sábado, 22 de julho de 2023


22 DE JULHO DE 2023
J.J. CAMARGO

O INESGOTÁVEL PESADELO DAS MEMÓRIAS

O velho colono italiano, tratando de ajudar o conterrâneo que enfrentava uma separação litigiosa, deu-lhe uma recomendação, sabedoria pura: "Compadre, xingue o quanto puder, diga o que tenha vontade, mas nunca escreva nada, porque isso um dia vai se voltar contra você!".

A modernidade abolindo o hábito de escrever cartas, deu a impressão de ter resolvido a inconveniência desse tipo de delação. Mas que nada! O vídeo com o requinte de som e imagem estava a caminho para desmascarar os hipócritas, trazendo a eles o constrangimento de não ter como desmentir.

E então a ameaça potencial de algum indiscreto ter guardado (com propósito espúrio, por certo) alguma bobagem que escrevemos num momento pouco inspirado ficava rondando na expectativa de que algum injuriado pudesse, sabe-se lá por qual razão, desopilar.

Sempre penso nisso vendo filmes antigos de espionagem, quando, com frequência, repete-se a cena desesperada da queima de arquivo, quando uma célula terrorista era descoberta. Com a chegada da era digital, economizou-se a cremação rica de poluentes e passamos à prática asséptica e ecológica dos hackers.

Enfim, não importando qual recurso tecnológico tenha sido usado, foi sacramentada a morte do desmentido. Cabendo à vítima desavisada e aos seus envergonhados herdeiros dar o destino que quiserem ao cadáver, porque na essência permanecerá o que a memória virtual arquivou. E para sempre, porque o tempo da destruição tranquilizadora do computador foi em seguida ridicularizado pela criação debochada da "nuvem", uma denominação genial de um recurso cibernético que, mesmo com a dificuldade de entendimento de alguns políticos, já traz, no nome, uma informação implacável: ela não pode ser alcançada.

Permanece no plano "terrestre" a chance última de alegar que o que foi dito foi surrupiado de outro contexto, virou rotina, muitas vezes com cheiro de desespero, especialmente depois que surgiram os habilidosos editores do mal, capazes de mudar a ordem das palavras, dando-lhes a aparência de verdade absoluta.

Se isso não bastasse, ainda assombram os prodígios de inteligência artificial, que criou a possibilidade de ensinar o robô a reproduzir o tom de voz de alguém falecido e, através de depoimentos gravados em vida, ter acesso aos seus pensamentos políticos ou filosóficos, "ressuscitando-o" de tal maneira que consiga "dialogar" com seus velhos conhecidos, sem que esses possam reconhecer o embuste. Em resumo, estamos a caminho da fraude cibernética inalcançável.

Voltando ao italiano do início da crônica, até o xingamento oral exige cuidados, tais como local deserto e olho vivo. Afinal, como saber que não há um gravador ligado ou um desocupado de celular em punho?

Então, só restará a possibilidade restrita de apelar para o foro que, muito adequadamente, é chamado de privilegiado. Pelo menos, enquanto isso não for considerado uma ameaça a algum peculiar estado de direito.

J.J. CAMARGO

22 DE JULHO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

OS SONHOS

Os sonhos, sonhos são - diz um poema, referindo-se a desejos, devaneios e aspirações. Mas há, também, os sonhos noturnos, aqueles em que rememoramos pessoas e situações ou que nos sugerem invenções ou até os números da futura Mega-Sena acumulada?

Noites atrás, sonhei longamente com Samuel Wainer, que me levou ao jornalismo e foi o ícone renovador da imprensa no Brasil. Até o surgimento de Wainer, primeiro com a revista Diretrizes e, mais tarde, com o jornal Última Hora, a imprensa brasileira era inócua, tímida e atrasada, dando mais importância ao que hoje chamamos de "acontecimentos sociais" do que à realidade em si das cidades, do país e, até, do mundo.

Wainer fez no jornalismo brasileiro uma "revolução" no bom sentido do termo. Seu jornal, surgido no Rio de Janeiro, era editado simultaneamente em sete capitais, inclusive Porto Alegre. Em 1962, Samuel Wainer me tirou do RS e me levou a Brasília como colunista político dos seus sete jornais.

Antes, em 1954, ele esteve preso por alguns dias, num episódio que teve traços nazistoides e antissemitas, provocado pela antiga "grande imprensa", que se sentia "prejudicada" pelo êxito dos jornais de Wainer.

Agora, ele reapareceu em meus sonhos, e com tanta presença que, ao me despertar, fiquei a pensar até que ele estava ainda vivo e presente no dia a dia. Só minutos depois, percebi que ele falecera na década final do século passado.

Tratou-se, penso eu, da mostra de que os sonhos do sono, mesmo que não modifiquem o passado, podem nos afiançar desejos melhores para o futuro. E nisto, o correto jornalismo é fundamental, pois os fatos formam opiniões e convicções.

Dias atrás, este jornal noticiou dois dados estarrecedores pela brutalidade que representam: de um lado, a informação de que, em nosso Estado, os acidentes de trânsito provocam uma morte a cada cinco horas.

De outro lado, noticiou que o benemérito Instituto de Cardiologia se vê obrigado a um corte mensal de R$ 16 milhões a R$ 18 milhões para poder zerar o déficit operacional.

Não consigo entender o que é pior e mais brutal - se os acidentes do trânsito que mata, ou o corte dos gastos do Instituto de Cardiologia que salva vidas!

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

22 DE JULHO DE 2023
CONSELHO EDITORIAL

A PRIMEIRA VAIA A GENTE NUNCA ESQUECE

Durante uma recente confraternização com os profissionais da Rádio Gaúcha, para celebrar os 100 meses ininterruptos de liderança absoluta de audiência na Grande Porto Alegre, relembrei um episódio marcante para mim, por ter visto uma crítica ser transformada em uma vaia pessoal. Desde já, esclareço que não sou contra críticas. Pelo contrário, acredito que também cumprem o papel de ajudar pessoas e empresas a evoluírem.

Nos anos 1980, durante uma longa greve do magistério, eu estava numa reunião no Palácio Piratini, quando claramente o então governador Pedro Simon - que respeito e admiro muito - manifestou desconforto com a cobertura jornalística que a Rádio Gaúcha e outros veículos da RBS vinham fazendo do movimento. Na saída, um dos manifestantes gritou no megafone: "Olha lá, o Sirotsky da RBS!". Imediatamente, uma vaia retumbou na Praça da Matriz. De volta à RBS, compartilhei o que tinha ocorrido com o comitê editorial à época, e concluímos que a relevância dos fatos justificava a dimensão da nossa cobertura.

Na mesma linha, quando o Grêmio disputou o Mundial de Clubes, em Tóquio, a RBS fez uma das maiores coberturas esportivas até então. Nem todo mundo gostou: disseram que foi dado grande destaque porque os acionistas da empresa eram torcedores do Grêmio. Pois bem. Quando chegou a vez de o Internacional ir ao Japão disputar o Mundial, houve igualmente uma grande mobilização do esporte da RBS. Uma parte do público considerou aquela cobertura exagerada e de maior proporção do que a realizada para o Grêmio. Todos nós sabemos o significado que Grêmio e Internacional têm para nós, gaúchos...

Durante o seu governo, Jair Bolsonaro recusou pedidos de entrevista dos veículos da RBS. Recentemente, o ex-presidente esteve em Porto Alegre e aceitou conceder uma entrevista para a Rádio Gaúcha. Parte do público criticou a RBS por considerar demasiado espaço para Bolsonaro. Dias depois, o presidente Lula falou ao microfone da Gaúcha. Muitos ouvintes enviaram críticas, insatisfeitos com o grande espaço dado ao atual presidente.

Receber críticas e elogios é natural no nosso dia a dia, e os encaramos como oportunidade de reflexão e aprimoramento. No entanto, também é verdade que, com serenidade e respeito, não devemos nos submeter a pressões apaixonadas, seja de qual público for.

Jamais me esqueci daquela vaia, porque ela é um lembrete de que o compromisso maior do jornalismo profissional é com os fatos e sua relevância, levados ao público com qualidade, independência e pluralidade. É impossível agradar a todo mundo o tempo todo. Afirmo com segurança que manter esse compromisso define a preferência do público, como mostra a sólida audiência da Rádio Gaúcha que celebramos nos últimos dias.


22 DE JULHO DE 2023
CENSO 2022

Onda de migrantes estimula abertura de novos negócios Na Fronteira Oeste, economia provoca redução populacional

A onda de migrantes aquece a economia local. Após a prefeitura criar a "sala do empreendedor" para auxiliar quem deseja abrir um negócio, mais de 300 microempresas individuais (MEIs) foram abertas nos últimos seis anos. Se, quatro anos atrás, o município arrecadava R$ 5 mil ao mês em imposto com MEIs, agora o valor subiu para R$ 100 mil mensais.

- Há oportunidade de trabalho em cidades vizinhas. Quando as grandes empresas crescem, há necessidade de mais funcionários e de empresas terceirizadas que vão contribuir para as grandes companhias. Em Araricá, estão surgindo muitos ateliês. É só passar em Araricá que você vê que há várias empresas chegando e se instalando. Além disso, é uma cidade menor, com aluguel mais em conta e com boas escolas. Isso atrai as pessoas - diz Luiz Paulo Grings, presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Sapiranga, Araricá e Nova Hartz.

A migração pendular - quando uma pessoa mora em uma cidade e trabalha em outra - é comum no Brasil, um país onde o aluguel consome grande parte da renda, observa o geógrafo e demógrafo Ricardo Dagnino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Este é um dos motivos para cidades ao redor de capitais terem crescido no Brasil como um todo. Viver em uma cidade mais barata e trabalhar em outra localidade torna- se opção para muitos.

- É importante pensar que quem emigra geralmente não emigra sozinho. O chefe da família vai e leva as crianças junto. Então o pai que resolve se mudar para Araricá e trabalha em outra cidade acaba fazendo uma pequena viagem até o trabalho, mas sabe que a família estará bem protegida em Araricá - explica Dagnino.

Enquanto Araricá, no Vale do Sinos, foi a cidade que mais cresceu em população entre os censos demográficos de 2010 e 2022, Uruguaiana, na Fronteira Oeste, foi a que mais encolheu: em 12 anos, o número de habitantes caiu 6,6% - de 125.435 moradores para 117.210.

O êxodo não é exclusivo do município: a região sul gaúcha e a Fronteira Oeste como um todo encolheram nos últimos 12 anos. Uruguaiana, aliás, já havia perdido população entre 2000 e 2010 (cerca de mil pessoas a menos entre os dois levantamentos).

Mesmo a criação do campus com cursos da área da saúde da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) em Uruguaiana - incluindo Medicina, Farmácia, Enfermagem e Fisioterapia - não foi capaz de segurar a população.

O isolamento geográfico do município e a menor oferta de empregos explicam a saída de habitantes, diz o geógrafo e demógrafo Ricardo Dagnino, professor da UFRGS. É necessário percorrer grandes distâncias até chegar a outras cidades grandes da região - cerca de duas horas de carro até São Borja ou Alegrete, por exemplo.

- Se, por um lado, Araricá está entre Porto Alegre, Serra e Litoral, a cidade de Uruguaiana está isolada na Fronteira Oeste, que perde população há décadas. É uma região de agricultura de latifúndio, de pecuária e de mecanização que não demanda tanta mão de obra como o Vale do Sinos, onde há fábricas que demandam muitos trabalhadores. Se não tivesse a Unipampa, será que não seria pior (o êxodo)? O lugar oferece faculdade e atrai pessoas. Mas, depois da faculdade, o que a política pública oferece para permanecerem ali? Se não tiver emprego, a pessoa vai atrás em outro lugar - diz o demógrafo.

Potencial

Presidente da Associação Comercial e Industrial de Uruguaiana, Luís Kesller reconhece que faltam empregos para jovens no município, mas diz que há potencial a ser explorado.

- Esse fenômeno (de perda populacional) é de toda a Metade Sul. O agro é forte aqui e não emprega muito com as novas tecnologias. Faltam incentivos para instalação de indústrias de maior valor agregado. Estamos trabalhando na duplicação da BR-290. Se finalizar, poderia favorecer a geração de empregos. Uruguaiana é uma das cidades com maior cruzamento de estrangeiros, o que poderia ser aproveitado para turismo e também feiras ou eventos culturais. Isso tudo gera emprego. Tem oportunidades, só não estamos ainda conseguindo acertar a mão.

A reportagem tentou entrevistar o prefeito de Uruguaiana, Ronnie Mello (PP), desde a terça-feira, mas ele não quis se manifestar. Em entrevista a ZH no início do mês, o prefeito discordou dos resultados do IBGE e afirmou que não houve redução tão grande da população. Ao mesmo tempo, reconheceu o fenômeno de migração em busca de melhores oportunidades de emprego em outras cidades.

- Pessoas saíram da região da fronteira para buscar oportunidades. Temos de fazer o dever de casa e corrigir, oferecer condições de inserção no mercado de trabalho. É o que estamos fazendo - disse Mello.

A redução de habitantes detectada pelo IBGE implicará menor repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Por isso, a prefeitura informou que agentes comunitários estão compilando informações para checar as estatísticas do instituto.

"Transparência"

Sobre suspeitas acerca da formulação do Censo, o IBGE emitiu nota na qual afirma que a pesquisa é "transparente" e que seguiu "rigorosamente recomendações, parâmetros e protocolos para censos de população, definidos pela Divisão de Estatística das Nações Unidas e de acordo com os Princípios Fundamentais das Estatísticas Oficiais".

O IBGE também acrescenta que introduziu inovações tecnológicas e que "do alto de sua reputação, está entregando à sociedade um Censo com qualidade e confiabilidade indiscutíveis. Sem dúvida, trata-se do Censo mais tecnológico e com maior monitoramento e análise em tempo real da história dos Censos, realizados há 150 anos no Brasil".


22 DE JULHO DE 2023
CENTRO HISTÓRICO

Descartada a implosão do Esqueletão

Após três meses, a empresa STE apresentou à prefeitura de Porto Alegre o relatório final relativo à demolição do Esqueletão. O documento tem mais de 500 páginas e traça os cenários possíveis para desmonte da estrutura localizada no Centro Histórico.

A Secretaria de Planejamento e Assuntos Estratégicos (Smpae) não antecipa quais propostas de demolição do imóvel de 19 andares foram sugeridas pela empresa. Mas a reportagem descobriu que a implosão foi totalmente descartada. Havia risco de que o uso de dinamites pudesse impactar prédios vizinhos.

O estudo traz informações sobre o impacto de cada uma das alternativas sugeridas, o prazo de demolição para todas elas, a possibilidade de reutilização do material demolido e um plano de descarte dos materiais.

Técnicos da secretaria já deram início à análise do material. A prefeitura pretende anunciar em agosto qual proposta será adotada. Concluída essa etapa, uma nova contratação será realizada para definir quem irá fazer a demolição.

- Não se trata de uma área isolada, longe de outras edificações. O Esqueletão está encravado em meio a outros prédios. O modelo a ser escolhido precisa garantir a segurança dos trabalhadores envolvidos na demolição, da comunidade do bairro e daqueles que transitam no entorno - destaca o titular da Smpae, Cezar Schirmer.

Custo

Uma avaliação prévia apontou que a demolição irá custar aproximadamente R$ 3 milhões, quase o mesmo valor gasto pelo governo gaúcho na destruição dos escombros do prédio de 14 andares da Secretaria Estadual da Segurança.

A Justiça autorizou a demolição do imóvel em 18 de abril. Um laudo do Laboratório de Ensaios e Modelos Estruturais (Leme), da UFRGS, apontou que, se nada for feito, o Esqueletão vai cair.

- A demolição do Esqueletão não apenas afasta os riscos à coletividade, como viabiliza a requalificação urbana - destaca a procuradora Eleonora Serralta.

Segundo a prefeitura, os mais de 50 proprietários do prédio têm cerca de R$ 3 milhões em dívidas de IPTU. E, em setembro de 2021, a Secretaria Municipal da Fazenda (SMF) avaliou o imóvel, que tem área superior a 13 mil metros quadrados, em cerca R$ 3,4 milhões.

A estrutura está inacabada desde a década de 1950. Em 2018, um laudo preliminar da prefeitura apontou que o imóvel corria risco crítico de desabamento. Na ocasião, o Ministério Público chegou a pedir a sua demolição.

O Esqueletão também já havia sido interditado pela prefeitura em pelo menos duas ocasiões, nos anos de 1988 e 1990. Também houve uma interdição judicial em 2019. Em 2021, os últimos moradores deixaram o local.

JOCIMAR FARINA


22 DE JULHO DE 2023
POLÍTICA +

Novo contesta a compra de Audi

Um dia após a coluna informar sobre a compra de cinco automóveis por R$ 1,79 milhão pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Rio Grande do Sul, o deputado estadual Felipe Camozzato (Novo) acionou o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado pedindo a suspensão ou a anulação da aquisição dos carros. As representações foram encaminhadas às instituições na sexta-feira.

Como mostrou a coluna, o TJ-RS comprou cinco automóveis Audi, modelo A4 S Line, com valor de R$ 358 mil a unidade.

Camozzatto alega nas representações que a Lei de Licitações "veda expressamente a aquisição de bens de luxo pelos poderes públicos".

TJ-RS dá novas explicações

Diante da polêmica sobre a compra de cinco automóveis Audi no valor total de R$ 1,79 milhão, o Tribunal de Justiça divulgou no final da tarde de sexta-feira uma nota de esclarecimento.

A nota diz que "a compra dos automóveis Audi, modelo A4 S Line, híbrido, se deu após licitação pública, com a participação de outras empresas, vencendo o menor preço". Não havia no edital a exigência de que os carros fossem Audi.

O desembargador Antônio Vinicius Amaro da Silveira explicou à coluna que outras empresas se candidataram, mas ofereceram preços maiores ou o veículo não se enquadrava nas exigências do edital.

Dinheiro da venda da Corsan

No processo de privatização da Corsan, o Estado cedeu ações para os municípios que aceitaram assinar os termos aditivos para extensão do prazo do contrato. Dos 307 com contratos válidos, 76 aceitaram a proposta. Desses, 50 optaram por vender suas ações em conjunto com o Estado no leilão vencido pela Aegea. Nesta sexta-feira, receberam o dinheiro da venda das ações.

Em solenidade no Centro Administrativo foram repassados R$ 192,7 milhões aos 50 municípios que decidiram vender as ações junto com as do governo do Estado.

Os valores mais expressivos ficaram com os municípios de Canoas (R$ 25,7 milhões), Santa Maria (R$ 20,1 milhões), Passo Fundo (R$ 15,2 milhões), Rio Grande (R$ 13 milhões), Gravataí (R$ 14 milhões), Alvorada (R$ 11 milhões) e Viamão (R$ 11 milhões).

Os outros 26 municípios que decidiram permanecer como acionistas poderão alienar as ações (equivalentes a R$ 20,9 milhões) em Oferta Pública de Aquisição.

O governador Eduardo Leite repetiu que a decisão de privatizar partiu da necessidade de atender ao novo marco regulatório que prevê a universalização do saneamento até 2033, objetivo incompatível com a capacidade da companhia enquanto era operada pelo Estado em razão da falta de recursos e das travas burocráticas. Com o saneamento público, o RS alcançou 20% de esgotamento sanitário.

ROSANE DE OLIVEIRA

22 DE JULHO DE 2023
MARCELO RECH

Teia de erros

Embora em graus distintos de gravidade, os erros a que se assiste no caso da agressão à família do ministro Alexandre de Moraes em Roma são o retrato de um Brasil que escreve uma história já feia por linhas tortas. Vamos a eles:

1) A viagem - A rádio Band News revelou que o fórum do qual o ministro Moraes participou na Itália foi organizado por uma faculdade de Direito pertencente ao Grupo José Alves, de Goiás. O grupo é dono da Vitamedic, que ganhou uma fortuna com a ivermectina e cujo diretor-executivo chegou a depor na CPI da Covid. O grupo e outros foram condenados pela Justiça Federal a pagar R$ 55 milhões por "danos morais coletivos à saúde" por promover fake news sobre a pandemia. Nem o grupo e nem o STF informaram quem pagou as despesas de Moraes e família. Se o ministro sabia quem estava por trás do fórum, foi uma temeridade. Se não sabia, foi ingenuidade. O STF precisa urgentemente de um novo código de conduta para acabar com essas sombras à reputação da Corte.

2) A exposição - O ministro Alexandre de Moraes é um alvo evidente, e, por isso, autoridades brasileiras deveriam ter se coordenado com seus pares italianos para garantir a integridade de uma pessoa pública que está sob risco constante. Astros dos esportes e da música, bem como ex-presidentes e outros potenciais alvos, entram e saem de aviões virtualmente anônimos. Faltou prevenção, portanto.

3) A agressão - A violência contra o ministro e familiares evidencia que conta bancária não é sinônimo de educação. A estupidez de atacar personalidades em restaurantes e aeroportos é incentivada por fanáticos, mas não é exclusividade de extremistas de direita - a jornalista Miriam Leitão, por exemplo, já foi hostilizada em locais públicos por radicais dos dois polos ideológicos. Punir, de acordo com as leis, quem comete crime é o caminho para inibir os fanáticos e restabelecer um mínimo de civilidade nas relações sociais.

4) Busca e apreensão - O Supremo Tribunal Federal autorizou a Polícia Federal a vasculhar dois endereços dos acusados em Santa Barbara d?Oeste. Por mais execrável que tenha sido o episódio no aeroporto de Roma, a PF não pode servir de guarda pretoriana de quem quer seja e revirar casas de suspeitos sem que fique evidente a relação com o caso. Isso é coisa da Rússia de Putin.

5)Lula - Contanto que valha para todo o espectro ideológico, é louvável que o presidente se solidarize com pessoas agredidas. Mas chamar os acusados de "animais selvagens" é uma classificação típica de extremistas, além de politicamente incorreto, porque carimba a fauna nativa com pecha negativa.

Em resumo, mais um suco não tão puro de Brasil.

MARCELO RECH

22 DE JULHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Banho de floresta

Há quatro anos, realizei um antigo sonho. Comprei, com a família, um sítio no interior do Rio Grande do Sul, no alto de uma escarpa, em uma área antes usada para plantar tabaco e extrair pedra grês. Foi a melhor decisão que tomei, em especial, pelo que viria depois.

Os vizinhos ficaram surpresos quando souberam que, ao contrário do costume local, não pretendíamos erguer uma casa à beira da estrada nem botar o mato abaixo. Optamos por construir um quiosque ao pé do morro, o mais longe possível da civilização, em meio às árvores. Exceto por um trecho destinado a uma pequena plantação, deixamos a natureza agir e fazer o seu trabalho. Foi a segunda melhor decisão, em especial, você já sabe, pelo que viria depois.

Costumo dizer, olhando para trás, que a floresta regenerada (na foto que ilustra esta página) me salvou da pandemia. Nos momentos mais difíceis, sempre que possível, foi lá que me refugiei. O ar puro, as plantas ocupando espaços e retomando seu curso natural e o som dos bichos - pássaros e macacos - funcionaram como ansiolíticos. É assim até hoje. Exagero?

Pode até ser, mas, no Japão, esse papo é coisa séria. Do outro lado do planeta, a contemplação do verde é uma terapia introduzida no sistema de saúde desde a década de 1980 e tem até nome: "shinrin-yoku", traduzido como "banho de floresta". Fiquei sabendo disso ao ler uma entrevista na Folha de S.Paulo, com o psicólogo Marco Aurélio Carvalho, diretor do Instituto Brasileiro de Ecopsicologia.

O "banho" nada mais é do que caminhar em meio à natureza e contemplá-la. De preferência, longe do telefone celular.

Descobri que, em 2018, o New York Times, um dos mais respeitados jornais do mundo, já havia tratado do tema, com um título bem sugestivo: "Take a Walk in the Woods. Doctor?s Orders". Isso mesmo: ouça o médico e dê uma voltinha na floresta. Não precisa ser a amazônica, que fique claro.

Tudo isso, desconfio, nossos antepassados já sabiam, e não é necessário voltar no tempo para tirar a prova. Lembro de uma madrinha que abraçava a árvore na frente de casa. A gente achava graça, mas ela é que estava certa. Se é para ser taxado de louco, que seja abraçando plantas no quintal.

No fundo, isso deveria servir para darmos mais atenção às áreas verdes, inclusive nas nossas metrópoles. É por isso que a recente discussão envolvendo o corte de árvores no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, erguido sobre um aterro, em Porto Alegre, é boa para a cidade.

Fora os excessos e a contaminação política (a eleição municipal vem aí), o assunto está pautando entrevistas e reportagens e, no mínimo, fazendo com que as pessoas pensem sobre o tema, quase sempre secundário no cotidiano da urbe - em geral, estamos mais preocupados com o trânsito do que com o meio ambiente, o que é uma lástima.

Nunca é demais lembrar: nem todo mundo tem a sorte de poder "fugir" para o sítio.

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 21 de julho de 2023


21 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Uma composição tardia

No meu tempo de escola, redação era composição. O nome bem mais bonito trazia um cativante mistério. Eu me sentia um músico dos vocábulos. Na primeira série, acreditava que papel almaço correspondia a papel "amasso". Eu me confundia na pronúncia. Demorei a ver a palavra escrita, na etiqueta da tabacaria. Fui analfabeto com a sua grafia até a 3ª série.

Não dissertávamos de letra livre. Todos escreviam emendado. Papel solteiro não tinha vez em cima da classe. As folhas de almaço vinham em duplas, casadas, sem a comodidade do caderno espiral para arrancar uma delas e recomeçar a jornada.

Não existia chance de rascunho, privilegiando-se a dobradinha entre lápis e borracha. Depois, passávamos a limpo o texto com caneta. Não se podia dispersar a caligrafia para fora das linhas. Uma das regras sagradas consistia em respeitar as cercas de cima e de baixo. Já sofria de nervosismo ao imaginar a professora debruçada de lupa sobre a minha frase, para ver se restava um vazio arquitetônico entre os andares.

Testávamos a pontaria da letra. Mirávamos o alvo da ortografia. Empregávamos um caderno de caligrafia à parte para exaustivos treinos. Ocupávamos uma das linhas com maiúscula e a outra com minúscula, de modo alternado. Garranchos não recebiam piedade.

Havia um artesanato com as palavras, numa exclusiva dedicação manual. Com fôrmas do alfabeto, montávamos os títulos em cartazes para as apresentações em grupo. A cartela com molde se chamava gabarito. Preenchíamos o fundo das letras para a leitura do material ao longe e o deixávamos afixado na lousa. Encontrávamo-nos na casa de um colega no contraturno da escola para ensaiar o discurso e efetivar a amadora serigrafia na cartolina com canetinha.

Existia também o normógrafo, uma régua com caracteres vazados para tingimento com nanquim. Facilitava sombreamentos e efeitos especiais. Nos trabalhos individuais, o professor encomendava a composição a partir de temas universais sob o prisma da primeira pessoa: minha família, minha cidade, meu Estado, meu país, minha viagem inesquecível, meu animal preferido.

Tornava-se mandamento imperioso cumprir o tamanho exato da tarefa. Nem mais, nem menos. O rigor influenciava a nota. Exigiam-se 25 linhas. Não atingir a meta nos ocasionava um temido e inexplicável zero, não importando a qualidade do conteúdo e o quanto fora escrito. Às vezes, na falta de ideias, engordava a letra, espichava-a num efeito sanfona, desesperado para enganar os limites.

Ainda hoje, antes de entrar num debate, para descobrir se realmente possuo conhecimento de causa sobre uma determinada polêmica, eu me pergunto: dará 25 linhas?

CARPINEJAR

21 DE JULHO DE 2023
ARTIGOS

FILHAS DE CRIAÇÃO, OBJETOS DE EXPLORAÇÃO

Segundo descrição do Vade Mecum, filho de criação é aquele que é criado por alguém com os mesmos desvelos e carinhos com que se cria um filho, porém sem adoção e sem que se registre qualquer ato que o possa ter como legítimo.

No Brasil, infelizmente, em especial, quando se tratava de meninas, "filha de criação", na maioria dos casos, seria um termo empregado para descrever a situação de uma menina que era levada para a casa de determinada família não para ser cuidada ou incluída como filha afetiva, mas para prestar serviços domésticos, sendo repassada, como se fosse um utensílio doméstico, a outros membros da família, de geração em geração.

Assim denominada, não se evidenciava uma prática de exploração de um ser humano que, em uma situação acobertada pela condição de "pessoa da família", nunca teve acesso à educação, vida social, salário, férias ou qualquer benefício devido a qualquer cidadão ou cidadã. Acomodada em um quartinho minúsculo, muitas vezes do lado de fora da casa, ou em um colchão no chão, não se sentava à mesa com a família e não se reconhecia nem era reconhecida como sujeita de direitos.

Em consequência dessa prática, nos deparamos hoje com muitas dessas filhas de criação envelhecidas, prejudicadas pelos árduos anos de trabalho e pela falta de adequado acesso à saúde, ainda exploradas, sem que as famílias que as "acolheram" possam reconhecer as limitações impostas pelos anos. Não raro, encontram-se "filhas ou irmãs de criação", em idade avançada, cuidando de seus "familiares de criação", por menos que tenham condições físicas ou emocionais para tanto.

Importante que possamos dar o verdadeiro nome a essa prática: "trabalho doméstico análogo à escravidão contemporânea".

Para essas famílias, essas mulheres que foram desprovidas de sua condição humana não têm nenhum direito, mas perante a Constituição, elas têm todos os direitos, inclusive o de serem protegidas, ressarcidas financeiramente (pois de suas vidas perdidas jamais poderão ser) e libertadas dessa situação, ainda que tardiamente.

Denúncias devem ser encaminhadas ao canal Disque 100.

VITÓRIA RASKIN


21 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

GUERRA E PREÇO DOS ALIMENTOS

Uma das boas notícias globais dos últimos meses é a redução dos preços das commodities agrícolas, após os picos observados no início da guerra no Leste Europeu. Com o começo do conflito, produtos como trigo e milho atingiram cotações que não eram vistas há mais de uma década pelo fato de a Ucrânia estar entre os principais produtores e exportadores globais dos dois grãos. 

Além de colheitas menores, temia-se a impossibilidade de escoamento devido ao controle russo dos portos no Mar Negro. Um acordo mediado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Turquia, no entanto, destravou os embarques e, também devido a outros fatores do mercado internacional, as cotações recuaram significativamente nos últimos meses.

Foi uma colaboração importante para o processo de desinflação global. Os preços do trigo na bolsa de Chicago caíram pela metade em relação a negócios registrados logo que a Rússia invadiu o país vizinho. Os russos, é preciso lembrar, são os maiores exportadores mundiais. No caso do milho, a desvalorização foi de cerca de 40%.

Esse alívio, agora, está em risco. Avaliações mais definitivas são prematuras, mas o anúncio do Kremlin no início da semana de que não renovará o acordo tem o potencial de levar a uma nova valorização de alguns grãos por dificultar as exportações da Ucrânia, importante produtora também de cevada e girassol. Desde então, as cotações do trigo subiram aproximadamente 10% e as do milho, em torno de 15%.

Observadores do mercado não esperam uma disparada semelhante à notada na largada da guerra. Mesmo assim, não se descarta que, caso o impasse persista, os preços subam de forma mais firme. Isso prejudicaria o processo de acomodação geral dos preços, inclusive no Brasil, onde os alimentos - após um período de forte alta para os consumidores - têm sido um dos principais fatores a suavizar os índices inflacionários. É uma das razões que devem permitir o início do ciclo do corte de juro no país pelo Banco Central, esperado para o início do próximo mês.

Os grãos em questão têm várias finalidades. O trigo é o ingrediente principal de pães, massas e biscoitos. O milho é usado para óleos e rações. Sua alta pode voltar a pressionar os custos das cadeias de proteína animal, hoje também penalizadas pela retração da demanda doméstica e internacional, com reflexos nos preços pagos aos criadores. É um contexto que tem levado a uma crise em setores como a suinocultura, sustento de milhares de produtores do Estado.

Os agricultores brasileiros, por outro lado, podem ser pontualmente beneficiados. Os gaúchos em especial no caso do trigo, já que o Rio Grande do Sul lidera a produção nacional desse cereal.

No balanço entre ganhos e perdas, há mais pontos negativos. É preciso levar em conta ainda que uma escalada dos preços de commodities agrícolas eleva a insegurança alimentar no mundo, notadamente nos países mais pobres. O ideal, por conseguinte, é que Moscou e Kiev, com o auxílio de outras nações e organismos internacionais, cheguem a um novo acordo que restabeleça a previsibilidade no escoamento dos grãos ucranianos.


TJ-RS compra carros de R$ 358 mil

Está no Diário Oficial: o Tribunal de Justiça comprou cinco automóveis Audi, modelo A4 S Line, sedan executivo, por R$ 1,79 milhão, o que significa R$ 358 mil a unidade. Os veículos, adquiridos da empresa Germany Comércio de Veículos e Peças Ltda., deverão ser entregues em até 180 dias a contar da solução formal do contratante.

A coluna questionou o TJ-RS sobre o porquê da escolha do Audi, um carro bem mais caro do que similares que nada devem em conforto e podem ser adquiridos na versão híbrida.

Responsável pela Comunicação, o desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira consultou a área técnica e informou que os veículos serão utilizados para substituir carros usados pela cúpula do tribunal, com mais de oito anos de uso.

Por que o Audi? O TJ diz que é preciso garantir segurança, conforto e economia às autoridades e servidores nos deslocamentos necessários.

A direção do Tribunal de Justiça não deixa claro por que foram escolhidos carros da marca Audi, que estão entre os mais caros da categoria, para substituir os veículos mais antigos, quatro Kia Kadenza e um Ford Fusion.

Falta de transparência

O governo Leite recusou-se a repassar dados sobre os empréstimos consignados contratados pelos servidores públicos estaduais, solicitados via Lei de Acesso à Informação.

Após pedir prorrogação de prazo para responder aos questionamentos enviados, a Secretaria da Fazenda alegou que não atenderia ao pedido, pois seriam necessários "trabalhos adicionais de análise, de interpretação, de consolidação de dados e de informações ainda não sistematizadas".

A reportagem solicitou informações sobre a quantidade de servidores que contrataram consignados, o desconto médio no contracheque e o número de funcionários que descontam mais de 30% do salário para pagar os empréstimos, índice máximo permitido por lei.

Colaborou Paulo Egídio

ROSANE DE OLIVEIRA 

21 DE JULHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Martha Medeiros conversa na sala

Vem aí mais um baita livro da Martha Medeiros (foto). Conversa na Sala (L&PM Editores, 256 páginas) é isso mesmo o que você está pensando: um convite a um bate-papo tête-à-tête (como nos velhos tempos), com a leveza que se tornou marca da escritora gaúcha.

Depois de um hiato de cinco anos, Martha volta a lançar uma coletânea de crônicas. São 122 textos publicados em ZH entre 2018 e abril de 2023, sobre temas da atualidade.

- Tem uma maturidade maior ali, com uma grande abrangência de assuntos. Não deixo de falar de amores, como sempre fiz, mas trato, também, da relação com a tecnologia, do meio ambiente, da política, da pandemia, da solidão e da arte. Aconteceu muita coisa nesses cinco anos - brinca a cronista.

Em fase de pré-venda na internet (em www.lpm.com.br), o livro estará nas livrarias a partir de 3 de agosto.

O sol brilha para todos

Eva Sopher, com a sensibilidade que tinha, percebeu logo: o Multipalco do Theatro São Pedro era o lugar certo para ajudar uma ideia que nasceu pequena a crescer, ganhar força e salvar - sim, salvar é o termo - meninos e meninas do mundo das drogas e do crime.

Isso foi em 2012. De lá para cá, contando desde sua fundação, a ONG Sol Maior já mudou a vida de 5 mil crianças e adolescentes e, agora, o trabalho está sendo ampliado.

Faço questão de trazer exemplos como esse à coluna para mostrar que é possível, sim, fazer algo pelo próximo, mesmo quando parece pouco e ainda que o início seja difícil.

Quando a psiquiatra Maria Teresa Campos e o engenheiro César Franarin decidiram criar o projeto, a ONG começou recebendo 50 alunos por ano. A ideia era atrair a garotada para oficinas de dança, canto e música (foto) de um jeito leve e divertido, e, por meio da arte, ensinar lições de ética e cidadania. Tudo isso, claro, no turno inverso ao da escola e exigindo dedicação aos estudos.

Veja bem: sem dinheiro público, com o apoio de empresas parceiras, aqueles 50 lá do início passaram a 100, 200, 300. Em 2022, eram 450 e, hoje, o número chega a 530 atendidos por ano, não só no Multipalco, mas também na periferia de Porto Alegre - os professores vão até os alunos e suas famílias.

E os resultados? São impressionantes. Índice de evasão zero, 95% de frequência, 98,5% de aprovação na escola e 94% dos egressos - que cresceram e foram ganhar a vida - empregados ou em estágio profissional.

- Nós nunca imaginamos que poderíamos chegar tão longe - diz Franarin.

Pois chegaram.

JULIANA BUBLITZ

quinta-feira, 20 de julho de 2023


20 DE JULHO DE 2023
NÍLSON SOUZA

Meu tio Coruja

Ele era irmão do meu trisavô e foi o principal cronista da Porto Alegre da segunda metade do século 19. Descobri em recente pesquisa genealógica que Antônio Álvares Pereira Coruja, autor de Antigualhas e pai adotivo do Comendador Coruja, que dá nome a uma rua conhecida do bairro Floresta, foi um antepassado ilustre que amou muito esta cidade dos nossos andares lusitanos - e demonstrou esse amor nos seus escritos, especialmente nos registros feitos durante seu exílio no Rio de Janeiro.

Sua história é por demais conhecida: nasceu pobre e morreu paupérrimo, mas teve uma vida rica de aprendizados e ensinamentos, foi aluno aplicado, professor produtivo, fundou escolas e participou intensamente da vida cultural da Corte, depois de uma breve e acidentada carreira política. Deputado provincial, ficou do lado dos farroupilhas e acabou preso pelas tropas imperiais. Saiu de Porto Alegre por causa disso, mas Porto Alegre nunca saiu dele.

Escreveu muito, de livros didáticos a crônicas saudosas sobre sua cidade natal. Passear com ele pelas ruas do Centro Histórico é uma delícia: a Rua da Praia, a mais antiga da Capital, já foi Rua da Graça, mas, segundo os registros do tiozão, com esse nome o povo não engraçou; por ele fica-se sabendo que na Rua Nova, que hoje conhecemos por Andrade Neves, moravam o sapateiro Felippe Mãozinha e o Miguel Barbeiro, e que possivelmente frequentavam o Bilhar do Bexiga e o botequim do Pinto Fanha, lá situados; também conta que na Rua da Ponte (Riachuelo) entre o Beco do Fanha (Caldas Júnior) e a Rua Clara (João Manoel) ficava a escola do Amansa, apelido abreviado do famoso Amansa Burros, um professor português chamado Antônio D?Ávila que alfabetizava na base da palmatória.

Pereira Coruja chegou a estudar com ele, mas foi em outra aula, ministrada por um tal Padre Tomé, que ele recebeu o apelido da ave preferida da deusa da sabedoria. Mais tarde, incorporou o bullying ao sobrenome, passou a usar um desenho do pássaro ao lado da assinatura e até fundou uma escola chamada Liceu de Minerva.

Foi célebre esse meu parente. Conviveu com o imperador e até recebeu condecorações por seus trabalhos com a educação. Porém, depois da morte da mulher e do filho adotivo, entrou em decadência e morreu na miséria, num quarto emprestado por um ex-aluno. Na minha família, o nome Coruja desapareceu quando minha avó Rita casou com um Souza - coincidentemente o mesmo sobrenome do pai do professor Coruja, meu tetravô Pedro José Álvares de Souza.

NÍLSON SOUZA

20 DE JULHO DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Turismo com vinho e azeite de oliva

Aproveitando os 60 hectares onde produz uvas, a Vinícola Casacorba, de Nova Roma do Sul, construiu um complexo turístico. O diretor Marcos Scatolin conta que o investimento chegou a R$ 5 milhões e a obra levou mais de dois anos. Um dos destaques do Complexo Enoturístico e Gastronômico Casacorba é o lago com árvores nativas no entorno e que fica na frente dos parreirais. Além das sete cabanas, há salão de eventos, bar, heliponto e restaurante para 60 pessoas. Também foi construída uma capela de pedra, que custou R$ 180 mil.

- Instalamos placas solares e toda a água usada é captada da chuva - lista Scatolin como cuidados de sustentabilidade.

No passeio, visitantes conhecem a fabricação de cada produto feito na vinícola criada em 1999, de vinho a cachaça, passando por espumante, suco e até azeite de oliva. A hospedagem vai de R$ 1.550 a R$ 3,6 mil, incluindo degustação e café da manhã. O menu é do chef Rodrigo Bellora. Nova Roma do Sul tem 3,5 mil habitantes e fica a 150 quilômetros da Capital.

Gigante asiática se espalha pelo RS

Em meio a um encolhimento do varejo brasileiro tradicional, a Shopee espalha centros logísticos no Rio Grande do Sul. Em informação exclusiva à coluna, a gigante do comércio eletrônico, de Singapura, contou que terá novas unidades em Caxias do Sul e Gravataí, que se juntam às demais operações recentes, em Santa Maria, Porto Alegre e outra em Gravataí. 

Ou seja, já são cinco. Investimento, número de empregos e locais, porém, não são divulgados. Na Serra, sabe-se que será onde ficava o centro de distribuição do Magazine Luiza (mais conhecido agora como Magalu). O objetivo é ter capilaridade e entrega mais rápida aos clientes gaúchos da plataforma. Os novos espaços funcionam no modelo de última milha, levando o produto do centro de distribuição ao endereço do consumidor.

Ainda conforme a Shopee, o Rio Grande do Sul é o segundo Estado do Sul com mais lojistas registrados no marketplace. A empresa fica com 16 "hubs" na região e um centro de distribuição maior em Campina Grande do Sul, no Paraná. As outras operações ficam em Estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. As oito unidades desse tipo movimentam, juntas, mais de 1,5 milhão de pacotes diariamente. Lançada em 2015, a Shopee iniciou suas operações no Brasil em 2019.

GIANE GUERRA


20 DE JULHO DE 2023
+ ECONOMIA

Gaúcha cresce na onda das Unimeds

Especializada no segmento de planos de saúde, a Smark tem se consolidado como principal parceira das cooperativas Unimed no Brasil para gestão comercial. Pioneira em sistemas de gestão de vendas, a empresa de Porto Alegre já é responsável pela implementação de CRMs (Customer Relationship Management) em 53 das 280 unidades da Unimed no país.

No primeiro semestre, o crescimento da carteira de clientes da empresa foi de 76% apenas entre Unimeds. Como reforça o CEO da Smark, Leandro Ceccato, o número de unidades que utilizam a plataforma já representa cerca de 20% do total das regionais espalhadas pelo Brasil, o que faz o administrador projetar maior expansão nos próximos meses.

- Em um semestre, conseguimos chegar à nossa meta anual. O próximo passo é alcançar 30% desse mercado até o final do ano - prospecta o gestor.

é a nova projeção do Ministério da Fazenda para o crescimento do PIB nacional deste ano. Antes, a estimativa do órgão para 2023 era de 1,91%. A revisão foi oficializada ontem, depois que o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou queda de 2% em maio ante abril.

MARTA SFREDO

20 DE JULHO DE 2023
POLÍTICA +

Tribunal de Contas deverá aprovar a venda da Corsan

O placar de quatro a dois é indicativo da posição final dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado em relação à privatização da Corsan. Era certo que três conselheiros referendariam a decisão do presidente da Corte, Alexandre Postal, que derrubou duas medidas cautelares da conselheira Ana Cristina Moraes, relatora do processo, e liberou a assinatura do contrato de venda da companhia.

Os três votos dados como certos desde o início são de políticos, todos ex-deputados como Postal, que não votou porque estava em julgamento uma decisão sua. São eles: Iradir Pietroski, Marco Peixoto e Edson Brum. A dúvida recaía sobre Renato Azeredo, que é técnico e foi o autor do pedido de vista que, na terça-feira, suspendeu o julgamento na Primeira Câmara do TCE. Azeredo surpreendeu quem não conhecia sua opinião e votou com os políticos, legitimando as duas decisões de Postal.

O voto de Azeredo sinalizou como ele deve se posicionar na apreciação do relatório da conselheira Ana Moraes, quando o assunto voltar à pauta. Como nessa câmara são apenas três conselheiros, seu voto não será decisivo: o placar está dois a zero pela anulação do leilão. Antes da suspensão da sessão, o conselheiro Estilac Xavier disse que acompanhava a posição da relatora, por entender que a Corsan foi vendida por um preço menor do que valia.

Como a Procuradoria-Geral do Estado vai recorrer ao pleno, pode-se ter certeza de que o resultado será favorável ao governo e à Aegea, que comprou e pagou R$ 4,1 bilhões pela Corsan e no dia seguinte assumiu a gestão. O placar provável é de cinco a dois a favor da privatização.

A sessão do pleno foi uma das mais tensas porque os ânimos estão acirrados. Pela manhã, enquanto vistoriava as obras de recuperação do Instituto de Educação, o governador Eduardo Leite foi questionado sobre o placar do dia anterior na sessão do TCE e subiu o tom em relação às críticas que o governo vem recebendo. Disse que o procurador-geral do Ministério Público de Contas, Geraldo da Camino, e os conselheiros Ana Moraes e Estilac Xavier provavelmente não moram em uma rua com esgoto a céu aberto e, por isso, ficam procurando "pelo em ovo" em um processo feito dentro das regras.

Estilac deu a resposta em plena sessão. Disse que tem mais chão "caminhando sobre os problemas do Estado do que o governador".

ROSANE DE OLIVEIRA

20 DE JULHO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Nova ciclovia no Marinha

O Parque Marinha do Brasil, objeto de parceria público-privada a ser firmada pela prefeitura de Porto Alegre nos próximos meses, recebe, desde o começo de julho, as obras de uma ciclovia e de uma calçada com paisagismo, entre as quadras esportivas antigas e a sede operacional da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer. O trecho atualmente é um caminho de chão batido que liga a Avenida Borges de Medeiros à orla do Guaíba.

As melhorias são um investimento do Shopping Praia de Belas em contrapartida pela última ampliação feita. A ideia é que pedestres e ciclistas que vêm da Rua Cecília Meireles, no bairro Praia de Belas, desloquem-se sobre um pavimento melhor do que o chão de terra no parque. A estrutura deve ficar pronta em outubro, de acordo com projeções do Grupo Iguatemi, gestor do Praia de Belas.

- Já existia um caminho intuitivo que as pessoas usavam ali, sem interação, sem iluminação, sem estrutura, por cima de grama e cascalho. Nossa ideia foi transformá-lo em um equipamento essencial para que o bairro pudesse fazer essa travessia com mais conforto e aproveitar melhor a magnífica orla do Guaíba - comentou o diretor de negócios do Grupo Iguatemi para a Região Sul, Marcelo Borba.

Investimento

A construtora contratada pelo Grupo Iguatemi para executar o trabalho no Marinha é a Infraterra Urbanização. Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), a empresa teria feito um investimento maior do que o exigido por lei pela compensação financeira.

Tal processo não tem nenhuma relação com as melhorias previstas no plano de concessão oferecido pela prefeitura a investidores interessados em assumir o Marinha e o trecho 3 da orla do Guaíba. Esse plano estabelece que o vencedor da licitação ficará responsável, por 30 anos, pelas duas áreas. Ambas seguirão 100% públicas, sem cercamento e com funcionamento 24 horas.

O investimento nesse prazo deve ser de R$ 32 milhões, abrangendo pontos como a revitalização do complexo esportivo do Marinha (pista de patinação, quadras poliesportivas de vôlei de areia, de tênis e campo de futebol), oferta de banheiros públicos de qualidade e ampliação de vigilância.

ROGER SILVA PAULO GERMANO

20 DE JULHO DE 2023
TULIO MILMAN

Marcas, transparência e lealdade

Desnecessário revelar nomes. Minha intenção é refletir sobre a importância da relação de confiança entre as marcas e seus consumidores. Faz um ano e pouco, troquei de carro. Costumo ficar com o mesmo por muito tempo. Entendo quem curte motores e carrocerias, mas não atribuo valor demais a esse tipo de bem. Penso na segurança e na relação custo-benefício. Tanto faz se o para-choque é pintado ou se o farol é redondo ou quadrado, desde que funcione.

Percorri algumas concessionárias até encontrar um modelo na faixa de preço e com os itens mínimos que eu buscava. Tudo lindo. Foi então - e eu nem desconfiava - que começou a pegadinha. "As primeiras revisões são grátis", me avisaram. Ótimo, pensei. Na primeira, foi mesmo. Agendamento online, prazos cumpridos, serviço ótimo. Na segunda, entendi o truque - não da ótima revenda, mas da fábrica espertalhona. 

Deixei meu carro na recepção pela manhã e pouco tempo depois recebi uma mensagem: "Vimos que seu carro precisa de troca das pastilhas de freio". Como a foto veio junto e eu conheço a seriedade da empresa, não havia motivos para duvidar do aviso. Elas realmente estavam desgastadas. Valor do serviço: cerca de R$ 700. Achei estranho, primeiro porque o carro tem apenas um ano e meio e, segundo, porque sou um motorista cuidadoso. Raramente dou freadas bruscas ou abuso dos pedais.

Questionei um especialista e ele me explicou que, no modelo do meu carro, é normal que as pastilhas de freio gastem rapidamente. "Muitas vezes até antes das tuas". Foi aí que me caiu a ficha: revisão grátis, uma pivica. O conceito de obsolescência programada é antigo. Significa projetar o tempo de vida de uma peça ou de um mecanismo para, assim, obrigar o consumidor a investir na troca. No caso, podemos chamar de "armadilha". Ninguém me convence de que uma montadora do tamanho da que fabricou o meu carro não consegue, com o mesmo esforço, entregar uma peça de melhor qualidade.

Sou a favor da economia de mercado e entendo que as empresas precisam vender. Mas precisam, acima disso, de transparência e de lealdade com seus consumidores. Quando esse tipo de malandragem acontece, me sinto enganado, porque ninguém me avisou que a revisão era grátis, mas que eu teria de trocar as pastilhas antes de pagar a última prestação. Bem que eu deveria ter desconfiado. Não existe almoço grátis. Nem revisão de carro.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 19 de julho de 2023


Piá atrapalhado

Na minha infância, criança mexia no fogão, criança lavava a louça, criança varria o pátio, criança embarcava sozinha em ônibus, criança ia à escola desacompanhada e criança fazia o mercadinho. Nenhum adulto nos poupava da divisão das responsabilidades.

Eu vinha a ser o encarregado das aquisições de última hora no armazém do seu Alencar, na esquina da Rua Guaporé com a Lageado, no bairro Petrópolis, a duas quadras incompletas de casa. Pela pressa de me livrar da tarefa, não anotava o que minha mãe queria. Falhava em decorar os itens de reforço da geladeira e da despensa.

Não foram poucas as vezes em que ela solicitava pêssego e eu aparecia com nectarina - "olho da cara" -, em que ela esperava por alface e eu chegava com rúcula - "o dobro do preço". Devido a minha confusão costumeira, em vez de colher agradecimentos, ainda ganhava reprimendas.

- Assim teremos que vender a casa para pagar a caderneta no fim do mês - os pais me assustavam.

As vendas se baseavam no fiado de palavras, não pagávamos com dinheiro no ato. Anotavam-se as compras eventuais para acertar no momento do recebimento do salário. O fiado era o Pix na época.

Os pedidos formavam vizinhanças em minha cabeça, com os jardins colados, sem as aparas de muros e cercas. Num finzinho de tarde, parei novamente na frente do balcão de madeira com a missão de buscar o pão e a sobremesa, já que tínhamos visita.

Ficava na ponta dos pés para ver e ser visto. A balconista me encarava com o seu silêncio tenso enquanto eu resgatava, dos remotos ecos da montanha da memória, a encomenda materna.

Lembrei-me do pão de meio quilo. Mas, e o doce? Qual era o doce? Recordava que havia merengue na receita, mas não surgia o nome. Nem existia uma vitrine para descobrir pela aparência o produto esquecido.

Na ânsia de resolver logo, pressionado pelos cochichos e respirações sôfregas da fila aumentando atrás de mim, falei alto: - Me dá um bocejo?

A moça, intrigada, rebateu a esquisitice: - Bocejo, meu filho?

As pessoas só usavam "meu filho" em momentos de apuro, de socorro. Seguravam imediatamente o cliente aflito no colo da linguagem. A freguesia começou a rir. Mas rir ajudando, rir me amparando, rir tentando decifrar o enigma. Criança tem os seus descontos de conduta.

- Não seria sonho? - Não, não, não!

- Não seria papo de anjo? - Não, não, não!

Já estava determinado a apanhar qualquer coisa e sair correndo dali. Já estava com saudade dos meus embaraços com nectarina e rúcula.

Dez minutos depois, seu Alencar, o dono do estabelecimento, preocupado em dispersar a multidão, gritou do fundo dos corredores:

- A dona Maria sempre leva suspiro. - Sim, sim, sim: suspiro! - eu concordei.

Fiquei conhecido como o piá que comprava bocejos no armazém. O apelido foi meu pesadelo até a adolescência.

CARPINEJAR