segunda-feira, 26 de outubro de 2015


26 de outubro de 2015 | N° 18336 
NÍLSON

As meninas caingangues


Todo sábado cruzo com meninas caingangues que frequentam a mesma feira de produtos orgânicos onde faço minhas compras no bairro Tristeza, na zona sul de Porto Alegre. Elas vendem artesanato, cuidam dos irmãos menores, de vez em quando pedem para um “tio” ou uma “tia” comprar-lhes frutas ou biscoitos. Sempre há adultos da tribo por perto, mas raramente interferem nesse trabalho infantil consentido. Os índios brasileiros vivem como desgarrados nas grandes cidades. Poucos escapam da pobreza e da mendicância.

A escola é uma das raras portas de saída para a população pobre. Por isso, doeu mais ainda aquela tragédia da Aldeia dos Coqueiros, em Estrela, onde quatro jovenzinhas foram atingidas por um ro

dado de caminhão que se desprendeu do eixo. Elas estavam nas margens da BR-386, esperando um ônibus escolar e um futuro mais digno. Chegou antes a fatalidade – cruel, monstruosa, difícil de entender à luz da razão ou de qualquer crença.

O fatalismo não é apenas uma crendice. Diz a Teoria da Relatividade que o futuro é tão imutável quanto o passado. Por esse raciocínio, estaria escrito nas estrelas que aquelas vidas seriam interrompidas precocemente, de maneira brutal. Respeito todos os deuses, inclusive Einstein, mas não me conformo com isso.

Sem sair crucificando o infeliz motorista, que provavelmente jamais se livrará do tormento de ter causado tamanha desgraça, também penso que o veículo poderia ter sido melhor revisado antes de rodar. Num primeiro momento, revolta o fato de o condutor não ter parado o carro para socorrer as vítimas, mas é grande a possibilidade de que o homem não tenha percebido, como alegou à polícia.

Ainda assim, ele não está totalmente inocente. É cúmplice de uma sociedade que coloca o progresso, a pressa, a velocidade e a cultura do automóvel acima da vida humana. Todos somos cúmplices disso. 

Mas esse comportamento também não deve ser uma fatalidade. Com nosso livre-arbítrio e nossa inteligência, podemos, sim, contrariar teorias religiosas e científicas para garantir um futuro mais digno às meninas que perambulam entre as barracas de frutas aos sábados e a tantas outras crianças que merecem uma vida melhor.

Aqueles pneus desgovernados são um bom motivo para refletirmos sobre a cultura do progresso, da pressa e da velocidade. Algum sentido – à luz da razão ou das crenças – tem que ter aquele absurdo.

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