE OUTUBRO DE 2019
CAMPO ABERTO

Os cuidados na escolha do azeite extravirgem

Duas semanas após o Ministério da Agricultura ter suspendido a comercialização de 33 marcas de azeite de oliva no país, o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) alerta os consumidores sobre os cuidados na hora da compra do produto.

Para evitar levar para casa gato por lebre, é preciso primeiro ficar atento às características indicadas na embalagem. No rótulo, é possível identificar, por exemplo, a quantidade de peróxidos totais, que serve como indicativo do nível de oxidação durante processamento e envase.

O índice deve ser menor ou igual a 20 para ser azeite extravirgem, explica o presidente da entidade, Paulo Marchioretto: - O ideal é que seja mais próximo de zero, pois quer dizer que o produto é mais jovem.

Na embalagem, ainda é possível analisar o nível de acidez, que deve ser menor do que 0,8%, e a data do envase. É preciso observar se há adição de outros óleos como o de canola, soja ou girassol. Quando algum produto é incorporado ao suco de azeitonas, segundo Marchioretto, o azeite deixa de ser extravirgem, por isso a informação no rótulo é obrigatória por lei.

Nos produtos suspensos pelo ministério foi identificada mistura com óleo de soja e óleos de origem desconhecida.

A comissão mista que analisará a medida provisória 897/2019, a MP do Agro, será instalada amanhã.

Neste primeiro encontro, serão escolhidos oficialmente presidente, vice e relator. O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) deve assumir o comando dos trabalhos. Foram protocoladas 343 emendas ao texto original.

GISELE LOEBLEIN

15 DE OUTUBRO DE 2019
+ ECONOMIA

Atividade econômica entra no positivo, mas com lentidão


Como a coluna registrou no final de setembro, a expectativa para o terceiro trimestre do ano está melhor do que a do período anterior. Divulgado ontem, o Indicador de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de agosto veio abaixo das expectativas mas finalmente conseguiu emplacar um dado positivo: 0,07% ante julho. No mês anterior, a variação havia sido negativa. Em relação ao mesmo mês de 2018, o resultado de agosto do IBC-Br ainda é de queda: 0,73%.

Como o período entre abril e junho foi dominado pelo risco de novo mergulho na recessão técnica, o clima das projeções mudou, mas o ritmo da economia ainda é baixo.

- Apesar de ter frustrado as expectativas de crescimento em agosto, porque o mercado esperava 0,2% e veio 0,07%, o IBC-Br sugere PIB positivo no terceiro trimestre - avalia André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton.

Segundo Perfeito, ainda que não haja crescimento em setembro ante agosto -dado que será conhecido dentro de um mês - a variação trimestral, desconsiderados os efeitos do período do ano, será de 0,58%, ou seja, representará recuperação em relação ao trimestre anterior fechado. É bom lembrar que, ao contrário do PIB do IBGE, o IBC-Br do segundo trimestre foi de recuo de 0,14%.

Essa disparidade volta a trazer ao debate a expressão "prévia do PIB", espécie de apelido que o indicador do BC recebeu por tentar antecipar os resultados oficiais da atividade econômica.

- Mostra, em alguma medida, que o IBC-Br não é a melhor aproximação possível do PIB, mas também que os componentes da oferta doméstica estão reagindo à agenda microeconômica do governo - avalia Perfeito.

Em palestra recente, a economista-chefe da Fecomércio, Patrícia Palermo, ponderou que a "espetacularização da política" está retardando as reformas. Em consequência, torna mais lenta a reação. Por isso, Patrícia projeta, por exemplo, que o desemprego deve se manter em dois dígitos até meados de 2023. Antes dos atrasos, a estimativa era de que caísse ao menos um ano antes.

MARTA SFREDO

segunda-feira, 14 de outubro de 2019



14 DE OUTUBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Santa Dulce, socorro!

Nós ainda não ganhamos um Prêmio Nobel, mas já temos uma santa. E foi mérito da iniciativa privada, o governo não teve nada a ver com isso, apesar da presença ululante de políticos no Vaticano, durante a cerimônia de canonização.

Será que agora vai? Será que sairemos da crise? É possível, se contarmos com a ajuda da santa e da sociedade. Do Estado não se pode esperar muito, até porque essa é uma crise dele mesmo - do Estado. É ele que precisa de socorro. Roguemos: Santa Dulce dos Pobres, salve o Estado brasileiro!

Alguns economistas chamam o nosso modelo econômico de "capitalismo de Estado". Gosto dessa definição, porque é algo que combina com nossa personalidade contraditória. No capitalismo clássico, o mercado é o grande agente, e o Estado, embora tenha suas atribuições, o que mais faz é regular e fiscalizar. No Brasil, não. No Brasil, o Estado é ubíquo e, ao mesmo tempo, falho. O Estado participa de quase tudo e não resolve quase nada.

Morando nos Estados Unidos, percebi com mais clareza essas nossas incongruências. Porque os Estados Unidos são os campeões do capitalismo, a terra dos livres, como apregoa o hino, e nunca senti tanto a presença do Estado como aqui. E não é só na segurança e na educação, não. Em toda parte, o Estado se manifesta, nem que seja para dizer como tem de ser feito.

O melhor exemplo é o Prêmio Nobel de Medicina, vencido dias atrás por um cientista que trabalha no hospital onde me consulto, o Dana-Farber. Suas pesquisas, e outras tantas, são privadas, sim, mas com o apoio inestimável do Estado, através  de gordo financiamento.

O que os americanos conseguiram foi um equilíbrio delicado: o Estado serve à sociedade, e uma das maneiras de servir a ela é controlando o mercado, para que ele não se torne grande demais, forte demais e injusto demais. Mesmo assim, essa tarefa do Estado está em permanente debate - alguns querem mais controle, outros menos.

No Brasil, o Estado, ao contrário, se serve da sociedade. O contribuinte sustenta uma estrutura gigantesca e parnasiana, porque ela parece existir apenas para existir. O pior é que ninguém fica satisfeito: o consumidor reclama de que o serviço prestado é ruim e o prestador de serviços reclama de que o salário é baixo.

Não estou contando nenhuma novidade, esse mal já foi diagnosticado. A minha preocupação é com o remédio. Porque, na ânsia de acabar com a doença, o governo pode matar o doente. Algumas tarefas que são obrigação do Estado só serão cumpridas pelo Estado, e ninguém mais. A iniciativa privada busca o lucro. Em geral, lucro rápido. Longos e custosos investimentos só são realizados por um mercado estável e maduro, e este não é o caso do Brasil.

Usei o exemplo do Prêmio Nobel do cientista aqui de Boston para elogiar o Estado americano. Usarei o exemplo de cientistas paulistas para elogiar o Estado brasileiro. Pesquisadores da USP, apoiados pela Fapesp e pelo CNPq, todos órgãos públicos, desenvolveram um sofisticado tratamento de cura de alguns tipos de câncer com tecnologia 100% nacional. Não há como estabelecer o valor disso em vidas e em bem-estar para as pessoas, e em recursos e prestígio para o país. Para você ter ideia: esse tratamento é recente nos Estados Unidos, e custa algo como US$ 500 mil. Ou seja: mais de R$ 2 milhões!

O que os cientistas de São Paulo conseguiram é tão importante, que se torna imensurável. E, sem o Estado, essa façanha seria impossível. É uma lição a aprender. O Estado que opera mal é ruim. Mas o Estado que não opera é ainda pior.

DAVID COIMBRA


14 DE OUTUBRO DE 2019
EM DIA

OU MUDA OU MORRE

"Em uma era de mudanças incansáveis, uma empresa sobrevive e prospera com base não em seu tamanho ou desempenho em um determinado momento, mas em sua capacidade de se reposicionar para criar um novo futuro e aproveitar uma missão orientada a propósitos para esse fim. É por isso que a transformação estratégica pode ser o imperativo de liderança nos negócios do século 21."

Essa é uma das conclusões de um estudo que acaba de sair pela Harvard Business Review, uma das principais revistas de negócios do mundo. Analisaram centenas de empresas do mundo e se fixaram em 20 das maiores transformações de negócios na última década. Entre elas, gigantes como Netflix, Amazon, Phillips, Siemens, Microsoft e Alibaba. Três aspectos foram analisados: 1) a criação de novos produtos, serviços ou modelos de negócios; 2) as adaptações de seus negócios tradicionais às mudanças; 3) o que fizeram para voltar a crescer. Entre as empresas que se remodelaram, só encontraram 3% de empresas públicas. 

O que levou essas empresas de volta ao sucesso? "Inserir um objetivo mais alto na cultura que orienta as decisões estratégicas, dando clareza às tarefas cotidianas". A Netflix deixou de distribuir conteúdos produzidos por outras empresas, para se tornar uma das maiores produtoras de conteúdo original, ganhando Oscars, deixando de competir com a Apple, Sky, Amazon, Sony, Google e Microsoft. Com isso, lucrou 32 vezes mais. 

Outra que mudou foi a Philips. Desinvestiu em iluminação, para entrar em tecnologia da saúde. Já a Siemens, em vez de maximizar o valor aos acionistas, adotou como missão servir à sociedade. Descentralizou as decisões, para que funcionários tenham participação no sucesso futuro. Saiu de óleo e gás, para indústrias digitais, infraestrutura inteligente, eficiência energética e mobilidade de veículos elétricos.

Entre nós, um bom exemplo é a Randon. Falando com o presidente Daniel Randon, ele me disse que, em 2016, a crise fez seu mercado despencar. A indústria de caminhões brasileira chegou a uma ociosidade de 75% e a de reboques reduziu sua produção para um terço. 

A Randon reduziu sua estrutura de 12 mil funcionários para 7 mil, passou a ouvir mais os clientes, introduzindo soluções mais práticas e baratas, mudou seu mindset, passou a trabalhar com suas 15 empresas em regime de coworking, criou um centro de tecnologia, um instituto de fomento à inovação, 30 startups, se juntou a outras grandes empresas da serra gaúcha para colaborarem entre si. 

Está chegando aos 12 mil funcionários de novo e vai ter neste ano um recorde histórico de faturamento. Uma declaração importante aparece no meio desse estudo da HBR: 180 CEOs de grandes empresas afirmam que "servir aos acionistas não pode ser mais o principal objetivo de uma corporação. Ao contrário: precisa servir à sociedade, através da inovação, comprometimento com ambientes saudáveis e oportunidades econômicas para todos". Quantas empresas gaúchas estão se ocupando da criação do seu futuro com esse novo mindset?

ALFREDO FEDRIZZI, CONSELHEIRO, CONSULTOR E JORNALISTA

14 DE OUTUBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

RUMO CERTO NA SEGURANÇA


Toda pesquisa de opinião pública feita no Estado e no país aponta a violência como uma das principais preocupações dos gaúchos e dos brasileiros. Se esta é uma das grandes inquietações da população, é preciso celebrar o recuo dos números da criminalidade no Rio Grande do Sul, em especial o de homicídios. O movimento de queda pode ser observado desde o ano passado, de forma contínua, o que parece significar uma tendência que se consolida, e não apenas alguns pontos fora da curva. As estatísticas da Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que, em setembro, os casos de assassinatos no Estado foram os menores para o mês desde 2009.

Mesmo com a privação de recursos do Piratini, é de se admitir que o Estado demonstra estar no rumo certo no combate à criminalidade. Afinal, todos os indicadores importantes de delitos apresentaram outra vez declínio, à exceção dos latrocínios, que ficaram estáveis. Mesmo assim, os assaltos seguidos de morte são um terço de dois anos atrás. Feminicídios, roubo de veículos, estelionato e ataques a banco repetiram a linha descendente.

As razões apontadas para o abrandamento da criminalidade atestam que é possível fazer uma boa política de segurança mesmo quando as verbas disponíveis estão muito distantes do ideal. Um diagnóstico preciso seguido de uma ação efetiva nos municípios onde a situação era mais crítica, junto com o uso da inteligência e integração das forças de segurança, trouxe um pouco de alívio para os gaúchos. Principalmente para os moradores das 18 cidades mais violentas do Estado, onde se concentram as atenções do programa RS Seguro.

Do sistema prisional, outra área fonte de grande aflição, também vêm notícias que trazem perspectivas de ao menos ser amenizado o degradante quadro de detentos custodiados em delegacias e viaturas. No início do mês, foi inaugurado o presídio de Bento Gonçalves, na Serra, com 420 novas vagas. Nas próximas semanas, será entregue a penitenciá- ria de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana, com outras 600.

Se é preciso admitir avanços, também é necessário lembrar que o Estado segue distante de ter indicadores de criminalidade minimamente aceitáveis. Diante da crise fiscal que limita os investimentos na área, é indispensável acelerar a implementação da Lei de Incentivo à Segurança, que prevê a possibilidade de empresários destinarem até 5% do saldo devido de ICMS para o aparelhamento das forças policiais do Rio Grande do Sul.



14 DE OUTUBRO DE 2019
+ ECONOMIA

Projeto em parceria

A Arcádia Urbanismo e a incorporadora Melnick Even desembarcaram em Passo Fundo para atuar no desenvolvimento de novo bairro planejado no município. No projeto, terão parceiros locais: a Bolsa - Construções e Incorporações e a SBC, de investimentos imobiliários.

A Melnick Even e a Arcádia estão associadas desde 2012. Juntas, já lançaram seis empreendimentos. A projeção de investimento em Passo Fundo não foi informada.

RESPOSTAS CAPITAIS | "Uso de dados pode gerar novos negócios" 
IGOR MORAIS, Economista e sócio da 4Labs

A análise de grandes quantidades de dados e o uso de inteligência artificial deram forma ao novo projeto do economista Igor Morais, ex-presidente da extinta Fundação de Economia e Estatística (FEE). Ao lado de dois sócios, fundou em Porto Alegre a 4Labs. Morais buscou aperfeiçoamento na área nos Estados Unidos, onde cursou pós-doutorado na Universidade da Califórnia entre 2016 e 2018.

Como surgiu o interesse pela área de big data, caracterizada pela análise de grandes quantidades de dados?

Tive o primeiro contato com a ideia de trabalhar com big data na época em que fui presidente da FEE. O big data é a capacidade de utilizar grandes quantidades de dados para resolver diferentes questões. Vi que o mundo do economista estava mudando, e eu precisava me reciclar. Aí, decidi estudar nos Estados Unidos. Os dados são divididos em estruturados - aqueles que já estão organizados, como os do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) - e os não estruturados. O segundo grupo cresceu muito nos últimos anos. Isso se tornou possível com o surgimento de novas ferramentas de análise e a disponibilidade de softwares gratuitos. Quando deparei com isso, pensei que deveria me reciclar. Ao chegar aos Estados Unidos, vi que outra linha que estava crescendo bastante era a de inteligência artificial.

Como avalia o desempenho americano nessa área?

Nos Estados Unidos, mesmo com a capacidade de formação de profissionais, havia restrições de mão de obra. Então, imagine como é no Brasil. Na ocasião, pensei que existiria aqui no país, e existe, uma janela de oportunidades. Os conceitos de indústria 4.0 dependem de gente que atue com análise de dados e inteligência artificial. Aí procurei um amigo e propus a criação de uma empresa (a 4Labs). Já no final do ano passado, fechamos um contrato com cliente aqui no Rio Grande do Sul. Antes de termos registro de CNPJ, já emplacamos acordo.

Qual é a atuação da 4Labs? O que a empresa desenvolve?

Somos três sócios. Só eu sou economista. Os outros dois são da área de TI (tecnologia da informação). Sou o estranho no ninho (risos). Uma das frentes é a de licenciamento de softwares. Ganhamos percentual sobre cada licença. Além disso, tentamos mostrar para empresas que o uso de dados pode gerar novos negócios, novas fontes de receita. Por exemplo: uma rede de supermercados, ou de qualquer outro ramo varejista, tem várias informações sobre seus clientes por meio dos registros das notas fiscais. Sabe em que horários os consumidores compram e o que eles compram.

Como descreve o cenário para a área no Rio Grande do Sul?

O gargalo que o Estado enfrenta é o mesmo que os demais também encaram. Não tem tanta mão de obra disponível. O que pode fazer a diferença é o empresário gaúcho enxergar e entender as mudanças. Diferentemente do que vemos em outras áreas, o uso de tecnologia para otimizar processos passa pouco pelas mãos do governo. A maior questão é o empresário entender que big data e inteligência artificial podem provocar benefícios para seus negócios. Existem dois setores que largaram na frente nessa corrida: o de saúde e o mercado financeiro.

LEONARDO VIECELI - INTERINO

14 DE OUTUBRO DE 2019
FINANÇAS MUNICIPAIS

Tamanho amplia dificuldades


Todos os 54 municípios em que as receitas tributárias próprias não conseguem bancar nem os gastos de seus legislativos têm menos de 10 mil habitantes. A população, em média, é de 2,7 mil pessoas. Na avaliação do coordenador do grupo de pesquisa em gestão municipal da UFRGS Diogo Demarco, alguns fatores explicam esse fenômeno: atividade econômica baixa, essencialmente ligada à agricultura, número pequeno de imóveis - que gera pouca arrecadação por IPTU -, falta de estrutura tributária mínima para que, com servidores de formação específica, possam recolher os tributos, e desgaste político natural que a cobrança e o reajuste de impostos causam junto à população.

- A criação de municípios pequenos e com pouca base econômica precisa ser melhor pensada. Não pode ser decisão de meia dúzia de munícipes ou de lideranças políticas locais - diz Demarco.

Até dezembro de 1987, o Rio Grande do Sul tinha 273 municípios. De 1988 até 2001, foram criados 224, segundo dados da extinta Fundação de Economia e Estatística (FEE).

Presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) e prefeito de Palmeiras das Missões, Dudu Freire (PDT) avalia que a falta de um setor de fiscalização forte atrapalha o desempenho dos municípios. Segundo ele, os pequenos têm dificuldade em qualificar servidores e nem sequer contam com um departamento de arrecadação. Freire lembra que os prefeitos encontram barreiras nos legislativos para propor aumento de alíquotas:

- Imposto não é simpático à população, especialmente em momento de crise.