sábado, 19 de janeiro de 2008



19 de janeiro de 2008
N° 15484 - A Cena Médica | Moacyr Scliar


Nem sempre o psiquismo é o mais importante

Este belíssimo filme que é A Loucura do Rei George III (disponível nas locadoras) conta a história verídica do soberano inglês que, no final do século 18, começou a apresentar distúrbios mentais tão graves que tiveram de afastá-lo do trono.

Durante muito tempo, o diagnóstico (retrospectivo, claro) foi de psicose. Mas, então, no começo dos anos 70, dois psiquiatras, Ida MacAlpine e seu filho Richard Hunter, revisaram os antigos prontuários médicos do rei e tiveram sua atenção despertada por um detalhe que não tinha sido valorizado: a cor da urina do rei, que era vermelho-escuro.

Essa estranha coloração, sabe-se hoje, sugere uma doença metabólica chamada porfíria, que é hereditária e na qual há falta de uma enzima que destrói substâncias químicas chamadas porfirinas. O acúmulo dessas no organismo se traduz por vários sintomas, inclusive mentais, como depressão e delírio.

O diagnóstico não pôde, obviamente, ser comprovado, mas a probabilidade de que seja verdadeiro é grande (outros membros da família real tiveram quadros semelhantes) e nos chama a atenção para um problema importante: muitas vezes, doenças mentais ou psicológicas resultam, na verdade, de problemas orgânicos.

O psiquismo pode fazer uma pessoa adoecer ou ter sintomas. Isso é uma coisa que se sabe há muito tempo. No século 19, eram comuns, sobretudo em mulheres (então muito reprimidas), as paralisias de natureza histérica.

De repente, a paciente não podia mexer um braço. Neurologicamente, estava tudo bem, mas a paralisia estava ali, e era resultante unicamente de um problema mental. Situação parecida é a da pseudociese ou falsa gravidez.

Mulheres que desejam desesperadamente ter um filho, de repente, vêem o seu ventre crescer, como se contivesse um útero grávido (mas é ar engolido).

E, através do estresse, o psiquismo pode fazer surgir doenças às vezes graves. Não é de admirar que, em meados do século 20, a psicossomática estivesse em alta (o termo vem da soma de psique, ou mente, mais soma, palavra que em grego quer dizer corpo).

Aos poucos, porém, o pêndulo começou a voltar para a posição de equilíbrio, quando se descobriu que doenças atribuídas a uma causa psíquica podem resultar de problemas orgânicos e até mesmo de infecção: o caso da úlcera péptica, classicamente atribuída à tensão emocional.

Em 1982, dois pesquisadores australianos, J. Robin Warren and Barry J. Marshall, sugeriram que a úlcera podia ser causada pela bactéria Helicobacter pylori.

A hipótese não foi muito bem acolhida e, num esforço para demonstrar a sua veracidade, Marshall engoliu uma cultura da bactéria. Logo, desenvolveu gastrite, que é um estágio precursor da úlcera. E teve de tomar antibióticos por insistência de sua mulher, que não suportava mais o mau hálito do paciente.

Doenças neoplásicas, como tumores cerebrais e tumores abdominais (pâncreas, cólon), também podem dar sintomas psíquicos. Nessas circunstâncias, dar um tranqüilizante, por exemplo, pode representar uma irrecuperável perda de tempo.

Daí emerge uma regra há muito seguida pelos profissionais experientes: em quadros obscuros, com sintomatologia psíquica, primeiro é preciso afastar as causas orgânicas. Uma regra que o pobre rei George III aplaudiria de pé.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008



O nascimento da França Cristã

Em sua nova trilogia, intitulada Os Cristãos, o consagrado escritor, historiador, jornalista e político francês Max Gallo, apresenta, por meio de três personagens, a fascinante saga do surgimento do cristianismo na França.

Gallo foi editorialista do L´Express, diretor do Le Matin e depois seguiu carreira política, sendo eleito deputado em 1981. Em 1983 foi nomeado secretário de Estado e porta-voz do governo François Miterrand.

Durante algum tempo foi deputado por sua cidade natal, Nice e, a partir de 1994, farto do mundo político e de suas discussões, voltou totalmente aos livros e hoje é escritor, colunista e comentarista de programas de rádio.

Max Gallo é autor da famosa série Os patriotas, romance histórico sobre a resistência francesa na II Guerra Mundial, e das monumentais biografias de Napoleão Bonaparte e Victor Hugo. A trilogia Os cristãos é composta de O Manto do Soldado, O Batismo do Rei e A Cruzada do Monge.

Em O Manto do Soldado, volume agora lançado no Brasil com tradução de Eloá Jacobina, Gallo apresenta a discussão entre Julius Galvinius e seu filho Antonius na defesa de dois mundos sempre em confronto. Julius pretende convencer seu filho a voltar à tradição, enquanto esse tenta converter o pai à nova fé. O centro da discussão acaba sendo a vida de são Martinho, também dividido entre duas concepções de mundo.

Martinho, o primeiro evangelizador dos gauleses; Clóvis, o bárbaro convertido que unificou a Gália e tornou-se o primeiro rei cristão, e Bernardo de Clairvaux, o grande fundador da ordem cisterciense que preconizou a segunda cruzada, são os três personagens centrais da obra de Gallo.

Martinho escolheu consagrar-se a Deus, na prece e na solidão, mas Deus decidiu de outra maneira. Eleito bispo de Tours, ele é chamado a converter os pagãos e a destruir o antigo culto, tendo como únicas armas a prece e a prédica.

Sua disciplina, a pobreza em que vive e os milagres que realiza fazem surgir em torno dele uma comunidade que cresce cada vez mais e logo o reconhece como o primeiro grande mestre cristão.

Antonius, digno discípulo de Martinho, morrerá como mártir após salvar o pai das mãos dos bárbaros. Esse sacrifício levará Julius a adotar a justa fé e a substituir o filho no eremitério.

Nos próximos volumes da trilogia a serem lançados, O Batismo do Rei e A Cruzada do Monge, Max Gallo segue com sua fascinante série histórica e trata dos outros dois pilares de sustentação da França cristã. 266 páginas, R$ 37,00. Editora Bertrand Brasil, telefone 21-2585 2070.

Jaime Cimenti

Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana para todos nós.

CUBA É A PORTELINHA

O autor da novela global 'Duas Caras' sempre disse que o seu personagem Marconi Ferraço, um vilão que gosta de bancar o impassível, embora seja muito grosso e destemperado, foi inspirado em José Dirceu, o sósia brasileiro de Lênin, só que embalsamado em vida à espera da revolução salvadora.

Ferraço e Dirceu têm em comum a cirurgia plástica, em certo momento da vida, para mudar de identidade. Pode ser. Talvez Dirceu devesse repetir a dose para recomeçar a vida depois de tudo o que lhe aconteceu como todo-poderoso do governo Lulla.

Mais convincente é a similaridade entre Juvenal Antena, o líder carismático da favela Portelinha, vivido pelo ator Antonio Fagundes, e Fidel Castro. A Portelinha é Cuba. Talvez um pouco mais desenvolvida e sem prisões políticas. Também sem punições a homossexuais.

A exemplo de Fidel Castro, Juvenal Antena, quando adoece, nomeia alguém da sua confiança para exercer o poder. Fidel entregou o mando ao seu irmão Raúl, fundando a dinastia Castro, com Fidel I e Fidel II.

Cuba pretende praticar o antigo despotismo esclarecido. Juvenal Antena, na falta de um filho homem para substituí-lo, indicou o afilhado.

Mas se manteve no controle. Falta a Antena um abrigo esportivo como o de Fidel para se mostrar em público no papel de convalescente simpático.

Tanto em Cuba quanto na Portelinha, podem acontecer execuções sumárias de adversários incômodos. Antena sabe quem merece viver e quem deve ser eliminado pelo bem da humanidade. Outra prática em comum é a das eleições de mentirinha.

Antena e Fidel sabem o que é bom para o povo e não querem ser atrapalhados por votações, salvo se elas forem sob medida para legitimar suas posições de comando.
Juvenal Antena é o pai bondoso do povo. Distribui punições e recompensas. Fidel Castro, o pai da revolução. Eles vivem em luta contra os porcos capitalistas e os neoliberais selvagens.

Nesse ponto, Antena encontra-se em situação muito pior. Enquanto os inimigos de Fidel concentram-se em Miami, os de Antena vivem na Barra da Tijuca, um plágio de Miami. Como em todo plágio, os defeitos se tornam exacerbados.

Os neoliberais brasileiros ainda estão na fase da acumulação primitiva do capital, quando vale tudo, especialmente mamar nas tetas do Estado máximo em nome do Estado mínimo e aplicar qualquer tipo de golpe, desde que rentável. Uma novela de televisão é sempre uma caricatura de quinta categoria.

Nada mais adequado para retratar Cuba. Antena vive gritando que sonha em ver a sua favela se tornar cada vez maior. Fidel tem sido bem atendido nesse quesito.

Juvenal Antena reserva-se o direito de acesso às mulheres mais interessantes da sua ilha. Não as força. Prefere seduzi-las com o seu poder.

Não se furta, no entanto, em mandar afastar algum marido sem espírito de colaboração. Na juventude, Fidel soube usar todos os métodos possíveis para saciar o seu apetite de comandante.

O capitalismo infame quer implantar uma fábrica de cimento ao lado da Portelinha e um paraíso turístico, com cassinos e bordéis de luxo, em Cuba. Para fazer isso, terá de passar por cima dos cadáveres de Fidel Castro e de Juvenal Antena.

É exatamente isso que os torna tão sedutores: os seus inimigos não têm a menor legitimidade moral, ética ou social.

As favelas do Rio, onde o terrorismo fashion mantém populações inteiras em estado de barbárie, são como a selva colombiana.

juremir@correiodopovo.com.br


18 de janeiro de 2008
N° 15483 - Paulo Sant'ana


Terapia de casal

Marido e mulher, meus amigos, procuraram um psicanalista e pediram para fazer o que se chama de terapia de casal.

No consultório, o psiquiatra pediu à mulher e ao marido que cada um arrolasse 10 queixas contra o respectivo cônjuge, frente a frente.

O psiquiatra iria anotar as queixas e depois cada um deles faria uma análise de mérito, decidindo quem tinha razão e qual a conduta do cônjuge errado dali por diante.

Foram desfiando suas queixas o marido e a mulher, o psiquiatra anotando e dando opinião sobre elas.

Em dado momento, depois de 50 minutos de sessão, os outros casais que estavam na ala de espera passaram a ouvir gritos e barulhos de socos e pontapés, uma briga generalizada vinda de dentro do consultório.

Até que a porta se abriu e saíram de dentro do consultório o marido, a mulher, mais o psiquiatra, todos mostrando as roupas rasgadas e ferimentos.

Tinha acontecido o seguinte: em meio ao questionário do psiquiatra, às respostas dos cônjuges e às opiniões do terapeuta, estabeleceu-se uma rixa física entre os três.

No decurso da briga, virulenta e barulhenta, o psiquiatra conseguiu um milagre que nem um advogado de Direito de Família poderia ter conseguido com aquele casal: marido e mulher entraram em acordo, mas para agredir o psiquiatra a socos e pontapés.

Marido e mulher passaram envergonhados pela sala de espera onde estavam os casais postados na fila para serem atendidos.

O psiquiatra, também constrangido e sangrando no nariz, descabelado pelos tapas e chutes que recebera do casal, enfrentou assim mesmo os casais da sala de espera: "Quem é o primeiro?", perguntou.

Um marido baixinho que estava ao lado de sua mulher respondeu imediatamente: "Chegamos todos juntos!".

Recebi uma carta que me alegrou muito "Olá, SantAna, tudo bem? Meu nome é Darla Pereira. Escrevi para você há cerca de seis anos.

Relatei minha busca por emprego e como estava sendo discriminada por estar incluída no SPC e Serasa. Brilhantemente, você publicou minha carta, em sua coluna dominical.

O texto, intitulado A dor do desemprego, ao mesmo tempo em que me deixou fortemente emocionada, me trouxe uma inimaginável vontade de continuar a lutar, continuar minha busca por uma oportunidade. Enfim, continuar a viver e resgatar minha dignidade.

Lembro que uma de suas assistentes fez vários contatos comigo, me pedindo autorização para dar meu telefone para algumas pessoas que queriam me oportunizar um emprego, e até conversei com três delas.

A oportunidade veio cinco meses depois... não de algum contato feito através de sua assistente, mas de uma empresa que estava na mesma situação que eu me encontrava na época: quase falida, sem perspectivas, terminando.

Juntamos nossas forças e conseguimos dar a volta. Eu com minha experiência na área administrativo-financeira, a empresa acreditando e apostando em mim, enfim fizemos uma excelente parceria. Juntos vencemos. E é por isso que estou te escrevendo hoje.

Para te contar da minha vitória. Retomei minha vida... retomei a faculdade... paguei todas, absolutamente todas as minhas dívidas e hoje vivo outra realidade. Tenho muito a lhe agradecer. Agradecer por ter lido minha carta e ter dado importância a ela.

Agradecer por ter ajudado tantas pessoas que possivelmente se encontravam na mesma situação que eu naquela época. Quero te fazer um convite.

Um convite para minha formatura. Na verdade é formatura e despedida, pois estarei me unindo com meu namorido e irei embora para Caxias do Sul.

Com muito orgulho e carinho te faço esse convite, tenho a ousadia em fazê-lo, pois você me deu importância.

Muito obrigada. De coração. Segue em anexo meu convite. Um forte abraço! (ass.) Darla Pereira, Rua Vicente Failace, 500, apto. 303".


18 de janeiro de 2008
N° 15483 - David Coimbra


História de verão

Vinha caminhando pela praça e, do outro lado da calçada, um menino comprava sorvete de casquinha. Era um menino pobre. Não indigente, não uma criança abandonada. Pobre. Oito anos de idade, talvez.

O sorveteiro foi generoso, ao servir-lhe. O menino saiu empunhando o cone da casquinha com três bolotonas coloridas e cremosas equilibrando-se com precariedade na parte de cima. Saiu sorrindo, fitando fixamente o sorvetão, e seus olhos faiscavam de deleite antegozado.

Antes de desferir a primeira lambida, chegou a suspirar de prazer. Sorri, ao ver sua satisfação, e até senti vontade de comprar sorvete, fazia calor, era um desses dias de sol feroz.

Quando estávamos próximos, a uns dois metros de distância, ele, caminhando sempre, enfim abriu a boca, esticou a língua e lambeu o sorvete com vontade.

Mas o fez com tamanha sofreguidão, que o edifício das bolas perdeu o prumo, desestabilizou-se, inclinou como uma Torre de Pisa e, bloft!, desabou. Esborrachou-se no chão da praça, deixando o garoto com a casquinha vazia na mão.

O menino estacou. Estaquei. Olhamos, ambos, para o sorvete, que já se dissolvia na laje quente. Em seguida, erguemos os queixos e nossos olhares se encontraram.

O menino trazia a boca aberta em ó e os olhos arregalados num misto de espanto, tristeza e decepção. E foi esse último sentimento que me comoveu.

Não havia nada que o menino quisesse mais, naquele momento, do que o sorvete. Todas as suas energias tinham sido direcionadas para aquele sorvete, todo o seu espírito, todo o seu ser, o mundo era aquele sorvete, e ele tinha o mundo nas mãos.

Ele o tinha. Ele tinha a felicidade empalmada, bem presa entre os dedos, estava ao seu alcance, ele ia ser feliz, ia ser feliz! Aí aconteceu o inesperado. Um acidente. A felicidade estava perdida, derretendo-se no chão escaldante.

Enchi-me de compaixão. Peguei-o pelo ombro: - Vem cá.

Levei-o até o sorveteiro e pedi: - Dá pra ele um sorvete igual ao outro.

O sorveteiro fez o possível para repetir a obra. Creme, morango, chocolate, uma construção bem parecida, porém mais sólida.

- Ó - estendeu para ele. E recomendou, enquanto eu pagava: - Toma cuidado.

O menino apanhou a casquinha. Lançou-me um olhar melancólico.

- Obrigado - sussurrou.

Mas não sorriu. Respirou fundo e foi-se pela praça, lambendo o sorvete com atenção dobrada. Estava agradecido, mas não feliz.

Compreendi por quê. Foi a decepção. A decepção azedou o sabor do sorvete, mesmo tendo ele recebido outro. Lamentei pelo menino. Imaginei que aquela decepção decerto não era a primeira, mas provavelmente fora a maior de seus poucos anos de vida.

E senti alguma compaixão ao saber que ele estava só no início, que ainda haveria mais decepção, mais perdas, mais sorvetes cadentes, sem que nem sempre houvesse alguém por perto para tentar remediar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008



Nem racionalismo, nem esoterismo

Livros de auto-ajuda e esoterismo seguem vendendo muito bem, atendendo à demanda crônica e secular de milhões de pessoas que perderam a crença na religião, na ciência, nos valores e nos líderes tradicionais.

Nesses tempos de busca por segredos, caminhos reveladores e soluções individuais para tudo, o rabino, escritor, engenheiro e doutor em literatura Nilton Bonder, reconhecido internacionalmente e autor do best-seller A alma imoral, apresentou o livro O sagrado.

A alma imoral foi adaptado com sucesso para o teatro por Clarice Niskier, que recebeu prêmio por sua atuação.

Em O sagrado, Bonder reflete sobre as crenças popularizadas pelos livros de auto-ajuda no sentido de que as pessoas possuem a chave para desvendar o mistério da vida e alcançar a plenitude aqui e agora.

Para o rabino, ao invés do consumismo desenfreado e do individualismo que reinam por aí, o homem deveria dedicar-se ao sagrado.

O autor critica fortemente a busca incessante pela satisfação do desejo que leva as pessoas, segundo ele, à "religião dos indivíduos" e ao excessivo amor às dádivas e conquistas.

Para quem acredita totalmente no individualismo, Bonder lembra a fragilidade e as limitações dos seres humanos e ensina que pensar que somos o centro do universo só nos fez intolerantes e ignorantes no passado.

Para ele, o verdadeiro segredo é o "oculto do oculto", ou o sagrado, justamente aquilo que a obviedade não permite enxergar e que não pode ser adquirido como um simples produto, disponível numa prateleira de supermercado.

Para alcançar o sagrado, as pessoas devem se libertar do que o autor chama de "tirania do ego", do culto ao indivíduo, e abrir espaço para o outro - a família, os amigos, a comunidade - em sua vida.

Longe do racionalismo que pretende o entendimento e do esoterismo que pretende a evocação, o sagrado acolhe a incerteza, fortalecendo as escolhas, abarcando o vazio e levando à sabedoria, à simplicidade e ao que é verdadeiramente rico. Bonder diz: "Não somos um fim, somos um meio pelo qual se dá um projeto muito além de nossa biografia individual.

E isso não é má notícia. Ser parte e não integralidade nos aproxima da realidade e possibilita a experiência do sagrado - de ser especial não como algo isolado, independente, mas inserido na Árvore da Vida".

Enfim, opiniões em contrário à parte, numa época de vaidades gigantescas, competições acirradas, carência de valores, falta de líderes e idéias consistentes, a obra de Bonder vem para nos ajudar a tentar uma espécie de terceira via milenar: o sagrado.

Não é pouca coisa. O sagrado pode ser o caminho para o verdadeiro resgate da auto-estima, para o respeito com a ancestralidade e para um novo jeito de passar pelo planeta. 128 páginas, R$ 19,00. Editora Rocco, telefone 3525 2000.

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Quero ver Cuba lançar!

Agora o povo de Cuba não chama mais o Fidel de El Comandante, mas de El Coma Andante!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Direto do País da Piada Pronta! E vocês viram a foto do Lula com o Fidel? O Lula tá em Cuba ou no Museu de Cera da Madame Tussaud?

E o Lula diz que o Fidel está com a saúde impecável. Impecável porque o Comandante tá tão debilitado que não consegue mais nem pecar!

Porque o povo não chama mais o Fidel de El Comandante, mas de EL COMA ANDANTE! Rarará! E adorei o agasalho da Adidas que o Fidel tá usando. Fidel é o novo reforço da Adidas! Rarará!

E a viagem do Lula já tem até trilha sonora. É aquela marchinha de Carnaval: "O Brasil já lançou foguete/ Cuba também vai lançar/ Será que Cuba lança?/ QUERO VER CUBA LANÇAR!"

E adorei a charge do Sinfronio com o Fidel falando pro Lula: "Todo mundo pensa que eu tô gagá, mas eu não tô gagá não. VIU, CHÁVEZ?!". Rarará! E aí o Fidel perguntou pro Lula: "Como vai a saúde?". "Sem a CPMF, amarelô!".

E os médicos fizeram autópsia no Fidel e afirmaram que ele passa bem. Fidel faz autópsia e passa bem! E Cuba é a prova que carro americano é o melhor do mundo. Tem oldsmobile 52 e cadillac 63 rodando.

Ou então, os mecânicos cubanos são os melhores do mundo! E diz que três são os motivos para a vitória da Revolução Cubana: saúde, educação e habitação.

E três são os motivos para o fracasso da Revolução Cubana: café da manhã, almoço e jantar. Rarará! E diz que o problema do Fidel é a Flórida intestinal. Rarará!

É mole? É mole, mas sobe! Es muele, mas suebe. Hay que endurecer sem perder la ternura jamás! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês".

Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Campinas tem um inferninho chamado Cutucando a Jurubeba.
Parece Dias Gomes! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante: "Encubado": companheiro Lula passeando em Cuba. O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E quem não tiver colírio pode pingar rum cubano com caldo de cana!

simao@uol.com.br


17 de janeiro de 2008
N° 15482 - Nilson Souza


Meninos apaixonados

Em vez de empunhar a arma imaginária dos artilheiros, como costumam fazer alguns conhecidos fuzileiros da bola, ele usou os dedos do gatilho para desenhar um coração.

Ao homenagear a namoradinha com um gesto explícito de paixão, o menino Alexandre Pato deu um toque de ternura adolescente ao Planeta Futebol e expôs despudoradamente, diante das câmeras e do estádio lotado, a face branda desse esporte popularizado a pontapés e a provas de virilidade.

Futebol era unicamente para machões. Agora é para quem tem coragem de encarar desafios sem mascarar a sensibilidade.

Pato não é o primeiro atleta a transformar o seu momento de vibração numa demonstração de carinho e afetividade. Já faz algum tempo que os gladiadores da bola vêm substituindo palavrões de desabafo e gestos agressivos por coreografias divertidas, manifestações de fé ou recados familiares. Invariavelmente, funciona. Muitas vezes, emociona.

Não é incomum que mesmo o torcedor mais exasperado suspenda momentaneamente sua fúria quando vê um jovem atleta correr para a beira do campo e embalar o bebê recém-nascido ou que está para nascer - mímica lançada pelo baiano Bebeto na Copa do Mundo de 1994 e que caiu no gosto da rapaziada.

O coração que Pato construiu com as mãos (e também com o próprio coração) ilustrou as páginas esportivas dos jornais da semana e passou um recado importante aos adolescentes de todo o mundo, nesta fase da vida em que as dúvidas se multiplicam e as personalidades se formam.

É possível, sim, conquistar espaço numa sociedade extremamente competitiva sem renunciar à civilidade e ao romantismo. É possível, sim, ser ao mesmo tempo valente e humano, destemido e delicado, forte e carinhoso.

Esses moços saberão um dia que também é possível amadurecer sem perder a ternura. Homens de verdade não se constrangem em agir, de vez em quando e na hora apropriada, como meninos apaixonados.

Veja-se este exemplo: há poucos dias, o compositor Dorival Caymmi comprou orquídeas para o aniversário de 86 anos de sua mulher Stella Maris e registrou no cartão:

- Não é possível amar como eu te amo. Seu marido, Dorival Caymmi. Ele desenhou o seu primeiro coração para Stella há quase sete décadas, possivelmente numa bela canção de amor e mar.

Uma excelente quinta-feira especialmente para você.


17 de janeiro de 2008
N° 15482 - Paulo Sant'ana


Os três coqueiros

Quem não tem recordações da infância que lhe remoem a alma? Quem não tem?

Por exemplo, são inesquecíveis à minha lembrança os três coqueiros que havia à frente de minha casa, quando eu era menino, na Chácara das Bananeiras, Partenon.

Eram três coqueiros finos. E só agora explico um verso antes inexplicável de Ary Barroso na célebre Aquarela do Brasil: "Este coqueiro que dá coco/ oi! onde amarro a minha rede/ nas noites claras de luar".

Diz o Márcio Pinheiro, o segundo maior entendido em música popular brasileira na redação de Zero Hora, que este é o verso mais idiota da música nacional: "Este coqueiro que dá coco". E arremata o Márcio: "Qual o coqueiro que não dá coco? Coqueiro não dá é morango".

E eu contraponho: porque os três coqueiros verdes da frente da casa da minha infância não davam coco. E não davam nem coquinho.

Então o verso do imortal Ary tinha nexo, sim senhor.

Pois bem, depois que com 15 anos me mudei da Chácara das Bananeiras para a Azenha, ficaram lá os três coqueiros da minha meninice peralta, ao sabor dos ventos e das estações.

E de três em três anos eu saía aqui da Azenha e passava lá pela minha casa do Partenon para remoer recordações da minha vida de guri.

E 15 anos depois de eu ter-me mudado, caiu o primeiro dos três coqueiros. Levou 20 anos para cair o segundo coqueiro. E enquanto eu ia passando por lá para rememorar meu tempo feliz de criança, caiu o terceiro coqueiro, cuja ponta do caule permaneceu ereta por mais 20 anos.

Morreram e caíram os meus três coqueiros da infância pobre, digna e alegre. E isso me fez recordar uma das canções mais famosas e folclóricas da história musical brasileira.

De autor desconhecido, foi gravada por mais de 200 intérpretes: "Tu não te lembras da casinha pequenina/ onde o nosso amor nasceu?/ tinha um coqueiro do lado/ que coitado de saudade já morreu/ (bis) tinha um coqueiro do lado/ que coitado de saudade já morreu".

Morreram de saudade os coqueiros da minha casa de infância no Partenon. Saudade de meu irmão, Cirilo, lindo como um fauno, coitadinho viria a morrer 40 anos depois, de câncer, nos meus braços, sem mais ar para respirar, nem o dos tubos.

Morreram os três coqueiros de saudade de minha irmã Teresinha, querida, ainda hoje vive com seu marido, Antônio Oliveira, aqui no Menino Deus.

Os coqueiros morreram de saudade da minha outra irmã, Rosa Maria, querida irmã que me adora, embora eu cretinamente não lhe ofereça motivos para tal. Ela ainda resiste aqui numa travessa da Avenida Bento Gonçalves, dá-me uma vontade imensa de ir lá enchê-la de beijos.

Morreram os três coqueiros de saudade dos meus outros dois irmãos, José Carlos e Flávio Roberto, adoradas criancinhas que brincavam de roda em torno dos três coqueiros.

E morreram, os três coqueiros antes altivos diante dos ventos do Partenon, de saudade principalmente do coronel Ciryllo, meu pai, e de minha madrasta, Zica.

Quantos os sacrifícios que eles fizeram para criar a nós, seus seis filhos e enteados, quantos trabalhos, quantas preocupações, dores e aflições para nos manter vivos até a morte!

Os três coqueiros do Partenon foram o sinal de esperança das nossas existências. E coitados de saudade já morreram.


17 de janeiro de 2008
N° 15482 - Luiz Pilla Vares


A velha Simone

Na semana passada, jornais do mundo inteiro deram destaque a Simone de Beauvoir, que, se viva fosse, estaria completando cem anos. Nada mais justo: a companheira de toda a vida de Jean-Paul Sartre influenciou toda uma geração, especialmente as mulheres da segunda metade do século 20. Com efeito, seu livro monumental

O Segundo Sexo transformou radicalmente a consciência de centenas e centenas de mulheres através do mundo e proporcionou uma consistência teórica ao movimento feminista que até então era desconexo e frágil teoricamente, aliás como todo novo movimento.

O Segundo Sexo foi, portanto, uma verdadeira revolução intelectual que teve imediatas conseqüências práticas, que mudaram os costumes que começavam a ser abalados no imediato pós-guerra.

Nada mais justo, portanto, que se dê o devido destaque ao papel histórico de primeira linha representado por Simone de Beauvoir no movimento feminista mundial. A imprensa também destacou suas qualidades como romancista - A Convidada e Os Mandarins, este último ganhador do respeitado Prêmio Goncourt.

Na verdade, Simone foi uma excelente escritora: suas notáveis Memórias, formadas por vários volumes, constituem uma admirável e apaixonante reconstrução da vida e do ambiente intelectual da França durante grande parte do século passado.

Mas um aspecto extremamente importante e decisivo da vida da pensadora francesa foi negligenciado, obscurecido e, em alguns casos, incompreensivelmente simplesmente omitido.

Trata-se de seu engajamento radical nas posições políticas da esquerda. Ela se envolveu em todas as lutas da esquerda, seja através de escritos, seja pela presença física.

Apoiou decididamente as lutas pela independência da Argélia e a revolução socialista cubana. Juntamente com Sartre e outras personalidades do mundo intelectual foi uma das vozes mais firmes contra a guerra desencadeada pelos Estados Unidos no Vietnã e sempre lutou pela paz entre árabes e judeus no Oriente Médio.

Seus ensaios especificamente políticos não tinham a complexidade dos de Sartre, mas, mesmo assim, não foram destituídos de um certo brilho, como O Existencialismo e a Sabedoria das Nações ou Merleau-Ponty e o Anti-Sartrismo, sobre a polêmica entre os dois grandes pensadores franceses acerca do marxismo.

Seu livro O Pensamento Político da Direita teve grande repercussão na juventude esquerdista de início dos anos 1960 e pode ser lido com prazer até nos dias atuais.

Grande Simone, velha de guerra.


17 de janeiro de 2008
N° 15482 - Luis Fernando Verissimo


Xerexexê

O Raimundão era capitão do time e achava que uma das funções de um capitão era pressionar o juiz. Juiz deve ser pressionado sempre, era a opinião do Raimundão.

Juiz tem que ouvir reclamações quando apita qualquer coisa, certo ou errado, e o encarregado de fazer as reclamações é o capitão. Respeitosamente, ressalvava o Raimundão. Mãos nas costas, alto nível. Mas sempre.

Não há, na história do futebol, caso de juiz que reverteu uma decisão depois de ouvir uma reclamação de jogador. Raimundão sabia disto. Mas a questão não era essa. O juiz precisava saber que estavam de olho nele.

Que ele não estava enganando ninguém. E o veículo desta desconfiança constante, desta cobrança implacável, era, naturalmente, o capitão. Que, afinal, também era uma autoridade em campo. Uma autoridade menor, mas autoridade.

E vigilante. Por isso, as torcidas tinham se acostumado a ver o Raimundão, mãos nas costas, conferenciando com o juiz, às vezes longamente. Alguns juízes não queriam conversa e mandavam o Raimundão se afastar. O Raimundão se afastava, mas reclamando.

E quando o juiz era estrangeiro? Em que língua o Raimundão reclamava? Que se soubesse, o Raimundão era monoglota convicto. Como fazia?

Um dia o Raimundão contou como fazia. Quando o juiz era estrangeiro, ele costumava falar "Xerexexê, xerexexê, xerexexê", só variando o tom. "Xerexexê, xerexexê, xerexexê", fosse o juiz alemão, castelhano ou coreano. O importante não eram as palavras, era a cena.

Era o juiz se sentir pressionado e a torcida ver o Raimundão pressionando o juiz, cumprindo a sua obrigação de capitão. "Trabalhando o psicológico", como ele dizia.

Muitas vezes, quando a torcida pensava que o juiz estrangeiro estava dando explicações ao Raimundão, estava apenas dizendo "O quê?" E o Raimundão: "Xerexexê, xerexexê, xerexexê, pô!"

Um dia, o juiz era da Guatemala. Dois minutos de jogo, falta contra o time do Raimundão. O juiz em cima: piii. E o Raimundão em cima do juiz: "Xerexexê, xerexexê, xere..." Não completou sua argumentação. Foi expulso de campo antes do último "xexê"!

Cartão vermelho. O juiz da Guatemala dando pulos. Se tivesse cartão roxo, mostraria o roxo. O que quer dizer "xerexexê" na Guatemala? O Raimundão conta que nunca ficou sabendo.

E que, a partir daí, sempre que se dirige a um juiz estrangeiro, se limita a referências à sua mãe e ao sucesso que seus hábitos exóticos devem fazer na zona. Sempre em tom ponderado e respeitoso. E em bom português, para não haver mal-entendidos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Buemba! Quero rodízio de alagamento!

Dizem que agora o Timão contratou um jogador japonês: Tanashi Gunda! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Direto do País da Piada Pronta! E sabe qual a praia preferida dos argentinos em Floripa? PRAIA DA ARMAÇÃO! Rarará! E diz que o Sarkozy é o Aécio Neves da França: narigudo e só pega mulherão.

E as cadeias de lata no Carnaval de Salvador? Não era mais fácil prender o cara num banheiro químico? Joga o cara lá dentro e fecha a porta!

Rarará! E essa: "Após visita em hospital, Marisa diz que Alencar está bem". ELA FALA! A dona Marisa falou! A nossa Hello Kitty abriu a boca! A muda mudou!

Aliás, eu vou fazer uma enquete: quem fala mais? O Fidel, o Hugo Chávez, a Renata Fan ou o Milton Neves? Rarará!
Aliás, diz que o Timão contratou um jogador japonês: Tanashi Gunda! Rarará!

E a Colômbia? As Farc soltam dois e seqüestram seis! Eles deviam dar um seminário: "Aprenda a trocar dois por meia dúzia".
E tá chovendo ou tão cuspindo na gente? Sampa virou um Aquaplay.

IPVA agora é Imposto Para Vias Alagadas. E motoboy virou botoboy. Bote com motor de popa! E quem disse que São Paulo não tem mar? Tem dois: MARginal Tietê e MARginal Pinheiros.

E Sampa é assim: Basta um cachorro mijar no poste pra cidade alagar! Eu proponho pro Kassab fazer rodízio de alagamento!

E o TEMPORÃO!? Sabe porque o sinistro da Saúde se chama Temporão? Porque só aparece de vez em quando, fora de época.

Aliás, a gente só sabe quem é o ministro da Saúde por causa da febre amarela. Epidemia de sorriso amarelo.

Sorriso amarelo pra enfrentar alagamento, epidemia e roubo no Masp! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que um amigo meu estava na estrada Rio-Bahia quando viu a faixa: "Estrada Ruim! Governo Ladrão". Uau! Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Bajulatório": companheiro que puxa o saco do chefe no mictório. Rarará!

O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo, que eu não vou!

simao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

O trambique antecede a lei

SÃO PAULO - Há um antigo ditado que ouvi pela primeira vez em Buenos Aires, o que não quer dizer que seja argentino. É o seguinte: "Hecha la ley, hecha la trampa".

Em tradução absolutamente livre, quer dizer: "Faz-se uma lei e imediatamente se faz também a burla a ela".

O Brasil dos tempos que correm aperfeiçoou a malandragem: faz-se a "trampa" antes mesmo de se fazer a lei. Ou, no caso, é modificada a lei para tornar legal a "trampa".

É óbvio que estou me referindo à compra da Brasil Telecom pela Oi (ex-Telemar). A lei vigente proíbe o negócio, mas ele já está tão sacramentado que as ações de ambas as companhias tiveram espetacular valorização nos últimos dias, conforme relato de Fabricio Vieira na Folha de ontem.

Ou seja, há um trambique publicamente em curso, na medida em que a operação é, hoje, ilegal, mas ninguém liga a mínima, porque todo o mundo sabe que o governo vai dar um jeitinho na lei para que a burla deixe de sê-lo.

Em qualquer país minimamente sério, uma operação desse gênero provocaria tremendo escândalo.

Em países não tão sérios, seria feita no escurinho. No Brasil, a acomodação da lei aos fatos se dá em plena luz do dia.
E fica por isso mesmo.

É apenas mais um dos incontáveis exemplos de como o lulo-petismo copia todos os métodos, bons ou ruins, do tucanato.

Lembra-se de que, na privatização das teles, os principais operadores foram flagrados em uma gravação dizendo que o governo estava agindo "no limite da irresponsabilidade"?

É razoável dizer que, agora, superou-se o limite com a maior sem-cerimônia. Nem é preciso uma gravação clandestina para comprová-lo.

Para se referir à privatização das teles, Elio Gaspari cunhou a expressão "privataria". Que neologismo usar agora, caro Elio?

crossi@uol.com.br


16 de janeiro de 2008
N° 15481 - Martha Medeiros


A janela dos outros

Gosto dos livros de ficção do psiquiatra Irvin Yalom (Quando Nietzsche Chorou, A Cura de Schopenhauer) e por isso acabei comprando também seu Os Desafios da Terapia, em que ele discute alguns relacionamentos padrões entre terapeuta e paciente, dando exemplos reais. Eu devo ter sido psicanalista em outra encarnação, tanto o assunto me fascina.

Ainda no início do livro, ele conta a história de uma paciente que tinha um relacionamento difícil com o pai. Quase nunca conversavam, mas surgiu a oportunidade de viajarem juntos de carro e ela imaginou que seria um bom momento para se aproximarem.

Durante o trajeto, o pai, que estava na direção, comentou sobre a sujeira e degradação de um córrego que acompanhava a estrada. A garota olhou para o córrego a seu lado e viu águas límpidas, um cenário de Walt Disney. E teve a certeza de que ela e o pai realmente não tinham a mesma visão da vida. Seguiram a viagem sem trocar mais palavra.

Muitos anos depois, esta mulher fez a mesma viagem, pela mesma estrada, desta vez com uma amiga. Estando agora ao volante, ela surpreendeu-se: do lado esquerdo, o córrego era realmente feio e poluído, como seu pai havia descrito, ao contrário do belo córrego que ficava do lado direito da pista.

E uma tristeza profunda se abateu sobre ela por não ter levado em consideração o então comentário de seu pai, que a esta altura já havia falecido.

Parece uma parábola, mas acontece todo dia: a gente só tem olhos para o que mostra a nossa janela, nunca a janela do outro. O que a gente vê é o que vale, não importa que alguém bem perto esteja vendo algo diferente.

A mesma estrada, para uns, é infinita, e para outros, curta. Para uns, o pedágio sai caro; para outros, não pesa no bolso. Boa parte dos brasileiros acredita que o país está melhorando, enquanto que a outra perdeu totalmente a esperança.

Alguns celebram a tecnologia como um fator evolutivo da sociedade, outros lamentam que as relações humanas estejam tão frias. Uns enxergam nossa cultura estagnada, outros aplaudem a crescente diversidade. Cada um gruda o nariz na sua janela, na sua própria paisagem.

Eu costumo dar uma espiada no ângulo de visão do vizinho. Me deixa menos enclausurada nos meus próprios pontos de vista, mas, em contrapartida, me tira a certeza de tudo.

Dependendo de onde se esteja posicionado, a razão pode estar do nosso lado, mas a perderemos assim que trocarmos de lugar. Só possuindo uma visão de 360 graus para nos declararmos sábios.

E a sabedoria recomenda que falemos menos, que batamos menos o martelo e que sejamos menos enfáticos, pois todos estão certos e todos estão errados em algum aspecto da análise. É o triunfo da dúvida.

Com temperatura beirando os trinta graus agora pela manhã e ameaças de chuva, que tenhamos todos uma ótima quarta-feira.


16 de janeiro de 2008
N° 15481 - David Coimbra


A dança louca de Barragán

A noite mais aflitiva da minha vida eu a passei no alto de uma montanha da Colômbia, no território conflagrado das Farc.

Lembrei esta semana do que me ocorreu na época, ao ver pela TV, nas matérias sobre os reféns libertados pela guerrilha, paisagens e personagens semelhantes aos que lá encontrei. Aconteceu algo, no meio daquela noite, algo muito estranho, quase inexplicável, de que nunca me esqueci, e que vou contar agora.

Naquele ano, 2001, fui à Colômbia para cobrir a Copa América. Já saí do Brasil com a idéia de fazer reportagem sobre as Farc e entrevistar um guerrilheiro. Em meio à competição, fui apurando a matéria.

Quando o Brasil foi eliminado, naquela fiasqueira contra Honduras, resolvi me dedicar inteiramente à tarefa de achar os guerrilheiros. Não foi fácil. Alugamos um carro, eu e o fotógrafo José Doval, com um motorista colombiano.

Pusemo-nos a subir as montanhas dos Andes e não paramos mais. Cruzamos por 15 montanhas durante mais de 10 horas. Em cada pequeno povoado que entrávamos, lugarejos destruídos pela guerra, semi-abandonados, paupérrimos, os habitantes nos diziam o mesmo:

- Vocês não vão voltar. Vocês vão ser seqüestrados pela guerrilha e não vão voltar mais.

Só que não deparávamos com guerrilheiros que nos seqüestrassem ou que nos dessem entrevista. Por volta das dez ou onze da noite, havíamos subido 3.600 metros.

Estávamos num pueblo, Barragán, em que sobravam apenas 12 famílias. O resto do povo fugira para as cidades, Andes abaixo. Alguns moradores, desconfiados, nos informaram que os guerrilheiros poderiam ser encontrados em Santa Lucia, no alto da montanha.

Lá fomos nós.

Não rodávamos por uma estrada - era uma picada coberta de pedregulhos, um dos quais se chocou com o tanque de gasolina, perfurando-o.

E esta era a nossa situação: estávamos no meio da selva, ladeados por um precipício e uma parede de pedra, no escuro da noite, dentro de um carro avariado que em minutos pararia para não mais andar.

Se ficássemos ali, poderíamos ser abalroados por um caminhão das Farc e cair no abismo, ou poderíamos ser atacados pelos paramilitares, algo assim. Tínhamos de retornar. Demos meia-volta e descemos rumo a Barragán, os olhos colados no mostrador de gasolina. Chegamos ao lugarejo exatamente quando o carro morreu.

Não havia oficina por perto, nem ninguém que consertasse o carro. Não tínhamos onde passar a noite, nenhum morador atendia quando batíamos nas portas. O frio aumentava a cada minuto.

Depois de muita insistência, convencemos o dono de uma venda a nos acolher. Ele nos trouxe cobertores, abriu algumas latas de sardinha e serviu-nos uma cachaça branca que é bebida na Colômbia. Em seguida, preparou um omelete bem razoável e ligou o rádio. Tocava uma salsa colombiana.

E aí aconteceu o que queria relatar: nós começamos a dançar. Sem combinação prévia, eu, o fotógrafo e o motorista nos levantamos e dançamos em volta da mesa, enrolados nos cobertores, feito índios, rindo e cantando.

Dançávamos de alegria por ter arranjado comida e agasalho. Continuávamos sem ter como sair daquele lugar, continuávamos em perigo, mas aquele breve conforto nos rendeu um momento de júbilo como poucos que experimentei na vida.

No dia seguinte, fomos a Santa Lucia de carona em um caminhão de tambo de leite. O lugarejo era da guerrilha, ali não havia governo da Colômbia, polícia, exército, nada. Ali era a guerrilha.

Os soldados das Farc, aos nos verem, se ouriçaram. Nos ameaçaram com suas metralhadoras, em certo momento cheguei a temer por nossas vidas.

Mas tudo deu certo, eu os entrevistei, consegui a matéria. No fim, agradeci pela derrota da Seleção. Até porque, no ano seguinte, o time de Luiz Felipe conquistou o Penta.

Mais tarde, ao lembrar de tudo o que passamos e ao pensar mais especificamente naquela noite em Barragán, na nossa dança espontânea, surpreendente e meio maluca, concluí que a vida, realmente, é simples. E que, realmente, é fácil ser feliz.


16 de janeiro de 2008
N° 15481 - Paulo Sant'ana


Dai de ler aos súplices

O e-mail que vocês vão ler a seguir é um dos melhores e maiores tratados de jornalismo e comunicação que se conhece.

Foi dirigido ao editor-chefe do Diário Gaúcho pelo serviço de atendimento ao leitor: "Dona Vilma França (telefone para contato 3248-8208), que já foi assinante de Zero Hora, agora compra o Diário Gaúcho, todos os dias, desde que foi lançado.

Mas sente falta da coluna do Paulo SantAna e sugere que ele seja publicado nos dois jornais (se não for possível a coluna inteira, então que seja meia coluna)".

Quando uma ex-leitora suplica por voltar a ler minha coluna, meu coração, que tem catedrais imensas, templos de priscas e remotas eras, soçobra e parece que vai parar.

"Coração, por que é que tu não paras?" é o que quero vociferar, por sinal, ao meu músculo cardíaco, já exausto de tantas emoções. Pára, coração, se uma mulher não pode ler mais um mero cronista provinciano que se incrustou de tal maneira à sua pele, ao seu intelecto e ao seu metabolismo coronariano, esta vida é injusta.

Essa leitora adquiriu, por motivos de ternura, o direito de ler seu colunista ícone.

Essa mulher precisa me ler. Ela não vive sem me ler.

Sinto ímpetos de ir pessoalmente entregar todos os dias na casa dessa mulher um exemplar de ZH, que, é claro, surripiarei lá da oficina de nosso jornal, todas as madrugadas.

Garanto que vou, porque como disse o grande poeta russo Maiakovski, em mim a anatomia enlouqueceu, eu sou todo coração.

Recebo resposta da Polícia Rodoviária e incontinente a publico: "Caro SantAna, escrevo para comentar o texto que publicaste no sábado, na Zero Hora. Bem sei que a opinião ali não é sua, mas gostaria, dentro do possível, que pudesse publicar três tópicos somente, como forma de esclarecimento, em nome da Polícia Rodoviária Federal.

1º) Sempre que há algum acidente envolvendo viatura da PRF, é aberto um Procedimento Administrativo para apuração dos fatos e possíveis responsabilidades, o que está sendo feito neste caso.

2º) Foi constatado, e isto não foi dito pela senhora que redigiu o texto, que o condutor do veículo Peugeot 206 estava com a carteira nacional de habilitação (CNH) vencida havia mais de 30 dias. Ou seja, ele não poderia estar dirigindo aquele veículo. O mesmo foi multado pelos PRFs que atenderam o acidente.

3º) As marcas de frenagem do veículo Peugeot se estendem por mais de cinco metros. Mesmo assim, a força do impacto foi tamanha, que a viatura PRF, uma camioneta Blazer, teve perda total, não podendo ser recuperada, tal a força do impacto causado pela velocidade desenvolvida pelo condutor sem CNH. A máxima naquele local é 80 km/h.

Apesar de os policiais rodoviários federais realizarem cursos específicos e passarem por treinamentos para condução de viatura policial, são seres humanos passíveis de falhas.

Mas não é por isso que se deve condenar toda a corporação, como é feito no e-mail. Obrigado pela atenção e espaço, (ass.) inspetor Alessandro Castro, chefe de Comunicação Social".


16 de janeiro de 2008
N° 15481 - Sergio Faraco


Tradutores

Em 1990, decorrido um lustro da morte de Mario Arregui, publicou-se em Montevidéu, pelo Editorial Monte Sexto, o livro Mario Arregui & Sergio Faraco: Correspondência.

Trazia as cartas que trocamos nos anos 1981 - 1985, período em que lhe traduzi as obras lançadas no Brasil, Cavalos do Amanhecer e A Cidade Silenciosa.

Essas cartas serão publicadas em 2008, se minha nostalgia permitir que conclua a tradução: a todo instante me pego a relê-las, em vez de trabalhar.

Conhecer Arregui pessoalmente, tê-lo em minha casa naquele verão de 1982, tão culto e tão incivil, ouvi-lo dissertar sobre literatura inglesa e recitar William Blake ao mesmo tempo em que punha a cinza do cigarro no açucareiro e logo o esmagava no carpete, foi algo não menos do que fascinante.

E como amava a literatura! Relendo as cartas, assombrei-me ao recordar que às vezes discutíamos longamente... sobre uma vírgula!

Em nossos primeiros contatos, ele se surpreendeu quando pedi que lesse os contos já vertidos: não entendia o português, reclamava, e haveria de estranhar muitas coisas em vão.

Eu lhe respondi que era exatamente o que desejava, que estranhasse tudo, de modo que, justificada ou não sua estranheza, todos os pormenores fossem abordados e esclarecidos. É um procedimento que sempre adotei nos livros que traduzi de autores vivos, a possibilidade de errar é bem menor.

Assim fiz com Eduardo Galeano, em De Pernas pro Ar e O Teatro do Bem e do Mal, antes do correio eletrônico: trocávamos faxes quase diariamente. Não quero dizer com isto que sou um bom tradutor e sim que me esforço para sê-lo.

Meu tradutor venezuelano, olha só, nunca falou comigo, e eu sempre me perguntava como ele teria conseguido entender aqueles contos de acentuado vocabulário fronteiriço. Um dia resolvi me ler em espanhol, coisa que, até então, não tinha feito.

No conto Guapear com Frangos, López vai levando para casa, numa zorra amarrada à cincha de seu baio, o cadáver de um afogado.

É um morto velho, já um tanto decomposto, e López, assoleado, o estômago revolto, apeia do cavalo e vai sentar-se debaixo de uma sina-sina para, diz o narrador, "tomar um alce", isto é, buscar um alento, folgar, respirar melhor. Imagina o fulano olhando de viés para tal expressão e tentando decifrá-la.

E conseguiu?

Bem, para os leitores da Venezuela, López desce do cavalo, senta-se sob a arvoreta e, de repente, como um deus ex-machina, passa um alce a galope, vai ver que recém-chegado do hemisfério norte e apavorado com o caliente arenal do Rio Ibicuí...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008



Amor - O Interminável Aprendizado
Affonso Romano de Sant'Anna

Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.

Se enganava. Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.

Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam.

E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sacia nunca, como ali já não se saciara.

De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar.

Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.

Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.

Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões.

Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.

O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava. Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.

O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.

Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.

O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final. Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não. Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.

E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não. Absurdo. Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?

Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.

Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.

Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado. Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.

O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado. Optou por aceitar a sua ignorância.

Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado. E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Vou sair no Bloco do Repelex!

Aliás, sabe por que o ministro é Temporão? É que a gente espera um temporão na fila do SUS

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Farc seqüestra seis turistas colombianos. E sabe qual o nome do lugar em que os turistas foram seqüestrados? MORRO MICO! Rarará!

E mais trabalho pro Chávez. Pro Super Chapolin. Não contavam com a minha astúcia! E essa: "Presos durante o Carnaval de Salvador ficarão em cadeias de lata".

Isso é que é sustentabilidade! E finalmente um lugar PIOR que a pipoca do Chiclete! Conseguiram um lugar pior que a pipoca do Chiclete! Rarará!

E, com o calor de Salvador, vai virar forno crematório. Abadá de lata! Rarará! E diz que o Lula vai pra Guatemala. Guatemala sem Alça!

E como o Lula vai pra Guatemala se ele não consegue pronunciar Tegucigalpa?! Rarará! Pra você ver como o Lula não faz muita falta!

E o sinistro da Saúde falou que não tem epidemia de febre amarela. Tem epidemia de sorriso amarelo! E adoro o nome do ministro: Temporão. Aliás, sabe por que ele se chama Temporão?

Porque a gente espera um temporão na fila do SUS, espera um temporão na fila do transplante e um temporão pra ser atendido! Em vez de bronzeador, repelente. Vou sair no Bloco do Repelex!

Rarará! E o chargista Marco Aurélio revela porque o Lula insiste na CPMF: Contribuição Pra Medicação da Febre!

É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em São Domingos, Goiás, tem um açougue chamado Açougue KAGAITA! Rarará!

Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula! Mais um verbete pro óbvio lulante. "Patriota": companheiro que contraiu febre amarela só pra ficar com uma das cores da bandeira.

Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br


15 de janeiro de 2008
N° 15480 - Liberato Vieira da Cunha


Encontro com o mar

Meu primeiro encontro com o mar me extasiou os olhos e me inundou a alma. Não importa há quanto tempo tenha sido: não existe idade para as grandes emoções. Como se fosse hoje e instantaneamente, senti que estava diante de uma imensidão sem reprise.

Devo esclarecer que era manhã e a praia estava deserta. Vi muitos mares depois, do Pacífico ao Mediterrâneo, do Tirreno ao Adriático, do Báltico ao Jônico. Nenhum me legou tão nítido sentido de poder e vastidão quanto as águas de Capão da Canoa.

De que era feita essa impressão?

Creio que das ondas se formando como suaves, ásperas cordilheiras, que se armavam e se desfaziam entre céus e areias. Suponho que do aroma de sal da atmosfera, que me apresentava a uma nova dimensão do mundo, instigante e intraduzível. Penso que daquele horizonte infinito, que era o casamento das águas e do firmamento.

E havia ainda o fato de que Capão era algo de único e inimitável. Conheci Tramandaí e Imbé; Cidreira e Xangri-lá; Atlântida e Torres. Conheci as praias da Espanha, as da França, as do Chile, as da Califórnia. Escalei meia dúzia de verões em Punta del Este.

São todos lugares aprazíveis, alguns soberbos, outros surpreendentes, como Timmerdorfer Strand, onde as vagas são da cor violeta. Mas em Capão era diverso.

Já nem estou falando agora do impacto de seu mar em minha infância. Me transponho para a adolescência.

O que é a felicidade? Uma das definições possíveis são aquelas areias brancas, onde você deixava a ressaca do baile da noite anterior, ouvindo no radinho Spika o último sucesso do The Platters.

Outra é a absoluta paz íntima, advinda da certeza de que você nada tinha de mais importante a fazer no universo do que não perder uma reunião dançante marcada para as cinco da tarde.

E outra ainda era perceber uma sombra pairando sobre seus devaneios e abrir os olhos e ver, recém-chegada e lindíssima, a garota que você iria amar para todo o sempre.

Excelente terça-feira especialmente para você.