sábado, 31 de outubro de 2015


31 de outubro de 2015 | N° 18341 
DAVID COIMBRA

Quem perde na briga entre esquerda e direita

Entrevistei o Brizola umas 10 vezes. Em quase todas, ele disse, acerca da discussão sobre a reforma agrária no Brasil: “A questão da reforma agrária precisa ser desideologizada”.

Escandia as sílabas ao pronunciar essa palavra pedregosa, de-si-de-o-lo-gi-za-da.

Ficava pensando: o Brizola do socialismo moreno criticando as ideologias... É que ele era mais prático do que idealista. Sabia que, quando alguém tenta solucionar um problema através da ideologia, torna a solução quase impossível. Porque a questão vira causa e a causa vira luta e não há como lutar se não houver inimigo. Você precisa lutar CONTRA alguém.

A reforma agrária não foi desideologizada no Brasil. Ao contrário. Não é por acaso que o MST é chamado de “exército” pelo ex-presidente Lula. Hoje, se você der terra a todos os sem-terra, você acha que acabaria o MST? Claro que não. O MST faria o que já faz: recrutaria nas periferias das cidades os seus novos “soldados”, porque a ideologia, além de dar sentido à vida, também pode ser um bom negócio.

Quanto mais ideologizada é uma discussão, mais inócua ela se torna. Para cada Maria do Rosário haverá um Jair Bolsonaro, para cada Marco Feliciano haverá um Jean Wyllys, e nada jamais irá a lugar algum.

Você decerto vê isso no seu dia a dia. Você não resolve nenhuma pendência brigando, resolve ponderando. Cada lado cede um pouco, e todos convivem em paz com suas diferenças. Esse o ideal.

No Brasil, questões humanitárias tornaram-se questões amargamente ideológicas. Não existem, por acaso, homossexuais de direita, que querem ter seus direitos respeitados? É óbvio que sim. Tornar a defesa dos direitos dos homossexuais uma causa exclusiva da esquerda reduz a importância da causa. E atrai opositores encarniçados.

Escrevo isso a propósito do Projeto de Lei 5.069, que Eduardo Cunha conseguiu fazer ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Esse projeto limita as possibilidades do chamado “aborto legal”. Atinge, diretamente, as mulheres da faixa de renda mais baixa do país. Elas são as maiores vítimas de violência sexual e elas não têm recursos para pagar caríssimas clínicas clandestinas de aborto. O que elas farão, no caso de carregarem o indesejado fruto de um estupro? Tentarão retirá-lo por conta própria.

O aborto legal, em caso de violência sexual, é caso de saúde pública, não é caso de ideologia. Eduardo Cunha e outros deputados conservadores, porém, estão tratando esse tema, e outros tantos, como cavalo de batalha contra seus inimigos da esquerda. Quem vai sair perdendo, nessa disputa? As mulheres pobres e indefesas das periferias do Brasil.

Os direitos dos homossexuais, a regulação do uso das drogas, o porte de armas, a violência contra a mulher, a violência em geral, a reforma agrária, a educação, a saúde, o aborto e várias outras questões importantes do Brasil precisam de debates feitos com inteligência, não com emoção. Não são bandeiras da esquerda nem da direita. São problemas a serem resolvidos com bom senso.

Pessoalmente, nessa questão específica do aborto, penso que a grávida deveria ter o direito de decidir se quer ou não fazê-lo, até porque ninguém, a priori, sente vontade de se submeter a essa operação. É algo que se faz por necessidade. 

Mas essa é uma discussão longa, cheia de vírgulas éticas e morais. Agora, se você prefere ser como o Brizola, se você quer ignorar a parte ideológica para entrar na prática, peço-lhe para abrir um mapa-múndi na sua frente e marcar os países onde o aborto é permitido com uma cor e aqueles em que não é permitido com outra cor. Você verá a diferença entre uns e outros. O que, talvez, sirva para alguma reflexão.

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