quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


PASQUALE CIPRO NETO

"Eu apenas me precavi..."

"Precaver" não tem relação etimológica com "ver'; sua raiz (latina) é a mesma de "cauto, "cautela", "caução", "precaução"

ORA REAL, ORA FORÇADO, o bom humor do presidente não tem fim. Segunda-feira, ao abrir a Couromoda, Lula fez piada com a sapatada que Bush quase levou. Depois de "ameaçar" jogar um sapato nos jornalistas, Lula disse mais ou menos isto: "Eu não quis dar sapatada.

Eu apenas me precavi para vocês não darem em mim". Bastou a televisão exibir a cena para que os leitores me escrevessem para perguntar sobre o "precavi" de Lula. "Esse verbo não é defectivo?" O verbo "precaver" de fato é defectivo, mas... Mas a história não é tão simples assim. É preciso sempre ler a "bula" até o fim, para que não se chegue a conclusões indevidas.

De início, é bom dizer que verbo defectivo é aquele que não se conjuga integralmente, isto é, um verbo é considerado defectivo quando não se registra o uso de algumas de suas flexões.

Mas é bom deixar claro que o "rótulo" de defectivo é dado depois que se analisa o uso, ou seja, o primeiro passo é verificar o uso, o emprego. Constatada a falta de registro de determinadas flexões de um verbo, afirma-se que ele é defectivo.

Essa análise é fundamental para que não se invertam as coisas. Para que fique claro, diga qual é a afirmação correta: a) um verbo é defectivo porque não tem conjugação completa; b) um verbo não tem conjugação completa porque é defectivo.

Se você achou que eu disse a mesma coisa duas vezes, leia as afirmações de novo, por favor. Já releu? A resposta é "b", certo? Errado. É "a".

Posto isso, passemos ao segundo ponto da questão: que uso se leva em conta para que se considere defectivo um verbo? Em se tratando de dicionários, guias e manuais de uso da língua, gramáticas etc., leva-se em conta o uso culto, formal. E nesse território só se registra o emprego das formas arrizotônicas de "precaver" -todas regulares, por sinal.

Não me xingue, não! Já sei que você torceu o nariz quando leu a palavra "arrizotônicas", mas eu a usei adrede (ai!). Usei-a porque é essa a palavra que aparece em alguns dicionários quando explicam a conjugação de verbos defectivos. É rizotônica a flexão verbal cuja vogal tônica está no radical.

Em "canto", a vogal tônica (o "a" da sílaba "can") está no radical ("cant-", no caso); em "cantamos", a vogal tônica (o "a" de "ta") está fora do radical. "Canto" é rizotônica; "cantamos" é arrizotônica.

Moral da história: se na língua culta só se registra o uso das formas arrizotônicas de "precaver", só se registra o uso das flexões cuja vogal tônica esteja fora de "precav-". O presente do indicativo, portanto, limita-se a "nós precavemos, vós precaveis", consequentemente o presente do subjuntivo é zero, é nada, já que esse tempo deriva da primeira do singular do presente do indicativo.

E o pretérito perfeito do indicativo, tempo da flexão empregada por Lula? É completo, já que todas as suas flexões são arrizotônicas: "precavi, precaveste, precaveu, precavemos, precavestes, precaveram".

Como se vê, a forma empregada por Lula é a registrada no padrão formal da língua. Convém dizer que, na linguagem informal e até mesmo em alguns registros formais, constata-se a presença de flexões como "(ele se) precaveio" e "(eu me) precavenho", que não são legitimadas pelos dicionários, gramáticas etc.

Também convém dizer que "precaver" não tem relação etimológica com "ver" (nem com "vir"). Sua raiz (latina) é a mesma de "cauto", "cautela", "caução", "precaução". É isso.

inculta@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

O rosto e a luta

RIO DE JANEIRO - Cena de um desenho animado visto na TV: milionário desmiolado candidata-se a prefeito de sua cidade. Em casa, diante do filho, diz que se apresentará ao eleitorado de forma transparente, sem enfeites nem disfarces, mostrando-se tal como é. Num gesto teatral, arranca a peruca para jogá-la no lixo. Apatetado, o filho comenta: "Mas pai, o senhor nunca usou peruca!". Com os cabelos na mão, o pai insiste: "De hoje em diante, serei como sou!".

Muito se escreveu sobre a necessidade da boa apresentação. Não só para atores, artistas e derivados mas para políticos e administradores. O próprio Lula mudou de visual quando começou a alçar voos mais altos, aparou a barba espessa e rude que lhe dava um ar de anarquista desativado.

As primeiras fotos de Machado de Assis são cruas, vulgares, mostram um mulato feio que deseja subir na vida. Aos poucos vai se transformando, ganhando nobreza, até terminar, na fase adulta, num retrato em que o artista o pintou como um varão de Plutarco.

Ontem me perguntaram o que estava achando do novo visual de dona Dilma Rousseff, que passou por ligeira lanternagem, preparando-se para enfrentar o tsunami eleitoral que se adivinha pela frente, sendo ela até agora a candidata preferencial do presidente para substituí-lo.

Sem entrar em detalhes técnicos, acho que ela ficou bem, remoçou, perdeu o ar de catequista, de cientista social. Não digo que tenha ficado mais bonita -ela nunca foi feia, para o meu gosto até que era atraente com óculos e tudo.

O mal dessas lanternagens plásticas é que todas elas acabam se parecendo. Acredito que dona Dilma não precisasse arrancar a peruca que nunca usou para melhor impressionar os caciques partidários e o eleitorado em geral.

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! A Flora vomita verde!

Ela tá parecendo a menina do "Exorcista'! Continuo com a minha tese: a Flora é fofa! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Socuerro! Que bafo! Quero uma frente fria!

A Argentina não serve pra mais nada. Nem pra mandar uma frente fria! A noite mais quente do ano é quando você dorme com a Juliana Paes! Quando você dorme com a Flora! Que passa fogo em todo mundo! Aliás, a Flora devia usar espingarda de cano duplo. Pra matar dupla sertaneja. Rarará!

E com esse calor um amigo meu foi dormir pelado no terraço. E perguntou pra mulher: "Amor, se eu aparecer pelado no terraço, o que os vizinhos vão pensar?". "Que eu casei com você por dinheiro." Rarará!

E a plástica da Dilma? Ficou com cara de égua de charrete! E sabe o que o cirurgião da Dilma falou? Fui eu, mas não espalha! E, como disse o blogdobonitão: a Dilma tá mais esticada que o mandato do Chávez!

E sabe por que Israel tá bombardeando até cemitério? PRA GARANTIR! Rarará! E o que o Hamas falou sobre cessar-fogo? HAMAIS! E a Flora, que não larga a pistola?

Mas ama a Donatela! Aliás, a Flora tá parecendo a menina do "Exorcista": só falta vomitar verde! Eu continuo com a minha tese: a Flora é fofa!

"BBB9"! Big Baranga Brasil. Parece a faixa de Gaza. Só tem canhão! A "Playboy" vai ter que rebolar! Nem Photoshop adianta. Vão ter que inventar uma coisa além!

E o engraçado é que brasileira agora é assim: não é a roupa que se adapta ao corpo, é o corpo que se adapta à roupa. Pode ser gorda, magra, alta, baixa, a roupa é a mesma: top, bermuda apertada e salto alto! É o look quenga!

E os sessentões? Tem dois sessentões: uma loira que parece a Ana Maria Braga. Antes das plásticas. Ana Maria Brega Pobre! E um ator e radialista de Bananal.

É a cara do Francisco Cuoco! Clone do Cuoco! Agora são dois os objetivos da terceira idade : pegar fila especial no Carrefour e entrar pro "Big Brother". Aliás, sabe qual é a música do "BBB9"? A PIPA DO VOVÔ TÁ NO AR! Rarará!

E eu já sei o que quero eliminar. A sandália do Bial. Aquela sandália de couro! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que no interior de SP tem uma pizzaria chamada Safadinha. Assada na lenha. Mais direto, impossível. Viva o Brasil. Viva o antitucanês!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Massa de ar quente": companheiro comendo pastel de feira! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br


REAÇÃO DESPROPORCIONAL

Israel é um bom discípulo dos Estados Unidos. Se os americanos podem invadir o Iraque com base numa mentira e massacrar parte da população, por que Israel não poderia fazer o mesmo em Gaza baseado em certas verdades?

Sem dúvida, Israel é o agredido. Os palestinos do Hamas não param de jogar pedras e foguetes rústicos no quintal israelense. De vez em quando, matam uma vaca.

Ou um ser humano que não correu a tempo para o bunker. Deve morrer mais gente atingida por coice de vaca do que por foguete palestino. As estatísticas mostram que a pontaria dos 'terroristas' é ridícula. O problema é que eles não param de implicar, obrigando Israel a dar-lhes uma lição igualmente proporcional aos estragos que fazem.

Igualmente proporcional na lógica israelense. Segundo a ONU, certamente uma fonte cada vez mais suspeita aos olhos de Israel, já foram mortas 281 crianças desde o começo dos ataques. Pelo jeito, uma velha máxima atribuída a Maquiavel voltou à moda: os fins justificam os meios.

Para acabar com o transtorno provocado pelos brutos do Hamas, com suas poderosas armas, vale matar crianças. Afinal, conforme a propaganda israelense, os palestinos costumam usar as suas crianças como escudo. Covardia contra covardia tem mil anos de perdão. A comunidade internacional atola-se na hipocrisia. Condena sem condenar.

Por que não adota sanções? Por que não propõe um embargo econômico contra Israel para que as mortes de inocentes cessem? Por que não força o entendimento entre as partes na área?
Israel é bom de chantagem. Qualquer crítica aos seus atos rapidamente é vista como manifestação de antissemitismo.

O judeu Edgar Morin, que participou da luta armada contra a ocupação da França pelos nazistas, sofreu processo não faz muito tempo por ter acusado Israel de praticar uma política totalitária. A Justiça teve o bom senso de absolvê-lo. Israel já bombardeou escola, universidade e casas de civis. Vale tudo. Mais de 900 palestinos já morreram. Não há solução? Há.

A criação imediata de um Estado palestino, a divisão de Jerusalém, com uma administração internacional mediada pela ONU, e a aceitação da volta de parte dos 'refugiados' palestinos. Israel acha que vai resolver o problema pela força. Está criando ódios para várias décadas. Nem precisa escrever.

Imagine-se o contrário: 281 crianças israelenses mortas em ataques palestinos. As sanções internacionais seriam imediatas e implacáveis. Israel acusa o Irã de proteger os palestinos.

Os Estados Unidos protegem Israel. Ninguém duvida de que Israel é a única democracia na região. Isso, porém, não lhe dá direito de responder a uma guerra considerada suja, embora de eficácia duvidosa, com uma guerra suja de eficácia total contra crianças.

Ou será que se trata de cortar o mal pela raiz? No último sábado, um tanque israelense matou uma família inteira de uma só vez. Eram oito civis. Existem convenções internacionais que tentam civilizar as guerras. A ação israelense é desproporcional em relação aos danos sofridos. Parece mais uma operação de limpeza étnica.

A saída para o conflito entre palestinos e israelenses está nas mãos de um homem: Barack Obama.

Ainda faltam cinco dias para ele assumir a Presidência dos Estados Unidos. Quantas crianças palestinas morrerão até lá? De Bush nunca se esperou coisa alguma. Não seria exagerado, embora pouco original, chamá-lo de Pilatos.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o dia - Uma ótima quinta-feira


15 de janeiro de 2009
N° 15849 - RICARDO SILVESTRIN


Não confunda

Ampliando aquela série conhecida de “não-confundas”, trago mais dois. Primeiro: não confunda mercado com sociedade. Segundo: não confunda consumidor com cidadão. Há, é claro, a esfera do mercado. Trata-se das transações de compra e venda e de valor percebido. A tal da lei da oferta e da procura. Mas sociedade é algo mais amplo. Não se reduz às questões numéricas.

O valor é relativo aos costumes, à cultura, à história. Alguém há de dizer, olhando só para o presente, “por que existe uma faculdade de filosofia?”, por exemplo. Se não há um grande valor de mercado hoje para isso. Mas não esqueça que aprendemos a nos pensar como indivíduos pela filosofia. O valor dela já foi dado há séculos. Tem um valor humano.

E pode continuar hoje sua trajetória, enquanto coisas com muito menos valor, nascidas ontem, têm que se virar para conseguir algum. Há a esfera do consumidor e seus direitos. Mas é menor do que a do cidadão. Pode alguém estar alijado do mercado de consumo, mas ainda assim tem que ter seus direitos de cidadão respeitados.

Fui ver a apresentação dos documentários dos alunos de uma cadeira do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos, vulgo curso de cinema.

A gurizada de cerca de 20 anos mostra que ainda tem gente que sabe exatamente as distinções que fiz acima. Os temas escolhidos para os trabalhos estavam recheados de conteúdo humano. Um grupo expôs o ponto de vista de um morador de rua. Vimos sua história, suas questões, a fala de uma pessoa como qualquer outra.

Mas que não é vista como qualquer outra. Aliás, fazemos que não a vemos. Mas o cinema nos mostrou e nos fez enxergar, sobretudo, a nós mesmos.

Outro trabalho lançou um novo olhar sobre essa lenda urbana chamada Toniolo. Aquele das pichações. Outro debateu o Aeromóvel. E, por fim, um mostrou as ações do projeto Odomodê para as questões da cultura negra.

– Tem mercado para esse tipo de filme? – seria a pergunta usual. Tem. Não é grande. É formado pelas pessoas que acabam dando o perfil humano da sociedade. É a elas que, de tempos em tempos, até o mercado pede ajuda.


15 de janeiro de 2009
N° 15849 - DAVID COIMBRA


Sansão e os torcedores

Ahistória de Sansão é narrada no livro dos juizes, no Velho Testamento. Ele era um deles – um dos juízes. Não como os atuais, togados e tal, que falam data venia e ipso jure. Um juiz hebreu naquele tempo, cerca de 32 séculos atrás, era sobretudo um líder militar.

Israel passava por momentos difíceis, de decadência política e moral. As 12 tribos hebreias não conseguiam se unir e a todo momento se viam acicatadas por inimigos das nações cananeias do entorno. Os mais encarniçados eram os filisteus.

Esses filisteus desapareceram na poeira dos séculos, ninguém sabe ao certo quem são seus descendentes, mas eles deixaram alguns parágrafos escritos nas páginas da História.

Os principais graças às guerras contra os judeus. Golias, o gigante que meu xará matou com um fundaço no olho, era filisteu. Não devia ser gigante, gigante, devia ter, sei lá, uns dois metros de altura, quem sabe não muito maior do que aquele jogador de basquete chinês.

Enfim, o pequeno Davi, mirrado e frágil nos seus 16 anos, acertou-lhe uma pedrada e depois o decepou com a enorme espada que ele próprio manejava. Além serem conterrâneos de Golias, os filisteus ficaram conhecidos pela fundação cinco cidades naquela região, a chamada “Pentápole Filistina”. Uma delas, a cidade de Gaza.

Bem. Segundo a Bíblia, um dia ocorreu que “Sansão foi a Gaza, onde viu uma mulher meretriz, e foi procurá-la”. A notícia correu pela cidade. “Sansão está aqui”, diziam os alarmados filisteus. Aí estava uma luminosa oportunidade para liquidar com aquele inimigo tão odiado. Armaram uma emboscada. Puseram soldados nos arredores da cidade com ordens de esperá-lo durante toda a noite. Quando Sansão fosse sair de Gaza, matá-lo-iam. A Bíblia relata o que se deu:

“Sansão dormiu até a meia-noite e, levantando-se, tomou os batentes da porta de Gaza, com os seus postes, arrancou-os juntamente com o ferrolho, pô-los sobre os ombros e levou-os até o alto da montanha que está defronte de Hebron”.

Desde guri, quando li essa história, fico imaginando a cena: Sansão, o homem mais forte do mundo, debaixo de suas melenas de lateral argentino, carregando os monumentais portões de Gaza que ele havia arrancado com as próprias mãos, e levando-os montanha acima, para assombro dos filisteus.

Isso se deu há 3.200 anos, exatamente naquela região ora conflagrada por uma luta entre os mesmos hebreus contra os mesmos povos cananeus. É por essa razão que é inútil discutir quem é o dono daquela terra.

Discutir quem chegou primeiro ou quem agrediu primeiro, quem tem razão, quem não tem, é como uma discussão de bar entre gremistas e colorados. O torcedor acalenta a ilusão de que um dia provará em definitivo que o seu time é melhor.

Como se fosse uma determinação do Destino, como se fosse uma característica adquirida, ou um zigoto especial que só um gremista ou um colorado possui.

Essa ideia está de tal forma incrustada na mente dos torcedores que o Inter montou um projeto intitulado “genoma colorado”. Quer dizer: o “coloradismo” está no gene, é hereditário, bem como o “gremismo”.

Gremistas e colorados jamais conseguirão provar que um é melhor do que o outro. Porque um não é melhor do que o outro.

O futebol vive de ciclos, como a História. Neste ano um time está melhor, no seguinte será o outro; neste século uma nação é poderosa, no próximo será a outra.

No caso da dupla Gre-Nal, é um debate que remonta a cem anos; no caso da Palestina, a dezenas de milênios. Algumas discussões são inúteis. Algumas discussões não têm sentido. Algumas discussões simplesmente não deviam acontecer.


15 de janeiro de 2009
N° 15849 - L.F. VERISSIMO


Delícias de guerra

“Que delícia de guerra” era o título de uma comédia musical inglesa sobre a I Guerra Mundial, feita há alguns anos. Foi uma peça, depois um bom filme. Vista à distância, a guerra de 14 adquiriu um encanto nostálgico próprio para as comédias amargas.

A guerra dizimou boa parte da jovem aristocracia inglesa e do proletariado recrutado, foi um dos maiores exemplos de insensatez humana da História e seu único resultado real foi preparar o terreno para outra grande guerra mundial.

Mas, tanto na Inglaterra como nos outros países envolvidos, os soldados marchavam para o moedor de carne entre vivas e canções de multidões embandeiradas. O sentimento patriótico era comum, o entusiasmo era contagiante – e as canções eram ótimas. Descontados os milhões de mortos, foi uma delícia de guerra.

Na I Guerra Mundial fizeram a sua estreia – pelo menos em guerras de brancos contra brancos – o tanque, a metralhadora e o bombardeio aéreo. A II Guerra aperfeiçoou estas novas maneiras de matar e produziu outras, culminando com a apoteose da morte vinda do ar, a bomba atômica.

A bomba atômica teve três efeitos importantes, descontados os incômodos mortos de sempre. Decretou o fim da II Guerra e o começo da Guerra Fria. Mas também decretou que nunca mais teríamos guerras que poderiam, mesmo remotamente, serem redimidas, pela nostalgia ou qualquer outro tipo de absolvição.

A II Guerra, como a I Guerra, também mereceria o epíteto irônico de “deliciosa”. Foi uma “boa” guerra, que derrotou o fascismo, deteve (outra vez) os alemães, rearrumou o mundo a favor da hegemonia americana e deu as melhores histórias de uma geração. As bombas nucleares acabaram com a ideia, ou a ilusão, da guerra boa.

As duas guerras em que se meteram depois de Hiroshima e Nagasaki os americanos nem chamaram, oficialmente, de guerras. Houve uma “ação policial” na Coreia e uma intervenção no Vietnã e nos dois casos o uso do arsenal nuclear foi contemplado e descartado, porque o resultado prático não o absolveria.

O comedido “equilíbrio de terror” mantido entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria era o reconhecimento tácito de que não sobraria ninguém para fazer musicais sobre uma guerra atômica.

Hoje muitos países têm bombas nucleares ou, dizem, estão em vias de tê-las, e não se sabe bem até onde o comedimento resistirá ao fanatismo. Outra novidade em maneiras de matar, equivalente à bomba atômica no seu ineditismo, é o terrorista suicida, capaz de deflagrar ondas de retaliação e re-retaliação com um único gesto solitário.

O que parece não ter mudado nesses anos todos, a se julgar pelo que acontece no Oriente Médio, é o desprezo pelo número dos mortos. Esta tem sido uma constante histórica.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009



14 de janeiro de 2009
N° 15848 - MARTHA MEDEIROS


Vocação para se machucar

São 13 depoimentos de mulheres integrantes do Mada – Mulheres que Amam Demais Anônimas. Elas toparam conversar privadamente com a jornalista Marilia Gabriela, que soube dar um verniz literário para cada um dos depoimentos e os publicou no livro Eu que Amo Tanto, que é ilustrado por fotos do português Jordi Burch, idealizador do projeto junto com Gabi.

A primeira vez que ouvi falar do MADA foi através de uma novela, até então não imaginava que existisse tal coisa.

Não há como negar o valor da troca de experiências: se funciona nos Alcoólicos Anônimos, pode funcionar com essas mulheres, se considerarmos o amor excessivo um vício. Li os 13 depoimentos com o coração miúdo – achei o livro tristíssimo. Mas não vi amor nenhum ali.

Obsessão e descontrole são doenças sérias e merecem respeito e tratamento, mas batizar isso de “amar demais” é uma romantização e, de certo modo, um desserviço às mulheres e aos homens, pois fica implícito que amor tem limite, quando na verdade amar nunca é demais.

O amor é um sentimento que geralmente provoca ciúme e insegurança, é verdade, mas tem uma essência alegre e prazerosa, é motivador, estimulante e conduz a uma evolução do casal – se estacionar e conduzir a uma separação, é porque se transformou em um sentimento improdutivo.

O livro mostra, com um misto de delicadeza e perplexidade, exemplos de mulheres com autoestima abaixo de zero devido a rupturas familiares que deixaram cicatrizes abertas, escancaradas.

Os níveis de insegurança dessas mulheres são exagerados, amor é confundido com possessão e a perda de controle é total: elas se machucam, e se machucam mais, e mais, e acabam por viciar-se não no amor, e sim na dor.

É uma patologia, mas como se cura? Até onde sei, com psicoterapia e, se o caso exigir, com medicamentos. Mas essa espécie de terapia em grupo promovida pelo Mada não deixa de ser um paliativo para que essas mulheres não se sintam tão incomuns, até porque não são.

Ao ler esses relatos, somos convidados a ser voyeurs de situações que, num primeiro momento, provocam estranheza e piedade (“como alguém chega a esse ponto”?), mas, no fundo, esse ponto não é tão inalcançável a nós, que amamos “na medida”.

O amor que sentimos não é algo estanque e independente: as nossas carências, fantasias e idealizações são projetadas em todas as relações que vivenciamos, e sorte a nossa se os desajustes forem do tipo “normais” e se mantivermos um mínimo de consciência que nos sinalize a hora de cair fora.

Abrir mão de um envolvimento amoroso é uma espécie de morte. Aceitar o fim exige um mínimo de estrutura emocional, que é variável de pessoa para pessoa. Alguns tiram de letra, a maioria sofre e se recupera, e os menos afortunados tornam-se dependentes crônicos da autodestruição.

Não diria que esses últimos amam demais. Acho que amam pouco a si mesmos.

Aproveite o dia - Uma ótima quarta-feira para você.


14 de janeiro de 2009
N° 15848 - SERGIO FARACO


Pelado e de mão no bolso

Acossados pelos assaltantes, a cada dia os bancos implantam novas regras de segurança, e nem assim escapam dos prejuízos causados pelos roubos. Quem deveria ser responsabilizado por esse descalabro é o Estado, mas quem paga o pato é o cidadão. Tempo haverá em que, para entrar num banco, ele terá de se despir.

Outro dia fui a um deles, na Tristeza, fazer pagamentos. Cumpri as formalidades impostas ao público, entregando as chaves e o celular ao guarda, e ele me surpreendeu com o aviso de que nem a bolsa podia levar, tinha de deixá-la no armário do saguão.

Atrapalhado com meus papéis, guardei a bolsa, dela retirando a carteira. E segui para a fila do caixa. Quando chegou minha vez... bah, cadê a carteira? Retornei ao saguão, abri o armário e nem sinal. Refiz o trajeto até o caixa, e nada. Quem sabe a extraviara no Correio, onde antes estivera? Tinha certeza de que ali mesmo a pescara da bolsa, mas, admitindo, ou antes desejando que a certeza mascarasse um delírio, fui ao Correio.

E nada. Voltei ao banco.

Preocupado, decerto, lá se iam cartões de crédito, cédulas de identidade e habilitação, talão de cheques, sem falar em meus laboriosos pilas. Ocorreu-me, então – já sem esperança –, fazer o que devia ter feito antes, isto é, perguntar ao guarda se alguém achara uma carteira.

– Qual a cor? – Marrom. Não é que ele levantou um pano em seu balcão e a carteira estava ali? Fora encontrada sobre o armário por uma senhora que saía.

Que coisa, não? Cruzara pelo saguão, minutos antes, um raro espécime da etnia tupiniquim.

Deparar com uma dessas honradas criaturas é um felicíssimo acaso, como um bambúrrio, mas que existem, existem, e estão por aí, anônimas, discretas – talvez sejam elas as escoras que ainda mantêm em pé sociedades cuja propensão é rastejar como os lagartos.

Desde tal dia, quando preciso pagar contas, já saio de casa mais ou menos pelado, levando no bolso tão-só o que é indispensável. Tenho a satisfação de informar que, naquele banco, ainda não me pediram para tirar as calças.


14 de janeiro de 2009
N° 15848 - DAVID COIMBRA


As mulheres e o futebol

Estava na casa de um amigo assistindo àquele Grêmio versus Goiás no ano passado. Meu amigo, gremistão, sentou-se no centro do sofá, bem em frente à TV. Instalei-me na ponta direita do mesmo sofá. Outro amigo, este colorado, acomodou-se no lado esquerdo. As mulheres dos dois ficaram em duas poltronas laterais, conversando sobre outros assuntos que não futebol. Não ligavam para futebol. Não sabiam nada de futebol.

O Grêmio começou ganhando, como se sabe, mas o Goiás empatou. Se o Grêmio vencesse seria campeão, hoje isso está claro, na época tratava-se de uma forte suspeita. Foi por essa razão que o gol de empate ouriçou o meu amigo gremista e o colorado também.

Ambos se puseram eretos no sofá, o gremista emitiu um palavrão acerca de uma meretriz que deu à luz, e o colorado esfregou as mãos de contentamento. A atitude dos dois chamou a atenção das mulheres. Elas pararam de falar sobre o novo shopping e ficaram olhando para os maridos.

– O que foi? – perguntou a mulher do gremista ao gremista.

– O Grêmio levou um gol – respondeu o gremista, sem tirar os olhos da TV.

– Levou... – sorriu o colorado, e percebi que a ironia suave irritou mais do que suavemente o gremista.

– O Grêmio está perdendo, então? – tornou a mulher. – Está empatando! – disse o gremista, ainda sem olhá-la.

– Ah, então não é tão ruim... – concluiu ela. – É ruim, sim! – ele não desgrudava os olhos da TV. O Grêmio atacava, mas não fazia gol.

– Bem ruim – ciciou o colorado, sardônico. O gremista rosnou baixinho. – Por que é ruim? – perguntou a mulher do colorado.

O gremista olhou para o teto, decerto implorando ajuda do Senhor. – Por que o jogo é em casa! – respondeu ele, mal escondendo a impaciência.

As duas se calaram por alguns instantes. Percebi que o gremista estava agradecido pela trégua.

– Que campeonato é esse? – perguntou a mulher do colorado.

– Brasileiro – informou o colorado.

– Mas o Brasileiro já não terminou? – estranhou a mulher do gremista. – Não! – disse o gremista. – Aquilo foi a Copa do Brasil!

– E qual é a diferença? O gremista ganiu baixinho. Segurou a cabeça com as duas mãos, tentando prestar a tenção ao jogo.

Aí o Goiás fez o segundo gol.

– PU@$%$$!”¨%&*&¨**&¨%$(0((–&¨%$@! – gritou o gremista. – Ah... sorriu o colorado. – O que foi? – quis saber a mulher do gremista.

Ele não respondeu. O colorado também não. O colorado ria. – Amor – ela insistiu. – Que que foi?

Ele suspirou: – O Grêmio levou um gol! – Está perdendo, então? – Está.

– Não está mais empatando? – Não!!! Dez segundos de silêncio. Ao cabo dos quais, ela concluiu, fitando a TV: – Como o Grêmio está ruim, né?

O gremista deu um tapa no sofá e pela primeira vez a olhou: – Não está ruim, não! O Grêmio é o líder! O líder!

Ela arregalou os olhos: – Então por que é que você está tão nervoso?

– Não estou nervoso! O colorado sorria. O Grêmio perdeu outro gol. – WOLFREMBAER! – exclamou o gremista.

– O que foi? – perguntou ela. – O Grêmio levou outro gol? – NÃO!

– Então por que você está tão nervoso? – NÃO ESTOU NERVOSO!!!

– Qual é a diferença entre o Brasileiro e a Copa do Brasil? – perguntou a mulher do colorado.

Naquele momento, o juiz encerrou o jogo. Goiás 2 a 1. O gremista enfiou a cabeça entre os joelhos, como se estivesse chorando. Fazia: – Iiiiiiiiiih...

– O Grêmio levou MAIS UM gol? – surpreendeu-se a mulher do gremista, enfatizando o “mais um”.

– NÃÃÃÃÃÃO! – urrou o gremista. – Então por que você está tão nervoso?

Ele saltou do sofá. Berrou: – Por que você é uma VC$%@&¨(())&*!@””(*&¨&%$@!!!!!!!!

Ela abriu a boca, assustada. O colorado ria.


14 de janeiro de 2009
N° 15848 - PAULO SANT’ANA


Está chegando o Camelódromo

Tenho uma curiosidade imensa de como se comportarão os 800 camelôs designados para a Faixa de Gaza, como apelidei o Camelódromo que se inaugurará no Centro dentro dos próximos dias.

Serão 800 lojistas que nunca foram lojistas e agora terão de se comportar como tal. Será que eles vão se adaptar à nova circunstância?

Porque o melhor ponto do Centro para camelô continuará sendo a Rua da Praia, a Rua Marechal Floriano, a Rua José Montaury e adjacências. Será que o vírus da camelotagem que corre nas veias dos novos lojistas da Faixa de Gaza não os impelirá a instalar filiais nas calçadas das ruas do Centro, onde poderiam exercer a sua vocação histórica de armar tendas e fugir da fiscalização?

Estou torcendo para que dê certo o Camelódromo, que a cidade se organize finalmente e o comércio regular do Centro possa investir nos seus pontos tradicionais, sem a concorrência furiosa e insalubre dos camelôs.

Pelo menos agora a população da cidade não terá mais que se apiedar dos camelôs que são perseguidos pela fiscalização e pela polícia, foi dado a eles o direito de se estabelecer num gueto específico de vendas e compras.

A minha dúvida é a seguinte: alguém ia ao Centro para comprar dos camelôs, ou cada impulso de compra da clientela era improvisado e espontâneo, fruto apenas do fluxo de pedestres que era atraído para as tendas?

Dependendo da imaginação e iniciativa dos 800 camelôs que se transformarão em lojistas, penso que o Camelódromo pode virar um ponto de sucesso na geografia da cidade. Como deixarei de visitar o Camelódromo uma de cada duas vezes que for ao Centro se lá houver produtos que só lá poderei encontrar, uma espécie de mercado persa e zona franca que agitará a população, ávida sempre por adquirir alguma coisa?

Para melhor me informar, telefonei ontem para o Ocimar Pereira, assessor na Secretaria Municipal de Indústria e Comércio.

Haverá uma área de alimentação, com pizzaria, restaurantes de grelhados, entre eles a Sulina Grill, mas não será atendida pelos camelôs e sim por designação do concessionário, que foi quem arcou com os custos da construção toda.

No térreo, haverá 10 bancas de frutas e verduras, que foram concedidas a deficientes visuais que trabalham hoje na intempérie da rua.

Poderão ser adquiridos nas 800 lojas os seguintes produtos: eletroeletrônicos, vestuário em geral, sapatos, cosméticos, bugigangas e quinquilharias em geral.

No terceiro andar, haverá um restaurante com vista para o Guaíba, capacidade para 300 clientes e estacionamento para 216 carros.

O Camelódromo consiste em dois blocos, um no quarteirão entre a Voluntários da Pátria e a Júlio de Castilhos, outro dali até a Mauá, ligados por duas passarelas que passam por cima da Júlio de Castilhos.

E finalmente a resposta a uma indagação forte que eu tinha: não irão para o Camelódromo os pipoqueiros, vendedores de churros, churrasquinho de gato e cachorro-quente, eles permanecerão nas ruas do Centro, somente os atualmente credenciados, cerca de 140, todos com curso de manuseio de alimentos da Secretaria Municipal da Saúde, com aventais e toucas brancas.

Está sendo dada no dia 19 ou no dia 26 a largada para o Camelódromo, tem de ser numa segunda-feira, para os camelôs não pararem de vender e transferir suas mercadorias para o novo local.

Deus queira que venha a ser um relicário da cidade, um ponto de atração turística, um lugar que seja atração para a população de todo o Estado, um grande e agitado shopping de relações humanas e comerciais.

Porque as autoridades municipais, capitaneadas pelo secretário Idenir Cecchin, prometem ao povo e aos comerciantes regulares que não serão mais tolerados os camelôs no Centro. Rigorosamente, não.

Vamos torcer por isso.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009


ELIANE CANTANHÊDE

Bolivianas

BRASÍLIA - O Brasil foi, voltou e a qualquer hora vai de novo. Ou melhor: vai ter que ir, por causa da argumentação técnica e do bom senso. De que se fala aqui? Da compra de gás à Bolívia.

O governo anunciou na sexta de manhã o desligamento de praticamente todas as usinas termelétricas e corte de boa parte da importação do gás boliviano. Com bons motivos: afinal, a chuva torrencial encheu os reservatórios das hidrelétricas, mais baratas e menos poluentes. Tudo resolvido? Não.

Horas depois, a guinada: três usinas seriam religadas e o Brasil compraria até 4 milhões de metros cúbicos a mais por dia do vizinho muy amigo. O que houve? A chuva acabou? Os tanques furaram?

Não exatamente. O que houve é que o assessor internacional, Marco Aurélio Garcia, e o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães foram agregados às reuniões com três ministros bolivianos, em Brasília. E os dois entronizaram a "questão geopolítica estratégica". A Bolívia é o país mais pobre da região...

Como me disse Garcia, a solução foi "tecnicamente viável e politicamente conveniente para os dois lados". O Brasil fica adequadamente abastecido, e a Bolívia, vendendo bem para o maior país da América do Sul, não vai à bancarrota.

Lula pode ir sem susto para a Bolívia na próxima quinta, pronto para ser muito bem recebido e ainda dar uma "canja" para a campanha de reeleição de Evo Morales, enquanto circula em Brasília um texto de uma página e meia do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) justificando a reabertura das termelétricas e mais gás boliviano.

Há dois probleminhas aí. Primeiro: os motivos ali apresentados são puramente conjunturais e podem evaporar em semanas, ou meses. E, aí, corta-se o gás boliviano de novo, no recuo do recuo?

Segundo: e se Rafael Correa (Equador) se animar com a equação do "politicamente conveniente"? Vai voltar à carga? Se vale para um, vale para todos.

Aliás, como só tem acontecido.

elianec@uol.com.

CARLOS HEITOR CONY

Um pouco de história

RIO DE JANEIRO - Golda Meir, lendária primeira-ministra de Israel, por ocasião de uma das crises no Oriente Médio, declarou textualmente: "Prefiro receber mensagens de protesto do que mensagens de condolências".

Ela foi sacrificada após a Guerra do Yom Kipur, em 1973, quando tropas do Egito, aproveitando o dia santificado dos judeus, pela primeira vez chegaram perto de vencer Israel. Golda foi acusada de negligência, o país não podia sofrer aquela surpresa.

Mais tarde, o presidente Anwar Sadat, do Egito, foi a Israel, numa viagem que estarreceu egípcios, israelenses e o resto do mundo. Os dois países assinaram um acordo de paz no Cairo. Em 1978, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, partilhado com Menahem Begin, primeiro-ministro de Israel. Pouco depois, Sadat seria assassinado por um fanático egípcio.

Na gestão Clinton, em 1993, os Estados Unidos promoveram um encontro cordial entre Iasser Arafat, considerado o terrorista-mor, e Yitzhak Rabin. Apertaram-se as mãos num acordo de paz. Ganharam também o Nobel da Paz no ano seguinte. Rabin foi assassinado por um israelense.

Bem ou mal, a situação mudou um pouco. Arafat reconheceu Israel, abriu uma dissidência na antiga OLP, que se dividiu em dois grupos mais ou menos antagônicos: o Fatah e o Hamas.

O primeiro grupo ainda pode ser o núcleo de um futuro Estado palestino, apoiado pelos EUA e talvez por Israel. O Hamas, que ocupa atualmente a faixa de Gaza, continua sua política de agredir Israel, recebendo em troca a invasão desproporcional que está sofrendo.

É a batalha de uma guerra que já dura 60 anos. E em que os dois lados perderão: os palestinos com seus mortos; Israel com a sua imagem política mais uma vez prejudicada.

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Buemba! A Flora é fofa!

Eu acho a Flora até boazinha. Por im, ela já teria matado metade do elenco! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Ano-Novo! Tudo novo! Novidades da reforma, ops, do puxadinho ortográfico. Tem um botequim no Rio que tá vendendo linguiça com trema e linguiça sem trema. Com molho e sem molho! Rarará!

E o Lula hoje de manhã na "Band News": "Temos que baixar o spread bancário". Só que spread ele fala sprédio. Sprédio bancário. Os sprédios bancários ficam na avenida Paulista. Rarará!

E buemba, buemba! O Lula renunciou! É que o ator que ia fazer o papel do Lula no filme do Barreto renunciou!

Acho que avisaram que ele ia ter que fazer uma cena romântica com a dona Marisa! Aliás, eu já disse que deviam mandar a dona Marisa pra Faixa de Gaza. Porque ela é especialista em CESSAR-FOGO! Rarará!

E falando em cessar-fogo, e a Flora? A Flora é fofa! Perto da crise mundial, a Flora é fofa! Eu acho a Flora até boazinha. Por mim, ela teria matado metade do elenco! E já imaginou se o Ciro Gomes fosse presidente? Flora pra primeira-drama!
Ia resolver metade dos problemas do Brasil. Na base do tiro!

E três coisas que só se vê em novela: bicha virar homem, político arrependido e três crianças acharem US$ 1 milhão e doar pra uma ONG na África! Desacredita! E a Flora devia fazer uma dupla sertaneja: A Flora e a Fauna! E a Fauna é a Donatela que anda como orangotango e passou a novela inteira com aquele narizinho vermelho igual ao Rudolf, a rena do Papai Noel!

E adorei a charge do Dálcio sobre a crise mundial: General Motors muda de nome pra Coronel Motors. Baixou de patente. Daqui a pouco vai ser Major Motors. Ou Major MORTOS! Rarará.

E crise no Brasil só existe pra duas pessoas: jornalista e humorista! E o Obama tomou a sua primeira decisão errada: convidou a sogra pra ir morar na Casa Branca! E essa é do Blog do Bonitão: "Obama anuncia novo chefe da CIA e diz que EUA não vão torturar prisioneiros". No máximo, um joguinho do Vasco!

Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que eu vi uma placa na rua: promoção hidratação de mandioca mais escova, R$ 15! É hidratação de mandioca ou na mandioca? É promoção de salão ou de inferninho?!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enfronhada": companheira muito feia que botaram uma fronha na cara! Rarará! O lulês é mais fácil que o ingreis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Buemba! A Flora é fofa!

Eu acho a Flora até boazinha. Por im, ela já teria matado metade do elenco! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Ano-Novo! Tudo novo! Novidades da reforma, ops, do puxadinho ortográfico. Tem um botequim no Rio que tá vendendo linguiça com trema e linguiça sem trema. Com molho e sem molho! Rarará!

E o Lula hoje de manhã na "Band News": "Temos que baixar o spread bancário". Só que spread ele fala sprédio. Sprédio bancário. Os sprédios bancários ficam na avenida Paulista. Rarará!

E buemba, buemba! O Lula renunciou! É que o ator que ia fazer o papel do Lula no filme do Barreto renunciou!

Acho que avisaram que ele ia ter que fazer uma cena romântica com a dona Marisa! Aliás, eu já disse que deviam mandar a dona Marisa pra Faixa de Gaza. Porque ela é especialista em CESSAR-FOGO! Rarará!

E falando em cessar-fogo, e a Flora? A Flora é fofa! Perto da crise mundial, a Flora é fofa! Eu acho a Flora até boazinha. Por mim, ela teria matado metade do elenco! E já imaginou se o Ciro Gomes fosse presidente? Flora pra primeira-drama!
Ia resolver metade dos problemas do Brasil. Na base do tiro!

E três coisas que só se vê em novela: bicha virar homem, político arrependido e três crianças acharem US$ 1 milhão e doar pra uma ONG na África! Desacredita! E a Flora devia fazer uma dupla sertaneja: A Flora e a Fauna! E a Fauna é a Donatela que anda como orangotango e passou a novela inteira com aquele narizinho vermelho igual ao Rudolf, a rena do Papai Noel!

E adorei a charge do Dálcio sobre a crise mundial: General Motors muda de nome pra Coronel Motors. Baixou de patente. Daqui a pouco vai ser Major Motors. Ou Major MORTOS! Rarará.

E crise no Brasil só existe pra duas pessoas: jornalista e humorista! E o Obama tomou a sua primeira decisão errada: convidou a sogra pra ir morar na Casa Branca! E essa é do Blog do Bonitão: "Obama anuncia novo chefe da CIA e diz que EUA não vão torturar prisioneiros". No máximo, um joguinho do Vasco!

Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que eu vi uma placa na rua: promoção hidratação de mandioca mais escova, R$ 15! É hidratação de mandioca ou na mandioca? É promoção de salão ou de inferninho?!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Enfronhada": companheira muito feia que botaram uma fronha na cara! Rarará! O lulês é mais fácil que o ingreis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br


13 de janeiro de 2009
N° 15847 - CLÁUDIO MORENO


É muito arriscado

Quando eu era menino de escola, as aulas de História me ofereciam um animado cortejo de execuções, assassinatos e outras barbaridades – dos cristãos no Coliseu à fogueira da Inquisição, da guilhotina de Paris ao esquartejamento de Tiradentes.

O passado me parecia cruel, mas fascinante e simples de entender, já que tudo se dividia em apenas duas categorias: havia os bons e os maus, a recompensa e o castigo.

Quando estudei a democracia de Atenas, ouvi falar pela primeira vez do ostracismo, castigo que não mereceu a minha a atenção por não ter sangue nem morte. Os atenienses escreviam em pequenos cacos de cerâmica – os óstracos – o nome da pessoa que desejavam punir, e o condenado, em vez de ser executado, devia apenas cumprir um exílio de dez anos, ao cabo dos quais poderia voltar. Que graça tinha isso?

Só muito mais tarde, lendo Plutarco, entendi que o ostracismo não era a punição por alguma falta ou crime, mas sim o rebaixamento de um homem cuja importância e influência o faziam destacar-se entre os seus pares.

O banido pagava por suas qualidades, pois sua a culpa era ter fama demais, talento demais, ou sucesso demais. Alegava-se que o exílio destes homens era uma segurança para a democracia – mas, no fundo, como diz Plutarco, era apenas uma satisfação concedida aos invejosos.

Este foi o destino de Aristides, chamado “o Justo”, que teve um grande papel na guerra contra os persas. Honesto como ninguém, dedicou sua vida a aumentar o renome de Atenas, sem buscar riqueza ou glória pessoal.

Ora, o povo não podia tolerar tamanha perfeição, e logo surgiu o rumor de que ele tinha ficado importante demais; foi o que bastou para que os atenienses votassem então seu ostracismo – segundo Plutarco, disfarçando, com o pretexto de evitar a tirania, a verdadeira inveja que o seu nome inspirava. Na hora de votar, dizem que um lavrador, humilde e analfabeto, estando perto de Aristides, pediu-lhe que escrevesse “Aristides” em seu voto.

“E por quê? Este homem já fez algum dano ao amigo?”, perguntou Aristides, espantado. “Nada”, respondeu o rústico, “e eu sequer o conheço – mas não aguento mais ouvir chamá-lo de justo!”.

Aristides nada mais disse, porque amava a democracia; escreveu seu próprio nome no óstraco e o devolveu ao camponês.

No caminho para o exílio, no entanto, deve ter pensado amargamente na história de Periandro, rei de Corinto, que foi perguntar a Dênis, o duro tirano de Siracusa, qual a melhor maneira de se conservar no poder.

Dênis levou-o para um passeio no campo e, enquanto andavam, ia cortando, com golpes de seu bastão, todas as espigas que sobressaíam das demais.

O recado era claro: eliminar todos os cidadãos de destaque também era, por ironia, a grande arma dos tiranos.

Aproveite o dia - Uma ótima terça feira a você.


13 de janeiro de 2009
N° 15847 - PAULO SANT’ANA


Meios desproporcionais

Impossível opinar sobre quem tem razão no conflito em Gaza, que domina o noticiário há quase 20 dias.

É tanta a confusão sobre o mérito da guerra, que há israelenses dentro de Israel que dão razão aos habitantes de Gaza e palestinos da Cisjordânia que dão razão aos israelenses.

Como é que a gente vai meter a mão numa cumbuca dessas?

Aqui de longe, sem a autoridade de quem for se atrever a julgar fatos ocorrentes em quintal alheio, sou obrigado a lamentar que o Hamas use crianças e escolas como escudos e que israelenses bombardeiem escolas sob custódia da ONU e ambulâncias que prestam ajuda humanitária aos habitantes de Gaza.

O que mais posso fazer? Num esforço de retórica ainda me atreveria a dizer que quem provocou a guerra foi o Hamas ao lançar mísseis sobre Israel e quem agrava a guerra é Israel ao usar de meios desproporcionais para reprimir o Hamas.

Por falar nisso, o mundo inteiro e a ONU acusam Israel de estar usando de meios desproporcionais em Gaza.

Ainda anteontem, desfilou pelo centro de São Paulo uma passeata integrada por 3 mil pessoas que se manifestaram contrárias aos ataques de Israel e à invasão de suas forças sobre a Faixa de Gaza.

Não vejo em parte nenhuma do mundo qualquer passeata ou manifestação de apoio a Israel.

Talvez isso se justifique por uma vocação do ser humano: nós sempre torcemos pelos mais fracos.

Mas e essa acusação mundial que pesa sobre Israel de que está usando de meios desproporcionais ao revidar os foguetes do Hamas que desabam sobre seu território?

O que me falta saber é o seguinte: o que vêm a ser “meios desproporcionais”?

Para não ser desproporcional, Israel teria de, a cada foguete que atingisse seu território, enviar um foguete apenas contra a Faixa de Gaza?

E Israel teria ainda de ter cuidado de, ao lançar seu míssil-resposta, que ele não fosse mais potente em suas carga destrutiva do que o míssil jogado pelo Hamas em seu território?

Tendo o cuidado de não me deixar seduzir nem pela causa israelense nem pela palestina, pelo que não corro o risco de optar pelo lado errado, ainda assim insisto: é possível usar meios proporcionais numa guerra? A guerra, por sinal, não é a ciência da desproporcionalidade?

Ou seja, quem usar os melhores e mais modernos e mais capacitados armamentos, o exército melhor adestrado, não será o vencedor da guerra?

Ou, por outra face, mal comparando, o recém-empossado prefeito da cidade do Rio de Janeiro não estará usando de “meios desproporcionais” ao utilizar retroescavadeiras para demolir (pôr por terra) edifícios inteiros construídos irregularmente na cidade?

Não seria melhor que o prefeito usasse de meios proporcionais à construção clandestina? Em outras palavras, não seria melhor que não fizesse nada e deixasse as construções irregulares prosperarem?

Fico sem saber o que são “reações proporcionais” em uma guerra, até mesmo porque, se forem sempre usadas reações proporcionais, qualquer conflito ou embate terminará empatado.

Então, a gente fica perplexo de ver, entre os 900 mortos, dezenas ou centenas de crianças vítimas dos ataques de Israel e ao mesmo tempo os militantes do Hamas desferindo mísseis contra Israel, claro que calculando que a reação adversária vai destroçar seus civis, suas mulheres e suas crianças, parecendo desejar o martírio delas.

A impressão que dá este conflito é de que ele atravessará, em 2009, sem solução, o seu segundo século.


13 de janeiro de 2009
N° 15847 - MOACYR SCLIAR


Febre amarela: a lição de Drauzio

Está no Novo Testamento (Lucas, 4:23): “Médico, cura-te a ti mesmo”. A frase foi dita por Cristo em caráter metafórico, mas aplica-se perfeitamente à realidade: tradicionalmente, médicos não cuidam muito bem de sua saúde.

Um levantamento feito na Inglaterra mostrou que 57% dos doutores ouvidos não tinham clínico; embora 26% deles fossem portadores de alguma doença requerendo acompanhamento, preferiam automedicar-se do que consultar um colega.

Em termos de medidas preventivas, que incluem estilo de vida sadio, vacinas e exames periódicos, a situação era a mesma. Assim 55% dos doutores não se exercitavam adequadamente contra apenas 36% na população em geral.

Isto nos lembra o caso daquele que é certamente o médico mais famoso do Brasil, Drauzio Varella, que conheço e admiro há tempo e que, através da mídia, realiza um notável trabalho de educação em saúde. Pois em 2004 Drauzio fez uma viagem ao Rio Cuieras, afluente do Rio Negro, em função de um projeto por ele coordenado, de pesquisa de plantas com atividade anticancerígena.

Drauzio tratou de proteger-se contra os mosquitos, comuns na região, mas não fez a vacina contra a febre amarela. Não deu outra: naquele ano ocorreram cinco casos de febre amarela no Brasil e Drauzio foi um deles.

Adoeceu gravemente, com febre alta, dores, calafrios. Foi internado no Hospital Sírio-Libanês (SP), com diagnóstico de febre amarela. Seu caso (isto também é regra: doença em médico volta e meia complica) evoluiu mal. O fígado, atacado pelo vírus, funcionava precariamente, ele corria risco de ter hemorragias, e entrou em pré-coma, deixando o Brasil todo em aflito suspense. Mas felizmente restabeleceu-se..

Ao contrário da regra geral, Drauzio Varella cuida de sua saúde. Deixou de fumar há décadas, faz exames preventivos com regularidade, cuida da dieta, exercita-se: “Sou daqueles fanáticos que correm maratonas, corridas de 42 quilômetros para as quais há que treinar o ano inteiro”, escreveu.

Mas a verdade é que havia 20 anos ele não estava mais protegido pela vacina contra a febre amarela e não a renovou. “Bobeei”, foi sua honesta e lacônica conclusão.

Bom, agora temos febre amarela em algumas regiões do RS. É um problema crônico em nosso país, mas é um problema que pode ser controlado, como mostrou Oswaldo Cruz no início do século 20.

A febre amarela era tão frequente no Rio, que os navios estrangeiros se recusavam a aportar na então capital federal. Mas a campanha desencadeada pelo grande sanitarista reduziu de forma impressionante o número de casos. E notem que não existia vacina naquela época; a saúde pública só podia contar com o combate ao mosquito. A vacina foi um grande avanço.

Quem vai para as áreas de risco no RS deve se vacinar. É fácil: a vacina é aplicada em dose única e imuniza por 10 anos. Os efeitos colaterais graves são raríssimos, mas bebês e algumas pessoas não podem se vacinar – é só perguntar no posto a respeito. Vacinem-se, pois. O Drauzio Varella aplaudirá de pé.

A Troca, de Clint Eastwood, com Angelina Jolie, que vai corajosamente em busca do filho desaparecido, não apenas é um filme pungente, como mostra as duas faces da sociedade americana: de um lado, a hipocrisia de políticos, da polícia e até da ciência, representada por uma psiquiatria retrógrada e repressora; de outro, a coragem e a determinação de cidadãos que vão teimosamente em busca da verdade.

Uma duplicidade da qual tivemos vários exemplos nos últimos anos: o caso da prisão de Guantánamo, que Barack Obama promete desativar. Clint Eastwood, que começou como um ator de westerns amalucados, agora se consagra como um seguro diretor. Forte candidato ao Oscar.


13 de janeiro de 2009
N° 15847 - DAVID COIMBRA


A maior mulher do mundo

Qual é a mulher mais admirável da História? Sempre me faziam essa pergunta, quando lancei o livro Jogo de Damas, dois anos atrás. Qual, de todas aquelas mulheres de que trato no livro, era a minha preferida? Fácil.

A personagem feminina que mais me fascina na História da Humanidade é a imperatriz Valéria Messalina. Não por ser ela a maior devassa dentre bilhões de fêmeas vivas e mortas em 120 séculos de Civilização. E não estou exagerando.

Messalina era de tal forma libertina que seu nome transformou-se em adjetivo (consulte ao dicionário). Ao casar-se com o imperador Cláudio, fez dele, o próprio César, o homem mais poderoso do mundo, senhor de um império que ia da África à Britânia, fez dele o cornus maximus.

Messalina era uma loirinha dourada, magra, mas não muito. Suponho que legítimo exemplar de falsa magra. Passava os dias entregue a orgias. À noite, metia-se debaixo de uma peruca morena e ia prostituir-se na Suburra, o bairro das mulheres de vida fácil de Roma.

Galgava um tamborete e vendia seus favores por um punhado de sestércios. Quando a manhã raiava no Palatino, o proprietário do quarto alugado por ela tinha de mandá-la embora, ou Messalina continuava em suas atividades sem dar mostras de desânimo ou cansaço.

Certa feita, Messalina desafiou a meretriz mais famosa de Roma para um singular campeonato. Venceria a que conseguisse satisfazer mais homens apenas com as artes da felação durante uma única noite.

Quem venceu? Nossa heroína, claro. Legionários, gladiadores, atores, senadores, escravos, não havia homem que fosse rechaçado por Messalina. A todos satisfazia com igual empenho.

Mas não é por suas façanhas de alcova que a admiro. Admiro-a porque ela era movida pelo prazer. Messalina prostituía-se na Suburra, sim, mas não pelo dinheiro: por diletantismo. E Messalina, que virou sinônimo de prostituta (consultou o dicionário?), era de tudo no terreno da lubricidade, menos prostituta.

Refiro-me à acepção usual que a maioria das pessoas dá à palavra, de prostituta ser igual a mercenária. Discordo dessa opinião geral. Afinal, uma prostituta faz mal a alguém? Evidente que não.

Uma prostituta, ao contrário, dá prazer. Vende-o, verdade, mas tanto quanto um restaurante vende o prazer de uma boa refeição ou um escritor vende o deleite de se ler um belo texto. Além disso, a prostituta, enquanto vende o prazer, também pode sentir prazer, e, neste caso, provavelmente exercerá com maior eficiência o seu trabalho.

Eis aí: Messalina fazia o que fazia por amor. Não era uma mercenária. Não era uma prostituta no sentido compreendido pelos preconceituosos, ainda que fosse uma profissional do sexo.

Era aí que queria chegar. A essa palavra: profissional. Vejo jogadores justificando comportamentos nem sempre éticos com essa palavra. Eles são profissionais.

– Sou um profissional – alegam. – Faço o que faço por dinheiro.

É assim que se perde um grande jogador. Quando ele confunde profissionalismo com mercenarismo. O bom profissional não faz o que faz por dinheiro; faz por prazer. E quem faz o que faz por prazer, isso é certo, faz melhor.

Imagine como alguns de nossos grandes craques fariam bem, se continuassem fazendo por amor, como faziam quando começaram a jogar. Imagine como deveria fazer bem uma Messalina, que, mais do que qualquer outra, amava o que fazia.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


MOACYR SCLIAR

Divórcio e recessão

Uma noite ele voltou para casa perturbado, mas sorridente. Achei um lugar para nós, anunciou o marido

Há uma piada nos EUA: o motivo pelo qual um divórcio é tão caro é que ele "vale o preço". Para um crescente número de casais americanos, porém, esse preço se tornou alto demais.

Especialistas relatam que a crise econômica está forçando casais a permanecerem juntos, e, para quem insiste na separação, a briga agora é para ver quem vai ficar com a casa e as dívidas que vêm com ela.

A Academia Americana de Advogados Matrimoniais diz que, em uma proporção de quase dois para um, seus afiliados veem a uma queda em pedidos de divórcio devido à recessão. Dinheiro, 4/ 1/2009

FOI UM LONGO casamento, mas lentamente começou a chegar ao fim. Sem brigas; os dois -ele, engenheiro mecânico, ela, professora- eram pessoas finas, educadas e sabiam como se portar mesmo numa situação difícil. Já não partilhavam a mesma cama, cada um tinha seus casos, mas discutiam francamente a questão do divórcio.

Não precisavam de advogados e muito menos da ajuda dos filhos, que, já adultos, moravam em cidades distantes e preferiam não se envolver. Não era necessário, aliás. A questão da casa, por exemplo, foi resolvida depois de algum debate. Pesava sobre ela uma dívida, mas chegaram a um acordo: o marido ficaria de posse do imóvel, do qual gostava muito, e arcaria com a quantia a pagar.

De repente, a recessão. Foi ruim para os dois, sobretudo para ele. Executivo em uma grande montadora de automóveis, perdeu de imediato o emprego. Ela conservou o seu, mas teve de renegociar uma redução no salário.

Mais que isso, a casa foi tomada pelo banco. O que fazer? Mais uma vez se reuniram, os dois. Debateram bastante e chegaram a uma conclusão: o divórcio teria de ser adiado. Não tinham como manter duas moradias nem como arcar com as despesas judiciais. O jeito era esperar uma melhora na situação econômica.

Afinal, ponderou ele, o país já tinha passado por outras crises antes e se recuperado. Num futuro, que acreditava não muito distante, as coisas melhorariam, eles se separariam e cada um poderia seguir sua vida. Ela concordou.

A primeira providência seria conseguir um lugar para morarem durante aquilo que denominavam, eufemisticamente, de "período de transição". Não foi fácil. Só dispunham dos rendimentos dela, e não queriam recorrer aos filhos, que também estavam em dificuldades.

Teria de ser um apartamento, e pequeno. Puseram-se a campo, cada um procurando. Uma noite ele voltou para casa perturbado, mas sorridente. Achei um lugar para nós, anunciou.

Era um velho e pequeno apartamento de um dormitório -o apartamento em que tinham morado quando recém-casados. Por uma incrível coincidência estava vago. E o aluguel era acessível.

Ela sorriu: deve ser a mão do destino, disse. No dia seguinte mudaram-se, e à noite lá estavam os dois, deitados na velha cama de casal. Normalmente cada um deveria virar-se para seu lado e adormecer.

Mas, num impulso, abraçaram-se. E aí tiveram o que, na manhã seguinte, ele, sorridente, chamou de "uma segunda lua-de-mel". Estão se redescobrindo, estão se reapaixonando. E só esperam uma coisa: que a crise dure muito, muito tempo.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha