quinta-feira, 27 de dezembro de 2007



27 de dezembro de 2007
N° 15461 - Luis Fernando Verissimo


Há micróbios

2007 vai ficar como o ano em que, entre outras coisas, descobriram que há vida em Marte. Um ambiente propício para micróbios, qualquer coisa assim. Você eu não sei, mas eu me decepcionei muito com Marte.

Fomos preparados pela ficção científica a esperar muito mais dele, a começar por uma invasão. Mas descobriram que não havia ninguém em Marte.

Os tais canais vistos pelas lunetas antigas, provas da existência de alguma forma de vida inteligente, mesmo que fosse só de engenheiros, não eram canais. Nenhum vestígio de qualquer tipo de vida aparecera em Marte, muito menos de uma civilização capaz de nos atacar.

Marte, como o Iraque, também não tinha armas de destruição em massa. Era um imenso parque de estacionamento vazio, sem nem um atendente. Um blefe. Agora descobriram que há micróbios em Marte.

Ou uma civilização de micróbios, quem sabe? Anos e anos de literatura premonitória e previsões terríveis talvez não tenham sido, afinal, desperdiçados.

De acordo com a ficção científica, extraterrenos fatalmente viriam à Terra para nos atacar e subjugar. Nenhum viria fazer turismo ou participar de congressos. Viriam para nos aniquilar ou nos escravizar, ou roubar nossos fígados para fazer pomadas para suas princesas. E a presunção se justifica.

Só uma civilização muito mais avançada do que a nossa dominaria viagens interplanetárias em grande escala, e nos acostumamos a pensar que só o desenvolvimento tecnológico para fins bélicos traz civilizações avançadas. Na Terra tem sido assim, desde o primeiro estilingue até a internet.

É a pesquisa para a guerra que traz o progresso. Razoável supor, portanto, que os visitantes do espaço serão sempre guerreiros e não filósofos, ou missionários pacíficos, ou comerciantes. Estes viriam depois.

Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato com um extraterrestre. Desconfiei quando ele disse "Vocês são engraçados..." e eu perguntei:

- "Vocês" quem? "Vocês" brasileiros? "Vocês" carecas? "Vocês" míopes? Destros? Cardiopatas? Torcedores do Internacional?

E ele respondeu: - Vocês gente.

E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o universo inteiro atrás de um planeta para ser colonizado pelo seu.

Achava que tinha, finalmente, encontrado esse planeta. Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que faltava no planeta do qual viera.

Diria no relatório que não seria problema invadir a Terra, pois estávamos recém começando a usar o laser como arma e ainda não descobríramos o poder destrutivo do kiwi, e seríamos facilmente dominados.

Perguntei qual era a riqueza natural que nós tínhamos e eles não, e o extraterrestre respondeu: "A poesia". E perguntou:

- Você sabe que a Terra é o único planeta do universo conhecido em que as pessoas dão nome aos ventos?

Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando: "Taí, somos todos poetas e não sabíamos". E perguntei se não havia poetas no planeta dele. Claro que não, disse ele. Ou como eu imaginava que eles tinham se tornado uma civilização tão avançada?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007


Elio Gasperi

Vem aí a Sessão Saudade de 1968

O grande ano da segunda metade do século 20 não foi 1968, mas 1989, o do colapso das ditaduras socialistas

FALTAM cinco dias para o início da efeméride dos 40 anos de 1968. Os sessentões revisitarão aquele grande ano da aurora de suas vidas, que o tempo não traz mais.

Virão as doces lembranças das passeatas e dos festivais de música, até o amargo desfecho da noite de 13 de dezembro, quando a ditadura militar escancarou-se.

Há uma aura mágica em torno de 1968, como se tivesse sido um ano que mudou o mundo. Ele teve muitos acontecimentos inesquecíveis, mas poucos resultados. No Brasil, começou na rua e terminou na sala de jantar do Palácio das Laranjeiras, onde se baixou o AI-5. Na França, teve a revolta dos estudantes em maio e a vitória eleitoral do presidente imperial Charles de Gaulle em junho.

Nos Estados Unidos, destroçado pela impopularidade da Guerra do Vietnã, o presidente Lyndon Johnson anunciou em março que não disputaria um novo mandato e, em novembro, foi eleito o republicano Richard Nixon. Em agosto a União Soviética invadiu a Tchecoslováquia, acabando com o que se denominara de Primavera de Praga.

O historiador inglês Tony Judt matou a charada: "Os anos 60 foram a grande era da teoria". Os fatos perderam importância, substituídos pelo que se supunha ser a grande compreensão dos fenômenos.

Havia até a expressão "racionar em bloco".
A sacralização de 1968 omite o culto dos jovens rebeldes à violência das massas.

Exemplo disso foi o apoio recebido pela Revolução Cultural de Mao Zedong. Da mesma forma, fazia-se de conta que os valentes vietcongs seriam incapazes de instalar uma ditadura que levaria centenas de milhares de pessoas a fugir do país em jangadas de junco. Até a utopia rural de Pol Pot no Camboja tinha seu charme.

O grande ano da segunda metade do século passado não foi 1968, mas 1989. O colapso do império soviético e a destruição do regimes socialistas europeus, bem como a inviabilização dos projetos bicentenários de revolução política e social redesenharam o mundo.

Foi 1989 que permitiu aos revolucionários de 1968 a acomodação de suas idéias e biografias ao século 21. (Numa perfídia dos algarismos, 89 é 68 invertido e de cabeça para baixo.)

A brutalidade da ditadura militar cobriu com um manto sagrado a natureza autoritária dos projetos de quase toda a esquerda brasileira.

Passado o tempo, essas militâncias são explicadas a partir da idéia de que aquela foi uma geração que correu atrás de um sonho. Tudo bem, pois ninguém pode discutir com uma pessoa que teve um sonho há 40 anos.

A sacralização do 1968 brasileiro tem seu melhor momento na gloriosa passeata dos Cem Mil, ocorrida no Rio de Janeiro, na tarde de 26 de junho de 1968.

É pena, mas por mais que ela tenha assustado os generais, foi outro fato quem levou todas as águas do São Francisco para a mo

enda da ditadura escancarada. Naquela madrugada, um comando da VPR jogara um veículo com explosivos contra o portão do QG do 2º Exército, em São Paulo, matando o sentinela Mário Kozel Filho.

No Brasil, 1968 foi o ano de um terrível desencontro provocado pela radicalização política. Talvez não pudesse ser evitado mas, ao contrário de 1989, teria sido melhor que não tivesse existido.


Ninguém questiona "Christina quem?"

Improvisos da série "Samantha Who?" combinam com atriz, que sempre será lembrada como Kelly Bundy

MARGY ROCHLIN
DO "NEW YORK TIMES'


Existe uma lista de razões que convenceram Christina Applegate a abandonar sua decisão de deixar de lado os seriados de TV. É mais ou menos a seguinte: "Quebrei o pé, perdi minha peça, consegui a peça de volta, perdi meu casamento, voltei para casa e ninguém sabia quem eu era".

Ela estava se referindo a um período de 13 meses iniciado em Chicago com uma fratura, quando ela protagonizava uma apresentação de pré-temporada do musical "Sweet Charity", e que inclui a decisão dos produtores de cancelar a temporada, o apelo de Applegate que os convenceu a mudar de idéia, seu divórcio do ator Jonathan Schaech e sua falta de sorte em conseguir papéis em Hollywood depois que a temporada se encerrou, em 2005.

Não é à toa que, dos muitos roteiros para pilotos de séries que lhe foram oferecidos, ela tenha escolhido o de "Samantha Who?", sobre uma executiva do setor de imóveis que é atropelada, passa oito dias em coma e acorda em um leito de hospital sofrendo de amnésia.

Ao longo da maior parte da série, que está na primeira temporada [e é exibida no Brasil pelo canal pago Sony], Samantha não sabe bem quem é ou onde está, mas segue determinada a reconstruir sua vida.

Ela revive, em flashbacks, os momentos que lhe valeram, antes do acidente, a reputação de festeira e irresponsável. Não é fácil determinar qual das duas personas vale mais risos para Applegate: a Sam boazinha, roída pela culpa, ou sua contraparte, alegremente amoral.

Ainda que esta seja a quinta série de TV de Applegate, ela é mais conhecida por seu papel como Kelly Bundy, a filha de "Married... With Children". Applegate, 36, já trabalhava em TV aos sete ou oito anos.

Mas, se um dia ela decidir escrever suas memórias, não terá muito a dizer sobre esses primeiros anos. "Nós estávamos no Alabama", ela começa, relatando sua estréia no cinema em "Jaws of Satan", um filme de terror de baixíssimo orçamento produzido em 1981.

E a história termina alguns segundos depois com "e havia um treinador de cobras com um dedo esquisito"; ela dá de ombros e diz "só me lembro disso".

Parte de "Samantha Who" é exatamente uma certa qualidade de improviso vivaz, a sensação de que Applegate e seus colegas veteranos de televisão estão funcionando bem juntos.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


CLÓVIS ROSSI

É bom, não foi?

SÃO PAULO- Anos atrás, em um seminário em Caracas, Moisés Naim, venezuelano radicado em Washington, editor da revista "Foreign Policy", observou que uma das grandes características do mundo moderno era a "aceleração dos tempos".

Quase tudo parece andar mais depressa, quase nada dura tanto quanto durava antes -ou parecia durar antes.

De fato, a vida moderna é tão acelerada que até o ano, que continua durando 365 dias, parece ser mais curto. Mas o que definitivamente encurtou é a duração da fama.

Poderia citar vários exemplos, mas o que mais me impressiona é o caso de Ronaldinho Gaúcho, talvez por ser torcedor fanático do Barcelona e ficar perplexo com o fato de que o declínio do jogador é primo-irmão dos fracassos recentes do clube.

Paixão à parte, o que dá relevância ao caso Ronaldinho, pelo menos do meu ponto de vista, é a análise que dele fazia Tostão, um dos raros comentaristas de futebol avaro em tascar o rótulo de craque em alguém.

Quando, há dois anos, Ronaldinho abusava do talento, Tostão derreteu-se em elogios a ele. Chegou a colocá-lo perto do pedestal em que se encontra Pelé.

É, pois, inacreditável que, nesses dois anos, Ronaldinho tenha passado dos aplausos dos inimigos (os do Real Madrid), após derrotá-los em seu próprio campo, às vaias dos torcedores do seu time, após perder domingo em casa para o Madrid.

Ousaria dizer que a Copa do Mundo da Alemanha roubou a magia. E não só dele: Ronaldo desapareceu de vez; Adriano tenta ressuscitar no São Paulo; Robinho penou um tempão até voltar a ser estrela no Real Madrid.

Pelé, Maradona, Zico, Didi, até Garrincha, sobreviveram mais tempo sob aplausos. Não deixa de ser um aviso para astros de outros espetáculos -política inclusive. Se a vida é curta, a fama é mais.

crossi@uol.com.br


26 de dezembro de 2007
N° 15460 - Martha Medeiros


Energia parada

Um novo ano está começando.

Por mais cético que você seja, por mais que você não acredite que a passagem do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro provocará alguma alteração cósmica, por mais que você considere toda essa contagem regressiva uma chatice, não dá para negar que é uma época propícia para fazer um descarrego.

Não estou sugerindo que você visite um terreiro para tomar passes de um preto-velho. Estou falando de um descarrego mais urbano, rápido e eficiente: abra seus armários e doe pelo menos metade do que encontrar.

Você tem roupas que usou uma ou duas vezes e que estão guardadas há anos. É bem provável que tenha que comprar algumas peças novas para encarar as festas que o verão vai trazer. Ou seja, irá acumular mais e mais roupa. Chega.

Desça do cabide tudo o que não usa e faça um bazar beneficente. Venda tudo baratinho e doe a renda para uma instituição de caridade, um asilo, um orfanato, uma associação - gente necessitada é o que não falta. Inunde a cidade de reuniões ao estilo garage sale.

Liquide com os excessos. Convoque os amigos, selecionem tudo o que está sobrando em casa (não vale maridos e esposas) e organize um final de semana festivo a outro modo: incentivando um consumismo de purificação. Ou seja, alivie-se das suas tralhas.

Uma amiga, outro dia, usou um termo bacana pra isso. Ela disse que tudo o que guardamos e não usamos é energia parada. Certíssima.

É necessário que a gente se desfaça desse imobilismo, que a gente movimente o estoque, que abra espaço para o novo, que propicie que outras pessoas dêem utilidade para o que não nos serve mais.

É preciso fazer a vida circular, passando adiante o que está inerte. Esse exercício de desapego também ajuda a limpar nossa aura.

E não precisa ser um desapego só de roupas. Pode ser uma doação de livros. De medicamentos com prazos ainda válidos.

De revistas antigas. Louça que você não usa mais só porque está lascada. Móveis que estão abandonados num depósito à espera de um interessado. O que mais dá em árvore no Brasil: interessados.

Aproveite e limpe também sua caixa de e-mails, renove sua agenda de telefones, peça desculpas para as pessoas com quem brigou neste ano (mágoas e rancores também são energia parada) e escancare as janelas: hora de arejar a vida.

É um outro tipo de expectoração. De esfoliação. De despacho. Sério, desfazer-se do que não precisamos ajuda até mesmo a organizar o nosso pensamento, deixa a cabeça mais leve, as idéias mais claras.

E essa movimentação toda ainda vai fazer você perder alguns gramas. Finalmente, uma anorexia do bem, uma compulsão generosa.

Resolução de fim de ano: botar a casa abaixo, libertar-se do acúmulo de tranqueiras e sair deste 2007 carregando menos peso.

Well, depois do Papai Noel que tenhamos todos uma ótima quarta-feira, mesmo com com chuva e temperaturas elevadas por aqui.


26 de dezembro de 2007 | N° 15460
David Coimbra


O bar em que as mulheres vão

As mulheres de Porto Alegre, não quaisquer mulheres, mas as donas das canelas mais lisas, dos cotovelos mais macios, as mulheres com hálito de chocolate branco, essas mulheres eram as que iam no Água na Boca, no fremir dos anos 80.

Essa qualidade de mulheres é dotada de uma característica tão espantosa quanto inexplicável - elas se movimentam em grupo, como se fizessem parte de um mesmo e imenso cardume. Um dia, por alguma razão, elas decidem adotar um bar.

Então, todas vão àquele bar. De uma noite para outra, o lugar é tomado por matilhas de mulheres cheirosas, caminhando cheias de confiança dentro de suas minissaias minúsculas, sustentadas por seus tornozelos tenros, debaixo de cabelos ondulantes e olorosos.

Por que razão optaram por aquele bar? Ninguém sabe. Não é pela qualidade da comida, nem do som, nem pelo atendimento, muito menos pelo preço.

Elas simplesmente resolveram ir para lá. E vão, aos magotes. São mulheres que não se conhecem, a maioria nunca se viu antes, mas vão todas ao mesmo lugar. Aí aquele bar se torna famoso na cidade.

Os homens, claro, também vão para lá, e as outras mulheres, as que não são tão graciosas, nem tão doces, nem tão viçosas, igualmente se achegam, só que em menor número, tímidas, desconfiadas, sem conseguir mesa para sentar.

Por determinado período, aquele bar é o bar. Lá, tudo acontece. Lá, tudo se dá. O bar é comentado, sai no jornal, seu dono ganha muito dinheiro.

Então, um dia, as gostosas, porque é isso que são, falemos sem eufemismos, elas são gostosas, então um dia as gostosas mudam de idéia. Trocam de bar. Evadem-se do bar antigo e partem para outro, sem motivo, sem lógica. Cansaram. Deu.

Isso acontece rapidamente. Num fim de semana, estão todas enfeitando um bar. No outro, cadê as florzinhas? Sumiram. Para onde foram? Leva semanas para que se descubra seu novo bar, em outro ponto da cidade.

Como se comunicaram? Será por telefone? Será que têm um grupo de imeils de gostosas? Uma comunidade no orkut? Será que publicam algum tipo de anúncio em código nos jornais? Alguém um dia precisa desvendar esse mistério.

Nos anos 80, durante longo tempo, o Água na Boca foi esse bar. O Bar Eleito.

O rei do bar

Nos anos 80, Renato Portaluppi era o rei do Água na Boca. Certo dia, na casa da mãe dele, na Zona Sul, Renato contou-me algumas de suas aventuras noturnas ocorridas, justamente, no palco penumbroso do "Água", como os antigos freqüentadores ainda chamam o bar, entre suspiros. Muitas impublicáveis, claro. Uma, mais leve, aconteceu com uma loirinha que era uma daquelas loirinhas.

Mas era uma loirinha! Meiga, doce, quase diáfana. E com namorado. Loirinhas que tais sempre estão com namorados. Aquela loirinha tinha um namorado grandão e tudo mais, só que não parava de olhar para o Renato.

Até que o Renato fez um gesto de cabeça para ela e ela o seguiu para os fundos do bar. Lá, entregaram-se a alguns minutos de travessuras, que acabaram em feroz felação, ao cabo da qual, Renato sussurrou-lhe ao ouvido:

- Agora, quero que tu voltes ao bar e beije teu namorado na boca. Ela obedeceu.

Renato era o Rei do Água, de fato.

O Rei do Rio

Alguém classificará Renato como um cafajeste. Não é. Trata-se de uma das melhores pessoas dentre as poucas boas pessoas que encontrei no futebol.

Belíssimo caráter, um homem leal, em quem se pode confiar. E foi um dos maiores jogadores que já fincaram os cravos da chuteira nas gramas verdes dos campos do Brasil.

Renato tinha força, habilidade e velocidade, concluía com precisão, sabia deslocar-se e procurar o espaço certo para o arremate. Mais: ele entendia o jogo. Sabia como proceder diante da adversidade.

Dias atrás, a TV reproduziu uma das grandes partidas das tantas grandes partidas das quais Renato foi, mais do que participante, protagonista.

O Fla-Flu decisivo do campeonato carioca de 1995. Ao Flamengo de Romário bastava o empate. O Fluminense de Renato precisava vencer. Durante a semana, os dois haviam se desafiado. Queriam ver quem era o melhor.

Renato venceu. Marcou um gol com o pé esquerdo e outro de barriga, nos 3 a 2 do Flu. Transformou-se de Rei do Água em Rei do Rio. Mas o que queria falar era não dos gols, e sim de um lance específico do jogo.

Uma cobrança de falta. Branco, então no Flamengo, estava em fase resplandecente, egresso da conquista do Tetracampeonato do Mundo, nos Estados Unidos. Numa falta cobrada antes dessa a qual me refiro, Branco acertou um pataço no travessão.

A falta seguinte era ainda mais próxima, ainda mais perigosa. Branco recuou a fim de tomar distância para o chute. Renato, que estava postado ao lado da barreira, correu e parou a um metro de Branco, entre ele e a bola.

Não infringiu a lei. Ficara à distância correta da bola, legalmente falando. Mas irritou Branco de tal forma que o desconcentrou. A cobrança saiu torta, chocha, como nunca saía uma cobrança de Branco.

O repórter que entrevistava Renato perguntou se aquela era uma manha típica de decisão. Renato concordou, e arrematou discorrendo sobre como o jogador diferenciado cresce numa final.

E é isso mesmo. A decisão, a final, o jogo de exceção é que dá a verdadeira medida de quem é quem no futebol.

Só uma decisão para separar os heróis dos farsantes. Pena que o maior campeonato do Brasil não tenha decisão. Pena que seja um campeonato feito para os farsantes.


26 de dezembro de 2007
N° 15460 - Paulo Sant'ana


Reflexões natalinas

Telefonei para meu amigo Paulo Di Nardo e sua voz estava embargada, sob choque: furtaram do seu carro, que estava estacionado na Rua Freire Alemão, 80 CDs que ele colecionava com esmero e dedicação há vários anos.

Indaguei-lhe sobre como cometeu a imprudência de levar 80 CDs no carro, não sabia que podia ser furtado?

Ele me respondeu que estava indo para a praia e adora música, não pode se separar de seus CDs.

Se alguém quiser devolver esses CDs, eu gratifico. Eu, o colunista, gratifico.

Não podemos deixar meu amigo entrar o ano arrasado assim como ele está. Magoaram-no os ladrões, quem sabe um deles devolva os CDs?

A mim também já me levaram tudo os ladrões. Só me deixaram a razão. Os ladrões já me levaram a paciência, carregaram-me esses dias com a última reserva de tolerância que eu tinha. Levaram-me os ladrões há muito tempo a esperança.

E, não contente, o destino ladrão me levou a juventude, roubou-me ela num supetão. Mas os ladrões não conseguiram ainda levar a minha voz e a minha razão. E com elas eu vou resistindo.

No dia em que surripiarem a minha voz e a minha razão, só então me entregarei.

Os ladrões já me levaram a libido, mas acho que ainda não levaram o meu desejo. Eu ainda atino. Eu ainda sinto vibrarem em mim as cordas remotas da lascívia: isto quer dizer que ainda estou vivo.

E que o dr. Sarmento Barata pode me devolver a capacidade para a concupiscência.

Roubaram-me quase tudo os ladrões, mas ainda não me levaram os amigos. Restam-me os amigos, poucos amigos, mas grandes amigos. Eles são os alicerces da minha vida. Os amigos que estão próximos de mim fisicamente e ambientalmente e os amigos que estão distantes mas permanecem dentro de mim.

Os meus amigos são o sal da minha terra, o elixir da minha vida.

Meus amigos, meus tesouros. Meus amigos são o meu seguro de vida. Agarro-me fervorosamente a esta apólice, a tábua da minha salvação.

Meus amigos e minhas amigas me restam como meu último socorro. Derradeiro e eficaz socorro.

Quanto a minha família - ou famílias - espero que ela seja nos próximos tempos, como vem sendo há quase meio século, digna e encorajadora da nossa convivência aqui nesta passagem pela Terra.

E que Deus nos abençoe a todos, inclusive aos meus leitores e leitoras, para quem em última análise eu tenho vivido.

E se o pai do Nazareno quiser, vou continuar vivendo.

O meu amigo João de Almeida Neto, ouvindo de mim uma dissertação sobre a inveja, lascou a sua sentença: "Eu só tenho inveja de um tipo de pessoa: aquele que tem 20 anos menos do que eu".

Objetei prontamente ao João: "Pois comigo se dá singularmente o contrário: só tenho inveja de quem tem 20 anos mais do que eu".

E quando alguém me pergunta como vou indo, como estou passando, se está tudo bem comigo, ensaiei meticulosamente uma resposta para a fase da vida que estou atravessando:

"Estou nadando de poncho contra a correnteza e rezando para que apareça pelo menos um crocodilo para que eu me agarre nele imaginando que seja um tronco".


26 de dezembro de 2007 | N° 15460
Diana Corso


O neto de Sherlock Holmes

Sou hipocondríaca o suficiente para emprestar.

Uso meus parcos conhecimentos de medicina para diagnósticos estapafúrdios: dor de cabeça em criança é meningite, em adultos é AVC, espinha é câncer de pele, todo sintoma é grave, toda doença é letal. Por isso recorro aos médicos, figuras encarnadas do salvador, que possuem recursos para prevenir e remediar o mal temido.

Nós, os hipocondríacos, somos uma grande família, o que torna natural que nossos salvadores virem personagens literárias, vide o Dr. House, da série televisiva que leva seu nome (no Brasil, pode ser vista no Universal Channel ou na locadora mais próxima).

Gregory House é um médico controverso, realiza as investigações médicas com a mesma sagacidade de Sherlock Holmes, com quem compartilha também a pouca sociabilidade, a misoginia e a toxicomania (Holmes era viciado em cocaína, House em analgésicos).

A ele são destinados os casos enigmáticos, que ataca com racionalidade infatigável e uma fúria transgressiva, ousando quebrar protocolos, testar substâncias em humanos, enganar superiores e parentes.

Analisando dados, ele constitui hipóteses, planos de tratamento, cujo sucesso funciona como prova do crime, assim como o fracasso é indício de que a investigação deve prosseguir. Sherlock por Sherlock, o que muda é o assassino: o culpado agora é o corpo.

O crime é sintoma de uma doença social. Quando um assassinato ocorre, quanto mais chocante, mais nos questionaremos sobre que tipo de grupo social constituímos.

Já a doença pode ser coletiva, causada por uma epidemia, um problema ambiental, mas na maior parte das vezes é um sintoma individual, e a sobrevivência pessoal é a que mais nos interessa.

Por isso, precisamos de um herói médico cujo enfrentamento com a morte seja um duelo, questão de honra, que não possua outra razão de viver do que salvar a nossa vida.

Sherlock Holmes foi criado no final do século 19 pelo oftalmologista Arthur Conan Doyle, que assumidamente inspirou-se em seu professor de medicina, Dr. Joseph Bell, conhecido por seus brilhantes diagnósticos. O famoso detetive inglês utilizava-se dos mesmos raciocínios da semiologia médica para desvelar crimes e mistérios.

Pouco mais de um século depois, a pedido do público, o Dr. House volta a essas origens, mas com um acréscimo fundamental: ele sofre dores constantes, manca e usa uma bengala, seqüelas de uma doença mal diagnosticada.

É por isso também um intratável, agressivo e avesso ao contato pessoal, que afoga suas mágoas em whisky e opiáceos. Enfim, ele padece de corpo e alma.

A história do paciente que foi, define o tipo de médico que se tornou: além de usar seu brilhantismo para denunciar a incompetência dos outros profissionais, ele conhece por dentro a dor e o medo, elementos intrínsecos da doença. House é médico e paciente ao mesmo tempo, ele também é um de nós.

Por isso, para o novo ano, desejo saúde para dar e vender, ou, em caso de azar, que encontremos alguém que compreenda nosso sofrimento.

Para os que notarem minha ausência: volto a este espaço em março!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007


FERNANDO DE BARROS E SILVA

Feliz Natal, dr. Drauzio

SÃO PAULO - Drauzio Varella tem um talento incomum para contar histórias. Sabe fazê-lo como poucos jornalistas. É uma qualidade acessória para um médico com trabalhos sociais tão relevantes.

Mas não é o doutor, e sim o paciente que faz de seu novo livro, "O Médico Doente", uma pequena preciosidade. Drauzio descreve em detalhes a evolução da doença que por muito pouco não o levou à morte. O hipocondríaco que vive em cada um de nós dá pulos de satisfação.

Drauzio contraiu febre amarela no final de 2004, numa de suas freqüentes viagens ao rio Negro. Sua vacina estava vencida fazia 20 anos. O médico tão atento à saúde dos outros e tão zeloso com a sua própria se vê traído por um descuido miserável, talvez excesso de confiança, alguns diriam por um ato falho.

Seis dias depois dos primeiros sintomas, já internado, sob doses pesadas de morfina, ele tenta pegar um copo d'água. Mal consegue sustentar o peso do braço. No domingo anterior, quando voltou a São Paulo, havia corrido 18 km no Minhocão. O vírus o destruíra.

Imaginei, escreve Drauzio, "o que pensaria se fosse o médico de alguém naquelas condições. Consegui fazê-lo com tal realismo que tive a impressão febril de estar em pé, de camisa de colarinho e gravata, olhando para mim, deitado, de pijama, trêmulo de frio, com náuseas, os olhos amarelos, o fígado aumentado, a voz fraca, a fala entremeada de silêncios involuntários. (...)

Ao olhar para mim em pé a meu lado, achei que os olhos do médico evitaram os meus. Senti vontade de perguntar se havia saída, mas recuei, porque o induziria a mentir".

A descrição da sensação de estar, à beira da morte, alheio e indiferente a tudo e a todos é um dos momentos mais fortes do livro. Tal honestidade não é para qualquer um.

Mas o médico, desta vez, foi enganado pelo paciente, que sobreviveu. Ateu convicto, Drauzio não tirou do episódio nenhuma lição metafísica. Mas nos faz refletir um bocado sobre a brevidade e a loteria da vida. Brindemos. A todos, feliz Natal.

VALDO CRUZ

Querido Papai Noel

BRASÍLIA - Véspera de Natal, um funcionário dos Correios bateu com uma carta do presidente Lula endereçada a ninguém menos que Papai Noel. Não resistiu e leu. Segue um relato fiel dele:

Querido Papai Noel, sei que tenho muito mais do que um dia imaginei ter. Ex-metalúrgico, hoje sou presidente da República. Não preciso nem abrir porta. Tem sempre um assessor para cumprir essa e tantas outras tarefas.

Meu salário, em comparação ao de alguns executivos, não é lá essas coisas. Mas não posso reclamar. Em relação ao dos meus companheiros, é muito bom. E não preciso nem pagar casa e comida. Tá tudo incluído no pacote.

Sem falar nas viagens internacionais. Nunca pensei que iria conhecer tanto país na minha vida. E de graça. Se bem que, na verdade, não chego bem a conhecê-los, acabo mais passando por eles.

Mas tudo bem, nada é perfeito. Mesmo assim, considerando-me um privilegiado, gostaria de fazer alguns humildes pedidos.

O primeiro é um identificador de senador governista. Acabei de ser derrotado no Senado porque vários que se diziam meus bandearam para o outro lado.

O segundo pedido é um controle remoto capaz de comandar alguns ministros à distância. Apertaria a tecla "mute" toda vez que o Guido Mantega começasse a dizer coisas que não deveria falar.

O terceiro é um aparelhinho que deletasse o passado. Seria útil toda vez que a oposição ficasse me cobrando coisas do tipo "por que o sr. foi contra a CPMF?".

Poderia ainda emprestá-lo ao Antonio Palocci, e boa parte dos meus problemas estaria resolvida.
Um último pedido seria um clone. Ele me substituiria na hora de ficar agüentando essa conversinha de deputado e senador pedindo cargos no governo.

Espero não incomodar, mas tenho urgência. 2008 vem aí e, de cara, tenho um rombo de R$ 40 bilhões para cobrir por causa do fim da CPMF. Abraços, Lula.

GUILHERME WISNIK

Iluminação genital

Idéia de uma luz que vem do alto se mantém ligada à dimensão da transcendência ainda nos dias de hoje

NAS PÁGINAS do Apocalipse, são João tem a visão de uma ordem divina que sobrevém ao Juízo Final. É a Nova Jerusalém, descrita como uma cidade quadrada, com doze portas, e cuja praça é "de ouro puro, como vidro transparente".

Uma cidade que, no dizer do evangelista, não necessitava mais de Sol nem de Lua, "porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro (Jesus) é a sua lâmpada".

Considera-se que o primeiro emprego mais extensivo do vidro, na história da construção, data do século 12, com os vitrais das catedrais góticas.

Em grande parte, dada à vontade de que estas pudessem equiparar-se simbolicamente à imagem diáfana da Nova Jerusalém descrita por são João Batista, na qual o ouro coincide com o cristal, e o brilho reluzente é sinônimo de transparência (significativamente, quase todas as catedrais trazem representações do Apocalipse em suas portas).

Avanço técnico surpreendente numa época ainda conservadora, em que o horizonte humano se estreitava com a possibilidade iminente do final dos tempos.

Daí que a idéia de uma luz que vem do alto se mantenha, ainda hoje, ligada à dimensão da transcendência, mesmo em um tempo em que a desmaterializada fachada de vidro se tornou o símbolo do "esclarecimento", isto é, das "luzes" da razão.

Certa vez um aluno, numa aula minha, querendo referir-se à luz zenital de uma construção (que entra pela cobertura, através de clarabóias), confundiu-se e falou em "iluminação genital".

Ato falho que é um verdadeiro achado, já que a abertura vaginal é a primeira luz que "vemos" na vida. E, convenhamos, ela está no zênite do percurso do bebê em sua travessia pelo canal de parto, ao final do qual considera-se que a criança foi literalmente dada à luz.

Ao nascer, chegamos ao céu. Que é, por sua vez, a terra. Assim, as "partes baixas" sobem para o zênite, e eu diria que esse aluno teve, naquele momento, uma súbita iluminação: a vagina como uma Novíssima Jerusalém. Imagino que Freud gostaria da associação, particularmente sugestiva no dia de Natal.

Em vez de representar uma dimensão inacessível do mundo (sobrenatural, platônica), essa luz nada mais é do que o próprio mundo no qual entramos.

Por outro lado, esse encontro com a luz é, agora, uma experiência ao mesmo tempo sublime e traumática. Pensemos, por exemplo, na dificuldade do Menino Jesus em romper aquele umbral virginal.

Terá visto uma luz mais mortiça e bruxuleante do que nós? Mesmo sendo ele a "lâmpada" dos homens, não foi dispensado de ver, um dia, essa luz no fim do túnel como uma espécie de "Juízo Inicial": o momento em que o feto se individua, passando a ter uma bagagem própria e totalmente intransferível.

É freqüente a associação entre o espaço da igreja e o ventre materno, o conforto uterino.

Pois o interior em penumbra da igreja, todo envolto em mistério, é sempre vedado à vista desde o exterior, ficando protegido por um anteparo situado em frente à porta, como um hímen.

Reservadas, elas são como virgens guardando-se para aquilo que virá depois do Apocalipse.


24/12/2007 e 25/12/2007
N° 15459 - Liberato Vieira da Cunha


Milagre de Natal

Dizem que ser feliz é não sentir saudade. Peço licença no entanto para imergir em alguma nostalgia de um período breve de minha vida.

Em Cachoeira, numa época que não carece identificar em números, surgia de repente uma indefinível agitação na casa.

Como eu sabia? Creio que pela carroça estacionada diante da porta da frente e meu pai examinando a mercadoria.

A mercadoria eram pinheiros de diversos tamanhos e preços, particularidades debatidas por meu pai e pelo vendedor de acordo com um hábito honesta e sabiamente brasileiro: a pechincha.

Depois de uma educada mas firme troca de argumentos, meu pai e o carroceiro chegavam a um acordo mutuamente justo e uma das árvores daqueles tempos pré-Ibama era depositada na sala de estar, que, a partir daquele dia, fechada, passava a ser um desafio à fantasia e à imaginação.

O sigilo fazia parte do ritual. Dona exclusiva da chave, minha mãe se entregava a uma arte em que era mestra: decorar com engenho e arte o pinheiro.

Era uma tarefa que supunha amplos conhecimentos de neves, enfeites, fios prateados e mais uma dezena de adereços cuja correta disposição exigia atenção e bom gosto.

Completada essa obra, iniciava-se outra, que requeria ainda mais aplicação e empenho: armar o presépio, a que não faltavam os três personagens centrais, mais os pastores, os reis magos, os animais, a manjedoura e a rutilante estrela de Belém.

O segredo era dar ao cenário a beleza e a devoção de um ato de fé e de esperança, mas nisso também minha mãe não falhava. Guardo até hoje fotos das pequenas obras-primas que criava com detalhe e esmero.

Em horas incertas, aportavam os pacotes, que iam sendo dispostos ao redor da árvore, envoltos em mistério.

E então chegava a grande noite, as portas da sala eram abertas, meu pai puxava as orações e os cânticos e depois ia chamando, com uma alegria contagiante, os donos dos presentes.

Há cenas de encantamento sem reprise - e é assim que recordo essa. Pois mais do que os brinquedos nos unia algo de único e de tocante. Isso que chamam de o milagre de Natal.


24/12/2007 e 25/12/2007
N° 15459 - Kledir Ramil


Papai Noel existe

Já contei essa história, mas não resisti, vou contar de novo. Só de relembrar, fiquei rindo sozinho.

Há alguns anos, uma rede de televisão me convidou para participar de uma matéria especial de Natal. A idéia era me vestir de Papai Noel, ir até um shopping center e conversar com as pessoas para ver quem descobria minha identidade.

Tenho 1m80cm de altura e peso 60 kg. Sou o tradicional magrão. Meu biotipo é exatamente o oposto do bom velhinho, o que daria um charme todo especial à brincadeira.

Consegui uma fantasia emprestada com o meu amigo Nagib, que tem um corpo extra extra large, uma barba meio esbranquiçada e, por isso mesmo, todo 25 de dezembro é convocado pra ser o Papai Noel nas festas dos amigos.

Me enfiaram uma máscara na cara, cheirando a mofo e naftalina, e lá fui eu, naquela fantasia ridícula, com um travesseiro na barriga e um pensamento fixo: "Papai Noel existe. Sou eu!".

Mas o que era para ser uma diversão acabou virando tragédia.

Logo na chegada, no shopping, encontramos outro Papai Noel. Sentado num trono, num palco decorado com motivos natalinos e uma garotinha no colo tirando fotografia.

Havia uma fila enorme para chegar até ele. Resolvi então fazer uma graça. Virei pra equipe de TV que me acompanhava, falei "gravando" e avancei contra o gorducho:"Impostor!! Farsante!!".

E gritava para as crianças e para a câmera: "Não acreditem nesse velho barbudo. Eu sou o verdadeiro Papai Noel". E apontando o outro: "Olhem só, essa barba é falsa...".

Botei um pé na barriga do velho, me agarrei nos pêlos brancos do pobre coitado e comecei a puxar. Ou a porcaria da barba era verdadeira, ou estava muito bem colada.

O velho começou a gritar e jogou a criança por cima do ombro que caiu de cabeça, graças a Deus, na montanha de presentes. O trono virou pro lado e nós os dois, o gordo e o magro, rolamos pelo chão enredados na cortina de veludo do cenário.

Meu pé enroscou no fio do microfone arrastando o cameraman, que perdeu o equilíbrio e, por puro reflexo, se agarrou na primeira coisa que encontrou: um galho da árvore de Natal.

O enorme pinheiro veio abaixo, trazendo junto a iluminação com milhares de luzinhas que decoravam o Mall.

Um dos fios desencapados foi parar no chafariz central e o sistema elétrico do prédio entrou em curto circuito. A luz apagou e o pânico foi geral. As crianças começaram a chorar e gritar.

Os pais indignados me jogavam o que tinham nas mãos: pipoca, sorvete, telefone celular... A gurizada avançou contra mim e só não fui linchado porque chegaram os seguranças do shopping e me levaram sob escolta.

Fui embora, mas com um chumaço de barba branca na mão.


24/12/2007 e 25/12/2007
N° 15459 - Luís Augusto Fischer


Tanto Natal

Motivos para ficar triste eu tenho vários, neste fim de ano: é o primeiro natal sem meu irmão, o Prego, que com sua cara serena e seu humor rápido sempre era uma bênção por perto da gente.

Tem também a morte recente de uma prima muito querida, Rosa Maria Reckziegel (quase igual ao nome de solteira da minha avó paterna, Rosa Ana Reckziegel), morte súbita, inesperada, também descabida, de uma mulher jovem e tão serena quanto o Prego (eles deviam ter mais afinidade do que a gente percebia).

Motivos para ficar alegre, tenho? Por sorte são também vários e grandes: sem ir mais longe, o sorriso do Benjamim, meu filho, e o do Alfredinho, órfão do Prego e meu afilhado, dois guris com o mundo todo pela frente.

O amor dos amigos e da família. O bom emprego, o saldo positivo no banco. Os livros todos que há para ler. As músicas que há para escutar. Os planos para o ano. O futuro. A saúde.

Isso tudo entra assim em causa porque o tempo de final de dezembro, por mais convencional que seja ele e por mais racional que eu tente ser, pega a gente no contrapé, por marcar acentuadamente o fim do ano, a virada do ciclo, a troca de número, o começo do verão,

as férias e as mudanças que a temporada impõe, e claro que também pela força da tradição cristã, a lembrança associada do nascimento, renovação e tudo aquilo que o senhor e eu conhecemos bem.

Trata-se de uma visão meramente ocidental da coisa? Sim. Trata-se de algo construído na cultura, reforçada pela propaganda dos últimos 50 anos? Sim. Mas penetrou com uma força imbatível na rotina dos anos, e aí era isso, resta viver a coisa do melhor jeito que dá.

Do melhor jeito que dá: tenho pensado, às vésperas de fazer 50 anos, que uma boa diretriz para essas comoções meio artificiais, e mais ainda quando são, como é o caso, atravessadas pelo comercialismo, é recusar sempre, nem que seja apenas no íntimo da alma, o rebaixamento das coisas e das pessoas à condição de mera mercadoria.

Trata-se de uma providência irrelevante para a marcha geral do mundo, mas ajuda a manter a cabeça sobre os ombros e o coração batendo no compasso adequado, humano e solidário - ainda que apenas vagamente solidário.

Boas festas de virada de ano, prezado leitor.


24/12/2007 e 25/12/2007
N° 15459 - Moacyr Scliar


Os honorários do Papai Noel

Na zona sul de Porto Alegre, é muito popular a figura de Carlos Aguiar, o Teixeirinha, que todos os anos, em dezembro, veste-se de Papai Noel e, pilotando uma moto, distribui brinquedos entre as crianças daquela região.

Entrevistado pelo Mauro Saraiva Júnior, da Rádio Gaúcha, Teixeirinha contou como descobriu sua vocação. Anos atrás, ele, chefe de família de modestos recursos, recebeu do filho pequeno um pedido irrecusável: o menino queria uma moto de brinquedo.

Custava vinte e cinco cruzeiros, o que para a época era uma soma respeitável, mas pai é pai e Teixeirinha deu um jeito de descolar a grana. Feliz, teve uma idéia: perto de sua casa havia um senhor que fazia o papel de Papai Noel.

Foi procurá-lo e pediu que entregasse o presente ao filho, com o que sua alegria estaria completa. Mas a reação do homem foi surpreendente. Nada de alegre acolhida, nada de "Ho, ho, ho". Coçando a barba, ele disse que sim, que poderia fazer a entrega, mas que o serviço custaria cinqüenta cruzeiros.

A quantia era absurda, mas, dentro das leis de mercado, o pedido tinha certa justificativa. O Papai Noel poderia alegar muitas coisas em defesa da cobrança.

Afinal, o Pólo Norte é longe, a viagem para cá dá trabalho. Os anões que para ele trabalham estão sempre reivindicando melhorias salariais, seguro-saúde e coisas no gênero. Os brinquedos, apesar da concorrência da China, também sobem de preço.

As renas que puxam o trenó comem, e comem bastante: as rações representam uma despesa enorme. Entrar pelas chaminés exige habilidade e forma física, de modo que o Papai Noel via-se obrigado a, mediante mensalidade, freqüentar uma academia de ginástica. Daí a cobrança.

Já Teixeirinha poderia, mediante horas extras ou outra providência, levantar a quantia e pagar. Ou então poderia desistir da idéia, convencendo o filho de que Papai Noel não existe.

Ou ainda poderia desencadear um boicote contra o assim chamado bom velhinho. Mas optou por uma outra solução. Transformou-se, ele próprio, em Papai Noel. Com o que nos deu uma lição prática do que é solidariedade. A generosidade, diz Teixeirinha, não custa nada.

Claro, existe aí um potencial de incomodação. É possível que a esta altura milhares de Papais Noéis estejam reunidos no Pólo Norte, lançando uma campanha contra o amadorismo nas entregas de Natal.

Mas nesta briga Teixeirinha não estará só. Terá a seu lado a zona sul de Porto Alegre - e todos os homens e mulheres de boa vontade que continuam povoando o nosso pequeno planeta.


24/12/2007 e 25/12/2007
N° 15459 - Luis Fernando Verissimo


Revolta no Inferno

Todo fim de ano, o Diabo recebe um pequeno grupo para jantar no que chama de sua anticobertura, um dúplex no último subsolo do Inferno, escolhendo entre as almas condenadas as mais interessantes e de melhor papo.

Os pratos são sempre grelhados e o vinho é de produção local, marca Diabo, mas o principal é que todos se divertem, falando mal de Deus e todo o mundo. Mas, ultimamente, a questão de quem merece e quem não merece estar no Inferno vem sendo muito discutida nos jantares, e as queixas dos que se acham injustiçados por estarem lá se multiplicam.

O Diabo tenta cortar os lamurientos da sua lista de convidados mas não pode prescindir da presença de Oscar Wilde, um dos seus comensais favoritos, apesar das suas constantes críticas à comida, à companhia e à ausência de ar condicionado, e que foi quem primeiro expressou sua revolta.

E o Diabo já sabe que em breve estará enfrentando uma verdadeira rebelião de almas pedindo revisão de sentença e perdão retroativo. E que seus jantares nunca mais serão os mesmos.

Tudo começou quando Wilde, fazendo uma cara feia depois de provar o vinho, comentou como estavam se tornando comuns, na Terra, os casamentos entre homossexuais.

- Eu fui preso, execrado e excomungado por ser homossexual - disse Wilde. - Se fosse hoje, em vez de condenado e exilado, eu poderia ser, sei lá, um conselheiro matrimonial. Não faz muito, a mesma igreja anglicana que me mandou para cá ordenou um bispo gay. O que é que eu estou fazendo aqui?

O Diabo tentou mudar de assunto, mas Wilde continuou:

- Me transfira para o céu, D. Nada pessoal contra você, mas aposto que o vinho lá é melhor. Sem falar no clima.

Não adiantou o Diabo argumentar que nem ele nem Deus são senhores dos tempos, que mudam, ou da justiça divina, que não tem corregedoria ou apelação. Wilde só prometeu epigramas cada vez mais pesados, mas o Diabo se prepara para a gritaria dos indignados do Inferno.

Como os que foram mandados para o Inferno por usura, no tempo em que era pecado. E - como gosta de lembrar o Diabo, com um sorriso malicioso - a Igreja ainda não inventara o Purgatório justamente para acomodar os usurários, pois sem eles não haveria empréstimo a juros, bancos e sistemas financeiros.

Hoje, a usura não só é o que faz o capitalismo rodar como é o capitalismo financeiro que manda no mundo. E, principalmente, não é mais pecado, pois os juros não são mais uma abominação aos olhos do Senhor, e até a Igreja tem bancos.

E os condenados por usura no Inferno perguntam se não têm direito à mesma respeitabilidade conquistada pelos banqueiros, que hoje enriquecem em vida sem o risco das suas almas penarem na morte, e à absolvição.

Ou pelo menos a um upgrade para o Purgatório.

domingo, 23 de dezembro de 2007



JOSÉ SIMÃO

Natal 2007! Perus em pânico!

No Rio, os traficantes atiraram no helicóptero do Papai Noel. Ele tem que blindar até o saco! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Direto do País da Piada Pronta! Natal 2007! Natal é uma data muito incoerente: matam o peru e fazem missa pro galo.
Amanhã você paga mico, engole sapo e come o peru da sogra!

E um médico já disse que depois dos 40 a única coisa com gordura que você pode comer é a sua mulher!

E tá todo mundo liberado pra comer à vontade neste fim de ano. Porque o que engorda não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo. O que engorda é que você come entre o Ano Novo e o Natal.

E uma amiga quer passar o Natal animado, um Natal pelo avesso: ela quer ser comida pelo peru! E tem aquele que resolveu virar gay justo na véspera de Natal: engoliu o peru e soltou a franga.

E o Papai Noel foi assaltado na zona oeste aqui em Sampa. O coitado só vem uma vez por ano e ainda é assaltado. Pior no Rio, que os traficantes mandaram dois tiros no helicóptero do Papai Noel.

Blinda tudo. Blinda o saco do Papai Noel. Papai Noel tem que blindar até o saco! Eu vou blindar o peru. O MEU!

E o Corinthians contratou o jogador Acosta. Já tinha o Abuda. Então, o time vai ser assim: Acosta, Abuda, Azorelha, Acoxa e Aperna.

E sem a CPMF acabou a mordomia no SUS: não tem mais TV digital nos quartos, massagistas, cancelaram o caviar. Soro e Novalgina também não tem. Acabou a farra! Rarará!

E o Kassab na véspera do Natal lacrou o Promocenter, o Standcenter e o shopping da 25 de Março.

O Kassab quer lacrar a China. Aliás, o Kassab lacrou o Natal. Essa seria a grande manchete de fim de ano: Kassab lacra o Natal! O prefeito Lacraia. Rarará!

É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Peruíbe tem uma empresa de limpar fossa chamada Máfia da Merda! Rarará!

Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Missa do Galo": celebração religiosa em homenagem aos companheiros do Atlético Mineiro. Rarará!

O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. No peru! Pra fazer glu-glu!

simao@uol.com.br

DANUZA LEÃO

A paz dos inquietos

Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os caminhos que escolhem são sempre os mais difíceis

É A INQUIETAÇÃO; ou você nasce com ela ou não, e se nasceu, vai passar a vida inteira com uma pressão no peito e outra na alma, querendo entender e não entendendo, trocando de casa, de objetivo, de marido e de analista, sem chegar, nunca, a uma conclusão.
Um inquieto não tem sossego: se é pobre, gostaria de ser rico, se é rico, acha que o dinheiro atrapalha e que talvez fosse mais feliz se morasse numa pequena cabana.

Se é inverno, ele se lembra com saudades do verão, mas se está debaixo do mais lindo sol, pensa em como seria bom se estivesse em Gramado no inverno, de botas, tomando um chocolate quente.

Não é que ele queira sempre o que não tem; apenas não consegue viver o momento presente -não em paz. Ou está lembrando do passado ou pensando em como vai ser bom quando o futuro chegar. É duro fazer parte da tribo dos inquietos.

Com eles não há risco de monotonia; acordam te sufocando com beijos e abraços ou na mais fria das indiferenças, e o pior: sem saber o porquê. No meio do dia podem telefonar como a mais dócil das criaturas, sem conseguir explicar por que foram tão insuportáveis horas antes. Nem explicar, nem entender. É dura a vida dos que vivem perto de um inquieto.

Mesmo quando está tudo bem -o amor perfeito e o trabalho legal, alguma coisa atrapalha: é a tranqüilidade. Como é possível alguém viver em paz e em harmonia com as pessoas e com o mundo? Difícil de responder.

Difícil, a vida dos inquietos, e ninguém imaginaria o quanto essas pessoas tão vitais -porque vitalidade é o que não lhes falta- sofrem, mas que ninguém confunda sofrimento com infelicidade.

Nada a ver. Para eles nunca há paz; há momentos de intensa e fugaz felicidade, mas paz, nunca. O grande momento dos inquietos é quando eles começam a planejar uma mudança de vida, seja essa mudança quebrar uma parede, mudar de profissão ou de país.

Eles vivem em eterna tensão, para o bem ou para o mal; só não podem é ficar parados. Os inquietos não se conformam com nada que se pareça com a estabilidade, e por isso os caminhos que escolhem, sejam eles quais forem, são sempre os mais difíceis. Os inquietos não sabem viver sem uma complicação, e a luta para eles é sempre melhor que a vitória.

Eles não compram, jamais, uma casa de campo pronta, mas um terreno; levam dois anos para construí-la e mais dois fazendo o jardim, decorando etc. No dia em que ela fica pronta, as flores crescidas, ele sente um grande vazio -que só se resolve quando encontra um comprador.

É que assim eles passam a maior parte da vida, com algumas pausas para refletir por que são assim e como poderiam se aquietar, para serem mais felizes; para encontrar uma certa paz, talvez -só que não conseguem.

Mas um dia eles compreendem que essas pausas foram tempo perdido e teria sido mais simples se tivessem reconhecido, há muito mais tempo, que com eles não há nada a fazer, e que é impossível mudar.

E é melhor que não saibam nunca: se souberem, terão, de uma certa maneira, encontrado a tal da paz -o que para eles pode ser fatal.

danuza.leao@uol.com.br


ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES

Que o Senhor ilumine a todos!

Q UEM FAZ o que gosta não trabalha, mas usufrui de suas aventuras, assim como os que trabalham por amor alimentam-se do prazer de trabalhar. 2007 foi um ano trabalhoso.

Tivemos muitos problemas, inclusive desastres e perdas de vidas. Até terremoto.
Mas chegamos neste Natal com alguns encaminhamentos importantes. Um deles diz respeito à decisão dos países ricos -os maiores poluidores do planeta- de ajudar a combater a poluição mundial. Oxalá isso se concretize!

No âmbito nacional, crescemos 5% -com a inflação controlada e, ao que tudo indica, repetiremos o feito em 2008. Isso é crucial para a geração de empregos e para a melhoria das condições de vida dos brasileiros.

Há problemas pendentes. Na longa lista destacam-se os da saúde, da educação e da energia. Na saúde, o fim da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) impôs um grande desafio, que implicará em remanejamento de recursos e, sobretudo, na melhoria da gestão dos hospitais e centros de saúde.

Bons exemplos demonstram que, mesmo com os recursos escassos, a boa administração consegue atender as pessoas com dignidade.

Na educação, o maior desafio é o de elevar a qualidade das escolas, o que também implica em melhoria da gestão e no uso racional dos recursos.

O Brasil continua pressionado para criar novas fontes de energia. Ainda dispomos de água abundante para gerar hidreletricidade e, recentemente, ficou demonstrada a viabilidade do etanol. A grande tarefa é dar continuidade e sustentação aos investimentos nesses campos.

Se, de um lado, os desafios são grandes, de outro, a força da necessidade fará nossas autoridades irem em busca de eficiência. Nada mais urgente para o Brasil do que melhorar a produtividade dos serviços públicos. Nesse sentido, a pressão da escassez sempre aperfeiçoa os métodos de administrar.

Tenho fé nessa trajetória. Estou certo de que os brasileiros vão colaborar com trabalho e tolerância -virtudes muito valiosas para um povo que precisa crescer.

Com esses pensamentos em mente, desejo que os meus leitores usufruam de um santo Natal junto às suas famílias. Reservem algum tempo para pedir a Deus que fortaleça entre nós o amor e o respeito pelo próximo.

A felicidade dos seres humanos não se resume no êxito econômico. Mais importante é a força moral. Bom Natal a todos!

antonio.ermirio@antonioermirio.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

O Brasil e os brasileiros

BRASÍLIA - O Brasil vai bem, obrigada, depois de FHC e de Lula. Tá certo que não chega a avançar tanto quanto os parceiros do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), mas é a 10ª maior economia do planeta, segundo o Banco Mundial.

O país produziu US$ 1,585 trilhão em 2005, o que corresponde a 2,88% das riquezas geradas no mundo e praticamente metade de tudo o que a América do Sul gerou. Não é pouco. Aliás, é muito.

O problema é que o Brasil dos brasileiros não está nem perto disso. É o último no ranking de países de alto desenvolvimento humano e está entre os lanterninhas da educação de jovens (em leitura, matemática e ciências, que são fundamentais).

É uma conta que não bate. O país produz riquezas, mas para onde vão essas riquezas?

Os brasileiros parecem entregues não só ao descaso do Estado mas à sanha assassina de agentes do Estado. Todos estão à mercê da violência. E os mais pobres e mais frágeis, à mercê da violência do Estado.

O ano termina com perplexidade e dor diante da história de dois adolescentes brasileiros: a menina que foi jogada por uma delegada e mantida por uma juíza numa cela com dezenas de homens no Pará e, agora, o menino suspeito de furtar uma moto, preso pela Polícia Militar na própria casa e assassinado em Bauru, próspera cidade de São Paulo, o mais desenvolvido e sofisticado Estado do país.

Não bastasse, esse jovem foi morto depois de 30 choques elétricos -no rosto, na orelha, no tórax, no saco escrotal, no coração. Uma tortura bárbara que escandalizava o mundo durante o regime militar brasileiro e deixou profundas marcas na alma e na história do país.

Tantos anos depois da ditadura, o Brasil continua entre as dez maiores economias do mundo, lanterninha na educação e capaz de torturar jovens em suas cadeias, bem debaixo do nosso nariz. O Estado continua algoz. E nós, omissos.

elianec@uol.com.br