quarta-feira, 19 de julho de 2023


19 DE JULHO DE 2023
DÍVIDA DE R 45 MILHÕES

Instituto de Cardiologia pode cortar IPE e estuda demissões

Hospital opera no vermelho desde outubro do ano passado, e direção pretende contratar gestão e consultoria especializadas

Os atrasos nos pagamentos de salários no Instituto de Cardiologia (IC) são parte de uma crise financeira que acumula R$ 45 milhões em dívidas. A informação foi confirmada a ZH pela Fundação Universidade de Cardiologia (FUC), que administra a instituição localizada em Porto Alegre.

Para conter o prejuízo, a gestão pode deixar de atender pelo IPE Saúde já em agosto. Além disso, a demissão de funcionários é vista como necessária para equilibrar as contas - atualmente, a instituição tem cerca de 1,4 mil colaboradores. A direção do IC diz que contratará uma gestão hospitalar e uma consultoria para enfrentar a crise.

No último dia 14, após iniciarem uma greve por atraso nos salários, os funcionários do IC decidiram suspender a paralisação. A decisão foi tomada depois que a direção quitou os salários atrasados e assinou um acordo com o Sindisaúde. Além do atraso nos salários, o instituto deve depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) dos trabalhadores e há irregularidades no pagamento de férias, alega o sindicato.

- Temos colegas sem dinheiro para passagem, para gasolina, para as compras do mês. É um monte de situações que estão nos fazendo passar. O pessoal está muito abalado. Nós lidamos com vidas: temos que ter nosso psicológico bom para poder atender. Os pacientes não têm culpa de nada - desabafa Simone Podlasinski, técnica de enfermagem do IC e que esteve à frente da mobilização dos funcionários.

Relevância

A preocupação não é apenas da administração e de funcionários: o Instituto de Cardiologia foi o responsável por quatro em cada 10 cirurgias cardíacas feitas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 2022, no Estado. Esse número coloca o IC como um dos principais centros de referência na área no RS. Também é pelo SUS a maior parte dos atendimentos no local: 70% dos acolhimentos. Outros 17% são pacientes do IPE Saúde e o restante tem origem nos convênios particulares.

O custo mensal do centro varia entre R$ 16 milhões e R$ 18 milhões, e é superior ao que a instituição recebe do poder público e de convênios: o IPE destina, em média, R$ 1,6 milhão por mês ao IC, já a prefeitura de Porto Alegre - gestora dos valores do SUS na Capital - repassa por volta de R$ 5,7 milhões mensais. A quantidade insuficiente de recursos faz o déficit operacional chegar a R$ 5 milhões no mês, conforme Jorge Auzani, cardiologista e diretor-tesoureiro da instituição.

Empecilho

Auzani comenta que a verba federal repassada para o custeio dos procedimentos baseada na tabela do SUS é o principal empecilho para a saúde financeira do hospital.

- Recebemos R$ 60 para cada R$ 100 que gastamos para atender um paciente do SUS. Houve um tempo em que as órteses e próteses, marca-passos, stents, davam margem (lucro) para o hospital, o que acabava compensando o déficit nas outras áreas. Agora, isso causa um déficit operacional - explica.

Esse contexto, segundo Auzani, ocorre por conta da portaria 3.693 do Ministério da Saúde, de dezembro de 2021, que entrou em vigor em junho de 2022. A norma federal alterou os repasses para o pagamento de órteses, próteses e materiais especiais utilizados em procedimentos cirúrgicos cardiológicos. Somado a isso, por conta da demanda de pacientes, a direção alega que o hospital faz mais atendimentos do que a quantidade acordada com gestores públicos, o que também aumenta o prejuízo financeiro.

- Isso acontece sistematicamente, ou seja, no final do mês ou do trimestre, nós não recebemos por tudo. Desde outubro do ano passado começamos a operar no vermelho, e a crise foi se agravando - completa Auzani.

VINICIUS COIMBRA

19 DE JULHO DE 2023
MÁRIO CORSO

Existem pessoas que têm dificuldade em aceitar seu lugar. Querem atenção até quando a outra pessoa está imersa na "Meditação Profunda Ativa" ao celular. Esta é uma nova técnica de esvaziar o cérebro e encontrar-se com o nada abissal. Para tanto, usa-se o Instagram, o TikTok, o Twitter ou outra rede social para chegar ao que se chama "Coma do Cérebro Desperto".

Este exercício mental não precisa ser programado. O sujeito vai mexendo no celular ao acaso e, sem dar-se conta, ultrapassa o portal da consciência, despertando horas depois. Neste lapso consegue zero aproveitamento cerebral. Acorda não sabendo bem onde está, nem que dia seria, nem mesmo o que deveria ter feito quando foi meditar.

O problema da técnica são as pessoas próximas, que por não entenderem o objetivo, interrompem o meditador. Estas, geralmente parentes, buscam atenção para falar de si, dos filhos, do relacionamento, enfim, aquele egoísmo de quem se acha mais importante do que o celular.

A pessoa no celular pode estar participando de um coletivo - onde estão tentando salvar o mundo, o cosmos e tudo mais -, e os intrometidos avisando que já estão todos na mesa do almoço.

Essas pessoas que interrompem a meditação não dão valor para quem está se educando, se informando. Absorvendo as coisas práticas imprescindíveis, como dicas de fazer churrasco, como desentupir a pia com bicarbonato, como fazer remédio caseiro para fungos na unhas, ou ainda, como despertar da conspiração planetária que nos fez acreditar que a terra é redonda.

É necessário que as pessoas comuns entendam o valor deste momento de introspecção, que desincha o ego e permite a entrega para a nadificação do espírito. Essas desavisadas precisam assimilar que não têm o direito de intrometer-se neste momento sagrado de embaralhamento cósmico, no qual todos os assuntos aleatórios são assuntos importantes.

Sem falar que o celular é que realmente acompanha uma pessoa com fidelidade. Pergunto aos céticos: você está ao lado dela no momento de evacuar? Nas noites de insônia? No Uber?

De qualquer forma, se vocâ realmente precisa contatar um usuário profissional de meditação ao celular, tenha paciência e pense nas férias. Talvez lá haja chance. Longe do trabalho, da família e dos compromissos, estará a sós com eles dois - o meditador e o seu celular. Vai que aí sobre um tempo para as suas mundanidades.

MÁRIO CORSO

Lacração e "vergonha alheia"

Um dos reflexos mais tristes da escalada da radicalização, da agressividade e da "lacração" no Brasil é o hábito cada vez mais comum de hostilizar pessoas públicas aos gritos e palavrões sem qualquer sinal de pudor, seja onde for. Triste e vergonhoso, falta de educação mesmo, não tem outra definição para isso.

O episódio envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, no Aeroporto Internacional de Roma, na Itália, é só mais um entre tantos casos a lamentar.

Os ataques a personalidades - em especial políticos, juízes e artistas - já atingiram gente como Gilberto Gil, em um jogo na Copa do Mundo do Catar, Ciro Gomes (PDT) no aeroporto de Miami, nos Estados Unidos, Regina Duarte em um teatro de São Paulo, Rodrigo Maia (PSDB) em um resort na Bahia e Chico Buarque em um restaurante no Rio de Janeiro.

Repare que a lista inclui políticos de diferentes partidos e artistas com posições ideológicas bem distintas e vem se ampliando nos últimos anos. Não é só a extrema direita que agride, embora a turma da esquerda goste de pensar assim.

É curioso como quem ataca, em geral, acha que sair falando os maiores impropérios para o outro é um "direito" e ainda se orgulha de agir dessa forma, inclusive diante de crianças e idosos - coisa que, no passado não muito distante, causaria desconforto em qualquer pessoa minimamente civilizada e enrubesceria nossos bisavós.

Note bem: se o(a) agressor(a) se identifica com a direita, em algum momento, vai usar a "liberdade de expressão" para defender o indefensável, como se ofender e caluniar estivessem contemplados nesse conceito tão caro à democracia. Se for de esquerda, o indivíduo vai argumentar, do alto de uma superioridade moral autoproclamada, que não se trata de ataque, mas de "luta contra o fascismo".

Razões para críticas sempre existiram e seguirão existindo, de todos os lados. Pessoas públicas sabem que há o ônus e o bônus de assumirem essa condição. É natural que sejam criticadas, questionadas, fiscalizadas de perto e, se for o caso, processadas. Mas continuo achando que nada justifica a selvageria.

INFORME ESPECIAL 


No Pronampe

Para ter ideia da importância do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), praticamente metade dos lojistas de Porto Alegre pegou empréstimo. Deles, 35% pretendem prorrogá-lo e - o mais alarmante - 42% têm risco de fechar o negócio caso não consigam ampliar o parcelamento. A pesquisa foi feita pelo Sindicato dos Lojistas de Porto Alegre (Sindilojas POA) com a coluna.

A lei que autoriza os bancos a ampliarem o prazo foi aprovada em abril. Demorou, mas já houve a alteração necessária na regra do Fundo de Garantia de Operação (FGO), administrado pelo Banco do Brasil. À coluna, a instituição informou que os empresários podem buscar os agentes financeiros para renegociar, mas eles não estão conseguindo. Banco que aplica políticas públicas e o que mais empresta pelo Pronampe, a Caixa Econômica Federal foi questionada sobre a situação, mas não retornou até o fechamento desta edição.

O Pronampe foi criado no auge da pandemia para dar sobrevida a pequenos negócios. O dinheiro se esgotava rapidamente. Com Selic a 2%, era um juro baixíssimo, mas subiu nas novas edições, e empreendedores não conseguem pagar. Dos comerciantes da Capital, 82% tomou para capital de giro, ou seja, para manter a operação diária do negócio.

ENTREVISTA ARCIONE PIVA Presidente do Sindilojas Porto Alegre

Como não fechar enquanto não consegue prorrogar o empréstimo?

É a pergunta de US$ 1 milhão. Quem cresce o faturamento, ameniza o impacto, mas é difícil. O varejo passa por transformação, com concorrência de sites internacionais e e-commerce interno. A grande maioria que tomou Pronampe é loja física. Temos tentado qualificar os empreendedores para aumentar venda, pois é o caminho no momento. Por outro lado, fazemos pressão nas instituições financeiras para que baixem juro. Não é fácil. Temos dificuldade de chegar nas pessoas que tomam a decisão, na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil.

Qual a dificuldade com os bancos?

Os limites de crédito são vinculados ao faturamento. Então, se a empresa não faturou mais, não consegue ampliar parcelas porque tem mais juro, aumenta o valor da dívida e ultrapassa o limite do Pronampe. É a dificuldade dos bancos, além de não fazerem muita questão, óbvio. O fundo garantidor só garante até R$ 150 mil. Enquanto tentam jogar parcelas para frente, metade dos lojistas está de olho em buscar mais recursos do Pronampe. Presidente do Sindilojas, Arcione Piva, falou ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha.

GIANE GUERRA 

terça-feira, 18 de julho de 2023


18 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

As pessoas não são deficientes, o mundo que é deficiente para elas. O mundo não está preparado para as diferenças e segue um padrão de comportamento tiranicamente padronizado.

Uma vida nasce com exigências particulares e não existe nada adequado para a sua sobrevivência, para o seu crescimento, para a sua socialização.

Não há ao redor facilidades, mas adversidades, obstáculos, entraves. As paredes dos hábitos e das convenções emparedam qualquer sensibilidade singular a partir da exclusão e do bullying.

Os pais com filhos portadores de doenças raras são inventores do cotidiano, obrigados a criar tudo para proteger aquela nova existência. Desconheço amor semelhante.

É um big bang da resiliência.

Os pais têm que inventar cadeira para o seu filho.

Têm que inventar mesa para o seu filho.

Têm que inventar roupas para o seu filho.

Têm que inventar sapatos para o seu filho.

Têm que inventar comida para o seu filho.

Têm que inventar um quarto, um banheiro para o seu filho.

Têm que inventar creche para o seu filho.

Têm que inventar parque para o seu filho.

Têm que inventar escola para o seu filho.

Têm que inventar rampas para o seu filho.

Têm que inventar um idioma para o seu filho.

Têm que inventar uma turma de amigos para o seu filho.

Têm que inventar pais compreensivos dos amigos de seu filho.

Têm que inventar uma naturalidade familiar para o seu filho.

Têm que inventar toda uma sociedade para o seu filho.

Revivem os primeiros dias de um homem na Terra, atritando pedras para acender o fogo do coração. É como se não houvesse a admissão de especificidades.

É como se pudesse existir uma cura impossível, uma cura ideológica, feita da ideia de que se deve ser igual aos outros, o que é uma inverdade tanto biológica quanto espiritual. Sofrem pelo privilégio de uma genética genérica, tendo que explicar que restrições não são aberrações do comportamento.

Combatem a ditadura da simetria, da beleza helênica, do corpo sem vazão de temperamento. Descobrem sutilezas da motricidade, detalhes da esperança, risos por trás do esforço.

Não gosto da expressão "doença rara". Porque destaca a doença. A pessoa não é a doença. Assim somos condicionados a enxergar unicamente o desvio da aparência, e caímos no preconceito, na mendicância da comiseração.

A saúde desse indivíduo que é rara. Porque ele sobressai à finitude provisória de um diagnóstico. Supera limitações para encontrar a plenitude do afeto. Não tenho pena dessas mães e desses pais, pelo contrário, transbordo de admiração...

São lindos. São esculpidos para as soluções. São aliados da evolução. Alargaram o nosso entendimento da diversidade. Não geraram apenas uma criança, e sim um universo inteiro para acolhê-la.

CARPINEJAR

18 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

DESARMANDO FACÇÕES

O combate das forças de segurança às facções criminosas requer atuação em várias frentes. Uma delas é fechar o cerco sobre o poder de fogo desses grupos. Chama atenção o dado que mostra o crescimento da apreensão de armas no primeiro trimestre por parte do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) da Polícia Civil gaúcha. As operações do órgão especializado na repressão ao tráfico de drogas contabilizaram 240 armamentos tomados de bandidos de janeiro a junho, uma alta de 42% sobre o mesmo período de 2022.

Note-se que não são quaisquer armas. É grande a quantidade de fuzis e pistolas de alto calibre apreendidos, o que mostra a busca destes grupos por aumentar o poderio, tanto para eventuais confrontos com as polícias, quanto para os enfrentamentos com grupos rivais. É importante que as autoridades, a partir de um trabalho meticuloso de investigação, apoiado por técnicas de inteligência, descubram e coloquem as mãos neste armamento, impedindo que seja utilizado para os fins para os quais foi obtido.

Desarmar as facções significa ter maiores possibilidades de os índices de criminalidade e de homicídios reduzirem-se. As chances de assassinatos entre as quadrilhas adversárias que disputam pontos de tráfico diminuem, e também o risco de a violência transbordar e atingir inocentes, o que não é incomum na guerra entre facções. As comunidades que esses grupos tentam controlar, da mesma forma, podem viver menos amedrontadas com os confrontos.

Em reportagem publicada na superedição de Zero Hora, o delegado Carlos Wendt, diretor do Denarc, sublinha que, neste ano, as apreensões de armas têm características particulares. Em vez dos pontos de comercialização de drogas, as ações têm ocorrido em locais onde estes materiais de alto poder de fogo estavam sendo armazenados, como dois sítios, um em Gravataí e outro em Glorinha, municípios da região metropolitana de Porto Alegre. Outra operação ocorreu na periferia de Rivera, cidade uruguaia fronteiriça, junto à brasileira Sant?Ana do Livramento. A ofensiva contou com a colaboração de autoridades do país vizinho.

A apreensão de armas é, portanto, uma parte relevante da ofensiva para enfraquecer esses grupos criminosos que agem no Estado. Mas não é o suficiente. Ao lado desse trabalho bem-sucedido do Denarc, é preciso atacar as facções pelas demais frentes. Além da óbvia prisão dos líderes, é essencial sufocar financeiramente as quadrilhas, tomando capitais, bens e negócios usados na lavagem de dinheiro. Descapitalizar os criminosos implica diminuir a capacidade de conseguirem adquirir novos arsenais.

Ao mesmo tempo, há muito bate-se na tecla de que seria necessário reforçar o controle de fronteiras para diminuir a entrada de armas ilegais de outros países, como Uruguai, Argentina e Paraguai. Esta é uma tarefa federal. Internamente, também são aguardadas medidas para impedir criminosos de comprar armas de forma legal, como se fossem colecionadores, atiradores esportivos e caçadores (CACs).


18 DE JULHO DE 2023
+ ECONOMIA

Inovação em saneamento

A startup Augen, fundada em 2018, em Rio Grande, foi criada com a proposta de possibilitar que infraestruturas de tratamento de água, esgoto e poços artesianos com décadas de uso sejam inseridas na indústria 4.0 por meio de inovação e tecnologia.

A ideia, baseada em IoT (internet das coisas), chamou a atenção do Badesul. A agência de fomento estadual, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, é investidor estratégico do Fundo GovTech, gerido pela Cedro Capital e KPTL, que indicou a empresa para entrar no portfólio de mais de 50 investidas da gestora.

O resultado desta aproximação é um investimento inicial de R$ 4 milhões na companhia, o primeiro do Fundo GovTech, que tem como investidores as empresas Multilaser e Positivo, e as agências de desenvolvimento regionais Agerio e Badesul, com planos de aplicar em cerca de 30 GovTechs nos próximos anos.

Como destacam seus sócios, a Augen se fortalece a partir da complementaridade da experiência profissional de cada fundador. A companhia, sediada no Parque Tecnológico da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), tem seu foco na transformação digital do setor de saneamento, atuando de ponta a ponta e fornecendo soluções para tratamento, produção e distribuição de água.

Então professores da instituição, os engenheiros químicos Fabricio Butierres Santana e Cesar Augusto da Rosa se uniram ao engenheiro mecânico Moisés Fernandes Borges, com longa carreira no setor privado. Santana e Rosa já atuavam há anos com saneamento, e com a Augen foram contratados pela Corsan para um projeto especial de pesquisa e desenvolvimento com o objetivo de promover eficiência nas estações de tratamento de água e poços artesianos da companhia. Segundo Santana, a ideia é alocar o novo aporte na estrutura comercial e no planejamento financeiro da oferta dos produtos.

- Queremos migrar de um modelo de comercialização de hardware e instalações para um modelo de oferta de infraestrutura como serviço. É um processo complexo, que demanda cuidados e que exige estar lado a lado com os clientes - detalha.

Segundo os sócios explicam, no Brasil, boa parte da água é oriunda de poços subterrâneos, e a empresa criou o que chamam de "Poço 4.0", com análise, tratamento e gestão da produção de forma digital, com análise profunda de dados. Após a instalação dessa camada digital, observa-se uma redução de 30% a 45% no uso de produtos químicos e aumento do controle de qualidade desses equipamentos.

Ainda de acordo com a empresa, atualmente apenas 0,27% de toda a água que sai das torneiras no país vem de um processo digitalizado. Com o Marco Legal do Saneamento, aprovado em julho de 2020, a empresa espera que a oferta cresça, assim como a qualidade do serviço terá de aumentar.

- Queremos ser o braço digital do marco legal - resume Santana.

ANDERSON AIRES INTERINO

18 DE JULHO DE 2023
PRIVATIZAÇÃO

TCE começa a julgar os processos da Corsan

Começam nesta terça-feira, no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), os julgamentos que podem definir o futuro da privatização da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). Dois processos relacionados ao tema estão pautados para a sessão da Primeira Câmara, marcada para as 14h de hoje.

Um dos processos foi instaurado em 2021 para averiguar os detalhes da desestatização e levou a uma medida cautelar que impedia a conclusão da venda. Essa medida foi derrubada na semana passada pelo presidente do TCE, Alexandre Postal, o que permitiu a assinatura do contrato com o consórcio Aegea, que arrematou a estatal em leilão em dezembro do ano passado.

Outro processo que está na pauta de hoje analisa o valor de venda da Corsan, cujos documentos ainda estão sob sigilo.

A Primeira Câmara é formada por três conselheiros - Ana Moraes, Estilac Xavier e Renato Azeredo. Na semana passada, Xavier chamou a decisão de Postal de "precaríssima", enquanto Ana afirmou que o ato do presidente foi "dependente e parcial".

O Ministério Público de Contas (MPC) havia recomendado a manutenção da cautelar e, em caso de análise de mérito, a transformação da decisão em definitiva - o que teria como efeito a anulação do leilão e dos atos subsequentes. Já a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) deve solicitar aos integrantes da Primeira Câmara que declinem da competência para analisar o caso e remetam a decisão ao plenário da Corte.

Pleno

Já amanhã, o Tribunal Pleno decidirá se confirma a decisão de Postal. Conforme o regimento interno, a decisão do presidente da Corte precisa ser referendada pelo pleno para não perder os efeitos.

A tendência é de que a maioria dos conselheiros acompanhe o entendimento de Postal. Se isso não ocorrer, entretanto, o contrato com a Aegea será invalidado.


18 DE JULHO DE 2023
POLÍTICA +

Ouça os cientistas, presidente

Está nas mãos do presidente Lula sancionar ou vetar o projeto aprovado na Câmara e no Senado que autoriza a prescrição da ozonioterapia por diferentes profissionais de nível superior da área da saúde. O apelo que se faz a Lula é: por favor, ouça os cientistas antes de transformar em lei um projeto sobre medicamento de eficácia tão duvidosa.

Apelo mais direto foi feito nesta segunda-feira, em artigo no jornal O Globo, pela bióloga Natália Pasternak, com o título "Veta o ozônio, Lula". No texto, Natália lembra que a Anvisa somente autoriza a ozonioterapia para fins odontológicos e estéticos, mas os "vendedores da terapia oferecem ozônio para condições que vão de Covid-19 à depressão e câncer".

O projeto aprovado pelo Senado é um substitutivo ao texto que passou pela Câmara, relatado pelo deputado gaúcho Giovani Cherini (PL). Em suas redes, Cherini dá como favas contadas que Lula vai sancionar a lei e trata como uma vitória das "práticas integrativas complementares", como são a aromaterapia, a constelação familiar e a hipnoterapia, entre outras.

Os defensores da ozonioterapia afirmam que ela auxilia no combate à dor crônica e aumenta a resposta do sistema imunológico a doenças infecciosas. Na pandemia, o ozônio retal foi usado em alguns Estados, sobretudo em Santa Catarina, no tratamento da covid-19.

O ozônio, lembra Natália Pasternak, é um gás tóxico e corrosivo, com propriedades germicidas. É usado como desinfetante de ambientes e purificador de água. De maneira controlada e regulamentada, diz a cientista, estas propriedades podem ser utilizadas para tratamentos tópicos de dentista (para limpar uma cárie, por exemplo) e de pele.

"Presidente Lula, foi bonita a festa das medalhas do Mérito Científico com a faixa ?a ciência voltou?. Mas, depois do bolo e do refrigerante, é preciso mostrar que ela voltou para ficar", conclui Natália.

ROSANE DE OLIVEIRA

Presente grego

Todo dia tem alguém de aniversário. Eu mesmo vou passar por isso no próximo mês. Mas já vou avisando aos amigos que porventura se lembrarem da data ou forem alertados por algum algoritmo intrometido:

- Por favor, não me mandem presentes por entregador! Vade retro, vigaristas! Não aceito, não sou a pessoa contemplada, não uso cartão bancário, sequer costumo fazer aniversário. Não vou cair nesse golpe manjado!

Mas poderia ter caído, como muitos vêm caindo em vários Estados brasileiros, especialmente alguns homens e mulheres que já fizeram muitos aniversários na vida, como este cronista cada vez mais vacinado de informações e de leituras. O golpe do presente é do tempo da Idade do Bronze.

Mais exatamente, pelo que se conhece, do ano 1.300 antes de Cristo.

Segundo o poeta Homero, uma tal Helena, rainha de Esparta e considerada a mulher mais bela da Terra na sua época, teria trocado umas mensagens de WhatsApp com o príncipe encantado Páris, de Troia - e os dois acabaram fugindo juntos. O rei espartano Menelau ficou furioso e mandou seu exército destruir a cidade lendária e recuperar a rainha. 

O cerco durou 10 anos e, como os troianos não se rendiam, o guerreiro Ulisses teve uma big idea, como se dizia no mundo da publicidade: os gregos construíram um gigantesco cavalo de madeira, simularam a retirada e deixaram o trambolho no portão dos espartanos como um presente de paz.

Deu no que deu: iludidos, os presenteados pagaram o motoboy com o cartão de crédito, levaram o cavalo cheio de guerreiros inimigos para dentro da cidade e acabaram perdendo a guerra, a poupança, a autoestima e até a rainha apaixonada.

Presentes gregos, senhoras e senhores. Não aceitem. Desconfiem de tudo. Não existe bilhete premiado, não é verdade que seu filho quebrou o telefone e está trocando de número, o banco não liga para ninguém (em todos os sentidos), não existe almoço grátis, não beba com desconhecidos para não cair no Boa Noite Cinderela, empréstimo vantajoso é cilada, seu parente que telefonou de madrugada não foi sequestrado, recuse ajuda de estranhos no caixa eletrônico, não se deixe filmar na hora de digitar a senha, evite passar informações pessoais, mesmo que o sujeito do outro lado da linha demonstre saber tudo sobre você.

Não vacile, não dê presente aos golpistas que proliferam por aí, na vida real e no mundo digital. Pé-atrás, gente, e feliz aniversário para todos nós.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 17 de julho de 2023


17 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Ciclone veio para ficar

Lembro que, na infância, minha mãe queria porque queria que eu usasse galochas. Falei para ela, numa bravata, que jamais teria necessidade de calçá-las. Retiro o que eu disse. Viramos um triste banhado.

Impossível sair de tênis ou de sapato baixo. As meias molhadas congelam o corpo em minutos. A água é um degelo das nuvens. Sinto saudade de quando a aparência no frio era o maior de nossos problemas.

Ponho as galochas pretas de luto. Infelizmente, o ciclone veio para ficar em nossa vida. Até entendo o motivo de ter gostado dos gaúchos, somos excelentes anfitriões. Não desta vez. Não será jamais acolhido como a bela e admirável neve.

Ele sempre existiu, mas mudou de intensidade e de nome. Antes, suas aparições, conhecidas como vendavais, não causavam tantas perdas e não eram ostentadas com igual vigilância meteorológica. Hoje, o ciclone chama atenção semanalmente com toda a seriedade científica.

Filho do furacão Catarina, gigante ciclope com seu olho solitário, não sei se ele se apaixonou pela nossa chuva. Algo aconteceu em seu coração diabólico, para estranho exibicionismo de força e poder. Está mostrando seus dotes físicos para algum alvo de sua idealização.

Realiza aqui a mais descarada insanidade, levando os telhados, cortando a nossa energia elétrica. Aulas são canceladas, quase 1 milhão de pessoas padecem sem luz, comércio entra em estado de alerta dispensando seus funcionários, ventos gelados azucrinam as janelas a 120 km/h.

Era o que faltava. Assim como o tsunami acontece na Indonésia e o terremoto, no México, o Rio Grande do Sul passa a ser conhecido como terra do ciclone extratropical. Não merecíamos tal estigma. Tem estragado o nosso inverno, despertado pânico nos turistas, alterado abruptamente as paisagens naturais, irritado os rios e lagos.

Você trabalha com medo, você sofre por receio da situação dos parentes no interior, você cancela qualquer evento a céu aberto. Esqueça os restaurantes, estarão no escuro sem a possibilidade de receber fregueses. Esqueça a esperança de estacionar na rua. Esqueça os passeios. Esqueça a rotina.

O caso é mais grave do que não poder sair. Envolve milhares de pessoas expulsas de casa, com tudo o que conquistaram ao longo da existência extinto de uma hora para outra, entre móveis e pertences.

O pouco que tinham tornou-se sumariamente nada. São Leopoldo, por exemplo, não conseguiu nem reacomodar as famílias de desabrigados que lotaram o ginásio Celso Morbach em 16 de junho, quando a chuva alcançou volume histórico de mais de 246 milímetros em menos de 18 horas, e agora já arca com novas vítimas de alagamento.

O ciclone atrai o que tem de pior nas nossas calamidades, reúne todas as tragédias num só dia: a enchente no chão e a devastação nos ares. Estamos em obras. Permanentemente em obras.

CARPINEJAR

17 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

Para não se enrolar outra vez

Uma das grandes aflições dos brasileiros hoje é a dificuldade para honrar compromissos financeiros. Instituições especializadas apontam que mais de 70 milhões de pessoas estão inadimplentes no país. Os números são crescentes. O tema entrou na campanha eleitoral e uma das promessas do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva foi lançar um programa que ajudasse os cidadãos a quitar dívidas e limpar o nome na praça. 

Em janeiro, o chamado Desenrola foi anunciado como uma prioridade, mas uma série de entraves atrasou a iniciativa, que enfim se inicia hoje. Ao mesmo tempo que se deseja sucesso ao plano, deve-se advertir para os riscos de ser apenas um paliativo, com a bola de neve do endividamento voltando a rolar e crescer ao longo do tempo.

O programa tem méritos. Uma das fases que começam nesta segunda promete tirar do cadastro negativo o nome de cerca de 1,5 milhão de pessoas que devem até R$ 100, embora a dívida não seja perdoada. Em tese, podem retornar ao consumo via crédito. A outra é válida para a renegociação de pendências bancárias de quem tem renda mensal de R$ 2,64 mil a R$ 20 mil. As instituições financeiras têm o incentivo de antecipar créditos tributários, limpando os balanços e ganhando nova capacidade para emprestar. A etapa seguinte, focada na população que ganha no máximo dois salários mínimos e tem até R$ 5 mil em contas atrasadas, será operacionalizada apenas em setembro. O governo vai organizar leilões de dívidas, buscando desconto nos débitos. O Tesouro dará garantias para cobrir eventuais inadimplências.

O objetivo do governo é, enquanto ajuda milhões de brasileiros a se livrarem da angústia da inadimplência, permitir que esse contingente volte a consumir e, assim, a economia ganhe um impulso extra pelo mercado interno. Ocorre, no entanto, que as taxas de juros estão em patamares exorbitantes. Mesmo que o Banco Central (BC) inicie em agosto o ciclo de corte da Selic, hoje em 13,75% ao ano, tende a ser em um ritmo moderado nos próximos meses, com pouco impacto nas condições assumidas pelos tomadores. Quem voltar a consumir via crédito corre o risco de acabar com o mesmo dissabor. O ideal, portanto, seria que a decisão de compra fosse consciente e bem calculada, e não movida pelo impulso. O Brasil, infelizmente, é um país com uma população sem uma educação financeira adequada.

Surgem, ao mesmo tempo, informações de que o presidente Lula gostaria de lançar um novo programa para estimular a aquisição de eletrodomésticos da linha branca. Por certo, como ocorreu com a recente iniciativa voltada a alavancar a venda de veículos, com subsídios públicos para baratear o preço ao consumidor. Descontos são um chamariz eficaz, mas outra vez cria-se o perigo de descontrole que desemboque na incapacidade de honrar compromissos.

Fórmulas semelhantes para catapultar o consumo foram usadas no passado. Não geraram repercussões consistentes na economia e contribuíram para déficits fiscais. Resultados mais sustentáveis poderiam ser obtidos se o governo ajudasse com a sinalização de responsabilidade com as contas públicas, para deixar o BC mais confortável para baixar juros e não criar expectativas de maior inflação futura. Sim, há um processo de desinflação em curso, mas muito causado por commodities e alimentos, de maior volatilidade. Preços como os de serviços, mais sensíveis aos juros altos internos, seguem resilientes - 6,12% em 12 meses, enquanto o índice geral do IPCA fechou junho em 3,16% no mesmo recorte temporal.

A relevância e a tempestividade do Desenrola devem ser reconhecidas. Ressalta-se apenas a importância de serem criadas as condições macroeconômicas - inflação controlada, juros em queda e avanço sustentado da atividade - para que não represente somente um alívio fugaz. 


17 DE JULHO DE 2023
+ ECONOMIA

Auxiliadora mira crescer em SC e SP

Tendo completado 92 anos neste mês, a Auxiliadora Predial tem hoje 60 lojas entre próprias e franquias, espalhadas por Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Até o final de 2023, deseja abrir mais 15 e finalizar o ano com 75 unidades, mirando principalmente os mercados catarinense e paulista, apostando no seu programa de franquias. Até 2028, a meta é ter cerca de 400 lojas no país.

JOHANNES BAHRKE Porta-voz da Comissão Europeia para Economia Digital, Pesquisa e Inovação

Como você explicaria brevemente o DSA e o DMA?

São legislações sobre as plataformas digitais. Uma sobre a natureza dos conteúdos compartilhados nas redes, ilegais ou que causem danos a menores, por exemplo, o Digital Services Act (DSA), e outra sobre o poder de mercado das empresas, para proteger a competição, o Digital Market Act (DMA). São regulamentações diferentes, mas com um objetivo comum, tornar o espaço online mais justo e seguro para os cidadãos.

Quais razões leveram o Parlamento Europeu a aprovar essas legislações?

A necessidade de regulamentação dos serviços digitais já vinha aumentando, mas com a pandemia observamos crescimento exponencial do compartilhamento de desinformação e de conteúdos criminosos. As pessoas também começaram a ficar mais tempo online, e mesmo usuários que antes não tinham presença digital tão significativa passaram a ter, então esse foi mais um fator que nos ajudou a perceber que as regulações são importantes para a proteção de todos.

Se as plataformas não seguirem as obrigações estabelecidadas, que tipos de punições estão previstas?

Há uma lista com essas obrigações, disponibilizada às empresas, e podemos solicitar documentações e dados para análises, e eventualmente, se for necessário, suspender os serviços temporariamente. Podem ocorrer pedidos para tomada de alguma medida, ou ainda aplicação de multas. Contudo, a ideia é sempre trabalhar junto às empresas. As pessoas gostam de usar as plataformas, só queremos que elas estejam seguras fazendo isso.

Houve pressão das empresas contra a aprovação das legislações?

Sempre lidamos com lobby em qualquer legislação, e isso ocorreu novamente. Em determinado ponto, as plataformas perceberam que alguma regulamentação seria criada, e que seria melhor ter apenas uma estrutura jurídica sobre o tema do que ter de lidar com 27 leis diferentes. Como ocorreram muitos casos de desinformação relacionados à saúde durante a pandemia, a pressão começou a recair mais sobre as empresas, o que acabou sendo decisivo.

Como as legislações podem inspirar países que estão em processos semelhantes?

A realidade em cada país é particular, mas a necessidade de equilibrar o direito à expressão com segurança e proteção de outros direitos fundamentais é um desafio a todos países democráticos. É natural legislações importantes se tornarem referências globais, pois, quando uma matéria como essa começa a ser regulada em um lugar, todas as outras regulações e tentativas de regulação nesse âmbito pelo mundo se fortalecem. Em 2022, a União Europeia (UE) adotou legislações para regular o uso de plataformas digitais e redes sociais. Como explica o porta-voz da Comissão Europeia, Johannes Bahrke, o Digital Services Act (Ato de Serviços Digitais, ou DSA) se refere ao conteúdo compartilhado nas plataformas, e o Digital Markets Act (Ato de Mercados Digitais, ou DMA) ao poder de mercado das companhias. À coluna, Bahrke detalha o processo de aprovação, bem como sua importância para países como o Brasil.

RAFAEL VIGNA INTERINO

17 DE JULHO DE 2023
CLAUDIA LAITANO

Vanguarda e retaguarda

Corrigir o passado e domar o futuro: eis duas fixações da nossa época em relação à arte. De um lado, a aflição moral com as imperfeições humanas retratadas nas obras de arte e a preocupação exagerada com a biografia dos artistas. Do outro, infinitas possibilidades de manipulação de conteúdos digitais desestabilizando formas tradicionais de criação e fruição. Vanguarda e retaguarda - no sentido bélico - mobilizam-se nas duas frentes do combate.

Nessa transversal do tempo em que passado e futuro parecem desacomodados, é natural não saber o que pensar (ou sentir) diante de um Harrison Ford rejuvenescido ou de uma Elis Regina trazida à vida para dirigir uma Kombi. Somos um pouco como aquela primeira plateia dos Irmãos Lumière assistindo à chegada de um trem no cinema sem saber se estamos assustados ou maravilhados. Tudo que é sólido vira pixel, e as dúvidas se acumulam. 

Qual o limite para a apropriação de uma voz, de um rosto ou mesmo de um estilo pela inteligência artificial? Como proteger a posteridade de um artista? Devo me chocar com o fato de filhos administrarem a imagem dos pais como administram outras partes do seu legado? Mesmo quando as questões éticas estiverem menos nebulosas, ainda haverá um enorme espaço aberto para o debate estético. O que emociona algumas pessoas vai continuar causando estranhamento, ou mesmo repulsa, em outras. Se você já foi a uma exposição de arte contemporânea sabe bem do que estou falando.

Enquanto isso, no setor das querelas retroativas, multiplicam-se as estratégias para higienizar o passado: livros banidos de bibliotecas, artistas cancelados, obras varridas para baixo do tapete da História ou editadas para excluir conteúdos indesejáveis. Um exemplo recente, banal, mas muito ilustrativo: sem qualquer aviso prévio ao espectador, algumas plataformas de streaming americanas decidiram cortar um pequeno diálogo do filme Operação França (1971) em que um dos personagens faz um comentário racista. O diálogo cortado não é gratuito e ajuda a compor a personalidade do personagem (um policial racista, vejam só), mas isso nem sequer vem ao caso. O problema é imaginar que nenhum livro, filme, peça de teatro ou série de televisão está livre de intervenções desastradas como essa.

A pirueta tecnológica de hoje é o relógio digital de amanhã, mas censura é sempre censura. Disputas em torno de direitos autorais e de imagem me parecem problemas muito mais fáceis de equacionar, em um futuro próximo, do que a milenar tentação de eliminar, a facão, tudo aquilo que nos desagrada.

CLAUDIA LAITANO


17 DE JULHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Uma jornada exemplar de estudos

Aos 27 anos, Carlos Eduardo dos Santos Ramos festeja sua aprovação em Medicina na UFRGS. Apesar da alegria, conta que a ficha ainda não caiu:

- Todos os dias abro o portal do candidato para ver meus documentos homologados.

O caminho até a aprovação foi diferente dos demais colegas. Ele parou de estudar aos nove anos para trabalhar com a mãe, vendendo cafezinho no centro da Capital. Voltou aos cadernos em 2018, quando ouviu sobre um concurso da Brigada Militar. Mas descobriu que não poderia seguir a carreira por conta de uma limitação. O jovem tem visão monocular, classificada como deficiência visual por lei federal em 2021. Mesmo assim, estava decidido a se concentrar nos estudos. Enquanto trabalhava de segurança em eventos, foi conhecendo pessoas, ouvindo histórias e cogitando novas possibilidades.

- Uma noite ouvi as pessoas da festa falando sobre faculdade, estudos, conversando em inglês. Decidi que queria aquilo para mim também - conta ele, que trabalha também em uma operadora de telemarketing.

Morador do bairro Humaitá, na Capital, teve ajuda de muitas pessoas durante os estudos, como a empregadora de sua mãe, que imprimia materiais e apostilas para ele ler em casa. Criou uma rotina com exercícios e aulas online. Prestou vestibular e fez as provas do Enem. A aprovação chegou neste mês.

Não é apenas uma história de superação, mas de como o acesso à informação e à educação é desigual.

- Não sabia ler um edital ou que tinha direito às cotas. Não sabia para que servia o Sisu e o Fies - lembra.

Agora, ele espera ansioso pelo início das aulas, em outubro. Já tem planos de ser cirurgião e atender a comunidade pelo SUS. Pensa em criar projetos sociais e orientar outros jovens que também queiram um novo horizonte.

Colaborou Raissa de Ávila

INFORME ESPECIAL

17 DE JULHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Renda e preço da comida, a conta que não fecha A volta do Trem da Imigração

Relatório elaborado por cinco agências da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado na semana passada apontou aumento da insegurança alimentar moderada e severa no país nos últimos anos. Entre 2014 e 2016, mais de 37 milhões de brasileiros estavam nessas condições. Entre 2020 e 2022, o número passou para 70 milhões. É mais de um terço da população.

Parte importante da explicação para esta piora pode estar nas dificuldades econômicas do Brasil na última década, com reflexos na renda, que tem se mostrado incapaz de acompanhar a alta dos preços da comida, ainda mais acelerada entre 2021 e 2022 por fatores relacionados à pandemia e à guerra na Ucrânia. Entre 2013 e o ano passado, o IPCA, inflação oficial do país, subiu 80%. Mas o acumulado do grupo Alimentação e Bebidas no período foi bem maior, conforme cálculos pedidos pela coluna ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): 112,85%.

Enquanto isso, a renda dos brasileiros recuou em termos reais (ou seja, com a inflação descontada). Em 2013, pelos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, era de R$ 2.774. Ano passado, ficou em R$ 2.659, uma retração de 4,2%. O valor se refere ao ganho médio mensal das pessoas de 14 anos ou mais, com renda oriunda do trabalho. As famílias mais carentes costumam gastar uma parte maior de seus orçamentos com comida. Assim, sentem mais a inflação dos alimentos.

Vale lembrar que insegurança alimentar moderada ocorre quando pessoas enfrentam incertezas sobre a capacidade de obter comida e são forçadas a diminuir, em algum momento, a qualidade e a quantidade que consomem. Por falta de dinheiro, por exemplo. Já a insegurança severa é quando chegam a ficar em algum momento sem comida. É diferente do conceito de fome do relatório, que seria uma situação mais frequente e duradoura de falta de alimento.

A recente acomodação dos preços dos alimentos, com redução de alguns itens, como as carnes, é transitória. O desafio de médio e longo prazos é fazer com que a economia e a renda cresçam em ritmo ao menos equivalente ao do custo para comer e se manter satisfatoriamente nutrido.

Após a primeira edição, ano passado, o passeio do Trem da imigração (fotos) está de volta. Será nos dias 28, 29 e 30 deste mês. O trajeto sobre os trilhos da Ferrovia Tronco Principal Sul apresenta aos passageiros a diversidade histórica e cultural de três cidades do Vale do Taquari.

Os municípios de Colinas e Roca Sales voltam a fazer parte do roteiro. A novidade é a integração da cidade de Muçum. O passeio passa a ter 30 quilômetros e duas horas de duração. Dois mil passageiros são esperados para curtir a proposta de fazer uma viagem de trem enquanto se valoriza a cultura ítalo-germânica. O bilhete do passeio permite acesso à degustação de bebidas e pratos típicos.

O valor do passeio, por pessoa, é de R$129. O retorno aos municípios de partida é por de transporte rodoviário, com o custo de R$24. Bilhetes à venda no site www.tremdaimigracao.com.br. É uma iniciativa da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, com a Associação dos Municípios de Turismo da Região dos Vales.

INFORME ESPECIAL

domingo, 16 de julho de 2023



14/07/2023 - 13h54min
Martha Medeiros

Réquiem ao talento desperdiçado

Ainda me pergunto como é que teria sido minha vida se eu tivesse optado pelas outras duas profissões que me seduziam. Fui uma publicitária que sonhava em ser escritora – bingo! ... Mas outras duas profissões que me seduziam

Se você não fosse veterinário, gostaria de fazer o quê? É manicure, mas queria ser professora de matemática? Escolhas e renúncias. Volta e meia reflito sobre talentos que ficaram sem uso porque oportunidades e acasos nos levaram para outro caminho.

Não que estejamos insatisfeitos, mas aquilo que fazemos para ganhar a vida não esgota nossas aptidões. Você daria um bom caminhoneiro? Uma boa advogada? Um jardineiro? Uma campeã de triatlo? Fui uma publicitária que sonhava em ser escritora – bingo! Mas ainda me pergunto como é que teria sido minha vida se eu tivesse optado pelas outras duas profissões que me seduziam.

Atriz era uma delas. Dar voz ao autor(a), ser por algumas horas a personagem por ele(a) inventada e ainda reconhecer algo de si mesma no papel. Um mix de alta potência, o palco como plataforma de lançamento de três vidas unificadas, ou mais de três. Ser a maestrina de personas variadas. Imagine o alcance existencial disso.

Mesmo quando não há tanta gente envolvida, ainda assim é um trabalho gigante. Assistindo ao monólogo O Pior de Mim, de Maitê Proença, senti o quão fundo se pode ir atuando e não atuando ao mesmo tempo (o fingidor fingindo que é dor a dor que deveras sente). A história é dela, o texto é dela e é ela que se entrega, no palco, a uma plateia de voyeurs, todos flechados pela comoção. Em silêncio, no escuro do teatro, é como se estivéssemos numa sessão de terapia, cada um vasculhando os próprios abismos.

Aliás, é a outra profissão que me fascina: psicoterapeuta. Desconhecidos entram em seu consultório precisando contar o que não contam nem para si mesmos. Buscam absolvição ou confirmação de culpa, mesmo que nem uma coisa nem outra se justifique. Exorcizam seus traumas, analisam suas reações, procuram livrar-se de obsessões e adequar-se ao status quo (ou desconstruí-lo). Imploram por receitas que os ajudem a lidar com o imponderável da vida. Emoção transbordante entre quatro paredes. Posso estar idealizando, mas o terapeuta me parece um privilegiado: além de tratar, ele alimenta-se das narrações de seus pacientes e, através delas, se cura também.

São profissões que mergulham em fantasias, segredos e interrogações alheias, que têm acesso à profunda humanidade de estranhos, recebendo os respingos que ajudam a compreender a similaridade da nossa esquisitice universal.

Porém, nem atriz, nem terapeuta: caí no mundo das letras, onde a troca é igualmente pulsante: quem sou eu e quem é você, o que temos em comum? Também interpreto, crio, escuto, me comovo e ativo gatilhos em desconhecidos. Talvez eu não tenha me afastado tanto assim das minhas outras supostas habilidades. É a mesma vocação: da solidão, extrair multitude.

 Livros

Para onde vão os guarda-chuvas (Dublinense, 544 páginas, R$ 119,90) está sendo considerado o mais celebrado romance do português Afonso Cruz. A obra foi vencedora do prestigiado Prêmio da Sociedade Portuguesa de Autores, como melhor livro de ficção de 2013. Afonso Cruz, nascido em 1971 na Figueira da Foz, é também ilustrador, músico e cineasta e publicou mais de trinta livros, entre romances, teatro, não-ficção, ensaio, álbuns ilustrados, novelas infanto-juvenis e ainda uma enciclopédia inventada, com sete volumes.para onde vão os guarda-chuvas fala de um Oriente ficcional, onde circulam vários personagens fascinantes: o pragmático dono de uma fábrica de tapetes, sua esposa herege, uma mulher que sonha em se casar, um hindu que deseja ser o seu marido, um poeta mudo, uma criança perdida e outra encontrada. Cada um deles carrega características notáveis - uma marca dos romances de Afonso Cruz. Suas trajetórias nos falam de perda, solidão, amor e religiosidade.
É uma narrativa tocante e inventiva, que ultrapassa as diferenças entre Oriente e Ocidente para falar sobre como, onde quer que estejamos, nunca estamos absolutamente sós. Afinal, tudo está entrelaçado como na tapeçaria, onde "o primeiro ponto não está separado do último e, se alguém mexer num deles, mexe inevitavelmente nos outros."
Segundo Isabel Lucas, jornalista e curadora do Prêmio Oceanos, "Para onde vão os guarda-chuvas é o ponto mais alto da capacidade narrativa e da efabulação de Afonso Cruz (...) O que poderia não passar de um exercício de demonstração de sabedoria é um livro cheio de humanidade, muitas vezes brutal, e de um apurado sentido estético. Magnético."
Na apresentação do livro, o consagrado escritor Reginaldo Pujol Filho escreveu: "Mais do que um autor de livros, Cruz muitas vezes nos surge como autor de livros dentro de livros dentro de livros. Isso está em diversas obras suas, de romances a enciclopédias, e, é evidente, está em Para onde vão os guarda-chuvas. É como se ele não se contentasse em escrever apenas um livro por vez, é preciso criar outros."
Lançamentos
• Metodologia PEMD - Planejamento Estratégico de Marketing na Era Digital (DVS Editora, 544 páginas, R$ 99,00), de Nino Carvalho, consultor e professor de atuação internacional, atual Coordenador de Cursos de MBA no IPOG e professor em Portugal e Bélgica, é um guia completo para planejamento estratégico. Trata de casos reais, planejamento, condução e gestão.
• Como investir - Por quem mais entende do assunto (Editora Intrínseca, 432 páginas, R$ 89,90), de David M. Rubenstein, cofundador e copresidente do conselho do Carlyle Group,uma das maiores empresas de private equity do mundo, traz ensinamentos dos maiores nomes do mercado financeiro,como Larry Fink, Ray Dalio, Ron Baron e outros.
• Os Engenheiros do Caos (Vestígio, 192 páginas, R$ 59,90), do ensaísta italiano Giuliano Da Empoli, mostra como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. Para o autor, os engenheiros do caos descobriram que a democracia da era do narcisismo de massa e das redes sociais mexem com as eleições. 

Toda a Segunda Guerra Mundial

Pela sua magnitude, sua duração e impactos em todo o globo, a Segunda Guerra Mundial ainda segue como objeto de pesquisas, visões e revisões, especialmente no que diz com os horrores das batalhas, a morte de mais de 46 milhões de civis e militares e as atrocidades contra judeus, homossexuais, pessoas com deficiência e oposicionistas.
A Segunda Guerra Mundial - A História Completa - Volume I - 1939-1942 (Editora Objetiva, 606 páginas, R$ 119,00, tradução de Renato Marques), de Martin Gilbert, célebre historiador britânico, mostra, em síntese, como a maior guerra já travada alcançou todos os cantos do planeta e apresenta um perspectiva global do conflito, a partir de todos os seus fronts.
Martin Gilbert nasceu em 1936, na Inglaterra e faleceu em fevereiro de 2015. É considerado um dos mais renomados historiadores do Reino Unido e publicou, em vida, mais de oitenta livros, sobretudo relacionados aos temas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto e de Israel. Em 1968 tornou-se biógrafo oficial de Winston Churchill, em 1990 foi agraciado com a Ordem do Império Britânico e nomeado cavaleiro em 1995.
A Segunda Guerra Mundial foi um dos conflitos mais destrutivos da história da humanidade. Durante os 2174 dias transcorridos entre o ataque alemão à Polônia em setembro de 1939, e a rendição do Japão, em agosto de 1945, mais de 46 milhões de soldados e civis morreram. Na obra de Gilbert esses números terríveis ganham rosto, nome e voz. Num trabalho primoroso, o autor combina elementos políticos, militares, diplomáticos e civis, fornecendo uma visão de todo o conflito, a partir dos vários campos de batalha.
Nunca um livro sobre esse tema expôs de modo tão vívido o horror dos campos de batalha, as manobras políticas das principais lideranças mundiais e seus impactos na vida dos indivíduos. As informações de Gilbert impressionam pelo nível de detalhamento e pela excelência da pesquisa. Sem dúvida, uma obra referencial, monumental e definitiva.
Como se sabe, nos anos 1940, o paulatino recrudescimento do nazismo na Europa engendrou uma espiral de atrocidades poucas vezes vista na história. A obra de Gilbert é a primeira em que o destino dos judeus e de muitas outras vítimas do nazismo aparece como parte integrante da narrativa de guerra. Os ecos destes ataques reverberam até hoje.
Com muita habilidade, Gilbert mostra todas as frentes de combate em terra, no mar e no ar, as atividades de resistência, espionagem, inteligência secreta, estratégia e tática. Na narrativa estão trechos de diários, memórias, cartas, mensagens, artigos de jornal e relatos de quem viveu e testemunhou ambos os lados do conflito.
Gilbert mostra a coragem dos soldados, marinheiros e aviadores, a dos guerrilheiros da resistência e a daqueles que, famintos, sem forças e sem armas, foram enviados para a morte. Na narrativa de Gilbert, o horror está por todos os lados. 

A propósito

Martin Gilbert mostra, entrelaçando brilhantemente resumos de estratégia militar com cenas de sofrimento de civis , que se de um lado a guerra mostra o pior do ser humano, mostra igualmente seu melhor. Bravuras impensáveis e formação de extensas redes de solidariedade em prol de vítimas foram a resposta quando as barreiras da decência e da sanidade se romperam com o regime nazista. Num planeta ainda, infelizmente, cheio de conflitos e barbáries e pleno de narrativas contraditórias, vem em boa hora esta obra original e criativa, que já nasceu clássica.

sábado, 15 de julho de 2023

15.jul.2023 às 13h38 - 
EDIÇÃO IMPRESSA - Folha

Relação aberta

Como a poligamia, a monogamia funciona no começo. Parafraseando Churchill: a monogamia é a pior forma de relação, com exceção de todas as outras. A poligamia foi tentada pelos hippies. Funcionava no começo, até que duas pessoas se apaixonavam. As comunidades acabavam assim, com seus membros saindo, de mãos dadas, dois a dois. Passar a vida solteiro, pescando nas águas agitadas dos aplicativos é exaustivo, além de melancólico. E a monogamia?

Como a poligamia, funciona no começo. Um dia, porém, a paixão passa, o desejo cessa, até que numa reunião de pais, enquanto a professora de música explica a importância da ciranda na socialização infantil, a mulher pensa: "Hmmm... Que delícia que seria 'socializar' com o pai do João Souza...". A professora de artes mostra slides do trabalho do grupo cinco sobre as obras da Frida Kahlo e o marido pensa: "Nossa, eu pegava muito a mãe da Marina Goldenberg...".

Não sei se é só na minha bolha, mas tenho visto um monte de casal abrindo a relação. A regra básica é "faz o que você quiser, contanto que eu não fique sabendo". (Tem também a versão masoquista: "faz o que você quiser, desde que você me conte", mas tratemos aqui apenas dos casos não patológicos).

Acompanho com interesse as aventuras e desventuras dos amigos e amigas que experimentam esta forma de, digamos, descriminalização da traição. Infelizmente, não parece estar dando muito certo. A mulher vai comprar pão e o marido pensa: será que foi na padaria mesmo? O marido recebe um WhatsApp e a mulher imagina: será uma possível amante?

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de S.Paulo no dia 16 de julho de 2023, mostra a pintura de uma mulher e um homem sentados em lados opostos de uma cama.

Adams Carvalho

Tem também o problema das cláusulas (vejam o vídeo hilário do Porta dos Fundos, "Regras do relacionamento aberto"). Um amigo terapeuta de casais diz que as sessões de hoje em dia parecem mais uma consulta a um advogado do que a um psicanalista. Pode pular a cerca no próprio município ou só em outro DDD? Pode com alguém que é conhecido dos dois? Quão conhecido? Se seu marido estudou com o Gui Vieira na segunda série, você pode pegar o Gui Vieira? 

Só pode ficar com a pessoa uma vez, senão vira um caso? Mas uma vez só é pouco. Mal dá pra pegar "ritmo de jogo". Vamos estipular que pode três vezes? Mas peraí: três vezes com sexo ou se beijar na boca já conta uma vez? E se transar três vezes no mesmo encontro? Cancela os outros dois? Pra finalizar, a pedra no meio do caminho, o maior espinho nesta possível bela flor: o que fazer com o ciúme? Ah, o ciúme é uma convenção burguesa que vem da ideia de posse e deve ser superado. Bonito. Mas como supera?

A ânsia de criar essa espécie de Inmetro da sacanagem me parece revelar algo sobre o nosso tempo. A exposição nas redes sociais trouxe consigo uma exigência de retitude moral que não abarca as zonas cinzentas, as contradições e paradoxos de cada um. A mesma sanha persecutória que faz com que se cancele celebridades por deslizes mínimos em comentários do Orkut em 2007 recai sobre nós, exigindo uma honestidade de santo. É inatingível.

A vida é complicada, o ser humano é cheio de buracos, nenhuma consciência ficaria bonita se fosse possível expô-la no Instagram, sem filtro. Associado a tal ideal ascético há um excesso de sensibilidade, uma postura "floco de neve" que impede as pessoas de arcarem com as consequências da satisfação dos desejos (a culpa, o medo). Daí, talvez, essa tentativa de fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

Não seria mais simples uma saída "old school"? As pessoas abrem vez por outra a relação —tendo a delicadeza de não contar nada pro outro. Como já disse Jards Macalé: "A mentira, meus amigos, pode ser o maior ato de amor".