sábado, 27 de julho de 2024


26/07/2024 - 09h00min
Gilmar Fraga / Agencia RBS

Hoje somos todas loucas, belas e inteligentes, sem cair na esparrela de que temos destino único. Rótulos eram colados em nossos braços como marcas de vacina.

Era um pátio enorme, com árvores esparsas circundadas por bancos de madeira pintados de vermelho. Nos dias que não estávamos jogando vôlei ou praticando outra atividade física, ficávamos empilhadas naqueles bancos, gastando a hora do recreio em conversas adolescentes – o assunto eram os guris de outro colégio.  

Naquela manhã de segunda-feira, as mais bonitas da turma estavam irrequietas, uma falava em cima da fala da outra. A festa do sábado anterior havia sido de fartura. Todas dançaram muito, foram paqueradas, uma delas engatou um namoro “sério” – já durava quase 48 horas. Todas elas, de certa forma, saíram daquele fim de semana meio casadas. Não eu, nem minha amiga Karin. Para nós, havia sido apenas uma festa a mais. Divertida, mas longe de ser o divisor de águas da juventude.

Quando o sinal bateu para chamar as alunas de volta à sala de aula, as bonitonas se afastaram aos cochichos e risadas. Foi quando minha amiga disse para mim: “Melhor a gente se acostumar. Vamos ficar pra tia”. 

Isso tudo faz tempo, como o vocabulário entrega. Ela quis dizer que nós não teríamos a mesma sorte das beldades, que nós não teríamos a vida transformada em um conto de fada assim que nos tirassem para dançar, que não éramos o tipo de garota que atraía os rapazes (devorávamos livros como as outras devoravam esmaltes), nós não havíamos sido talhadas para o amor, melhor nos unirmos em desgraça e, em vez de sonhar em formar família, fundarmos uma biblioteca.

Não foi assim que ela falou, mas era este o recado. Ela estava me convocando para o limbo e oferecendo sua parceria como atenuante. Lembro de ter pensado: nós não fomos talhadas para o amor?? Nós quem? 

Alguns anos depois, minha amiga foi trabalhar na Europa, em uma gerência que na época era talhada só para os homens, veja só, e hoje, de volta ao Brasil, é difícil encontrar quem seja tão preparada quanto ela. Não quis se casar. Eu, mais convencional, namorei, casei, descasei, namorei de novo e ainda me pergunto: nós quem? Já naquela época, me soava cruel a história de que as bonitas namoravam, e as que liam – porque não tinham namorado – eram recompensadas com os primeiros lugares no vestibular.  

Rótulos eram colados em nossos braços como marcas de vacina. Ou você era muito louca, ou muito noiva, ou muito cabeçona. Foi o final de uma era em que ainda se tentava colocar as mulheres em escaninhos. Até que as bonitas começaram a folhear páginas e mais páginas com suas unhas bem esmaltadas, e as que já eram viciadas em livros tornaram-se gatas pelo feitiço da autoestima e da autoconfiança, e hoje somos todas loucas, belas e inteligentes, sem cair mais na esparrela de que temos um destino único. Sim, nós todas. Até as noivas. Até as tias. 

Martha Medeiros


27/07/2024 - 05h00min
João Cotta / TV Globo,Divulgação

Os salvadores da pátria 

Vira e mexe aparece alguém que promete trazer verdades escondidas. Aquele que tem a coragem de falar o que ninguém diz, doa a quem doer. O caso do Nego Di tem estampado os sites e noticiários nos últimos dias.

Começo te dizendo: eles não existem. É que nem o Homem Aranha ou a Mulher Maravilha. São muito legais nos filmes e desenhos animados, mas não fazem parte do mundo real. Eu também queria chamar a Patrulha Canina para resolver os problemas de vez em quando, mas aqueles cachorrinhos fofos e voluntários não se materializam, infelizmente. 

Vira e mexe aparece alguém que promete trazer verdades escondidas. Aquele que tem a coragem de falar o que ninguém diz, doa a quem doer. Um vídeo que trará fatos sobre algo que a imprensa quer esconder. O justiceiro. O que vai separar o joio do trigo a respeito dos governos, instituições e pessoas. Alguns também prometem emagrecimento sem esforço, inglês fluente em semanas, a pessoa amada em algumas horas e dinheiro sem trabalhar. 

Por que nós, seres humanos, nos prendemos tanto a uma ideia de salvador da pátria, de uma figura que resolva os nossos problemas, ou mesmo que diga simplesmente o que queremos ouvir? Pois exatamente aí está a brecha. É quando quem quer nos convencer de algo consegue o espaço certo. Pega a nossa fragilidade mais íntima. Vende soluções para uma preocupação que está ali, quieta, mas que gera identificação imediata. 

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Assim acabamos dividindo a vida entre influenciados e influenciadores e acabamos trazendo para a vida real discussões importantes com embasamento muitas vezes em mentiras. Não à toa muita gente que nunca ouvimos falar tem milhões de seguidores. 

Nascem os jogos do tigrinho, os sorteios de dinheiro, de smartphones. O famoso almoço grátis faz nossos olhos brilharem a ponto de esquecermos de notar coisas óbvias. O erro grosseiro na gramática, o preço muito mais baixo que o de mercado, a promessa de resultado fácil.  

O caso do Nego Di, que tem estampado os sites e noticiários nos últimos dias, foi construído em cima desse castelo de areia. A loja Tá Di Zueira já era um sinal desde o nome. Pois centenas de pessoas acreditaram, já que havia ali uma pessoa conhecida e querida por elas. Alguém que, para esse público, parecia verdadeiro, sem filtros. 

Nos momentos de crise, como foi o da enchente que marcou o Rio Grande do Sul, este mesmo personagem circulou em redes do Brasil todo supostamente contando verdades que ninguém queria que fossem descobertas. Viralizou prometendo desmascarar governos. Para coroar a imagem de salvador da pátria, divulgou que tinha feito uma doação milionária aos atingidos pela chuvarada. A quebra do sigilo, depois mostrada pelas autoridades, apontou cem reais saindo da conta do influencer.  

Com políticos isso já acontecia há mais tempo. O brasileiro insiste em depositar sua confiança e se agarra, com unhas e dentes, a alguém que prometa o mínimo. À espera de alguém que salve a pátria, vamos nos contentando com pouco.  


27/07/2024 - 06h00min

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Gil e a "bondade radical"

O que dá para fazer é tentar ser melhor a cada dia, em pequenos gestos. Não precisa assinar um tratado de paz na ONU

Gil acaba de confirmar a decisão de se aposentar das grandes turnês. “A vida vai oferecendo bandejas. Têm os frutos amargos, os muito doces, os azedos, e você vai escolhendo”, reflete Gilberto Gil, naquele jeitão tranquilo, em uma conversa com a filha Preta, para então concluir sorrindo: 

— Eu fui tentando juntar dentro de mim as intencionalidades bondosas. Virei adepto da bondade radical.

A frase pegou — e me cativou também. Sou fã de Gil e de toda a geração de ouro da MPB que, aos poucos, vai se retirando dos palcos, deixando um legado imenso e inquestionável. 

Caetano já disse que, em breve, quem quiser vê-lo terá de procurá-lo na Bahia. De lá, ele não pretende sair por nada. Gil está fazendo o mesmo. Às voltas com uma temporada musical internacional na Europa e na Ásia, ele acaba de confirmar a decisão de se aposentar das grandes turnês. E está em paz. 

— Não sou mais um artista da vez — disse ele, sereno e grande, em entrevista recente ao Estadão.

Sair de cena não é fácil para ninguém (Joe Biden que o diga). Imagine o que isso significa para um grande artista, que trilhou a vida sob os holofotes, movido a aplausos.

Gil fará falta, ele e sua “bondade radical”, que deveria servir de exemplo em tempos tão pouco amigáveis, para dizer o mínimo. Mas o que significa ser “radicalmente bom”? Existe isso? Do que é feita a natureza humana?

A discussão vem de longe, você sabe. Para um cara chamado Thomas Hobbes, que escreveu Leviatã, em 1651, os seres humanos não têm salvação, nem adianta insistir. Haveria, em todos nós, uma tendência natural à violência, daí a célebre frase “O homem é o lobo do homem” (naquele tempo as mulheres não contavam → Alerta: contém ironia).

Aí veio Jean-Jaques Rousseau, no século 18, e disse que não era nada daquilo. Hobbes estava por fora. “O homem”, concluiu o célebre filósofo suíço (esquecendo-se, outra vez, a parcela feminina da população), “nasce bom”. O problema é a sociedade. A culpa é toda dela. “A sociedade”, bradou Rousseau, dedo em riste, é que “corrompe o homem”. 

Não se preocupe, querido(a) leitor(a), eu não vou tentar aqui resolver os dilemas da humanidade. Ninguém é “bom” ou “mau”, assim, preto no branco. E Gil sabe disso. Ele mesmo, que se autoproclamou “agente da fraternidade”, escreveu uma canção chamada Cada tempo em seu lugar, que traduz o que estou tentando escrever.

A letra diz assim: “Preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar. Não vou mudar um mundo louco, dando socos para o ar.” E depois: “Preciso me livrar do ofício de ter que ser sempre bom”, até porque, cá entre nós, é impossível ser bom o tempo todo.

O que dá para fazer é tentar ser melhor a cada dia, com pequenos gestos. Não precisa assinar um tratado de paz na ONU. Basta, muitas vezes, ser gentil com o colega de trabalho, elogiar o visual da amiga, oferecer um sorriso para quem está tendo um dia ruim, estender a mão a alguém que precisa de ajuda. Ser bom é isso e é dar-se conta da finitude da vida.

Como escreveu Gil em Tempo Rei, “não se iludam, não me iludo, tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. 


26/07/2024 - 21h04min
Atualizada em 26/07/2024 - 21h04min -Opinião

Momento mágico

Para superar espetáculo de Paris, só se próxima cerimônia for feita na Lua. Grandiosidade marcou abertura dos Jogos Olímpicos de 2024

Atletas desfilaram em barcos pelo Rio Sena e passaram por pontos turísticos de Paris, como a Torre Eiffel.

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 entregou tudo que um país como a França pode oferecer. E nem mesmo a forte chuva que caiu na maior parte do espetáculo comandado pelo diretor artístico Thomas Holly diminuiu o brilho. 

O desfile dos 85 barcos pelo Rio Sena, as apresentações de artistas, shows musicais e as presenças de ícones do esporte como Zinedine Zidane, Rafael Nadal, Serena Williams, culminando com Teddy Riner e Marie-José Perec acendendo juntos a pira olímpica deram o tom do que a Cidade Luz se propôs e ofertou ao mundo.

Os Jogos começaram em um dia tenso, com alguns alardes falsos de bombas, ataques ao sistema de trens rápidos do país, mas terminou de forma espetacular. Na transmissão da Rádio Gaúcha cheguei a dizer: o que os franceses apresentaram dificilmente será superado em termos de espetáculo e que só se Los Angeles-2028 levar os atletas para a Lua poderá fazer algo tão impactante.

E o melhor de tudo: os Jogos terão público. Ele se fez presente nas arquibancadas nas margens do Sena e em toda a cidade. Confesso que fiquei muito emocionado nessa que é minha quinta cobertura Olímpica por ver algo tão bem elaborado e que dá aos Jogos Olímpicos a dimensão merecida, a de um espetáculo gigantesco.

Que a partir deste sábado (27) as primeiras medalhas sejam entregues e que o Brasil supere seus recordes. E que a França siga mostrando ao mundo que ela é o país das revoluções, da moda, da arte, da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.


25/07/2024 - 17h39min
André Malinoski

Demolição do Esqueletão: com obra embargada há cinco meses, empresa responsável segue tentando liberação e descarta desistir do serviço

FBI Demolidora fez cinco tentativas junto ao Ministério do Trabalho e Emprego desde fevereiro para retomar os trabalhos e deve fazer mais uma na próxima semana; órgão apontou risco à segurança dos trabalhadores no local.

O embargo às obras de demolição do Edifício Galeria XV de Novembro, conhecido como Esqueletão, no Centro Histórico de Porto Alegre, completa cinco meses neste sábado (27).

O Ministério do Trabalho e Emprego no Rio Grande do Sul (MTE-RS) paralisou o processo de demolição em 27 de fevereiro, apontando condições inseguras para os trabalhadores no canteiro de obras.Inspeção identificou o risco de queda dos operários pela falta de proteção na periferia da obra, nas aberturas do piso do edifício, nas escadas de acesso coletivo e nos vãos dos poços dos elevadores, entre outros problemas.

Desde então, a FBI Demolidora, empresa responsável pelo serviço, tenta suspender o embargo trabalhista, porém sem sucesso.

O relatório do MTE com as justificativas sobre a última negativa para retirar o impedimento trabalhista apresenta em um trecho a seguinte conclusão: "Foram inúmeras análises e reuniões técnicas por parte da Auditoria Fiscal do Trabalho, porém, até o presente momento, a empresa ainda não apresentou providências eficazes para a elucidação do grave e iminente risco de queda, objeto deste embargo".

Um dos responsáveis técnicos pela demolição do Esqueletão, o engenheiro de minas Manoel Jorge Diniz Dias afirma que a FBI Demolidora pretende fazer nova tentativa de suspender o embargo na próxima semana.

— A ideia é, na semana que vem, apresentar uma complementação àquilo que foi solicitado pelo Ministério do Trabalho — compartilha.

Conhecido como "Manezinho da Implosão", ele foi responsável por diversas operações do tipo, como a do prédio da Secretaria da Segurança Pública (SSP), na Rua Voluntários da Pátria, em Porto Alegre.

Segundo Dias, não existe possibilidade de desistência por parte da empresa ou de rompimento de contrato com a prefeitura de Porto Alegre.

— Queremos executar a obra. É uma questão de honra — diz o engenheiro.

A empresa não explicou as razões pelas quais não conseguiu efetivar os ajustes solicitados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Na segunda-feira (22), a FBI realizou uma vistoria no Esqueletão para avaliar se houve algum dano em razão da enchente naquela região do Centro Histórico, mas não constatou qualquer problema deste tipo.

O auditor-fiscal Sérgio Garcia, chefe da seção de Segurança e Saúde do Trabalho da SRTE, confirma que, desde 8 de julho, a situação permanece igual.

— O último pedido deles (FBI Demolidora) foi negado. Na última vez que falei com o secretário André Flores (titular da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura), há umas duas semanas, ele ficou de entrar em contato com a empresa para marcar uma reunião — afirma.

Prefeitura acredita em adequação

A reportagem de Zero Hora questionou a prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), se existe possibilidade de rompimento do contrato com a FBI Demolidora, já que a empresa não conseguiu, até o momento, cumprir os ajustes solicitados pela Auditoria Fiscal do Trabalho. Por nota, a pasta respondeu o seguinte:

"A Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi) acredita que a contratada irá resolver em breve o embargo da Superintendência Regional do Trabalho, quanto ao equipamento instalado para proteção de trabalho em altura, e está atenta a todas as possibilidades contratuais."



24/07/2024 - 14h24min
J. J. Camargo

O Alzheimer e a morte parcelada

Quando o desafio é conviver com as perdas cognitivas, a negação é imediatamente assumida. "A questão não é se existe vida depois da morte. A questão é se você viveu antes de morrer." (Osho)

Cada um tem um jeito próprio de administrar suas limitações. Apesar do esforço dos coachs insistindo com estratégias milagrosas, as pessoas que preservaram o espírito crítico sabem qual caminho a escolher nas encruzilhadas. E que sistematicamente é o mais árduo.

Mas a forma de reagir é imprevisível e, muitas vezes, contraditória. Por mais maduro que sejamos, quando o desafio é conviver com o envelhecimento biológico e suas perdas cognitivas a negação é imediatamente assumida, mesmo quando a decrepitude bateu à porta sem ter sido convidada e, sem noção do ridículo, não sai da janela.

Nada é mais importante neste ponto do que um amigo capaz de dizer "Basta". Como a dificuldade está na admissão desse diagnóstico, porque ele é demolidor do ponto de vista familiar, individual e profissional, fazemos de conta que está tudo bem. E mesmo que tenhamos consciência do que está acontecendo, é compreensível que conservemos a pose de quem está completamente sadio. E, sem dúvida, quanto mais festejada e inspiradora foi a vida até esse ponto, mais nos rebelamos à capitulação.

O Alzheimer tem uma fase, dita pré-clínica, em que pequenos lapsos são indistintamente atribuíveis ao envelhecimento, e só assumidos como indícios da doença depois de algum tempo, quando, por frequência das falhas, a família se dá conta de que a hierarquia doméstica está sendo modificada porque o antigo gestor daquele clã não consegue mais gerir a sua própria vida.

Ainda que o ritmo de progressão possa ser afetado por fatores genéticos, mudança de estilo de vida e idade do paciente (doença manifesta em pacientes mais jovens evolui de forma mais acelerada), até o momento não existe tratamento efetivo, apesar de ofertas esporádicas de drogas novas, pretensamente revolucionárias e invariavelmente caras. 

Então, sendo a progressão da doença inexorável, resta à família dar ao paciente todo o suporte emocional para que ele consiga continuar mentalmente produtivo pelo tempo de lucidez que lhe reste. Desse suporte, faz parte importante a prevenção de exposições públicas, especialmente no período da doença em que o paciente ainda percebe o tamanho da bobagem que disse, mas só depois de tê-la dito, e tenta assumir ares de brincadeira.

Nesta fase, que pode ser rápida ou arrastada, o paciente e sua família sofrem igualmente em cada deslize, e a tentativa de justificar o erro só estimula a geração de memes pelos impiedosos adversários e a comiseração dos que nunca deixarão de amá-lo.

Mantê-lo na vitrine é sacrificá-lo impiedosamente, especialmente quando a vítima é um político de grande visibilidade. Nada é mais importante neste ponto do que um amigo, nivelado pela hierarquia dos afetos, que fosse capaz de lhe dizer "Basta" e ser ouvido sem desconfiança. Um desses amigos que considerem que trair é o mesmo que morrer, e para quem a morte deve anteceder a traição.

Na fase da desconexão cognitiva, o sofrimento passa a ser exclusividade da família pelo convívio diário, que nem remotamente lembra o bem-amado do tempo em ele foi muito. A tentativa frequente de revisitar o passado festivo através de fotos ou vídeos em geral agudizam dores adormecidas, pela sacudida emocional resultante do contraste entre o que ele foi e o que deixou de ser.

Na morte tradicional, ao contrário da parcelada, a reconstrução da vida dos remanescentes, ainda que consumidos de dor e saudade, avança com a elaboração do luto, indispensável na preservação da naturalidade da morte.

Uma amiga, incansável no cuidado da mãe, incomunicável há 18 meses, me confidenciou: "Eu morro de saudade da mãe que tive, e de pena de mim, por não ter ao menos com quem dividir a tristeza de perceber, todos os dias, uma fração dessa morte que dói como se fosse, mas não se completa".

Quem considerar desamor qualquer parte dessa confissão não entende nada de que morte estamos falando, e nem imagina o quanto sobra de amor depois do luto.

sexta-feira, 26 de julho de 2024


EU TE AMO VOVÓ / VOVÔ • Dia 26 de julho

   

A CASINHA DO VOVÔ ERA ASSIM

 
Pedro Dyonysyo - O Céu a Dançar Canção dos Avós

   

VOVÓ, VOVÔ - Tia Mori - Música para o Dia dos Avós

   
BOLINHO DE CHUVA / MÚSICA PARA O VOVÔ E VOVÓ


26 de Julho de 2024
CARPINEJAR

Destruição simbólica da Rua da Praia

Porto Alegre começou pela Rua dos Andradas, naquele vilarejo de 1772. É o princípio do nosso mundo, o calçadão mais famoso da capital gaúcha, que já foi cantado pelo poeta Mario Quintana e inspirou grande parte de nossos letristas, como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Gelson Oliveira e Antonio Villeroy.

É uma artéria poética, acostumada à explosão do bando de pombas, ao lambe-lambe, ao fluxo de pedestres indo e saindo do trabalho. Um caminho que nos liga ao Mercado Público, ao Paço Municipal, à Usina do Gasômetro, e serve de palco para a nossa tradicional Feira do Livro.

Sua natureza lembra nossas vielas originais, do tempo dos bondes. Só que os consagrados paralelepípedos estão sendo vítimas de uma esquisita reforma, que teve início antes da enchente. A partir de edital de 2022, com investimento previsto de R$ 16 milhões e prazo de 18 meses para conclusão dos serviços, a prefeitura está descaracterizando o Centro Histórico.

O propósito era ampliação das calçadas, qualificação das travessias, redução das barreiras de acessibilidade, melhorias na pavimentação, implantação de novo mobiliário urbano, reforço na iluminação pública e ampliação do sistema de videomonitoramento. O que constatamos, pelo contrário, é uma substituição pavorosa dos materiais, enfeando a cidade.

A Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi) vem trocando as pedras antigas de basalto por blocos de concreto, que surgem mal rejuntados. Não tem como elogiar o trabalho, ou mesmo reconhecer o seu valor. Como falamos no nosso dialeto porto-alegrês, trata-se de uma "chinelagem". Ou seja, algo de gosto duvidoso, sem noção e de baixo nível.

Em sua delegação de tarefas própria da função, acredito que o prefeito Sebastião Mello não está vendo a mudança, não está acompanhando a transformação do raro vinho para o intragável vinagre. Jamais faria isso em sua casa, pois não teria coragem de receber visitas.

Foi posto no local um piso neutro, horrível, sem nenhum atrativo, sem nenhum vínculo com a nossa história, desprovido dos preceitos e traços açorianos. Não houve a conservação da superfície anterior. Quem perde é a população residente e o comércio sobrevivente em sua frente - digo sobrevivente porque é difícil manter as portas abertas no meio de uma obra que nunca termina.

Nem acho que é uma alternativa mais em conta, para economizar, já que o valor da licitação não é nem um pouco irrisório. Moradores da região se mostram inconformados com o desperdício do potencial turístico do lugar.

Custava preservar o cartão-postal? Se o objetivo é ter uma pegada arquitetônica modernista, qual o sentido da ausência de padrão? O que testemunhamos é uma colcha de retalhos. São usadas diferentes texturas nas bordas do calçamento e em torno das tampas de bueiros e dos quadros elétricos.

É um Niemeyer Frankenstein. Somente parece uma cova de cimento, debaixo da qual nossa simpática e folclórica Porto Alegre se encontra, ainda agonizante, enterrada viva. _

CARPINEJAR


26 de Julho de 2024
DIRETO DA REDAÇÃO

Biden e as pessoas velhas

Para que serve um velho? Parece uma pergunta grosseira, mas a reflexão é importante. Em toda a história da civilização, os velhos exerceram um papel crucial. Na Roma Antiga, o conselho de anciãos, que já era comum nas sociedades orientais, ganhou o nome de Senado - e esses anciãos passaram a fiscalizar as autoridades e controlar as finanças públicas. Alexandre, o Grande, aos 30 anos de idade era praticamente o dono do mundo, mas seu conselheiro, seu professor e mentor intelectual era o velho Aristóteles. 

Quer dizer: os mais velhos, em dado momento, sempre deixaram a linha de frente para abrir espaço aos mais jovens, mas continuavam, até o fim da vida, valorizados como pessoas que tinham um atributo muito útil: a sabedoria. Porque o jovem é necessário quando precisamos de iniciativa, ímpeto e energia, mas nada disso basta sem prudência, traquejo e maturidade - virtudes que vêm com a experiência.

Só que hoje as coisas mudaram. Pessoas velhas parecem ter mais dificuldade para deixar a linha de frente. Parecem confusas sobre qual é o seu papel, sobre como podem contribuir sem estar na liderança. Por quê? Porque houve, de 30 anos para cá, uma transformação inédita na história da humanidade: pela primeira vez, um volume brutal de conhecimento passou a ser transmitido das gerações mais novas para as gerações mais velhas.

A situação do velho de hoje é a seguinte. Quando era jovem, há algumas décadas, sua meta era entrar no mundo dos velhos - porque eram os velhos que detinham o saber e o sucesso na carreira. Agora, que virou velho, sua meta é entrar no mundo dos jovens, porque são os jovens que detêm o saber e o sucesso na carreira. Quem aguenta uma rasteira dessas? Se a meta é entrar no mundo dos jovens, não dá para sair da linha de frente. Todo mundo, não importa a idade, precisa estar discursando, postando nas redes, exibindo sua imagem, dominando tecnologias, demonstrando vigor e liderando alguma missão. Como Biden liderava, até semana passada.

Aos 81 anos, ele fez o que historicamente os mais velhos sempre fizeram: cedeu lugar para alguém mais jovem encabeçar uma tarefa extenuante. A dúvida é se Biden continuará valorizado pelos atributos que tem - e que a experiência o ajudou a construir. Porque o jovem, tudo bem, ele pode até ter conhecimento. Mas sabedoria, que é saber empregar o conhecimento, isso ninguém tira dos velhos - e nunca ela foi tão necessária. _

Paulo Germano - DIRETO DA REDAÇÃO


26 de Julho de 2024
NORTE DO RS - Glaucius Oliveira

NORTE DO RS

Fontoura Xavier tem descontrole no pagamento de Bolsa Família

Pessoas que possuem renda acima do teto previsto pela União estão na lista de beneficiários no município, incluindo políticos e servidores públicos. Programa é destinado a quem está em situação de pobreza. Secretária diz que fiscalização cabe ao governo federal

Uma das maiores concentrações de benefícios sociais no Rio Grande do Sul é registrada na cidade de Fontoura Xavier, que tem 10 mil habitantes e fica no alto da serra que leva à região norte do Estado. Uma lista com dezenas de beneficiários circula pela cidade e provocou polêmica: inclui políticos, servidores públicos e microempresários, pessoas que em tese não se enquadram nas regras do benefício, destinado a famílias com renda mensal de até R$ 218 por pessoa - ou seja, em situação de pobreza e extrema pobreza.

É o caso de Olavo Batista Guerreiro, que foi vereador por duas décadas, presidiu a Câmara Municipal e concorreu a vice-prefeito em 2020. Em 2022, ele recebeu R$ 800 do Auxílio Brasil (que no governo Jair Bolsonaro substituiu o antigo Bolsa Família). Em 2023, foi beneficiado com R$ 5,6 mil do Novo Bolsa Família (recriado pelo governo Lula) e R$ 800 do Auxílio Brasil e, em 2024, recebeu mais R$ 600 do Novo Bolsa Família.

Procurado, ele alega que não possui renda desde a derrota eleitoral. Depois, informa que trabalha de motorista para uma funerária. Questionado se isso não configura renda, ele corrige a informação e diz que tinha esse serviço até oito meses atrás. Apesar de possuir bens - incluindo uma SUV Meriva e uma casa que alega ter vendido, mas que segue em seu nome -, Olavo acha que tem direito ao benefício.

Outra que aparece entre os beneficiários é a cabeleireira Marivane Romansini, que tem uma residência com três quartos, dois banheiros e uma garagem, onde ficam os equipamentos para cortar, lavar e secar cabelos, assim como cadeiras para manicure. Desde 2020, ela recebe benefícios federais. Em 2024, foram R$ 650 do Novo Bolsa Família.

Marivane se define como "sem renda" e afirma que o salão de beleza está desativado. Ela diz que é separada, tem filhos e não recebe pensão alimentícia. Admite que faz limpezas e, confrontada se não fatura mais do que o programa permite, calcula que não:

- Faço bico, faxina. A casa é minha, mas fizemos um acerto, em troca de eu abrir mão da pensão.

Falsidade ideológica

Em 2024, 1.470 famílias foram contempladas com o Novo Bolsa Família em Fontoura Xavier, segundo o Portal da Transparência. Como a média é três pessoas por domicílio, isso significa que mais de 4 mil pessoas podem ter sido beneficiadas no município.

Os quatro primeiros municípios gaúchos que mais recebem Novo Bolsa Família são todos sedes de reservas indígenas, marcados pela baixa renda per capita (veja tabela abaixo). Não é o caso de Fontoura Xavier.

A secretária de Assistência Social de Fontoura Xavier, Rosicler Dadalt, admite que muitos se candidatam aos benefícios sociais mesmo sem se enquadrarem nos requisitos. Segundo ela, a fiscalização cabe ao governo federal:

- A pessoa passa os dados e incluímos, é declaratório. Nosso trabalho é inscrever e o governo que se encarrega de cortar.

Professor e advogado especialista em Direito Administrativo, Aloísio Zimmer discorda que essa é uma atribuição apenas da União.

- Aquele que mente para o município pode estar cometendo falsidade ideológica. O que recebe indevidamente pode cometer estelionato. E o servidor público que aceita informações não verídicas também pode ser responsabilizado criminal, civil e administrativamente - afirmou. _

Ano Benefício Famílias beneficiadas

2024 Novo Bolsa Família 1.470

2023 Novo Bolsa Família 1.530

2023 Auxílio Brasil 1.395

2022 Auxílio Brasil 1.590

Município % famílias beneficiadas

1º Benjamin Constant do Sul 81,66%

2º São Valério do Sul 53,03%

3º Redentora 52,14%

4º Charrua 49,84%

15º Fontoura Xavier 39,25%

Fontes: Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU) e Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome

Funcionária responsável por cadastros também recebe

Até a funcionária da prefeitura responsável por montar os cadastros do Novo Bolsa Família em Fontoura Xavier, Maiara Strapasson, consta nos sites do governo federal como beneficiária.

Ela ganhou R$ 6.350 do Novo Bolsa Família e R$ 800 do Auxílio Brasil em 2023 e R$ 650 do Novo Bolsa Família em 2024, conforme o Portal da Transparência. A servidora não nega, mas diz que já pediu sua própria exclusão do benefício, desde que conseguiu emprego na administração municipal.

Maiara recebe R$ 2,8 mil mensais da prefeitura, mas relata que começou há pouco tempo no serviço e só vai receber até esse mês o Novo Bolsa Família. Alega que estava desempregada, com filho pequeno e recebe pensão de R$ 300. O companheiro atual trabalha com pintura e mora com ela.

- Agora sou contratada da prefeitura e vou sair do Novo Bolsa Família. O meu nome ainda consta no site porque estou na regra de proteção, que dura alguns meses - ressalta.

Maiara se refere a uma "regra de transição" para contemplados pelos programas do governo: quando alguém da família beneficiada consegue um emprego, há tolerância para que o benefício seja concedido por até 36 meses, mesmo que teoricamente já não se enquadre nos R$ 218 per capita.

Inconsistências

O professor e advogado Aloísio Zimmer ressalta que o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou, em uma auditoria por amostragem em 2023, inconsistências de renda em cerca de 40% dos beneficiários do Novo Bolsa Família. Isso pode representar perda de R$ 34 bilhões em um ano, acrescenta. 


26 de Julho de 2024
TRIBUTOS

TRIBUTOS

Arrecadação federal é recorde no primeiro semestre e no mês passado. Entre os motivos para o resultado de R$ 1,289 tri de janeiro a junho, estão o retorno da tributação de PIS/Cofins sobre os combustíveis e o bom desempenho da atividade econômica. Do lado negativo, o órgão estima que a enchente no RS teve impacto dedutivo de R$ 8 bi

A arrecadação do governo federal apresentou aumento real (descontada a inflação) de 9,08% no primeiro semestre de 2024, informou ontem a Receita Federal. O montante alcançou R$ 1,289 trilhão, valor recorde para o período na série histórica iniciada em 1995.

Em junho, a arrecadação total das receitas federais chegou a R$ 208,8 bilhões, registrando acréscimo real de 11,02% em relação a junho de 2023. Esse valor é o maior da série histórica para o mês.

Os dados foram divulgados ontem pelo chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita Federal, Claudemir Malaquias, e pelo coordenador de Previsão e Análise da Receita Federal, Marcelo Gomide.

Segundo a Receita, o avanço observado no período pode ser explicado pelo bom desempenho da atividade econômica, em especial da produção industrial, da venda de bens e serviços e do aumento da massa salarial. Também contribuiu para o aumento a arrecadação da Cofins e PIS/Pasep, que registrou expansão real de 18,79%, ou R$ 256,2 bilhões.

Exclusão

Além da retomada da tributação sobre os combustíveis e da exclusão do ICMS da base de cálculo dos créditos dessas contribuições, o resultado foi puxado pelo aumento real de 3,85% no volume de vendas e de 1,39% no volume de serviços entre dezembro de 2023 e maio de 2024, em relação ao período compreendido entre dezembro de 2022 e maio de 2023.

Outro destaque foi o crescimento real de 20,59% da arrecadação do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF) sobre Capital, decorrente da tributação dos fundos exclusivos. De janeiro a junho, esse item representou R$ 72,9 bilhões.

Além disso, o órgão estimou em R$ 8 bilhões a perda de arrecadação, entre janeiro e junho deste ano, relacionada às enchentes no Rio Grande do Sul. A projeção foi feita com base na arrecadação no mesmo período do ano passado. _

Destaques da Receita Federal na arrecadação do primeiro semestre

R$ 1,289 trilhão

é o valor arrecadado pela Receita Federal de janeiro a junho de 2024.

9,08%

é a alta da arrecadação no

primeiro semestre em relação a igual período de 2023, já descontada a inflação medida pelo IPCA.

R$ 256,2 bilhões

é o montante arrecadado com

a Cofins e o PIS/Pasep, crescimento real de 18,79%.

R$ 72,9 bilhões

é o quanto a Receita obteve por meio do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF), aumento acima da inflação de 20,59%.

R$ 39,8 bilhões

é o arrecadado no Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF), gerado com a atualização de bens e direitos de brasileiros no Exterior, representando alta real de 21,26%.


EM FOCO

Assaltantes matam dois professores da UFSM em roubo a hotel. Docentes do curso de Engenharia Florestal viajaram a Mato Castelhano com um colega e 15 alunos, para uma pesquisa de campo, e foram surpreendidos pelos ladrões quando chegavam para se hospedar. Houve reação e disparos

Dois professores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) foram mortos durante um roubo em Mato Castelhano, município de 2,5 mil habitantes na região Norte, na madrugada de ontem. Fabiano de Oliveira Fortes, 46 anos, e Felipe Turchetto, 35, foram baleados após chegarem com um grupo de alunos a um hotel que estava sendo assaltado. Os dois bandidos fugiram.

Segundo a assessoria de imprensa da UFSM, os dois professores e mais um docente acompanhavam 15 estudantes do curso de Engenharia Florestal, no qual as vítimas lecionavam, que fazia uma visita de campo à Floresta Nacional de Passo Fundo, situada em Mato Castelhano. Segundo a polícia, os dois ladrões estavam hospedados no Hotel Romanttei quando renderam hóspedes, funcionários e a proprietária do estabelecimento.

Os reféns foram amarrados em um cômodo e a proprietária foi levada para uma sala separada para fazer transferências por Pix aos criminosos. Neste momento, os professores chegaram ao local acompanhados dos alunos. Todos foram rendidos, mas as vítimas teriam reagido e foram baleadas.

A seguir, os ladrões fugiram em um Fusion preto, levando joias e celulares. Segundo a Brigada Militar, a corporação só foi acionada meia hora depois e logo despachou guarnições de Passo Fundo.

Há um posto da Brigada a poucos metros do hotel, mas, segundo o comandante regional da BM, coronel Marco Antônio dos Santos Morais, não havia PMs no local.

- Por ser ao lado de Passo Fundo, a resposta foi imediata. Nós temos guarnições mais numerosas em Passo Fundo e o município fica a 15 quilômetros de distância - afirmou.

Sem câmeras

Segundo a Polícia Civil, ainda não há pistas da identidade e do paradeiro dos ladrões. O que se sabe é que eles chegaram em um carro furtado e com placas clonadas. O Hotel Romanttei não possui câmeras de segurança.

- Era um hotel bem de interior, funcionava 24 horas e as pessoas iam lá na hora que precisavam - disse o chefe de Polícia, delegado Fernando Sodré, em entrevista à Gaúcha. _

Participaram da cobertura: Rebecca Mistura, Lucas Abati, Gabriel Quadros e Mateus Rossato

Vítimas costumavam conduzir estudos no local

Alunos e colegas definem Fabiano e Felipe como professores muito dedicados ao ensino e à pesquisa. Doutores em Engenharia Florestal, costumavam viajar com os alunos à Floresta Nacional de Passo Fundo a fim de ver na prática o que estudavam em sala de aula.

- É uma tristeza sem tamanho, não tem adjetivos para o que estamos sentindo. A sala do professor Fabiano eu chamava de diretório acadêmico, devido à frequência com que os alunos o procuravam - conta o professor Jorge Antônio de Farias. - Eram dedicados, extremamente focados na universidade, na formação dessa gurizada... Tinham toda a vida pela frente - completa Farias.

Fabiano era professor da UFSM desde novembro de 2008. Já Felipe havia sido transferido no começo do ano do campus de Frederico Westphalen para Santa Maria. Ambos foram estudantes de graduação e pós-graduação na UFSM.

Os professores faziam parte do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do RS (Crea). Fabiano estava em seu segundo mandato como conselheiro da Câmara Especializada de Engenharia Florestal (Ceef). Já Felipe estava no seu segundo mandato como conselheiro suplente de Fabiano na Ceef.

Luto no campus

A vice-reitora da UFSM, Martha Adaime, pede urgência da polícia na localização dos envolvidos e que ocorra justiça.

- Eles (os criminosos) não têm noção de quem são essas pessoas que mataram. Fabiano e Felipe eram multiplicadores de conhecimento, pessoas queridas, agregadores e farão muita falta. Esperamos que a luz deixada por eles permaneça em todos os estudantes e pessoas que conviveram com eles - afirma.

Segundo Martha, a UFSM está dando apoio, inclusive com psicólogos, aos alunos que estavam em Mato Castelhano. A universidade declarou luto oficial, com paralisação das atividades na Engenharia Florestal ontem e hoje. Fabiano será velado em Santa Maria e Felipe em Taquaruçu do Sul. 

quinta-feira, 25 de julho de 2024



25 de Julho de 2024
CARPINEJAR

Foram 204 dias

O torcedor colorado só teve 204 dias em 2024. O ano já acabou. Não desfrutou do direito a 366 dias como os devotos dos demais clubes. O tropeço na Sul-Americana abreviou o nosso calendário e qualquer chance de título.

Roger Machado encerrou moralmente seus trabalhos antes mesmo de começar. Poderia estar o interino na casamata ou o próprio Coudet, pois não existiu nenhuma subida de ânimo e virada de chave nas decisões da última semana.

Só sobrou o inalcançável Brasileiro, com uma diferença de 20 pontos em relação ao líder Botafogo. Acompanha o modesto Vitória da Bahia na disputa de uma única competição até o estertor da temporada.

Eu percebi que o Inter seria eliminado, não quando levou o gol de Sández no primeiro tempo, mas quando Alan Patrick empatou na etapa final. A partir dali, nada mais faríamos. Nossa produção ofensiva sempre se esgota com um gol. Com um gol franzino. Com um gol da desonra. Tem sido assim desde 4 de junho.

A previsibilidade se tornou trágica. É a oitava eliminação no Beira-Rio de 2021 para cá: Rosario Central, Juventude, Fluminense, América-MG, Caxias, Melgar, Olímpia e Vitória. Acostumaram o Gigante ao fracasso, ao velório. Abriu-se um novo cemitério na Padre Cacique.

A direção do Inter, sua comissão técnica, seus jogadores deveriam ter vergonha de convocar o torcedor para o estádio. Não sei qual prazer sádico é esse de ver o Beira-Rio lotar para testemunhar sucessivas humilhações.

É como se o marido traído chamasse seus amigos para a frente de um motel, com o objetivo de aplaudir sua esposa saindo de lá de braços dados com o amante. A sensação da massa vermelha é de completa e desolada traição. O time traiu a torcida. A presidência traiu a torcida.

Parece que ninguém que manda entende de futebol. Foram R$ 80 milhões postos no lixo em 10 contratações. Quisera estar errado. Quisera morder a língua. Mas como confiar em milagres se não há um único santo?

Há muito tempo, o Inter não é o glorioso Inter. É um arremedo, um amontoado de jogadores, sem gana, sem vontade, sem verticalização, sem entrosamento, com o desleixo e a indolência de atletas que ganham fortunas para se fardar e não se identificam com o clube.

Já não se acredita em Enner Valencia, em Rafael Borré, em Alario. Há mais expectativa com o guri de 16 anos Gabriel Carvalho do que nos medalhões, porque ele torce para o Inter, ele gosta do Inter. O desprezo às categorias de base vem sendo um dos motivos de tantos fiascos. Dos times brasileiros, o Colorado é um dos que menos efetiva revelações de seu celeiro. Faz vista grossa para a formação.

Todos os nossos grandes títulos estavam ligados a expoentes que surgiram de nossos Centros de Treinamento: Sóbis, Pato, Taison, Daniel Carvalho, Luiz Adriano. Andamos na contramão da nossa história. Sequer há como dizer que o Inter caiu de pé. Caiu rastejando, tombou merecidamente com a sua pior campanha na Sula, atravessando a constrangida repescagem depois de enfrentar adversários inexpressivos e amadores, acumulando três empates e duas derrotas.

Atolado em dívidas, desprovido de polpudas premiações na passagem de fases dos mata-matas, o que nos resta, mais uma vez, é rezar pelos 45 pontos.

Agora eu compreendo perfeitamente o motivo de Abel Braga não aceitar o convite para assumir a direção do futebol. Do alto de sua sabedoria de bruxo e campeão mundial, já se deu conta de que está tudo errado.

CARPINEJAR

25 de Julho de 2024
FORMAÇÃO DO ESTADO - Fernanda Polo

FORMAÇÃO DO ESTADO

Herança

RS celebra os 200 anos da imigração alemã

Chegada dos primeiros colonos germânicos, em julho de 1824, deu início a uma série de contribuições decisivas à cultura, à gastronomia e ao desenvolvimento do Estado. Em muitas regiões gaúchas, descendentes dos pioneiros tomam para si a missão de transmitir as tradições às próximas gerações

Quarenta e cinco imigrantes germânicos desembarcaram em Porto Alegre em 18 de julho de 1824. No dia 25, chegaram 39 a São Leopoldo (ainda parte da Capital), onde estabeleceriam a primeira colônia rural-militar do Brasil, já independente. Agricultores, artesãos e profissionais liberais construiriam ali os alicerces que definiriam o futuro de milhares de famílias gaúchas.

Exatos dois séculos após a chegada dos pioneiros, diversas tradições seguem preservadas, à sua própria maneira. O café colonial preparado com esmero e posto à mesa da família Schneider, em Dois Irmãos, no Vale do Sinos, é prova disso. Jaqueline, 49 anos, cuidadora de crianças, é a responsável pelas receitas do lar. Na residência, a variante Hunsrückisch e o português alternam-se livremente.

Ativa e engajada, a viúva Marlene Schneider, 73, participa de três corais, do grupo de danças típicas alemãs, além de outras atividades, e luta para manter os costumes vivos. A aposentada produz Spritzbier (bebida gaseificada germânica), inclusive em grandes quantidades para os eventos da cidade, como o Kerb de São Miguel.

- Isso é tudo para a gente. É uma tradição dos antepassados que a gente não pode perder jamais - afirma Marlene.

Caderno com receitas

Na Westfália, muitos ainda preservam elementos da cultura dos antepassados. Na cidade do Vale do Taquari, a língua co- oficial é a variante westfaliana Plattdüütsk, conhecida como Sapato de Pau - em homenagem à tradicional peça trazida pelos imigrantes para se abrigar do frio e da umidade. Além da língua, a família da produtora rural Taila Ahlert, 29, cultiva o hábito da agricultura, de criar a própria carne e da comida caseira.

Os costumes são ensinados desde a infância - a família guarda um caderno com receitas que passam de geração a geração. Taila se alegra por viver em comunidade e participar do grupo de danças folclóricas com sapato de pau, Westfälische Tanzgruppe, do qual é coordenadora.

- Vendo o que hoje ainda é cultivado na questão da tradição alemã, a gente percebe essa cultura ainda muito forte aqui na região - ressalta Taila.

Na pequena bagagem carregada para o Brasil, os pioneiros trouxeram diversas contribuições ao RS. Historiador e autor do livro sobre a imigração alemã 1824, Rodrigo Trespach destaca, principalmente, a educação como fator de transformação; a religião protestante, com o estabelecimento da primeira igreja não católica no Brasil; a valorização do trabalho; o espírito de comunidade; o senso de associativismo e cooperativismo; e, posteriormente, o desenvolvimento da culinária e arquitetura típicas, bem como clubes e sociedades. Felipe Kuhn Braun, pesquisador sobre a imigração alemã e detentor de um acervo de 45 mil fotos antigas, enfatiza ainda o comércio e a indústria; e os grupos folclóricos e corais, mais recentes.

Trespach avalia:

 Eles (os imigrantes) contribuíram muito com a questão da formação do povo gaúcho.

Do mesmo modo que trouxeram o uso da carne de porco, aprenderam a utilizar a carne do gado. Aqui, também desenvolveram o uso do aipim e das mais diversas formas da batata, com a qual já tinham contato. Houve uma mistura de elementos, que gerou, por exemplo, a cuca. Essas modificações configuram uma cultura teuto-brasileira, na visão de Braun:

- É feliz quem pode conhecer mais da sua própria história e preservar o que deseja. 



25 de Julho de 2024
DIRETO DA REDAÇÃO- Tulio Milman

A idade de Biden

"Desistir" não é o verbo certo para explicar o recente movimento do homem mais poderoso do mundo. O debate com Donald Trump, dia 27 de junho, marcou o começo do fim da candidatura de Joe Biden à reeleição. Ele estava confuso. Sua voz soava trêmula. Seus movimentos, inseguros. Biden abriu mão da disputa influenciado por pressões externas. Queria continuar. Não conseguiu.

O enredo dessa história nos leva a refletir sobre a relação entre idade e aptidão para o trabalho. A vida oferece desafios e oportunidades diferentes à medida que os anos passam. É um processo natural. As alterações cognitivas e sensoriais que vêm com o tempo não dizem tudo sobre um ser humano. Adolf Hitler, quando chegou ao poder, tinha 44 anos. E discursava muito bem. Era rápido, ágil e preciso com as palavras.

O etarismo, preconceito contra a idade, afeta milhões de pessoas, privando-as de oportunidades. É um sentimento muitas vezes internalizado tanto pelos jovens quanto pelos próprios idosos. Nossa sociedade tende a ver a idade avançada como sinônimo de incapacidade, ignorando o vasto conhecimento, a experiência e as contribuições valiosas que a passagem dos anos oferece.

De fato, cada indivíduo tem um caminho único, desde o seu nascimento. Em vez de focar no que uma pessoa idosa não consegue fazer, mais justo seria valorizar as habilidades e experiências que podem ser canalizadas para o benefício da sociedade.

O etarismo ignora que muitas competências florescem justamente na maturidade. A paciência, a capacidade de ver o quadro geral e a espiritualidade, por exemplo, tendem a ser aprimoradas ao longo da vida. Conhecimento a gente compra. Sabedoria, não.

Em vez de ver a idade como um obstáculo, precisamos valorizá-la como um ativo. Todos nós, tomara, enfrentaremos os desafios do envelhecimento. Nossa tarefa é construir uma sociedade que reconheça e celebre as contribuições de cada fase da vida, garantindo que todos, independentemente da idade, possam viver com dignidade e propósito. Que a História julgue Joe Biden pelos seus atos, jamais pela sua idade, que, intencionalmente, não foi citada neste texto. _

DIRETO DA REDAÇÃO


25 DE JULHO DE 2024
RELATÓRIO DA ONU

RELATÓRIO DA ONU

Brasil melhora, mas 8,4 milhões ainda passam fome, aponta estudo

Índice caiu entre 2021 e 2023 na comparação com o triênio anterior, mas ainda é elevado. Ministro afirma que volume de pessoas com desnutrição crônica despencou no ano passado, como efeito da retomada de programas sociais. No mundo, nível segue acima dos anteriores à pandemia de covid-19

Um total de 8,4 milhões de pessoas ainda passa fome no Brasil, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgado ontem. O estudo aponta que quase um quinto da população brasileira não teve acesso adequado à alimentação nos últimos três anos.

O resultado indica avanço em relação à medição anterior, mas mantém o país no Mapa da Fome, do qual chegou a sair em 2014 e retornou em 2019.

Divulgado anualmente, o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo mostra que, no triênio compreendido entre 2021 e o ano passado, 3,9% da população brasileira apresentou desnutrição crônica. A ONU considera que um país integra o Mapa da Fome quando esse índice é igual ou superior a 2,5% do total da população.

O resultado é um pouco melhor do que o apresentado no relatório do ano passado (referente ao triênio 2020-2022), com recuo de 0,8 ponto percentual no índice total de pessoas em situação de fome. Ao todo, 1,7 milhão de brasileiros deixaram de sofrer de desnutrição crônica, equivalente a um terço do necessário para que o país saia do mapa.

Redução em 2023

Ainda conforme o estudo, o Brasil teve ao longo do último triênio 39,7 milhões de habitantes com insegurança alimentar moderada ou grave. Segundo a agência da ONU, a moderada é aquela em que a pessoa tem dificuldade em ter acesso a uma alimentação adequada, o que faz com que, em determinado período, acabe comendo menos, ou com menor qualidade. Já a insegurança grave é quando falta efetivamente comida por um dia ou mais.

Durante a cerimônia de apresentação do relatório, que ocorreu em paralelo às reuniões do G20 no Rio de Janeiro, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, apresentou um dado individualizado para o ano de 2023 - a FAO trabalha apenas com números trienais. Segundo ele, no ano passado o número de brasileiros em condição de fome caiu 85%, chegando a 2,5 milhões (cerca de 1,2% da população).

Dias atribuiu o fenômeno à retomada de programas sociais que teriam sido "desvirtuados, esvaziados ou interrompidos" nos últimos anos.

- Hoje digo, com segurança, que no caminho que estamos é possível, dentro do governo Lula, até 2026, sair do Mapa da Fome - afirmou Dias.

O desempenho do Brasil foi elogiado pelo diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.

O relatório também mostra que a fome no planeta permanece em nível superior aos anos anteriores à pandemia, que gerou desaceleração econômica e encareceu os alimentos. Cerca de 733 milhões de pessoas passaram fome no mundo em 2023 (veja acima). _

País defende taxação de grandes fortunas

Durante o ato de pré-lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a fome decorre de "escolhas políticas". Em discurso, Lula lembrou que, enquanto os índices de desnutrição avançaram no planeta, os gastos com armamentos subiram no ano passado.

- Hoje o mundo produz alimentos mais do que suficientes para erradicar a fome. O que falta é criar condições de acesso aos alimentos - afirmou.

A aliança está sendo proposta pelo Brasil, que ocupa a presidência temporária do G20 e, no encontro que ocorre no Rio de Janeiro, o bloco aprovou os documentos fundacionais da iniciativa, dando início à adesão pelos países.

Qualquer país interessado poderá aderir. O lançamento oficial será formalizado na Cúpula de Líderes do G20, em novembro, também no Rio.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que também participou do evento, disse que o Brasil conta com recursos da taxação de grandes fortunas, os chamados super-ricos, para financiar iniciativas da aliança. Haddad citou um estudo do economista francês Gabriel Zucmanque que estima uma arrecadação de até US$ 250 bilhões por ano, caso bilionários fossem taxados em 2% das riquezas.

- É aproximadamente cinco vezes o montante que os 10 maiores bancos multilaterais dedicaram ao enfrentamento à fome e à pobreza em 2022 - alegou o ministro. 


25 de Julho de 2024
INFORME - Rodrigo Lopes

Cautela

Cautela e canja de galinha nunca são demais quando se analisa pesquisas eleitorais. No Brasil, por certo. São retratos de momento, um recorte, que, ali à frente, pode mudar. E, não obstante, o cenário se altera. No caso dos EUA, é importante redobrar o cuidado. Cautela e canja de galinha ao quadrado. Principalmente porque lá - ironia das ironias, a mais tradicional democracia do planeta - a eleição é indireta. Quem elege, de fato, o presidente é o colégio eleitoral, formado por delegados cujo total, em cada Estado, é proporcional ao tamanho da população naquela unidade.

Daí, a importância de duas palavras: "The winner takes all" e "swings states". Parece cedo para falarmos sobre isso, mas esses termos são fundamentais para não cairmos em "achismos" ou interpretações precipitadas.

No processo americano, o candidato que vence em um Estado leva todos os delegados a que aquele tem direito no colégio eleitoral - na tradução "the winner takes all" ("o vencedor leva tudo"). Um exemplo real: Biden venceu Trump na Califórnia em 2020 com 63% dos votos. Como aquele Estado tem direito a 55 delegados no colégio eleitoral, ele acumulou esse total de delegados na contagem final. O eleito, no cômputo geral, precisava atingir, no mínimo, 270 delegados. Biden conseguiu 306. Trump, 232.

Por essa idiossincrasia do processo americano, nem sempre quem ganha no voto popular, vence no colégio eleitoral: Hillary, por exemplo, ganhou 65,8 milhões de votos na contagem geral, contra 62,9 milhões de Trump. Mas o republicano foi o eleito, porque chegou a 304 delegados, contra 227 de Hillary. Vamos à segunda expressão: "swing states". Olhe o mapa dos EUA na ilustração abaixo: por tradição, os democratas costumam ganhar nas costas, Leste e Oeste; e os republicanos no interior americano. Seja quem for o candidato democrata, vai vencer na Califórnia, por exemplo. É tradição. Assim como Trump em Oklahoma.

Mas há regiões indefinidas. Esse é o ponto. Há Estados em que ora o vencedor é democrata, ora é republicano. O comportamento é pendular - por isso, a expressão "Estados-pêndulos". É nessas unidades que os candidatos vão depositar sua atenção. E nós, também. Por isso, a cautela em relação às pesquisas nacionais. O que importa é como irão votar os eleitores de um punhado de Estados destacados abaixo. Em tempo: só três pesquisas foram publicadas desde a desistência de Biden nos swing states: na Pensilvânia, nesta quarta-feira, Trump tinha 47%, contra 45% de Kamala Harris; na terça-feira, na Geórgia, Trump tinha 48% contra 47% de Kamala; e, na segunda-feira, na Pensilvânia, Trump tinha 51% contra 45% de Harris. O resto é especulação. _

Os brasileiros e a enxurrada de memes sobre Kamala

Desde a desistência de Joe Biden na corrida eleitoral americana e o apoio de vários políticos americanos pelo nome da vice- presidente, Kamala Harris, na chapa democrata, os brasileiros não ficaram fora do principal assunto mundial e fizeram o que sabem fazer de melhor: memes.

Desde "excursões" saindo de São Paulo até o antigo jargão das últimas eleições brasileiras com o "vira voto", a internet sofreu enxurrada de brincadeiras e piadas sobre as eleições dos EUA.

Em uma das publicações, uma excursão saía da Praça da Sé, no Centro de São Paulo, tinha uma parada no Acre e seguia percurso até a Casa Branca. E ainda lembrava: "Não esqueça do título de eleitor".

Outro meme que rendeu comentários nas redes sociais foi sobre a fala da deputada Talíria Petrone (Psol-RJ) em que ela escreveu em seu X, antigo Twitter: "Não devemos titubear em eleger a primeira mulher presidente dos EUA".

Ainda em 2022 durante as eleições presidenciais do Brasil, foi criada nas redes sociais uma campanha chamada "vira voto", engajada inclusive por famosos. Ela consistia em virar votos de um candidato para outros. A mesma estratégia foi usada nos memes agora com Kamala Harris. _

Apoio relativo

Uma "interpretação otimista", assim o Cpers acredita que o governo do RS entendeu o resultado da reunião da semana passada de suposto aval ao projeto de reestruturação das carreiras dos servidores, na avaliação do vice-presidente Alex Saratt. Para ele, até agora, só ocorreram propostas, não uma negociação.

O projeto contemplava reajustes para agentes educacionais, ou seja, servidores de escolas. _

Cheiro do 4º Distrito

Dispostos a mudar essa péssima memória olfativa, empresários de Porto Alegre estão empenhados em uma ideia inovadora: vão criar o perfume do 4º Distrito, na zona norte da Capital.

A área antiga, conhecida por sediar cervejarias e centros culturais e de inovação da cidade, foi duramente inundada em maio.

Sabe quando você passa por uma loja e, mesmo de fora, percebe aquele cheiro bacana? É essa a ideia.

Arlei Romeiro, presidente da Associação dos Empresários do 4º Distrito Vítimas da Enchente, explica que os gaúchos, ao circularem pelos estabelecimentos da região, poderão reconhecer um tipo de fragrância que será característica daquela área.

Para tanto, pretendem inclusive contratar um perfumista de São Paulo para entender qual seria "o cheiro" do 4º Distrito. 

INFORME

quarta-feira, 24 de julho de 2024


24 de Julho de 2024
CARPINEJAR

Vou contar uma piada sem graça. Mas sua graça consiste em não ser uma piada.

Joãozinho caminha para a escola de manhãzinha, tropeça numa pedra e vê que ela esconde um bilhete. Pega o papelzinho e põe no bolso.

Ao se acomodar em sala de aula, decide espiar o que está escrito. A professora se encontra no meio de uma lição. Percebendo a distração do aluno, recolhe o bilhete e lê.

Fica horrorizada e o manda para a direção. A diretora tenta entender o que aconteceu. Joãozinho explica:

- No caminho da escola, tropecei numa pedra e vi um bilhetinho escondido. Fui olhar o que era na aula e a professora me expulsou da sala. A diretora toma a folha, lê e fica horrorizada.

- Não posso admitir isso na escola. Você está expulso. Joãozinho chega em casa. A mãe estranha a sua aparição muito cedo e pergunta:

O que houve? Joãozinho explica:

No caminho da escola, tropecei numa pedra e vi um bilhetinho escondido. Fui olhar o que era na aula e a professora me expulsou da sala. Ela me mandou para a direção, a diretora leu e me expulsou da escola.

A mãe, então, disse: - Quero ler! Analisou uma por uma das linhas e ficou horrorizada.

Vá falar com o seu pai!

Ele aparece no serviço do pai, que para tudo para socorrê-lo.

- O que foi, filho?

Joãozinho explica:

- No caminho da escola, tropecei numa pedra e vi um bilhetinho escondido. Fui olhar o que era na aula e a professora me expulsou da sala. Ela me mandou para a direção, a diretora leu e me expulsou da escola. Mostrei para a mãe e ela me mandou para cá.

O pai passa os olhos pelo papel e fica horrorizado:

- Não quero mais ver você pela frente.

Ele corre para a residência dos avós. O avô atende e busca consolar o neto. Pede para não chorar.

Joãozinho explica:

- No caminho da escola, tropecei numa pedra e vi um bilhetinho escondido. Fui olhar o que era na aula e a professora me expulsou da sala. Ela me mandou para a direção, a diretora leu e me expulsou da escola. Mostrei para a mãe e ela me mandou para o pai. O pai viu e me mandou para longe.

O vô não acredita que seja algo tão sério, já supõe uma injustiça. Desamassa o bilhete, lê e fica horrorizado.

- Vá embora, não posso dar abrigo para você.

Joãozinho, desesperado, sobe o Morro da TV. Lá ele vai ler o bilhete em voz alta, sozinho, sem ninguém por perto, e finalmente descobrir o motivo de tamanho ódio.

Ao atingir o topo do lugar, com o Guaíba ao fundo, levanta o papel com a mão direita, enche o pulmão de coragem e começa a leitura para toda a Porto Alegre ouvir. Só que vem um vento sorrateiro e leva a mensagem embora, para nunca mais.

Moral da história: jamais deixe alguém falar por você. Mesmo que seja tímido, mesmo que seja reservado, mesmo que não se expresse bem. Na boca de um terceiro, suas palavras podem ser distorcidas. Assuma a sua vida. Não dependa de um fiador para transmitir o que deseja. Talvez se transforme em vítima de segundas intenções, de interesses alheios à sua vontade. A versão do outro nunca será exatamente a sua versão.

Tampouco seja garoto de recados. Os mensageiros sempre arcam com as consequências.

Por último, não carregue o que não sabe do que se trata. Acabará sendo o único responsabilizado pelo conteúdo. _

CARPINEJAR